Alísios do Índico

Capítulo IV- Alísios do Índico

ALÍSIOS DO ÍNDICO

Bombaim – 24 de Novembro de 1948

Terminada uma principesca semana em condições excecionais no Taj Mahal Palace Hotel, é chegada a hora de enfrentar uma nova fase desta epopeia da família Souza Campos.
A travessia do oceano Índico tendo em vista alcançar a costa africana.
Para cumprir esta etapa, esta família vai ter o privilégio de fazer a viagem inaugural do navio Karanja, encomendado pela British India Steam Navigation Company aos estaleiros navais de Alexander Stephen & Sons Ltd, Govan (Glasgow), tendo este navio efectuado a sua viagem de ensaio entre Londres e Bombaim meses antes.
Em viagens de longo curso, a capacidade total deste navio é de 1320 passageiros distribuídos pelas 3 classes.
O itinerário a realizar a bordo do Karanja ao longo das próximas 2 semanas será: Bombay, Marmagoa (Goa), Seychelles, Mombasa (Kenya), Zanzibar, Dar-es-Salaam (Tanzania), Beira, Lourenço Marques (Moçambique), cais de desmbarque da família Souza Campos.
Este navio prosseguirá a sua rota até Durban (África do Sul), tendo este porto como destino final.

Porto de Bombaim 4  Homeric

A British India Steam Navigation Company é a empresa que garante a grande parte das ligações comerciais no oceano Índico, sendo esta rota africana influenciada pelos territórios anglófonos que a Grã-Bretanha mantém sob controle na África oriental.
Operadora de uma das maiores frotas mercantes no mundo, esta grande companhia reflete o enorme alcance do Império Britânico, sobretudo depois da abertura do Canal de Suez em 1869.

Porto de Bombaim 2   RHFdisembarkHMTDUNERAatValletaharbourMalta1stFeb1962 (2)   Porto de Bombaim 3
Os seus navios conectam a Grã-Bretanha com a Índia e a costa leste da África a partir de 1890. Uma outra rede de rotas coloniais irradia da Índia para o Oriente Médio, Austrália e Oriente distante.
A British India Steam Navigation Company (BI) foi fundada no final do século 19 por William Mackinnon, tendo promovido o seu crescimento em parceria com William Mackenzie na criação da Companhia das Índias Orientais.
O Karanja e o Kampala são dois navios gémeos construídos após a Segunda Guerra Mundial com o intuito de conectar Bombaim com o Quénia, Tanganyika, Zanzibar, Moçambique e África do Sul.

Nesta manhã de sol e calor que marcam o clima típico da capital indiana, a família Souza Campos aguarda como tantos outros a hora de poderem aceder a bordo deste paquete. O facto de se tratar da viagem inaugural acrescenta ao momento alguma pompa e circunstância. O ambiente é de natural expectativa.
Margareth, trazendo à superfície um tema que vive no seu espírito, pergunta ao marido:
-Querido! As nossas filhas estão preocupadas com algo que falaste quando ainda estávamos em Brisbane.
-Sim, Maggie! Responde Joaquim com alguma curiosidade.
-Yes, dad! Disseste que o oceano Índico tem uma época de tempestades tropicais que muitas vezes resultam em ciclones. Interpela Judite algo apreensiva.
-Hummm….compreendo os vossos temores. A este propósito trago aqui um documento que me enviou um amigo que já fez esta viagem 2 vezes a bordo de outros navios. Vou lê-lo para vocês, ok?
-Vai, Joaquim!…esse é um tema que naturalmente nos interessa. Responde Margareth expectante.
Com ar sereno, Joaquim retira o documento da mala pessoal, informando:

”Oceano Índico – condições meteorológicas para a navegação”.
A sudeste do Oceano Índico as estações tropicais australianas começam em outubro e terminam geralmente em abril, com um pico de atividade nesta temporada normalmente durante o mês de fevereiro. A maioria do desenvolvimento de ciclones tropicais geralmente ocorre perto da linha equatorial a sudeste do Oceano Índico.
Uma vez que estes fenómenos ocorrem, as faixas mais prováveis para a produção destas depressões será em direção a W-SW, ao longo da periferia do norte do oceano Índico onde se mantém quase permanentemente as altas pressões. Com o tempo, os ciclones tropicais costumam acompanhar mais ao sul e sudeste. Sobre as regiões a sudoeste, estes começam a enfraquecer ao encontrar águas mais frias a sul.
Abril e início de maio devem ser evitados pois são o pior período da temporada de ciclones tropicais em toda a região. Esta temporada começa através do oceano Índico norte durante este período, evoluindo mais tarde para sul.
Planear uma viagem durante outubro a novembro comporta alguns riscos face à formação de ciclones tropicais, especialmente no Índico norte, mas será uma época mais favorável quando comparada aos meses entre janeiro e abril, época onde estatisticamente ocorrem mais fenómenos destes e de maior intensidade.
No entanto, um ciclone tropical pode ser relativamente minimizado, desde que as autoridades marítimas de bordo tenham acesso aos últimos alertas tropicais, ou através de consulta dos boletins da meteorologia marítima durante a viagem. Quando tal ocorre, o capitão pode decidir interromper a viagem e recolher temporariamente a um porto de abrigo próximo da sua rota”.

Concluindo, o nosso engenheiro diz:
Como se pode compreender, o risco existe sempre, mas estamos a fazer esta viagem num período mais favorável. Tenhamos fé em Deus e tiremos o melhor desta experiência.
As expressões femininas que Joaquim tem à sua frente não são propriamente sorridentes.
Com alguma apreensão, mas entendendo a mensagem do marido, é a vez da mãe Margareth dizer, segurando o pequeno Alfredo ao colo:
-Sim, o vosso pai tem razão!…será uma viagem muito agradável. Somos uns privilegiados por ir fazer a viagem inaugural neste fabuloso navio. Uma experiência que vai seguramente viver na nossa memória durante as nossas vidas. Obrigado pela confiança que nos dás. Vamos lá gozar das boas condições que nos esperam em 1ª classe. Devem ser muito agradáveis.
Perante esta exposição do nosso engenheiro e as palavras de confiança da mãe, os sorrisos de Judite e Fiona são agora mais abertos. O pequeno Alfredo, que está mais preocupado com a liberdade de movimentos, vai passando pelos braços da mãe e irmãs demonstrando à sua maneira a excitação do momento.

