Parte I – No rescaldo dos cravos
A cidade de Londres, fiel à si própria, encontra-se nublada e cinzenta neste novo dia 25 de abril de 1974.
Alfredo tem em mãos uma passagem de regresso a Lisboa para embarque pelas 9 horas da manhã.
Em casa do seu amigo Simon e preparando-se para uma deslocação até ao aeroporto de Heathrow, algo totalmente inesperado chega ao seu conhecimento através da televisão.
A notícia é do tipo “Breaking news”. Golpe de Estado em Portugal originando a suposta queda do regime político denominado ao longo das últimas quatro décadas de “Estado Novo”.
Prestando toda a atenção a esta notícia bomba, Alfredo pode compreender que as tropas, sob orientações de um grupo de capitães do exército, invadiram aos primeiros raios de luz o quartel do Carmo em Lisboa, obrigando o regime a curvar-se perante uma revolução com forte adesão popular.
Perante estes factos, Alfredo compreende igualmente que o movimento aeroportuário em Portugal está encerrado e as fronteiras do país fechadas. Sem perspectiva de normalização. A sua viagem para Lisboa está totalmente comprometida.
Após alguns contactos telefónicos com a TAP, é agora informado que não há previsão para o seu voo com destino a Lisboa. Igual resultado foi obtido ao longo de todo o dia.
Opção única: apresentar-se na manhã seguinte no aeroporto de Heathrow e explorar as oportunidades de um possível regresso a Lisboa.
Antes de sair da casa de Simon, Alfredo sente através das últimas notícias da televisão, que a tensão política parece estar a normalizar-se, dado que não houve oposição do regime ao golpe militar.
Por outro lado, a adesão popular é geral, as ruas estão carregadas de manifestações, palavras de ordem e mensagens de cariz comunista em apoio ao MFA (Movimento das Forças Armadas). Foi igualmente possível entender que o Marechal António de Spínola tomara posse do comando das forças armadas e do país.
Ao raiar de um novo dia e depois dos agradecimentos e um forte abraço ao seu amigo de faculdade Simon, Alfredo desloca-se para o aeroporto usando os transportes habituais. A incógnita quanto à sua viagem persiste.
Uma vez em Heathrow e em contacto com o balcão da TAP, as notícias de Lisboa são escassas e difusas. Muita paciência e uma longa espera são agora a sua melhor opção.
O dia foi passando sem novidades anunciadas pela TAP.
Numa chamada telefónica para casa do tio Manuel em Lisboa, Alfredo pode entender que o país se encontra em total ebulição. Ninguém sabe para onde vai o novo Portugal. Algo é certo. A Revolução dos Cravos, conforme foi conhecida no mundo inteiro, está consumada. Os dirigentes dos partidos Comunista e Socialista, com o apoio das Forças Armadas, parecem tomar em mãos as decisões do país.
Ao final deste dia de grandes incertezas, Alfredo é informado que o aeroporto da Portela, em Lisboa, já está aberto ao tráfego, mas com múltiplas condicionantes.
As autoridades funcionam de forma desarticulada sem saber muito bem quem manda no quê.
São 22 horas quando a TAP anuncia a retoma ainda esta noite de alguns dos voos programados em escala. Alfredo vê assim uma aberta para o seu regresso a Portugal.
Com um golpe de sorte consegue embarcar no voo das 23h 30m.
27 de Abril de 1974
Uma vez em Portugal, Alfredo dá-se conta do inicio de grandes transformações no país em consequência da revolução. Está assim concluído um período histórico iniciado nos anos 30, quando o ministro da Fazenda António de Oliveira Salazar assume a presidência do Conselho de Ministros e a chefia do governo em Portugal por um período de uns longos 40 anos de escuridão.
A recém nascida democracia dá assim os seus primeiros passos. Um período inicial de enorme turbulência com a radicalização do chamado “Processo Revolucionário em Curso”, no qual empresas e bancos são desapropriados em favor do novo estado.
Segue-se o chamado “saneamento” onde milhares de funcionários públicos perdem os seus cargos, muitos dos quais professores universitários. Gabinetes ministeriais são derrubados e um número alargado de personagens ligados ao regime tentam por todos os meios abandonar o país. Sobretudo os membros da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), os denominados carrascos do regime deposto.
O presidente em exercício antes do golpe, Prof. Marcelo Caetano, é convidado a abandonar o país pedindo asilo político no Brasil.
O Partido Socialista, uma das bases de apoio da Revolução dos Cravos, deixa o governo, distanciando-se da radicalização do Partido Comunista. A Assembleia Nacional Constituinte é “sequestrada” por elementos radicais, tendo os deputados sido mantidos presos no recinto da assembleia.
Nesta espiral de tantos acontecimentos, Alfredo tenta compreender qual será o destino dado às colónias portuguesas espalhadas pelo mundo. Mais particularmente Moçambique onde se encontram os seus pais.
No horizonte não se desenha nada de bom. Na fala de dirigentes comunistas de cariz marxista-leninista, tudo indica que os portugueses residentes além mar irão a partir daqui perder o seu chão. Consequência dos movimentos de libertação dos territórios ocupados que tomam posições firmes com os olhos nas respectivas independências.
Os portugueses residentes naqueles territórios passam a ser considerados efeitos colaterais da revolução. Tema para acompanhar com a devida atenção.
Em Portugal a revolução deixa marcas sociais profundas. A liberdade de expressão ganha as ruas e as manifestações de esquerda invadem o espírito atordoado de um povo que passou quatro décadas debaixo dos brandos costumes num ambiente de total ostracismo político-social.
Os militares tomam contas das ruas. O denominado “Copcon” composto de militares desmazeladamente fardados, de cabelos e barbas longas. Ícones como “Che Guevara” e o livro vermelho de “Mao Tse Tung” surgem em grande número de outdoors, jornais e revistas nacionais.
Na sequência de uma série de convulsões sociais e políticas, Portugal tenta caminhar para um regime democrático onde os partidos Socialista e Comunista mantêm a sua influência no novo quotidiano dos portugueses.
Chega entretanto o novo ano de 1975.
Neste turbilhão de profundas alterações da vida lusitana, Alfredo mantém contacto com a família em Moçambique.
Fica deste modo a saber ao detalhe acerca do grande êxodo de residentes portugueses nas várias colónias além-mar, sobretudo de Angola e de Moçambique. No horizonte está a independência de todos os territórios ocupados que iniciaram uma guerra colonial contra o invasor Portugal a partir de 1960. Um cenário de horrores escrito com sangue, suor e lágrimas nos anais da história de um processo colonial único no mundo.
Por decisão própria e após as agitações político-sociais vividas em Moçambique a caminho da independência, o casal Sousa Campos, pais de Alfredo, atingem a sua idade de reforma, regressando à Austrália. Fiona, sua irmã, e o marido instalam-se na vizinha África do Sul.
Face a este período louco vivido em Portugal após a Revolução dos Cravos, Alfredo continua instável, sem saber o que fazer de sua vida. As tentativas de contactar Susana continuam marcadas pelo insucesso.
Chega entretanto uma notícia de Londres que encheu Alfredo de orgulho. Na caixa do correio de seu tio Manuel em Lisboa, um exemplar da mais recente publicação da National Geographic Magazine, onde aparece incluída a sua reportagem acerca da corrida ao ouro no Brasil.
Na euforia desta novidade boa, Alfredo pega no telefone para dar a notícia a Susana.
A custo e depois da insistência da mãe, Susana lá vem ao telefone para trocar umas palavras com Alfredo. As primeiras desde que regressou a Portugal.
-Estou, Susana! É Alfredo. Venho dar-te os meus parabéns! -diz este jovem com alguma ansiedade na voz.
-Olá, Alfredo! Parabéns de quê? -responde Susana algo defensiva.
-A nossa reportagem foi publicada na última edição da Geographic.
-Fico contente por ti. Afinal o mérito é teu.
-Não concordo, Susana. Fizemos um excelente trabalho de equipa e o mérito é nosso.
Faz-se um breve silêncio. Quando Susana responde:
-Podíamos ter feito melhor, não te parece? Em outras circunstâncias! Mas foi o que foi. Na história não se volta atrás. Desejo-te sorte, Alfredo.
-Fui convidado pelos meus pais a ir visitá-los à Austrália para onde regressaram. Eles, com toda esta confusão política, saíram como tantos outros de Moçambique. Poderemos ver-nos antes de eu partir?
-Alfredo, vais voltar à tua terra natal onde talvez encontres o teu caminho profissional, perto dos teus. Compreendo essa tua ideia. Quem sabe, se um dia regressares a Portugal, possas dar notícias e sairmos para beber uma imperial ou duas.
Empolgado com a resposta, Alfredo retorna:
-Não esquecerei o que acabas de me dizer. Obrigado, Susana. Te darei notícias minhas do outro lado do mundo.
-Vai, Alfredo! Parabéns uma vez mais pela publicação!
Fevereiro de 1975
Alfredo, aceitando o convite dos pais, desloca-se até ao outro lado do mundo. A Austrália onde estes já se encontram instalados numa confortável residência em Fisherman Islands, perto de Brisbane.
Primeiramente, será uma viagem na TAP até Londres, partindo de lá na Quantas Airlines rumo a Sidney com escala em Nova Deli e Singapura. E nova ligação com Brisbane. Cumprindo ao todo mais de 30 horas de voo.
-Haja paciência! Vamos em frente! – diz Alfredo para os seus botões.
Na compensação de tão extensa viagem está o reencontro com os pais e sua irmã mais velha Judite e respectiva família que nunca saíram daquele canto do mundo.
A saudade é naturalmente grande.
Este é um período de estabilidade emocional que confere ao jovem antropólogo uma certa serenidade e um valioso tempo de reflexão.
Com as transformações politico-sociais em Portugal e em Moçambique, Alfredo equaciona a eventualidade do seu restabelecimento na sua terra natal, mais perto da família.
Certa noite, em casa dos pais, Alfredo é apresentado a um amigo da família de nome Stephen Logan, cujo pai Sir Arthur Logan foi um companheiro do avô Donald com quem partilhou múltiplas aventuras à volta do mundo.
Igualmente de origem escocesa, Stephen Logan, com os seus 70 anos, é um sujeito de porte altivo, amigo do conhecimento e de uma notável cultura geral.
Da sua fala bem articulada, sobressai o dom natural de um bom contador de histórias, mostrando-se muito interessado no percurso de Alfredo.
Uma longa e abundante conversa em inglês toma forma, acompanhada das artes de bem receber do casal Souza Campos.
Num ambiente animado, passaram-se em revista inúmeras vivências da família, a sua viagem entre a Austrália e Moçambique, a vida na África austral, as aventuras e desventuras de Donald Mackenzie na companhia de seu pai Arthur e, muito naturalmente, as mais recentes andanças do jovem Alfredo pelo mundo.
O fruto maior da conversa com este singular personagem traduziu-se num convite formal para o acompanhar numa visita, incluindo estadia e safari fotográfico, a uma região percorrida no passado por seu pai na companhia de Donald Mackenzie, na África oriental.
De olhos arregalados Alfredo quer saber mais.
-E que região é essa?
Stephen, com a descontração que o caracteriza, responde:
-A região dos Grandes Lagos no continente africano e de outros países limítrofes de grande interesse geográfico e etnológico.
-Pode dizer-nos um pouco mais sobre essa região? -pergunta Alfredo visivelmente animado.
-Então vamos lá. -avança Stephen com a sua singular capacidade oral.
A região dos Grandes Lagos Africanos é composta por um conjunto de vastos lagos de origem tectónica, localizados na África oriental, que incluem alguns dos lagos mais profundos do mundo. A maior parte destes foi formada há cerca de 35 milhões de anos no Vale do Rift Ocidental, um dos ramos desta formação geológica que abrange a Etiópia, Quénia, Tanzânia, Uganda, Ruanda, Burundi, República do Congo, Malawi e Moçambique.
A África oriental despertou desde cedo o apetite dos grandes exploradores africanos.
-Fabuloso! -exclama desta vez o pai Joaquim. Não fazia ideia dessa extensão.
-Diga-me então, Stephen! -pergunta Alfredo trocando um olhar com os pais.
-Estou entusiasmado com este seu convite. Seria para quando essa viagem?
-Teremos que evitar a época das chuvas na região. Que, em regra, ocorre de fevereiro a maio e de novembro a dezembro. Penso que a data ideal seria em setembro ou outubro deste ano de 1975.
Estavam deste modo delineadas as linhas condutoras de um novo horizonte para Alfredo Souza Campos.
Os meses seguintes são passados na Austrália onde Alfredo se dedica a duas tarefas essenciais. Reler as notas de bordo deixadas pelo avô Donald sobre esta região africana e pesquisar no “Brisbane Museum” e “State Library of Queensland” todas as informações disponíveis sobre África oriental.
No decorrer destas visitas e em contacto com responsáveis do “Brisbane Museum”, Alfredo desenvolve algumas iniciativas de âmbito profissional. Numa ótica de interesse comum, este jovem aceita o convite desta instituição para tomar em mãos a reorganização do arquivo histórico, estabelecendo uma ponte com algumas instituições no Reino Unido.
Um desafio que, para além da satisfação profissional, lhe vai proporcionar uma razoável contrapartida financeira.
Com a proximidade do mês de agosto, Alfredo regressa a Londres para um reencontro com Stephen Logan. Sobre a mesa os preparativos para a tal viagem à região dos Grandes Lagos e restantes países da região.
Consigo Alfredo leva os escritos deixados por Donald, alguns dos quais explicam o interesse específico deste seu avô por esta região do mundo.
Donald Mackenzie, desde tenra idade que se interessou pelo percurso dos grandes exploradores do continente africano. Revendo alguns dos seus relatos Alfredo, lê em inglês:
“Entre os temas que mais moveram os exploradores em regiões inexploradas da África do século XIX ,está a tentativa de solucionar um mistério que causava polémica entre geógrafos e exploradores da época: Onde fica a nascente do rio Nilo?
Esta grande incógnita esteve na origem da descoberta e recolha de conhecimentos da região dos Grandes Lagos.”
Neste universo carregado de coragem e bravura, Donald Mackenzie refere alguém que sempre o fascinou.
“David Livingstone (1813-1873) considerado o maior explorador do continente negro e um grande herói britânico. Foi um missionário humanista que lutou contra o tráfico de escravos, tendo sido dado como desaparecido em janeiro de 1866.
Com uma estreita ligação a este personagem, está um outro que gera uma nova história igualmente fascinante. Henry Morton Stanley (1841-1904).
Originário do país de Gales, Stanley teve uma vida bastante atribulada em diferentes partes do mundo, considerado muitos anos mais tarde como repórter internacional.
Uma grande oportunidade de reportagem veio ao seu encontro quando entendeu empreender uma missão transcendente. Descobrir o paradeiro de David Livingstone.
Embora houvesse relatos sobre um homem branco que comandava uma pequena expedição no coração de África, muitos acreditavam que Livingstone estivesse morto. Stanley achava que não, então convenceu o “The New York Herald” a financiar uma expedição para encontrá-lo.
A expedição heroica de Stanley deixou relatos impressionantes para a posteridade.
Especificamente, quando esta explora uma região alagada pelas chuvas. Os homens caminham por dezenas de quilómetros com água pelo peito, sendo atacados por crocodilos, cobras e sanguessugas, e alguns até se afogam ao cair em pegadas de elefantes.
Os relatos de Henry Morton Stanley ressaltam o dia 10 de novembro de 1871. Naquela manhã, Stanley e sua expedição, carregando uma bandeira norte-americana, chegaram a Ujiji, uma vila com cerca de mil habitantes no leste de África, hoje território da Tanzânia.
Além do próprio Stanley, só havia um homem branco em Ujiji. Ele tinha 58 anos, mas aparentava ter uns 80. Muito magro, desdentado, com longos cabelos brancos e roupas rasgadas. Stanley se aproximou, estendendo a mão.
– Dr. Livingstone, presumo?
– Sim – responde Livingstone.
– Eu agradeço a Deus o facto de me ter dado a permissão de o encontrar.
-E eu sinto-me grato por estar aqui para recebê-lo.
A notícia da descoberta de Livingstone correu o mundo e causou revolta em Inglaterra, onde muitos não aceitaram a humilhação de ter um de seus filhos mais ilustres resgatado pelo repórter de um jornal norte-americano. Para tristeza ainda maior dos ingleses, Livingstone nunca retornou à Grã-Bretanha. Morreu em 1873, de disenteria e malária, numa região do lago Bangweulu inserido em território da então Zâmbia.”
-Fabuloso! – conclui Alfredo em silêncio.
Visivelmente entusiasmado com esta expedição e pelas matérias de valor antropológico nela envolvidas, Donald Mackenzie convida o seu amigo Arthur Logan, pai de Stephen, a empreender uma viagem por aquela zona de África. Corria o ano de 1905.
Circunstância extraordinária para condimentar este propósito, passados 70 anos.
Experiência para ser vivida pela 2ª e 3ª geração. Alfredo, neto de Donald Mackenzie e Stephen, filho de Arthur Logan. Os laços do destino! – pensou Alfredo.
Com a reunião destes ingredientes, o jovem antropólogo tem um impulso.
Contactar a National Geographic Magazine no intuito de realizar uma nova reportagem, tendo como tema a região dos Grandes Lagos em África.
A resposta foi algo vaga. A revista não assume compromissos e não garante a publicação. Mas face ao histórico de Alfredo com a instituição, esta demonstra disponibilidade na apreciação e avaliação da reportagem uma vez concluída.
Estará assim nas mãos de Alfredo construir uma matéria jornalística que possa conquistar o interesse da redação.
Estando reunidas as linhas gerais desta visita a África, Alfredo tem em mente uma outra ideia peregrina. Desafiar Susana para o acompanhar junto com Stephen Logan nesta passagem pela África oriental.
Num contacto telefónico para Lisboa, Alfredo lança as cartas sobre a mesa.
-Estou, Susana!
Reconhecendo a voz de Alfredo e escondendo com dificuldade a boa surpresa, Susana exclama!
-Alfredo! Há tempo que não sei de ti! Tudo bem? Estás na Austrália?
-Olá, Susana! – responde Alfredo entusiasmado com a recepção.
-Tenho estado na Austrália sim! Agora estou em Londres e com alguns novos projetos pela frente.
-Ai sim! Conta aí!
-Susana, escuta-me bem! Conheci na Austrália um personagem singular que é filho de um grande amigo do meu avô Donald. Alguém que partilhou com ele alguns roteiros de grande memória.
-Foi? E então?
-Então, nasceu ali uma grande conversa e um convite para uma viagem pela África oriental com visitas aos pontos por onde eles andaram, acompanhada de uns safaris fotográficos.
Agradavelmente surpresa com a notícia, Susana retorna:
-Bem, Alfredo! Lá vem mais uma daquelas que tu gostas, certo?
-Não, Susana! Daquelas que nós gostamos.
-Como assim?
– Pois é! Este meu contacto tem um objetivo. Convidar-te a participar nesta aventura. Se há alguém neste mundo que sabe escrever um bom roteiro. Esse alguém tem nome: Susana.
Um momento de silêncio marca um certo impasse.
Passados instantes, Susana responde.
-Estás a falar a sério?
-Nunca falei tão sério.
-E isso seria para quando? E por quanto tempo?
-Estamos em agosto, certo? A programação é partir para África em meados de setembro, depois da estação das chuvas. Segundo o Stephen, iremos passar um mês por lá e seremos seus convidados.
-Alfredo! Apanhaste-me de surpresa, sabes? Dás-me um dia ou dois para refletir e ver como posso enfrentar isso.
– Valeu, Susana! Aguardo as tuas news. Espero que sejam boas.
Passados dois longos dias, Alfredo recebe de Lisboa uma notícia que lhe enche a alma.
Susana aceitara o desafio. Uma notícia que comporta um livro com páginas em branco. Para serem escritas por esta dupla que sabe bem como construir uma boa história.
Parte II – Ao encontro do Equador
No intuito de preparar esta nova aventura, Alfredo mantém um estreito contacto com Stephen Logan que o convidou para se hospedar durante este período na sua mansão no bairro de Kensington, em Londres.
Igual contacto é mantido com Susana que a partir de Lisboa vai reunindo as condições da sua participação nesta passagem africana. Alfredo transmite a Susana as linhas gerais do programa reservando os detalhes para quando se reunirem, mais à frente.
Agosto de 1975
Concluída a preparação deste plano a realizar em solo africano, incluindo a tomada das vacinas obrigatórias para quem viaja para estas partes do mundo e a aquisição dos respectivos vistos, segue-se a deslocação aérea até ao Quénia onde Susana irá ao encontro de Alfredo e Stephen.
A jovem portuguesa, olhando para este futuro próximo com entusiasmo, sente que esta será uma nova etapa da sua vida tendo encontrado uma forma de aliviar a tensão vivida nos últimos tempos no seio da família. O seu pai dá sinais de reagir à sua nova condição clínica, tendo incentivado a filha a fazer esta viagem.
Susana partirá de Lisboa até Amesterdão num voo da TAP, seguindo até Nairobi na KLM.
Por seu lado, Alfredo e Stephen irão direto para Nairobi na British Airways.
No aeroporto internacional Jomo Kenyatta, em Nairobi, faz-se sentir um ambiente diferente, a diversidade social de cariz africano, os aromas e a típica temperatura habitualmente sentida na linha do equador. O Quénia é um país cuja pegada é bem reconhecida por quem percorre o continente negro.
Alfredo e Stephen aguardam a chegada de Susana que fez escala na Holanda.
Uma espera minimizada por uma refrescante passagem no típico lobby destinado a passageiros de visita ao Quénia.
Alfredo sente alguma adrenalina correr-lhe pelas veias. Não é para menos!
A sua ex-companheira Susana, que guardara num coração que bate agora mais depressa, está a vir ao seu encontro. Um encontro adiado desde fevereiro de 1974, quando o destino abanou o horizonte destes dois jovens coesos e apaixonados no longínquo Rio de Janeiro. Vamos lá, Alfredo! O universo conspira.
Na área de desembarque do aeroporto estão dois cavalheiros trajados com tons claros bem ao estilo dos figurinos africanos. Um que, na sua habitual descontração, aguarda uma jovem que não conhece. Ao seu lado um antropólogo de cabelo arruivado que não tem mais unhas para roer.
À saída do desembarque surge uma jovem de estatura média , vestida com um elegante traje calça e camisa em tons de caqui, uma bota em couro muito feminina, um penteado bem cuidado sob um chapéu de cor parda, um lenço colorido e uns óculos de sol que não conseguem disfarçar a satisfação do momento. Ao ver Alfredo, um sorriso solar invade o espaço. Por seu lado o entusiasmado antropólogo reconhece de imediato aquele andar feminino na sua direção.
No seu espírito produz-se uma faísca. É bem ela! Susana.
Segue-se um sentido abraço que só estes jovens podem descrever.
Num inglês corrente, Alfredo apresenta Susana ao anfitrião e patrocinador desta viagem.
-Stephen, esta é Susana! Susana, apresento-te Stephen Logan!
O escocês, com um afável sorriso diz:
-Bem, agora compreendo porque Alfredo tanto fala de você!
-O prazer é meu! – responde Susana com um sorriso que cativa de imediato os seus recetores.
Confortavelmente sentados numa sala ali perto, para além da troca furtiva de olhares entre Alfredo e Susana, as conversas são agora centradas em torno desta nova experiência em solo africano. Os drinks vão diluindo as pedras de gelo tão apreciadas nestas paragens,
na companhia adequada de umas castanhas de caju bem torradas e meio salgadas.
Segue-se um trajeto em transporte local até uma zona residencial de Nairobi onde se instalarão numa moradia que pertence a um amigo de Stephen, que se encontra em viagem.
Durante este trajeto, Stephen oferece aos jovens que olham curiosos para todos os lados algumas informações sobre a cidade.
-Nairobi situa-se a cerca de 1.800 metros de altitude e é capital do país desde 1899. Uma cidade com uma vegetação expressiva e muito arborizada como podem ver. É um lugar onde é bom viver, principalmente para famílias. A dependência do automóvel é grande, as distâncias não permitem deslocações a pé e a vivência é mais rural do que urbana. Daí ser um ambiente favorável para as crianças crescerem com alguma liberdade e em contacto com a natureza.
A residência onde chegam, com um traço Vitoriano, é plena de conforto e será um ponto de partida e de chegada para um promissor programa a realizar nos próximos trinta dias.
À chegada, Stephen colocou os seus acompanhantes inteiramente à vontade. A mansão dispõe de seis quartos com sanitários individuais.
Susana, sentindo correr-lhe algum entusiasmo no espírito, tem dentro de si uma voz que murmura quando olha para Alfredo. Este miúdo continua a ter um charme danado!
Esta jovem, apesar dos percalços vividos ao longo do caminho, não esquece o que ela já vivera em tantas boas ocasiões na companhia daquele ruivo bem parecido.
Seguindo os seus instintos e em conformidade com as circunstâncias do momento, estes optam pela escolha de quartos individuais.
Após um período de relax e duches tomados, chegou o tempo dos recém chegados se reunirem para o primeiro jantar em terras de África. Refeição preparada com o toque da gastronomia local e servida numa sala bem ampla e finamente decorada.
Alfredo, em bom inglês, diz:
-Stephen! Temos falado a dois ao longo das últimas semanas sobre o nosso programa. Agora que Susana chegou, proponho que falemos mais detalhadamente sobre o que vamos fazer. O que acha?
-Com certeza! – responde Stephen, com a placidez que o caracteriza.
-Vamos lá! Tive algum tempo para refletir sobre esta nossa viagem. No meu espírito pairam duas ideias essenciais. Em primeiro lugar, percorrer alguns dos roteiros que meu pai realizou na convivência estreita com o seu grande amigo Donald Mackenzie, lá atrás do tempo. Sentir na medida do possível o que eles sentiram, num horizonte que, apesar de meio século passado, deixa grandes memórias na mente e no coração. Eu já conheço uma boa parte dos destinos que vamos visitar e uma convicção eu tenho. África profunda nunca cansa e nunca se esquece.
Em segundo lugar e após ler os artigos da vossa autoria na National passados no Egito e no Brasil, tive a noção que este programa estaria em boas mãos.
-Muito obrigada pela atenção! – retorna Susana deliciada com o ambiente.
-O que preparei para esta nossa passagem é fruto dos conhecimentos que fui adquirindo ao longo das múltiplas viagens que fiz por estas paragens, contactos privilegiados que mantenho com os vários lodges que vamos visitar e com serviços que vamos utilizar aqui e ali.
Olhando para Susana, Alfredo adianta algumas informações pertinentes.
-Em muitas das conversas que tive nas últimas semanas com Stephen, retive esta ideia que é importante registar:
A nossa estadia nos diversos pontos da viagem, para além da relação estreita que Stephen tem com as várias entidades que nos vão receber, vai ter custos, naturalmente. Consegui reunir algum capital de um trabalho que realizei na Austrália e algum apoio financeiro familiar para fazer face a tudo isto. Mas há outras formas para compensar estes custos.
-E quais seriam? – pergunta Susana curiosa.
-Como sabes, contactei a National com o objetivo de realizarmos um nova reportagem digna de publicação. Desta vez eles não criaram vínculos contratuais comigo, mas deixaram uma porta aberta para avaliar e eventualmente aceitar o nosso trabalho. A contrapartida será de darmos a visibilidade publicitária aos lugares onde vamos ser recebidos. Uma referência destas unidades numa revista como a National Geographic tem peso próprio, como imaginas.
-Entendo! – responde Susana. Da nossa parte nada será deixado ao acaso. Vamos com certeza impressioná-los!
-Bem! – retorna desta vez Stephen. Uma vez abordada esta questão logística, passemos ao nosso programa.
Ansiosa pela exposição que se segue, Susana é toda ouvidos.
-Começaremos pela Tanzânia onde vos quero mostrar três zonas especiais: O majestoso monte Kilimanjaro, a Cratera de Ngorongoro e as planícies do Serengeti, por um período de nove dias.
O brilho dos olhos arregalados de Susana não esconde o seu entusiasmo.
-Dali seguiremos para o Uganda – região dos Grandes Lagos onde os nossos ascendentes viveram intensamente algumas passagens da sua vida aventureira. Iremos sobrevoar o maior lago do Eastern Rift- o famoso Lago Vitória pernoitando duas noites na região e a seguir sobrevoar os lagos de Western Valley. Estaremos nesta região por um período de três dias.
Seguiremos entretanto em direção ao Lago Tanganica que é o segundo maior lago de África, partilhado pela Tanzânia, Congo, Burundi e Zâmbia. Passagem obrigatória dos grandes exploradores africanos. Uma estadia de quatro dias. A partir daqui faremos um break em termos de savana e vamos deliciar-nos com uma pérola da costa do Índico onde sempre regresso com muito prazer. Zanzibar, onde estaremos por três dias. Vamos a partir dali regressar ao Quénia onde iremos ver de perto algumas maravilhas do continente negro. O impressionante Vale do Grande Rift e conviver de perto com a rica cultura das tribos Masai. Aqui estaremos durante uns oito dias . Regressando por fim a Nairobi para gozar de uns dias no conforto desta simpática residência e vos mostrar um pouco mais da cidade antes do nosso regresso à Europa. O que vos parece?
Susana está em transe com esta proposta. Sente-se flutuar no imaginário daqueles filmes de Holywood. Alfredo, que já conhecia o programa, vê com grande satisfação o seu encantamento.
-Estou sem palavras! Nunca imaginei fazer na vida um roteiro destes. Recebo este desafio como uma experiência de vida. Sinto-me tocada pelo convite. Muito obrigada!
– Susana, já estiveste em Moçambique numas férias comigo. Uma experiência na África austral que ficou na nossa memória. Agora vamos entrar mais a fundo neste continente que a ciência humana classifica como o berço da nossa civilização ocidental.
-Sim! E quero acrescentar algo. Pelo que tenho visto em filmes e documentários, vamos entrar num universo fascinante e igualmente perigoso. Mas trago dentro de mim uma voz que me diz que vou estar bem acompanhada e que vamos fazer uma super reportagem.
Erguendo a sua taça de vinho, Susana acrescenta:
-Ao sucesso desta viagem! À nossa!
Gesto correspondido por Alfredo e Stephen.
-À nossa!
19 de Agosto de 1975 – Nairobi, capital do Quénia
Despertar na linha do equador é uma sensação que transporta os convidados de Stephen Logan para uma nova vivência em solo africano.
O pequeno almoço é servido numa varanda exterior desta simpática mansão. A vista é magnífica. Apreciada esta experiência gastronómica bem ao jeito inglês, é tempo de afinar o plano do dia.
-E quando iniciamos o nosso roteiro? – pergunta Alfredo ao seu anfitrião.
-Hoje vamos fazer um pequeno circuito pela cidade para melhor conhecerem Nairobi e tomaremos o nosso almoço num local que muito aprecio na cidade. Digamos que hoje teremos um dia mais relaxado. Amanhã ao nascer do sol começaremos as nossas andanças.
-Excelente! – retorna Susana entusiasmada.
A bordo de um carro confortável habitualmente utilizado por Stephen quando passa por Nairobi, os recém chegados percorrem a cidade bem arborizada até ao centro.
Segue-se um passeio a pé na Market St., entrando no mercado local. É um mercado formal que se situa num edifício no centro da cidade, onde se vende vegetais, carne, peixe, flores e onde se pode encontrar artesanato tradicional desde esculturas de madeira, máscaras, utensílios, tecidos, roupas, trabalhos de cestaria, cabaças decorativas, trabalhos em pedra-sabão, muita bijuteria em cobre e missangas, quadros com motivos africanos, entre muitas outras coisas.
Antes de entrar, Stephen adianta:
– Caso estejam interessados em adquirir algo como souvenir, o sistema é igual a muitas outras partes do mundo. Os preços são negociáveis e a regra é a mesma de sempre.
– E que regra é essa? – pergunta Susana curiosa.
– Stephen sorrindo, diz: – divide por três, começa outra vez!
A hora de almoço foi no Muthaiga Country Club, ao qual Stephen se referiu mais cedo.
Este famoso clube é um lugar especial, não apenas por conta da sua história, mas também pelas instalações de primeira classe e prestigiada gastronomia originada localmente. Os chefs de cozinha são famosos no país imprimindo um toque especial a cada refeição.
O amplo salão, bar e sala de jantar, adequadamente mobilados, completam este cenário de excelência.
Confortavelmente sentados para o almoço, Stephen vê uma oportunidade para apresentar mais alguns detalhes do programa de viagem.
-Ao longo deste nosso roteiro vamos ser recebidos em vários alojamentos bem típicos da região. Alguns deles em zonas mais isoladas onde estaremos próximos da vida selvagem.
-Uau! – exclama Susana encantada.
-Não deixarei de vos falar acerca destes lugares que já frequento há alguns anos.
O meu pai Arthur e Donald, o avô do Alfredo, foram amigos próximos de um personagem de grande prestígio. Aly Khan, que foi um embaixador das Nações Unidas representando o Paquistão, e foi também vice-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas. Ele era filho do Sultão Aga Khan III, líder da linha religiosa do Shia Islan, espalhada por diferentes países do médio oriente, Pérsia, Yemen e Afeganistão.
Consequência deste bom relacionamento, eu vim a estreitar laços com o primeiro filho de Aly Khan, de nome Karim Khan. Um homem com uma refinada educação e portador de uma grande visão empresarial que, em 1970, fundou um grupo económico denominado de Serena Hotels dedicado ao turismo de safaris de luxo, implantando várias das suas unidades pela África oriental. Aqui no Quênia, Tanzânia, Rwanda e Uganda.
-Notável! – exclama Alfredo impressionado com o relato.
-Desde então, eu venho mantendo um vínculo profissional com este grupo na qualidade de consultor. Isto dá-me algumas vantagens, incluindo as estadias que vamos usufruir ao longo da nossa viagem pela região em que vocês são naturalmente meus convidados.
Na maioria dos casos seremos recebidos em unidades do grupo Serena, sendo no caso do Lago Tanganica, num lodge particular de um velho amigo, e em Zanzibar numa unidade parceira.
A vossa possível contribuição será, como Alfredo já referiu, dar visibilidade a estes lugares na publicação na National Geographic Magazine. Caso isso venha a acontecer, será uma iniciativa com certeza bastante apreciada pelos nossos anfitriões.
-Tudo faremos para que tal aconteça. – retorna desta vez Susana, trocando um olhar confiante com Alfredo.
-Teremos outros recursos que serão essenciais para o sucesso deste nosso programa. Os transportes. As expedições realizadas pelos nossos antecessores há 50 anos levavam meses sobre o terreno. Para percorrermos as distâncias que temos pela frente neste espaço de tempo faremos várias ligações por via aérea em avião particular e os roteiros em terra com veículos 4×4. Será aqui que incidirão os maiores custos desta viagem.
Fazendo justiça à fama adquirida pelo Muthaiga Country Club, a refeição não poderia ser melhor apreciada!
Descontraidamente e acrescentando valor a esta vivência, a prosa estendeu-se num agradável circuito a pé pelo jardins do Clube. Ambiente extraordinário.
O regresso ao final do dia à residência conclui este primeiro dia africano.
Mais tarde, no confortável salão e tendo Stephen se retirado para uma noite de descanso, Alfredo, agitando umas pedras de gelo num Glenfidish, desenvolve uma prosa com Susana que por sua vez toma um Cherry.
Uma troca de sinergias neste primeiro dia permitiu a quebra de alguma distância e a descomprometida revisão das suas vidas desde que se separaram em fevereiro do ano anterior.
Uma aproximação algo contida confirma um sentimento partilhado por estes dois jovens lá atrás. Uma troca de olhares produz aquele brilho que deixa o circuito sanguíneo mais acelerado. Ambos sabem porquê!
Monte Kilimanjaro – As neves eternas de África
A manhã ainda é jovem quando os três companheiros desta nova aventura se apresentam no Aeroporto de Nairobi. Novo destino – Tanzânia.
Cumpridas as habituais tarefas de controle de passaportes e verificação de vistos para entrada na Tânzania, dirigem-se a pé para uma zona mais reservada de onde partem e chegam os voos em aparelhos de menor porte.
Ao encontro dos três vem um homem dos seus 40 anos, bem constituído, vestido ao estilo dos amigos do ar que com um sorriso afável estende a mão a Stephen dizendo em bom inglês:
-Stephen! Faz tempo, old buddy!
– Cá estou eu de novo, Charlie! Tudo em ordem? Deixa-me apresentar-te Alfredo e Susana, os jovens de quem te tinha falado.
-Muito prazer, eu sou Charles Matthews, bem vindos ao Quénia! Vamos voar por aí?
-Estamos cá para isso. – retorna Alfredo simpaticamente.
-Já tiveram outras experiências destas antes?
-Passeios curtos já. Responde Susana. E voa bem o seu pássaro?
-Está bem amestrado, miss! Aqui o Stephen sabe que comigo o céu não é mais o limite! – retorna sorrindo o bem disposto aviador inglês.
Devidamente acomodados a bordo do Cessna Turbo Stationair de 6 lugares e ao som típico do mono motor, a aceleração sobre a pista convida o ar a tornar-se gradualmente mais leve e o chão a sentir-se agora mais abandonado.
Alfredo vai instalado ao lado de Charles com o sua nova Nikon F2 de 35 mm SLR em mão. O festival de captura de imagens anuncia a sua chegada.
Atrás, vão Stephen e Susana, que leva os olhos preparados para uma experiência singular. As bagagens foram previamente arrumadas na parte traseira do aparelho.
Rumando a sul em direção à fronteira com a Tanzânia, Charles vai descrevendo as diferentes áreas sobre as quais vão passando. Nomeadamente uma magnífica vista sobre o rio Athi, a vasta planície de Mashuru, sendo avistado mais ao sul o Lago Amboseli.
Aproveitando este voo de baixa altitude, Alfredo vai captando algumas imagens aéreas que lhe atravessam a retina sem pedir licença. As informações dadas por Charles são replicadas por Stephen, dando a Susana razões de sobra para as primeiras notas no seu diário de bordo.
Ao atravessar a linha imaginária da fronteira com a Tanzânia, Charles prepara uma surpresa aos seus passageiros. À sua frente uma vista de tirar o fôlego. O Monte Kilimanjaro.
O ponto mais alto de África, com uma altura de 5 895m no Pico Uhuru. Este antigo vulcão, com o topo coberto de neve, ergue-se no meio de uma planície de savana, oferecendo a estes regalados visitantes um espetáculo único.
Antes de apontar este voo para o seu destino junto ao Parque Amboseli no Quénia, Charles proporciona a todos uma visão mais panorâmica do Monte Kilimanjaro com uma vista deslumbrante sobre a cratera no seu topo, sobrevoando igualmente o Monte Meru e as áreas circundantes. A Nikon de Alfredo não tem descanso. A caneta de Susana tão pouco.
Este voo de cerca de uma hora marca mais uma vez uma experiência que será memorável na vida destes jovens enfeitiçados.
Com uma suave aterragem na pista de serviço do Amboseli Serena Safari Lodge, é tempo de digerir esta primeira experiência em solo africano. Charles está naturalmente de parabéns pela experiência proporcionada neste primeiro voo de antologia.
Stephen acertara com Charles um custo de amigo para o apoio aéreo a esta aventura, estando acordado um acerto de contas parcial a meio do programa. Está deste modo combinado o seu regresso a este mesmo ponto dentro de dois dias, para seguir o plano.
O Amboseli Serena Safari Lodge foi criado para aventureiros com um sonho africano. Face ao Monte Kilimanjaro que sobe majestosamente além da savana dourada e pontilhada de acácias, esta unidade preparada para safaris, oferece uma mistura graciosa de beleza deslumbrante e total conforto no coração do Parque Nacional Amboseli do Quênia.
No intuito de limitar os custos de alojamento, Alfredo e Susana irão partilhar uma suite, sendo reservado a Stephen uma área privada onde passam convidados da casa.
As instalações são naturalmente típicas do ambiente refinado onde os recém chegados podem agora apreciar as diversas dependências desta unidade e as vistas circundantes que são efetivamente de tirar o fôlego.
Stephen informa que esta noite terão um evento tradicional denominado de Jantar no Mato.
-A sério! – exclama Susana entusiasmada.
-Os detalhes serão a surpresa! Vamos usufruir de algum descanso e nos encontramos aqui no lobby pelas 19 horas. Que vos parece? -pergunta Stephen.
-Bem, Stephen! – a caixa de surpresas também veio na sua bagagem, certo?
Risada geral.
O dia quente foi premiado por uns mergulhos na piscina e a degustação de alguns snacks preparados para substituir as refeições mais completas servidas na sala de jantar.
Uma vez recolhidos neste quarto com um traço bem africano, Alfredo e Susana estão pela primeira vez a sós depois de algum tempo. A emoção é naturalmente forte.
-Venha cá, Dr. Alfredo! – diz Susana chegando-se ao seu companheiro de quarto com um sorriso malicioso. Você é aquele rapaz meio australiano, meio moçambicano, meio português que um dia encontrei na Torre do Tombo em Lisboa?
Alfredo, sentindo a quebra total de algum gelo residual, responde:
-Não, a senhorita está a confundir-me com alguém! Mas sabe, a sua cara não me é estranha. É muito parecida com uma moça que um dia resgatei dum labirinto escuro em terras do Cairo, no Egito.
Susana, correspondendo ao jogo, retorna:
-A sua figura é de facto familiar. Talvez só haja uma forma de confirmar.
-Que vai ser?
-O Sr. dar-me um beijo daqueles. Logo saberei com quem estou a falar.
Este foi um momento emocional vivido por estes jovens jornalistas que estavam agora mais íntimos e prontos para escrever mais umas páginas da vida.
-Mas agora escuta aqui, Alfredo! – sabias que vais ficar de castigo pelas travessuras que andaste a fazer no Rio de Janeiro. Não sei quais foram, mas sei que aconteceram.
Olhando Susana nos olhos, o jovem antropólogo responde utilizando uma certa audácia.
-Os rios correm todos para o mar e Susana fica. Cappice?
-Hum! Vou tomar um duche, malandro! E depois de tomares o teu, convido-te a recostar-se ao meu lado naquela cama boa para o descanso dos guerreiros.
-Como não concordar, Dra. Susana! O ano que passamos longe um do outro foi real ou foi um sonho mau daqueles que caímos da cama e acordamos?
