Brisa austral

Capítulo II - Brisa austral

BRISA AUSTRAL

Oceania – período de pós guerra em 1948

Num horizonte multicolor em plena costa oriental da Austrália, os raios de sol reflectem as intensas tonalidades do fim da tarde sobre as lentes escuras deste condutor atento no seu caminho de regresso a casa. Estava assim concluída mais uma intensa semana de trabalho na extração de ouro, cobre e prata na Mount Morgan mine.
Nas ruas mais próximas de casa com menor tráfego, o pensamento deste português de nome Joaquim Souza Campos, nascido em Portugal no quente verão de 1908, na cidade do Porto, paira uma vontade austral. Participar no baile de um par de pedras de gelo dentro de um copo de Whisky, indo ao encontro do gradual e merecido relax do seu espírito. Entrando naquela rua frondosa de um bairro de Brisbane onde habita com os seus, Joaquim, oriundo de uma família estruturada do norte de Portugal, é um engenheiro de minas com a sua formação iniciada em Inglaterra (Londres) e concluída na University of Quensland (Brisbane) em 1930.
Portador de uma estatura média de 1,78, bem constituído e de um cabelo algo grisalho bem aparado, Joaquim veste umas calças de cor parda em tirylene, bem vincadas e seguras com uns suspensórios de couro sobre uma camisa em tons claros que culminam num tradicional e confortável par de sapatos de couro inglês Cap Toe Oxford de cor preta.

Family house
Ao entrar no acesso de sua casa com o seu carro Hudson Aussie Body adquirido no princípio de 1947, este engenheiro imobiliza-se, saindo com a sua mala e casaco pendurado no braço e chapéu na mão, para cumprir um gesto que faz parte dos seus hábitos sempre que chega a casa. Consultar a caixa do correio desta sumptuosa vivenda em um tom azul claro no estilo arquitetónico marcadamente vitoriano.
No seio desta família a comunicação bilingue é uma constante, sendo a insistência do uso da língua portuguesa uma forma que Joaquim instituiu no sentido da sua família não perder este elo com a sua pátria lusitana.
Esta sua chegada é acompanhada pela saída de sua filha que vem ao seu encontro.
Fiona, de 13 anos de idade, é uma moça de boa estatura e em boa forma física, portadora de um belo cabelo loiro entrançado e um expressivo olho azul herdado da linhagem escocesa da família materna.
-Hi Dad!…just arriving?
-Olá filha!…é verdade!…mais uma semana de trabalho…como estás, minha querida?
Fine!…thank you!…a mãe está em casa da vizinha ali em frente e não deve demorar.
Ok!…e os teus irmãos estão bem? Pergunta este pai com natural satisfação por estar de regresso à casa.
Yes!…Judite foi para a natação e eu estou com o Alf, que está a brincar no meu quarto.
Ao caminhar para a entrada da residência, a atenção de Joaquim poisa sobre algumas das cartas recebidas.
O momento é de natural alegria quando, ao colocar no hall de entrada a sua mala, sobretudo e chapéu, alguns desenhos enrolados que traz debaixo do braço e as cartas recém chegadas sobre uma pequena mesa da sala, se dirige para o quarto de Fiona onde irá encontrar o mais pequeno membro da família.
Este bebé de 8 meses de idade de nome Alfredo está tranquilamente a distrair-se com uma mota de brinquedo.
-Filhote!…o pai chegou!…exclama Joaquim com um brilho especial nos olhos.
-Vrrrrumm…responde este bebé alourado e rechonchudo, passando para a mão do pai este brinquedo de metal colorido.
Pegando ao colo este filho gerado tardiamente, o sorriso de Joaquim é o retrato evidente de uma franca satisfação paterna. Esta criança é um raio de sol em casa dos Souza Campos.
Da sala chega a voz de Fiona.
-Dad. Preparo-te o drink do costume?
-Please darling!…on the rocks!
A alguns momentos de brincadeira com o pequeno Alfredo, sucede-se uma passagem pelo sanitário contíguo para uma lavagem do rosto com água fresca e um regresso à sala com as cartas recém chegadas no correio, que entretanto recolheu de cima de uma mesa em madeira trabalhada ao estilo indo-português herdada de um parente residente em Goa (Índia).
Para sua satisfação, na mesinha ao lado da sua habitual poltrona em couro inglês já se assiste ao debate gelado do seu Whisky com uma soda dissolvente….sorriu satisfeito.
A consulta do correio recém chegado conduziu o olho escuro do nosso engenheiro a poisar a visão sobre um envelope dirigido a si com um selo diferente que lhe chamou particularmente à atenção. No remetente pode ler-se Société Minière et géologique du ZambèzeBruxelasBélgica.
Por momentos Joaquim pensou. Será a resposta deles?
Ao saborear o excelente Johny Walker Black Label, Joaquim abre este envelope com a ajuda de um estilete que vive dentro de uma pequena gaveta desta mesinha à espera de novos envelopes.
Ao retirar as duas folhas deste envelope voador, Joaquim tem a oportunidade de ler o seu conteúdo que vem redigido em Francês e seguidamente em Inglês. Uma certa expectativa toma conta do seu ser ao ler a continuidade do texto introdutório.