Malas
Aos altifalantes desta vistosa sala de arquitectura marcadamente oriental, é finalmente anunciada a operação de embarque.
Os passageiros são assim conduzidos à zona do cais, onde têm o primeiro contacto visual com os 155 m deste príncipe das águas de cor alva, matriculado em Londres sob o nome de SS Karanja.
À primeira vista, o navio parece ser um mundo em si próprio, como uma ilha, flutuando num meio líquido. À medida que se sobe a escada de acesso ao navio, pode ver-se a grande atividade no cais sendo carregados e transportados para bordo diversos tipos de cargas, incluindo automóveis, bens e mercadorias para negócios, pessoas de todas as culturas e origens, bens de consumo e móveis, bagagens individuais, muitos tipos de animais domésticos, aves, peixes e caixas contendo os mais diversos produtos agrícolas, materiais de construção, materiais de engenharia, operários etc.
A família Souza Campos é agora conduzida aos seus aposentos pela equipa de assistentes que prima por uma notável simpatia, não deixando nenhum detalhe ao acaso.
Como é tradição da British India Steam Navigation Company, é neste momento realizada uma fotografia de família celebrando as boas vindas a bordo. Uma cortesia muito apreciada por todos os passageiros da 1ª classe.
Uma vez instalados em duas suites, ficando os pais numa e as filhas na outra ao lado, é tempo de apreciar a magnifica vista que lhe é oferecida pelas instalações deste navio.
O Karanja proporciona aos passageiros de 1ª classe uma promenade aberta e coberta em torno das salas públicas, começando com a primeira sala de música, uma varanda para toma de café, seguido de um cocktail lounge, sala de jogos e biblioteca.

Deck 2   Deck 1
Dentro desta cidade flutuante, há igualmente lojas de comercio variado, um pequeno hospital, centro médico, escolas, posto de polícia, tráfego de pedestres, restaurantes, salas de cinema e de convívio.
Segundo informação de um funcionário que acompanha em visita guiada este grupo recém embarcado, ficamos a saber que:
Em segunda classe, as áreas públicas estão localizadas à ré, estando as salas de jantar logo abaixo. A primeira e segunda classes partilham alguns blocos de cabines intercambiáveis, enquanto os beliches da terceira classe são totalmente distintos. Em 3ª classe não há ar-condicionado, mas apenas de ventilação artificial, o que é suportável enquanto os navios estão em andamento, mas podendo ser algo sufocante uma vez imobilizados num porto.

Passadas duas horas do inicio do embarque, é agora ouvido o tradicional e bem sonoro apito do navio que, largando as amarras, se faz ao mar afastando-se deste território indiano que por bons e maus momentos constituirá matéria de recordação desta família.
A emoção é grande ao afastar a vista deste magnifico porto de Bombaim, sendo bem visível o Gate of India e o famoso Taj Mahal hotel Palace que tiveram o privilégio de conhecer. Daqui em diante o grande Índico é rei e o Karanja um dos seus visitantes…vamos a isto!
A 1ª etapa da viagem consta da ligação de Bombaim a Mombasa, com escala em Goa ainda na costa indiana e o arquipélago das Seychelles em pleno oceano. Uma etapa com uma duração prevista de 7 dias.
Passada uma hora e servida a primeira refeição a bordo, o Karanja já navegou o suficiente para se encontrar em pleno oceano com a costa indiana à vista.
Ao concluir uma primeira acostagem em Marmagoa (Goa) para embarque de mais alguns passageiros e respectiva carga, é tempo de soltar amarras em direcção ao largo.
A partir daqui o horizonte é uma linha plana, dando a sensação que deixamos o velho mundo, estando agora num novo universo exterior. Um mundo novo onde o espaço é o do próprio navio.

Deck 3   Deck 4
A vida social a bordo é agradável, sendo possível fazer rapidamente novos amigos oriundos de diferentes culturas e línguas. Aqui todos os passageiros se sentem como uma comunidade global, independentemente da raça, religião ou cultura e, com o passar dos dias, vive-se a bordo como uma grande família num mundo próprio.
O entretenimento é uma constante, que consiste em chás da tarde com música de violino e danças animadas por uma banda indiana, a exibição de filmes, ou um evento numa das salas públicas.
Mas o que pode ser mais agradável e relaxante do que uma tarde passada com uma leitura no convés observando o mar passar?
A figura do capitão é o elemento mais respeitado a bordo de um paquete desta natureza.
As regras de conduta humana estão bem presentes em todas as partes do navio. Neste campo a British India Steam Navigation Company não deixa estes aspectos ao acaso. A ordem é essencial para o bom decurso de uma viagem deste tipo, sendo prestada uma especial vigilância junto dos passageiros que viajam em 2ª e 3ª classe.
O oceano Índico é sem dúvida gigantesco. Uma vez que o navio se encontra bem ao largo, a sensação que deixa é que o seu total controlo já não depende apenas de seres humanos. Tudo depende agora igualmente das forças superiores da natureza e da lei dos mares.

Salas 1   Salas 3
Este facto gera algumas emoções e sentimentos a bordo, sendo alguns passageiros, pelas características do seu metabolismo, sujeitos a fazer este percurso marítimo em condições penosas devido ao frequente enjoo de mar.
Há igualmente os momentos de medo que sempre habitam no espírito de quem viaja por via marítima. O estado do tempo que pode transformar estas viagens num pequeno inferno devido ao mau tempo, sobretudo de noite.
Até aqui o mar tem mostrado sinais da sua grandiosidade e imensidão, deixando uma agradável sensação de alguma plenitude.
A familia Souza Campos vai usufruindo das agradáveis instalações oferecidas pela 1ª classe. Os mergulhos na piscina, os banhos de sol no deck, os momentos de leitura e o convívio social, sobretudo à hora das refeições que constituem os pontos altos desta viagem.
E assim vão passando os dias a bordo do Karanja. Os passageiros procuram em geral passar o seu tempo da melhor forma. O mundo é confinado ao espaço conferido pelo navio como um país flutuante, onde se começa invariavelmente a sentir algum tédio e desinteresse, procurando algo diferente, algo novo para viver, mais agradável e mais emocionante.
Algumas pessoas começam a ficar impacientes com a rotina diária deixando alguma insatisfação tomar conta do seu quotidiano. Para estes tudo parece a mesma coisa todos os dias. Mesmo os dias e as noites se tornam iguais. No sentido de contrariar este mal estar, mais e mais pessoas começam a beber álcool e a gastar mais tempo nos eventos musicais e no entretenimento. Muitas ficam indispostas e até mesmo doentes, necessitando de cuidados médicos. Para muitos destes a vida social a bordo deixa de ser uma alternativa interessante.