Roubando um beijo a Alfredo, Susana tira a língua de fora entrando naquela casa de banho apelativa.
O tal evento noturno que Stephen anunciou mais cedo tem lugar num bosque de acácias adjacente ao lodge. A noite está totalmente estrelada e a disposição das mesas e cadeiras em madeira rústica convida a uma noite especial com luz de lanternas e uma grande fogueira a crepitar. Além dos três recém chegados, marcam a sua presença neste local sugestivo duas dezenas de turistas de vários países do mundo.
Para animação chega entretanto um grupo de morans masai, guerreiros locais vestidos de escarlate. A cor tradicional desta lendária tribo do Quénia.
Tudo começa com coquetéis ao redor da fogueira.
-E que tal? Primeiras impressões do Quénia? – pergunta Stephen aos seus companheiros.
O brilho no olhar dos convidados fala por si. Estão maravilhados com o ambiente. A Nikon de Alfredo não vai ter descanso durante umas horas.
Em seguida, vem um jantar composto de seis pratos preparados num churrasco instalado a preceito, acompanhado por uma grande variedade de saladas e legumes.
Um momento que transcende as expectativas dos convidados.
Enquanto a sobremesa e o café são servidos, o grupo Masai entra em cena com músicas, cantos e apresentações de dança.
Já a estrela do norte vai alta quando é chegada a hora de recolher, agradecendo esta experiência que marcará as memórias de quem por aqui passou.
Para estes jovens jornalistas uma nova página se abre nesta sua passagem por África.
A partilha deste quarto a dois abre uma corrente de emoções e um elo que se suspendeu no destino. O maior deleite é aquele convívio corporal diluído no prazer de boas lembranças. Ao seu alcance está agora um descanso reparador e uma fluida passagem para uma promissora viagem ao limbo.
O novo dia desperta com a promessa de mais uma jornada quente pela frente. Uma bruma sobre o Kilimanjaro oferece uma visão idílica face a tamanha grandiosidade.
Os momentos partilhados nesta primeira refeição do dia, num ambiente de self service bem recheado, são geradores de boas conversas em torno das expectativas do novo dia que agora começa.
-E para hoje o que teremos? – pergunta Susana curiosa.
Stephen, dando um último trago de um excelente café, responde com a sua habitual descontração.
– Hoje a meio da tarde, depois da hora de maior calor, quero levar-vos a conhecer o Parque Nacional de Amboseli no qual se integra esta unidade.
-E o que podemos esperar? – pergunta desta vez Alfredo.
-Uma primeira demonstração da vida selvagem neste coração africano. Vamos deslocar-nos numa viatura todo o terreno com os guias da casa e um grupo reduzido de hóspedes. Mais não digo!
-Hum! Com um teasing destes a coisa promete. – pensam estes jovens curiosos.
Uns mergulhos na deliciosa piscina e um almoço ligeiro no salão de refeições completaram os desejos do dia. Seguindo-se uma tradição africana que possibilita atravessar a hora mais quente do dia em ambiente ventilado. A tradicional sesta.
A reunião do grupo dá-se no exterior do lodge, junto a um Land Rover 110 de cor verde safari de caixa aberta. São três horas da tarde e está assim dado o mote para mais uma singular experiência.
Stephen, na sua qualidade de quase jovem, senta-se ao lado do guia, sendo os restantes seis visitantes distribuídos no bancos traseiros.
-E que tal, senhores? Preparados para ver o mundo selvagem ao vivo e a cores? – pergunta o guia com voz animada.
-Pensamos que sim! – respondem alguns do grupo com a emoção no olhar.
Uma troca de olhares entre Alfredo e Susana não esconde um mix de novas emoções.
William, o motorista, é um um ex-guarda florestal e um experimentado guia de safaris.
Ao longo dos caminhos da característica savana africana, o grupo pode agora usufruir do seu conhecimento sobre questões de gestão da vida selvagem. Uma explicação detalhada recebida por todos como um verdadeiro privilégio.
Alfredo e Susana sentem-se como se estivessem num documentário da National Geographic. Por indicação de William, o grupo pode agora avistar um par de cheetas que demonstram as suas aptidões de velocidade. Extraordinária visão!
Mais à frente surgem agora os leões, senhores da savana que, da sua altivez, permitem uma aproximação ao alcance do zoom de Alfredo e restantes máquinas fotográficas em ação. Momento de especial emoção.
O sangue corre mais rápido nas veias dos participantes, quando dois quilómetros mais à frente surge uma situação digna do regalo de todos. Uma mãe leopardo e seu filhote que olha estes invasores com atitude defensiva.
Mais adiante deparam-se com um facto que quebra o sangue frio dos mais audaciosos.
Uma situação em que William interrompe a marcha, apontando para a frente e fazendo sinal para o silêncio de todos. Pela frente, a uns cem metros de distância, está sobre a pista o que em Moçambique chamam de Cambaco. Um elefante velho e solitário.
Em voz baixa William fixa o animal, explicando:
-Reparem no estado das suas defesas. Este é um elefante maduro que já tenho visto por aqui. Temos que estar atentos ao seu comportamento.
O sangue gela nas veias dos presentes. Alfredo prepara-se para captar o animal com a sua objetiva sendo de imediato interrompido pelo guia.
-Calma, amigo! O disparo da sua máquina pode perturbá-lo.
No momento que se segue, o majestoso animal abana expressivamente as orelhas. William conhece estes sinais. Vai iniciar uma carga.
Engatada a marcha atrás do Land Rover, os presentes dão-se conta da sua nova situação alucinante.
Está em marcha uma carga de elefante que os guias e rangers conhecem bem.
Susana e outros aqui presentes querem gritar, mas a voz não sai. Alfredo, recorrendo a uma coragem intuitiva, não perde o momento cobrindo esta carga com a sua Nikon.
É aqui que o guia faz uma impressionante demonstração das suas habilidades, conduzindo pela picada o Land em marcha atrás em velocidade acelerada!
Passados uns 400 metros desta desenfreada perseguição, o elefante dá sinais de estancar a sua marcha. O oxigénio volta a ser um aliado dos pulmões dos presentes a bordo do Land.
Uma vez parados, William explica:
-Agora respirem fundo! Já vivi outra situação idêntica com este animal. Aquela ideia que temos da memória de elefante é real. Dizem que um elefante nunca esquece.
Stephen, ao lado do guia, diz com um certo sentido de humor:
-Meu caro! Permita-me dizer-lhe o seguinte: Ele já fixou o número da sua matrícula e agora cada vez que o vê, é isto. Já pensou em trocar a sua placa?
Sorrindo, William responde:
-Acredito nisso, sabe? Mas ele tem as orelhas que abanam. Eu tenho a marcha atrás e esta habilidade de conduzir no mato. Mas no fundo nós nos entendemos. Exige respeito pelo seu território e nós temos que acatar!
Risada geral de coração apertado.
Feita uma estratégica inversão de marcha, dá-se o regresso ao lodge marcado por um espetacular pôr do sol, vendo ao longe um extraordinário grupo de impalas em marcha apressada. Mais uma imagem que não escapa aos fotógrafos a bordo.
Concluída esta extraordinária experiência, a opinião foi unânime. A partilha de fortes emoções e conhecimento da savana africana valeu largamente a pena.
William estava naturalmente de parabéns pela qualidade do passeio e sobretudo pela segurança transmitida aos demais em situações de cortar a respiração.
Já de noite, uma agradável refeição servida numa surpreendente varanda com vista para o Kilimanjaro foi palco de troca de emoções vividas no Parque Amboseli esta tarde.
Uma vez mais os sabores de África marcaram o momento.
Agora recolhidos no quarto, Alfredo e Susana encontram-se relaxados sobre a cama.
-E que tal, Susana! Como está a tua avaliação deste cenário africano?
-Menino! Estou deslumbrada com tudo isto! Tu tens com certeza umas fotos de grande qualidade.
-Acho que sim! E algumas excepcionais que tirei a uma rapariga que estava no grupo conosco.
-Ai sim! E quem era essa rapariga, posso saber?
-Podes, mas numa condição!
-Ai é, e qual, meu safado?
-Prometo contar-te tudo se ficarmos nuzinhos dentro destes lençóis.
– Hum! Continua incorrigível o meu antropólogo. Mas sabes que mais? Vou aceitar o desafio. Quero saber mais sobre essa senhorita.
Segue-se um momento adiado desde que Susana aceitou este desafio africano. Um momento que marca o final do curto castigo que Susana prometera infringir ao seu companheiro de outras viagens.
Numa deliciosa troca de reconhecidas emoções e prazeres, estes seres embalados em volúpia tornam-se gradualmente mais leves que o ar.
Há um vulcão que ruge, mas não é o Kilimanjaro. É o som de uma espiral de sentidos que transforma o tempo em mera invenção e torna o espaço sem dimensão.
Uma fusão que não se traduz por palavras e que marca positivamente a convergência destes dois jovens. A equipa está novamente completa.
Lá fora os sons das cigarras e dos noitibós da savana anunciam uma noite serena.
The lion sleeps tonight.
Novo dia. Despedidas e agradecimentos feitos, os jovens jornalistas acompanhados de Stephen são agora esperados na pista de terra batida do lodge por Charles Matthews que ali estava à hora combinada.
-Hi, Charlie! – exclama Stephen com entusiasmo.
– My dear friends! – responde o homem pássaro de sorriso fácil. Como foi a estadia por cá?
Susana adianta-se, falando em nome de todos:
– Uma viagem ao vivo e a cores pela National Geographic Magazine.
-Hum! Bom sinal! Mas preparem os olhos pois vamos para a Tanzânia. As bagagens lá atrás e vocês nos mesmos lugares, ok? Vamos a isto!
-Stephen, mantemos o nosso plano? – pergunta Alfredo preparando a sua Nikon para uma nova cobertura aérea.
-Com certeza! Ngorongoro, um lugar único no mundo!
A cratera de Ngorongoro – Tanzânia
Já no ar e usando um tom de voz mais alto devido ao som do mono-motor, Stephen explica:
– O que vamos sobrevoar é uma gigantesca cratera de um vulcão extinto há milhares de anos, considerada a Arca de Noé da África Oriental, que abriga no seu seio a quase totalidade das espécies animais da região, integradas num ecossistema que ainda não foi afetado pela mão do homem. Vamos observar do alto as suas falésias e o fundo da sua vastíssima cratera. Ngorongoro é um dos locais mais fascinantes de África. Prestem uma especial atenção ao que vamos ver.
Neste voo de baixa altitude vê-se a projeção de uma mancha escura no solo. A sombra do avião a mover-se através de vários tons de laranja e verde. Uma sucessão de manchas em movimento gravadas sobre uma paisagem singular, deslizando através do céu claro e nítido em direção ao Serengeti. Extraordinária visão!
As testas de Alfredo e Susana estão pressionadas contra as pequenas janelas dos dois lados do avião. A vista panorâmica que os envolve não deixa sentir qualquer desvantagem pela escolha do assento a bordo. A captação de imagens que Alfredo aprisiona com a sua objetiva e as notas de bordo registadas por Susana deixam adivinhar um excelente resultado.
O som único que enche o ar é o zumbido da hélice e em silêncio as emoções coletivas retratam bem a admiração de todos ao voar sobre esta impressionante região.
Com a habilidade que lhe é reconhecida, Charles oferece agora aos seus passageiros algumas novas experiências dignas das melhores sensações. Sobre o solo, bandos de impalas, algumas zebras mais adiante, um alargado grupo de gnus que, assustados com a esta passagem, correm livremente pela savana. Um espetáculo singular a captar pela objetiva de Alfredo.
Momentos de pura magia que encerram esta passagem inesquecível. Tempo de rumar ao novo ponto de encontro. O Ngorongoro Serena Safari Lodge, onde o grupo vai usufruir de novas experiências. Próximo encontro marcado com Charles Matthews dentro de quatro dias.
Esta unidade de excelência do Grupo Serena situa-se na orla da Oitava Maravilha do Mundo. Uma cratera pré-histórica que boceja para o céu há milénios.
No fundo de suas imensas muralhas há uma paisagem verde-azulada de tirar o fôlego, pontilhada de planícies, lagos e florestas. Um olhar sobre uma terra misteriosa, palco de natural grandiosidade e berço de uma prolífera vida animal em estado puro.
Na recepção oferecida nesta unidade aos recém chegados à Tanzânia, é agora feita a distribuição de quartos após realizado o controle de passaportes e vistos para estrangeiros de visita ao país.
Da arquitetura do Lodge ressalta uma estrutura em pedra armada e madeira rústica em tom escuro, conferindo-lhe um traço de integração natural no ambiente circundante, dotada de uma primorosa decoração de traço genuinamente africano.
Um dos locais de eleição desta unidade é, sem dúvida, a sala de jantar que apresenta uma encantadora arquitetura construída igualmente em pedra com uma soberba lareira e paredes adornadas com pinturas rupestres pré-históricas, umas luzes cintilantes e uma deslumbrante visão da cratera. Um refinado espaço social, ideal para todos os gostos e ocasiões.
No quarto que lhes foi destinado, Alfredo e Susana deparam-se com um elegante espaço decorado e varandas privativas em pedra com vista para a cratera.
Alfredo lembrou-se de uma frase que aprendeu no Brasil. Se melhorar estraga – pensou.
-Olha só a vista! – exclama Susana recostando-se num confortável cadeirão na varanda.
A resposta foi dada pela Nikon de Alfredo que captou aquele instante de pura felicidade da sua companheira.
Durante um pequeno almoço servido numa área coberta do primeiro piso com uma vista de superar as melhores expectativas, Stephen aproveita para acrescentar algumas informações pertinentes.
-A minha ideia de vos trazer aqui tem uma razão. Este foi um local de grande interesse para os primeiros exploradores do continente africano e cientistas em geral, por onde passaram, durante um alargado período de tempo, o meu pai Arthur na companhia de Donald, avô do Alfredo.
Há nos escritos que nos deixaram e creio que o Alfredo confirmará, inúmeros testemunhos da sua passagem por Ngorongoro.
Alfredo, atento ao detalhe, confirma com um aceno de cabeça.
-Ngorongoro na verdade não é uma cratera, mas uma caldeira de um vulcão que colapsou. Uma montanha que se acreditava ser tão alta quanto o Kilimanjaro que desabou em consequência de uma gigantesca erupção, criando a maior caldeira do mundo. Dentro dela foi criado um paraíso para a vida selvagem. Com temperaturas mais baixas do que a savana circundante e mais chuvas, como alimento permanente de água no interior desta área que abriga cerca de 70.000 mamíferos.
-Absolutamente extraordinário! – exclama Susana.
-E quais são as dimensões aproximadas desta caldeira?- pergunta desta vez Alfredo.
-Ngorongoro é a maior caldeira vulcânica inativa, intacta e não preenchida do mundo, com um diâmetro de 21 km, uma profundidade de 2.000 pés e uma área de 160 quilómetros quadrados.
-E é possível avaliar a idade da mesma?
-Segundo as investigações feitas há muito pela Geographical Society esta caldeira terá sido formada há cerca de 2,5 milhões de anos atrás, quando o gigantesco vulcão implodiu.
-E quanto à vida animal que aqui vive?
-Esta cratera abriga mais de 30.000 animais selvagens, incluindo milhares de zebras e gnus em grandes bandos. Para além dos parques da África do sul, este é sem dúvida um dos melhores lugares do mundo para ver os Cinco Grandes – leão, leopardo, rinoceronte, elefante e búfalo. Há quem chame a esta maravilha o verdadeiro jardim do Éden.
-E o nosso programa por aqui como será? – pergunta curiosa Susana
-Bem! – vamos lá. Estaremos por cá durante 4 dias, como previsto. Haverá alguns roteiros programados em conjunto com outros hóspedes do hotel. Teremos um almoço na cratera, uma visita ao desfiladeiro de Olduvai considerado por muitos como o berço da humanidade, um dia de maior relax onde assistiremos aqui no Lodge a uma pequena conferência sobre a obra de Charles Darwin, conduzida por um professor convidado. Um tema que apaixona os antropólogos e naturalistas em geral e no último dia um roteiro em viatura 4×4 à semelhança do que vivemos em Amboseli.
-Puxa! Stephen, com você nunca teremos tédio, hein? – retorna Alfredo entusiasmado.
Risos…
Chegada a hora do tal almoço na cratera, os recém chegados ficam a saber que a permanência humana nesta zona é naturalmente limitada por razões de preservação.
Servida no chão sobre umas típicas esteiras em palha numa das clareiras de uma floresta de acácias, esta refeição é tipo piquenique com um almoço completo, que normalmente consta de produtos cozidos e grelhados servidos num ambiente de bosque.
Há muito para ver na região. Antes e depois do almoço, os convidados ficam livres para desfrutar de extensos passeios a pé com a companhia de um guia.
Favorável a esta jornada está o facto da temperatura se encontrar mais fresca que a savana em geral, confirmando a diferença térmica atrás referida por Stephen.
Uma oportunidade de trocar impressões com outros hóspedes vindos de diferentes países em diferentes dialetos.
A Nikon de Alfredo não teve direito ao descanso. Tão pouco estes jovens que quiseram aproveitar cada minuto desta curiosa experiência.
O restante dia foi dedicado à organização do material de reportagem reunido até aqui.
O pôr do sol é um momento obrigatório destas paragens idílicas, acompanhado de uns simpáticos drinks e de prosas fluidas em ambiente descontraído. Momentos que se estendem por noites estreladas marcadas pelos sons das aves noturnas ou ao som de violão à volta de uma fogueira acesa.
Mas nem tudo são prazeres. Esta é a hora dos pernilongos vampiros. As boas práticas apontam duas condições para evitar este convívio. À volta de uma fogueira ou debaixo de uma rede mosquiteira. O acesso ao limbo é agora uma realidade. O corpo agradece.
Novo dia em Ngorongoro. Segundo o plano, o ponto alto do dia será uma passagem pelo desfiladeiro de Olduvai.
Tomado o habitual pequeno almoço e agrupados os participantes, é dada a partida para uma visita a este local de profundo significado histórico e arqueológico.
Uma vez no local que retira o fôlego a qualquer um, os guias reúnem o grupo para uma explicação do contexto desta visita.Tem a palavra um convidado especial da universidade de Oxford em férias na Tanzânia. O professor Leonard Thompson.
-Bom dia, todos. Tomo a liberdade de dar aos presentes algumas informações úteis sobre este local único no nosso planeta azul.
O relevo íngreme que temos à nossa frente, integrado no vale do Grande Rift, estende-se pelo leste de África, com cerca de 48 km de comprimento e está localizado nas planícies do leste de Serengeti, na região de Arusha, a 45 km de Laetoli.
O desfiladeiro de Olduvai onde nos encontramos, é um dos locais mais importantes do universo antropológico. Uma descoberta que provou ser de inestimável valor para promover a compreensão da evolução humana.
Ao escutar este professor, Alfredo relembra algumas aulas sobre este local administradas em Cambridge. A emoção é naturalmente grande. A sua objetiva está de serviço.
E o professor prossegue:
– Fruto de inúmeras escavações aqui realizadas em diferentes épocas por equipes de paleoantropólogos-arqueólogos britânicos e quenianos, aqui se alcançaram grandes avanços no conhecimento humano de renome mundial.
Segundo estes relatórios, o Homo habilis , provavelmente a primeira espécie humana primitiva, ocupou este desfiladeiro há cerca de 1,9 milhões de anos. Depois veio o australopiteco contemporâneo, Paranthropus boisei, há cerca 1,8 milhões de anos, seguido pelo Homo erectus, há cerca de 1,2 milhões de anos. A nossa espécie, Homo sapiens, que se estima ter surgido há cerca de 300.000 anos, ocupou este local durante 17.000 anos.
Ao longo da visita deste berço da humanidade, novas paragens são objeto de mais informações muito interessantes. O professor Thompson explica:
– Este local é significativo ao mostrar as crescentes complexidades de desenvolvimento social dos primeiros seres humanos, ou hominídeos. Sinais amplamente revelados na produção e no uso de ferramentas de pedra. Antes das ferramentas, podem ser observadas evidências de atividades de caça – destacadas pela presença de marcas de roer que antecedem as marcas de corte. E da proporção de utilização da carne versus material vegetal na dieta inicial dos hominídeos.
Prosseguindo os trilhos deste extenso desfiladeiro, é feita uma nova paragem para observação de novos traços. E aqui o professor, adianta:
– A coleta de ferramentas e restos de animais nesta área centralizada é uma evidência do desenvolvimento de interação social e da atividade comunitária da época.
Todos estes fatores indicam um aumento nas capacidades cognitivas no início do período de hominídeos e sua transição para homo Abilis, isto é, para o ser humano e sua forma e comportamento.
Realizados vinte dos quarenta e cinco quilómetros do desfiladeiro e antes do regresso ao lodge, é promovida uma paragem numa zona frondosa onde o grupo pode agora saborear um período de descanso e hidratação.
O professor Thompson aproveita o momento para comunicar aos interessados acerca de uma palestra que irá promover na manhã seguinte nas instalações do hotel, dedicada à obra do naturalista Charles Darwin.
-Serão todos bem vindos! Muito obrigado.
Um agradecimento correspondido que espelha a satisfação geral deste grupo.
O regresso à base com a visão de tamanha imensidão encerra este roteiro de superior interesse e a experiência de uma vida.
Uma vez mais o final deste dia em Ngorongoro deixou as emoções em alta. O jantar e o convívio em volta da fogueira foi animado pelo mesmo grupo de danças e cantares Masai da primeira noite em Ngorongoro.
A meio da manhã e conforme anunciado, os hóspedes interessados são convidados a se acomodarem numa acolhedora zona coberta do Lodge destinada a eventos, onde terá lugar uma pequena palestra conduzida pelo Professor Leonard Thompson da universidade de Oxford. O tema a ser apresentado concerne uma abordagem sobre as obras literárias de Charles Darwin. Uma palestra a ser naturalmente proferida em inglês que conta com a presença de grande parte dos hóspedes do hotel.
Este professor dos seus 60 anos de idade, de porte altivo trajado com o figurino africano em tons de caqui, dá início a esta conversa em família.
-Bom dia a todos. Antes de mais, agradeço a vossa presença neste lugar carismático onde nos encontramos. É a segunda viagem que faço à Tanzânia com a sensação de ser sempre a primeira. Como alguns de vós terão tido a oportunidade de observar na visita de ontem ao desfiladeiro de Olduvai, a Tanzânia é tida por muitos cientistas como o berço da raça humana. Aqui se descobriu o primeiro crânio humano e a cratera de Ngorongoro onde nos encontramos, e tem sido, desde os primórdios das explorações africanas, palco de inspiração e interpretação de factos que conduziram ao conhecimento que temos hoje do continente negro.
Nem sempre consensual, mas recheada de rasgos de lucidez, está a obra de alguns pensadores dos quais se destaca a caminhada de conhecimento realizada pelo naturalista britânico Charles Darwin ao longo do século XIX.
Iremos focar a nossa atenção em duas das suas obras literárias. “A descendência do Homem” e “A origem das espécies”.
Fruto das viagens que Darwin empreendeu pelo mundo e da especial atenção dada ao continente africano, este cidadão desenvolveu a sua teoria acerca da evolução humana defendendo a ideia que os nossos ancestrais iniciaram a sua marcha de desenvolvimento a partir daqui. Reunidos em grupos, sobrevivendo da caça e atravessando as planícies da África oriental, estes terão iniciado a sua caminhada evolutiva há milhões de anos atrás.
Na página 191 de seu livro The Descent of Men (A descendência do homem), publicado em 1871, Charles Darwin suspeita que o homem nasceu em África. Este cientista que criou a teoria da evolução das espécies escreveu sobre o que, até então, era apenas uma hipótese remota.
“É mais provável que nossos progenitores tenham vivido no continente africano do que em outro lugar”. A sua suspeita residia no fato de que os gorilas e chimpanzés, parentes mais próximos do Homo sapiens, eram africanos.
Na sua visão, o homem é oriundo daqui porque o continente oferecia (e continua a oferecer) uma diversidade de ambientes propícios à sobrevivência de primatas. Ao contrário de outras regiões do planeta, onde o clima passou por eras glaciais que dificultaram o desenvolvimento da vida. As oscilações climáticas da África não foram tão radicais. O continente tem paisagens de todo tipo: planícies, florestas, savanas, montanhas, desertos, lagos, rios e praias, uma exuberância de ecossistemas que fez florescer uma impressionante biodiversidade. A cratera de Ngorongoro é bem exemplo disto.
Flora e faunas abundantes significam alimento de sobra, e foi por essa razão que África também foi o berço de outros animais de maior porte como leões, elefantes, rinocerontes, etc. As opções de habitat e comida facilitaram a perpetuação dessas grandes espécies, que surgem apenas em cadeias alimentares complexas. Leões, elefantes e gorilas continuam vivos hoje em África porque seus antepassados tiveram opções para se adaptar diante das novas circunstâncias que foram surgindo ao longo de milénios, na qualidade de novos predadores, usufruindo de mudanças climáticas que beneficiaram a oferta dos seus alimentos.
Segundo ele, a evolução deu-se através da Seleção Natural onde os organismos vivos se adaptaram gradualmente e as espécies se ramificaram sucessivamente a partir de formas ancestrais.
Em muitos meios científicos a teoria da evolução de Darwin foi colocada em causa.
Creio mesmo que alguns dos presentes nesta sala terão algumas dúvidas quanto à sua ligação ancestral com os primatas.
Riso geral…
– Sem que esta nossa abordagem de hoje se torne muito entediante, iremos focar a nossa atenção na síntese de alguns pontos essenciais deste estudo.
Nomeadamente:
– Variação de espécies no estado doméstico versus variação na natureza
-Luta pela existência
-Seleção natural
-Leis da Variação
-Dificuldades da teoria
-Instinto
-Hibridismo
-Imperfeição dos registos geológicos
-Sucessão geológica dos seres vivos
-Distribuição geográfica
No final de cerca de 45 minutos de fala dissecando estes pontos em que o professor demonstra a sua notável eloquência e conhecimento, chega a hora da participação dos presentes.
Um cavalheiro dos seus 70 anos levanta o braço.
-Pois não! – responde positivamente o Professor. Diga-nos por favor o seu nome, a sua atividade e qual a questão que gostaria de colocar.
-Muito bem! O meu nome é Norman, sou de nacionalidade australiana e fui professor do ensino médio durante 35 anos. A minha questão é a seguinte:
-Na sua opinião, porque é que a evolução, uma “teoria” sobre o passado, é ensinada como se fosse uma ciência efetiva e comprovada?
-Interessante a sua questão! – exclama o professor. Creio poder afirmar que a evolução já foi observada; ela só não foi observada durante o período em que estava a ocorrer.
-E não seria seria benéfico se os evolucionistas fossem honestos e revelassem ao mundo que a sua teoria é uma hipótese (entre muitas) sobre o que alegadamente ocorreu no passado?
-Sou obrigado a concordar com esta sua visão.
Entretanto, uma senhora dos seus 30 anos pede a palavra.
-Pois não! – retorna o professor dando a palavra a mais um participante.
-Bom dia! Meu nome é Kate, tenho dupla nacionalidade sendo filha de pai austríaco e mãe sul africana. O que aqui coloco, após escutar a sua interessante exposição é o seguinte:
-Porque é que os evolucionistas toleram histórias da carochinha? Como é que a vida surgiu no nosso planeta?
-Uma vez mais entramos num campo hipotético. Ninguém sabe como é que uma mistura de químicos sem vida se organizou espontaneamente de modo a gerar a primeira célula. Na pura verdade, nós não sabemos como é que a vida se originou neste planeta.
Animado com o debate há agora um jovem na sala a pedir a palavra.
-Temos agora uma participação mais jovem. Diga-nos, por favor -exclama o professor.
-Bom dia a todos. O meu nome é Bernard, estudante de Ciências da natureza e sou originário do Quebec. A minha questão é a seguinte: Porque é que a Seleção Natural é ensinada como “evolução”, como se isso explicasse a origem e diversidade da vida?
-Excelente pergunta, Bernard! Por definição, a Seleção Natural é um processo seletivo e como tal, não é um processo criativo. Esta pode explicar a sobrevivência dos mais aptos. Dotados de certos genes que beneficiam um determinado tipo de criaturas a viver num ecossistema específico. Mas não a origem dos mesmos.
Alfredo, que já trazia em mente uma pergunta, levanta o braço pedindo a palavra.
-Pois não! Coloque por favor a sua questão:
-O meu nome é Alfredo. Tenho 27 anos, sou filho de pai português e mãe australiana e com uma formatura em antropologia. A minha pergunta é simples: O professor concorda com a teoria de descendermos dos macacos?
Sorrindo para a plateia o Professor exclama:
-Bem, ora aqui está a grande pergunta! Eu creio que temos múltiplas razões para acreditar na teoria de Darwin na compreensão e dissecação da nossa origem. Quanto à distribuição dos que rumaram mais para norte dando origem ao denominado Nearthental, surgem questões mais complexas na sua ramificação. O grande desafio está na compreensão sobre quando e como os humanos recentes se distribuíram pela Europa e Ásia, sendo para nós relativamente fácil identificar as diferenças genéticas com os nossos parceiros índios e orientais. Algo eu vos digo. Quando numa próxima oportunidade trocarem um olhar mais profundo com um Chimpanzé ou um Orangotango, lembrem-se de Darwin.
A troca de ideias em torno da origem do Homo Sapiens e a sua evolução estendeu-se com um simpático coktail servido no local junto com algumas iguarias dignas de degustação.
As conversas partilhadas entre todos fluem bem e Alfredo e Susana puderam trocar com o professor Thompson umas impressões sobre o propósito desta sua visita a África.
Ficou assim combinado que, caso esta reportagem fosse publicada na National Geographic Magazine, Alfredo faria o obséquio de enviar ao professor um exemplar.
Cumprida aquela sesta tão bem vinda nestas paragens, seguiu-se uma tarde entre piscina e uma boa leitura.
Alfredo aproveitou para rever com Stephen os relatos que os seus antecessores deixaram sobre Ngorongoro. Ação inspiradora e concordante sobre um ponto de vista.
Arthur Logan e Donald Mackenzie deveriam estar presentes na palestra desta manhã.
Muito seguramente ainda lá estaríamos esta tarde e, quem sabe, noite dentro.
Após a visão do pôr do sol que ninguém dispensa nestas paragens, seguiu-se um jantar na magnífica sala com uma vista para um espaço que se dilui em séculos de evolução.
Os jovens jornalistas deliciosamente instalados debaixo de um dossel mosquiteiro de grande dimensão dão asas à imaginação. Os seus apetites sensuais tomam conta dos seus instintos e os seus desejos vencem a força da gravidade. Uma espiral mútua de prazer que se dilui com a chegada de um limbo profundo.
No exterior, não longe dali alguns sons felinos marcam a saída das leoas para mais uma noite de caça.
Último dia em Ngorongoro. Uma excelente oportunidade de conhecer de perto o mais famoso santuário de vida animal em África.
São seis horas da manhã e tudo a postos. O dia promete.
Desta vez o grupo é mais alargado e serão dois veículos Land Rover de Caixa aberta.
Como em Amboseli, no assento da frente segue Stephen, logo atrás Alfredo e Susana e nos restantes assentos mais quatro participantes.
Eugene será hoje o nosso guia. Um Ranger de porte atlético, sorriso franco e bem bronzeado pela exposição solar. Teve a sua formação e reconhecida experiência de mato adquirida no Kruger Park da África do sul. Há alguns anos aceitou o convite para trabalhar na zona de Ngorongoro que conhece de olhos fechados.
Uma vez em marcha, o grupo tem à sua frente uma infindável cratera plena de expectativas e um dia que promete ser de boas emoções.
Seguindo uma determinada picada e alguns quilómetros mais adiante, Eugene para.
Susana em silêncio perguntou a si própria porque seria esta paragem.
Um bom guia sabe onde estão os animais e o que eles estão prestes a fazer.
Nesta ocasião, ele diz:
-Precisamos apenas de esperar uns minutos, indicando que um leopardo estava para descer de uma árvore.
E foi exatamente o que aconteceu. O sinuoso animal desceu e passou direto por nós sem nos prestar especial atenção. O festival de captação de imagens começa aqui.
Eugene garantiu que veriam tudo o que fosse possível, incluindo a migração de grandes grupos de gnus e zebras. Com a paciência necessária haverá muitas oportunidades para apreciar a vida animal e tirar excelentes fotos.
Desde logo o grupo compreendeu que Eugene é um excelente guia. A sua natureza gentil, as suas excelentes habilidades de condução, bondade, humor e a sua maneira de cuidar do bem estar de todos, são a prova de que estão em muito boas mãos.
Em complemento, é notável o seu conhecimento dos animais, dos seus hábitos e tudo que envolve o ecossistema, além da avifauna e flora circundantes.
A partir do momento em que entram verdadeiramente na cratera, tiveram dificuldade em acreditar na diversidade de animais ali presentes. Os chamados 5 grandes ali estavam, uns aqui outros ali, avestruzes acasalando, rebanhos de gnus a pastar, zebras em movimento, bandos de búfalos, muitas girafas e uma grande variedade de pássaros.
Estava largamente confirmada a designação de Arca de Noé. A cratera de Ngorongoro faz um excelente jus à sua fama. A maior concentração de animais do continente.
Eugene, profundo conhecedor do meio, avista animais que o grupo nunca poderia ver, colocando-se o mais próximo possível destes para o grupo os fotografar e os observar no seu ambiente natural. A quantidade de informações que este guia compartilha com todos é igualmente muito bem acolhida.
A dado momento ficamos parados assistindo a um leopardo dormitar sobre um galho de uma árvore. Eugene nota que o leopardo bocejou e diz:
-Ele vai ter uma atitude. Observem bem!
E no momento seguinte ele pula da árvore e afasta-se.
-Impressionante! – exclama Alfredo com a sua Nikon em riste. Como é que você sabia disto?
Descontraidamente, Eugene responde:
– Conhecer o comportamento dos animais é essencial para os rastrear e observar.
Mais à frente o guia dá uma nova prova deste seu conhecimento. Pára novamente a marcha do Land, pois viu uma cheeta à distância, dizendo a todos:
-Fiquem em silêncio! Vamos esperar um pouco, que ela vai passar neste caminho à nossa frente. Dito e feito. Instintos verdadeiramente surpreendentes. As máquinas fotográficas estiveram lá.
Estacionados numa grande clareira circundada de árvores frondosas, é chegado o tempo de algum convívio e toma de refrescos acompanhados de saborosos snacks que sempre forram o estômago.
Uma moça loira do grupo pergunta ao guia:
– Diga-nos lá! Você já viveu com certeza algumas situações de perigo nesta vida de guia.
Eugene sentado em cima de uma pedra responde:
-Não foi uma nem dez! Mas cada caso é um caso.
-Quer contar-nos um pouco sobre os cuidados a ter com certos animais? – pergunta Susana curiosa.
-Com prazer! Eugene prossegue:
-Comecemos pelos leopardos. Que cuidados devemos ter?
– Ao contrário da crença popular, os leopardos têm pouca probabilidade de atacar um ser humano. Como na maioria dos animais, este só atacará se se sentir ameaçado, ou terá como eventual alvo as crianças, considerando-as presas mais fáceis.
Nunca se aproximem de um leopardo. Se encontrarem filhotes, fiquem longe. É muito provável que a mãe dos filhotes cheire a vossa presença de longe antes que vocês possam avistá-los.
-E caso você seja confrontado com um leopardo? – pergunta outro membro do grupo.
– Neste caso, faça barulhos batendo palmas, gritando e agitando os braços. Isso fará você parecer maior e aumenta suas chances de eles recuarem e se afastarem.
Mas nunca fugir. Isso pode desencadear um instinto de perseguição no animal. Quando sentir que é seguro, você deve recuar lentamente. Mas não se esqueça de parar quando eles se aproximarem de você.
– E com os leões? – pergunta uma senhora do grupo.
-Sim! Falemos um pouco dos leões. Sobreviver a um encontro perigoso com leões é um jogo de sorte. Os leões observam os seres humanos cada vez mais como uma ameaça ao seu território de caça. Eles podem atingir velocidades de até 10 km / h, portanto uma tentativa de correr é inútil. Os leões estão muito acostumados a perseguir, então ficar de pé na sua frente aumenta suas chances de sobrevivência. Nunca se aproxime de uma leoa com filhotes, pois ela será muito mais protetora e ofensiva.
– Também vos quero dizer algo sobre outro dos cinco da savana. Os Rhinos.
Durante um safari, sobreviver a um encontro perigoso com rinocerontes pretos ou brancos requer alguns conhecimentos e muito sangue frio. A visão de um rinoceronte é relativamente fraca, o que lhe dá uma vantagem caso ele parta para o ataque na sua direção. Para melhor gerir o seu estado de pânico, você geralmente tem três opções: fugir, distrair ou enfrentar.
-Meu Deus! – exclama outra moça do grupo. E fazer o quê além de borrar as cuecas?
Risada geral.
– Se você estiver perto de árvores, fique onde você pode colocar a árvore entre você e o Rhino, ele tende a evitar grandes obstáculos enquanto corre.
Se você conseguir escalar uma árvore, mantenha-se pelo menos três metros acima do solo.
Outra alternativa é correr para um arbusto espesso. Se o animal estiver por perto é muito improvável que o siga. Embora os espinhos não sejam ideais, sustentar alguns arranhões é sempre melhor do que um confronto fatal.
-E se não houver árvores ou arbustos ao seu redor ?- outro pergunta
Fique de pé de frente para o animal. Fazer grandes ruídos e gritos fará com que, em regra, o rinoceronte se afaste de você.
Os rinocerontes em carga tendem a correr na mesma direção. Se o visarem e você tiver a chance de fugir, corra na direção oposta, pois eles têm uma probabilidade muito baixa de se virar e voltar para outro ataque.
Uma vez que estamos a abordar o comportamento dos “Big five”, não deixarei de falar de outro ser de respeito:
O búfalo-africano que é um dos animais mais ameaçadores de África, sendo contudo o menos emblemático.
Durante um safari, poucos vibram para fotografar um bicho que mais se parece com um touro. Talvez a única situação que chame um pouco mais a atenção é quando nos deparamos com uma manada formada por algumas dezenas de animais. Em regra, bloqueiam a estrada deixando ao fotógrafo uma imagem peculiar.
Além da necessidade de manter uma distância razoável do grupo, é vital estar atento ao fato de algum macho que se aproxime, é importante não irritar ou assustar estes animais para evitar reações imprevisíveis.
Se o búfalo africano é paciente e doce com os pica-bois, aceitando suas pequenas beliscadas, o mesmo não se pode dizer de búfalos machos que vivem isolados. Esses animais mais idosos foram, um dia, expulsos à força da manada por machos mais jovens . É sabido por naturalistas, guias e principalmente caçadores profissionais, que os animais que mais representam perigo para os seres humanos são justamente esses machos experientes que vivem sozinhos, sem nenhuma manada por perto. Das duas centenas de ataques fatais que acontecem por ano em África, a grande maioria é motivada por búfalos com este perfil. Uma vez mais a chave é evitar a aproximação. Com o búfalo solitário não há truques que possam garantir a sobrevivência de um ataque.
-E com elefantes? – pergunta Alfredo com uma expressão arregalada.
-Com elefantes a questão também pode ser complexa.
O essencial é observar sempre o movimento das orelhas. Se as orelhas do elefante estiverem presas, é provável que a carga venha a ocorrer. Isso geralmente é acompanhado por um tronco enrolado para dentro. É igualmente importante observar atividades de deslocamento. Isso inclui um tronco se contorcendo e balançando uma perna para frente e para trás.
Tente sempre manter o vento na direção do elefante. Dessa forma, o animal terá dificuldade em sentir o seu cheiro. Eles têm um olfato bem apurado. Se você puder se esconder a favor do vento, poderá evitar encontros. Se você correr, corra na direção do vento para dificultar o acompanhamento. Uma vez mais, seja barulhento. Pode ser possível afastar o elefante fazendo um barulho alto se houver alguma distância entre você e o elefante que está carregando. Alguns acham que essa é uma opção muito boa se você estiver dentro de um veículo. Por outro lado, se você está a pé e a tentar desviar-se do elefante que está muito perto de você, outros pensam que ficar quieto e olhar fixamente nos seus olhos é provavelmente a melhor opção.
Nunca mostre as costas ao elefante. Não vire ou corra! Correr incentiva a perseguição.
Se houver um veículo por perto e você puder manobrá-lo com rapidez suficiente, saia do local rapidamente. Se o elefante já estiver próximo ao veículo, ele poderá carregar em cima e arrastá-lo com grande facilidade.
Se precisar de correr, tente fazê-lo de uma maneira que engane o elefante. Um elefante em plena carga pode correr muito mais rápido que você. Os elefantes assustados, chateados ou irritados podem chegar a 35-40 km/ h. Correr em zig-zag, poderá confundi-lo. Corra o mais rápido que puder. A sua vida depende disso.
-Haja pernas! – exclama alguém do grupo.
Eugene sorri.
– Uma outra alternativa é escalar. Elefantes não conseguem subir obstáculos. Uma árvore robusta e de boa altura pode ser uma boa opção, mas lembre-se de que um elefante enraivecido pode rasgar uma árvore.
Por fim, este aviso. Não é aconselhado saltar para dentro d´ água. Além do fato de que a água pode abrigar outros animais selvagens extremamente agressivos, como serpentes, crocodilos ou hipopótamos, os elefantes são bons nadadores e podem decidir segui-lo dentro d´água.
– Enfim, meus amigos, a melhor regra é sempre a observação dos riscos e a leitura correta dos sinais. Hoje ninguém vai precisar de colocar estas regras em prática. Promessa de escuteiro.
Risada geral.
Esta jornada de observação neste oásis de vida selvagem revelou-se plena e inesquecível. Foi possível observar os cinco grandes a distâncias razoáveis e muitos outros bem próximos do nosso Land.
O agradecimento a Eugene foi um gesto unânime do grupo.
Stephen, mais em particular, deu a este ranger um sincero abraço dizendo:
-Meu caro! Você sempre me surpreende pela positiva. Esta jornada ficará na memória de todos. O nosso sentido obrigado pela experiência.
Ao que Eugene responde:
-Esta é a minha paixão e a minha missão. Ngorongoro no coração!
A última noite no Serena Ngorongoro Safari Lodge é coroada de um jantar de despedida na icónica sala de refeições do Lodge.