Societé Minière du Zambeze

Após análise da sua proposta, das suas cartas de recomendação e, na sequência, da reunião recente do conselho de administração a este propósito em Bruxelas, temos a informá-lo que é com muito agrado que vemos o seu ingresso na nossa organização, assumindo o desafio que lhe lançamos recentemente, tomando em mãos o desenvolvimento do nosso projeto mineiro em Moçambique”.
No espírito do nosso engenheiro paira agora alguma excitação que tem dificuldades em camuflar.
Passados momentos, dá entrada em casa a sua filha mais velha. De nome Judite, esta jovem australiana de 17 anos, de semblante elegante, vem vestida de uniforme desportivo. De olhos escuros e com traços sanguíneos marcando as origens lusitanas do pai Joaquim, entra em casa abraçando calorosamente o pai que já não vê há alguns dias.
-Hi daddy!…how are you doing? Pergunta entusiasticamente.
-Tudo bem filha!…weekend à vista!…não pode ser melhor. E a natação correu bem? Pergunta Joaquim com um terno beijo na filha.
Just fine!…and mum? Is she home? Pergunta curiosa.
-Está em casa da Julie e deve estar a chegar!
Ao som do gelo contra as paredes do copo, com a releitura desta carta proveniente da Bélgica e consulta do restante correio recém chegado, é vez de entrar a senhora da casa.
De nome Margareth Laurel Mackenzie, esta bela senhora de 1,70 de altura, de pele clara, cabelo longo alourado e suavemente maquilhada, vem vestida com um vestido estampado e um par de sapatos muito femininos que lhe assentam muito bem.
-Olha o meu marido que já chegou!…sorri quando vi o carro lá fora! Correu bem a tua semana, querido?
Hi, Maggie dear!…estou bem, apesar das saudades de casa e de ti muito em especial. Responde o Joaquim, partilhando um terno beijo com a sua mulher.
-E as girls estão aí? E o nosso Alfie está bem disposto? Pergunta a Margareth sorridente.
-Já estive com ele no quarto da Fiona…um espanto este nosso campeão! Tem dado muito trabalho, querida? Indaga Joaquim com curiosidade.
-He´s doing fine…and wants to start walking!…you imagine how it is!
-Querida! Lembras-te daquelas conversas com a empresa mineira belga?
-Sim!…e o que dizem desta vez? Pergunta Margareth curiosa.
-A resposta chegou pelo correio. É completa e positiva querida. Temos que conversar sobre isso.
-Ok! Darling!…vou ver o Alf e verificar como está tudo. Já volto.
A conversa que marido e mulher iniciam, tendo como tema principal o teor da carta recém chegada da Bélgica, toma uma natural importância.
Ambos confortavelmente instalados na sala e depois de servidas novas bebidas, é com um ar sereno mas determinado que Joaquim diz à sua esposa.
-Minha querida…vamos começar pelo princípio…esta carta vem escrita em Francês e Inglês…sugiro que a leias e me dês as tuas primeiras impressões. Diz Joaquim passando as folhas manuscritas a Margareth.
Esta senhora, lendo com uma expressão viva e atenta o teor desta carta, poisa passados minutos estes papéis sobre o colo, dizendo ao marido que olha atentamente para ela:
-Meu querido!…isto vem ao encontro de uma possibilidade que já falamos nas últimas semanas. A mudança total da nossa vida. Como recebeste estas news?
-Com alguma excitação naturalmente, Maggie!
Coincidentemente recebi esta semana no escritório algumas informações sobre esta empresa e sobre Moçambique. Nada nesta vida é por acaso!
Retirando da mala alguns documentos, Joaquim prossegue lendo o teor dos mesmos:

Estimado engº Joaquim Souza Campos,
Eis as conclusões a que chegamos após algumas investigações que fizemos:
Em paralelo com a indústria secundária, foram desenvolvidos em Moçambique desde o início do século XX, o sector de exploração de energia hidroelétrica e um setor de mineração considerados viáveis pelos peritos nestas matérias.
No sector mineiro as bacias do Moatise foram compradas pelo grupo belga “Société Minière et géologique du Zambèze” em 1919.
A empresa construiu 15 milhas de uma linha de comboio ligeiro em trilho simples até ao rio Zambeze na região de Benga para escoamento de carvão extraído, mas a exploração teve um crescimento deveras lento, produzindo as minas apenas 8 000 toneladas de carvão até 1936. Os seus clientes desde então, são essencialmente a “Sena Sugar” e os caminhos de ferro “Trans Zambézia”. No entanto está em vias de construção uma via férrea em bitola larga nas bacias produtoras de Mutarara, na margem norte oposta do rio Sena, sendo assim previsível triplicar a produção de carvão nos próximos anos.
Levantamentos geológicos entretanto realizados pelo governo português com a colaboração de várias empresas estrangeiras, revelaram a presença promissora de grandes traços de minerais na região, tendo múltiplos ensaios já sido realizados, com vista a trazer alguns deles para níveis de produção alargada. Neste âmbito, estão em curso outras iniciativas importantes em Moçambique, tendo em vista a mineração de amianto na região de Manica, de columbotantalite na região do Alto Ligonha, bem como de Bismutite e mineração de Beryl para a extração de “Berílio” que, segundo os estudos desenvolvidos, supera a extração de carvão em valor.
A conclusão é muito clara. Há para os próximos anos uma previsão de crescimento económico de grande relevo na Província de Moçambique.

