Restabelecido o seu quotidiano em família, Alfredo retoma a sua colaboração com a IUAES – International Union of Anthropological and Ethnological Sciences.
Susana mantém a sua posição de professora de Sociologia na Universidade Católica de Lisboa.
Passados trinta dias, a Comissão dos Direitos Humanos informa por escrito que o processo foi aceite e segue os trâmites processuais.
-Para esta primeira fase, são notícias sem dúvida animadoras! – pensa Alfredo.
Corre o ano de 1979.
Passados seis longos meses da entrada do processo em Genebra, marcados por paciência e muita perseverança, chega à caixa de correio de Cascais, uma carta oficial da Comissão.
Expectante, Alfredo abre este correio com o sangue a correr mais rápido dentro das veias.
As notícias recebidas são de natural regozijo.
Nesta comunicação oficial, Alfredo toma conhecimento que, após acirrada disputa jurídica tendo como foco a duas petições contidas no presente processo, as seguintes decisões foram tornadas:
“1- Foi aceite e formalizada a queixa contra a Grã-Bretanha por clara violação dos Direitos Humanos contra o povo Shona em território do grande Zimbabwe – Esta nação ocupante terá que indemnizar a atual Republica do Zimbabwe pelas atrocidade cometidas no passado. A quantificação desta medida será determinada em tempo útil pela Corte vigente.
2-Quanto à suposta implicação e responsabilização da Grã Bretanha no desaparecimento de Donald Stewart Mackenzie, o processo é arquivado por falta de provas.”
Notícias que comportam fortes emoções e produzem algumas reflexões no espírito de Alfredo. Este sente-se naturalmente satisfeito pela incriminação da Grã-Bretanha em relação aos povos sacrificados no Grande Zimbabwe. Cumpria-se assim um dos propósitos de seu avô. Devolver de forma metafórica o Anel da Justiça ao povo Shona.
Quanto ao arquivamento do processo de incriminação pelo seu desaparecimento, Alfredo está naturalmente desapontado e sem chão para se sustentar.
Um tema partilhado com Susana que tenta agora trazer Alfredo para um novo patamar de conformidade. Tarefa que, como ela sabe bem, é deveras complexa de alcançar.
Passados dias de reflexão e algumas noite mal dormidas, surge alguma luz a iluminar o espírito inconformado do jovem antropólogo. Contar esta história para o mundo saber quem foi Donald Mackenzie e como tudo se passou ao longo duma caminhada de três gerações. Através da escrita de um livro.
Ao partilhar a ideia com Susana, esta recebe-a com um olhar arregalado.
-Falas a sério, querido?
-Nunca falei tão a sério, Susana. Tenho uma grande motivação e uma grande quantidade de elementos para sustentar esta história. E tenho mais do que isso.
-O quê? – pergunta Susana expectante.
-Uma criatura linda e preciosa que partilhou uma boa parte da história ao meu lado e que sabe escrever muito bem.
-Mas quem vai escrever o livro és tu, não?
-Verdade, Susana! Mas o olhar próximo de uma revisora literária será muito bem vindo. E isso eu tenho, certo?
-Hum! Gostei da surpresa! Acho a ideia extraordinária. E tanto quanto te conheço, sei que esta será a tua nova missão. Não te falte a coragem, meu amor!
-Alguém nesta vida me conhece melhor do que tu? E tem algo mais, minha querida. Devo esta ao meu avô Donald.
Conversa consumada num doce abraço e com a noção que estas duas almas gémeas farão, uma vez mais, um excelente trabalho de equipa.
Primeiro semestre de 1980
Alfredo, dentro da sua disponibilidade de tempo e com a preciosa colaboração de Susana, dedica-se de corpo e alma ao relato desta história que terá início na longínqua Austrália, onde veio ao mundo, até aos dias de hoje.
No seu pensamento esta narrativa será construída em língua portuguesa, e uma vez concluída, traduzida para a língua inglesa.
Sabendo de antemão que tem muitas páginas em branco pela frente, Alfredo concentra-se antes de mais na concepção da espinha dorsal desta obra literária.
Para dar corpo a tão diversificado conteúdo, vai recorrer ao poder da memória. À de seus pais, de suas irmãs, à sua e a de Susana, sem perder de vista o recurso do alargado número de notas de bordo de Susana e os textos que constituíram as reportagens para a National. Em suma, uma longa caminhada pela frente.