Enjoo 1   Enjoo 3  Enjoo 2

Ao quarto dia de viagem, ao fim da tarde o mar apresenta-se mais alterado e são agora ouvidas algumas mensagens do capitão James Derek no sentido de tranquilizar os passageiros.
Com o tempo a alterar-se drasticamente e com o aproximar da noite, uma sensação geral de desconforto toma conta dos passageiros. Este efeito é mais preocupante para quem viaja nos níveis inferiores, como é o caso da 3ª classe.
Neste ambiente de algum stress vivido a bordo do Karanja, há outro fenómeno que alarma substancialmente os passageiros. Os motores param de funcionar deixando a todos a sensação desagradável e angustiante de estarem a flutuar sem rumo.
Uma natural e crescente agitação toma conta dos passageiros. Com a forte ondulação do oceano e a aproximação da noite escura, as emoções passam dos níveis de inquietação para níveis de alguma histeria sentida em todos os cantos do Karanja, agora à deriva.
Independentemente das classes a bordo, o fenómeno de enjoo marítimo percorre agora o navio atingindo transversalmente um maior numero de passageiros.
O temor da morte é agora uma nota comum no olhar de uns e outros, tendo a tripulação o papel ingrato de tranquilizar os mesmos na medida do possível. Sem sucesso, pois os balanços são cada vez maiores.
Esta experiência nefasta está a ser vivida com a mesma intensidade nos aposentos dos Souza Campos que se encontram reunidos na suite dos pais.
Joaquim, tentando não transmitir à família as emoções intensas que lhe atravessam o espírito, diz aos seus:
-Tem que haver uma razão para esta paragem. Mantenham-se aqui com a serenidade possível. Eu vou ver o que se passa.
Margareth, com alguma aflição e acompanhada do olhar de pânico das filhas, responde:
Darling!…estamos aqui sozinhas. Vais e voltas com notícias…Right?
Don´t worry, darling!…assim que tenha notícias volto.

James Derek . SS Karanja
Neste período interminável que Joaquim sai tentando vencer o forte balanço do navio percorrendo com dificuldade o deck interior na busca de respostas, ouve-se a voz do capitão que, em bom inglês e numa voz aparentemente serena, informa nos altifalantes:
“Estimados passageiros…fala-vos o capitão James Derek!
Devido a uma avaria elétrica no nosso sistema central, fomos obrigados a interromper a nossa marcha desligando temporariamente os motores. Apenas a iluminação de presença e emergência se encontram acionadas através dos nossos geradores alternativos. Devido às condições desfavoráveis do estado do mar, estamos a fazer os melhores esforços para manter a posição correta do navio aproado à vaga que neste momento é bastante cavada.
As nossas equipes de assistência estão a trabalhar incessantemente sobre esta avaria, sendo retomada a nossa marcha assim que possível. Mais informamos que todos os passageiros sem exceção devem permanecer recolhidos nos respetivos aposentos. Todas as atividades lúdicas e de entretenimento estão neste momento suspensas. Mais informo que a nossa tripulação estará à vossa disposição para, na medida do possível, amenizar e resolver as dificuldades que estiverem vivendo a bordo.
“Em nome da British India Steam Navigation, quero apresentar a todos as nossas desculpas pelo incómodo causado e pelas condições precárias que estamos a viver nesta fase da nossa viagem. Sempre que necessário regressarei ao nosso contacto. A todos a continuação de uma boa viagem.”
As horas que se seguem a bordo do Karanja são de um desespero crescente.
Joaquim, nas poucas conversas que consegue ter com alguns elementos da tripulação, sabe que se encontram a pouca distância do arquipélago das Seychelles. Mas no meio de um oceano revolto onde as vagas oceânicas desafiam a estrutura e estabilidade do navio desprovido de força motriz, o medo de uma morte provável é inevitável.
Momentos em que cada um reflete sobre a sua ínfima dimensão perante tal grandiosidade.
Esta foi até à data uma noite de total pesadelo vivida a bordo do Karanja.
Eram umas 5 horas da madrugada quando a voz soberana do capitão se faz novamente ouvir nos altifalantes:
“Estimados passageiros a bordo do SS Karanja – fala-vos novamente o capitão James Derek:
Ao fim deste período que atravessamos nas últimas horas em condições marítimas adversas, temos a informar que a nossa avaria no sistema elétrico central está de momento remediada, o que nos vai permitir retomar a nossa propulsão motriz.
Retomaremos assim o nosso rumo em direção ao arquipélago das Seychelles do qual nos desviámos nas últimas horas na direção sudeste.
Para serenar o temor que muitos passageiros terão em relação às tempestades tropicais que originam ciclones nesta região do oceano Índico, anunciamos que, segundo informações recolhidas pelas autoridades marítimas indianas e do arquipélago, não há indicações que esta tempestade resulte num ciclone.
Se tudo correr bem, estaremos ao fim da tarde de hoje a acostar neste arquipélago.
Neste âmbito e em nome da British India Steam Navigation Company, quero transmitir um sinal de confiança a todos os passageiros de diferentes credos e raças. Pedimos para tal que se mantenham o mais possível nos vossos aposentos. Não haverá até novas instruções qualquer serviço de restaurante, sendo algumas provisões distribuídas pelo nosso pessoal.
A todos, o nosso pedido de desculpas pelo incómodo causado pelas condições indesejáveis”.

Esta mensagem tem o ónus de tranquilizar parcialmente os passageiros. Para completar a aparente melhoria das condições extremas vividas a bordo, todos respiram mais fundo ao ouvir o ruído dos motores que entretanto retomam a marcha do Karanja rumo ao arquipélago, recuperando as muitas léguas perdidas no meio de um mar enfurecido.