Moatize 2   Moatize 1

Com um olhar arregalado Margareth diz:
Ok, darling!…como imaginas, a tua opinião tem um peso muito grande neste contexto e na nossa decisão. Como sentes tudo isto? Indaga Margareth com natural expectativa quanto à resposta do seu marido.
O engenheiro responde de forma determinada como se já fosse senhor de uma resposta que estivera a construir na sua cabeça até à chegada da sua esposa a casa.
-Maggie, darling! A proposta que apresentei a esta empresa é, como sabes, consistente quanto às condições que pedi para ir trabalhar para Moçambique. A nossa viagem até lá comporta valores elevados, cabendo-nos a nós apenas cobrir as despesas de algumas mordomias durante esta deslocação até África que será feita em algumas etapas.
-Estamos a falar de quantas semanas de viagem? Pergunta desta vez Margareth com ar algo sério.
-Segundo já apurei e em conversa com um colega português que passa frequentemente em Brisbane, este percurso levará umas semanas a realizar entre uma viagem aérea até a Índia, uma ligação terrestre até ao porto de Bombaim e a travessia marítima até à costa africana que será percorrida até chegarmos à cidade de Lourenço Marques, em Moçambique. Ainda não sei precisar a duração total desta viagem.
-Querido!…esta é uma decisão de grande dimensão, dado que a nossa vida vai mudar de forma radical…como queres conduzir este tema daqui em diante?
Entusiasmado com o teor da conversa, Joaquim responde:
-My dear!…o meu entusiasmo é naturalmente grande…trata-se de abraçar um grande projecto mineiro numa colónia portuguesa na África austral com fortes influências britânicas e onde habita e trabalha uma importante comunidade inglesa. Este é um aspeto positivo para nós e para os nossos filhos. Tendo em consideração as condições salariais que pedi e que foram aceites, uma residência para nós numa grande cidade e uma deslocação de dois em dois anos à Europa para toda a família, a minha primeira impressão é positiva.
Com alguma preocupação no olhar, Margareth diz:
-Não partas do princípio que esta opção seja do agrado das nossas filhas. Especialmente Judite que já tem muitas raízes por cá.
Algo perturbado com a perspetiva colocada pela sua esposa, Joaquim responde.
-Bem sei que elas farão uma resistência natural à mudança. Mas quando falo nisto estou a pensar no futuro de todos nós.
-E quando pensas avançar com esta nossa mudança? Irias tu primeiro para Moçambique indo nós mais tarde ao teu encontro?
-Não, minha querida!…a minha visão é esta…esta deslocação não é uma simples viagem…trata-se de uma experience of life time para todos nós. Penso que devemos considerar esta nossa mudança segundo alguns requisitos.
-E que requisitos são estes? Pergunta Margareth algo curiosa.
Em resposta, o nosso engenheiro diz à sua esposa.
-Acho que devemos cumprir as etapas seguintes:
1- Concluir o ano escolar das nossas filhas, entregando entretanto à Mount Morgan o meu aviso de rescisão de contrato.
2-Concluir o processo de herança do teu pai, agora que foi oficialmente reconhecido o seu desaparecimento. Esta tua herança e a venda desta nossa casa é, como sabemos, um suporte importante que nos permite enfrentar o futuro de forma bem mais confortável. Em Moçambique viveremos numa boa casa de função disponibilizada pela companhia.
3-Escolher os meios mais adequados e a época mais favorável para a realização desta nossa viagem, prestando uma especial atenção à nossa travessia marítima para Moçambique, evitando o período dos ciclones no oceano Índico.
Curiosa, Margareth continua.
-Assim sendo poderíamos pensar fazer esta viagem dentro de alguns meses, certo?
-Sim, querida! Vamos reunir mais informações, avaliar tudo isto, falar com as nossas filhas, voltando em breve a esta nossa conversa. Sinto que estamos no bom caminho, Maggie.
-If you say so!…I am with you, darling…I will always be with you! Diz Margareth envolvendo-se carinhosamente nos braços do seu mais que tudo.