Nesta mesa está Stephen e os seus jovens convidados.
A conversa é animada pela troca de experiências vividas nos últimos dias. Momentos de grande enriquecimento visual e aprendizagem sobre o continente africano.
-Alfredo, suponho que a sua coleção de fotografias fará uma bela reportagem. – adianta Stephen.
-Estou convicto disso. Não esquecendo as notas da nossa Susana que é grande amiga dos tópicos. Só ela entende as notas do seu road book. Uma espécie de estenografia egípcia.
Risos.
-Mas vos garanto que o que ali está é material a sério. – responde esta jovem com um sorriso franco.
Sobre a mesa pode ver-se o menu desta noite
Quanto ás entradas
Sopa de escalopes – Sopa cremosa com escalopes, salsa e laranja seca
Ou
Composto de beterraba – Beterraba em conserva, sorvete de beterraba, queijo de cabra, rúcula e sementes de abóbora.
Quanto aos pratos principais
Costela de carneiro com Cous Cous, vegetais.
Ou
Codorniz panada com legumes salteados, espuma de capim-limão, com puré de batata
Ou
Risoto de cogumelos selvagens – com óleo de parmesão, cogumelos selvagens e trufas.
Quanto a sobremesas
Tábua de queijos – Variedade de queijo, conservas, chutney, torradas melba
Ou
Fondue de chocolate / Mousse de chocolate
Quanto a bebidas
Uma seleção de vinhos Tintos e brancos
ou
Sucos naturais de fruta.
Como esquecer momentos como este?
Tudo foi rematado com um excelente café produzido no vizinho Quénia. A partir de castas Arábica, ali se produz um café de qualidade, fino, requintado e cultivado em regiões com altitude entre 400 e 1.000 metros.
Numa noite com o coroamento de um céu estrelado junto ao equador, os sons da savana convidam agora a uma entrada no universo intangível dos sonhos.
Ngorongoro cumprira uma vez mais a sua promessa.
Planícies do Serengeti
Nesta manhã de um novo dia, feitas as despedidas e agradecimentos e antes de ir ao encontro de Charles – o homem pássaro, o tema foi naturalmente compreender o programa para a nova aventura em solo africano.
Stephen, com a voz articulada que o caracteriza, explica:
-Conforme o combinado, estaremos na região de Serengeti nos próximos três dias sendo alojados no Serengeti Serena Safari Lodge. Uma unidade que vocês irão com certeza gostar.
-E quanto aos roteiros? – pergunta Alfredo curioso.
-Hoje pela tarde iremos fazer um tour pela planície e no segundo dia uma experiência algo insólita.
-Algo insólita? – indaga Susana surpresa.
-Sim! Realizar um passeio noturno e passar a noite num acampamento em plena savana.
A expressão dos jovens jornalistas não esconde alguma surpresa. Susana franze o sobrolho.
-E no terceiro dia teremos mais uma sessão de conhecimento com uma palestra dada por um renomado Ranger sobre a vida animal.
-Ok! – responde Susana. Só fiquei na dúvida sobre essa noite no meio da savana.
-Trata-se de uma experiência oferecida pelo Lodge aos seus hóspedes. Quem vive estes momentos não esquece. Vocês vão gostar.
A bordo da máquina voadora de Charles, o grupo vai percorrer uma distância de cerca de 150 km em altitude baixa. O que, mais uma vez, é palco de novas emoções com a visualização da abundante fauna da região.
Na mão de Alfredo está um folheto recolhido no Lodge esta manhã com informações interessantes sobre o novo destino.
Aqui pode ler-se:
“O Parque Nacional de Serengeti é um parque de grandes dimensões (cerca de 40000km²) na ecorregião do norte da Tanzânia e sudoeste do Quênia, na África Oriental. Famoso pelas migrações anuais de gnus, zebras e gazelas que acontecem de maio a junho.
No Parque vivem mais de 35 espécies de grandes mamíferos como leões, hipopótamos, elefantes, leopardos, rinocerontes, girafas, antílopes e búfalos. O parque também possui hienas, cheetas, macacos, além de mais de 500 espécies de pássaros.
Serengeti, na linguagem da tribo Masai, significa “planícies imensas”. Essa tribo vive nas dependências do parque, nas zonas adjacentes e em parte do Quénia.”
-Fabuloso! – diz o jovem, passando o folheto à sua companheira.
A aterragem suave na pista de terra batida foi uma vez mais a prova de destreza de Charles Matthews.
-Até breve, Charles! Cá estaremos para mais uns voos neste teu condor motorizado!-exclama Stephen agradecendo.
– Cheers, mate! Have fun!
1º dia – Safari tour
Uma vez alojados em mais uma unidade do grupo Serena Hotels, os novos hóspedes deparam-se com uma localização e uma vista deslumbrante sobre a interminável planície.
As acomodações são constituídas de grandes bangalows independentes em formato de cogumelo, cobertos com a tradicional palha dos telhados da região.
Este hotel é uma joia premiada e considerado um dos locais mais bonitos da Tanzânia. Perfeitamente montado no alto de uma cordilheira repleta de acácias, este é um alojamento em estilo africano com uma soberba piscina, oferecendo vistas panorâmicas sobre as vastas e intermináveis pastagens do Serengeti. Imenso palco onde leões e cheetas perseguem suas presas e enormes manadas migrantes de gnus escurecem a paisagem numa busca incansável por novas pastagens.
Uma estadia que promete enriquecer o imaginário de quem aqui passa.
Pela tarde e devidamente equipados, os três recém chegados seguem a bordo de um Toyota Land Cruiser de caixa aberta tripulado por um guia tanzaniano de nome Zaki.
A bordo vão igualmente duas raparigas de origem sueca e mais um jovem suiço.
Profundo conhecedor deste roteiro e fruto dos doze anos ao serviço dos safaris na Tanzânia, este guia vai seguindo por uma pista deixando alguns animais se aproximarem para a captação das melhores fotografias.
A um dado momento Zaki pára a marcha, chamando à atenção dos presentes para um episódio da vida selvagem.
Uma leoa que acaba de se lançar sobre uma zebra – algo rotineiro no Serengeti.
Mas algo sucede e a situação toma um rumo inesperado.
Esta leoa abre espaço para que o restante bando pudesse participar no banquete.
Entretanto, dois jovens leões se aproximam também. Duas leoas do grupo, de imediato, os expulsam dali, impedindo estes jovens machos de participar no festim.
O guia, fazendo sinal de silêncio, explica:
– Estes dois jovens machos estão muito provavelmente na idade de serem excluídos do bando. Este terá sido o motivo do ataque por parte das leoas.
-E isto é comum acontecer? – pergunta uma das suecas, enquanto Alfredo cobre o acontecimento com a sua objetiva.
Ao que Zaki responde:
– Apesar de todo jovem leão macho passar por essa situação, é muito raro humanos testemunharem uma cena destas. Podem considerar-se privilegiados.
Os dois jovens machos foram mandados embora logo após a morte da zebra. Por isso, é provável que a disponibilidade de comida tenha estimulado as leoas a expulsá-los.
Normalmente, leões machos deixam o bando quando ainda são jovens e estabelecem o próprio grupo – muitas vezes lutando com outros machos, líderes de outros bandos, a fim de tomar-lhes o posto. Cada bando pode ter até três leões machos adultos.
As leoas continuam no mesmo bando por toda a vida, e, dentro dele, todas são parentes.
-Fabuloso! Hoje aprendemos mais sobre os reis da savana. – responde a outra sueca agradecida.
Uns quilómetros mais à frente Zaki abranda a marcha apontando numa determinada direção.
Ao longe vê-se um grupo de leões a rodear dois búfalos no sentido de um ataque.
Zaki informa que esta manobra leva por vezes mais de uma hora.
É chegado o momento do ataque. Chegámos na hora certa.
Mas os búfalos não só não se assustaram, como correram em direção aos leões.
Este grupo acabou batendo em retirada, depois que uma manada de búfalos mais adiante decidir ajudar os primeiros.
Alfredo e restantes fotógrafos não perdem o momento.
Zaki acrescenta:
– Os búfalos perceberam que estes eram leões jovens e não demonstraram qualquer medo. Estes não tinham nenhuma opção senão fugir. A condição de vida dos leões é por vezes perversa. Apesar de toda pressão exercida sobre os gnus, búfalos e zebras, os animais mais pressionados neste ecossistema são certamente os carnívoros, em especial os leões.
-E isso porquê? – pergunta o jovem suiço.
-Pela simples necessidade de estabelecer e manter sua hierarquia no grupo, por ter de buscar o seu alimento e por sofrer com a adversidade da disputa com outros animais da savana.
-E esta é uma atitude comum dos búfalos? – pergunta Susana.
Zaki, profundo conhecedor da vida animal, responde:
-De facto, os búfalos tem uma estratégia chamada de “Sistema de defesa coletiva” que é desencadeado quando um animal é atacado por um grupo de leoas.
O búfalo tende a vocalizar para seus companheiros. Se o búfalo atacado for o líder do bando ou se for um bezerro, o sistema de defesa coletiva é ativado. Os búfalos correm em direção aquele que está sendo atacado e intimida as leoas que sempre atacam em bando. Muitas vezes têm sucesso neste jogo de espantar o predador. Por essa razão leões tendem a atacar búfalos velhos, feridos ou filhotes.
Derrubar um búfalo é muito mais fácil quando a estratégia de ataque é montada e executada com a ajuda de 5 ou 6 leoas, mas bastante arriscada em todos os sentidos quando é feita independentemente. Leoas que atacam búfalos adultos de forma independente tendem a não ter sucesso, pois o animal geralmente consegue escapar de alguma forma do ataque e mesmo ferir mortalmente o seu atacante com os poderosos cornos. Derrubar um búfalo é uma tarefa difícil, pois é necessário executar o ataque na região do pescoço.
Vividos estes raros momentos que retratam bem os mistérios do comportamento e sobrevivência animal, é tempo de regressar à base. Com paragens aqui e ali para fotografar a vasta riqueza de aves na contra luz de um sol que se vai deitando num horizonte crepuscular.
Este grupo já tem uma história para um dia contar aos seus netos.
Alfredo e Susana levam mais este conteúdo de elevado valor jornalístico.
O jantar foi servido num salão deslumbrante. Um área decorada em madeira esculpida com passarelas cobertas agrupadas em torno de um churrasco circular central. Um salão com uma cúpula alta em formato de cogumelo apoiada por enormes pilares cobertos de papiro e embelezados com esculturas tradicionais sumptuosas de origem Makonde (norte de Moçambique).
A conversa à mesa teve como tema principal o quotidiano das últimas semanas e muito naturalmente o programa do dias seguintes.
Quanto à gastronomia, uma verdadeira excelência. Está assim explicada a cotação deste lugar especial no ranking das unidades safari lodge da África oriental.
O quarto destinado aos jovens jornalistas é um dos bangalows situados na encosta arborizada contígua ao main lodge, lindamente decorado, com uma king-bed munida de um dossel anti-mosquito, com a cabeceira de madeira esculpida à mão e uma varanda privativa com vistas deslumbrantes da natureza.
A noite promete ser daquelas em que o sonho comanda a vida.
Stephen, como vem sendo hábito, está muito bem instalado numa zona mais privada destinada a convidados Vip.
2º dia – Uma experiência noturna
Depois de um delicioso pequeno almoço num salão coberto e com uma decoração de excelência, é tempo de gozar as delícias da imensa piscina com vistas de tirar o fôlego.
-Diga-nos mais sobre o programa desta noite, Stephen! – indaga Susana expectante.
-Ora bem! Trata-se de um roteiro noturno que vocês farão na companhia de um guia da casa. Uma experiência que nada tem a ver com a visualização da vida animal durante o dia. Tudo é bem diferente à noite. O meu conselho é que levem roupa mais quente dado que à noite no mato a temperatura cai drasticamente.
-Mas, não vai connosco, Stephen? – pergunta Alfredo surpreso.
-Meu caro, não tem conta o número de passeios deste tipo que já fiz nas minhas passagens por África. Já não tenho idade para deixar a minha zona de conforto.
-Compreendo! E quanto ao alojamento durante a noite?
-Essa é a parte interessante do programa. Este acampamento que conheço bem fica numa zona onde se sente de perto a vida noturna da savana. Estou convencido que vocês não vão esquecer esta experiência. Conheço bem o guia e digo sem rodeios que vocês estão em muito boas mãos.
Este é um dia de descanso e organização dos elementos de reportagem recolhidos ate à data. O dia decorreu no deleite desta unidade hoteleira de excelência. A seguir ao almoço aquela tradicional sesta africana foi muito bem vinda.
Ao cair da noite, Alfredo e Susana são apresentados a Taú que os acompanhará nesta nova aventura.
Assim que o sol se deita no horizonte, os três embarcam a bordo de uma viatura Land Cruiser 4 x 4 coberta de uma lona, seguindo uma determinada direção.
Com a chegada da noite, a visualização da vida animal é efetivamente diferente. Taú vai indicando o que vai acontecendo. Para além dos faróis do carro ele acionou a potente luz de um spot light instalado sobre o tablier. Esta luz intensa permite visualizar os olhos de múltiplos animais que saem à noite para caçar, ou serem caçados. Podem ver-se olhos bem iluminados no breu da noite que Taú identifica sendo felinos ou herbívoros.
Alfredo e Susana, tocados por uma natural insegurança, levam o coração apertadinho. A temperatura desce drasticamente.
-Estamos longe do acampamento? – pergunta Susana algo assustada
Taú, na sua descontração, responde: – Dentro de uma hora estaremos lá.
-Que longa hora! – pensa Susana encostando-se mais a Alfredo.
Numa dada altura Taú pára a marcha. Com o indicador na boca faz sinal de total silêncio e apaga o spot light, acionando apenas os faróis de presença do veículo.
O coração dos jovens bate agora mais depressa. O ar fica mais gelado.
-O que foi? – pergunta Alfredo em voz baixa.
-Quando eu acender o farol vocês vão ver. Estejam bem atentos.
Com o ruído ensurdecedor de um rugir de felino, Taú acende o farol. A cena que surge perante os olhos é digna dos contos de terror africano. A uns 20 metros de distância dá-se o ataque de um leopardo sobre um jovem inhale (da família das impalas).
Um golpe sobre o pescoço é fatal para esta presa apanhada na calada furtiva da noite.
O leopardo, com um olhar de vidro encadeado pela intensidade da luz, observa-os por instantes, desaparecendo de seguida no mato com a vítima presa nas mandíbulas mortais.
-Uff! – exclama Susana. Haja coração!
Esta agitação marcou o ponto alto deste roteiro noturno. No pensamento, estes jovens trazem a ideia que fazer safaris à noite é necessário muito sangue frio. Para além do frio gélido da noite que atravessa os corpos sem pedir licença.
A chegada ao acampamento foi um momento de alguma serenidade e redução gradual de um estado de tensão.
Numa zona bem arborizada em plena savana, encontra-se um acampamento composto por seis tendas montadas sobre pisos de madeira e pouco distantes umas das outras. Espaçosas, cada uma têm um pequeno armário e duas camas de solteiro com grossas cobertas de lã, pois as noites são gélidas. Como durante o dia o interior fica escaldante, há janelas e portas feitas de tela. Todas se fecham com fortes zíperes. Na parte posterior ficam os sanitários comuns. Estes são amplos, com indiscretas paredes de bambu de 1,80 metros de altura e o céu como testemunha.
-Afinal, estamos no coração de África. -pensa Alfredo olhando para Susana que está de olhos arregalados.
Das tendas disponíveis apenas outra está ocupada por um casal australiano que viera mais cedo e que regressará amanhã ao lodge na nossa companhia.
Uma das tendas é sempre reservada aos guias.
As refeições são servidas na área comum, onde os hóspedes convivem à volta de uma fogueira. As mesas em madeira rústica formam uma roda onde é servido um jantar ao ar livre na base de churrasco de carne de caça. Uma deliciosa comida preparada pelo staff do acampamento. Um repasto testemunhado por um deslumbrante céu africano totalmente coberto de astros curiosos que observam o acontecimento ao som do crepitar da fogueira.
Apresentações feitas e reunidos à mesa, os participantes partilham agora daquele momento peculiar em torno do episódio noturno vivido no caminho e outras histórias inquietantes com animais selvagens que os guias sempre gostam de contar aos viajantes com emoções à flor da pele.
A conversa e a troca de ideias com o casal australiano é fluida, tendo Alfredo muito que contar da sua terra natal com estes seus conterrâneos.
A toma daquele tradicional café que a todos aquece a alma nesta noite gelada contribuiu para a satisfação geral.
Uma vez que os restantes participantes se retiram para as suas tendas, Alfredo e Susana encontram-se em redor da fogueira na companhia de um tanzaniano membro do staff.
Alfredo nota que este acaba de acender algo que lhe pareceu familiar. Através do peculiar cheiro no ar, o pensamento de Alfredo viaja até ao Rio de Janeiro. Maconha.
Na troca de um olhar sorridente com este africano de olho pequenino, este estende a mão a Alfredo oferecendo uma puxada naquele joint, que Alfredo aceita agradecendo.
Surpresa, Susana pergunta o que é.
Depois de voltar a saborear a qualidade deste produto natural, Alfredo responde:
-É uma erva natural que se fuma em muitas partes do mundo chamada de Cannabis, Marijuana ou Ganja. No Brasil chamam de Maconha.
-Sim! Já sei! E isso faz o quê? -pergunta a jovem desconfiada.
-Só experimentando, querida! O que te digo é que isto dá uma boa disposição daquelas, gargalhada fácil e a vida se torna mais relax. Qualquer stress desaparece.
-Bem! Se é assim e se tu já conheces, vamos lá!
-Não puxes muito forte! Isso pode provocar alguma tosse.
Confirmado o que Alfredo dissera. A conversa com o tanzaniano tornou-se leve e descontraída. Tudo serve para uma boa gargalhada. O tempo passa agora num ritmo mais lento. O lado bom daquela dádiva da natureza está confirmado. O stress desapareceu no ar. A sonolência acompanha e é chegada a hora de recolher e de curtir a primeira noite em plena savana africana.
Totalmente relaxados e com um apelo a um mergulho no limbo, resta fazer alguns preparativos. Descer as telas contra mosquitos. Que chegue a lua que se encontra em fase crescente e as brisas do mato tragam todos os sons e aromas da savana.
Não houve qualquer dificuldade em entrar no mundo imaginário dos sonhos que a cannabis oferece generosamente.
Passadas umas horas, estes jovens são despertados por uma tenebrosa voz que habitualmente se ouve por estas paragens. O aterrador urro de um leão. A pergunta imediata que não tem resposta é: Quanto longe ou terrivelmente perto estaria a fera?
Passados alguns momentos, ouvem-se passos ao redor da tenda. Em uma fração de segundo, estes jovens tocados por um indescritível stress fecham tudo o que pode ser fechado e se agacham na mesma cama sob os cobertores. Começando a prestar uma atenção especial aos barulhos, ouvem-se agora passos sobre a esteira do sanitário.
Susana olha aflita para Alfredo confiante que ele saiba o que fazer nesta situação de emergência.
Alfredo faz um sinal com o dedo na boca. Total silêncio nesta hora é a chave. Com uma pequena lanterna de bolso Alfredo ilumina na direção da entrada da tenda. A imagem que se segue é de gelar a corrente sanguínea. As chapinhas de metal das pontas dos zipers agitam-se forçadas por uma monstruosa pata peluda e amarela. No momento seguinte uma cauda roça na parede exterior da tenda. O cheiro do bicho é intenso. As palavras querem sair e não encontram força suficiente para vibrar o palato. O terror é rei.
O silêncio surge agora como a salvação. Não durou mais que um instante. Num ronronar pesado, Alfredo e Susana sentem de novo a passagem do bichano junto à entrada da tenda que é feita de papel perante as garras afiadas do leo. De novo o pânico toma conta do momento. E como um passe de mágica, a curiosidade do bicho o faz afastar do local tomando outra direção.
Os jovens assustados não ousam abrir aqueles zipers para confirmar esta realidade.
Uma tentativa de pegar no sono só foi conseguida já de madrugada onde o susto foi engolido pelo cansaço.
De manhã bem cedo, a única atitude possível é sair da tenda face aos primeiros raios de sol que trazem um calor impossível de suportar ali dentro.
Ao saírem para o exterior, deparam-se com Taú que os cumprimenta dizendo.
-Bom dia! Acordando bem cedo, hein? – pergunta o guia sorrindo.
De imediato contam ao guia o que sucedera de noite.
Ao que Taú responde na maior descontração.
-Isso é corrente nestas paragens.
-E que devemos fazer nestes casos?
-Relaxar e gozar a vida! Vamos lá tomar esse café.
O tema durante esta breve refeição foi muito naturalmente em torno da inesperada visita igualmente sentida pelo casal australiano que se encontrava no interior de uma tenda mais adiante. Uma história para um dia contar aos netos e uma descrição de valor acrescentado para a reportagem da National.
O regresso coletivo ao lodge foi palco de mais uma situação digna das melhores fotografias. A travessia do rio Mara por um alargado grupo de gnus. Um espetáculo singular, dado que esta travessia tem que ser feita em grande velocidade para evitar os crocodilos de grande porte que frequentemente fazem a festa com uma ou outra presa desprevenida. Não foi o caso desta vez, dado que os crocodilos não estavam no local.
O rio Mara corta os territórios do Quênia e da Tanzânia, atravessando as reservas de Serengeti e Masai Mara, desaguando no lago Vitória. Outro momento para a captura de excelentes fotografias. Um regalo para os fotógrafos.
Após um simpático almoço na singular sala do lodge, onde a aventura da noite anterior foi o tema forte, Alfredo e Susana não dispensam aquela sesta revigorante. Afinal, a noite passada não foi propriamente dedicada ao sono.
Conforme previsto, a palestra sobre o mundo animal tem lugar em breve no salão dedicado a eventos. A adesão é consistente juntando neste espaço hóspedes e convidados de várias partes do mundo.
Na qualidade de orador, com uma idade de 68 anos, apresenta-se um ex Ranger com uma prestigiada carreira em matéria de safaris, consolidada no Kruger Park da África do sul e nos maiores parques do Quénia e da Tanzânia.
Rutger van Dorth é um cavalheiro de nacionalidade holandesa, com uma altura de 1,85 m, cabelo grisalho e com uma boa articulação oral, tendo dedicado a sua vida ao continente africano.
Num inglês perfeito, dá as boas vindas à plateia.
– Boa tarde a todos! O meu nome é Rutger e conforme anunciado no folheto distribuído esta manhã, fui ao longo dos anos um grande apaixonado pela vida selvagem neste extraordinário continente. Hoje venho falar de alguns temas que envolvem a vida natural do território africano, de alguns dos seus mitos e personagens que permitiram o conhecimento que hoje temos desta parte do globo que não deixa ninguém indiferente.
Falaremos de um dos mais audazes predadores africanos. A leoa que é, sem dúvida, uma das vedetas de Serengeti.
Teremos igualmente a oportunidade de falar de uma criatura quase insondável à qual dediquei anos de observação e pesquisa. A hiena.
Iremos também abordar um mito africano – o cemitério de elefantes e por fim, o percurso de uma senhora que deixou um legado singular neste continente, criando uma leoa bebé conhecida no mundo inteiro, chamada Elsa.
Então vamos lá!
Quero começar o nosso encontro de hoje falando um pouco de um ser extraordinário que a mãe natureza colocou em solo africano. A leoa, o seu perfil e o seu comportamento social. A leoa é o caçador mais bem-sucedido de toda a África. É inteligente e amorosa, respeitando certos códigos nas suas relações sociais comparáveis às dos primatas. As leoas que comandam são denominadas pela ciência de “Fêmeas alfa”. Os seus filhotes herdam a posição social imediatamente abaixo das mães, semelhante ao que ocorre nas monarquias.
E o que leva as leoas a viver em bando? Não é apenas a necessidade de um esforço conjunto para matar e defender contra a morte. É igualmente a necessidade de proteger a descendência e manter os territórios de caça valorizados. Embora o tamanho dos bandos varie consideravelmente, desde uma fêmea adulta até um máximo de dezoito , os bandos de tamanho médio são os mais bem sucedidos na proteção das suas crias e manutenção do domínio territorial. Os bandos demasiado pequenos tendem a perder crias e a sua influência.
Os períodos de cio das fêmeas adultas estão frequentemente sincronizados, sobretudo se um episódio de infanticídio perpetrado por um macho tiver eliminado todos os juvenis e reposto os seus relógios a zero. Logo, crias de progenitoras diferentes costumam nascer aproximadamente na mesma altura.
Isto leva à formação de creches leoninas, grupos em que as fêmeas amamentam e protegem todas as crias. Estes cuidados cooperativos são encorajados pelo facto de as fêmeas de um bando serem aparentadas – mães e filhas, irmãs e tias, partilhando um interesse genético no sucesso reprodutivo umas das outras. Um bando com duas a seis fêmeas adultas parece ser o ideal para a sobrevivência em regiões como aqui no Serengeti.
E quanto aos leões. O tamanho das coligações de leões machos é ditado por uma lógica semelhante. Estas relações constroem-se tipicamente entre jovens machos que atingiram uma idade que já não lhes é permitido permanecer com o seu bando original, abandonando-o juntos para enfrentar a idade adulta. Um par de irmãos pode associar-se a outro par de meio-irmãos ou primos, ou mesmo a indivíduos não aparentados que se encontrem solitários, nómadas e necessitando de parceiros. Se juntar demasiados machos com estas características num bando errante, cada um ansioso por alimento e oportunidades de acasalar, é o caos.
Mas um macho sozinho ou uma coligação muito pequena também sofrerá de expressivas desvantagens.
– Tendo o foco neste primeiro tema, algum dos presentes tem alguma questão?
Um indivíduo de meia idade levanta o braço e pergunta:
-Por que são as leoas que caçam?
Ao que Van Dorth responde:
-O trabalho de alimentar o grupo fica a cargo das fêmeas, que são mais ágeis e rápidas, por serem menores e mais leves. Enquanto elas caçam, os machos protegem os filhotes. Para sustentar o grupo e ainda cuidar das crias, as leoas trabalham em equipa. Os leões caçam, mas muito de vez em quando. O macho é responsável pela demarcação do território e pela defesa do grupo de animais maiores ou mais numerosos, nomeadamente contra eventuais ataques de hienas, búfalos, elefantes e outros leões machos.
Uma rapariga da audiência levanta igualmente o braço pedindo a palavra.
– Por que razão os leões não comem as hienas?
-Pergunta interessante!…iremos a seguir falar das hienas. Isto dá-se porque a hiena vive de comer restos. E restos nas savanas envolvem fezes de outros animais, como a dos leões. As hienas comem cadáveres putrefactos porque são na maioria das vezes predadores oportunistas. Falemos agora dessa espécie por vezes insondável que habita em grande número estas paragens africanas. As hienas.
Animais desde sempre mal compreendidos, tidos como carniceiros burros e glutões, com uma risada demoníaca e um grave problema de relações sociais.
A reação negativa às hienas deve-se a muitos séculos de literatura refletindo o desgosto pela hiena, enraizado no psicológico humano.
Aristóteles descreveu a hiena como “grande apreciadora de carne em putrefação”. Hemingway rotulou o animal como “um hermafrodita devorador canibal de mortos”. E Roosevelt o caracterizou como uma “mistura singular de covardia abjeta e ferocidade extrema”.
Mergulhemos mais a fundo sobre as razões que sustentam estes estereótipos negativos.
Questão: serão as hienas animais estúpidos?
Na realidade, esses predadores do topo da cadeia alimentar são fundamentais para controlar as populações de presas e prevenir a proliferação de doenças, sobretudo por ingerir até o último pedaço de um animal.
As hienas-castanhas e as hienas-malhadas vivem em clãs bastante unidos liderados por um animal alfa, geralmente uma fêmea.
As hienas são considerados os carnívoros socialmente mais complexos do mundo.
Não é possível manter tantos vínculos sociais sem inteligência.
Nova questão: as hienas riem?
As vocalizações mantêm intactas as sociedades de hienas: o grito característico serve para recrutar mais hienas durante uma briga com leões, anunciar a aptidão física de um macho ou simplesmente informar localizações a outras hienas. É nessas ocasiões que se ouvem as gargalhadas ou risadas tão mal compreendidas, exclusivas das hienas-malhadas.
Na verdade, não é um sinal de felicidade. A hiena produz um som semelhante a uma risada quando está aborrecida ou stressada.
Outra questão: hienas alimentam-se apenas de carne em putrefação?
Na verdade as hienas são excelentes caçadoras e é mais provável que suas presas abatidas sejam roubadas por leões do que o inverso. No Serengeti, na década de 1970, o zoólogo Hans Kruuk descobriu que, quando hienas-malhadas e leões dividem as carcaças, as hienas são autoras da caça bem sucedida em 53% dos casos.
Qualquer carnívoro que se preze se alimenta de carne em putrefação, sempre que tenha essa oportunidade. Os seus maxilares semelhantes a marretas, estilhaçam ossos e tem organismos altamente ácidos que desintegram os fragmentos.
Devido à capacidade das hienas de esmagar e digerir ossos, seu leite tem um teor muito alto em cálcio.
Mais uma questão: serão as hienas animais fracos?
Nos desertos áridos do sul da Namíbia, as hienas-castanhas possuem uma área de ocorrência que se estende por até quase 3 mil quilómetros quadrados. Um animal que percorre em média 24 quilómetros por noite em busca de alimento, geralmente filhotes de focas junto à costa.
Tal resistência se deve em parte ao formato aerodinâmico de seu corpo. As patas traseiras curtas e grossas aumentam a eficiência energética e permitem que os animais se desloquem rapidamente e com facilidade. As hienas ainda contam com corações e pulmões fortes e grandes, além de narinas amplas que facilitam a entrada de oxigénio. As hienas estão longe de ser fracas criaturas.
Mais uma: as hienas cheiram mal?
O povo Kaguru da Tanzânia acredita que hienas escavam túmulos, o que, segundo a crença, é o motivo do mau cheiro. Na realidade, as hienas não exalam muito cheiro,
Se o assunto for o mau cheiro de animais, os mabecos (cães selvagens africanos) rolam sobre as próprias fezes. Estes sim, produzem um odor nauseabundo.
A glândula anal das hienas de fato excreta uma substância que os cientistas apelidaram de “creme de hiena”, que é uma pasta utilizada para marcar o território e tem cheiro de húmus.
Outra questão importante: as hienas são hermafroditas?
As hienas-malhadas fêmeas geralmente são confundidas com machos. Elas possuem genitais que se assemelham aos dos machos. Quando duas hienas, sejam machos ou fêmeas, se cumprimentam, o animal de maior posição social cheira os genitais do animal de menor hierarquia para reforçar os elos e reduzir o nível de stress. As fêmeas também urinam, copulam e dão à luz através desse pseudo pénis.
Um traço físico peculiar que ajuda a manchar a imagem da hiena.
Por último: serão as hienas vulneráveis à extinção?
Em razão da perda do habitat e da caça generalizada, as hienas-riscadas e hienas-castanhas são classificadas como ameaçadas de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza, órgão que define a situação de conservação das espécies.
As hienas-malhadas já se encontram em processo de extinção nas regiões centro e sul do continente. Perseguidas por produtores rurais e caçadores, ao que parece, sua população está em declínio fora das áreas de proteção.
Finalmente o ranger afirma:
– Não estou muito otimista com o futuro delas, principalmente perante a percepção pública negativa contra as mesmas.
Se pessoas que não são cientistas pudessem defender esses animais, seria mais fácil para o público entender que estas não são más criaturas.
-Novamente e para manter o dinamismo da nossa conversa, alguém tem questões a colocar sobre as hienas?
.Um jovem mais afastado quer saber o seguinte:
– Pois não?
– Qual a média de vida de uma hiena?
– Cerca de 12 anos. Uma média aplicada aos diversos tipos de hienas.
Susana levanta entretanto o braço.
-Qual é o predador da hiena?
Ao que o orador responde:
– O único animal que enfrenta uma hiena é o leão e mesmo assim não é um confronto garantido, pois se o leão se encontra com um grupo de hienas que mostram resistência até chegarem os reforços, este hesitará. Mas se for apenas uma hiena solitária, o leão atacará, com maiores possibilidade de sucesso. Conforme referido anteriormente, este ataque não tem como finalidade a nutrição. Ele visa sobretudo a marcação de território.
No decorrer de um coffee break oferecido pelo lodge, onde a troca de impressões e formação de opiniões está bem acesa, é dado o sinal para a continuidade da palestra.
Rutger van Dorth, entusiasmado com a participação dos presentes, retoma o seu papel de orador.
– Iremos agora abordar um mito africano que atravessou o imaginário dos apaixonados por este continente. O famoso “Cemitério de elefantes”.
Um lugar misterioso onde se pode ver um monte de ossos de carcaças de elefantes empilhados num determinado local, a perder de vista. Isto é, felizmente, apenas um mito. Há, no entanto, quem diga que todos os mitos estão baseados em teimosas verdades.
Este mito foi popularizado no cinema pela primeira vez em filmes como Trader Horn (1931) e os filmes Tarzan da MGM (1932-1948), nos quais grupos de exploradores gananciosos tentam localizar o cemitério dos elefantes, na fictícia “Escarpa de Mutia”, em busca de suas riquezas. O marfim.
Um lugar mítico em que, segundo a lenda, os elefantes mais velhos ou doentes instintivamente se deslocam em antecipação à sua morte, sozinhos, longe da manada.
O conceito é amplamente conhecido em toda a nossa memória cultural e, embora não haja evidências para apoiar a teoria, existem definitivamente alguns factos que podem explicar o nascimento do mito.
Diz-se que este lugar lendário atrai elefantes moribundos por uma força sobrenatural, algo que não pode ser explicado por leis naturais ou físicas. Os exploradores que afirmam ter descoberto este fenómeno nunca foram capazes de retornar com provas cabais do seu achado.
Então, qual é a resposta adequada para essa pergunta centenária? Os cemitérios de elefantes realmente existem?
Bem, ainda não foram descobertos alguns dos segredos destes notáveis mamíferos. Estes permanecem um mistério, então a lenda urbana certamente ainda não está pronta para ser enterrada.
– Alguém tem alguma questão a colocar no âmbito desta matéria?
Desta vez é Alfredo que levanta a seguinte questão:
-Li há umas semanas um artigo do zoológico de San Diego (EUA) que aponta o seguinte: Quando os elefantes envelhecem, seus dentes ficam muito sensíveis e, assim, eles têm dificuldade de comer sua alimentação habitual formada por arbustos, folhas e cascas de árvores. Por isso, é comum os animais mais velhos se deslocarem para regiões pantanosas, onde há abundância de água e as folhagens são mais macias. Invariavelmente, eles acabam ficando por lá até a morte. A concentração de ossadas nesses locais pode de alguma forma sustentar este mito?
Ao que Van Dorth responde:
– Conheço o artigo e acho esta tese a mais próxima de factos que sustentem a aparição aqui e ali de ossadas de elefantes. Direi no entanto que estes factos não sustentam de forma alguma esta lenda cinematográfica.
Uma rapariga ali presente coloca a seguinte questão:
-Como explicar a atitude de uma manada perante um elefante que faleceu?
Van Dorth retorna:
– Diante de um paquiderme sem vida, em regra, os membros de uma manada param junto do defunto e parecem inspecioná-lo com a tromba, como se lhe prestassem uma última homenagem. Como uma atitude de reverência da manada face a um membro perdido.
Penso que temos aqui mais uma prova de que os elefantes morrem quando a sua existência chegou ao fim. Não se deslocam para uma região específica para o fazer.
– E agora para encerrar este nosso convívio em pleno, vamos evocar uma história ocorrida no Quénia, na segunda metade do século XX.
Muitos dos presentes se lembrarão deste caso através de um livro de Joy Adamson, uma escritora de origem austríaca, que ganhou o mundo com um título “Born free“ (Uma leoa chamada Elsa), que foi tema um filme lançado em 1966, de James Hill com o mesmo título.
Pois bem, outros haverá que, pela sua jovem idade, não conheçam esta história.
Para uns e outros, vamos aqui regressar a um episódio que tanto agitou o imaginário dos amantes deste continente mágico.
Tudo começa em 1956 quando George Adamson, no curso de seu trabalho como guarda-caça do Distrito da Fronteira Norte no Quénia, matou uma leoa quando esta o atacou e a um outro guarda seu colega. Mais tarde, George percebeu que a leoa estava apenas protegendo seus filhotes, que foram encontrados nas proximidades numa fenda rochosa. Ao levá-los para casa, George Adamson, que se casara com Joy em 1944, achou difícil cuidar de todas as necessidades destes filhotes. Os dois maiores, chamados de Big One e Lustica, foram tratados no jardim zoológico de Roterdão, na Holanda, e o menor, de nome Elsa, foi criado pelo casal.
Depois de algum tempo no seu convívio, os Adamson decidiram libertar Elsa em vez de mandá-la para um zoológico, e passaram muitos meses treinando-a para caçar e a sobreviver sozinha. No final, eles foram bem-sucedidos neste seu propósito. Elsa tornou-se a primeira leoa libertada a regressar com sucesso à natureza, a primeira a manter contacto com os seus protetores após a libertação e a primeira leoa libertada conhecida a ter uma ninhada de filhotes. Os Adamson mantiveram distância dos filhotes de Elsa, chegando perto destes apenas para os fotografar.
Em janeiro de 1961, Elsa morreu de babesiose, uma doença resultante de uma picada de carraça. Os seus três filhotes tornaram-se um incómodo para as populações, matando o gado dos agricultores locais. Os Adamson, que temiam que os agricultores os matassem, conseguiram capturá-los e transportá-los para outro território, onde foi lhes foi prometida guarita aqui no Parque Nacional Serengeti. Na sequência de circunstâncias adversas, os Adamson perderam o controle dos filhotes no seu novo lar. Depois de realizar uma incansável procura que se revelou infrutífera, Joy Adamson contemplou um dia um par de leões e sentiu um pensamento atravessar-lhe o espírito “ O meu coração está com eles onde quer que estejam”.
A sua busca nunca teve sucesso.
Usando as suas próprias anotações e os diários de George, Joy escreveu a obra literária “Born Free” para contar a história da leoa Elsa. Ela o enviou para vários editores antes de ser comprado pela Harvill Press. Publicado em 1960, tornou-se um best-seller, passando 13 semanas no topo da lista de best sellers do New York Times e quase um ano na tabela geral de vendas mundiais. O sucesso do livro deveu-se à história de Elsa e às dezenas de suas fotografias ali publicadas.
Para além do sucesso de vendas desta sua obra, Joy passou o resto de sua vida arrecadando dinheiro para ajudar causas da vida selvagem.
Enquanto programas especiais de televisão mantinham a causa dos Adamson em destaque, Joy Adamson passou os seus últimos 10 anos de vida viajando pelo mundo, fazendo discursos sobre os perigos enfrentados pela vida selvagem em África.
Sucederam-se muitas outras experiências com a recuperação e proteção de felinos, cheetas, em particular a de um jovem leopardo.
Em janeiro de 1980, na Reserva Nacional Shaba, no Quénia, o corpo de Joy Adamson foi descoberto por seu assistente, Pieter Mawson. Ele assumiu erradamente que ela teria sido morta por um leão, e isto foi inicialmente relatado pelos jornais. Joy estava a poucas semanas do seu 70º aniversário.
A investigação policial descobriu que as feridas de Adamson eram muito afiadas e sem sangue para serem causadas por um animal e concluíram que ela havia sido assassinada.
Paul Nakware Ekai, um jovem trabalhador dos Adamson, dispensado do seu emprego, foi considerado culpado de assassinato e sentenciado a prisão indefinida. Ele escapou da pena de morte pois o juiz entendeu que ele poderia ter sido menor quando o crime foi cometido. Isto o salvou de ser enforcado por assassinato.
Joy Adamson é enterrada ao lado de Elsa, a Leoa, no Parque Nacional de Meru no Quénia.
George Adamson foi assassinado nove anos depois, em 1989, perto de seu acampamento no Parque Nacional de Kora, enquanto corria para ajudar um turista que estava a ser atacado por caçadores furtivos.
Algo emocionado com o relato, Rutger van Dorth está prestes a concluir a sua intervenção quando um cavalheiro de idade levanta o braço pedindo a palavra.
– Pois não! Diga-nos por favor.
– Com a idade que já tenho e tendo acompanhado de perto este caso, há factos misteriosos em torno do assassinato de Joy Adamson. O que sabe sobre isso?
– Bem! Joy Adamson era conhecida por ser uma patroa temperamental e Ekai alegou em 2004 que a matou porque ela lhe tinha dado um tiro na perna. Ele também afirmou que a matou com um tiro e não com uma faca. A sua questão é pertinente, sem dúvida. No seu depoimento inicial Ekai afirmou que levou um tiro no pé esquerdo e reagiu correndo para sua tenda para sacar de uma arma. No seu relato à polícia dizia :“ A minha perna sangrava bastante. Fiquei muito zangado e revoltado, peguei na minha pistola e atirei três vezes nela” e prosseguiu:
“Apontei para o peito dela. Percebi naquele momento que se eu hesitasse, ela ia me matar. Ela gritou após o primeiro tiro. Acho que ela disse alguma coisa, mas não me lembro”.
No seu julgamento em 1981, Ekai repudiou as confissões que fez enquanto estava sob custódia policial e alegou que havia sido torturado.
Não tendo havido testemunhas deste acto criminoso, nunca saberemos as verdadeiras circunstancias da morte de Joy Adamson.
E com os agradecimentos e aplausos dá-se por concluída mais esta sessão de conhecimento tendo como pano de fundo a magia do continente africano.
A hora do jantar foi animada por mais uma conversa em torno desta fantástica experiência no Serengeti. A satisfação de Alfredo e Susana é traduzida por um especial agradecimento a Stephen que tornou possível esta vivência.
A gastronomia foi mais uma vez tocada pelo requinte que o grupo Serena oferece aos seus clientes.
– E a partir daqui, o que vamos ter pela frente, Stephen? – pergunta Alfredo curioso.
– Well! A partir de amanhã mudaremos um pouco o foco desta nossa viagem. Dos mistérios da vida animal da savana, vamos observar mais de perto outras maravilhas que tanto inspiraram os primeiros exploradores, incluindo os nossos ascendentes. Os grandes lagos.
– Excelente! – retorna Susana. E como vamos ver essa imensidão?