A fúria do Índico
Com a madrugada a visibilidade é tenebrosa. Pior que a da noite onde a escuridão esconde a causa do terror e a impotência sentida por estas 1300 almas à deriva no meio do implacável oceano Índico.
Joaquim, com o seu espírito irrequieto e ciente de que o navio navega com imensas dificuldades, resolve sair por momentos dos seus aposentos onde toda família, incluindo ele próprio, conheceram durante toda a noite os horrores de um enjoo marítimo extremo.
Com imensas dificuldades em caminhar nos corredores, cruza-se com um oficial a quem transmite a sua vontade de falar com o capitão em pessoa.
Este oficial, com as mesmas dificuldades de se manter em pé, pede a Joaquim que o acompanhe a uma sala de atendimento no piso superior onde é escutado pelo imediato ao qual transmite as seguintes palavras em bom inglês:
-Bom dia!…se é que podemos falar assim! Eu sou engenheiro de minas e viajo com a minha família da Australia para Moçambique. Sei que a situação de navegação é extrema, mas muito gostaria de assistir, mesmo que por momentos, ao comportamento deste navio em condições adversas. Estarei imensamente grato se me for concedido tal pedido.
Escutando com a devida atenção o pedido do nosso engenheiro, o imediato responde.
-Aguarde por favor uns momentos pois este seu pedido não sendo vulgar necessita de uma autorização do capitão James Derek.
Passados minutos e face a uma resposta positiva para uma curta visita à sala de comando do Karanja, Joaquim tem o privilégio de assistir durante um curto espaço de tempo a um espectáculo digno de realce.

Captain´s cabin 2   Captain´s cabin 1
Acompanhado do imediato e perante o aceno oficial do capitão Derek, Joaquim dá entrada nesta cabine tecnológica, onde lhe é dada a visibilidade de uma sala de comando equipada do último grito da tecnologia naval e onde pode, através das grandes vidraças, observar a grandiosidade do Índico que, à passagem desta cidade flutuante, demonstra bem a sua fúria.
As vagas cortadas por uma imensa proa metálica vencem as dezenas de metros de altura estoirando contra esta vidraças. Neste ponto mais elevado do navio, o estremecimento da estrutura é mais percetível e só os nervos de aço destes homens do mar permitem conviver com esta fúria, exteriorizando esta aparente serenidade.
O espetáculo é no mínimo dantesco…pensa Joaquim, sentindo um enorme frisson atravessar-lhe a espinal medula com a entrada de cada nova vaga pela proa.
Antes de sair e com um semblante de natural preocupação, Joaquim pergunta ao imediato que simpaticamente se mantém ao seu lado.
-Não irá esta tempestade transformar-se em ciclone?
Medindo as suas palavras, o imediato confirma:
Não temos essa informação das autoridades marítimas locais. Ao aproximar o arquipélago das Seychelles, iremos ao encontro de correntes mais frias que em regras dissipam estas tempestades tropicais. Assim esperamos que aconteça ao longo desta tarde.
Agradecendo através de um simpático aceno ao capitão e cumprimentando calorosamente o imediato, Joaquim retorna ao seu aposento, ao encontro da família ávida por algumas notícias que foram naturalmente apaziguadoras apesar do tremendo mal estar que todos sentem, entre os vómitos e terríveis tonturas causadas pelo enorme balanço do navio.
A visibilidade ao longe do arquipélago paradisíaco das Seychelles, ao fim de uma noite e um dia de navegação torturante, é agora acompanhado por um certo apaziguamento do estado do mar. As previsões estão certas. O alívio é geral.

Parte II – Rumo ao continente negro

Enfim Seychelles

Arquipélago das Seychelles

A visualização e aproximação deste arquipélago paradisíaco constituído por 115 ilhas no meio do grande oceano Índico, traz a curiosidade dos passageiros para o deck exterior do Karanja.
O primeiro registo europeu conhecido do avistamento destas ilhas ocorreu em 1502, pelo almirante português Vasco da Gama, que atravessou as Ilhas Almirante, nomeando-as em honra de si próprio (Ilhas do Almirante). A primeira visita a terra registada e a primeira descrição escrita do arquipélago deve-se à tripulação do East Indian inglês Ascension, em 1609.
Fazendo parte da rota comercial entre a África e a Ásia, as ilhas foram ocasionalmente utilizadas por piratas até os franceses iniciarem o controlo do arquipélago, em 1756.

Seychelles 1   Seychelles 2
Os Britânicos disputaram o controle das ilhas com os Franceses entre 1794 e 1812, tendo originado uma violenta disputa entre as duas nações. Em1814, as Seychelles tornaram-se oficialmente uma colónia britânica.
A visão de terra firme ao quinto dia consecutivo no mar foi objeto de uma alegria generalizada, tendo sido permitida a saída temporária dos passageiros para uma visita rápida da ilha principal de nome Victoria.
Este arquipélago tem uma formação geológica ímpar, sendo 41 ilhas de estrutura granítica e as restantes 74 de origem coralina. A cor do mar é de sonho e a receção por parte do povo da ilha bastante afável, havendo um notável misto de culturas franco-britânicas.

Seychelles 3
A bordo do Karanja esta paragem noturna foi aproveitada para uma revisão e reparação mais séria do sistema elétrico que demonstrou nesta viagem inaugural algumas falhas técnicas a necessitar da devida atenção.
Nesta manhã a satisfação da família Souza Campos é geral, tendo a agradável noção de pisar terra firme num ambiente que marcará a sua memória pela beleza natural e exotismo oferecido por este fantástico arquipélago.

De novo ao largo, o Karanja navega agora ao encontro da costa africana, sendo previsível atingir o porto de Mombasa no Quénia dentro de dois dias.
Face ao estado do mar que entretanto normalizou, a bordo o ambiente retorna ao seu ritmo habitual, sendo dada aos passageiros a possibilidade de reviver os prazeres e serviços oferecidos nesta viagem pelo oceano Índico.
A aproximação da costa africana anunciada aos altifalantes pelo capitão James Derek provocou uma natural emoção nos passageiros em geral.
Com o continente negro à vista, os que dormem acordam, reunindo-se agora nos decks em redor do navio, mostrando um interesse acrescido por uma nova perspectiva de vida.
Com os olhos fixos no horizonte, a visualização das terras que se aproximam gradualmente ampliadas pelos seus olhos, sobrepõe-se no seu subconsciente a uma visão do mar nas suas costas, que vai ficando mais distante…mais reduzido.
Alguns recusam-se a olhar para trás, como se no seu pensamento e no seu coração estivesse algo escuro e angustiante…como um espaço exterior que cega os olhos molhados pela emoção….algo para atirar para o canto das suas memórias.