brisbane   Mapa Brisbane

Brisbane -03 de Julho de 1948

Neste fim de semana de céu mais nublado e com a reunião da família Souza Campos à mesa de almoço, é chegado o momento do pai Joaquim retomar um tema que vem agitando este casal.
Joaquim, com o olhar atento de Margareth, dirige-se às filhas, enquanto a criada ali mais ao fundo da sala dá a sopa ao pequeno Alf que a toma com a agitação do costume, espalhando a sopa por todo o lado.
Aguardando que o cozinheiro sirva as entradas de mais uma simpática refeição, o engenheiro, do alto da sua voz serena, diz:
-Minhas filhas!…I have something to announce! We have decided to move out from Australia.
Perante o olhar algo espantado das filhas, Joaquim continua em bom português que é do bom domínio de todos.
-O vosso pai tem tido conversações com uma empresa europeia, tendo em vista assumir um cargo importante em Moçambique na costa oriental de África. Depois de inúmeras conversas partilhadas com esta empresa, com a vossa mãe e bem estudadas as vantagens e desvantagens deste challenge, foi nossa decisão aceitar esta proposta partindo em breve para Moçambique.
Judite, enquanto filha mais velha, toma a dianteira interpelando o seu pai com semblante carregado:
-Mas Dad!…isso significa que vais lá trabalhar lá durante um tempo e regressas à Austrália?
Compreendendo as dúvidas e ansiedades imediatas da filha, Joaquim responde:
-Não, querida!…esta é uma nova etapa nas nossas vidas…vamos todos em breve para Moçambique.
Perante esta resposta, Judite olha para os seus pais de sobrolho carregado, dizendo:
-Isto só pode ser brincadeira!…mas se é brincadeira, é de mau gosto!
Perante esta proposta do pai, é desta vez Fiona que intervém, perguntando:
-Mas e como vamos fazer numa terra estranha tão longe de casa?…como vamos deixar a escola e os nossos amigos para ir para tão longe? Já fomos todos em viagem até England passando por Portugal há dois anos, mas sempre voltámos para casa. Isto é diferente, não?
Margareth, sentindo a tensão da conversa crescer, intervém:
-O vosso pai e eu já avaliámos todos os prós e contras desta decisão e entendemos que o lugar para onde vamos vai abrir novos caminhos para todos nós. Novos amigos, novas escolas e a possibilidade de levar uma vida muito boa num país muito agradável da África austral. Existe em Moçambique uma presença britânica que será do vosso agrado.
Algo inconformada, Judite regressa à conversa perguntado aos pais.
-Isto não pode ser verdade, grita Judite, levantando-se da mesa e saindo para o exterior.
Perante esta postura inesperada da filha, Joaquim tem uma reação impulsiva no sentido de exercer o seu poder paternal.
Neste preciso momento, Margareth segura o marido pelo braço dizendo em voz aparentemente controlada.
-Joaquim, please!…deixa-a esfriar os ânimos…vamos com calma!…please, darling!
O engenheiro, algo corado pelo calor da conversa, resolve atender ao pedido da sua esposa mantendo a sua atenção na refeição entretanto servida.
Fiona, que sente o peso do ambiente familiar, regressa à conversa passado alguns minutos.
-E esta viagem é para fazer quando, dad?
Joaquim, com algumas dificuldades para regressar ao tema, mas conhecedor das respostas mais adequadas para esclarecer a filha, responde passado alguns momentos de silêncio:
-Minha querida! Estamos no mês de Julho. Depois de me informar detalhadamente sobre os meios a utilizar nesta viagem, já tenho uma data para a nossa partida que será, se tudo correr bem, em outubro ou novembro próximos. Esta data está condicionada por múltiplas circunstâncias e preparativos que um roteiro destes implica. O programa desta viagem será algo longo, mas deveras interessante….it´s a promise!
-Yes, dad!…conta mais!…interrompe Fiona num misto de preocupação e alguma excitação.
-Yes, darling!…tell her what you have in your mind. Diz Margareth entusiasmada com a normalização do clima familiar.
E o nosso engenheiro continua:
-Como vocês podem imaginar, esta decisão vai mudar as nossas vidas durante os próximos anos. Iremos vender esta casa e receber em breve a herança deixada pelo vosso avô Donald que foi, há pouco tempo, oficialmente considerado como desaparecido. A receita da venda desta casa e esta herança deixada à vossa mãe e aos netos será, em conjunto com as condições que vou ter na minha nova missão em Moçambique, um caminho aberto para uma vida estável e bem agradável na costa oriental de África.
Curiosa por esta última abordagem do pai, Fiona quer saber um pouco mais.
But dad!…qual é a herança do grandpa Donald?
Na resposta a esta questão, é Margareth que sente chegado o momento de intervir na qualidade de principal herdeira do pai Donald Mckenzie.
-O vosso avô teve, como vocês sabem, uma vida muito rica em viagens e experiências. Na sua febre de conhecimento, percorreu vários países do mundo e exerceu várias actividades e funções importantes que lhe permitiram acumular alguma riqueza. Ao fim de 3 anos que passámos a comprovar o seu desaparecimento, foi finalmente declarado o seu óbito e a leitura do seu testamento. Uma parte significativa do seu legado ficará depositado no Bank of Queensland para alguma necessidade familiar, outra iremos utilizar fazendo desta viagem até África e uma outra, segundo vontade escrita dos teus avós, destinada à formação académica dos seus três netos uma vez atingida a maioridade.
-E isso vai mudar a nossa vida para melhor? Pergunta Fiona curiosa.
Joaquim, já reposto do incidente com a filha mais velha, avança:
Este legado, juntamente com a venda desta casa, irá permitir-nos fazer esta viagem em condições mais agradáveis, sendo a casa do grandpa Donald e grandma Rebecca, guardada para as nossas visitas à Austrália.
-E como vai ser esta nossa viagem, Dad?…como iremos para África? Pergunta novamente Fiona.
-Pelas informações que já recolhi, iremos de avião até à Índia, onde teremos pela frente uma viagem marítima num navio que faz a ligação da Índia com a costa oriental de África.
-E vocês acham que esta viagem vai ser viável com o Alf nesta idade? Pergunta esta jovem com semblante de visível preocupação.
Vez da mãe Margareth responder com alguma confiança:
-O nosso Alf é um menino saudável e tem todos nós para o acompanhar e proteger nesta viagem….right?
Evidenciando o elo forte das relações desta família, Fiona, olhando de soslaio para o pai, responde com convicção.
-Right, mum!