A febre foi crescendo ao longo dos últimos meses e as páginas em branco diminuindo.
Como em todo o projeto literário, com a narrativa a aproximar-se do fim, o desejado desenlace deixa finalmente vislumbrar um valioso contributo para a memória futura.
No final deste desafio pessoal, uma sensação de missão cumprida preenche naturalmente a satisfação deste autor estreante nestas matérias.
Segundo semestre de 1980
Com esta compilação literária relida e revisada, Alfredo dá os primeiros passos para uma nova aventura. Uma caminhada que muitos autores desconhecidos enfrentam. A edição e impressão desta obra em papel que, segundo o seu grande desejo, será nas línguas portuguesa e inglesa.
Esta tarefa apresenta-se espinhosa visto que as editoras até então consultadas, que suportam financeiramente os maiores custos do projeto, assumindo igualmente os riscos do fracasso nas vendas, sugerem alterações no texto original tendo em vista um maior impacto comercial. Uma ideia rejeitada por Alfredo com a natural concordância de Susana.
Abre-se assim uma nova frente de contactos com outros editores.
Em múltiplas conversas trocadas com personagens ligados aos meios literários, surge no horizonte uma nova alternativa. Alfredo assumirá os custos de impressão da primeira edição, com um número mais reduzido de exemplares, procurando alguns apoios financeiros por parte de entidades filantrópicas e organismos ligados à cultura.
Se os resultados comerciais desta 1ª edição forem satisfatórios, não faltarão editoras interessadas na impressão de novas edições.
Neste sentido e após dois meses de contactos, reuniões e troca de sinergias com um alargado leque de entidades do mercado literário de Lisboa, Alfredo alcança finalmente este objetivo. Irá deste modo assumir uma parte importante dos custos de impressão de 5000 exemplares e das ações de publicidade, tendo para tal o suporte financeiro do prémio de lotaria que arrecadara meses antes.
Susana abraça entretanto uma outra missão. Estabelecer os acordos com os pontos de venda, ou seja, livrarias e o necessário marketing em jornais e revistas para o lançamento da obra em data adequada.
Ficou igualmente decidido que, se a divulgação e venda desta obra atingisse os seus objetivos mínimos, Alfredo e Susana teriam um novo desafio pela frente.
Traduzi-la, editá-la e imprimi-la na língua inglesa. Para Alfredo, o lançamento desta obra no mercado inglês era uma questão primordial.
Vamos lá!
Setembro de 1980
Para alegria destes jovens, uma novidade veio animar a família em Portugal e na Austrália.
Um acontecimento que vai seguramente agitar a vida destes residentes em Cascais. A visita das duas irmãs de Alfredo e respetivas famílias que aceitaram conhecer Portugal, Susana, o pequeno Afonso, e o tio Manuel e família.
Judite, a irmã mais velha de Alfredo, virá da Austrália acompanhada do marido e dois filhos. Fiona, a segunda filha do casal Souza Campos, virá da África do Sul com o marido e três filhos. A 2ª e 3ª geração dos Mackenzie Souza Campos estará assim reunida pela primeira vez na sua existência.
Dez dias de animado convívio onde as saudades se dissolvem em calorosas partilhas e agradáveis vivências. As histórias são naturalmente muitas.
Para celebrar este cruzamento de sinergias familiares, Alfredo e Susana organizam uma festa em casa onde se reunirão as famílias de um lado e outro.
-Susaninha! Tomei a liberdade de convidar alguém para este encontro.
-Sim, quem? – retorna Susana curiosa.
-O nosso One & Only, Stepehen Logan. Ele aceitou e vem passar uns dias a Portugal para rever amigos no Estoril e participar na nossa festa. Que te parece?
-Meu querido! Coração a transbordar com a ideia. Sabes o que sinto por este nosso amigo tão especial. Excelente ideia!
A casa é grande, tem um belo jardim com um excelente barbecue e os convidados estão todos presentes. À mesa, para além da prova de excelentes vinhos nacionais trazidos pelo tio Manuel, Judite e marido tratam de um carneiro no espeto, bem ao jeito dos barbecues australianos, onde não faltou um incontornável caril de camarão à moda de Moçambique encomendado por Alfredo a uns indianos de Cascais e um extraordinário Biltong, carne de caça seca no fumeiro, que Fiona e marido trouxeram da África do Sul, além das deliciosas sobremesas portuguesas.