Mombasa 1

Mombasa (Quénia) – O encontro com o continente negro

No deck da 1ª classe, ao lado do engenheiro Joaquim Souza Campos, encontra-se a sua família, observando com um olhar extasiado o continente africano pela primeira vez.
Junto ao grupo está um cidadão inglês que mostra ser grande conhecedor destas paragens.
Com a aproximação ao cais de Mombasa e em franco diálogo com o casal Souza Campos, o mesmo explica:

-A ilha de Mombasa está ligada ao continente por uma ponte nas proximidades, transportando tráfego rodoviário e ferroviário. O acesso adicional é fornecido por um pontão mais a norte. A distância ferroviária para Nairobi (capital do Quénia) é de 530 quilómetros.
O navio vai acostar ao lado de um cais de Kilindini, um porto no lado sul-oeste da ilha, com um extensa área de ancoragem.

Mombasa 2   Mombasa 4
Captando a atenção da família, este interlocutor de chapéu colonial e uns fartos bigodes ruivos prossegue o seu relato.
-O porto velho de Mombasa, no outro lado da ilha, foi usado por árabes, persas e outros durante muitos séculos antes do aparecimento dos europeus nas águas da África oriental.
Este local é guardado pelo Forte de Jesus, um castelo português datado de 1593, sobre o qual voa desde há muito a bandeira vermelha do Sultão de Zanzibar que mantém a hegemonia da região.
Curioso com este relato, Joaquim pergunta:
-E segundo a história, em que se transformou Mombasa depois da chegada dos primeiros europeus?
A resposta deste curioso cidadão britânico não se fez esperar.
Mombasa foi um importante centro do poder árabe no século 17 e foi visitado pela primeira vez pelos europeus quando Vasco da Gama ancorou ao largo da cidade em 1498. O Português capturou a ilha em 1505. Desde então e até 1784, Mombasa foi palco de várias batalhas pelo controle da ilha entre árabes e portugueses. O grande cerco do Forte de Jesus pelos árabes deu-se em 1696, tendo-se dado um massacre dos resistentes portugueses. Uma frota portuguesa chegou de Goa dois dias mais tarde, recuperando novamente o forte e o controle da ilha.
Após a expulsão dos portugueses em 1784, a Grã Bretanha assume o controle da região através de um tratado assinado em 1890.

Zanzibar 2
Sentindo o calor da conversa e trazendo para a mesma alguns ingredientes interessantes, Joaquim diz ao seu interlocutor.
-Tenho algo a acrescentar a esta nossa conversa.
Please, do!…riposta este cidadão.
-Eu sou português.
Com os olhos arregalados, este inglês olha com um ar sério para o nosso engenheiro e, franzindo o sobrolho, responde.
-Tenho então que advertir as autoridades locais para a eminência de uma nova invasão, certo?
A risada foi geral.
-Just kidding! Que mais lhe interessa saber sobre Mombasa?
– Divertida com a simpática conversa, Margareth diz com um ar de alguma provocação:
-Pode falar comigo que sou australiana. E que tipo de população vive aqui? E qual é a economia da região?
Igualmente divertido com o curso da conversa, este inglês responde:
A população de Mombasa é composta de muitas raças. Nos seus 80.000 habitantes estão incluídos europeus, índios, árabes, goeses e africanos.
Entre os principais produtos de exportação de Mombasa estão o algodão, café, tabaco, sisal, peles, acácia, chá, bicarbonato de sódio, cianita, caroço de algodão, milho, feijão e madeira.

E com a acostagem do Karanja ao porto de Mombasa, sem que tal se traduzisse numa nova conquista da ilha por parte dos portugueses, segue-se uma curiosa visita a esta ilha carregada de história.
Está assim cumprido o primeiro encontro com o continente africano.

Zanzibar 1

Estamos a dia 3 de Dezembro de 1948.
Novamente ao largo, o Karanja retoma a sua rota ao longo da costa africana. Novo destino é Zanzibar. Outra pérola desta costa oriental.
Uma viagem agradável que se faz sem percalços sendo a aproximação ao novo destino novamente anunciado pelo capitão James Derek.
Curiosamente, e dando asas a mais uma conversa acesa, o tal inglês dos bigodes ruivos, encontra-se novamente no deck com Joaquim e Margareth.
Entusiasmado com a sua vaidade e sapiência, esta enciclopédia ambulante diz :
Zanzibar é igualmente uma ilha onde os navios ancoram perto da costa, sendo visitados por embarcações de menor calado para entrada e saída de passageiros e cargas.
Na mesma zona está igualmente a ilha de Pemba onde residem europeus, indianos, árabes, sendo a restante população africana.
Sob controle da coroa portuguesa a partir de 1503, Zanzibar foi igualmente palco de inúmeras quezílias ao longo dos séculos, tendo sido um importante entreposto de escravos . Um comércio que os britânicos puseram fim em 1873.
Em 1890, as ilhas de Zanzibar e Pemba foram proclamadas como um protectorado britânico. O chefe do protectorado é o Sultão, cuja bandeira vermelha lisa voa sobre seu palácio; o Governo é administrado pelo residente britânico.
Joaquim continua admirado pelo conhecimento que este britânico tem desta região de África e então pergunta:
-É hora de nos conhecermos melhor. O meu nome é Joaquim Souza Campos. Esta é a minha esposa Margareth. Viemos desde Brisbane, na Austrália e seguimos a bordo do Karanja com destino a Lourenço Marques, em Moçambique. Muito prazer!…diz o engenheiro estendendo a mão ao seu interlocutor.
-Hummm!…muito interessante!…eu sou Johnathan Hurlington, natural de Southampton! O meu destino é igualmente Lourenço Marques. Sou consultor industrial da Sena Sugar Estates, uma empresa agro-industrial dedicada à produção de açúcar a partir da cana-do-açúcar, formada com capitais maioritariamente britânicos, a qual foram conferidas extensas subconcessões de terras, sob administração da Companhia do Zambeze, em Luabo e Marromeu, próximo da foz do rio Zambeze.
-Joaquim, com um olhar arregalado, interrompe Johnathan dizendo:
-Que mundo pequeno!…fui contratado enquanto engenheiro de minas para o desenvolvimento da extracção de carvão em Moatize, na região de Tete, muito próximo do rio Zambeze. Um dos principais clientes da empresa é precisamente a Sena Sugar Estates.
Esta feliz coincidência aproxima ainda mais estes passageiros.
A escala ao largo de Zanzibar é bem sucedida, apesar das dificuldades logísticas que impedem os navios de acostar na ilha.
É por este motivo mais demorada que as outras escalas.
Uma vez concluída esta escala, é tempo de rumar mais a sul, tendo como objetivo vencer uma etapa de 45 milhas com destino a Dar-es-Salam, na Tanzânia.
Neste percurso de pouca duração, os passageiros do Karanja sentem de novo a alteração do estado do mar. Alguns fantasmas assaltam de novo o seu espírito.