– Com o tempo e meios que dispomos, a nossa visita a estas regiões será essencialmente na companhia do Charles que conhece muito bem a zona. Há quem atravesse alguns destes lagos de barco. Mas essa seria outra aventura.
Satisfeitos e com a noção de missão cumprida, Alfredo e Susana recolhem-se no seu bangalow onde apenas se escutam os sons da savana.
Momentos de partilha a que estes jovens se entregam em pleno gozo da nudez dos seus corpos. Uma nova viagem ao império dos sentidos que os transporta para mais uma noite plena, fechando Serengeti com chave de ouro.
Parte III – Os Grandes Lagos africanos
Nesta nova manhã, enquanto tomam um último pequeno almoço nas instalações de excelência do Serengeti Serena Safari Lodge, o tema principal é em torno do programa que marcará uma nova fase desta aventura.
Stephen, concluindo com visível prazer a sua degustação, adianta:
– Os nossos ascendentes, meu pai na companhia do avô do Alfredo, dedicaram alguns meses da sua curiosidade a seguir os traços de alguns grandes exploradores desta vasta região africana. Relatos que deixaram escritos nas suas memórias e no papel.
Alfredo, com um aceno de cabeça, confirma.
– A grande diferença é que o fizeram por terra durante meses a fio. Nós só poderemos ter uma noção desta aventura percorrendo pelo ar vastas áreas que produzem esta imensa generosidade que a mãe natureza concedeu à vida humana.
-Com certeza! – exclama Susana deslumbrada com o tema.
Stephen conclui:
-Vamos fazer o seguinte: deixemos em primeiro lugar o Charlie mostrar-nos a primeira parte de tamanha grandiosidade. Uma região denominada de Eastern Rift Valley. De seguida sobrevoaremos o grandioso Lago Vitória a caminho de Kampala. Uma vez no Uganda, falaremos melhor sobre tudo isto.
-Certo, Stephen! Já sabemos que na sua caixinha de Pandora não há espaço para previsões. – retorna Susana animada com a expectativa.
-É isso mesmo, Susana. – responde este escocês com alguma safadeza.
Alfredo, tomando a dianteira, levanta-se dizendo aos seus companheiros de aventura:
-Uganda, aqui vamos nós!
Naquela pista de terra batida lá estava o aviador predileto. Pontualidade britânica é outra coisa.
-Hi friends! Como foi esta passagem por Serengeti?
Alfredo adianta-se dizendo a Charles:
– No Brasil eles usam uma frase que diz tudo: “Se melhorar, estraga”.
Risada geral.
Antes do embarque, Alfredo troca com Charles algumas impressões no intuito da captação das melhores fotografias.
– Charles, diga-me por favor. Conhecendo como você conhece a nossa rota de voo, em função do terreno que iremos cruzar e da posição do sol, de que lado me devo sentar para a melhor captação de imagens?
Ao que o piloto responde:
-Vamos ter o sol nascente do nosso lado direito que irá evoluir para a nossa traseira.
Já tenho levado alguns fotógrafos neste roteiro que sempre preferem posicionar-se do lado esquerdo.
– Excelente! Nessa perspetiva, vou preparar o meu equipamento.
Todos a bordo, bagagem posicionada e assim o Cessna se despede de solo tanzaniano.
Próxima etapa: sobrevoar um setor do Eastern Rift Valley, seguindo-se uma extensão do Lago Vitória rumo a Kampala. Uma nova experiência aérea de uma hora e trinta minutos aproximadamente. O voo faz-se o mais baixo possível para otimizar mais esta extraordinária experiência africana.
Antes de chegar às proximidades do lago, foi possível ver animais, vegetação e formações geológicas de um ângulo nunca antes visto. A visualização do mundo animal nesta altitude reduzida é, até ver, o ponto alto desta experiência. Ver aqui de cima as diferentes espécies da vida selvagem e deixar-se surpreender pela variedade de paisagens que vão atravessando. A emoção está em alta e não há descanso para a Nikon de Alfredo e para o bloco de notas de Susana.
Com visível satisfação estes jovens jornalistas sentem que este plano de voo foi planeado por Charles com sua habilidade e profissionalismo para incorporar uma série de incríveis oportunidades cénicas. Algumas das quais dão aos participantes a insólita sensação de voar sobre uma paisagem marciana.
Face a esta experiência, Alfredo sente que, na sua qualidade de fotógrafo amador, absorve em cada voo uma nova aprendizagem.
O itinerário deste voo memorável faz-se, a partir de agora, cobrindo uma extensa travessia sobre água, a perder de vista. Sobre o transcendente Lago Vitória.
Evitando falar mais alto que o mono motor, Stephen faz circular a bordo um folheto sobre este soberbo plano de água.
“O Lago Vitória ou Victoria Nyanza em língua Swahili , tem 68.800 quilómetros quadrados, e uma altitude 1.133 metros. Este é o maior lago do continente africano, o maior lago tropical do mundo, e o segundo maior de água doce do mundo em termos de área.
Os primeiros registos sobre a existência deste lago vêm de comerciantes árabes que o exploraram, no século X, em rotas interiores da África Oriental à procura de ouro, marfim, escravos e outros artigos preciosos.
Em julho de 1858, o explorador britânico John Hanning Speke encontrou por acidente o lago que batizaria com este nome em homenagem à rainha Vitória, alegando na época que este lago seria a origem do rio Nilo. Teoria altamente contestada por seus colegas exploradores.
Em 1902, o governo do então protetorado da África Oriental Britânica inaugurou uma linha ferroviária ligando Mombaça até o lago Vitória. A ocupação europeia causou grande devastação à vegetação local. Grande parte da floresta que circundava o lago foi substituída por lavouras de chá, café, açúcar, tabaco e algodão.”
A travessia é extensa e rasa, sendo uma extraordinária oportunidade para ver a vida de múltiplas espécies de aves que retiram deste imenso lago o seu alimento.
-Simplesmente extraordinário! – exclama Susana, francamente deslumbrada com o cenário.
Com um gesto de Charles que aponta para o horizonte, vê-se na distância o nosso próximo destino. A cidade de Kampala – capital do Uganda.
Deixando o grande lago pelas costas, o Cessna aproxima-se agora daquela zona urbana, sendo feitas as primeiras comunicações com a torre de controle do aeroporto internacional de Entebbe.
A vista urbana da cidade dá uma impressão de uma capital bem posicionada junto à margem norte do lago e com uma importante infraestrutura rodeada de colinas verdejantes integradas em zonas húmidas e vales muito férteis.
A aterragem na pista de Entebbe foi como Charles já habituou os seus passageiros. Suave e sem incidentes.
No final desta extraordinária viagem, Alfredo sente que aprendeu algo mais sobre fotografia aérea melhorando substancialmente a qualidade das suas fotos.
Quanto a Charles e seguindo o acordo, foi feita a primeira parte do pagamento pelos seus serviços e combinado o reencontro, três dias mais tarde neste mesmo ponto.
Neste aeroporto sente-se um ambiente carregado onde se nota a presença das forças militares.
Seguiram-se as habituais manobras de controle de passaportes, vistos e vacinas obrigatórias. A cara fechada das autoridades do Uganda demonstra claramente que estão num outro país.
Alfredo, demonstrando alguma estranheza, pergunta a Stephen:
-Este ambiente militar deve-se a a algum facto relevante?
-Sim, meu jovem! Disto falaremos quando chegarmos ao hotel.
O novo objetivo é agora apanhar um transporte para o Kampala Serena Hotel, localizado no centro da capital, a 40 km do Aeroporto Internacional.
Para tal, aguarda este grupo uma viatura com matrícula do Corpo Diplomático Britânico, o
que também chamou à particular atenção destes jovens jornalistas.
Durante este percurso de cerca de 20 minutos, Stephen aproveita para falar um pouco sobre esta cidade.
– Antes da chegada dos colonizadores britânicos, esta região era o reino de Buganda, atualmente Uganda. Os britânicos, quando aqui chegaram, reconheceram a zona que é atualmente Kampala como uma excelente reserva de caça. Uma área com condições climáticas excepcionais que era o lar de várias espécies de antílopes, particularmente das impalas. Chamaram a esta região de “Colinas de Impala”. Na linguagem de Buganda, que adotou muitas palavras em inglês, batizou o lugar como “Morro da Impala”, chamando-a de ke’Empala no dialeto local. A evolução deste termo foi o que originou o nome atual da cidade que cresceu a partir destas colinas.
-Muito interessante! – exclama Susana que não tem olhos para tantas vistas.
A ambos os recém chegados não escapa um detalhe que já sentiram no aeroporto. Uma expressiva presença militar um pouco por toda a parte.
Serpenteando pelas ruelas e avenidas da capital, a chegada ao Kampala Serena Hotel foi palco de novas emoções.
O Kampala Serena Hotel é um orgulhoso membro do “The Leading Hotels of the World”, uma coleção internacional de hotéis de 5 estrelas escolhidos por sua arquitetura, design e experiências culturais distintas.
Um oásis de frescura e verde no coração de Kampala, que é considerado um ponto alto da vida nacional, regional, corporativa, política e social.
Rodeado de grandes jardins aquáticos bem cuidados, este hotel inclui acomodações elegantes, cozinha gourmet e um excelente Centro de Conferências.
Na recepção e dado que entraram num outro país, é necessário proceder ao habitual registo de passaportes e restante documentação.
A Alfredo e Susana foi destinada um Executive Suite com vista para o jardim, conjugando elegância clássica com conforto contemporâneo. Um plano aberto em estilo de estúdio, que inclui um quarto king bem espaçoso e uma área de estar com sofás e uma mesa de café, mesa de trabalho bem posicionada e uma soberba e espaçosa casa de banho.
Susana olha para Alfredo e diz:
– Não sabia que sua alteza era o Rei Salomão!
Ao que Alfredo responde com o seu melhor nível de safadeza.
-Nem eu sabia que estava comigo a princesa de Sheeba.
Risos.
Stephen, como vem sendo hábito, fica instalado numa das suites de Luxe em regra reservadas aos proprietários e família ou acionistas do grupo Serena.
Muito bem acomodados e com o conforto de um duche renovador, é tempo destes recém chegados se juntarem numa sala finamente decorada para tomar o almoço.
Escondido entre os colossais pilares de mosaico com vista para o brilhante jardim aquático do hotel, o The Lakes Restaurant possui uma bela sala de jantar e um cativante terraço ao ar livre.
Alfredo e Susana estão particularmente impressionados com a sumptuosidade desta unidade hoteleira. Aqui já não se respira o clima da savana. Mas antes um ambiente com um toque africano elevado a um outro patamar. De um evidente luxo e requinte.
Sentados numa das mesas, é tempo de matar a sede com uns drinks. Stephen e Alfredo deixam-se embalar por um malte escocês on the rocks e Susana por um delicioso cocktail de frutos tropicais. Além de uma garrafa de 1 litro de água mineral bem fresca.
Alfredo sente que este é o momento ideal para tirar algumas dúvidas.
– Stephen, do grupo de lagos do Eastern Rift notei que só sobrevoámos o Lago Vitória.
-Verdade, Alfredo! Os restantes lagos deste bloco ficam mais a nordeste do nosso ponto de partida. Grande parte deles no Quénia, Tanzânia e Etiópia. Para os sobrevoarmos seria um enorme desvio da nossa rota rumo ao Uganda que se encontra na direção noroeste.
-Claro! Teríamos que despender muito mais tempo para o fazer.
-Mas devo adiantar que, em compensação, quando sairmos de Kampala rumo ao Lago Tanganica, vamos ter a oportunidade de sobrevoar um grande número de lagos do Western Valley. Algo impossível de esquecer.
– Excelente! E pode dizer-nos mais sobre os Grandes Lagos? – indaga desta vez Susana.
Stephen, portador de um conhecimento intrínseco desta região que já visita há muitos anos, inicia a sua exposição.
– O termo região dos Grandes Lagos africanos é um conceito vago em termos geográficos.
É uma região que inclui o Burundi, o Rwanda, nordeste do Congo, o Uganda, noroeste do Quénia e Tanzânia. É usado num sentido mais amplo estendendo-se a todo o Quénia e Tanzânia, mas geralmente não tão ao sul como Zâmbia, Malauí e Moçambique, ou tão ao norte quanto a Etiópia, embora esses quatro países façam fronteira com um dos Grandes Lagos do Eastern Rift.
Estima-se que 107 milhões de pessoas vivem na região dos Grandes Lagos. Uma das áreas mais densamente povoadas de África. Por conta da atividade vulcânica do passado, esta área contém algumas das melhores terras agrícolas do continente. A sua altitude confere-lhe um clima subtropical, apesar de estar bem no equador, tornando-se temperado nas montanhas. Esses fatores também incentivaram o crescimento da população humana.
No entanto, a leste do lago Turkana no Quénia prevalecem as condições de deserto. A área é pouco povoada e apenas habitada por pastores nómadas que criam camelos , ovelhas e cabras.
-E quem explorou inicialmente os Grandes Lagos de África? – indaga novamente Susana abrindo o seu bloco de notas para registar os seus hieróglifos.
-Foram muitos, Susana. Ao longo de períodos diferentes. Permito-me destacar alguns deles:
Os oriundos da Grã-Bretanha:
-David Livingstonee
-Henry Morton Stanley
-Richard Francis Burton
-John Hanning Speke
-James Grant
O francês Robert Hottot
E entre os portugueses:
-Hermenegildo Capelo
-Roberto Ivens
-Serpa Pinto
-Silva Porto
-Stephen, diga-nos cá! Como é que você retém tanta informação? – pergunta Alfredo, de olhos arregalados.
-Meus caros, a idade comporta algumas limitações que nos oferecem os radicais livres. Mas permite colecionar um vasto número de informações que colhi ao longo de uma vida de viagens à volta do mundo e sobretudo da leitura de tantos livros que já há muito perdi a conta.
Resta a estes jovens jornalistas esboçar um sorriso de admiração.
-Mas vamos lá entrar no nosso tema atual. Se eu estender demasiado o meu discurso, por favor, digam-me!
-Pelo contrario! Vai ter aqui dois alunos bem atentos.
-Não poderemos falar dos Grandes Lagos africanos sem os relacionar com um mistério tão antigo quanto o conhecimento humano.
-E que será? – pergunta Susana expectante.
-O rio Nilo. Este rio sempre despertou um grande fascínio no coração e na mente dos homens de todos os tempos. Um gigantesco curso de água que foi a maior testemunha do nascimento e morte de grandes civilizações. Um rio que contraria todas as probabilidades correndo de sul para norte, direção contrária à dos grandes rios conhecidos da antiguidade. Aquele que atravessa desertos e por onde as suas águas barrentas passam, a terra retribui com uma improvável fertilidade.
Muitos foram os que procuraram entender a misteriosa lógica deste gigantesco curso de água que durante muitos anos competiu em extensão com o rio Amazonas, na América latina.
Desde a antiguidade, o homem tenta desvendar a origem da sua nascente.
A atenção de Alfredo e Susana é uma só.
Stephen, dando um trago na sua água mineral, prossegue:
-Na génese do conhecimento, o geógrafo Ptolomeu, apontava que o rio Nilo nasceria de dois grandes lagos alimentados pelo derretimento da neve das célebres Montanhas da Lua, tão presentes nas lendas africanas.
Napoleão Bonaparte também se deixou influenciar pelos mistérios do Nilo enviando tropas para explorar de onde brotava tamanho caudal.
No século XVIII, o pensador francês Montesquieu, tentou encerrar a discussão, ao afirmar: “não foi dado a nós mortais a possibilidade de ver o Nilo frágil na sua nascente”.
Na Real Sociedade Geográfica, principal centro de exploradores da época, viveu-se fervorosamente a questão do Nilo . A Instituição mostrava-se disposta a financiar uma expedição que resolvesse de vez este mistério. Vários exploradores de então se candidataram para realizar a façanha, entre eles o experiente Richard Francis Burton e seu acompanhante John Speke. Burton defendia a tese de que o Nilo nasceria no lago Tanganyka ou um pouco mais adiante.
Uma busca incansável também seria feita pelo lendário Dr. David Livingstonee e Henry Morton Stanley, o jornalista que partiu em busca do missionário e explorador inglês que se encontrava em parte incerta no continente africano.
A conclusão a que alguns pesquisadores chegaram, utilizando técnicas mais modernas, é que o grande Nilo brota do chão saindo das profundezas da terra, no alto das montanhas do Burundi, a meio caminho entre os Lagos Tanganyka e Victoria.
Passaram-se os anos e o Nilo continuou imperturbável face a vaidade humana, seguindo seu caminho de eterno mistério.
Alfredo, maravilhado com o tema, interrompe Stephen, dizendo:
-Espantoso! Como se recordará, eu e a Susana fizemos uma reportagem para a National acerca do Egito onde o Nilo foi um ponto forte. Mas nunca olhámos para ele por este extraordinário ponto de vista.
-Sim! Lembro-me bem da vossa reportagem sobre o Egito. Excelente trabalho! Estão de parabéns! O que vou falar em seguida tem muito a ver com esse tema.
E Stephen prossegue, perante a expressão de satisfação dos seus ouvintes.
-Muito mais tarde e seguindo o conhecimento milenar que os egípcios já tinham do Nilo, foi possível compreender que este se alimentava de dois grandes afluentes na região de Kartum, no Sudão. Região onde as águas que alimentavam o grande Nilo se encontravam mostrando tonalidades diferentes. Um destes afluentes viria do sudoeste do continente, enquanto que o outro derivava do sudeste.
Acredita-se que o primeiro europeu a tentar compreender onde seria a nascente do afluente oriundo de sudoeste, já na Etiópia, tenha sido o jesuíta espanhol Pedro Páez, que teria chegado a esta nascente no Lago Tana, em abril de 1613, seguido de outros exploradores, como o jesuíta português Jerónimo Lobo, que alcançou esta nascente em 1629, seguido por um conterrâneo meu, o escocês James Bruce, em 1770.
Nascia assim o conhecimento do então denominado Nilo Azul.
-Fabuloso! – exclama Susana continuando a tomar as suas notas.
Alfredo por sua vez pergunta:
-E quanto ao outro afluente?
-É aqui que se estabelece um elo com a descoberta dos Grandes Lagos. A descoberta da nascente oriunda do sudoeste foi possível quando os exploradores conseguiram finalmente penetrar nas profundezas da selva africana para encontrar uma outra nascente de um dos rios, que foi o berço de civilizações impulsionadoras do mundo moderno. Uma epopeia bem mais difícil de realizar e que está nos anais das grandes explorações no coração do continente africano.
Em 1860, John Hanning Speke que acompanhara Sir Francis Burton em anteriores expedições e, sob os auspícios da Royal Geographical Society, realiza uma nova expedição à região acompanhado por James Grant, da qual resultaria a descoberta do rio Cagera e do local de saída do Nilo, a partir do lago Vitória.
Vencido o enigma, nascia assim o conhecimento do Nilo Branco. And that´s all, folks!
-Você acaba de nos dar aqui uma matéria dourada para a nossa reportagem!- retorna Susana que encheu uma página ou duas das suas notas imperceptíveis.
-Ainda bem! E que tal encomendar o nosso almoço?
Quanto às escolhas gastronómicas e ao serviço prestado, uma só palavra. Excelência.
Dando mais um trago no delicioso vinho, Stephen diz:
-Bem! Estamos num país com caraterísticas particulares sobre o qual penso valer a pena vos dar uma ótica, antes de pensar no que faremos em Kampala.
-Curioso! – responde Alfredo. Tirou-me as palavras da boca.
-Como vocês sabem, estamos num pais debaixo de um regime totalitário comandado por um personagem incomum chamado Idi Amin Dada. Alguém que tomou de assalto o poder absoluto desta nação a partir da sua posse, em 1971.
-Então a presença de forças militares no aeroporto e pela cidade em geral é o espelho desta situação? – quer saber Alfredo, intrigado.
-Sim, é verdade! Mas vamos recuar um pouco no tema. A minha escolha de incluir o Uganda no nosso roteiro tem dois motivos essenciais.
1- Podermos, a partir daqui, visitar uma importante região dos Grandes Lagos nomeadamente do setor de Western Valley.
2- Podermos fazer esta passagem com um certo grau de segurança. Não só nesta estadia numa unidade hoteleira como esta, bem como nos roteiros a realizar pela cidade com o apoio de pessoas que conheço bem, ligadas ao consulado britânico.
-Mas, Stephen, as suas palavras transmitem sinais de risco. Algo que não sentimos até aqui, nem no Quénia ou Tanzânia. – retorna Susana com um semblante de preocupação.
– Compreendo a apreensão e, para que não haja um aumento destas preocupações, limitei a nossa passagem pelo Uganda a duas noites.
-E então o que vamos fazer por cá? – quer saber Alfredo.
-Vamos ver algumas partes interessantes de Kampala. Hoje à tarde e amanhã, incluindo um jantar em casa de amigos meus de longa data, que trabalham no Consulado Britânico. Sempre conduzidos pelo motorista que nos trouxe até aqui. Depois de amanhã muito cedo, estaremos a caminho do Lago Tanganica, do lado da Tânzania, a bordo do pássaro de Charles.
-Bem! Como sempre, seguiremos as suas sugestões. – retorna Susana mais despreocupada.
-Mas permitam-me que vos dê uma visão mais próxima e resumida do que aqui se passa.
Idi Amin, que foi integrante do exército britânico, orquestrou um golpe de estado com a ajuda do exército do Uganda, em janeiro de 1971.
Afirmou na época que era um soldado e não um político, e que libertaria todos os prisioneiros políticos e colocaria a economia do país em ordem novamente.
Não dando qualquer espaço ao seu rival de nome Obote, ele se declarou Comandante em chefe das forças armadas e presidente vitalício, impondo ao país uma férrea disciplina militar, colocando os seus apoiantes em cargos importantes do seu governo.
Idi Amin começou a expurgar oficiais de lealdade duvidosa do exército, o que culminou na morte de mais de 5 000 militares. Muitos intelectuais, artistas e políticos também começaram a ser presos sob suspeita de fazer oposição ao seu governo.
Demonstrando um temperamento megalómano, vingativo e violento, começou, em 1972, o processo de expulsão do seu país de cerca de 60 mil asiáticos, descendentes de imigrantes do império britânico na Índia, e milhares de europeus, afirmando que Deus lhe havia pedido para transformar o Uganda num país de homens negros.
-Alfredo, algo estupefacto com este relato, diz:
-Eu já tenho lido sobre alguns aspectos sórdidos deste regime, mas nada parecido com o que estou a escutar.
-E tem mais, Alfredo.
Idi Amin é, conforme surge aos olhos do mundo, uma figura grande e imponente. O seu comportamento excêntrico criou a imagem de um homem dado a explosões imprevistas sendo chamado pelo seu povo de “Big Daddy”. Uma vez declarou-se “rei da Escócia”, proibiu os hippies e as mini-saias no país, e chegou a um funeral da realeza saudita usando um kilt.
Susana, com uma expressão de total incredibilidade, diz:
-Parece anedota!
-Pois parece, mas não é, minha jovem. Este foi até aqui um dos ditadores mais sanguinários de África, tendo sido denunciado dentro e fora do continente por matar dezenas de milhares de pessoas desde que subiu ao poder.
Muitos ugandenses o acusam de manter cabeças decepadas no frigorífico, de alimentar crocodilos com cadáveres de opositores, de ter desmembrado uma de suas esposas que foi encontrada esquartejada dentro do porta-malas de um carro, de praticar canibalismo e muito mais. E abstenho-me de continuar.
A estupefação é total.
Alfredo, que anda a par de notícias pelo mundo, avança com uma nova questão.
-Diga-nos se souber! A presença militar que vimos no aeroporto tem alguma relação com o recente episódio do Raid lançado por um comando israelita aqui no aeroporto de Entebbe?
-Tem sim, Alfredo, vejo com satisfação que está a par dos acontecimentos.
Resumindo o que ali se passou muito recentemente, direi o seguinte:
– O raid em Entebbe denominado de “Operação Thunderbolt”, foi uma missão de resgate anti-terrorista levada a cabo pelas Forças de Defesa de Israel no Aeroporto Internacional de Entebbe aqui no Uganda, no passado dia 4 de julho. Uma semana antes, uma aeronave da Air France com 248 passageiros a bordo foi sequestrada por membros da Frente Popular para a Libertação da Palestina com o apoio de células revolucionárias da Alemanha. Este avião foi desviado aqui para Entebbe. O governo local apoiou os sequestradores, que receberam as boas-vindas de Idi Amin. Estes sequestradores separaram os israelitas e judeus dos outros passageiros e tripulação, forçando-os a entrar numa outra sala do aeroporto. Naquela tarde, 47 reféns não-israelitas foram libertados. No dia seguinte, mais 101 reféns não-israelitas foram libertados e todos partiram a bordo do avião da Air France, antes sequestrado. Mais de cem passageiros israelitas e judeus, permaneceram reféns em Entebbe, sendo ameaçados de morte caso não fossem satisfeitas as exigências.
-E que exigências eram essas? – pergunta Susana, tomando algumas notas no seu caderno que não dorme.
Stephen prossegue:
-A libertação de 53 terroristas palestinos – 13 detidos em prisões em França, Alemanha Ocidental, Suíça, Quénia, e 40 em Israel.
-E como foi resolvida a situação? – quer saber Alfredo.
-Após deliberação do Estado Maior israelita, a operação de resgate em Entebbe foi lançada no maior secretismo.
Na madrugada do dia 3 de julho, o chefe de comando da operação informa que os homens estão preparados e que a operação pode ser executada. Na medida do possível, tudo foi feito para eliminar os riscos. Sabia-se, por exemplo, que Amin uma vez chegara a Entebbe num Mercedes preto escoltado por um Land Rover. Veículos iguais a estes foram embarcados num avião de carga Hércules C-130 da Força Aérea de Israel que veio à frente, com o objetivo de confundir os ugandenses nos primeiros minutos considerados vitais.
O ponto fundamental do plano era fazer aterrar em Entebbe, no meio da noite, quatro aviões Hércules C-130 de transporte, que descarregariam tropas da unidade especial e veículos. Para evitar que os aviões fossem detetados, o primeiro Hércules seguiria imediatamente atrás de um avião de carga inglês cujo voo regular era esperado no aeroporto de Entebbe.
Sete minutos depois que o primeiro Hércules aterrasse, o segundo pousava, seguido pelo terceiro e pelo quarto. Logo que as rampas eram baixadas, jipes e veículos de transporte saíam em grande velocidade, atravessando a pista.
Esta foi considerada a operação militar de resgate mais bem sucedida da história, que resultou na morte de todos os sequestradores, de alguns militares do Uganda e a morte de um único oficial israelita.
A vergonha de Idi Amin não teve dimensão, tendo este episódio se transformado em anedota nos jornais através do mundo e a glória de Israel.
-E o que aconteceu aos reféns? -pergunta Alfredo com os olhos arregalados.
-Ainda no dia 4, aproximadamente ao meio-dia, um Hercules da Força Aérea de Israel aterra no Aeroporto Internacional Ben Gurion de Telavive. Das portas traseiras desembarcam 102 reféns, entre homens, mulheres e crianças.
-Estou arrepiada! -riposta Susana.
Perante as emoções deixadas por este relato no final desta refeição em tão refinado ambiente, Stephen refresca o ar dizendo:
-Tempo de aliviar os nossos espíritos e organizar o nosso roteiro desta tarde. Que vos parece?
-Bem! Depois de tudo isto, resta-nos retirar o melhor desta nossa passagem por Kampala. – retorna Susana emocionada.
Alfredo do seu lado pergunta a Stephen:
-E qual será o nosso programa?
– Bem! Vamos fazer um circuito citadino nas condições que há pouco vos falei. A bordo da mesma viatura consular britânica onde estaremos à vontade. Sugiro o seguinte roteiro: Irmos visitar o Uganda Museum e mais tarde passar por um local icónico da cidade – As tumbas de Kabushi, terminando com um agradável drink no Makindye Country Club onde, se desejarmos, podemos usufruir de um mergulho na soberba piscina.
-Uau! E para o dia seguinte o que teremos? – pergunta Susana curiosa.
– No dia seguinte é nosso último dia em Kampala. Sugiro que passemos a manhã nesta unidade de excelência. Para o almoço quero levar-vos a um local onde se serve um prato bem típico de Kampala. O Luwombo
E antes de irmos para casa dos meus amigos, onde iremos usufruir de um bom jantar e uma boa conversa, podemos passar por dois locais importantes. As Catedrais de Namirembe e de Rubaga. Estou convencido que a objetiva do Alfredo não as deixará escapar. E como já sabem, na manhã seguinte bem cedo estaremos a caminho do nosso novo destino – Lago Tanganica.
E seguindo a bordo da tal viatura consular, assim se abre a visita da capital do Uganda.
Circulando por vielas desta cidade onde sempre se vê aqui e ali a presença militar, é tempo de fazer a primeira paragem.
Stephen, saindo da viatura, diz a Alfredo:
-Meu caro! Este foi um local visitado pelos nossos velhos curiosos Arthur e Donald. Estou certo que você vai compreender porquê.
O Museu de Uganda está localizado num lugar bem icónico da capital. Aqui podem ver-se importantes coleções etnológicas, de história-natural e aspetos tradicionais da vida e do património cultural de Uganda. Casa fundada em 1908, depois que o governador George Wilson pediu para que “todos os artigos de interesse do país” fossem adquiridos e reunidos neste museu. Sem dúvida um contributo para o conhecimento e a melhor justificativa para mais um importante lote de imagens.
A satisfação é geral.
Segue-se mais um roteiro que leva este grupo para uma outra visita de igual interesse numa das colinas de Kampala.
Os Túmulos em Kasubi, onde se encontram os Túmulos dos Reis do Buganda (primeira designação de Uganda). Consistem em quatro túmulos erigidos em 1882 e convertidos em local de enterro em 1884.
Situado na colina Kasubi este é um local religioso do Reino. Para Buganda, o Kabaka é o símbolo inquestionável do estado espiritual, político e social da nação. Como cemitério dos quatro Kabakas anteriores, os Túmulos de Kasubi são um lugar onde os Kabaka e outros membros da complexa hierarquia cultural de Buganda, onde há séculos se realizam importantes rituais.
-Lugar espantoso! – exclama Alfredo, retirando dali mais um lote de excelentes registos fotográficos.
À saída, Stephen sugere:
– Estamos na nossa hora de almoço e eu quero surpreender vocês.
-Lá vem ele! – pensa Susana para os seus botões.
Alfredo, animado com a ideia, pergunta a Stephen:
-Você trouxe a caixa?
-Qual caixa?
-A de surpresas.
-Talvez! Vocês me dirão. Vamos lá visitar um restaurante aqui perto.
O local é deslumbrante e comporta uma decoração bem ao estilo da África oriental onde impera a madeira esculpida e os tecidos coloridos.
Uma vez sentados numa das rústicas mesas, vem a pergunta que espera a sua vez.
-E então, Stephen? Qual é a próxima surpresa? – pergunta Susana que já demonstra um certo apetite.
Ao que Stephen responde:
– Luwombo é o nome desta iguaria. Trata-se de um prato tradicional de Uganda, cozido dentro de uma folha de bananeira, muito utilizado em festas.
O chefe de sala, que acompanha os recém chegados na escolha da mesa, adianta:
-Bem vindos sejam a esta nossa casa. Vou explicar. A preparação do prato é um processo detalhado, que requer cozinhar um molho usando uma variedade de ingredientes e, em seguida, embrulhar cuidadosamente a mistura em uma bolsa de folha de bananeira.
-E quais são esses ingredientes? – pergunta Alfredo curioso
– Cogumelos e peixe seco são os dois ingredientes populares de luwombo. Estes são adicionados ao molho e colhidos na tal folha de bananeira, antes de serem embalados para cozinhar.
-E qual a história deste prato? -pergunta desta vez Stephen.
-Luwombo é uma receita tradicional do Uganda. É um prato real que foi originalmente criado em 1887 pelo chef pessoal de Kabaka Mwanga, um rei muito popular que governou o reino de Buganda no final do século XIX. Mwanga teve 16 mulheres e 10 filhos.
-Tantas! -exclama Susana com uma expressão de espanto.
O Chef, com um ar educadamente safado, responde:
-Sabe, miss? A culinária africana parece ser um poderoso afrodisíaco!
Risada geral.
Escusado será dizer que o prato passou largamente no teste. Um momento de singular prazer numa terra onde parecia não haver espaço para os prazeres quotidianos. A cerveja local bem gelada não deixou ninguém com sede.
Um momento gastronómico onde se partilharam as emoções do dia e o remate final com um café local que completou esta experiência gastronómica em Kampala.
– Agora, para encerrar o nosso programa, quero levar-vos a conhecer o Makindye Country Club onde poderemos relaxar e tomar um drink. Que vos parece?-pergunta Stephen com a descontração de sempre.
Situado numa outra colina de Kampala denominada de Makindye, esta estrutura oferece uma combinação única para famílias e ótimas instalações de alojamento, desporto e lazer, rodeado de lindos jardins privativos.
Em volta da piscina foi desfrutado um refrescante drink e um merecido momento de relax, onde as impressões do Uganda e dos lugares visitados, foram o tema da conversa.
Tempo de regressar ao hotel. Segundo Stephen, a atual Kampala não é uma cidade adequada a circulação após o pôr do sol.
Após um jantar ligeiro numa outra sala deste fabuloso hotel, foi chegando a hora de recolher.
Entrando naquela suite imperial e colocando o saco sobre uma mesa, Alfredo diz:
-Estou a precisar de ir à casa de banho. A proveito e tomo logo o meu banho.
-Pois não, cavalheiro! – responde Susana com um ar safado.
Ao sair daquele aposento, Alfredo traz vestido um roupão turco de cor branca fornecido pelo hotel.
Susana olha Alfredo de alto a baixo, dizendo:
-Como lhe fica bem esse roupão, alteza! E que odor cativante!
-Como assim, princesa? Nada comparado ao que vou ver sair dali, daqui a pouco.
-Tem a certeza? – responde Susana mordendo ligeiramente o lábio inferior. Um sinal que Alfredo conhece.
Momentos algo longos se passaram. A expectativa sobe.
À porta da casa de banho que se abre deixando sair os vapores de um banho de excelência, Alfredo vê sair uma perna feminina que conhece bem, que lentamente se estica e se encolhe de seguida.
-Tcham-tcham! É o som que antecede a entrada no quarto de uma diva que, apenas coberta com um doll de cor vermelha, faz dois passes de dança artística exibindo um tecido de uma leveza perturbadora sobre um corpo escultural com deliciosas intenções. Uma visão sustentada por uns seios divinos e um recorte entre as pernas sem qualquer pelo púbico. As sensações crescem sem pedir licença.
-Então, sua alteza! Não acha que uma instalação desta natureza não convida às mil e uma noites africanas?
Alfredo extasiado com aquela visão, responde:
-Nem as mais belas odaliscas do império chegam perto de si, Princesa de Sheeba.
Na avidez de um primeiro abraço, confundido com odores sublimes, estes jovens agora totalmente nus e movidos por um crescente prazer, soltam as feromonas naquele espaço que perde gradualmente a sua dimensão.
É o inicio de uma viagem ao paraíso das sensações, contorcida pelos sentidos, ameaçada por um grito que não sai, numa espiral perdida no êxtase de um ápice.
Nesta subida ao climax dá-se por fim uma queda livre na gravidade zero, flutuando num universo onde se sonha sem adormecer.
O oxigénio pode ser retomado momentos mais tarde.
-Susana! -sussurra Alfredo deitado sobre a sua diva com o coração aos saltos.
-Sim, meu gato!
-Não contes às outras odaliscas como se faz. Se o fizeres, nunca mais haverá paz no Reino.
Susana, com um especial brilho nos olhos, responde:
-Incorrigível Alfredo! Cala-te e dá-me um beijo daqueles. Tu não existes!
Aquele primeiro dia em Kampala estava encerrado. Só um limbo profundo poderia acolher o resto desta história.
Novo dia quente se adivinha no horizonte das colinas de Kampala.
A noite foi muito bem dormida, o que é fácil de entender.
Duche tomado e vestidos em estilo casual, estes jovens encontram Stephen no hall do hotel. Um copioso pequeno almoço os espera.
Saboreando esta nova degustação ao estilo continental, Stephen adianta.
– Hoje não tomaremos o almoço juntos. Fui convidado pelo gerente que é um amigo de longa data para um almoço com alguns acionistas que estão cá de passagem.
– Muito bem! Aproveite bem o momento. – responde Alfredo.
– Reservei uma mesa para o vosso almoço e penso que nos podemos reunir ali no hall pelas 15 horas para dar conta do nosso programa. Que vos parece?
-Parece-nos muito bem! Esta será uma manhã de relax aproveitando para organizar os nossos materiais de reportagem. – responde Susana agradecida.
O dia estava quente e além de cumprir as referidas tarefas e deixar espaço para uma doce preguicinha, não houve condições para resistir a uma outra provocação. Uns mergulhos naquela fabulosa piscina que este hotel oferece a quem passa por cá.
O almoço foi mais uma passagem que deixa as papilas gustativas em estado de graça.
Na hora do café, Susana diz a Alfredo:
-Acho que o café africano me deixa a tremer. Vou dispensar.
-Acho que sei porquê, querida. Em África o café mais utilizado é do tipo Robusta. Na América latina é o Arábica, que é mais suave. Na Europa em geral apurou-se uma seleção dos dois que dá um paladar de qualidade ao café.
Cumprida aquela sesta adequada ao pico da temperatura do dia, o encontro destes jovens com Stephen deu-se no hall à hora marcada.
-E então, como foi o almoço? – pergunta Alfredo curioso.
-É sempre um prazer rever os velhos amigos. Correu muito bem. Obrigado.
-E agora Stephen. Vamos seguir os segredos da sua caixinha?
Sorrindo, Stephen responde:
-Com certeza! Vamos esperar um pouco pelo nosso motorista que deve estar aqui dentro de momentos. O objetivo é, conforme ontem referi, passar por dois locais dignos de visita. As duas mais famosas catedrais de Kampala. Logo mais teremos o tal jantar oferecido pelos meus amigos do Consulado.
Em marcha pelas avenidas e ruelas da cidade, onde os tais sinais de insegurança não passam despercebidos, dá-se início a mais uma revelação digna das melhores fotografias.
No alto de uma colina emerge um grandioso monumento da igreja Anglicana de Kampala. A Catedral de São Paulo Namirembe, a mais antiga do Uganda. Serve como catedral provincial da Igreja de Uganda e diocesana de Namirembe, a primeira diocese a ser fundada na província, em 1890.
-Fabulosa arquitetura. – exclama Susana enquanto Alfredo dá asas à sua Nikon.
-Stephen informa:
– A catedral inicial estava a ameaçar transformar-se em ruínas. O edifício que aqui vemos foi construído entre 1915 e 1919 usando tijolos e telhas de barro. Como vemos, ainda está de pé, mas precisa de reparos de vez em quando.
Uma vez retomada a marcha numa avenida mais larga da cidade, Stephen faz sinal ao motorista que suspende a sua marcha. E com uma expressão mais grave indaga:
-Estão a ver lá ao fundo um acesso com muros de ambos os lados que mergulha no interior da terra?
-Sim! Onde estão concentrados aqueles militares? -pergunta Alfredo.
-Exato! Aquele é o bunker onde a “Fera” põe em prática as torturas e o assassinato maciço dos seus opositores.
Estupefacto, Alfredo retorna: – Pena que estamos um pouco longe. Bem que eu queria ter um registo fotográfico deste local.
-Afaste isso do pensamento. Apenas parámos aqui por instantes para vocês terem uma noção dos horrores deste regime. E vamos embora porque não tarda está aqui uma patrulha para nos interceptar e nos criar sérios problemas. O atual Uganda é isto, infelizmente!
Consternados com o que acabam de ver, estes jovens levarão algum tempo para processar aquela imagem. Algo que foi amenizado com uma nova paragem numa outra das sete colinas de Kampala. Junto à Catedral de Santa Maria Rubaga, onde se ergue a catedral mãe da Arquidiocese Católica Romana de Kampala, a mais antiga diocese católica do Uganda. Uma bela estrutura que se encontra próxima ao centro da cidade e sob a orientação do arcebispo de Kampala.
-Stephen adianta:
– O órgão desta Catedral foi construído em 1931 pela The Positive Organ Company Limited. Em 1952, depois de vinte anos de serviço, estava a necessitar de uma revisão, ainda tendo servido os seus propósitos por mais vinte anos. Quando finalmente se contratou uma entidade especializada para o recuperar, Idi Amin tomou o poder em 1971. Esta joia deteriorou-se seriamente face a este período de grande agitação que assola o país. Este maravilhoso instrumento está desde então remetido ao silêncio.
-Mas que pena, Stephen! – exclama Susana tomando mais umas notas no seu road book.
Já o sol desce no horizonte quando se aproxima a reunião do grupo em casa dos tais amigos de Stephen.
Tempo de percorrer mais uns circuitos citadinos até uma zona residencial de Kampala onde se encontra a maioria das embaixadas e consulados no Uganda.
A residência que os espera tem um traço arquitetónico vitoriano e a receção foi como Stephen esperava, bem calorosa. Num salão finamente decorado com inúmeras ilustrações e fotos de família está um belo piano de cauda.
Confortavelmente sentados numa roda de animada conversa sobre cadeirões e sofás em cabedal, os jovens foram convidados a falar dos seus percursos de vida em diferentes partes do globo, das reportagens da National e, como não podia deixar de ser, desta fabulosa passagem no coração do continente africano na companhia de Stephen.
Este não deixou por mãos alheias a descrição do elo que seu pai teve com o avô de Alfredo e das tantas aventuras que os dois viveram em outros tempos.
Instalados agora numa sala de jantar espaçosa e igualmente confortável, foi tempo de um simpático ugandense servir uma fumegante sopa de tomate com um toque alho e caldo de galinha, acompanhada por uma fatias de pão tostadas, com sabor de queijo.
Enquanto a conversa fluía, foi servido um excelente vinho francês cuja escolha variou entre um Coteaux Bourguignons de 1973 e Chateauneuf du Pape de 1972. Para além de um refrescante sumo de manga e a sempre presente água mineral.
Enquanto o curso da conversa naquele simpático ambiente tende invariavelmente paro o tema Idi Amin Dada e o estado atual do país, foi servido um novo elemento gastronómico.