Brisbane – finais de Agosto de 1948

As circunstancias desta viagem foram gradualmente alterando o quotidiano da família Souza Campos.
As conversações entre irmãs e mãe Margareth durante as ausências do pai nas minas foram objeto de algum consenso.
O engenheiro tem estado deveras activo na preparação desta grande mudança de rumo profissional e familiar, tendo entretanto confirmado a sua rescisão na Mount Morgan mine e assinado um novo contrato e demais condições contratuais com a empresa belga.
Margareth do seu lado, tem tratado das bagagens da família e dedicado parte do seu tempo às situações burocráticas inerentes a esta mudança de vida familiar, cabendo a Judite e Fiona gerir as emoções e inquietações trazidas para o seu quotidiano por esta deslocação para uma nova região do mundo.
A separação dos amigos tem sido a parte mais complexa de gerir para estas adolescentes, onde as amizades tem um peso próprio. Para o jovem Alfredo que completa em breve os seus 10 meses de existência, os dias sucedem as noites e estando cumpridas as suas necessidades infantis e algumas birras para comer e dormir está tudo bem. A vida infantil segue o seu curso sem qualquer noção da transformações em curso à sua volta.
Em conversa tida à mesa do jantar, o pai Joaquim acrescentou mais umas informações sobre a viagem para Moçambique.

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De forma entusiasmada, anunciou à família.
-Já tenho comigo as reservas da nossa viagem. Iremos por via aérea na Qantas até à Índia , onde tomaremos um navio de nome Karanja da British India Steam Navigation Company até Moçambique. Teremos pelo meio algumas surpresas que o vosso pai guardou para vocês. Nem a vossa mãe sabe destes segredos.
C´amon, dad!…what is it?….dispara Fiona.
-O vosso pai gosta destas situações de suspense. Dá-lhe muito gozo não é, Sr. Engenheiro? Repica Margareth com um sorriso provocador no olhar.
Com um certo prazer Joaquim apenas pergunta.
-Já alguma vez se queixaram das minhas surpresas?
-No, dad!…of course not!…but you let us imagine things and it amazes you…bad boy!….responde Fiona procurando alguma resposta irreverente da mãe.
Mas esta não vacila…as surpresas do pai Joaquim deixam sempre boas marcas nesta família.
É no entanto chegado o momento de Judite se pronunciar sobre esta viagem.
-I have something to say! Em bom português, prossegue:
Dad, Mum. Eu tenho conversado com a Fiona sobre esta vossa decisão de sair da Austrália. Vocês são a minha família e eu compreendo que este é um passo importante para o pai. Mas quero que saibam que é um passo que me desgosta muito, dado que não sei o que vou encontrar em África. Vou virar as costas aos meus melhores amigos e ao meu namorado por quem estou muito apaixonada.
-Minha filha!…nós pensámos em tudo isso e acredita que, se desconfiássemos que esta mudança fosse para pior, não iríamos fazer vocês passarem por isto. Responde a mãe Margareth com ar sério.
-Tudo bem, Mum. Mas quero que vocês saibam de outra coisa. Eu terei em breve 18 anos. Se a vida que vamos ter em África não for do meu agrado eu voltarei para cá. Com ou sem o vosso consentimento.
Joaquim olha para a filha com ar sereno, respondendo.
-Vamos guardar este tema para a chegada e adaptação a uma nova vida em Moçambique. Tenho as melhores informações daquele país austral junto ao oceano Índico.

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