Comunicações
Aos altifalantes ouve-se de novo a voz do capitão James Derek que anuncia o seguinte:
“ Estimados passageiros a bordo do SS Karanja.
Fala-vos novamente o capitão James Derek.
Estamos a caminho de Dar-es-Salam em território da Tanzânia onde chegaremos dentro da nossa previsão.
Como terão observado, o estado do mar alterou-se consideravelmente na última hora, sendo previsível que tenhamos pela frente uma nova tempestade tropical.
Como já vai sendo do vosso conhecimento, é pedido a todos os passageiros que se mantenham nos seus aposentos evitando a circulação nos decks.
Se necessário for, emitiremos um novo comunicado.
A todos a British India Steam Navigation Company deseja dentro da medida do possível uma agradável viagem”.
Apesar de se encontrar a navegar perto da costa, o Karanja sofre de balanços cada vez maiores, transportando os passageiros para aqueles momentos de pura aflição vividos em pleno oceano antes da chegada ao arquipélago das Seychelles.
Num ambiente de pura adrenalina vivida a bordo, uma nova comunicação é ouvida pela voz do capitão.
“Estimados passageiros do SS Karanja.
Daqui o capitão James Derek.
Estamos a aproximar-nos do nosso destino em Dar-es-Salam. As condições de mar pioraram substancialmente, sendo neste momento consideradas condições de tempestade tropical extrema.
O nosso grande objectivo é entrar em segurança no porto interior do nosso destino através de um estreito e sinuoso canal.
Pedimos a vossa melhor colaboração mantendo-se no interior dos vossos aposentos nas próximas horas.
A todos o nosso agradecimento pela vossa compreensão e colaboração”.

Nas guelras do monstro

O que não foi comunicado aos passageiros do Karanja é que, segundo as autoridades marítimas locais, esta tempestade tropical de grande dimensão se transforma gradualmente num ciclone gerado em alto mar, deslocando-se a uma velocidade considerável sobre a costa oriental de África, gerando ventos que rondam neste momento velocidades entre 80 e 100 km / hora e com tendência para aumentar na próxima hora.
A aproximação da região de Dar-es-Salam é realizada com o especial apoio das autoridades marítimas que entretanto interditaram toda e qualquer navegação na costa.
No espírito do capitão James Derek está presente a alta responsabilidade que tem pela frente na condução deste navio até ao porto de abrigo de Dar-es-Salam.
Conta para tal com a colaboração da sua equipa e informações das autoridades marítimas locais. Devido à pouca largura do canal de acesso a este porto e com a ondulação expressiva do mar, o risco de naufrágio é uma hipótese séria que paira no espírito deste marinheiro com enorme experiência em matérias náuticas.

Dar-es-Salam- A grande incognita
A bordo do Karanja em grandes dificuldades de navegação, as reacções dos passageiros retratam a aflição que tomou conta das suas almas. O medo é agora uma constante.
Consciente do perigo que atravessam, Joaquim encontra-se nos aposentos, tendo fechado toda visibilidade para o exterior. Lá fora o breu da noite fustigado por uma intensa chuva misturada com a água salgada resultante das vagas que entram pela proa sem pedir licença. O espectáculo é no mínimo dantesco.
Sem sucesso, o casal Souza Campos tenta manter o sangue frio e enxugar as lágrimas das filhas. As angustias superam o bom senso e a esperança é neste momento uma fina e ténue linha intangível. De mãos dadas e protegendo o pequeno Alf de uma maior percpeção do que está a acontecer, os minutos são intermináveis e a fé o melhor oxigénio que se pode respirar neste aposento.
Os deuses estão com o capitão James Derek que consegue com enorme esforço entrar com este gigante no canal de acesso ao porto de Dar-es-Salam. Um jogo do acaso usando a tecnologia possível e a experiência comprovada destes homens do mar. Uma manobra de alto risco que dura uns longos 40 minutos. O suor escorre no rosto deste lobo do mar e as comunicções com as autoridades navais são uma constante.
Apesar da chuva intensa e dos ventos que são agora superiores a 120 km/hora, a entrada na área do porto trás um franco alívio para os tripulantes e passageiros do Karanja. O fundeamento do navio em zona segura é a próxima manobra a realizar em condições adversas.
Concluída esta delicada operação, é tempo de escutar de novo o capitão Derek.
“Estimados passageiros do SS Karanja.
Com um enorme esforço e a colaboração das autoridades marítimas locais foi possível entrar no porto de Dar-es-Salam onde fundearemos em condições delicadas que necessitarão da nossa apertada vigilância.
Por aqui permaneceremos até à passagem da tempestade tropical que se transformou nas últimas horas em ciclone.
Quero em nome da British India Steam Navigation Company transmitir a todos que, apesar de nos encontrarmos numa situação meteorológica delicada, o pior já passou, sendo agora necessário esperar a passagem deste ciclone que evolui para o interior do continente africano onde irá gradualmente dissipar-se. Temos informações das autoridades marítimas que esta situação persistirá entre as próximas 24 a 36 horas.
É recomendado que permaneçam nos vossos aposentos, sendo os serviços mínimos garantidos a bordo do navio durante este período.
A todos vós, o nosso voto de confiança e uma permanência a bordo tão segura quanto possível.”

Dar-es-Salam 1   Dar-es-Salam 2

Dar es Salam é também conhecido como o “refúgio de paz”. Fazendo jus desta designação, estes dois dias de ciclone vividos a bordo do Karanja são, apesar de tudo, aceitáveis.
Todos a bordo deste navio sentem que muito pior seria se tivessem sido apanhados por este ciclone em alto mar.

Só ao terceiro dia desta escala atribulada foi possível ver Dar es Salam com mais clareza a partir do navio.
No seio da família Souza Campos, agora mais refeita desta última aventura marítima, já se sente alguma saturação desta viagem causada sobretudo pelos sustos ocasionados pelas fúrias do grande e impetuoso oceano Índico.