-Hum! – excelente aspeto! – exclama Susana, perguntando à sua anfitriã do que se trata.
-Well, my dear!- Shepherd’s Pie ou Cottage Pie, se preferir, é na verdade um escondidinho à inglesa. A camada de baixo é de carne moída dourada na cebola, e alguns vegetais como cenouras, ervilhas que dão mais consistência ao prato. A seguir cobre-se a carne com puré de batata e queijo ralado por cima. O prato vai ao forno para dourar e é servido com pedaços de pão. Faça o favor.
Fácil de entender, o quanto está delicioso. Mas, para surpresa de todos, chegou à mesa uma outra iguaria.
É a vez de Stephen indagar.
-Que tratamento é este, my dear friends? E agora o que temos aqui?
Mais uma vez a anfitriã explica.
-Então vamos lá! Este é o Beef Wellington, nada mais é que um tipo de torta diferente.
Neste caso, o filé mignon é envolto em patê, puré de cogumelos, presunto de Parma e coberto com uma camada de massa folhada.
Maravilhado com a descrição, Alfredo pergunta acerca do nome da receita.
– Sabe, Alfredo? A origem do nome é incerta, mas acredita-se que o prato foi criado para celebrar o primeiro Duque de Wellington, Arthur Wellesley e a vitória na Batalha de Waterloo contra as tropas de Napoleão.
-Fantástico! Está uma delícia! -retorna desta vez Stephen com total satisfação.
-Sabe, Stephen? Temos a sorte de cá ter um cozinheiro que aprendeu em bons restaurantes de Kampala, antes de tudo isto acontecer. Sabe ao que me refiro!
E para fechar em beleza este fino repasto os presentes foram premiados com o Sticky Toffee Pudding, uma sobremesa bem tradicional que é feita com um bolo tipo pão de ló e tâmaras. Este é servido com uma calda de caramelo salgado e pegajoso, com uma bola de sorvete de baunilha a coroá-lo.
Difícil será esquecer tão agradável recepção e os momentos de conversa fluida que encerram com chave de ouro as vivências no insólito Uganda.
Agradecimentos feitos por tão rica soirée, é tempo de retomar o caminho de volta ao hotel. Já de noite, mas na segurança de um transporte consular.
Por último, Stephen informa o seu amigo e anfitrião. O motorista foi impecável connosco. Amanhã quando ele nos deixar em Entebbe, dar-lhe-ei uma merecida compensação. Combinei com ele recuperar-nos amanhã bem cedo no hotel e deixar-nos no aeroporto.
– Faça conforme achar melhor, meu caro! O Douglas é um excelente funcionário do Consulado e penso que merece a vossa retribuição.
-Farewell, my friends!
A última noite naquelas instalações de eleição do Kampala Serena Hotel encerra uma experiência que ficará gravada nas memórias destes jovens jornalistas.
Um novo dia marca uma passagem para outros horizontes. Tomado um rápido pequeno almoço numa das salas de refeições do hotel, é tempo de ir ao encontro de Douglas. O fiel e pontual motorista que os levará até ao aeroporto internacional de Entebbe.
Decorridos os tais 20 minutos de percurso, lá estavam à chegada os sinais de tensão vividos na sequência do episódio recente com Israel e o avião sequestrado da Air France.
Feita a devida atribuição de um simpático bónus ao motorista e os agradecimentos de todos pela sua cuidada prestação, é tempo de enfrentar uma outra missão desagradável. Encarar o setor de controle de passaportes e as autoridades do Uganda.
Concluída a desagradável tarefa e aguardando a hora combinada com Charles, na tal zona reservada a pequenas aeronaves, é tempo de rever o programa do dia.
Stephen com a sua habitual disposição, adianta:
-Hoje vamos sobrevoar os denominados Western Valley Lakes. Mas vamos primeiro que tudo melhor entender o contexto geográfico desta região.
Uma fenda tectónica surgida há milhões de anos na superfície do continente africano vem lentamente afastando o leste de África do resto do continente. Devido a essa brecha, a África oriental é o lar dos inúmeros lagos do Vale do Rift, sendo o Lago Victoria o maior. Mas falemos dos lagos do Wesytern Valley que vamos daqui a pouco começar a sobrevoar:
– Lago Albert, o mais ao norte dos lagos ocidentais do Vale do Rift. Este fica na fronteira entre Uganda e o Congo. A partir daqui, é possível ver a majestade das montanhas circundantes.
– Lago Edward, mais ao sul, é um lago menor, mas com vistas igualmente deslumbrantes.
– Lago Kivu, mais um do Western Valley andando para o sul. Rodeado pelo Rwanda e pelo Congo, o Lago Kivu é um importante depósito de água para mais de 2 milhões de pessoas.
E finalmente, o famoso Lago Tanganica à beira do qual faremos a nossa próxima paragem.
Desta vez faremos um dos voos mais longos desta nossa aventura. Cerca de três horas.
Algo que é música para os ouvidos destes jovens que já se habituaram a este tipo de surpresas. E agora podemos ir que o homem pássaro já deve estar na pista.
-Hey, Charlie! Nice to see you! -exclama Stephen cumprimentando calorosamente o homem pássaro.
Charles, utilizando uma expressão algo trocista, responde com outra pergunta:
-E como vão as últimas loucuras de “Big daddy”?
Captando a ironia da pergunta, Alfredo responde:
– Saímos daqui com vida e é o que conta. Já temos uma boa noção dos delírios do Rei da Escócia. Resta-nos agora tirar os pés do chão e isso é a sua especialidade.
Risos amarelos.
Bagagens arrumadas, tomadas as posições a bordo com uma reserva de água para matar a sede e um novo rumo é tomado assim que o ar se torna mais leve que o pesado solo do Uganda. Um momento surdo em que todos a bordo sentem um alívio comum. Uganda vai ficando para trás…Ufa!
Conforme combinado, vamos temporariamente rumar a norte para ter uma vista do primeiro lago do Western Rift.
Ao chegar às proximidades deste primeiro plano d´água, Charles vai descrevendo.
– Este é o lago Albert, na divisa entre Uganda e o Congo e faz parte dos Grandes Lagos Africanos. Tem cerca de 5600 km² de área, um comprimento máximo de 160 km e uma largura máxima de 30 km. A profundidade média é de 25 m e a máxima de 58 m. Situa-se a 615 m de altitude. Chamo a vossa atenção para as montanhas circundantes.
Alfredo vai ter muito para captar a partir daqui. O céu já não é o limite.
Com a destreza com que Charles habituou este animado grupo, o Cessna faz agora uma volta de cento e oitenta graus rumando desta vez para sul. Outro momento de grandes emoções.
-Vamos agora sobrevoar a totalidade deste lago a baixa altitude. Vejam a riqueza de aves que convivem com as águas.
Segue-se mais adiante um outro lago de menor dimensão, mas igualmente deslumbrante pela vistas das suas margens. O lago Edward rodeado pelo Parque Nacional Queen Elizabeth, do lado de Uganda a leste, e pelo Parque Nacional Virungas, no Congo, a oeste.
Stephen aproveita para informar:
– Esta é uma região onde há bastantes leões, grandes famílias de chimpanzés e lá ao fundo a maciça Cordilheira Virunga, local de um vulcão ativo que é escalável, onde habitam importantes famílias de gorilas ameaçados de extinção.
Não há olhos para tanto deslumbre. Entre um lago e outro Charles vai chamando à atenção de manchas de antílopes, zebras e girafas que sempre reagem à passagem de um mono-motor a baixa altitude. Alfredo não tem mãos a medir e Susana vai cobrindo páginas de hieroglifos.
Segue-se mais adiante o terceiro lago desta extraordinária mancha aquática.
O Lago Kivu, da região do Western Valley, partilhado entre o Rwanda e o Congo.
Passando por uma zona específica, Charles chama de novo a atenção dos seus passageiros.
-Vejam ali em baixo as belas praias para passeios tranquilos de barco e a visita à pequena cidade de Goma inserida numa zona vulcânica.
As vistas são de um indescritível deslumbre. Não há olhos para tanta magia.
E com um voo que já dura há mais de duas horas em direção ao sul já, se avista ao fundo o famoso lago Tanganica partilhado na sua fase inicial entre o Congo e o Burundi, tendo mais à frente o Congo do seu lado ocidental e a Tânzania no lado oriental. A emoção é grande. Alfredo já vai no terceiro rolo e Susana quase gastou a tinta da sua caneta.
– Que dizer deste lago que tanto fascinou o seu avô Donald Mackenzie? -pergunta Alfredo para os seus botões.
Lago Tanganica – O último dos lagos do Western Valley, é longo e fino, com uma abundância de vida animal nas suas margens que foi palco de admiração e exploração dos pioneiros de aventura neste continente. Daqui avista-se o rio Gombe e o Parque Nacional das Montanhas Mahale, na Tanzânia.
E ao final de três horas de total deslumbre, o Cessna de Charles toca o solo tanzaniano da pista do aeroporto da cidade de Kigoma, dando por concluída mais uma passagem idílica sobre estes países divididos por estes soberbos planos de água.
Os agradecimentos são merecidos e acertada a combinação com Charles de aqui retornar dentro de quatro dias.
Parte IV – O Lago Tanganica
Ao entrar no edifício do aeroporto, estes jovens jornalistas e o quase jovem Stephen terão novamente que passar pelo desagradável controle de passaportes visto que estão a regressar à Tanzânia.
No intuito de melhor compreender onde se encontram , Alfredo pergunta:
-Esta cidade de Kigoma pareceu-me muito interessante vista do ar! Quer dizer-nos mais sobre este lugar?
-Kigoma é uma cidade com um porto de pesca nas margens nordeste do Lago Tanganica e perto da fronteira com o Burundi e o vizinho Congo . Situada a uma altitude de 775 m encontra-se a apenas 6 km da histórica cidade de Ujiji onde, em 1871, o jornalista Henry Morton Stanley encontrou finalmente o famoso explorador David Levingston. Diz-lhe alguma coisa, Alfredo?
-Com certeza! – responde o jovem antropólogo animado. Esse foi um dos relatos que mais maravilhou o meu avô Donald. Tenho esse documento entre tantos outros em que ele se refere a esta região do Lago Tanganica. Sinto-me privilegiado por estar aqui.
Concluídas as tarefas administrativas com as autoridades tanzanianas, é tempo de passar para o exterior para cumprir a próxima etapa.
Entrando num táxi a caminho do porto, a conversa retoma o seu curso.
-E daqui para onde iremos? – quer saber desta vez Susana com a curiosidade à flor da pele.
-Bem, os próximos dias vão ser totalmente diferentes do que temos vivido até agora.
-Lá vem a caixinha de Pandora! -pensou de imediato Susana.
-Vamos começar por fazer um circuito numa balsa sobre o lago Tanganica até ao ponto onde seremos alojados por um amigo que não vejo há uns anos. Ele tem um lodge muito peculiar nas margens do lago, numa zona denominada de Mahale, circundada por montanhas. Um grande polo de vida natural onde nos esperam algumas experiências menos comuns.
Este meu amigo de nome James Macgregor é, como vocês já captaram, mais um escocês por terras de África, que dedicou a sua vida à botânica no estudo e classificação de espécies. Com a criação do Parque Nacional Gombe, em 1968, James foi convidado a integrar uma equipa de naturalistas, desafio que aceitou, tendo-se radicado por cá desde então. Gombe é um dos menores parques nacionais da Tanzânia, com apenas 21 quilómetros quadrados de zona protegida ao longo das colinas da costa leste do Lago Tanganica.
-E o que faz ele para desenvolver a sua atividade? – quer saber Alfredo.
-James recebe alguns visitantes ao longo do ano, em regra cientistas, providenciando alojamento, apoio logístico e sustentação básica.
-Interessante! – retorna desta vez Susana. E quanto ao mundo animal, que aqui deve ser de grande riqueza?
– James envolveu-se num projeto muito interessante desde que chegou a Gombe.
-Que projeto? Pergunta Susana curiosa.
-Colaborando logisticamente com a primatologista e antropóloga inglesa Jane Goodall, que começou a estudar e a catalogar a vida das comunidades de chimpanzés desde 1965.
-Uau! Sei muito bem quem é! – diz Alfredo empolgado. Aquele projeto dos primatas.
Ela é uma referência em Cambridge onde fez um Phd em Etologia.
-Tu também és um filho de Cambridge, querido! – diz Susana.
-Verdade! Uns bons anos mais tarde. Então esse projeto é aqui em Gombe. Excelentes notícias! – conclui Alfredo entusiasmado.
Chegando ao porto de Kigoma e pagando a corrida do táxi, Stephen informa:
– Agora temos que ir a um posto de comunicação aqui próximo que faz o intercâmbio com os barqueiros do lago e habitantes da região via rádio amador. Tenho que contactar o James para anunciar a nossa chegada para que mande a lancha vir buscar-nos.
Uma tarefa que Stephen conhece bem. Ao sair do tal posto, informa:
-Tudo em ordem, o Butati, o barqueiro do lodge, estará aqui dentro de uns 80 minutos. Tempo suficiente para comermos algo num lugar aqui perto enquanto esperamos.
-E o seu amigo James encontra-se lá? -pergunta Susana expectante.
-Sim, claro! Foi uma boa surpresa. Não nos vemos há uns 5 anos.
-Mas diga-nos! Como lhe disse que passaríamos para visitá-lo?
-Enviei-lhe uma carta a partir de Londres com o nosso plano e as datas previstas. Como recebi resposta positiva, fiquei à vontade.
Esta rápida refeição foi num restaurante algo rústico com excelentes vistas do lago. Forrar o estômago ao ritmo de uma boa prosa fez a satisfação destes três personagens, em vias de iniciar uma nova etapa do seu roteiro.
Passada cerca de uma hora e pouco, lá encontraram junto a um dos ancoradouros do porto, a lancha com um Mercury fora de bordo tripulada por Butati, um dos colaboradores de James na qual se veem as inscrições “Kibwe Mahale Camp“.
Butati é um guia tanzaniano da etnia Swaili, dos seus trinta anos com um porte atlético e sorriso franco, trajado com uma camisa com o logo do Camp, chapéu de pano, calção pelo joelho e calçado de trekking.
Feitas as apresentações, arrumada a bagagem a bordo e distribuídos os lugares, é tempo de partir para um circuito de cerca de uma hora e tal sobre o transparente lago Tanganica. O sol ilumina generosamente as águas indicando o seu trajeto na direção poente.
As emoções são grandes quando se avistam aqui e ali famílias de hipopótamos e, em certas clareiras junto da margens, alguns crocodilos de grande porte que Butati faz questão de mostrar.
-Estamos no coração de África. – murmura Alfredo captando instantes inesquecíveis da vida selvagem.
Nos rostos dos forasteiros a satisfação de estar a penetrar num novo mundo onde a civilização humana vai ficando para trás. A floresta adensa-se mais e mais e já ao longe se avistam as montanhas de Mahale.
A chegada ao Kibwe Mahale Camp não podia ser mais emocionante. À frente dos olhos dos recém chegados apresenta-se uma atmosfera do tipo Robinson Crusoe.
Ao se aproximarem do camp, Butati, usando um inglês marcado pelo típico sotaque do povo Swaili, explica:
-Este é o camp. Foi construído nesta grande clareira junto ao lago. No inicio era mais pequeno. Depois, mais ao fundo, foram construídos mais dois bangalows de cada lado da estrutura principal. Como podem ver, todas as estruturas formam construídas sobre sólidos troncos de madeira local, estando elevados do solo, evitando o contacto com serpentes, lagartos e outros bichos.
Susana olha para Alfredo com uma expressão que este conhece bem.
– Estamos no sopé das montanhas Mahale, densamente arborizada e um importante habitat de uma próspera população de chimpanzés. Aqui à frente está a magnífica praia lagunar. Sejam muito bem vindos!
No pequeno ancoradouro onde, passados minutos, a balsa encosta, está à espera um personagem de uns 65 anos com o seu 1,80 de altura, portador de uma farta cabeleira meio alourada, meio grisalha, pele curtida pelo sol e uma barba cuidada. Este cavalheiro trajado de forma casual em tons de verde com o logo bordado no bolso da camisa, traz um bom par de botas de couro e um chapéu de ranger a completar o seu carisma.
-Hi, old timer! – diz o nosso anfitrião abrindo os braços para receber calorosamente Stephen.
-Hi Jim! Há quanto tempo, old buddy? Ainda andas de pé ou já te habituaste aos usos e costumes da floresta?
Após uma breve troca de boas gargalhadas típicas de quem se conhece de outros tempos, é o momento de apresentar os restantes recém chegados.
-Jim! Esta jovem de sorriso solar é Susana, e aqui o Alfredo de quem te falei na minha carta.
Com um entusiasmo que imediatamente descontrai o ambiente, James diz:
-Sejam muito bem vindos. Sintam-se como em vossa casa, que é o que eu faço.
Risada geral.
E o anfitrião prossegue:
Todas as estruturas deste Camp foram modeladas com o traço da arquitetura tradicional de Tongwe, grupo étnico do distrito de Kigoma – Lago Tanganica.
Consiste em uma zona central com um bar, sala de jantar, biblioteca e duas pequenas plataformas elevadas, convertidas em aconchegantes áreas de estar abertas oferecendo vistas soberbas do lago.
Continuando a visita guiada, James prossegue:
– Contíguas a este espaço central está uma cozinha recuada e mais quatro espaços para alojamento com acesso lateral aos sanitários situados no exterior. Dois de cada lado.
Mais recuados estão os quartos tipo bangalow complementares, dois de cada lado, que construímos mais tarde, completando a capacidade de 8 unidades de alojamento. Lá por cima fica o nosso alojamento e o meu laboratório de trabalho.
Todas estas estruturas são elevadas do solo e constituídas de madeira rústica, com paredes de madeira ripada e a totalidade das coberturas em colmo.
Por vezes temos a passagem de tempestades tropicais, mas esta estrutura já provou que resiste bem.
-E como está Jennifer? – pergunta Stephen.
-Vai bem! Foi ontem até Kigoma para tratar de uns assuntos administrativos e recolher algumas provisões. Estará de regresso amanhã pela manhã.
-Jennifer? – pergunta Susana.
-Sim, a criatura maravilhosa que atura este escocês maluco neste fim do mundo.
Risada.
Enquanto caminham, Jim que é bom falador, continua a sua prosa:
-Quero dar-vos mais algumas informações sobre o nosso camp.
Meus amigos! Estamos, como podem ver no meio do mato. Temos água potável retirada do lago através de bomba a diesel, ligada uma vez por dia para encher um depósito situado numa torre nas traseiras do camp. Esta água é filtrada por um sistema de carvão natural, sendo uma água própria para consumo. Sem receios!
-E como fazem com a energia? – pergunta Alfredo curioso.
-Meu jovem! – a luz do dia é o nosso recurso mais valioso. As noites, que são em regra mais dedicadas ao sono, são iluminadas por um conjunto de lâmpadas de querosene que são portáteis e colocadas onde é necessário.
-E a conservação de alimentos? – pergunta desta vez Susana.
-Nesse capítulo temos um frigorífico e uma arca congeladora movidos a gás que serve igualmente os restantes aparelhos de cozinha. E ainda temos um forno a lenha onde cozemos o nosso pão duas a três vezes por semana.
-E quanto a esgotos? – pergunta novamente Alfredo.
-Essa foi das primeiras infraestruturas que construí no camp em 1965. Uma grande fossa séptica que está nas traseiras. Funciona muito bem.
-Genial o teu projeto, Jim! Mais bem estruturado em comparação à minha última visita. Conta-nos mais sobre a atividade do camp.
James então sugere:
-Suponho que queiram instalar-se e refrescar-se. Vou mandar preparar um jantar ali na praia onde vamos acender uma fogueira, assistir ao pôr do sol, e saborear uns grelhados.
Creio que teremos então a oportunidade de falar sobre o nosso trabalho em Mahale e saber mais sobre a região.
-Excelente sugestão! – retorna Stephen.
Aproveitando um período sem hóspedes no camp, Alfredo e Susana optaram por ocupar um dos bungalows recuados e Stephen um dos espaços integrados no vão central.
O equipamento dos quartos é rústico e básico. O conforto está garantido com uma cama espaçosa equipada de rede mosquiteira, sendo os sanitários no exterior compostos de duas unidades – masculino e feminino de cada lado.
Estas estruturas são compostas de toros de madeira cobertas de paredes de finos troncos verticais unidos com lianas e com um teto comum em colmo mais elevado por onde passa o ar. A água corre na temperatura natural. Sem problema! Isto é Africa.
Segue-se uma agradável experiência ao redor da tal fogueira que será acesa assim que o sol desça no horizonte da margem oposta do lago.
Um conjunto de mesas e cadeiras compõem o ambiente onde alguns drinks gelados são servidos por um funcionário do lodge.
Stephen, confortavelmente sentado ao lado de James, pergunta:
-Conta aí como funcionam as provisões do lodge?
-Os produtos de consumo primário são adquiridos em Kigoma. A nossa balsa tem também essa utilidade. Jennifer e Butati cumprem essas tarefas uma vez por semana junto dos mercados e fornecedores habituais. Localmente, cultivamos produtos hortícolas, temos um galinheiro, colhemos alguns frutos das nossas árvores e outras silvestres que a floresta oferece. E ainda temos o lago que nos fornece o peixe que aqui consumimos.
-E quanto à tua atividade na área da botânica.? Imagino que nestes 10 anos tenhas uma longa história para contar.
-Quando em 1965 me convidaram para integrar a equipa do parque Gombe, o desafio foi realizar a exploração botânica desta região. Desde então foi possível recolher e classificar cerca 430 espécies de plantas vasculares, 96 fungos, 78 líquenes, uma coleção de plantas vivas, madeiras, rochas, objetos antropológicos e por aí vai. Em paralelo, outros naturalistas que exploraram a área zoológica e geológica puderam classificar mais de 260 espécies de animais, entre insetos, aves, répteis e batráquios, tartarugas, caranguejos, camarões, caracóis, etc.
Estudos que, além de serem arquivados em museus na Europa e nas Américas, tem sido objeto de vários livros que tenho escrito e editado sobre a matéria.
-E quanto à vida selvagem da região? – pergunta Susana tomando mais umas notas no seu road book.
-Nesse capítulo, recebemos frequentemente grupos de naturalistas com o intuito de preparar teses sobre vida selvagem, alguns apaixonados pela observação de aves (bird watching), e muitos fotógrafos profissionais e amadores, entre outros.
Stephen, igualmente interessado pelo tema, coloca uma questão principal.
-E quanto às estrelas de Gombe – a população de chimpanzés?
James com a boa articulação que o caracteriza, responde:
-Como te lembras, Stephen, nós temos uma parceria de estreita colaboração com a Dra. Goodall que se instalou em Gombe muito antes de nós. Esse é um setor inteiramente dela onde eu participo ativamente em termos logísticos em terra, através de trilhos, e através do lago Tanganica. A Jennifer colabora no desenvolvimento de conteúdos de divulgação com finalidade a angariação de fundos para sustentação do projeto.
-E diz-nos cá, Jim. Pensas que poderemos visitar o projeto de Jane Goodall durante esta nossa passagem por Gombe?
-Penso que sim! Ela viaja para o exterior com cada vez mais frequência, mas sei que está por cá neste momento. Mas vamos deixar a Jen chegar amanhã e logo nos organizamos nesse sentido. Falei com ela esta manhã via rádio sobre essa ideia. Está bem encaminhada.
-Excelente! – retorna Stephen sabendo que esta resposta fez brilhar os espíritos dos seus colegas de viagem.
-Tem um significado especial o nome do lodge? -pergunta Alfredo curioso.
-Podemos dizer que sim. Kibwe, em Swaili significa “abençoado” – responde James sorrindo.
-O swaili é uma língua regional, certo? Ela abrange quais países? – quer saber Susana.
James informa:
– O swaili é a língua nativa de diversos grupos que habitaram e habitam uma faixa de 2500 km desde a costa leste do continente. É um dialeto oficial na Tanzânia, no Congo e no Quénia.
-Segundo sei, a Tanzânia foi colonizada noutros tempos pela Alemanha, certo? -pergunta Alfredo.
-A Alemanha estabeleceu a colónia no Tanganica, hoje conhecido como Tanzânia, em 1886. Naquela época a língua Swaili era disseminada na região e foi tornada língua oficial da colónia. Os ingleses não fizeram o mesmo no vizinho Quénia, embora tenham feito tentativas nesse sentido. Esta foi uma forma de uniformizar as dezenas de línguas diferentes entre os nativos, pela escolha de uma língua única com boa aceitação entre os povos locais.
-E a transferência da colónia para a Grã-Bretanha?
Vez de Stephen intervir:
-Com a derrota da Alemanha na Primeira Grande Guerra esta perdeu as suas colónias em África – Tanganica, Namíbia, Togo, e Camarões, ficando Tanganica para os britânicos.
Já o sol se deitava naquele horizonte frondoso da floresta deixando o céu incendiado por uma explosão crepuscular, quando Butati acende a tal fogueira. A partir daqui o churrasco será degustado com um ingrediente especial. Os cantos das aves que atravessam este lendário lago e, claro, a continuação de uma animada prosa. O ambiente é mágico. Os mosquitos não estão nada satisfeitos com as labaredas e o calor da fogueira.
Dando mais uma garfada no suculento churrasco, James adianta-se com outro tema.
-Vou querer saber mais sobre esta vossa viagem. Mas vamos deixar esse fascinante tema para amanhã quando a Jen estiver entre nós, ok?- ela é uma grande entusiasta dessas aventuras.
-Com certeza! – respondem em uníssono as vozes destes jovens conciliados com a ideia.
A noite caíra neste lugar fabuloso e como o anfitrião deu a entender, a escuridão da floresta pede serenidade dando a vez ao essencial sono que em regra termina aos primeiros raios de luz de cada novo dia.
Os sons do exterior oferecem aos recém chegados a sensação de estarem isolados da civilização. Só falta ouvir o grito do Tarzan! Uma sensação tão deslumbrante quanto inquietante.
O querosene fez o seu trabalho e retirou-se, cedendo o lugar à noite escura de Gombe dignamente iluminada por uma lua que sobe no esplendor de um céu estrelado.
2º Dia
A luz deste novo dia e um galo que mostra o que vale ali nas traseiras do bangalow são o mote para o despertar neste fim do mundo. Ou será o início? – perguntam este jovens a si próprios.
Na ala central vão ao encontro dos dois escoceses que tem muita escrita para colocar em dia. Ali ao lado está uma mesa convidativa com as tradicionais iguarias de um English Breakfast.
-Bom dia, senhores! – diz Susana com um olhinho meio aberto a pedir um café traçado com leite.
-Bom dia, jovens! – retorna James. Espero que tenham dormido na paz da selva.
-Excelente a noite! – responde Alfredo – o seu galo é como um relógio suíço.
-Não falha, aquele! Ele e a preguiça matinal entendem-se muito mal! – conclui James com uma expressão safada.
Quando se preparam para tomar o pequeno almoço, chega ao ancoradouro a lancha de Butati trazendo Jennifer.
A emoção é naturalmente grande.
Jennifer é uma senhora dos seus 62 anos de porte enérgico, de olho azul mar, portadora de uma cabeleira grisalha e vestida no figurino essencialmente africano em tons de caqui.
No bolso da camisa o logo do lodge, sobre a cabeça um chapéu de palha e nos pés umas boas botas de trekking completam esta sorridente anfitriã que vem agora ao encontro do grupo.
Apresentações feitas, Jennifer diz:
-Tudo indica que chego na hora certa, hein? Me desculpem, vou ali lavar as mãos e passar uma água no rosto. Volto logo.
A conversa foi naturalmente animada com a chegada da anfitriã.
Confortavelmente sentados e com o repasto à disposição, Jennifer adianta:
– Tive a oportunidade de saber mais sobre vocês e da vossa viagem na carta que Stephen nos enviou há um tempo atrás. Fiquei muito impressionada com a história bem recheada de dois jovens com a vossa idade. E mais particularmente com o tema relacionado com o avô do Alfredo. Isto daria um bom filme em Hollywood.
Ao que Alfredo, agradecido pelas palavras de Jennifer, responde:
-Penso que a nossa surpresa ao chegar aqui foi maior, pois temos um fator que nunca nos deixa antever o que nos vai acontecer a seguir, sabe?
-E qual será esse fator? -quer saber Jannifer.
– Está aqui bem ao nosso lado! – responde Alfredo apontando para o sorridente Stephen.
-Sabe, Jen! Ele fala assim, mas não quer que seja diferente. – retorna Stephen.
A resposta de Alfredo traduziu-se na concordância de um aperto de mão com o melhor companheiro de viagem que poderiam ter.
– Fale-nos um pouco sobre a sua colaboração com o projeto de Jane Goodall. – sugere agora o jovem antropólogo.
-Muito bem! A minha colaboração com Jane Goodall já vem desde 1965, quando o Jim decidiu abraçar o seu projeto naturalista em Gombe. Nós tivemos desde logo uma grande empatia com ela e daí nasceu um espírito de franca colaboração. O Jim passou a fornecer algum apoio logístico e alojamento para os muitos pesquisadores e cientistas que passam por Gombe para acompanhar o projeto dos chimpanzés. Com o tempo, eu construí com ela uma boa parceria na divulgação do seu trabalho no exterior. Organizando cronologicamente os múltiplos temas de pesquisa e fazendo a ponte com editoras, documentaristas, cadeias de rádio e televisão, revistas, etc. Também colaboro na elaboração de campanhas e palestras que Jane dá no exterior tendo como principal objetivo a recolha de fundos.
-E como vês a possibilidade de visitarmos o projeto durante esta nossa passagem? – pergunta desta vez Stephen
-Ela viaja muito para o exterior. Mas sei que ela está por cá. Creio portanto que é perfeitamente viável. Vou esta tarde falar com ela via rádio. Logo vos dou novidades.
Jennifer sem perder o eixo da conversa, levanta-se dirigindo-se para uma estante ali perto de onde retira uma revista. Regressando à mesa, sugere a Alfredo:
-Para melhor entender o projeto da Jane, faça uma boa leitura da reportagem que a National Geographic publicou a este propósito. Vale a pena ver.
-Muito grato! Terei todo o interesse.
A restante parte da manhã foi dedicada a algum descanso onde Alfredo aproveita para passar os olhos na reportagem da National Geographic Magazine de 1965, acerca do trabalho de Jane Goodall.
Susana aceita o convite de Jennifer para visitar o laboratório no piso superior e ver mais de perto as atividades quotidianas do casal.
Nesta edição da National, Alfredo capta uma pouco mais da personalidade e obra de Jane Goodall.
Dados relevantes retirados desta publicação, para além de uma cuidada apreciação de excelentes imagens captadas no local:
Quem é Jane Goodall?
Valerie Jane Morris-Goodall
Nascimento : Hampstead (Londres) em 3 de abril de 1934
Chegada à reserva de Gombe -Tanzânia, em 1960
Posterior formação: PhD (Philosophiæ Doctor) em etologia pela Universidade de Cambridge em 1965
Etologia : Estudo do comportamento natural de uma espécie animal; a preservação da mesma configurando uma das liberdades animais (livre de fome e sede; livre do desconforto; livre de dor e doenças; livre de medo e stress.
Na década de 1960, sem treinamento académico formal, Jane Goodall aventurou-se nas florestas do que hoje é o Parque Nacional Gombe Stream, na Tanzânia, para observar chimpanzés na natureza. Durante seu tempo por lá, ela fez várias observações sobre o comportamento dos chimpanzés que desafiavam as teorias científicas convencionais mantidas na época, incluindo revelações que chimpanzés são onívoros e não herbívoros, chimpanzés constroem e usam ferramentas, e têm interações sociais complexas. Essas ideias alteraram a maneira como entendemos nosso lugar na ordem natural e como o trabalho de Jane abriu portas para outras mulheres na ciência.
O almoço foi mais um encontro de boa disposição e desenvolvimentos de boas sinergias, tendo como tema principal o que já foi realizado nesta aventura africana e, como não podia deixar de ser, o projeto de Jane Goodall.
Concluído este momento ao qual se segue aquele período bem tropical chamado de sesta, James sugere:
-Estariam estes jovens interessados num circuito pelo lago, mais próximo do pôr do sol?
Sei de alguém que não dirá não!
Curiosa, Susana indaga:
-E quem seria esse alguém?
-A máquina fotográfica de Alfredo. Vão por mim! Vale muito a pena.
-Seja muito bem vinda essa volta! – responde Alfredo entusiasmado.
-Vou falar com Butati para preparar esse programa.
Stephen aproveita para informar.
-Divirtam-se, muchachos! Vou-me deixar estar com o Jim. Temos rios de conversa atrasada.
Já a tarde vai a meio, quando Alfredo e Susana embarcam na lancha conduzida por Butati para uma viagem de conhecimento sobre o Tanganica.
O Parque Nacional e as Montanhas Mahale são realmente impressionantes. Montanhas densamente arborizadas que caem sobre as águas azul-turquesa do lago, banhando aqui e ali enseadas de areia branca escondidas do mundo. Uma beleza que revela uma rara combinação de cores que se espalham por todos os cenários.
Susana animada pergunta a Butati:
-Sabemos que este lago tem uma grande diversidade de peixes, certo? Quer falar um pouco sobre isso?
Butati, com o seu grande conhecimento popular e num inglês bem condimentado de swaili, responde:
– A maior comunidade de peixe do Tanganica são os Ciclídios. São peixes de cores muito vivas que quando pequenos são vendidos como peixes de aquário no mundo inteiro. A variedade é muito grande, mas é possível agrupar a sua grande maioria em diversos tipos, considerando características ou hábitos semelhantes. Depois temos alguns mais raros pela sua forma, cor e dimensão.
-E como se chama esse? – pergunta Alfredo.
Butati prossegue:
-É uma espécie de enguia com uma coloração pálida. Com o curso da sua evolução as barbatanas peitorais foram diminuindo, chegando mesmo a desaparecer. Atualmente existem aproximadamente 15 espécies de enguias aqui no Tanganica, cada uma com as suas peculiaridades. O ancestral em comum a estas espécies provavelmente viveu no período de formação do lago há 7000 anos, segundo um professor que eu trouxe um dia a visitar o lago.
Aqui e ali, Butati abranda a marcha para Alfredo captar imagens inéditas de aves que se deslocam para outras zonas do lago ao fim da tarde.
-Agora vou mostrar uma zona do lago ali a norte, mais próximo do Burundi. É uma zona muito conhecida por ali habitar um fenómeno que já trouxe para cá muita gente.
-Sim! E trata-se do quê?- pergunta Alfredo curioso.
Butati com uma expressão divertida, responde.
-Chamam-lhe Gustave.
-Gustave? – indaga Susana algo intrigada
-Gustave é um gigantesco crocodilo-do-nilo com mais de 8 metros de comprimento. Trata-se de uma estimativa, já que nunca conseguiram capturá-lo para fazer uma medição correta.
-E vive onde? -pergunta Alfredo algo perturbado.
No rio Ruzizi, para onde estamos indo agora. É um dos rios que alimenta o lago Tanganica na região do Burundi. Estima-se que o animal tenha aproximadamente 60 anos – um dos crocodilos mais velhos da região – e segundo alguns cientistas ainda estará a crescer.
Susana olha para Alfredo com uma expressão inquietante. No seu espírito flutua uma frase. Lá vem!
-E qual é a história sobre este animal? – indaga Alfredo.
– A população local fala de Gustave como uma lenda na região e tem por sua conta mais de 300 vítimas humanas. Alguns dos ataques foram testemunhados e segundo os relatos, Gustave é extremamente voraz, arrastando as suas presas para o fundo do rio onde morrem afogadas, enquanto as devora com calma.
Em algumas tentativas, instalaram-se armadilhas para atrair o crocodilo, sem qualquer sucesso. Apenas capturaram animais menores, mas nunca Gustave. Por fim colocaram um bode vivo dentro de uma enorme gaiola de captura e, noite após noite, nenhum resultado. Até que numa manhã após uma noite de tempestade, a gaiola foi encontrada afundada na água e o bode havia desaparecido. Não foi possível saber o que de fato aconteceu.
Alfredo acrescenta:
-Nós estivemos há tempos a navegar no rio Nilo onde vimos crocodilos de grande porte. Mas um pré histórico de 8 metros… é demais!
Butati prossegue:
-Alguns caçadores que já tentaram capturá-lo afirmam que ele parece saber onde estão as armadilhas e os perigos. O bicho sempre se desvia delas.
Quem já o viu e conseguiu captar em fotografia, afirma que Gustave tem marcas de bala na cabeça atribuídas às várias tentativas para capturá-lo. Mesmo assim, não foi suficiente para matá-lo.
-No mínimo, aterrador! – exclama Susana que não tira os olhos arregalados da água. E é para lá que estamos a ir?
-Com sorte vamos vê-lo por aí, Miss!
-Oh! Butati! Chegue a boca pra lá! – exclama esta jovem dando sinais de algum pânico
Alfredo, provocador, retorna:
-Mas eu bem que gostava de lhe tirar uma ou duas chapas!
-Pois! Mas tu és maluco e a família não sabe.
Risos.
No destino não estava escrito este encontro com tamanha besta e, com o cair da noite e perante um deslumbrante céu crepuscular, o grupo iniciou o seu regresso ao lodge. Não sem captar mais umas extraordinárias migrações de aves projetadas naquela explosão multicolor.
-E que tal o passeio? – pergunta James animado.
-Excepcional como tudo o que temos visto por aqui. Susana só não gostou da parte do tal Gustave.
-Pois, sabemos como é! Aquele malandro do Butati sempre gosta de levar as senhoras até à foz do Ruzizi para contar a história do nosso pré histórico de estimação.
Risada geral. A de Susana teve uma tonalidade amarela.
Alfredo acrescenta:
-Mas levo comigo algumas imagens deste fim do mundo que me vão encher de orgulho.
Jennifer, que acompanha a conversa, intervém dizendo:
-Mas há boas notícias. meus jovens! Falei esta tarde com Jane que se dispôs a receber-nos amanhã pela manhã.
-Excelentes news! – exclama Alfredo.
Um agradável duche de água fria e um jantar de churrasco, desta vez de peixe, a repetir o cenário da noite anterior à beira do lago em torno de uma fogueira, foi palco de novas e animadas prosas.
Um verdadeiro deleite para quem encerra desta forma mais uma jornada de sonho neste coração de África.
3º dia
A noite foi uma vez mais premiada por um sono reparador embalado por um conjunto de sonoridades que só uma gravação áudio pode captar. Os pernilongos passaram horas do lado de fora do mosquiteiro sem entender como sangue tão fresco e apetitoso não está ao alcance! Damn!
Um duche de água fria atinge o efeito desejado. Preparar a curiosidade destes gringos para uma nova jornada em plena selva africana.
Concluído aquele agradável encontro matinal de todos em volta da mesa para saborear a primeira refeição com vistas para aquele soberbo lago, é o momento de melhor entender o programa do dia.
Jennifer, com a simpatia que sempre oferece aos visitantes, adianta:
– Como ontem informei Jane está disposta a receber-nos mais daqui a pouco para uma visita guiada ao Parque onde habitam os seus enteados.
– Excelente! – retorna Stephen entusiasmado.
Os sorrisos de satisfação estão bem presentes nesta mesa recheada de degustações tropicais.
James, voltando-se para a companheira, diz:
-Dear! Podes acompanhá-los nesta visita aos nossos primos? Eu estou a organizar aqueles textos que chegaram pelo correio.
-Of course! Com todo o prazer. Eles vão adorar. E a Jane é a Jane! -retorna Jennifer com um simpático sorriso.
Reunido equipamento mínimo necessário para esta nova aventura, Butati recebe o grupo a bordo da lancha. O trajeto não é longo e esta passagem pelas margens do Tanganica confirma mais uma vez os encantos transcendentes desta região tão especial. Aquela hora da manhã é bem visível a atividade aérea de grande número de aves ribeirinhas, e aqui e ali, alguma agitação nas águas muito ricas em vida aquática.
Passados uns quinze minutos, estão a chegar ao acostamento em madeira do Gombe Stream National Park.
Ao encontro do grupo vem uma senhora de 42 anos calçada com uns ténis de lona de cano alto, bermuda caqui e com o cabelo louro preso num rabo-de-cavalo que se tornou a sua imagem de marca em jornais e revistas à volta do mundo. Jane Goodall em pessoa.
Jennifer toma a dianteira apresentando os recém chegados.
A simpatia instala-se gradualmente deixando a anfitriã e todos do grupo muito à vontade.
-Então suponho que queiram ver o nosso trabalho neste canto do mundo?
-Será um privilégio! – retorna Stephen simpaticamente.
-Pois então permitam-me que vos dê em primeiro lugar uma perspectiva do nosso projeto. Aqui a Jennifer, que tem sido junto com o Jim incansáveis amigos e colaboradores, já conhece bem do que vou falar e sempre pode completar uma ou outra informação pertinente.
Jennifer retorna com um afável sorriso.
-Em 1960, fui convidada pelo famoso antropologista Louis Leakey para fazer um trabalho de pesquisa na então reserva de caça de Gombe, onde nos encontramos. Entusiasmado com os primeiros resultados, ele decidiu juntar-se a mim para estudar o comportamento do parente vivo mais próximo do homem. O chimpanzé.
Louis, além de um grande antropologista era um apaixonado por fotografia. Acabámos por nos casar.
Nos meus primeiros anos em Gombe, eu descobri que os chimpanzés compartilham comportamentos e emoções que antes se pensava serem exclusivas dos seres humanos. Descobri também que eles criam e usam ferramentas para uma variedade de propósitos, são capazes de raciocinar, resolver problemas e mostram emoções como alegria e tristeza, medo e desespero, amor e empatia. Eles também mostram verdadeiro altruísmo, revelando personalidades vincadas.
De início, vim acompanhada pela minha mãe, Vanne Goodall, dado que as autoridades britânicas da época ficaram chocadas com a hipótese de uma jovem de 26 anos ir morar com animais na selva. Inicialmente, a permissão foi recusada, mas acabaram por concordar caso eu viesse acompanhada de minha mãe.
Cedo estabelecemos excelentes relações com a comunidade local de pescadores que se ofereceram para uma inestimável contribuição na fase inicial do projeto. Quatro postes e um teto.
Como poderão verificar, o nosso camp atual já tem mais alguns paus e tetos.