O convívio é intenso onde Stephen, com o seu carismático semblante, troca ideias com todos os que comunicam em inglês. Com os outros também não se perde. Este escocês é um caso.
Com a escolha do momento certo, Alfredo pede a palavra, colocando-se de pé com a taça de vinho na mão.
– Quero dizer-vos o quanto eu e a Susana nos sentimos privilegiados com a vossa presença. Um especial agradecimento às minhas manas, meus cunhados e sobrinhos que atravessaram o mundo para rever este incorrigível caçula que não para quieto e, muito particularmente, ao Stephen que nos deu a honra da sua presença. Um outro brinde bem especial aos meus pais que se encontram na terra mãe Austrália. Eles estão aqui connosco também. A todos um grande Cheers e o nosso muito obrigado por este dia tão especial.
-CHEERS! – foi a resposta geral a este momento de naturais emoções, umas boas gargalhadas e algumas lágrimas também.
Judite, a irmã mais velha de Alfredo, cuida de traduzir o discurso do caçula em inglês.
-Agora quero dar-vos uma outra novidade. – prossegue Alfredo.
-Ai, Alfredo! Para onde vais desta vez? -pergunta a alegre Fiona num português macarrónico.
-Não, sis! Não vou para parte alguma desta vez. Mas quero dizer-vos algo de muito especial. A Susana está grávida e a família vai ficar mais rica em breve.
O ruído geral foi grande e esta foi uma notícia particularmente bem recebida pelo pai de Susana, que agradece ao universo o facto de ainda estar em vida para receber um segundo neto. A emoção é geral.
Marcando a sua presença neste encontro, é a vez de Judite pedir a palavra. Num português igualmente macarrónico, ela dedica umas palavras ao mano caçula.
-Alf, dear! Tu sempre nos surpreendeste desde que vieste ao mundo. Pelo teu insaciável gosto pela vida, pela tua dedicação e admiração pelo percurso e obra do nosso avô Donald. Sinais que nos deste ao longo da vida. Temos agora a sensação que estarás pronto a fechar uma etapa desta tua caminhada com chave de ouro. Falo naturalmente do livro que tens andado a escrever e que sabemos que vai conhecer a luz do dia, em breve.
Levantando a sua taça no ar, Judite conclui:
-Que esta tua obra tenha o maior sucesso. Estou certa que, nesse dia, grandpa Donald estará em algum canto do universo a sorrir de satisfação. Bem hajas, maninho!
Desta vez foi Fiona que tratou de traduzir a fala de sua irmã mais velha para Stephen.
Um ruidoso e emocionante CHEERS atravessou novamente a festa e os corações. Momentos que não mais sairão da memória de todos os presentes.
A editora responsável pelo lançamento desta obra bibliográfica da autoria de Alfredo anuncia que, ao final de algumas semanas de intenso trabalho, a edição e impressão em papel de 5000 exemplares está pronta para ganhar os escaparates.
Em paralelo, a máquina de divulgação conduzida por Susana, com a colaboração de Alfredo, junto dos media portugueses, aponta para expectativas animadoras.
Alfredo e Susana têm agora uma outra missão. Preparar a cerimónia de lançamento deste livro através de uma sessão com exemplares adquiridos no local e autografados pelo autor.
Na noite de sábado do dia 11 de outubro de 1980, numa sala do Hotel Ritz, em Lisboa, Alfredo ladeado por Susana, que já apresenta sinais visíveis do milagre da maternidade para breve, recebem um considerável número de amigos e conhecidos, interessados no conteúdo desta obra.
Sobre a mesa, onde Alfredo agradece individualmente cada leitor com uma dedicatória manuscrita, está uma obra literária com uma capa ilustrada por uma sugestiva imagem de uma dança guerreira, tendo como pano de fundo umas muralhas de pedra em ruínas onde surge destacado um anel real.
Obra bibliográfica da autoria de:
Alfredo Mackenzie Souza Campos
Título
“EM BUSCA DE MWENE MUTAPA”
FIM