Dar-es-Salam 3   Dar-es-Salam 4
O pai Joaquim, confiante que já não falta muito, espalha a sua boa disposição dizendo aos seus.
-Meus queridos!…já enjoámos…já vimos o Karanja debater-se como um herói contra este gigante de água salgada e sinto que estamos em boas mãos. Se chegámos até aqui, em breve estaremos a pisar terra firme na capital moçambicana. Vamos retirar o melhor disto e gozar o resto da viagem, ok?
A resposta é dada através do olhar feminino do clã Souza Campos que demonstra, apesar da tal saturação bem visível nos seus rostos, que esta é uma aventura para recordar para o resto das suas vidas… e contar um dia aos filhos, netos e demais amigos.
Agora que o mar serenou dentro desta área portuária, podem agora ver-se alguns estragos provocados e várias embarcações e instalações portuárias e na cidade e confirmar mesmo assim como esta é excepcionalmente bela vista do mar.
O mar azul, os corais, a areia branca das praias, encostas verdes com palmeiras altas e graciosas, algumas tombadas pela força do vento, convidando a uma visita mais detalhada, sendo destacados os edifícios da Government House e do hospital.
Perto da entrada do porto há destroços de uma plataforma flutuante, afundada pelos alemães em 1914 para bloquear o canal.
Agora mais tranquilos e refeitos de mais este tremendo susto, os passageiros recomeçam a encontrar-se nos decks, estando o tema ciclone invariavelmente na boca de uns e outros.
Ao lado da família encontra-se agora Johnathan Hurlington que, habituado às aventuras marítimas vividas em outras viagens, retoma a sua costela histórica dizendo a Joaquim:
-Dar es Salam é uma das poucas cidades da Costa Leste Africana de origem recente, sabia?
-Não, mas estamos interessados em saber. Responde Margareth.
-Foi fundada em 1862 pelo então sultão de Zanzibar e foi ocupada por um influente alemão de nome Carl Peters, em 1887. Na sequência desta ocupação, uma guarnição imperial alemã proclama um protectorado sobre o que é agora Tanganyika, em 1889.
-Curioso! Diz Joaquim querendo saber mais.
Empolgado com a descrição, este britânico de olhar perdido na cidade prossegue:
-Todas as divergências entre as potências europeias relativas a este território do leste Africano foram resolvidas pelos tratados de 1890 e 1891, assinados entre a Grã-Bretanha, Alemanha e Itália.
-E os portugueses? Pergunta Joaquim curioso.
-Esses seus antepassados entenderam que já tinham muito que fazer em Moçambique e não entraram nesta disputa. Face à contenda entre alemães e britânicos, Dar es Salam foi bombardeado pela Marinha Real Britânica em Janeiro de 1915, tendo os alemães capitulado e entregue o controle da região aos ingleses em Setembro de 1916.

O dia 8 de Dezembro de 1948 começa com sol e com uma previsão de estado do mar normalizado, confirmando no espírito dos passageiros e tripulantes o lema “Depois da tempestade vem sempre a bonança”.
Saindo desta magnifica região através do mesmo estreito, o SS Karanja retoma o seu roteiro inaugural em direcção à costa moçambicana havendo cerca de 1000 milhas marítimas a vencer até à Beira, segunda maior cidade da província ultramarina de Moçambique.
Este novo percurso faz-se com um leve brisa de noroeste que devolve aos passageiros a agradável sensação de olhar o horizonte plano, vendo o mar passar sulcado por uma proa metálica, deixando uma longa esteira à sua passagem.
Pela primeira vez nesta viagem, os passageiros tem a companhia extraordinária de um numeroso grupo de golfinhos. Um prazer para os olhos.

Enfim Moçambique
A chegada à costa moçambicana ao largo da cidade da Beira tem um significado especial para o engenheiro Joaquim Souza Campos, que sente de alguma forma uma identificação com a pátria mãe lusitana.
Em conversa com um outro cidadão inglês ligado há muito a Moçambique através das vastas plantações de chá da Zambézia, Joaquim e família tem de novo oportunidade de saber um pouco mais sobre esta pérola da costa portuguesa.
Este cidadão de grande porte, olhos azul-mar, umas grandes suíças, fumando o seu belo cachimbo, está vestido de caqui e com um tradicional chapéu colonial, balalaica, meias altas e botas cardadas. Um traje muito típico destas paragens com uma marcada influência britânica.
Captando a atenção de Joaquim e compreendendo que é a primeira visita da família Souza Campos ao território moçambicano, este informa:
-Neste porto os navios são encostados a um cais moderno, perto desta cidade situada na foz dos rios Pungoé e Busi. Neste caso um piloto local é trazido a bordo conduzindo o Karanja ao longo das últimas 14 milhas através de um canal de navegação ladeado de bancos de areia. Estes fenómenos naturais são alimentados por ambos os rios, permitindo a navegação de pequenas embarcações por uma distância considerável.
-E desta cidade o que há a dizer? Pergunta Joaquim curioso.
-A Beira é uma porta de entrada e saída através do seu movimentado porto onde passa o tráfego da Rodésia do Sul, do Norte e também Niassalândia. Entre seus principais produtos de exportação estão as grandes tonelagens de minério de cromo da Rodésia do Sul, o amianto e o tabaco de Moçambique e Rodésia do norte, bem como o cobre.

Beira 2   Beira 6
Deveras impressionado pelos conhecimentos do seu interlocutor, Joaquim pergunta:
E quanto à população residente? Tem alguns dados sobre isso?
-Direi que a população da Beira rondará actualmente entre 40 a 45 000 almas, sendo repartido por uns 7.000 europeus, na maioria portugueses, entre os quais se estima residirem um meio milhar de britânicos. A Beira antigamente era a capital do território Português administrado pela Companhia de Moçambique. É um dos poucos portos recentes da África oriental tendo ganho destaque a partir de 1942.
-Muito interessante! Responde desta vez Margareth entusiasmada com o número de cidadãos de origem inglesa radicados na região.
-Noutros tempos, e antes da chegada dos primeiros europeus a esta costa, existia um porto rudimentar de nome Sofala a cerca de trinta milhas a sul da Beira, junto ao delta do rio Busi.