Sorrisos.
-Levou muitos meses até que os chimpanzés superassem o medo inicial daquela estranha macaca branca, de cabelo louro, olhos azuis, sem pelos, que por ali apareceu. A princípio, fugiram mesmo que eu estivesse do outro lado do vale. Finalmente, um chimpanzé adulto, a quem chamei de David Greybeard, perdeu o medo. Veio até ao meu acampamento para saborear o óleo de dendê, não indo embora sem algumas bananas. Gradualmente, esta proximidade comigo convenceu outros chimpanzés a fazer o mesmo.
-E como foi crescendo o seu convívio com eles? – pergunta Susana curiosa.
Com um leve sorriso, Jane prossegue:
-Ao longo de quase 40 anos de observação contínua dos chimpanzés e babuínos nesta reserva, eu e os meus colegas pesquisadores e assistentes mantivemos uma filosofia de não interferência. Exceção feita para administrar medicamentos a chimpanzés doentes. E assim criar uma base de confiança entre eles e os primatas sem pelos que os estudam.
Nova risada.
– Ao longo dos anos seguintes muitos dados comportamentais e demográficos foram recolhidos nos chimpanzés de três comunidades que denominamos de Kasakela, Kahama e Mitumba. Estudantes e pesquisadores de graduação, pós- graduação e assistentes de campo, contribuíram para a riqueza de conhecimentos obtidos com este extraordinário estudo de longo prazo.
Em 1965, recebi o meu primeiro e importante impulso da revista National Geographic, tendo mais tarde sido realizado um filme intitulado “Miss Goodall and the Wild Chimpanzees”.
Empolgado, e deitando um olhar para Jennifer, Alfredo adianta:
-Ainda ontem tive o especial prazer de ver esse artigo da National, num exemplar disponível no Kibwe Camp. Extraordinária reportagem!
Serena, Jane prossegue:
-Esta película alcançou naquele mesmo ano cerca de 25 milhões de telespectadores só na América do Norte e teve um enorme impacto no resto do mundo. Mas nem tudo foi fácil.
-Pois imagino! Pioneiros nunca encontram vida fácil, certo? – diz desta vez Stephen.
-Não, de todo! Aqui em Gombe enfrentamos todo tipo de ameaça natural: malária, parasitas, serpentes, tempestades. Mas o mais difícil foi lidar com o mundo lá fora. Aí precisamos de recorrer a grandes estratégias e a muita delicadeza diplomática. Comecei por ter de confrontar uma classe científica maioritariamente masculina que não me levava a sério. Rapidamente compreendi que por trás dos seus discursos estava uma boa dose de hipocrisia, charme masculino e múltiplos interesses. Um tipo de relacionamento no qual eu não estava minimamente interessada.
-E como ultrapassou tudo isso? -perguntou Susana.
-Com uma filosofia própria e muita perseverança. A minha filosofia foi sempre a mesma:
suportar o menosprezo, fazer concessões e sacrifícios, contanto que isso servisse para dar suporte e viabilidade ao meu trabalho.
Mudando um pouco o rumo da conversa, Jane adianta:
-Jennifer falou-me um pouco do vosso trabalho em anteriores viagens que foram publicadas na National. Achei muito interessante. Fiquei igualmente a saber que tenho aqui um jovem colega de Cambridge. – diz Jane sorrindo para Alfredo.
-É para mim uma honra aqui estar a presenciar ao vivo e a cores um projeto que tomei conhecimento pela primeira vez precisamente em Cambridge. E quero adiantar o seguinte:
-Diga por favor! – retorna Jane sorrindo.
-Uma vez de regresso a casa, tratarei de lhe enviar pelo correio, bem como a James e Jennifer, os exemplares com as nossas reportagens publicadas na National. A do Egito e a do Brasil.
Susana, igualmente entusiasmada com a conversa, acrescenta:
-E tudo faremos para que esta nossa viagem a África possa ser a terceira reportagem a ser publicada.
Com um sorriso franco, Jane retorna:
-Essa seria uma cereja em cima do bolo. Se acontecer, eu, os meus assistentes e os nossos amigos de quatro patas nos sentiremos muito gratos.
Sorridente, Alfredo prossegue:
-Como pode imaginar, o privilégio de estar aqui ultrapassa todas as nossas expectativas. Já nos vamos habituando pois aqui o nosso mentor africano Stephen trouxe com ele a caixa de Pandora de onde saem os mais insólitos momentos.
Nova risada.
-Não se importa que façamos um registo fotográfico e escrito desta nossa visita? -indaga Alfredo.
-Nunca fui entusiasta por estar à frente das objetivas. A grande quantidade de fotografias em que apareço com os meus amigos peludos foram fruto da insistência do meu ex marido Louis Leakey, que era um apaixonado por imagem e por reportagens que, como referi, foram um grande impulso para este projeto. Mas moderadamente e perante uma boa causa, cá estou para colaborar.
Mas vamos ao que importa. Suponho que queiram dar um passeio pelos nossos trilhos e conhecer mais de perto os meus amigos do coração.
-Com certeza! Será para nós um privilégio. – responde Susana.
Jane prossegue:
-Peço a vossa particular atenção para o que vos vou dizer antes de entrar no seu habitat.
Por regra, os chimpanzés detestam ruídos sonoros, exceto os seus próprios gritos. Por isto, é deveras importante que saibamos mover-nos com a maior suavidade e serenidade possíveis. Quando estivermos na sua presença, temos que mostrar todo o respeito ao entrar em casa deles. Eu vos darei os sinais necessários para que tudo corra bem.
Iremos possivelmente cruzar diferentes famílias e diversos membros de grupos distintos.
Diante da diversidade de características e comportamentos, classificámos estes grupos por famílias. Familias F, G, P, T e S. Como atrás referi, esta minha caminhada começou com um macho a quem chamei David Greybeard e Flo, que foi uma fêmea que naquela época se aproximou aqui do camp. Ambos já não estão entre nós, infelizmente! Então vamos lá!
Dadas estas últimas e breves explicações, o grupo entra na floresta através de um dos trilhos que se inicia logo atrás do camp.
Em fila indiana e seguindo Jane sobre este trilho, o grupo vê-se mergulhado nas sonoridades de uma mata fechada e dotada de árvores altas de uma folhagem exuberante onde o sol da manhã pede licença para atravessar. Alguns minutos se passam quando Jane faz um primeiro sinal de paragem. Aponta de seguida numa determinada direção dizendo em voz baixa:
– Estamos a entrar no território da família F, onde Flo foi um importante membro tendo falecido em 1972. Ela foi uma grande matriarca de alto escalão e muito maternal que teve como filhos; Figan, Faben, Freud, Fifi e Flint. Quando Flint nasceu, eu estava no exterior. Este facto trouxe-me de regresso a África para estudar o desenvolvimento de um chimpanzé nascido em ambiente selvagem.
Aquele que vemos lá em cima é Figan, o segundo filho dela que eu considero um dos mais inteligentes de Gombe.
-Posso fotografá-los? -pergunta delicadamente Alfredo.
-Pode, mas não tenha pressa pois o primeiro contacto com cada um deles tem que ser o mais sereno possível. Uma vez conquistada a confiança, o disparo da máquina não mais representa risco.
Vamos ver agora Fifi, a filha mais velha de Flo e, mais à esquerda, Freud, o seu filho mais velho.
-É extraordinário como você os identifica tão bem! – exclama Stephen em voz baixa.
-Meu caro! Esta é a minha vida diária e a grande paixão da minha existência.
Entretanto Jennifer aponta mais ao lado. Ali está Frodo, segundo filho de Fifi.
Observando este grupo que se move de galho em galho sem qualquer sinal de perturbação, Jane informa:
-Os chimpanzés passam cerca de sete horas do dia a comer. Quando não estão a comer, eles descansam, brincam e cuidam dos seus pelos. São animais altamente sociais e se comunicam de forma muito parecida com a dos humanos: beijam, abraçam, fazem cócegas e dão as mãos. Eles também gritam e batem os pés como nós!
-E à noite? -pergunta desta vez Susana tomando notas no seu road book.
-À noite, os chimpanzés constroem ninhos nas árvores para dormir.
Após uma excelente captura de imagens por parte de Alfredo, a caminhada prossegue por mais uns longos minutos. Jane para e faz sinal de silêncio. Ao apontar para uma árvore de grande porte, é possível ver a aparição de um outro grupo.
-Aqui vamos ver Melissa que nós consideramos parte da família G. Melissa é uma fêmea de um alto escalão, que acasalou por muito tempo com um macho alfa de nome Humpfrey. Pela observação que tivemos, pensamos que manteve igualmente laços fortes com Mr. Mcgregor. Outro macho alfa com um carácter conflituoso.
Com aquele humor que o caracteriza, Stephen pergunta a Jennifer em voz baixa:
-Algum parente do Jim MacGregor?
Risada contida.
-Olhem com atenção. Ao lado dela está Goblin, o seu filho mais velho. E lá vem Gimble, o mais novo que sobreviveu até à idade adulta. Um dos passatempos preferidos dos chimpanzés é catarem-se uns aos outros. Alguns inspecionam a pelagem dos outros, em busca de escamas de pele seca e sementes de gramíneas. Observem Melissa que cata o seu filho, enquanto o mais pequeno se agarra à irmã.
Mais umas excelentes fotografias ficam aprisionadas na objetiva de Alfredo.
Continuando o trilho, vê-se mais à frente uma clareira e a presença de outro grupo de Chimpanzés.
Em voz baixa, Jane anuncia:
-Eu vou avançar sozinha e sem pressa. Vocês podem apreciar como eles aprendem a interagir com os humanos.
-Este é um grupo igualmente classificado? – pergunta Susana.
-Sim! Esta é a comunidade de Kasakela. Observem bem.
Jane dá mais alguns passos na direção deste novo grupo e a cerca de uns quinze metros destes visitantes deslumbrados, senta-se sobre um tronco derrubado na floresta.
Passados momentos, vemos dois adultos se aproximarem envolvendo-se carinhosamente com Jane. Um destes coloca afetuosamente uma pata sobre a sua cabeça.
Neste momento, Alfredo tem um “insight” lembrando-se do professor Leonard Thompson em Nagorongoro. “Quando numa próxima oportunidade trocarem um olhar mais profundo com um Chimpanzé ou um Orangotango, lembrem-se de Darwin”.
Jennifer, muito experiente neste campo, informa:
-Os chimpanzés precisam do contacto físico para se sentirem seguros. Quando se encontram, costumam cumprimentar-se através de um abraço. Quando ficam nervosos ou preocupados, tocam uns nos outros de forma desconcertada.
Outro momento bem captado pela objetiva de Alfredo e nas notas de Susana.
E a caminhada prossegue por um novo trilho que conduzirá o grupo de volta ao camp.
Outro momento em que Jane suspende a marcha para chamar à atenção de um novo detalhe. Mais adiante estão por terra Passion, uma fêmea de grande importância da comunidade Kasakela, com o primeiro filho, Pom.
Jane, parada, informa:
-Vejam a capacidade cognitiva destes seres. Passion é uma grande caçadora de térmitas e fabrica as suas próprias ferramentas. Reparem bem. Depois de escolher um caule de capim, um galho ou um talo, ela introduz nas tocas trazendo algumas térmitas agarradas ao mesmo. Alimento garantido com este método.
-Extraordinário! -exclama Stephen em voz baixa. Ao seu lado Alfredo não deixa escapar o momento.
-Mas agora observem Pom. Está à procura de água. Ao descobrir um recipiente natural de água dentro de um tronco, ele chupa a água com os lábios. Quando o nível fica demasiado baixo, mastiga um molho de folhas e fabrica uma “esponja”. Mergulhando as folhas na água, ele suga depois a humidade. Ao modificar um objeto natural, ela está a fabricar uma ferramenta primitiva.
Mas temos que nos afastar daqui. Não devemos aproximar-nos de Passion.
-E qual a razão? – pergunta Alfredo intrigado.
Jane, com uma expressão séria, responde:
-Passion é tida nesta comunidade como um caso especial. Uma fêmea que passamos a considerar como uma criatura perturbada, isolada e agressiva, que apenas tolera a presença de Pom. No ano passado, Passion começou uma matança canibal, sequestrando e comendo pelo menos três filhotes de chimpanzés. Estamos a estudar o que está por trás destes distúrbios.
O olhar especial de Jane sobre os aspetos comportamentais destes primatas não deixa dúvidas quanto à sua apetência e conhecimento adquirido em Gombe ao longo de uma vida.
No regresso ao camp e marchando sobre uma outra trilha ainda houve uma nova oportunidade de ver Sparrow, a mais velha matriarca da família S, junto de Sandi, a sua filha mais velha.
Um último momento mágico vivido neste Parque da Tanzânia no seio de uma comunidade de chimpanzés que a memória não poderá esquecer, sendo as fotos de Alfredo e as notas de Susana o melhor registo de tamanhas emoções.
De regresso ao Camp, Stephen coloca uma questão.
-Dear Jane! A experiência que tivemos hoje em Gombe ultrapassou as nossas expectativas. Penso que posso falar em nome dos três. Há no entanto um aspecto que me deixou intrigado.
-Pois não! Diga-me, por favor! – responde Jane com serenidade
-O canibalismo entre chimpanzés não deixa de ser surpreendente.
Ao que Jane responde:
-Em 1973, permiti a visita a Gombe do pesquisador Peter Buirski da universidade de Denver, que demonstrou um especial interesse pelos meus estudos de comportamento destes animais. Com a nossa colaboração foi possível elaborar um estudo mais aprofundado quanto à personalidade destes primatas. Traçamos o perfil de 24 personalidades de chimpanzés associados a 10 traços comportamentais diferentes variando entre agressividade e alegria.
A pesquisa foi bem-sucedida e demonstrou que chimpanzés machos e fêmeas tendem a ter personalidades diferentes; por exemplo, as fêmeas confiam mais e são mais tímidas que os machos. E neste estudo também concluímos que os chimpanzés não só comem carne, como também constroem e usam ferramentas, demonstrando personalidades imprevistas. Passion foi o nosso melhor exemplo desta teoria.
Esta pesquisa de 1973 estava provavelmente à frente de seu tempo. O interesse científico na personalidade animal ganhou força, gerou o interesse de entidades naturalistas e filantrópicas e a consequente geração de mais fundos para apoiar a nossa missão.
-Muito obrigado por esta experiência extraordinária, miss Goodall! Tudo faremos para dar a devida visibilidade a este seu projeto. – diz Alfredo agradecido.
-E com todo o prazer lhe enviaremos uma cópia desta reportagem africana que contamos publicar na National Geographic Magazine. – reforça Susana.
-Muito me agradaria se tal acontecer. Todas as ajudas são muito bem vindas em Gombe.
Tempo de Stephen prestar o seu particular agradecimento por tão singular experiência.
Para Jennifer foi um até breve.
No ancoradouro junto ao lago lá estava o fiel Butati na lancha do Kibwe Mahale Camp.
Estava deste modo concluída mais uma passagem memorável por terras da Tanzânia.
Chegando ao Kibwe Camp, estava o anfitrião James Macgregor à espera do grupo.
Com um humor que bem caracteriza os escoceses, diz ao seu conterrâneo Stephen:
-Pensei que vinhas de lá a andar a quatro. Estás a decepcionar-me!
A gargalhada não podia faltar.
-E digam-me cá! O que acharam do projeto da Jane?
Alfredo adiantou-se:
-Momentos que por vezes as palavras não alcançam. Ela foi extraordinária. Jamais esqueceremos estes dias com vocês neste paraíso.
A satisfação é geral.
Para completar esta satisfação, Jim adianta:
– Penso que queiram fazer um break e refrescar-se nesta piscina com 32 900 quilómetros quadrados. Só não podemos garantir que possam posar os pés no fundo. A profundidade pode atingir apenas 1470 m. Mas dá para cobrir o corpo até ao pescoço. – conclui o incorrigível James.
-E diga-nos, é seguro nadar nestas águas? – pergunta Susana curiosa.
Ao que James responde com um sorriso safado:
-Biologicamente falando, este lago é um dos lugares mais ricos do mundo, mais de 500 espécies de peixes habitam nestas águas. Mas falei ontem com eles e já me disseram que vocês são bem vindos.
Gargalhada garantida.
O almoço servido no espaço central do lodge, foi uma vez mais a prova de uma cuidada gastronomia e hospitalidade oferecida a estes forasteiros encantados com o ambiente.
A tarde deste terceiro dia foi destinada a uma visita de Alfredo ao laboratório do casal anfitrião. Na companhia de James, pode ver-se um expressivo mostruário de espécies vegetais, de ensaios de diferentes tipos, mesas de trabalho, dois microscópios e provetas de vários tipos, diversas amostras armazenadas e catalogadas e uma grande quantidade de livros e revistas temáticas. Encostado a este espaço o gabinete de trabalho de Jennifer.
-Os meus parabéns, James. Estou impressionado com esta vossa atividade!
-Foi a minha escolha desde que me conheço. O mundo vegetal.
Seguiu-se aquele repouso e organização do material de reportagem que já tem um volume considerável de informação, desde a chegada ao continente africano, semanas antes.
Fim da tarde. Um ritual a que estes anfitriões já habituaram estes hóspedes bem dispostos que irão usufruir da sua última noite neste paraíso perdido.
O sol já se afunda nas longínquas montanhas fielmente acompanhado pelas multi cores dos trópicos. Ao longe as últimas aves recolhem aos seus ninhos.
As mesas e cadeiras foram cuidadosamente colocadas atrás de uma fogueira que já crepita em tons de um laranja incendiado.
Nesta última refeição, Jennifer fez questão de caprichar. Numa mesa de madeira rústica coberta por uma toalha de motivos swaili, pode ver-se uma cesta recheada de frutas tropicais, ao lado de uma outra com pão fabricado esta tarde no forno do lodge, uma tábua de alguns queijos e enchidos trazidos por Jennifer da cidade e na outra extremidade os pratos talheres e copos cuidadosamente alinhados.
Enquanto não chega o prato chefe cujo conteúdo não foi revelado, James apresenta uma nova surpresa aos convidados. Duas garrafas de um excelente vinho francês da região de Bordeaux.
A conversa estava animada quando o funcionário do lodge traz três tipos de carnes espetadas em grelhas verticais, que são agora posicionadas com toda a sabedoria junto às brasas, sendo rodadas manualmente até estarem no ponto.
Sem deixar o tema por mãos alheias, Jennifer coloca agora sobre a mesa uma bandeja onde se vê um sortido de legumes salteados polvilhados com ervas aromáticas e um generoso prato com fatias de inhame previamente passadas na farinha e numa leve fritura.
Não foi preciso muito mais para fechar com chave de ouro esta passagem sob as estrelas.
Um doce de frutos vermelhos e um café importado do Quénia fizeram as honras da casa.
A conversa foi naturalmente animada. Corria fluida uma boa emoção e saíam reforçados, uma amizade e um sentimento de gratidão.
Mas a costela escocesa de James queria ter a última palavra. Para surpresa dos apreciadores, aquela garrafa de Cardhu e umas pedras de gelo não os deixou indiferentes. Jennifer e Susana acompanharam o momento com o gostinho dourado de um licor de Amarula.
-Então e agora, qual é a vossa próxima etapa? – indaga Jennifer curiosa.
-Amanhã deixamos o interior e rumamos à costa do Índico. Para matar saudades de um lugar que muito prezo. Zanzibar. – responde Stephen entusiasmado.
Hum! Grande escolha! Eu e o James passámos umas férias maravilhosas por lá há cerca de dois anos. Vocês vão adorar Zanzibar. – retorna Jennifer sorrindo para os dois jovens repórteres.
Estava completo mais este dia de experiências na África oriental.
A estadia no Kibwe Mahale Camp foi um ponto alto desta passagem pela Tanzânia. Estes jovens deslumbrados não poderiam imaginar como o universo natural de Gombe poderia oferecer tão agradável experiência, na companhia de Stephen. James e Jennifer cuidaram de todos os detalhes com uma delicadeza no trato e a qualidade das refeições simples e saborosas, servidas a preceito num lugar tão remoto do mundo. Um acampamento digno das melhores edições da National Geographic ou em filmes inspirados no profundo imaginário africano.
A extraordinária experiência oferecida por Jane Goodall para ver de perto os chimpanzés no seu habitat.
O fiel Butati, sempre prestável e fértil em informações sobre a vida selvagem e a beleza das águas deste lago encantado que tão bem conhece.
Em suma, uma memória a preservar, uma estadia perfeita.
Já deitados e ao abrigo daquela rede mosquiteira, Susana pousa a cabeça sobre o peito de Alfredo dizendo numa voz doce:
-Meu companheiro de tantas andanças. Que experiência temos vivido neste continente africano. Tanta magia em tão pouco tempo.
Alfredo, aconchegando Susana, responde:
– Aquele olhar que um dia cruzei na Torre do Tombo, em Lisboa, trazia uma mensagem. Um olhar que nos trouxe até aqui e que ainda nos levará muito longe. Sempre contigo!
E aquele abraço embalado nos sons de uma selva viva, transporta as emoções para um rio sem fim que corre entre o sono e o sonho.
Lá fora as cigarras e as aves noturnas iniciam a sua dança sonora.
4º dia – A partida
A uma noite bem dormida e apenas interrompida pelos primeiros sinais de claridade e pelo cantar do patrão-mor do galinheiro, segue-se o momento de tomar um bom duche de água fria e tratar da higiene pessoal, seguindo-se a tarefa de arrumar malas e mochilas. Um simpático pequeno almoço espera os hóspedes no vão central do lodge.
Um momento propício para os agradecimentos por tão acolhedora recepção, de tão boas experiências e votos de muita sorte e saúde para todos. Emoções grandes que motivaram um mútuo e sentido abraço.
Devidamente instalados a bordo da lancha com Butati no comando, é hora em que o simpático casal se vai gradualmente afastando sem sair do lugar.
Uma última troca de acenos retratou as boas sinergias partilhadas neste deslumbrante fim do mundo.
Tempo de seguir viagem para norte rumo a Kigoma. Até sempre, Gombe!
Este roteiro aquático de uma hora e meia foi naturalmente marcado por um misto de nostalgia e agradecimento. Uma vez mais foi possível ver de perto algumas famílias de hipopótamos e uma diversidade de aves que a Nikon de Alfredo não deixou escapar.
Uma vez acostados ao porto de Kigoma, teve lugar outra emoção forte. A despedida do carismático Butati mereceu o calor mútuo partilhado com estes forasteiros que seguirão, a partir daqui, os seus destinos.
Até sempre, Tanganica!
Parte V – A caminho do índico
Chegados antes da hora prevista à aerogare de Kigoma a bordo de um táxi, é tempo de aguardar a chegada do homem pássaro e do seu fiel Cessna.
Com uma aterragem que sempre faz leve como uma folha, lá vem Charles!
-Hi, fellows! Como foi essa estadia neste paraíso? – indaga Charles, chegando perto do grupo.
-Sublime como sempre, buddy! – retorna Stephen cumprimentando calorosamente o mestre dos ares.
-E aqui os nossos repórteres? – pergunta simpaticamente o aviador.
-Continuamos em transe e sem saber o que vem a seguir. Aqui o nosso guia só nos diz: Agora vamos para a costa do índico. – responde Alfredo sorrindo.
-Ele tem razão! -diz Charles batendo no ombro de Stephen. A surpresa é a alma da satisfação!
Risos.
Instalados a bordo do mono motor e rumando a leste, dá-se assim início a mais uma experiência aérea que terá a duração de cerca de duas horas e trinta minutos.
Retomando as emoções de um voo a baixa altitude sobre um continente como África, confirma-se que esta é uma forma íntima e incomparável para apreciar cores subtis e deslumbrantes, relevos tectónicos, vales verdejantes e a cavalgada de diferentes quadrúpedes ao nível do solo.
Mais adiante e passando sobre algumas aldeias, é possível acenar para as populações que devolvem vivamente os acenos. Sobrevoar África é realmente mais do que voar. É conectar áreas remotas muitas vezes não acessíveis por terra. É como viver ao vivo e a cores um belo e permanente safari aéreo, uma chance de explorar a grandiosidade de paisagens de tirar o fôlego onde é oferecida a oportunidade de observar a vida selvagem de um ângulo privilegiado.
Pousar em pistas de terra batida que precisam por vezes de ser libertas da vida selvagem que as atravessa. Em vez de aterrar numa pista com infraestruturas aeroportuárias, edifícios, etc, os forasteiros são por vezes recebidos por búfalos, leões ou elefantes que se encontram no seu meio natural do qual aquela pista faz parte.
Outro aspecto da magia de voar a baixa altitude é a observação por vezes requintada da comunicação entre macacos, hipopótamos dentro d´água, ou filhotes de leoa a brincar com a mãe. Algumas das visões que nos oferece agora a passagem sobre Muhesi Game reserve. A Nikon de Alfredo continua a reclamar férias. Sem sucesso.
Passando mais adiante sobre o vilarejo de Dodoma e com a aproximação da costa do oceano Índico, avista-se ao longe uma nebulosidade densa e escura.
Algo apreensivo com a visão daquela camada de nuvens ameaçadoras da qual se aproximam, Stephen indaga:
– Charlie! Não é muito simpática esta visão. Achas que vamos ter algum percalço?
-Não está agradável de ver, não! Não podemos voar através de nuvens espessas como estas. Isso causa muita turbulência e pode trazer surpresas.
-E como vais fazer? -pergunta novamente Stephen perante o olhar arregalado e preocupado dos dois jovens no banco de trás.
-Ainda não dá para ver a densidade delas, mas a solução mais provável é baixar a altitude e voar por baixo delas. Não é a primeira nem será a última vez que me aparece um fenómeno destes pela frente. Relax!
O silêncio tomou conta dos espíritos a bordo. Com uma destreza reservada a pilotos experientes, como é o caso de Charles, o voo prossegue numa altitude ainda mais baixa.
A nuvem ameaçadora permaneceu durante mais de quinze minutos sobre as asas do Cessna. Em compensação, a visibilidade abaixo melhorou, permitindo algumas fotos que Alfredo não deixou escapar.
E mantendo este voo de baixa altitude assim se aproxima a orla do Índico. Deste ponto até ao próximo destino no arquipélago de Zanzibar serão mais dez minutos.
Charles, apontando para a direita, informa:
-Ali à nossa direita é Dar-es-Salam. A capital da Tanzânia.
Antes de aterrar no próximo destino que será a pista do aeroporto de Zanzibar, Charles oferece aos seus passageiros uma soberba vista aérea do arquipélago. O sol deste final de manhã ilumina um mar turquesa que o sonho tem dificuldades de imaginar.
Zanzibar é um conjunto de ilhas ao largo da costa da Tanzânia, possuindo um status com administração autónoma. O arquipélago é formado pelas ilhas Zanzibar e Pemba, e por um número de ilhotas que as cercam. A principal cidade da área é igualmente Zanzibar (antigamente chamada de Unguja), e sua deslumbrante Stone Town. Esta cidade possui uma arquitetura única, um cruzamento entre influências árabes, hindus, africanas e europeias, com o traço típico dos portos mercantes da África Oriental, muito utilizados durante o período de tráfico de escravos.
Com um rico passado mercantil e histórico, as belíssimas praias de areias brancas são de suster a respiração sendo das maiores atrações turísticas da região. Zanzibar é uma área de forte influência muçulmana. Por este motivo é recomendado a forasteiros serem discretos e seguirem algumas regras de convivência.
A parte final deste voo e a chegada a este novo horizonte é uma vez mais marcada pela experiência de Charles Matthews. Está novamente de parabéns.
Finalmente imobilizados na zona mais a sul do aeroporto de Zanzibar, reservada a aeronaves de pequeno porte, tem agora merecido lugar os agradecimentos por mais esta magnífica experiência aérea, e a combinação com Charles de regressar a este mesmo ponto de encontro, quatro dias mais tarde.
-Bem vindos à costa do Índico. – diz Stephen animado com o ambiente.
Sentindo desde logo o ambiente exótico desta lendária cidade da costa oriental, é hora de seguir de táxi até Stone Town num percurso de cerca de dez quilómetros.
Ao longo deste roteiro pela cidade Stephen adianta:
-A partir de Zanzibar há um alargado leque de programas de visita e lazer. Não vou propor os que incluem safaris que já tivemos oportunidade de viver nos lugares de eleição, por onde passamos e ainda passaremos. A minha sugestão vai mais no sentido de um lazer sem paralelo junto a um mar de sonho numa zona histórica da cidade. Stone Town.
Vamos fazer os circuitos locais sem pressa e ir para onde a vida nos levar. A palavra de ordem é relax. Que vos parece?
Susana sorri, dizendo:
-Musica para os meus ouvidos! Continuo maravilhada com as suas sugestões.
Alfredo do seu lado confirma:
-Estou particularmente animado com este cenário. Sabiam que é a segunda vez que venho a Zanzibar?
-Segunda vez? – indaga Susana surpreendida.
-Sim, quando os meus pais fizeram a grande viagem entre a Austrália e Moçambique, em 1948, Zanzibar foi um dos pontos de passagem. Eu era um miúdo de tenra idade e não tenho memórias disso. Talvez as minhas irmãs Judite e Fiona tenham algumas.
-Bem! Agora foi você que surpreendeu! – retorna Stephen.
A passagem por ruelas e avenidas da cidade enchem os olhos de qualquer um. Um misto de culturas observadas no traço arquitetónico, nas cores, nos bairros e no perfil de uma população meio árabe meio indiana, completada por turistas ocidentais de várias origens que circulam em total liberdade. Isto promete! – pensam estes jovens maravilhados.
Já no interior da histórica Stone Town chegam ao Africa House Hotel onde Stephen reservou esta estadia com a colaboração do grupo Serena.
O Africa House Hotel em Zanzibar, anteriormente o English Club, é uma propriedade venerável que nunca deixa de atrair hóspedes que preferem acomodações com um toque retro. Os interiores generosamente mobilados estão cheios de personalidade. Os sofás em vermelho e dourado, cortinas surradas, espelhos com moldura dourada e camas com dossel em estilo antigo, fazem parte da experiência colonial que o Africa House Hotel oferece.
Uma soberba vista para o oceano Índico a partir de alguns quartos permitem a apreciação de deslumbrantes recortes da costa. Apesar da mensagem vintage das acomodações, o hotel oferece comodidades modernas que garantem uma estadia confortável e conveniente.
O Africa House hotel dispõe ainda do famoso Sunset Bar que se tornou o local favorito da cidade para assistir ao pôr do sol e desfrutar de ótimos drinks.
Com a especial atenção com que o grupo Serena habituou estes forasteiros, os dois quartos, o de Stephen e o dos dois jovens, estão voltados para o mar.
-E que tal ? Qual é a vossa impressão? -indaga Stephen.
Encantada com o que vê, Susana responde:
-A sua caixa de surpresas é incorrigível.
-Bem, o que proponho, depois de uma passagem por um merecido duche, é sairmos a pé para um almoço num dos restaurantes locais com esta vista mágica sobre o Índico. Sugiro o mercado local de Forodhani. Acho que vocês vão gostar.
Olhando para a concordante Susana, Alfredo responde:
-Como não alinhar nessa ideia?
E assim partem estes estes três gringos à descoberta de Stone Town. A pé por ruelas onde a sensação é de fazer uma viagem atrás do tempo, com edifícios coloniais desbotados que se misturam com mercados vibrantes e agitados, onde os burros circulam carregados em pequenas ruas estreitas e crianças que correm para casa vindos da escola com os uniformes tradicionais.
E assim chegam ao mercado dos Jardins de Forodhani. Situado à beira-mar, ali pode-se respirar uma agradável brisa, e percorrer dezenas de barracas ao ar livre que servem uma deliciosa seleção de cozinha local de Zanzibar. Os olhos também comem.
Da famosa pizza de Zanzibar a espetadas de carne, peixe local, pão de coco, mandioca grelhada, milho assado, batata doce em pedaços, chapati de alho e incríveis opções de frutas frescas, numa excelente atmosfera a troco de alguns dólares.
Uma boa hora e meia se passou no saborear de várias iguarias. As captações de imagens acompanharam a animada prosa.
Stephen, dando um último trago num café e mostrando real satisfação, informa:
-Uma sesta será muito bem vinda! Que vos parece?
-Já nos vamos habituando também! – responde Alfredo recostando-se na cadeira.
-Esta tarde vou rever alguns velhos amigos aqui em Zanzibar. O que vos proponho é darem uma volta pela cidade e nos encontrarmos mais tarde no Sunset bar do hotel para assistir ao por do sol mais famoso das ilhas. – propõe Stephen.
-Certo! Estive a olhar uma brochura turística lá no hotel e creio que daremos uma volta a Prison Island.
-Vão sim! E aproveitem para ver as tartarugas gigantes e, se assim desejarem, alugam um tour de barco e um equipamento de mergulho para uma exploração subaquática da ilha.
-Hum! – entra agora a curiosa Susana. Acho que face a essa perspectiva a sesta já foi.
Alfredo olha para a sua companheira com quem troca um piscar de olho.
E assim se usufrui da primeira tarde em Stone Town. Depois de negociado um bom preço com os barqueiros locais, Alfredo e Susana vão preparados para uma tarde diferente que incluirá aquele incontornável mergulho nas águas turquesas do Índico.
As tartarugas, algumas delas centenárias, são realmente um fenómeno nadando livremente em torno dos corais e de peixes multicolores. A visibilidade desta água supera as águas das piscinas. Um verdadeiro deleite onde se perde a noção do tempo.
Alfredo e Susana não tiveram uma experiência submarina desta qualidade desde a estadia na ilha da Inhaca, em Moçambique, em 1973.
Nesta visita a Prison Island podem agora visitar o antigo hospital colonial com uma estrutura adequada a regimes de quarentena. Construído em 1893, foi originalmente designado como prisão, tendo mais tarde sido reaproveitado para conter as epidemias de cólera e peste bubónica que as autoridades na época temiam que se espalhassem em Zanzibar a partir de navios oriundos de Bombaim e do Egito.
De volta à ilha grande, como não podia deixar de ser, dá-se o encontro com Stephen ao por do sol no hotel para coroar com chave d´ouro o programa da tarde. O sabor dos drinks e o baile de gelo dentro dos copos não deixaram as emoções de uma boa prosa ao acaso. Que espetáculo crepuscular! A magia de Zanzibar.
À hora de jantar, Stephen, bom conhecedor destas paragens, sugeriu uma visita ao Restaurante Lukmaan, situado próximo ao antigo Mercado de Escravos. Este lugar oferece uma grande variedade de pratos da Tanzânia que, em regra, fazem as delícias dos turistas.
Uma vez mais as papilas gustativas se deixaram embalar numa diversidade de saberes e sabores e na prova das cervejas locais. A satisfação estava no rosto de cada um.
-Vou agora levar-vos a provar um café de excelência. No Zanzibar Coffee House aqui perto.
-Hum! Isto não para! -retorna Alfredo animado.
À chegada, deparam-se com um edifício icónico com uma fachada histórica onde o cheiro de torrefação de café invade o ambiente.
Para uma degustação em grande estilo, dirigem-se ao terraço para apreciar a vista noturna sobre o Índico. Tempo de saborear o famoso café e deixar a vista perder-se nas luzes de Stone Town.
-Hum! O café aqui é realmente sensacional e este edifício histórico também é incrível. – confirma Susana visivelmente satisfeita com o ambiente.
E assim se encerra esta primeira jornada na costa oriental desta fabulosa Tanzânia.
Uma merecida viagem ao limbo naquele quarto em estilo retro fará o resto.
2º Dia em Zanzibar
O encontro destes três forasteiros à mesa do pequeno almoço marcou a retomada de uma prosa simpática embalada por novas expectativas.
-Dormiram bem? – quer saber Stephen.
-Com as emoções de ontem e mais um excelente mergulho subaquático só tínhamos que ter uma noite com os anjos. – responde Susana com a satisfação no olhar.
-E digeriram bem a comida? Há pessoas que estranham a gastronomia bem condimentada daqui.
-Eu tive um leve distúrbio antes de dormir. Mas nada que não se resolva ali ao lado. -retorna Alfredo.
-Well! E que tal abraçarmos um tour náutico numa escuna tradicional à vela para conhecer o arquipélago, incluindo almoço a bordo?
-Lá vem o mago de Oz! – diz Susana divertida.
Alfredo, por seu lado, dá por concluído o excelente English breakfast, recosta-se na cadeira e diz:
-Aonde a vida nos levar, certo? Não é esse o combinado? Então, de que estamos à espera? Conte lá mais sobre esse programa.
-Deixem-se estar por aqui enquanto vou ali falar ao telefone com um operador de Zanzibar que é meu amigo. – diz Stephen levantando-se e passando a Alfredo uma brochura turística com informações sobre este tour náutico em redor do arquipélago, entre outras atrações.
Passados alguns minutos, Stephen regressa confirmando.
-Então é assim. Reservei três lugares a bordo do Sanjeeda Dhow. Trata-se de um cruzeiro de 6 horas que parte do Hotel Verde Marina às 10 horas. E faz um tour em redor do arquipélago. São oito da manhã e temos tempo. Os custos acertamos depois com a pessoa que fez esta reserva.
-Uau! – exclama Susana com admiração do costume.
-E o que é o Sanjeeda Dhow? – pergunta Alfredo curioso.
-É uma embarcação muito sui generis. O único casco de latão com dois mastros e vela latina de Zanzibar. Vejam mais neste folheto que recolhi na recepção. – informa Stephen.
Curiosos quanto ao tipo de barco, os jovens podem ler nesta informação:
“Os Dhow são embarcações milenares ainda em uso em Zanzibar. Nas localidades de Nungwi e Stone Town funcionam os estaleiros de construção destas embarcações nos quais se usam exclusivamente ferramentas manuais antigas. Grande parte da atividade piscatória do arquipélago é feita com os dhow, que efetuam também navegação de cabotagem para transporte de mercadorias e passageiros. Nas comunidades litorais ligadas à pesca, a organização social e as atividades económicas assentam em boa parte na construção e utilização destas embarcações. Em virtude da escassez das madeiras exóticas (mogno, teca e mangueira) usadas na sua construção, os dhow tradicionais parecem condenados a desaparecer.
Os dhow estão intimamente ligados à história do arquipélago de Zanzibar. O papel destas embarcações nas migrações humanas para o arquipélago, nas ligações comerciais com os povos do continente africano, da península arábica e do subcontinente indiano, bem como nas atividades de pesca.
A origem desta embarcação é incerta, havendo autores que atribuem influência da construção naval chinesa vários séculos A.C. As referências aos dhow na literatura ocidental são muito antigas e popularizaram-nos como as embarcações do comércio árabe no Oceano Índico.
Quando as caravelas portuguesas da expedição de Vasco da Gama alcançaram as costas de Moçambique e Zanzibar, em 1498, as embarcações que ali encontraram eram os dhow”
À hora marcada, os três forasteiros lá estavam a dar entrada neste icónco veleiro oceânico. Provavelmente a usufruir de uma visão com cerca de 500 anos, desde que o oceano Índico era uma importante rede comercial entre a Arábia, a Índia e a África Oriental.
As boas emoções parecem estar garantidas. Um lote de excelentes imagens a captar também.
Pelo número de passageiros a entrar a bordo é com alguma satisfação que se conclui que este roteiro não irá superlotado. Bom sinal.
Largando as amarras do ponto de partida, o Sanjeeda ergue as suas velas latinas dando início a uma jornada de boas expectativas.
Vista do largo, Stone Town oferece a visão deslumbrante do seu carácter histórico. Aos olhos dos presentes surge gradualmente a magia de um arquipélago emergente das águas turquesa desta maravilha do índico chamada Zanzibar.
Segundo o programa anunciado há pouco pelo capitão, a navegação vai mostrar para além das ilhas de Zanzibar e Pemba vistas do largo, as pitorescas ilhotas que as circundam.
Simpaticamente, a equipe de bordo demonstrando a sua melhor atenção, vai distribuindo água e refrigerantes gratuitos. Cerveja, vinho, coquetéis e outras bebidas alcoólicas podem ser adquiridas a bordo sob pedido. Estas são pagas.
Chegados a um ponto da parte norte, após circundarem Tumbatu Island, é efetuada mais adiante uma primeira paragem, em que o capitão explica:
-Estaremos fundeados neste ponto durante uns trinta a quarenta minutos oferecendo aos interessados a possibilidade de mergulhar nestas águas para explorar a vida marinha e um velho barco afundado que é hoje uma pérola de vida subaquática. Temos para os interessados conjuntos de Snorkel, cintos e barbatanas. Em prol da segurança iremos formar dois grupos acompanhados pelos nossos guias.
Mais tarde iremos também fazer uma nova paragem junto ao Atol de Mnemba onde existem vários locais de exceção para mergulho.
Concluídas estas experiências subaquáticas, iremos servir o almoço a bordo. Sejam todos muito bem vindos!
Alfredo e Susana não hesitaram em aderir a este mergulho. Stephen deixou-se estar junto do capitão com quem não faltou matéria para desenrolar ao sabor de um bom whisky.
Lembrando-se da experiência no dia anterior em Prison Island, estes jovens acreditam haver múltiplos cenários subaquáticos para visitar. Há poucos olhos para tanta maravilha.
Os dois guias de porte atlético e com vasta experiência em mergulho reúnem no convés os dois grupos informando sobre os locais a visitar.
-Iremos em primeiro lugar ver o recife de Ras Nungwi, que é um dos mais famosos, seguindo-se o recife de coral Kichafi. Concluiremos este mergulho com uma passagem por um velho barco afundado naquela zona.
Apreciar a diversidade subaquática deste paraíso marinho das águas de Zanzibar, é considerado por muitos mergulhadores profissionais dos melhores locais de mergulho do mundo.
Chamamos a vossa atenção para um outro aspecto. Tubarões de recife podem ser vistos nas águas ao longo da costa de Zanzibar. Uma espécie de tubarão considerada inofensiva, pois não ataca seres humanos. Alguns podem ser curiosos e tentar aproximar-se de vocês, mas geralmente mantêm distância e se afastam dos mergulhadores. Por vezes é preciso estar atento em águas rasas, porque os tubarões de recife podem morder os nossos tornozelos por engano. Não será o nosso caso.
Podemos, eventualmente, cruzar os Tubarões-baleia. Este tipo de tubarão alimenta-se de fitoplâncton, etc e não é de todo perigoso.
E por fim dizer que existem no oceano Índico, onde nos encontramos, os famosos grandes tubarões brancos. Habitam geralmente em águas muito profundas e só são vistos ocasionalmente em Zanzibar
Apesar de visualizações ocasionais, não houve relatos de ataques de tubarões. Portanto, vamos relaxados em relação a esta matéria.
As principais recomendações são: não se afastarem isoladamente, mantendo a atenção aos sinais do guia. O que vão ver é algo que nunca mais esquecerão. Vamos lá, então!
Mergulhando naquelas águas encantadas e seguindo os guias, os participantes dirigem-se assim para o tal recife de Ras Nungwi. Um verdadeiro esplendor. A visibilidade é entre 20 e 30 metros, estando a água a uma temperatura de uns 27º C. Contornando o mesmo, é agora visível uma esplêndida queda e, mais adiante, os maravilhosos recifes de coral de Kichafi. Este recife abriga uma fauna e uma flora muito variadas. Tubarões de ponta branca, tartarugas marinhas, raias e garoupas grandes que navegam por aqui. Neste caso o grupo mergulha a partir da superfície, sendo dado um espetáculo ainda mais fascinante a quem opta pelo mergulho autónomo com oxigénio. A simples visualização destes recifes é por si só um verdadeiro êxtase.
A primeira grande emoção é a passagem a uns 20 metros de um magnífico exemplar do tal tubarão baleia. Simplesmente majestoso com um gigantesco corpo em tons de azul e lilás, coberto de pintas brancas, nadando em movimentos sinuosos que fazem este grupo esquecer o medo mais azul que a água.
Outro momento alto da experiência é quando os dois grupos se deparam com a carcaça afundada de um pequeno navio que há muitos anos repousa no fundo deste recife.
Sabendo que só seria possível visitar adequadamente estes destroços com equipamento de mergulho autónomo, a visão que se apresenta é, mesmo assim, digna dos melhores documentários de mergulho subaquático.
O guia faz sinal para o grupo olhar numa determinada direção. O sangue congelou e as emoções dispararam dentro de cada um. Sai de dentro dos destroços o tal que todos querem ver no seu meio natural, mas que faz o coração cavalgar e a adrenalina disparar. Um tubarão com os seus 3 metros que, preocupado com a sua sobrevivência, passa ao largo criando em todos uma sensação de alívio. Mas a curiosidade falou mais alto e o bicho dá uma volta aproximando-se agora do grupo. O guia faz um sinal com as mãos para todos relaxarem. E com razão! Confirma-se o que foi dito sobre estes predadores. O ser humano não é uma presa interessante. E satisfeita a curiosidade, o bichano seguiu o seu percurso desaparecendo no azul profundo mais além. Ufa!
Regressando a bordo, as emoções estavam ao rubro e a troca de prosa em várias línguas tomou conta do ambiente.
Alfredo, envolvendo Susana com um terno abraço, diz:
– Quando os meus pais souberem desta experiência, vão-se lembrar da passagem por Zanzibar, há muitos anos atrás.
– Não dá para esquecer! Estou doida com isto. – retorna Susana entusiasmada.
– E a visita daquele tubarão? – pergunta Alfredo dando um bom trago de água gelada.
– Cala-te, Alfredo! Só a ti vou dizer isto. Mijei-me toda!
Um novo circuito de navegação em direção ao Atol de Mnemba resulta numa nova paragem.
De novo os guias dão algumas informações sobre o local:
-Neste nosso último mergulho do dia, iremos mostra-vos alguns locais extraordinários para mergulho. Iremos ver alguns dos recifes mais bonitos: Kichwani, Big Wall e Wattabomi. Uma coisa nós podemos garantir. Não haverá lugar para tédio nesta nossa viagem subaquática. Só lembrando. As regras são as mesmas.
Antes de irmos, só mais umas informações interessantes. Acredita-se que o sistema de recifes do Atol de Mnemba tenham cerca de 80.000 anos e a base rochosa de arenito remonta de alguns milhares de anos atrás. Estas teriam sido dunas de areia então fossilizadas num período quando o nível do mar aqui estava cerca de 20 m mais baixo do que é hoje. Devido a essa ampla base de arenito, o perfil do recife tende a ser plano com picos baixos, quedas rasas, passagens e ravinas que variam em profundidade de 8 a 100 metros sendo adequados para mergulhadores iniciantes ou experientes. Algo que vocês nunca viram debaixo de água. Vamos a isto!
Assim se inicia mais uma sessão de uns 20 a 30 minutos de mergulho nos moldes pré estabelecidos. As emoções dentro deste meio submarino voltam a superar as expectativas de quem mergulha neste paraíso pela primeira vez.
O recife abriga 1200 espécies conhecidas de peixes. Além de peixes, encontram-se invertebrados, tartarugas, raias e tubarões. Dos tais que os convidados vão tentando tranquilizar-se quando os veem. Experiências incríveis de mergulho que jamais sairão das suas memórias. Zanzibar é, sem dúvida, uma grandiosa fábrica de sonhos.
De volta a bordo, o carismático Stephen, protegido do sol com um chapéu de palha, pergunta:
-E que tal, muchachos? Grandes emoções, imagino.
Susana com um sorriso solar responde:
-Indescritível, Stephen! Só um ataque de amnésia me fará esquecer o que vimos hoje.
E é assim chegada aquela hora em que estes mergulhadores amadores irão colocar em prática outro momento alto da jornada. A degustação de um almoço a bordo desta lendária embarcação. Uma refeição exótica cuidadosamente preparada pelo satff de bordo à base de frutos do mar e alguns sabores dignos da culinária da Tanzânia, preparados na grelha. O acompanhamento de uma variedade de cervejas bem geladas e taças de vinho branco é o melhor embalo para um simpático convívio a bordo em várias línguas. Excelente ocasião para compreender o contexto de uns e outros nesta passagem pelo paraíso de Zanzibar.
Concluído este simpático repasto e, por ordem do capitão, o ferro é levantado, assim como as velas latinas. Novo rumo. Zona sul do arquipélago navegando desta vez pelo interior.
De novo, o deleite é a visualização da deslumbrante enseada de Chwaca bay em direção à zona mais setentrional de Zanzibar. Ao atingir a região de Sokoni, uma das zonas mais populosas da ilha, o capitão dá o sinal de posicionamento das velas no intuito de contornar o extremo sul do arquipélago. As vistas são excepcionais. A Nikon de Alfredo não teve descanso desde esta manhã. Tão pouco o road book de Susana.
A navegação faz-se agora na direção norte passando ao largo das ilhotas mais pequenas do arquipélago. Pungume e a seguir Kwale, seguindo-se mais adiante as de Tele e Chumbe.
E assim Sanjeeda Dhow retoma a rota de Dar-es Salam-Zanzibar onde este circuito de êxtase encontra o seu ponto de partida, ao fim de 6 horas de navegação, conforme previsto. O sonho de facto comanda a vida.
Os agradecimentos e calorosa despedida do capitão, dos guias e restante staff, encerra da melhor forma esta experiência à parte.
Mas Zanzibar sempre oferece mais a estes três gringos. Aquele famoso drink no Sunset bar do Africa House Hotel, depois de tomado aquele merecido duche.
A prosa, como era de esperar, rodou em torno das vivências do cruzeiro em volta do arquipélago. Tema forte e cheio de emoções para partilhar.
A hora de jantar foi novamente no mercado dos Jardins de Forodhani . Desta vez à noite, onde o ambiente é enriquecido, para além da grande escolha gastronómica, pelas vistas sobre o oceano e a histórica Stone Town iluminada pelas luzes da cidade.
As emoções desta jornada tão especial encontram naquele quarto de hotel o ambiente ideal para estes jovens forasteiros sentirem de perto outras emoções sensoriais.
A nudez impregnada de odores dá o mote para uma viagem aos sentidos. A espiral de prazer entra nestes jovens corpos sem pedir licença. Os gemidos surdos completam este encontro onde o espaço perde gradualmente a gravidade. O ponto de não retorno sucumbe perante uma fusão corporal onde o suor escorrega na inevitável entrada no Nirvana.
Ofegantes e deitados ao lado um do outro, estes jovens sabem que agora a brisa sopra na direção do semi-consciente, onde as horas perdem a sua longitude e o limbo anuncia a sua vitória triunfal.
Naquele momento, eles sentem que os Rolling Stones estão equivocados. “You can get real satisfaction”!
3º e último dia em Zanzibar
O pequeno almoço é servido naquele espaço habitual do Africa House Hotel. O tradicional english breakfast.
Stephen, confortavelmente sentado e degustando uns ovos mexidos, informa:
-Hoje vou estar menos disponível. Penso que o melhor será vocês saírem por aí para conhecer um pouco mais da cidade.
Curioso, Alfredo indaga:
-E aí, Stephen! Surgiu algum imprevisto?
-Fui convidado a participar numa reunião com as autoridades locais e dois gerentes do grupo Serena com quem trabalho há alguns anos. O grupo está interessado em construir em Zanzibar uma nova unidade hoteleira e pede-me, na qualidade de consultor, para dar início a contactos locais no sentido da aquisição de um espaço já estudado aqui na ilha, para implantação desta unidade.
-Hum! Então esta visita a Zanzibar vai incluir algum trabalho, certo? – pergunta Alfredo.
-Nada que eu não esteja habituado. Mas vocês tirem o melhor proveito deste nosso último dia no paraíso. – conclui Stephen, sorrindo.
E dando corpo à ideia, Alfredo e Susana, devidamente equipados, ganham novamente as ruas de Stone Town.
Uma jornada a pé por ruelas sinuosas observando aqui e ali os minaretes, portais entalhados e monumentos do século XIX, aproveitando em pleno o centro comercial histórico com influências islâmicas e Swailis.
Com um folheto turístico na mão trazido da receção do hotel, estes jovens curiosos seguem algumas das sugestões.
Para começar, uma passagem pelo imperdível Museu da Escravatura de Stone Town.
Ao entrar neste edifício e com o pensamento naquelas visitas às minas de ouro em Minas Gerais no Brasil, estes jovens entram num espaço que explica detalhadamente o funcionamento dos mercados de escravos que afetaram drasticamente a população negra de países como a Tanzânia, o Malawi ou a Zâmbia, vendidos para mercadores árabes que os levavam para Omã, Iémen, ou as Seycheles, entre outros.
Aqui é possível observar os textos, claros e explicativos, expostos em enormes painéis verticais. Mas foram as fotos que mais marcaram. Imagens que permitem visualizar de forma clara as infames caravanas de escravos e o funcionamento destes mercados de Zanzibar, onde comerciantes de diferentes regiões vinham comprar e vender escravos. Imagens incrivelmente reveladoras do sofrimento e desumanidade da época da escravatura.
Cá fora podem agora ver um monumento de homenagem aos escravos e algo mais impressionante, as chamadas slave chambers. À entrada dessas câmaras subterrâneas, uma placa informa:
“Durante o comércio de escravos, estas duas salas subterrâneas eram usadas para manter os escravos antes de serem levados para o mercado para serem leiloados. Uma pequena cabana na parte superior com um grande buraco usado como entrada para as câmaras de escravos. Estes eram mantidos em condições terríveis, muitos morreram sufocados e com fome. Um circo de horrores como os que tiveram oportunidade de sentir no Brasil!
Mais adiante, a caminhada leva-os a visitar um local bem conhecido em Zanzibar.
A Casa das Maravilhas, um grande edifício cercado por fileiras de pilares e varandas e coroado por uma grande torre de relógio. Foi construída em 1883 como um palácio cerimonial para o sultão Barghash, sendo o primeiro edifício em Zanzibar a ter luz elétrica e um elevador elétrico. Ainda hoje é um dos maiores edifícios da ilha. Outra vista que não escapou à objetiva de Alfredo.
Nesta caminhada de mero turismo, surge no horizonte próximo uma daquelas praias de areia branca banhada por águas turquesas. Irresistível!
Alfredo olha para a companheira e não foi preciso muito para a telepatia funcionar. Nos minutos seguintes estes jovens estão dentro daquela deslumbrante água salgada.
Após este período de puro prazer, Alfredo olha para aquele folheto e pergunta a Susana:
-Sabias que o Freddy Mercury, dos Queen, nasceu aqui em Zanzibar?
Susana, com uma expressão de alguma surpresa, retorna:
-Acho que já tinha lido sobre isso. Porquê?
-A casa onde ele nasceu é aqui perto. Vamos passar por lá?
-Já que estamos aqui… porque não?
Em frente a uma casa tradicional em tons claros com uma sólida porta de madeira escura trabalhada, os jovens leram mais um pouco sobre a história daquele rock star no folheto turístico.
“Freddy nasceu no Hospital de Zanzibar em 5 de setembro de 1946, sob o nome de Farrokh Bulsara. Seus pais, Bomi e Jer Bulsara, eram Parsees – seguidores da religião zoroastriana, cujos ancestrais eram originários da Pérsia e moraram na Índia.
Bomi Bulsara veio de Bulsar em Gujarat , daí o nome de família e mudou-se para Zanzibar para trabalhar no Supremo Tribunal como caixa do governo britânico.
Ele casou-se com Jer na Índia e trouxe-a de volta para Zanzibar. Farrokh, seu primeiro filho, foi seguido seis anos depois por uma filha, Karishma.
Freddy nem sempre falava publicamente sobre sua educação em Zanzibar”
-Curioso! – diz Alfredo não deixando de registar o local com a sua Nikon.
-Susana, agora mais interessada em melhor entender como uma estrela do rock mundial teria a ver com uma terra como esta, prossegue a leitura.
“Os primeiros anos de escolaridade de Mercury foram na Escola Missionária de Zanzibar, onde ele foi ensinado por freiras anglicanas. Mas com oito anos de idade, seus pais decidiram mandá-lo para uma escola na Índia. Ali ele frequentou a escola da Igreja de Inglaterra em São Pedro, em Panchgani, uma antiga estação britânica da colina Raj, a sudeste do que era então Bombaim.
Apesar de ser uma escola da igreja, São Pedro recebeu crianças de todas as religiões e Mercury era um zoroastriano totalmente praticante durante o tempo que esteve por lá.
Foi durante o tempo livre, gasto com sua tia e avós em Bombaim que ele descobriu e se entregou a um crescente entusiasmo pela música. Ali formou sua primeira banda com alguns amigos, The Hectics.
Freddie retornou a Zanzibar em 1963. Ano em que o arquipélago conquistou a independência da Grã-Bretanha. E completou seus últimos anos de educação na escola do convento católico romano de São José.
Um amigo daquela época lembra que ele e Freddy costumavam nadar no mar depois da escola ou fazer passeios de bicicleta até às praias mais ao sul. “Ele estava sempre bem vestido”, refere este amigo.
Mas os bons tempos foram de curta duração. Em 1964, uma revolução derrubou a elite árabe dominante e cerca de 17.000 pessoas foram mortas nesta revolução.
Uma república foi então estabelecida com os presidentes de Zanzibar e Tanganika, no continente, assinando um ato de união. Eles formaram a República Unida da Tanzânia, tendo Zanzibar um status semi-autónomo.
A família Bulsara, juntamente com muitos outros, fugiram das ilhas e estabeleceram-se em Inglaterra.”
-Olha que história curiosa! – exclama Alfredo.
-Tão curiosa que gerou um génio daqueles. – responde Susana.
-Bom, e que tal comer qualquer coisa por aí?
-Agora lês os meus pensamentos, querido?
-Aqui no folheto turístico fala de um tal Emerson Spice. Que tal lá irmos ver o que é?
Ao fim de mais uns dez minutos de caminhada, deparam-se com uma mansão restaurada da década de 1830, fazendo lembrar aqueles filmes místicos que inspiram grandes romances.
O folheto indica:
“Um lugar especial, com refeições de excelência, ótima localização longe das áreas mais turísticas, com um serviço muito atencioso.”
Sentados numa sala no piso superior com excelentes vistas para o exterior, estes jovens tem ao seu redor um ambiente calmo que permite uma boa prosa. Excelente oportunidade de rever o que foi esta passagem por Zanzibar.
O menu é baseado em frutos do mar e composto pelos ingredientes mais e menos conhecidos de Zanzibar, com variações sazonais de acompanhamentos preparados à hora e servidos junto com bebidas geladas.
Susana entusiasmada com o ambiente optou por lulas recheadas do dia com arroz de abacate. Alfredo deixou-se seduzir pela lagosta grelhada com arroz de abacate e molho de tamarindo.
Para ambos a escolha comum foi uma salada mista com banana e chutney de coco.
Tratando-se de frutos do mar, a rega é agora feita com um delicioso vinho branco.
Depois de uma apetitosa desgustação que não deixa nada a desejar, Susana pergunta:
-Qual é aquela frase que eles diziam no Brasil?
Ao que Alfredo responde:
-Se melhorar, estraga.
-Cheers, querido! A tudo o que temos vivido e ao que ainda temos pela frente.
-Cheers, linda! À nossa!
Após aquele café especial tomado no terraço do Zanzibar Coffee House, onde sempre há o desejo de voltar, é vez de dar mais uns giros por aí.
Desta vez, estes jovens satisfeitos com aquele momento gastronómico vão visitar o antigo dispensário.
Construído pela primeira vez como dispensário durante os tempos coloniais, este impressionante edifício de quatro andares tem uma história longa e interessante. Depois de servir como instituição de caridade, bem como de alojamento, entrou em estado de ruína durante a revolução, mas foi restaurada com sucesso para se tornar um local cultural respeitado e próspero. Mais um edifício a aprisionar na objetiva de Alfredo.
-Minha querida! Já estamos cansados, certo? Que tal ver por último a Mesquita Malindi e depois dar um novo mergulho naquelas águas antes de voltar para o hotel?
-Ok! Negócio fechado.
A Mesquita Malindi é uma das mais antigas mesquitas de Stone Town. Construída pela seita sunita num estilo simples, esta é uma das três mesquitas que exibem minaretes em forma de cone sobre uma plataforma quadrada. Mais um edifício com a marca inequívoca de Zanzibar.
Quanto ao tal banho de mar já ao final da tarde. Sem comentários! Prazer em estado puro.
O incontornável por do sol no Sunset bar do hotel marcou o reencontro com Stephen onde as emoções do dia permitiram uma prosa agradável e descontraída.
-E a sua reunião correu bem? – pergunta Susana.
-Há boas perspetivas. Ainda ontem fizemos a primeira abordagem para a aquisição do terreno. – responde Stephen, balançando as pedras de gelo dentro de um excelente Old Parr.
E na prosa em torno das visitas do dia, iluminada por aquele crepúsculo, foi o desfecho de mais uma jornada a registar na memória e nas matérias de reportagem.
O cansaço ditou a vontade de comer uma refeição ligeira na sala de jantar ali ao lado.
A melhor forma que este trio de forasteiros encontrou para fechar mais um ciclo com a inesquecível marca Zanzibar.
Parte VI – De regresso ao Quénia
Este novo dia com a despedida deste lugar mágico é vivido com uma especial emoção.
Zanzibar não deixa ninguém indiferente e o desejo de voltar um dia fica guardado no coração.
Novo trajeto de táxi a caminho do aeroporto de Zanzibar. Uma última visão do carisma deste arquipélago marcado por séculos de história, num misto de Islão e africanidade.
Após aquele habitual compasso de espera, os forasteiros munidos das suas bagagens dirigem-se agora ao ponto de encontro com Charles.
E ele lá estava como um relógio britânico.
-Hi, buddy! -right on schedule! – diz Stephen, dirigindo-se ao homem pássaro.
-E aí, meus caros! Deixem-me adivinhar. Por vocês, já não saíam mais de Zanzibar, certo? – exclama Charles cumprimentando calorosamente os três.
Susana não perde tempo, respondendo:
-Você também lê o pensamento dos seus passageiros?
Risada geral.
Bagagem arrumada, todos instalados a bordo do Cessna, mono-motor em marcha e pista livre. O ar aguarda mais este desafio à força da gravidade.
Até sempre, Zanzibar!
Novo rumo a norte. O regresso ao Quénia.
Charles informa:
-Teremos umas duas horas e pouco de voo sobrevoando dois grandes parques de vida selvagem. O de Mkomasi National Park ainda, na Tanzânia, onde atravessamos a fronteira com o Quénia entrando numa das regiões mais famosas daquele país. O famoso Tsavo Park onde se integra o nosso próximo destino. O Kilaguni Serena Safari Lodge.
No espírito destes jovens paira um pensamento.
“Regressamos ao coração de África onde a vida selvagem explode e os olhos serão, uma vez mais, poucos para ver tanta generosidade natural.”
Aqui se inicia mais uma daquelas observações de excelência da vida selvagem, combinando alguns dos melhores destinos do sul do Quénia por via aérea.
Charles informa:
-Vamos em breve atravessar a fronteira e ali, mais adiante, teremos Mombaça à nossa direita. A partir daqui e antes de entrar na grande região de Tsavo, vamos ter uma oportunidade de começar a ver algumas aldeias típicas e as ricas culturas tribais dos Masai.
Passados mais quinze minutos de voo a baixa altitude, sobrevoamos finalmente a fronteira sul do Tsavo Park do Quénia. E a visão não é uma qualquer. A objetiva de Alfredo não vai ter descanso.
Uma passagem sobre penhascos cobertos de águias e vales sinuosos que se estendem pelo sudeste do Quénia, criando um deserto que se estende de forma primitiva. Centenas de hipopótamos turbulentos agitam as águas das lagoas aqui e ali e os leões perseguem os gnus nas profundezas do mato de Tsavo West. Simplesmente deslumbrante!
Muitas vezes a savana parece tranquila. Mas logo ali adiante surge um novo cenário repleto de vida selvagem.
Os leões de Tsavo são uma imagem idílica e os elefantes ficam como sentinelas, guardando a savana e evidenciando uma silhueta perfeita. Não é expectável ver nesta paisagem milhares de animais como em Ngorongoro ou Serengeti. Mas zebras, girafas e centenas de gnus a pastar preenchem de forma generosa esta aproximação ao deserto de Tsavo. Não há olhos nem fotografia para registar tal abundância.
E estando agora mais próximos do destino, já se vê a pista de terra batida contígua ao lodge, confirmando alguns aspectos referidos mais atrás. Lá estava no final da pista, à sombra de uma acácia silvestre, uma família leonina. Uma leoa e dois filhotes.
Cumprida mais esta jornada aérea de excelência, é tempo de, uma vez mais, agradecer aquele que faz a magia acontecer cruzando pelos ares o que levaria dias seguidos a percorrer, sobre as estradas poeirentas destes horizontes intemporais.
Nova combinação com Charles. Dento de cinco dias neste mesmo local.
-Vivam a vida, meus caros. Tsavo é um must!
Kilaguni Serena Safari Lodge está situado no coração de Tsavo West National Park.
Um refúgio tranquilo e fresco, emoldurado pelo Monte Kilimanjaro e as paisagens vulcânicas e ondulantes das verdes colinas de Chyulu. Um lodge que mergulha o visitante numa beleza natural e em aventuras emocionantes, rodeados por todo o conforto. Em evidência, está este lodge com o seu traço arquitetónico de design clássico, onde a pedra das paredes e os tetos de colmo estão em plena harmonia.
Sendo cumpridas na recepção algumas formalidades de entrada no Quénia, os forasteiros recém chegados são alojados nas habituais condições do grupo Serena.
A Alfredo e Susana é-lhes destinada uma das cinco espaçosas suites com vistas deslumbrantes sobre planos de água isolados e as colinas de Chyulu ao longe.
Como sempre, Stephen é convidado a ocupar as instalações Vip do lodge.
A hora de almoço é na sala central com um bar livre construído em pedra. Esta sala ainda possui um terraço com vista para os poços de água onde de noite são visíveis os animais em estado selvagem que ali vão matar a sede. Uma área equipada com confortáveis sombras e espreguiçadeiras com vistas majestosas das colinas de Chyulu no horizonte.
-Desta vez vou propor um programa algo diferente. Diz Stephen aproveitando as delícias gastronómicas do momento.
-Sim! Então diga-nos lá o que saiu da caixinha desta vez. – responde Susana com aquela expressão a que o escocês já se habituou.
-Calma, meus caros! Acho que aqui em Tsavo vamos usufruir de um pouco mais de relax. Eu tenho algumas reuniões com os gerentes do lodge que me informaram sobre a visita de alguns acionistas amanhã. Vou atender estas expectativas, naturalmente.
-Bem! – responde Alfredo descontraído. O que tem que ser, tem muita força!
-Mas creio que poderemos tirar partido de algumas atrações locais, para além da piscina que é sempre aquele prazer.
-Tais como? – quer saber a curiosa Susana.
-Nada de muito agitado. Haverá uma visita a fazer ao Fluxo Shetani e mais à frente uns eventos locais que nos vão, com certeza, animar. Quanto ao tour desta tarde, vejam os detalhes num prospeto a consultar na recepção. Convém levar um calçado adaptado à marcha.
Nos encontramos pelas 15.30 horas, depois daquela boa sesta.
-Valeu! – responde desta vez Alfredo.
Uma vez cumprido o tal período de passagem pelas brasas, sempre bem vindo nos trópicos, os interessados se encontram no hall do lodge para uma nova experiência na região icónica de Tsavo.
Quanto ao tal “Fluxo Shetani”, o prospeto informa:
“Um fluxo de lava negra com oito quilómetros de extensão, 1,6 quilómetros de largura e cinco metros de profundidade. O que resta de erupções vulcânicas ocorridas no passado. Este fenómeno foi objeto de algumas lendas entre as comunidades locais que chamaram o fluxo de “shetani”, significando o mal no dialeto Kiswahili. Materiais vulcânicos expelidos do interior da terra por forças do mal.
Escalar o fluxo não é uma tarefa fácil, pois o solo grosso e preto é composto por pedaços irregulares de magma sólido.”
-Daí o uso de calçado adequado! – exclama Susana.
A partida do grupo faz-se em duas viaturas 4 X 4, com um guia que vai explicar mais sobre este fenómeno no local, sendo o regresso previsto já ao cair da noite.
A caminhada foi algo longa e menos adequada para Stephen e mais dois participantes com idades menos jovens. A carga vulcânica daquela zona deixa evidentes marcas de uma natureza que um dia se expressou de forma brutal. Um cenário tectónico que Alfredo novamente registou com a sua Nikon.
Um cansaço rapidamente compensado no percurso de regresso ao lodge, inundado por uma explosão crepuscular que só África oferece e com a demonstração da vida animal.
Este primeiro dia de regresso à savana pleno de emoções foi encerrado com um delicioso jantar de boas vindas ao Quénia.
Apenas o conforto de uma excelente instalação e os sons típicos desta primeira noite em Tsavo Park puderam contar como foi. O limbo foi profundo e ninguém se lembra do resto.
Neste novo dia destinado ao relax, os três recém chegados puderam tomar a primeira refeição do dia naquela sala espetacular.
Stephen, conforme anunciado, vai dar conta das suas funções na qualidade de consultor e os jovens repórteres terão uma tarefa árdua pela frente. Provar as delícias daquela piscina apelativa.
A esta preguiça anunciada juntou-se uma outra iniciativa. Escrever umas linhas à família em Portugal e na Austrália dando conta desta aventura africana. Foram precisas algumas folhas para dar uma panorâmica dos acontecimentos. A administração do Kilaguni Serena Safari Lodge se encarregará de colocar estas cartas no correio em Nairobi brevemente.
Fruto de uma combinação com Stephen e aproveitando alguma antecipação, esta deslocação de um funcionário do lodge a Nairobi terá uma outra missão. Contactar a agência de viagens com quem Stephen trabalha há vários anos no sentido de reservar as passagens aéreas de regresso À Europa. Stephen irá na British Airways com destino a Londres. Alfredo e Susana na KLM com destino a Lisboa, com escala em Amsterdão.
Não faltou tempo para reorganizar os conteúdos de reportagem que serão muito bem vindos quando se der início à edição e compilação final desta missão por terras africanas.
Entre mais uns mergulhos de piscina, umas prosas trocadas com outros hóspedes de passagem no lodge e umas degustações gastronómicas, se passou mais esta jornada de relax.
Antes de recolherem aos seus aposentos, Stephen adianta:
-Amanhã logo cedo vai dar-se um evento que sugiro que participemos.
-Sim! E de que se trata? – pergunta Susana.
-A toma do pequeno almoço num local chamado Lion Rock. Aproveitando para ver de perto as primeiras atividades de vida selvagem de mais um dia.
-Conte connosco! – retorna Alfredo.
O raiar do sol africano dá o mote para uma nova vivência de mato. Esta é daquelas experiências memoráveis tipicamente quenianas. Um grupo animado é transportado para o local a uns quilómetros do lodge denominado de Lion Rock, onde previamente se instalou uma estrutura para servir um inédito pequeno almoço. Aqui será difícil resistir ao maravilhoso buffet com carnes frias, frutas, cereais e pratos quentes, dois tipos de pão caseiro, ovos, bacon e um excelente café, tudo preparado na hora, enquanto é oferecido aos convidados confortavelmente sentados um ótimo cenário para observação da vida selvagem, ali tão perto.
No sentido de animar o acontecimento, entra em cena um grupo de Masai morans (guerreiros) e batuqueiros de Akamba. Aquela típica dança aos saltos destes homens de uma invulgar altura e trajados entre tons escarlate e roxo não deixou ninguém indiferente. Estamos, sem dúvida, no Quénia.
As emoções e as conversas tomaram o tempo útil dos presentes. A hora de regressar ao lodge não foi livre de alguma resistência. Lion Rock cumpriu bem o seu propósito. O guia pronunciou em voz alta uma palavra do dialeto local. “Kwaheri” que significa adeus a Lion Rock, até um outro dia.
A restante jornada foi preenchida por uns mergulhos na piscina e algumas degustações disponíveis no lodge.
A sensação de trabalho árduo estava deste modo descartada.
Neste último dia no Kilaguni Serena Safari Lodge, a temperatura ditou mais uma vez a tendência.
Ao acordar bem cedo, Alfredo diz à sua companheira:
-Minha querida! Fui várias vezes à casa de banho esta noite. Penso que tive uma descarga intestinal daquelas. Algo que comi que não me caiu bem.
-E então, meu amor? Como te sentes agora?
– Acho que tenho que ir ali novamente. I´m sorry!
Susana preocupada vai à porta da casa de banho e pergunta:
-O que posso fazer, querido?
Com uma voz cortada pela indisposição, Alfredo responde:
– Tenho na minha mala uma caixa pequena com medicamentos. Dá-me por favor uns comprimidos numa embalagem verde. Já tomei um de noite e vou tomar outro agora. É um medicamento muito bom para reconstruir a flora intestinal.
Passada uma meia hora de alguma prostração, Alfredo sente-se mais aliviado dizendo a Susana:
-Querida! Vai tomar o teu breakfast e quando voltares traz, por favor, um chá de ervas.
-É tudo o que vais comer?
-Sim! Já me conheço. Quando é assim, o jejum é o melhor remédio.
Aquele chá fez o seu efeito e a manhã foi avançando. Alfredo entendeu que era preciso reagir.
Susana, totalmente dedicada à causa do seu companheiro, convida-o para dar um mergulho na piscina. E Susana estava certa. Gradualmente, Alfredo recupera as suas forças com uns bons mergulhos naquela água cristalina. Algumas horas dedicadas à leitura, ajudaram no seu quadro de recuperação.
À hora de almoço, Stephen, tomando conhecimento da noite difícil de Alfredo, informa:
-Meu jovem! Quem não passa por isso de vez em quando?
-Pois, Stephen. Foi com certeza algo que eu comi por estes dias. Mas agora vou comer algo ligeiro e a vida retoma o seu ritmo. Já me sinto melhor.
-Ótimo! Se precisar de algum medicamento…
-Não será necessário. Eu ando sempre prevenido para estes casos. Obrigado.
Mais descontraído com o quadro, Stephen informa:
-Ainda vou ter alguns assuntos para tratar esta tarde. Mas o gerente informou-me que haverá esta noite um evento que pode interessar-nos.
-E de que se trata? – pergunta Susana saboreando a cerveja local.
-Existem aqui bem em frente ao lodge uns poços de água, tendo como pano de fundo as colinas que se veem ao longe. A ideia é tomar o jantar um pouco mais tarde e apreciar de perto os animais que se aproximam destes poços para matar a sede. Que vos parece?
-Penso que depois de uma tarde sem agitações, o Alfredo está a gostar da ideia. Quanto a mim, já sabe como é, Stephen. As suas ideias são música para os meus ouvidos.
-Vamos nessa, sim! – responde Alfredo cooperativo.
Durante a tarde, o relax foi tomando as horas junto à piscina com mais uns drinks para refrescar, água mineral no caso de Alfredo. Com o embalo necessário para trocar mais umas prosas com outros hóspedes do lodge, entre eles um casal de portugueses chegados esta manhã, com quem Alfredo e Susana tiveram a oportunidade de partilhar umas boas e intermináveis conversas em português. Algo raro nas últimas semanas.
Pela noite foi preparado o tal cenário num terraço do lodge onde é servido um copioso jantar em frente à fonte d´água.
Esta fonte é constituída de uns poços de água naturais localizados perto do edifício principal do lodge onde se saboreia a gastronomia local, enquanto se aprecia a bela vista das colinas verdes de Chyulu e se observa uma espetacular variedade de vida selvagem que aqui vem de noite para saciar a sede.
Esta refeição começou pela degustação de umas deliciosas chamuças preparadas na hora às quais se adicionou um molho agridoce. Com a cerveja gelada, um must!
A seguir veio a carne, a estrela da culinária queniana. Molo de cordeiro, muito apreciado nestas paragens, é uma carne grelhada e guarnecida com batatas, arroz ou legumes. Preparada num churrasco denominado de nyama choma, que em Swahili significa ‘carne assada’, acompanhada de Ugali, petisco importado do Uganda que consiste em bolas de farinha de milho cozidas, com textura semelhante ao pão. Uma massa misturada com manteiga e queijo para torná-la mais saborosa. Outra delícia sem defeitos a apontar.
O vinho tinto francês está naturalmente à altura do acontecimento.
Alfredo, mais cauteloso, provou todas estas iguarias sem cometer excessos.
Mas eis chegado o momento de apreciar algo transcendente. Com a luz difusa do lodge incidindo sobre estes poços de água, pode agora ver-se uma família de elefantes composta de quatro adultos e dois filhotes que ali estão para um ritual de duche tão apreciado pelos paquidermes. E, muito naturalmente, para saciar a sede.
-Que espetáculo extraordinário! – diz Susana encantada com a cena.
– Indeed! – concorda Stephen.
Para a sobremesa, são agora servidas frutas tropicais, variando desde abacaxi, banana, papaia, manga, maracujá, tamarindo, coco e goiaba Um festival de vitaminas.
Um saboroso café vem rematar com chave de ouro este manjar.
Entretanto alguém ali presente aponta para os poços.
Um nova visão idílica se apresenta perante os olhos de todos. Um grupo de cinco leoas agachadas a beber a sua dose noturna de água, muito provavelmente antecipando mais uma agitada noite de caça. Deslumbrante!
Esta simpática refeição permitiu encerrar mais esta experiência no Tsavo National Park.
A noite, como é habito na savana, ficou embalada pelos seus sons e seus mistérios.
No conforto daquelas instalações e sob um precioso dossel, o sonho uma vez mais comandou a existência. Os pernilongos frustrados não tiveram direito ao desejado festim.
Nova etapa – Rumo às águas doces
Com os primeiros raios de um novo dia e a passagem ruidosa de aves migratórias nas imediações do lodge, apresenta-se naquela sala mais uma refeição perfeita para começar uma nova experiência. Os saberes e sabores do Quénia não podem ser ignorados.
Feitos os agradecimentos ao staff pela excelente recepção e cuidada atenção e organizadas as bagagens, resta aos três viajantes trocar mais umas impressões sobre Tsavo, sentados no hall do lodge.
Passados minutos, entra Charles Matthews com aquela característica expressão de quem vive suspenso no ar.
-Hi, folks! Preparados para mais um pedaço de estrada aérea?
-Hi, Charlie! Sempre prontos para os teus desafios à força da gravidade. – retorna Stephen sorridente.
– Com o seu condor africano vamos onde essas asas nos levarem. – diz Alfredo animado
-E que tal uma visita a Ol Pejeta?
– Ol quê? – pergunta Susana franzindo o sobrolho.
-Stephen, é a tua vez de falar daquele lugar. – sugere o homem pássaro.
-Vamos andando que já vos dou umas dicas sobre isso. – conclui Stephen, levantando-se e pegando na mala de viagem.
Já sobre a pista de terra batida, organizada a disposição das bagagens e passageiros a bordo, é tempo de colocar o Cessna ao serviço do sonho africano.
Charles Matthews, dando gás ao motor, informa:
-O nosso voo vai ser de pouco mais de duas horas. Passaremos à direita de Nairobi seguindo em direção a Mount Kenya à nossa direita para, só depois, atingirmos o nosso destino. O Sweet Waters Serana Camp.
-Bem! Este camp fica dentro da ampla zona do projeto Ol Pejeta Conservancy, uma das mais notáveis regiões de preservação da vida animal do Quénia e lar, doce lar dos “Big Five”. O último posto afastado desta nossa aventura africana. – informa Stephen.
Deixando ao longe a fabulosa vista do Monte Kilimanjaro com aquele clarão branco de neve do lado esquerdo, dá-se assim início a mais um voo panorâmico, desfrutando de vistas espetaculares e explosões de cores onde emergem florestas exuberantes e extensas savanas douradas.
Imagens com que Alfredo enriquece a larga coleção de fotos captadas desde a chegada a Nairobi, há algumas semanas.
Decorridos quinze minutos de voo, Charles chama a atenção de todos. Do lado esquerdo lá estava a capital Nairobi para onde voltariam após esta última paragem mais a norte.
O voo a baixa altitude prossegue com a visão aqui e ali das manadas de gnus a pastar, mais além as zebras pintadas pela perfeição da criação e uma trupe de elefantes na lama de um charco a fazer o que tanto gostam. Jorrar água e lama por cima, procurando desta forma reduzir a temperatura dos corpos.
Mais além e com um sinal de Stephen para a direita, ergue-se o majestoso Monte Kenya que completa as maravilhas naturais da região e mais umas belas fotos para Alfredo captar. Deslumbrante!
Começando a baixar de altitude, o Cessna de Charles Matthews vai apontando à zona onde
se desenvolve o projeto Ol Pejeta Conservancy e dentro do qual se integra o Sweet Waters Serena camp. A aterragem é mais uma vez de mestre. Assim se abre mais uma porta para ver o que sai da caixa de surpresas de Stephen.
Agradecendo a Charles por mais esta passagem pelo sonho africano, é acordado o seu regresso dentro de quatro dias. Aqui se abre uma nova vivência.
Sweet Waters Serena camp é um oásis protegido, agrupado em torno de um fabuloso plano de água, chamado de Sweet Waters.
Abundante em vida selvagem, livre das restrições mais rigorosas dos Parques Nacionais do Quénia, este camp foi projetado para oferecer uma vivência encantadora e um ambiente que é um refúgio preferido dos amantes de áreas selvagens e safaris. Construído na década de 1970, o edifício principal do camp foi originalmente a residência do gerente da antiga propriedade.
Após os procedimentos de registo na recepção são agora encaminhados para as suas tendas com um traço típico da savana queniana. Que lugar!
A acomodação consta de 50 tendas individuais luxuosamente decoradas, abrigadas por estruturas cobertas de colmo, cada uma com uma casa de banho privativa e varanda com vista para o plano de água e um cenário do Monte Quénia mais além. Um abraço à beleza natural do seu entorno. Uma visão difícil de esquecer.
Localizado dentro da ampla área do Ol Pejeta Conservancy, um dos mais notáveis parques de conservação de vida animal do Quénia e lar de intensa vida natural.
– Este Serena Camp promete. – pensam estes jovens recém chegados.
-Agora vamos ter aquele tempo de relax até à hora de almoço. Terão talvez reparado na soberba piscina do camp? – indaga Stephen.
-A sua caixa de surpresas é incorrigível! – retorna Susana.
-Hum! A seguir ao almoço quero apresentar-vos a um velho amigo, o atual gerente do projeto Ol Pejeta Conservancy. Vocês vão melhor entender o que é esta pérola de preservação da vida animal.
-Conte connosco! – exclama Alfredo animado com a perspectiva.
O almoço é servido no Rhino Room com saborosos pratos de origem local, em regime de buffet, com carnes frescas e grelhadas e produtos provenientes diretamente das comunidades que cercam a reserva. Como opções de bebida apresentam-se os vinhos importados, a cerveja e sumos de frutas espremidas na hora ou infusões de ervas.
-E que vos parece este enquadramento para fechar em beleza o nosso circuito de savana africana? – pergunta Stephen
-O sonho comanda a vida, dizem! E sonhar de olhos abertos é este privilégio que você nos oferece em cada dia. Bem haja, Stephen! – diz Alfredo levantando a taça de vinho.
-À nossa! Cheers!
Conforme a previsão e após aquele momento de especial prazer oferecido pelo interior ventilado daquelas tendas durante uma breve sesta, o grupo encontra-se na zona de entrada do camp. Agora a ideia é ir ao encontro do tal amigo de Stephen.
Após uma caminhada de cerca de dez minutos e por caminhos bem definidos onde sobressai o esmero nos cuidados dedicados a este parque, o grupo dá entrada nas instalações do Ol Pejeta Conservancy, sendo recebido por uma jovem queniana que os coloca numa sala confortável aguardando a chegada do gerente.
Nesta admirável sala decorada com temas da vida animal, entra, passados alguns minutos, um cavalheiro com os seus 60 anos. Uma figura carismática dos seus 1,80 m vestido de calção e camisa em tons de verde pardo. Num inglês que não esconde a sua origem, diz:
-Stephen! Há quanto tempo não vejo este escocês errante? Dá cá um abraço, old buddy!
– Hi, mate! – diz Stephen levantando-se e abraçando calorosamente o recém chegado. Meus amigos, apresento-vos David Robinson, o diretor do parque.
-Hi, sir! Muito prazer! Eu sou Alfredo e aqui a minha companheira Susana.