Beira 1   Beira 5
Neste porto transaccionou-se durante séculos o grande comércio de ouro e marfim com o oriente. Na verdade, alguns afirmam que Sofala foi a Ophir da história do Antigo Testamento, de onde o rei Salomão obteve suas cargas de “ouro, prata, marfim, macacos e pavões”. Pelo menos é provável que a maior parte do ouro de Ophir tenha vindo das antigas jazidas da Rodésia, saindo do continente através de Sofala.
Face ao interesse do casal Souza Campos e enquanto o Karanja é levado ao encontro do porto, este contador de histórias prossegue:
-A cidade da Beira foi erguida pelos portugueses entre o mar e o rio sobre uma grande superfície plana e de baixa altitude, tendo sido construído um imenso aterro para esse fim .
Outro local de grande interesse nesta região é a Gorongosa National Game Reserve que fica a cerca de 100 milhas da Beira e que contém grandes manadas de animais, incluindo elefantes, búfalos, hipopótamos, leões etc. Este parque está a ser desenvolvido para a recepção regular de visitantes.
Antes da acostagem do SS Karanja ao porto da cidade, este cidadão inglês despede-se calorosamente desejando ao engenheiro Joaquim as melhores felicitações na sua nova missão à frente das minas de Moatise que já teve a oportunidade de visitar há 2 anos. O seu desembarque será neste porto, sendo o seu destino as terras da Zambézia mais a norte.

Beira 4   Beira 3
A acostagem ao porto da Beira permite aos passageiros um breve roteiro pela cidade, facto que constitui para o engenheiro Souza Campos uma oportunidade de ouvir de novo a sua língua materna.
Esta visita à cidade foi igualmente uma primeira abordagem da sociedade moçambicana e o recolher das primeiras impressões sobre o território que será palco de uma vida nova.
No espírito de uns e outros há uma impressão positiva.

De novo ao largo o SS Karanja cumpre a última etapa desta viagem epopeica para a família Souza Campos.
Nos aposentos da família celebra-se hoje um acontecimento especial. O primeiro aniversário do pequeno Alfredo que já habituado a este ritmo agitado e longe de casa, vive entusiasmado com a festa em família que os seus lhe prepararam. Alegria no ar!
Neste último troço de quase quinhentas milhas até à capital moçambicana, Joaquim pode ler alguns dados interessantes numa revista que gentilmente lhe ofereceram na Beira.
Curiosa com este facto, Judite pergunta ao pai:
Dad!…acho que todos queremos saber para onde vamos. Tell us about it, will you?
Joaquim, algo lisonjeado pelo interesse da filha mais velha, responde.
-Of course, dear! Responde o engenheiro lendo um texto em português:

Lourenço Marques situa-se na Baía do Espírito Santo (Delagoa Bay), tendo na entrada desta famosa baía uma ilha paradisíaca de nome Inhaca.
As docas para os navios inserem-se num cais moderno, perto do centro da cidade.
Sendo esta cidade a principal capital dos territórios ultramarinos da África oriental, tem uma população de cerca de 90.000 habitantes dos quais 23.500 são europeus, residindo localmente uma expressiva comunidade inglesa, indiana e chinesa.
É uma cidade moderna, construída sobre uma zona costeira com belas encostas verdejantes, ruas arborizadas e uma bela arquitectura.
Neste contexto destaca-se a bela praia da Polana no extremo leste da cidade, com seu fundo pitoresco de falésias vermelhas e massas de vegetação luxuriante, dotada de belos trechos de areia ao longo de uma extensa costa. Esta bela cidade austral tem os meses mais frios de maio a setembro, sendo uma cidade considerada como um resort especialmente por visitantes do Transvaal , na África do Sul.

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-Hummm!…quite interesting! Diz Margareth!…conta mais!
-Lourenço Marques tem uma atmosfera social cosmopolita, com as suas avenidas largas, calçadas de mosaico e cafés ao ar livre, habitadas por vários tipos de residentes.
Sendo uma cidade onde se dá grande valor ao lazer, existem discotecas, tanto em Lourenço Marques como noutros locais de interesse turístico a algumas milhas ao longo das praias circundantes.
Delagoa Bay foi visitada pelos europeus pela primeira vez quando a frota do grande navegador Vasco da Gama aqui chegou em 1502.
-E porquê o nome desta cidade, dad?…pergunta desta vez Fiona curiosa.
Lourenço Marques é o nome de um comerciante português que se estabeleceu nas imediações em 1544. Durante um longo período, este português enviava para o reino manuscritos sobre a cidade e os seus costumes. Como uma espécie de cronista ao serviço do reino.

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Segundo a história, houve um período de influência holandesa e austríaca nesta região durante o século 17, tendo mais tarde ocorrido disputas recorrentes entre o Portugal e a Grã-Bretanha quanto à ocupação do território.
Em 1875, o presidente francês, marechal MacMahon, foi convidado a arbitrar a questão tendo a sua decisão favorecido Portugal.
A importante ligação de caminho de ferro entre Lourenço Marques e Pretoria na África do Sul, inaugurada em 1895, abriu uma nova era de desenvolvimento para Moçambique”.

Ao encontro do destino

Com o cair da noite do dia 9 de Dezembro de 1948 e indiferente ao decorrer dos séculos, a “Delagoa Bay”, enseada temperada pela brisa do sul é invadida por mais um espectáculo natural do fim de tarde. O mar corre tranquilo e o deslumbre de um pôr do sol tropical é um forte apelo à contemplação.
Soltam-se as cores que a África mãe generosamente oferece aos que debruçados no deck do SS Karanja repousam o espírito num encantamento sem fim, tais vultos projectados no horizonte pela contraluz do astro rei que inspiram os amantes deste fabuloso continente africano.
E com mais uma visita a bordo de um denominado “piloto da barra”, o SS Karanja dá entrada na fabulosa Baía do Espírito Santo.
Com uma suave acostagem ao longo do cais do Gorjão no porto da capital, esta família vinda de longe, dá assim por concluída esta fabulosa viagem que apesar de aqui e ali bastante atribulada, viverá nas suas memórias para sempre.

 

 

2 comentários

2 thoughts on “Alísios do Índico

  1. Maria Teresa.Barbosa.

    Felizmente já temos o nosso espaço para poder-mos comentar tão bela e tocante literatura.Não calcula como adorei a viagem da Família Sousa Campos e a sua chegada a Lourenço Marques,fez-me reviver um passado longínquo que deixou muita saudade.Como sempre fico aguardando o próximo episódio .Muita saúde e que a vida vos sorria .Maria Teresa.

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    • Olá Maria Teresa,
      Este lapso dos comentários bloqueados foi felizmente uma fase passageira…o seu apontamento foi o ingrediente que faltava para alterar esta situação…uma vez mais o meu apreço por esta iniciativa.
      A minha admiração e entusiasmo por um mundo onde tudo tinha muito mais charme e menos pressa, onde ainda não estava presente a febre de informação vertiginosa que assolou as sociedades modernas, está bem expressa nesta viagem pelo hemisfério sul…a saga continua com mais um salto no tempo….vamos em frente…com um abraço especial!

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