A conversa foi desde logo bem preenchida com a colocação em dia de factos comuns a Stephen e David, naturalmente seguida pela explanação do propósito desta viagem ao continente africano. É entretanto servido uma excelente sumo de laranja com gelo que não deixa ninguém indiferente. Com o propósito de dar ao grupo recém chegado uma perspectiva deste projeto, David informa:
– A criação de Ol Pejeta começou no início dos anos 1940 com Lord Delamere, conhecido como um dos primeiros e mais influentes colonos britânicos do Quénia. Durante toda a era colonial, Ol Pejeta foi uma propriedade dedicada à criação de gado com muito sucesso, mas também reconhecida pelas referências dos que a possuíam e a administraram durante esse período. Entre estes, o famoso proprietário Adnan Khashoggi, um bilionário comerciante e empresário de armas da Arábia Saudita.
No final da década de 1960, a caça furtiva no Quénia feita por caçadores coloniais havia afetado seriamente as espécies de vida selvagem. Os números de elefantes e rinocerontes estavam em queda e, embora a caça a elefantes tenha sido declarada ilegal no Quénia em 1973, os números continuaram a diminuir. Isso preocupou um dos proprietários anteriores de Ol Pejeta, a Lonrho Africa, que estabeleceu a Reserva de Caça Sweet waters como um santuário para rinocerontes negros e outros animais selvagens. Com o tempo, a Reserva de Caça se expandiu para cobrir 37 000 hectares, sendo a atual área de Ol Pejeta.
-Fabuloso projeto! – exclama Alfredo
David prossegue:
-De uma propriedade de gado saída do Quénia colonial a um projeto pioneiro e inovador em conservação, a história de Ol Pejeta é tão encantadora quanto inspiradora.
-E hoje, quais são os vossas principais conquistas? – pergunta Stephen
-Hoje, Ol Pejeta é o maior santuário de rinocerontes negros do leste de África e lar de dois dos últimos remanescentes de rinocerontes brancos do norte, ao nível mundial. É o único lugar no Quénia para ver chimpanzés, num santuário criado para reabilitar animais resgatados do mercado negro. Possui algumas das maiores densidades de predadores no Quénia e ainda administra um programa de gado muito bem-sucedido. Ol Pejeta também procura apoiar as pessoas que vivem ao redor de suas fronteiras, para garantir que a conservação da vida selvagem se traduza em melhor educação, saúde e infraestrutura para a próxima geração de guardiões da vida selvagem.
A conservação do habitat natural, localizado no planalto de Laikipia, no Quénia, garantiu a proteção de espécies existentes como rinocerontes, elefantes e outras espécies selvagens, além de chimpanzés em cativeiro que vivem num santuário de 121 hectares.
– E quanto à filosofia que move este projeto? – quer saber Susana tomando mais umas notas no seu road book.
-Em termos de tutela, somos guardiões da terra, protegendo espécies ameaçadas e garantindo a abertura e acessibilidade da conservação para todos.
Em inovação procuramos guardar no nosso ADN uma atitude inovadora, formando e capacitando o nosso pessoal a pensar desta mesma maneira e adotar novas abordagens no que toca a conservação. E dando um especial valor à autenticidade, proporcionando experiências naturais nas zonas mais desertas, apoiadas por uma conservação cientificamente credível e promovendo interações genuínas com a vida selvagem.
-Bem, David! Como sempre, as tuas explicações são uma excelente aula de preservação.
-Thanks, buddy! Sei que ficarão por cá uns dias. Não vou precisar de vos dar as dicas quanto aos atrativos deste nosso projeto. O Stephen conhece bem estas paragens. Qualquer outra assistência que precisem durante a vossa estadia, cá estamos para dar uma ajuda suplementar. Sintam-se em casa. – conclui este simpático anfitrião.
Ali mais adiante e conduzidos por um funcionário da casa é tempo de conhecer um interessante sector que diz respeito aos leões. Mais precisamente o que vai sendo feito na defesa de leões. Com uma conversa fluida enquanto caminham, este funcionário adianta:
-Agora vamos ver uma área em que dedicamos uma especial atenção à vida e defesa dos leões. Nós aqui aprendemos algumas curiosidades acerca deste soberbo animal.
-Tais como? – pergunta Susana curiosa.
Estudamos alguns dos seus comportamentos enquanto estão aqui no parque. Quando um leão ruge, por exemplo, pode-se ouvir o som que ele emite a uma distância de oito quilómetros. Rugido poderoso, hein? É algo que já pudemos testar e medir.
Um leão pode dar um salto de 10 metros, por exemplo, e também pode correr atingindo uma velocidade até 80 km/h por curtas distâncias, e chegámos igualmente à conclusão que, quando ele anda, seus calcanhares não tocam no chão.
-Curioso! Há muitos anos que passo por estas paragens e não tinha conhecimento destes detalhes. – afirma Stephen.
– E diga-nos, por favor. A cor dos leões pode variar, certo? Isso tem alguma razão específica? – quer saber Alfredo.
-Leões podem ter diferentes cores, porém eles normalmente possuem uma pelagem de um amarelo claro e o macho tem uma juba castanha ou preta por volta de seu pescoço. A juba do leão o protege de ferimentos durante lutas entre machos e o torna único entre os outros grandes felinos.
Também é possível adivinhar a idade de um leão pela cor de sua juba ou do seu nariz.
Quanto mais escura é a juba e o nariz são, mais idade tem o leão. Veja, por exemplo, aqueles dois machos ali à frente. O da esquerda pelas suas tonalidades é um macho mais velho.
-Quanto tempo vive um leão? – pergunta Alfredo.
-Leões na natureza vivem entre 10 e 16 anos, enquanto que os leões de cativeiro podem chegar a viver até 30 anos.
-É o dobro da existência! – exclama Susana.
-Não são comparáveis as condições de um caso e o outro. Na vida selvagem os riscos de sobrevivência são muito altos. Em cativeiro baixam drasticamente, dando ao animal uma maior esperança de vida.
– Os animais que estão aqui, estão por alguma razão específica? – pergunta Alfredo.
-Sim, temos aqui estes animais em regime temporário com poucas exceções. São recolhidos para tratar alguma doença ou para fins científicos. Concluídas essas tarefas, são libertados e regressam à reserva e à vida selvagem.
Uma vez libertados alguns destes leões ou leoas são equipados com colares de rádio e podemos, deste modo, acompanhá-los com rastreadores especiais. Através desta monitorização identificamos mais facilmente os leões, registando padrões de bigodes, cicatrizes, marcas nas orelhas e outras características. Os dados coletados vão diretamente para o nosso departamento de monitorização ecológica e ajudam-nos a encontrar soluções para os desafios que os leões enfrentam no seu quotidiano.
-Mas não acha que esse é um método anti natura? – pergunta Alfredo.
-Nós desenvolvemos um parque de conservação da vida selvagem. É o que fazemos para bem do conhecimento humano e proteção das espécies que habitam no parque. Para além dos leões esta nossa prática abrange muitas outras espécies, algumas delas em perigo de extinção como é exemplo o nosso sector de chimpanzés, babuínos e rinocerontes.
Vão estar cá por alguns dias?
-Três dias. – responde Stephen.
– Vão com certeza poder visitar os outros sectores do nosso projeto. Sejam muito bem vindos.
Feitos os agradecimentos por este passeio de conhecimento, é tempo de regresso ao Sweet Waters camp onde os espera um simpático mergulho na piscina e de um bom duche antes do jantar.
Esta refeição é novamente servida no Rhino Room com aqueles saberes e sabores em que o Quénia sabe conquistar. O ambiente é propício a uma animada conversa.
– E o que faremos amanhã? -pergunta Susana aos presentes, saboreando uma deliciosa salada com berinjela e abacate.
-Já refleti sobre isso. Penso que para nos despedirmos destes circuitos da savana tenho uma excelente ideia para amanhã. Mas preciso antes de mais de saber. Vocês tem experiência com cavalos?
– Eu tive uma boa prática de hipismo com a minha irmã Judite e os meus sobrinhos na minha última estadia em Brisbane. – retorna Alfredo.
– Eu comecei muito nova a frequentar um clube de hipismo de um grande amigo do meu pai em Cascais. Depois, com a doença dele, suspendi essa atividade. Mas direi que é como andar de bicicleta. Nunca se perde o tato. – Susana explica
-Ótimo! Vou dizer-vos porquê! Aqui há um programa diferente de qualquer outro parque. Uma passeata a cavalo para apreciar a vida selvagem. Assim sendo vou reservar este passeio para amanhã de manhã. Pela tarde proponho uma visita ao centro dos rinocerontes. Que vos parece?
-Oh, Stephen! Você já conhece a resposta, certo? – retorna Susan com um brilho nos olhos.
-Muito bem! E que tal um Night Game Drive amanhã à noite?
-Ai,ai! Lá vem ele! – exclama a jovem com um olhar arregalado.
-Calma, Susana! Estamos a falar de algo diferente da vossa experiência no Serengeti. Trata-se de um percurso noturno em condições bem diferentes e com regresso à base.
Olhando para Susana com um leve sorriso, o jovem antropólogo responde:
-Já lá estamos!
-Bem! Vamos ter que preencher alguns questionários para reservar o passeio a cavalo. Vou passar na recepção e, logo mais, cada um de nós tratará de responder ao questionário e deixá-los lá com o funcionário, ok?
E passada aquela hora de simpática troca de emoções deste primeiro dia nesta soberba região, foi necessário responder por escrito a algumas questões obrigatórias para viabilizar o tal passeio a cavalo. Questões essencialmente relacionadas com a estatura do participante, com o seu peso, sua idade, a sua experiência com cavalos, conhecimento do seu comportamento e assumir a responsabilidade por eventuais riscos durante o passeio.
Estavam deste modo reunidas as condições para o usufruto de uma noite naquelas tendas onde o sono comanda a vida e os múltiplos sons do parque não deixam dúvidas quanto ao local onde se encontram. África profunda.
Uma vez mais os pernilongos perderam a corrida. Que invenção é essa de redes mosquiteiras? Damn!
2º Dia em Sweet Waters
O encontro foi outra vez naquele lugar mágico onde as papilas gustativas se agitam perante tamanha exposição de cores e sabores.
-Well! Hoje vamos ter uma jornada em pleno. – adianta Stephen.
-Valeu! Vamos talvez começar este dia com um enorme esforço. Mergulhar naquela piscina.
-Isso! Excelente ideia. Logo mais temos a reunião do grupo para um encontro nas cavalariças e distribuição de montadas. Está marcado para as 9.30 h.
Conforme o combinado, o encontro com o guia e com os nobres cavalos correu conforme estabelecido. Primeiramente uma breve descrição do percurso e uma necessária abordagem quanto às práticas equestres em ambiente de safari.
Entre dez participantes, a cada um foi atribuído um animal, sendo observado o perfil de cada um, para além de algumas regras que conduzem as boas práticas dentro do parque.
Fazer um safari no Quénia a cavalo é uma das experiências mais inéditas que alguém pode ter. Uma forma algo insólita de chegar ainda mais perto da vida animal montando um cavalo.
Após se afastarem das cavalariças, bate aquele medo quando se passa pela porteira e a área cercada fica para trás. – Agora estamos nós e eles. – pensa Alfredo.
O grupo liderado por um experiente guia segue agora em direção a um ambiente mais afastado e, por consequência, mais selvagem. Uma experiência que terá uma duração de umas duas horas. Uma forma bem diferente de visitar uma unidade de conservação onde vive o maior número de rinocerontes do mundo, além de todos os animais mais conhecidos da África. Emoções à flor da pele.
O guia entretanto informa:
– Os cavalos tem um instinto apurado, percebem de longe a presença dos bichos mais perigosos e desviam o caminho antes de nós percebermos.
Uma explicação que subiu automaticamente a adrenalina dos participantes. Estes cavalos que aparentam ser muito bem tratados, são em regra altos, charmosos e com um aspecto muito saudável.
Susana, a quem calhou uma garbosa égua, notou que esta troteia com muita elegância sem nunca sair da fila, apesar de insistir em querer ficar atrás do guia e não na terceira posição, deixando sistematicamente os restantes aventureiros atrás.
Que sensação intensa ver enormes elefantes e cheetas nesta região tão rica em vida selvagem, sabendo em cada momento que cada um só pode contar com as suas habilidades com cavalos se algum imprevisto surgir.
O receio logo deu lugar a euforia vendo aquela paisagem e sentindo a real proximidade com zebras, gazelas e macacos. Na verdade, estes participantes não se sentem realmente seguros, mas a adrenalina oferece a coragem para segurar as rédeas com uma só mão e ir tirando fotografias com a outra.
O momento que se seguiu foi digno de registo. Quando uma impala cruzou à frente do grupo com um salto de uns dois metros de altura desaparecendo no mato a grande velocidade.
O guia explica:
-Esta assustou-se com a nossa presença. Não seria o mesmo se fosse um leopardo. Mas relax , vamos muito bem. So far so good!
Cavalgando ao lado de Alfredo, Stephen indaga:
-E que tal, meu jovem? Este safari é bem peculiar, não acha?
-Completamente inesperado. Jamais imaginei viver isto na vida. África realmente é outro mundo. Levo daqui fotografias de eleição. – retorna Alfredo com um brilho no olhar.
Agora dá-se uma passagem perto de um grupo de macacos-cão. Por instruções do guia, o percurso sofre um desvio de segurança. Estes macacos podem ser extremamente agressivos. Os corações batem mais depressa quando um macho boceja exibindo uma dentadura de respeito.
No espírito da grande parte dos participantes, um pensamento: Nós cá e eles lá!
Passados alguns minutos, fazendo o contorno de uma mata mais densa e iniciando o percurso de regresso ao camp, outro espetáculo digno de captação de imagens se apresenta.
Uma família de javalis em fila indiana a sair do mato em passo apressado. O macho na frente seguido da fêmea e os cinco filhotes muito nervosos que os seguem.
O restante do passeio foi mais tranquilo, tendo ainda passado por uma família de babuínos com um bebé, uma passagem ao lado de vários formigueiros gigantes construídos pela formiga típica das savanas africanas e várias aves, algumas de rapina que oferecem aqui e ali o espetáculo de captura de um roedor avistado do alto.
Algumas árvores tem o tronco envolto com arame. O guia explicou ser para a conservação das mesmas, pois os elefantes insistem em derrubá-las e desistem quando sentem o arame.
O regresso ao camp foi coroado por uma cavalgada de gnus fugindo de uma cheeta. Que espetáculo natural para encerrar mais este experiência a não esquecer.
A magia de Sweet Waters no seu esplendor.
Naquela reunião sempre bem animada à mesa do Rhino Room, os pratos fortes, para além das iguarias tão bem confecionadas diariamente, foram naturalmente a partilha de emoções daquele inédito safari a cavalo. Seguramente mais uma boa história para um dia contar aos netos.
Uma sesta africana naquelas instalações bem apelativas também mostrou o que vale.
Da parte da tarde e conforme planeado, é chegada a hora de conhecer uma das pérolas de conservação de toda a África – o centro de informação de rinocerontes de Ol Pejeta Conservacy project.
Stephen, sempre disposto a tirar coelhos da cartola, retira desta mais uma boa surpresa. A visita a este centro será conduzida por Davis Robinson. O diretor do parque que vem entretanto ao encontro do grupo. Chegando ao local, David inicia a sua valiosa intervenção:
– Ol Pejeta é o lar de dois dos últimos rinocerontes brancos do norte remanescentes do mundo e um santuário para mais de 110 rinocerontes negros criticamente ameaçados. Temos uma equipa multidisciplinar altamente treinada na proteção de rinocerontes, fazemos parcerias com especialistas veterinários internacionais, garantindo que dados sejam regularmente recolhidos e catalogados sobre cada animal. Atividades que nos
permitem continuar a ser um modelo para a conservação de rinocerontes na África Oriental. Vamos falar destes aqui. Os rinocerontes negros.
– O que aqui fazemos essencialmente é salvaguardar os vulneráveis.
O rinoceronte-preto está na lista dos mais ameaçados pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). De acordo com esta instituição, a população de rinocerontes pretos diminuiu uns impressionantes 97,6% entre 1960 e 1975, principalmente como resultado da caça furtiva. Hoje estima-se que haja apenas 2.400 rinocerontes pretos a viver em estado selvagem, mas graças aos esforços de conservação no Quénia e África do sul, as populações subiram para mais de 4.000. Aqui em Ol Pejeta, esperamos manter e mesmo aumentar esse número. Com uma população de mais de 130 exemplares, somos o maior santuário de rinocerontes pretos da África Oriental.
– Excelente trabalho, David! Sabia que andavam a trabalhar arduamente neste campo, mas não imaginava este índice de sucesso. – comenta Stephen.
David acrescenta:
– Quando os primeiros colonizadores chegaram ao leste e sul do continente, os rinocerontes eram caçados por desporto e carne. Hoje, a demanda vem da Ásia e do Oriente Médio, onde o chifre de rinoceronte é falsamente considerado como tendo propriedades medicinais e afrodisíacas, sendo usado para fazer punhos de adagas ornamentais. Um quilo de chifre de rinoceronte pode chegar a US $ 60.000 no mercado negro. Ironicamente, o chifre de rinoceronte é feito apenas da mesma substância que as unhas humanas – a queratina.
– Que miséria! – exclama Susana, chocada com estes índices.
-E quanto às boas notícias? – pergunta Alfredo.
Ao que David, entusiasmado, responde:
– Os esforços contínuos de Ol Pejeta e organizações similares em toda a África estão lenta, mas seguramente a ajudar as populações de rinocerontes pretos a aumentar. Ol Pejeta tinha 20 exemplares em 1975 e a criação bem-sucedida, combinada com operações difíceis de combate à caça ilegal, permitiu que esse número crescesse para mais de 100, atualmente.
-Bravo! – exclama Susana. E diga-nos, por favor. Qual é o peso destes animais?
-O rinoceronte preto masculino adulto pesa até 1.350 kg e as fêmeas até 900 kg.
Alfredo levanta outra questão pertinente.
-Há diferenças grandes entre os rhinos pretos e os brancos?
-Os rinocerontes pretos são menores que os rinocerontes brancos e, na verdade, não há diferença de cor entre eles. Os rinocerontes pretos usam o lábio em forma de gancho para se alimentar entre os arbustos. E estes preferem um habitat denso. Geralmente são mais solitários e tímidos que o rinoceronte branco e têm uma reputação de serem mais agressivos também! A propósito destes últimos vamos andar mais um pouco para vos mostrar o que temos aqui no parque. Estes que vocês aqui veem são denominados rinocerontes brancos do norte.
O rinoceronte branco do norte é uma subespécie de rinoceronte branco, que costumava se estender por partes de Uganda, Chade, Sudão, República Centro-Africana e Congo. Anos de caça furtiva generalizada e guerra civil na sua área de origem devastaram as populações de rinocerontes brancos do norte e agora são consideradas extintas na natureza. Apenas dois permanecem, ambos aqui no Ol Pejeta Conservancy.
-Absolutamente extraordinário! – exclama Alfredo não deixando ao acaso a captação de mais umas excelentes imagens.
A história destes animais não deixa de ser inédita. Quatro dos últimos sete rinocerontes brancos restantes no mundo chegaram a Ol Pejeta. Aquele ali é Najin, o outro mais além é Fatu, ainda lá mais afastado é Sudão e o que está mais atrás é Suni. Todos estavam cativos no jardim zoológico Dvur Kralove, na Tchekoslovakia. Todas as tentativas anteriores de criação em zoológicos foram inúteis e a esperança era que o clima e as ricas pradarias de Ol Pejeta, fossem um habitat nativo para os animais, proporcionando-lhes condições de reprodução mais favoráveis. Acho que foi uma decisão acertada.
Para manter os rinocerontes brancos do norte seguros e em boa saúde, Ol Pejeta criou um corpo de segurança armada 24 horas, num recinto de 283 hectares e uma dieta nutritiva complementada com legumes frescos. Estamos a tentar um acasalamento entre Naji e Suni. Há esperanças que venha a acontecer.
-E este desafio será pioneiro aqui no parque? – quer saber Stephen.
– Well, Stephen – retorna David entusiasmado com o tema.
– Alguns exames veterinários trouxeram um último raio de esperança. A reprodução artificialmente assistida é uma possibilidade. O futuro desta subespécie agora reside no desenvolvimento de técnicas de fertilização in vitro e tecnologia de células-tronco, procedimentos caros e complicados que nunca foram tentados em rinocerontes. A Ol Pejeta Conservancy está junto com o Zoológico Dvůr Králové a tentar arrecadar US $ 9 milhões para isso com uma campanha do GoFundMe chamada ‘Make a Rhino’.
– E quanto aos rhinos brancos do sul?
David prossegue: -Vamos mais adiante para vê-los de perto.
– O rinoceronte branco do sul está na lista do quase ameaçados pela IUCN. Segundo eles, esta subespécie estava à beira da extinção no final do século XIX, tendo sido reduzida para apenas uma pequena população de aproximadamente 20 a 50 animais na África do Sul. No entanto, num dos esforços de conservação coletiva mais bem-sucedidos do século, agora existem populações prósperas no leste e sul da África, totalizando mais de 15.000 animais.
Embora os seus números sejam mais estáveis, quando comparados aos seus primos pretos, o seu chifre ainda é tão procurado por caçadores criminosos. A maior demanda vem como sempre da Ásia e do Oriente Médio.
– Estamos a aprender hoje! – diz Alfredo olhando para Susana.
– Talvez vocês não saibam. Ol Pejeta possui atualmente 10 brancos do sul. Apresentando os recém-chegados grupos aleatórios de brancos selvagens do sul neste novo ambiente, estes demonstraram comportamento natural entre eles. Com o tempo, os traços naturais se tornaram mais proeminentes, motivando o branco do norte a começar o acasalamento.
Na verdade, e como disse lá atrás, não há diferença de cor entre o rinoceronte branco e o preto. Diz-se que o nome tenha sido uma tradução incorreta da palavra africâner ‘weit’ que significa ‘wide’, que se refere aos lábios em forma de quadrado usados para pastar. Esta é a principal distinção entre rinoceronte branco e preto. O formato do lábio.
Diz-se que o rinoceronte branco do sul tem a estrutura social mais complexa de todas as subespécies de rinoceronte. E que prefere pastar em planícies abertas, facilitando sua localização na savana.
– Muito interessante tudo o que assistimos aqui! Estão de parabéns! – exclama Stephen estendendo a mão a David.
– Grato, Stephen! Fazemos diariamente por isso. E que tal um drink no nosso lounge?
– Com muito gosto! – responde desta vez Susana.
Esta foi mais uma agradável troca de impressões num espaço que a memória levará para o futuro. Onde foi possível melhor desenvolver aspetos vividos nesta aventura a três pela Tanzânia, Uganda e agora aqui no Quénia.
Com um sincero agradecimento, o grupo despede-se de David Robinson.
Antes da hora do jantar houve aquele espaço para umas boas braçadas na piscina de Sweet Waters com bons momentos de relax, aproveitando os últimos raios do astro rei sobre a savana.
Ao jantar, o tema incidiu naturalmente sobre as experiências deste dia difícil de esquecer.
-E como vai ser esse raid noturno? – quer saber Susana sempre algo apreensiva com estas aventuras na escuridão.
-Pois será como combinado. O nosso guia é alguém que conheço de outras visitas aqui ao camp. Será um tour de cerca de duas horas. O nosso ponto de encontro é ali na entrada principal pelas 21 horas. Como no Serengeti o meu conselho é trazerem agasalhos. A temperatura, como vocês bem se lembrarão, cai drasticamente à noite.
-E desta vez vamos ter Stephen na equipa noturna, certo? – indaga Alfredo.
-Exato! Se a Susana se assustar com algum fenómeno, está aqui um quase jovem para a tranquilizar.
Risada geral.
Dando forma ao que habitualmente se chama por aqui de Night Game Drive, juntam-se a estes três forasteiros mais um casal de franceses hospedados no camp.
Antes de partir a bordo de um Land Rover adaptado a safaris, o experiente guia queniano de nome Akin explica:
– Graças ao status privado de Ol Pejeta Conservancy, é possível oferecer passeios noturnos como este que vamos iniciar. Uma atividade que não está disponível na maioria dos parques e reservas nacionais do Quénia. Este passeio noturno oferece aos visitantes a oportunidade de descobrir o Ol Pejeta Conservancy Park fora de horas. Com a ajuda de uma luz direcionada colocada a bordo dos nossos Land Rover, é possível visualizar alguns fenómenos incomuns de animais noturnos, incluindo papa formigas, mangusto de cauda branca, gatos selvagens e até talvez raposa de orelhas de morcego, além das habituais espécies de maior porte.
– E os leões? – pergunta o jovem francês
– O leão, que muitas vezes dorme durante o dia, é frequentemente visto alerta e ativo à noite, e até poderemos cruzar o leopardo que é mais evasivo.
Um passeio noturno é uma experiência completamente diferente de um safari diurno. Vamos lá!
Saindo do limite do parque, esta aventura segue por um trilho em plena escuridão.
O coração vai ficando apertadinho com a incógnita do que estará para lá da visibilidade dos faróis. Trata-se de um misto de emoção e excitação, enquanto um mundo noturno desconhecido os espera aqui, ali, ou acolá.
Um holofote é agora acoplado ao Land com um filtro de luz vermelha adequado para identificar animais na escuridão através dos olhos escondidos no escuro. O Akin sabe sempre o que está em observação, se é um predador ou presa, pela cor dos olhos.
A noite oferece momentos que nunca se esquece, pois a maioria dos grandes predadores faz sua caça à noite. E se não houver encontros indesejados, não há nada mais mágico do que ouvir os sons da natureza na calada da noite, por quilómetros em pleno desconhecido. A temperatura começa a cair. A inquietação cresce.
Saindo de uma zona de mata densa para uma zona mais aberta, de repente o nosso Land para a marcha e o guia apaga a luz do holofote. Com o sinal de um dedo sobre os lábios ele pede silêncio. A adrenalina sobe para níveis insuportáveis.
Acendendo de novo o farol de longo alcance, surgem a uns duzentos metros dois jovens gnus em rápido galope na direção do grupo, passando pelo flanco esquerdo. Quando estavam a poucos metros à frente, de repente deu para perceber que não eram dois gnus, mas um gnu e uma hiena adulta a passos largos na sua perseguição. A caçada estava em curso.
A velocidade dos dois animais, tanto predadores quanto presas, era incrivelmente rápida, embora não parecesse a princípio. O guia, muito habituado a estes espetáculos, segue a cena com o farol. Uma cena que agora se desenvolve em terreno aberto.
Mais adiante o jovem gnu comete um erro drástico de virar-se para o seu perseguidor. Talvez por cansaço ou falta de oxigénio. Sem sequer abrandar o passo, a hiena mergulha sobre a presa, ignorando os seus chifres e agarrando o gnu ofegante por uma perna de trás, rasgando-o com um golpe violento da sua mandíbula voraz. O gnu berra de dor e vira-se para enfrentar o atacante. Agora, não é mais uma questão de se a presa vai morrer, mas quando vai morrer. Matar exige paciência e nenhum predador demonstra mais paciência do que uma hiena.
O gnu desesperado e ferido retoma a sua fuga. A hiena incansável nunca cessa, apenas faz uma pausa entre cada ataque apressado. De repente, sem motivo aparente, o gnu vacila, cambaleia, tropeça e cai por terra. Quase no instante em que o gnu bate no chão, a hiena está sobre ele, rasgando o seu corpo sem hesitação. Um pedaço considerável de carne é rasgada e o sangramento aumenta dramaticamente.
Do nada, uma segunda, uma terceira, uma quarta e finalmente uma quinta hiena aparecem, avaliando o que está a acontecer e quem está no ataque.
Neste momento, o guia explica:
-Um clã de hienas é uma sociedade social altamente organizada, estruturada e complexa.
Neste momento atravessa o espírito dos três forasteiros o que aprenderam no Serengeti com o ranger holandês, acerca das hienas.
– A fêmea que tem o gnu é certamente uma fêmea dominante, pois todas as hienas menores, provavelmente machos, permanecem a uma distância respeitosa e segura de quinze metros ou mais. Reparem bem.
Outra hiena, igualmente grande, surge agora serpenteando entre as árvores em direção ao palco de caça.
Akin prossegue:
-É uma outra fêmea alfa, eu acho. Com base no seu tamanho e na maneira relaxada e confiante com que se está a aproximar da ação, ela sabe o que está acontecendo e o que ela é. Certamente, parte da matança será dela, sem discussão.
Confirmando esta previsão, aproxima-se da outra fêmea empurrando-a, sem pressa e demonstrando um poder assustador, arranca um pedaço enorme de carne e começam a alimentar-se das entranhas, comendo primeiro as partes de alta nutrição, pois nunca se sabe se vão perder o festim para os leões que possam aparecer na área.
Somente as duas fêmeas se alimentam da carne, nunca permitindo que os outros se aproximem da carcaça.
Seis hienas deste grupo abandonam a área e saem para as planícies abertas à procura de novas oportunidades.
A história não termina por aqui. Este grupo vai ter um outro privilégio esta noite.
Surgem do nada quatro leoas famintas que veem ali uma refeição pronta e servida sem grande esforço. As duas hienas alfa, sem a ajuda das que se afastaram, não têm outra alternativa senão abandonar a presa, entregando-a às leoas.
As leis da selva são para se cumprir.
Vivido este momento típico da vida selvagem, o tour prossegue pela noite dentro, sendo uns quilómetros mais adiante feita uma nova paragem numa clareira de acácias silvestres. O spot ideal para um piquenique de mato. Um momento onde o episódio ocorrido lá atrás foi naturalmente o ponto alto da prosa. Uns sanduiches consistentes e algumas peças de fruta fizeram a satisfação geral, animadas por umas cervejas locais geladas ou sumos de fruta tropical.
O caminho de volta ao camp foi igualmente condimentado de stress e muita adrenalina.
Como é comum em safaris africanos noturnos, o que se pode ver não está ao alcance imediato da vista. Podem cruzar-se vários tipos de animais carnívoros, como leões e leopardos que gostam de caçar de noite, como alguns herbívoros de grande porte, como rinoceronte, zebras, javalis ou até búfalos e mesmo elefantes. Manter os olhos bem abertos para a mata ocasional e seguir os sinais do guia, é a fórmula adequada.
-E lá vai um mangusto de cauda branca! – anuncia o guia.
Mais adiante e com um som típico de árvores derrubadas que o guia bem conhece, este para a marcha apontando a luz para a mata, a uns trinta metros de distância sobre o caminho. Vê-se agora uma trupe de elefantes que se agitam na mata. Um macho de maior dimensão volta-se para a luz deixando sobressair os sinais corporais que o guia bem conhece. Ele pode carregar. De noite não há lugar a facilidades.
Pedindo a um dos passageiros que ilumine a traseira do caminho, o guia não hesita em engatar a marcha atrás saindo rapidamente do local. Uma vez mais a adrenalina subiu ao telhado.
Escolhendo uma outra pista para regressar ao camp e poucos quilómetros à frente, nova situação perante um leopardo que está igualmente sobre a picada. O Land está novamente parado. Há que observar a atitude do gato pintado. O bicho faz um esgar agressivo e corre em nossa direção. Uma vez mais o sangue gela.
Ao passar ao lado do Land em passo de corrida, dá uma bela patada na grelha dianteira, desaparecendo de imediato dentro do mato.
Ninguém fala, pois a voz não sai.
O guia adianta:
-O bichano não gostou da luz nos olhos. Em regra afastam-se, mas este resolveu ter uma atitude. Coisa de gato.
Com a alma plena de múltiplas emoções fortes e o frio da noite a tomar conta dos espíritos, é com agrado que este grupo avista ao longe os limites do Ol Conservancy Camp. Mais uma passagem inesquecível onde a vida animal fala mais alto.
Um caloroso agradecimento foi dedicado a Akin pela sua destreza e conhecimento do meio natural. Ninguém fez o que não deve nas cuecas. Estão todos mais ricos.
Já é tarde e o dia foi intenso.
Agora, só o conforto daquelas tendas pode abrigar estes forasteiros que assim se despedem do contacto com a vida selvagem africana.
3º e último dia em Sweet Waters
O momento de reunião à mesa é sempre de especial prazer. A prosa mistura-se com saberes e sabores com que o Quénia envolve os seus visitantes.
– Dormiram bem depois da agitação de ontem? – pergunta Stephen saboreando aqueles ovos mexidos com bacon.
-A reação daquele gato pintado ficou às voltas no meu sub-consciente, mas depois o cansaço falou mais alto. – retorna Susana com um ar repousado.
– Os pernilongos cantaram bem, mas uma vez mais tiveram uma noite de total frustração. – diz desta vez Alfredo dando mais um trago naquele delicioso café. O sorriso é de satisfação
-Well, folks! Ontem fizemos a nossa plena despedida do mundo animal e penso que neste nosso último dia vamos dedicar-nos a interagir com as tribos Masai, que são uma importante parte do charme deste país. Que vos parece?
– Ótima ideia! – responde Susana animada.
– E isso consta do quê? – quer saber Alfredo.
– Vou providenciar uma saída com o nosso guia de ontem, o Akin, para visitarmos algumas aldeias da região e conhecer os costumes das gentes Masai. Vou ver esta possibilidade e já falamos sobre isto.
Segue-se aquele sacrifício matinal que ninguém merece. Um mergulho naquela piscina do camp. Ali perto, estes jovens encontram um casal de sul africanos de Cape Town com os quais trocam uma animada conversa sobre as magias do continente africano, as vivências e vida profissional de uns e outros. Daqui surge um convite para Alfredo e Susana visitarem um dia a fabulosa cidade do Cabo da Boa Esperança, onde o Atlântico e o Índico trocam agitadas impressões e o Adamastor sempre mostra aos navegantes o seu mau feitio.
Chega Stephen que vai aderir ao sacrifício da piscina. Este informa:
– Tudo combinado com Akin. Iremos a seguir ao almoço, regressando mais logo, ao por do sol.
Alfredo pergunta entretanto a Stephen:
– Temos estado a trocar uma boa prosa com este casal de Cape Town. Acha que haveria lugar para eles nos acompanharem?
– Suponho que sim! Vamos só nós e Akin. Tratando-se daquele mesmo Land de ontem à noite, não há qualquer impedimento.
É com agrado que esta possibilidade é comunicada ao jovem casal, que assim é apresentado a Stephen. A conversa flui naturalmente. Os temas são muitos entre o escocês e estes jovens austrais.
– Susana! Achas que depois desta aventura anglófona ainda vamos saber falar português?
– pergunta Alfredo com um ar divertido.
– Meu tolo! Que língua estás a falar neste momento? – responde a linda Susana.
Antes de almoço, Alfredo lê para Susana em voz alta um artigo sobre os Masai que Stephen lhe deixou há pouco:
“Provavelmente você já viu aquelas fotos incríveis da tribo Masai do Quénia, enfeitadas com seus brilhantes padrões vermelhos, roxos e azuis dos seus shukas, altos e orgulhosos com as suas lanças. Talvez você também tenha visto as fotos de suas mulheres adornadas com brincos e cachecóis brilhantes de missangas num cenário da árida savana africana. Como o próprio nome sugere, esta tribo fascinante reside nas áreas em redor dos Parque Nacionais no Quénia e em partes da Tanzânia.
A tribo Masai é um dos habitantes mais antigos da África Oriental, com uma história que remonta ao século XV. Eles vivem relativamente pouco influenciados pela civilização moderna e ainda mantêm muitas das suas tradições. Por exemplo, a dieta da tribo Masai normalmente consiste em leite, carne e sangue, uma vez que eles têm sido uma tribo pastoral. Uma visita a uma aldeia Masai permite vislumbrar o seu estilo de vida único sendo um dos destaques de qualquer safari no Quénia. Esta promete ser uma experiência educacional. Eis o que você precisa saber:
A maioria das tribos Masai ainda pratica o seu modo de vida habitual como pastores, com seus animais no centro da sua cultura e vida social. Eles recebem com orgulho os visitantes nas suas aldeias, geralmente com música e dança, das quais você pode até participar! Você será recebido com rostos sorridentes e música animada, enquanto os homens Masai se vestem com sarongues tradicionais e as mulheres colocam colares e envolventes em torno do seu pescoço.
Como parte do show, eles costumam fazer o adumu, uma “dança de salto” que vê vários dançarinos pulando vários metros de altura no ar. Eles formam então um círculo com o dançarino do salto no centro levitando cada vez mais alto aos ritmos dos cantores. Quanto maior o salto, mais altos os cantores aumentarão o tom das suas vozes. O visitante é geralmente convidado a participar do círculo para tentar saltar junto com eles, o que aumenta a diversão da visita.
A tradicional aldeia Masai é chamada de Manyatta, consiste em várias pequenas cabanas (gomas) feitas de barro, cinzas e esterco de vaca. Essas cabanas são então cobertas com telhados de colmo e construídas dentro de um amplo círculo de paus de madeira para que o gado fique protegido de predadores como leões e cheetas. Os moradores também erguem grossas cercas espinhosas ao redor das cabanas como uma proteção adicional.
Curiosamente, são as mulheres massai que constroem essas moradias robustas, enquanto os homens lhes fornecem os materiais necessários. As dimensões das cabanas variam, mas o tamanho médio de cada boma é cerca de 3 x 5 metros e apenas 1,5 metros de altura. É certamente um estilo de vida muito diferente, pois toda a família cozinha, come, dorme e socializa dentro desta modesta estrutura.
Uma das primeiras coisas que você notará ao entrar na aldeia são as muitas cores vivas das roupas Masai. No final da sua visita, você será levado ao mercado local, onde poderá comprar essas peças de vestuário, além de colares, pulseiras e amuletos de missangas brilhantes, usados principalmente pelas mulheres que usam essas peças para expressar sua identidade e status social. Essa explosão de cores cria uma cena digna de excelentes fotos, pois estes shukas e bugigangas brilhantes contrastam fortemente com os castanhos e os verdes da paisagem. O visitante pode comprar alguns artigos para ajudar a apoiar a economia local da aldeia, aproveitando para levar para casa uma lembrança autêntica e artesanal da sua viagem.
Visitar a tribo Masai no Quénia é uma parte única da experiência de safari, especialmente quando você considera que uma região como Masai Mara recebeu o nome deles. É por isto que em muitos passeios de safari é comum encontrar um guerreiro Masai cuidando do seu gado na savana, ao lado de elefantes, girafas e zebras. Essas planícies também abrigam alguns dos predadores mais perigosos de África. Não obstante, a tribo Masai vive pacificamente ao lado desses animais selvagens há centenas de anos e até tem alguma aversão a comer de caça.”
– Olha que interessante! – exclama Susana.
– E didático também! Penso que assim sabemos melhor o que vamos encontrar.
Almoço saboreado e cumprida uma leve sesta para não perder o hábito, é chegado o momento de reunir no exterior do camp com Akin que aguarda os seus passageiros para uma jornada diferente.
-Como estão todos? Dormiram bem ou ficaram a pensar naqueles bichos do mato? -pergunta descontraidamente Akin.
Susana olha para Alfredo. O silêncio por vezes fala.
-Tudo em ordem, Akin. Vamos lá então. – responde Stephen, animado com as expectativas do programa.
Antes de avançar, Akin explica:
– Hoje vamos visitar algumas aldeias Masai e conhecer os seus costumes ancestrais.
A terra Masai possui as melhores áreas de natureza e vida selvagem da África Oriental, por isso parece um pouco estranho andar por aí na terra ancestral de alguém sem pelo menos reservar uma ou duas horas para conhecer os seus habitantes e aprender sobre suas tradições antigas.
-Totalmente de acordo. Vamos lá! – retorna Stephen entusiasmado.
O caminho em direção ao interior foi mostrando as riquezas da savana queniana. Um cenário já tão familiar para quem dedicou as últimas semanas a este enquadramento.
Aqui e ali surgem as manadas de zebras, impalas, elandes, as girafas, que são sempre o cartão postal da savana queniana, e aqui e ali uma visualização de um dos “Big five”.
Chegando ao seu destino, o grupo avista uma tradicional “Manyatta”, aldeia Masai composta de pequenas cabanas chamadas de “gomas” feitas de barro, cinzas e esterco de vaca, conforme descrito no artigo desta manhã.
Akin informa:
– As casas são edificadas em círculo com paliçadas construídas em volta. Esta aldeia em particular tem uma população de 120 pessoas. Dez famílias praticando poligamia. As tribos andam frequentemente vestidas de vermelho, munidas de lanças artesanais e sem medo do mato. Dizem que os leões temem a cor vermelha e estes masai tem uma boa reputação pela sua capacidade e coragem de enfrentar um leão sem a utilização de um rifle.
A recepção ao grupo de forasteiros recém chegado é, como sempre, calorosa. Na visão dos Masai estas visitas representam sustentabilidade através da venda de produtos artesanais.
Tempo de conhecer Keita, o filho do chefe da aldeia que recebe 1000 xelins de cada um dos recém chegados, cerca de US $ 12. Esta contribuição dá direito a ir aonde desejarem e tirar as fotos que pretenderem. O turismo queniano a funcionar.
Como nota menos agradável vê-se esterco do gado por toda parte e com isso, as moscas também.
As crianças da aldeia parecem em regra pobres, mas talvez suficientemente saudáveis para subsistir neste ambiente. Algumas estão cobertas de moscas e o ranho a escorrer do nariz. Não é uma imagem fácil de observar para quem chega. Fica a pergunta. Como aguentam isto?
Mais adiante uma vaca mexe incessantemente as orelhas e balança a cauda para conquistar um momento livre de moscas e de paz por um segundo. Como é da praxe, o grupo de forasteiros sorri com eles e Alfredo capta algumas imagens antes de Keita os chamar para o centro da aldeia.
Tempo de assistir à tradicional dança cultural Masai.
Seis mulheres são convidadas a sair de suas gomas. Elas ficam em fila e cantam com uma harmonia impressionante formando por vezes um círculo. Uma entoação tipo cerimónia de casamento.
Agora é a vez dos homens. Algumas performances vocais que são agora mais marcantes e o objetivo é ver quem consegue saltar mais alto. Eles ficam em fila ou dão um passo à frente, continuando a ver qual dos homens salta mais alto, com as mãos de lado.
O casal de jovens sul africano é convidado a participar, vivendo aqueles momentos de incapacidade própria dos caucasianos, numa tentativa de saltar o mais alto possível. Sem comparação, naturalmente.
Tudo isto é muito “déja vu” para os Masai. Mas nada impede que a prática continue! Faz parte de uma encenação destinada à sobrevivência.
Segue-se um outro momento peculiar. Os homens masai mostram as suas armas. Em regra uma lança e duas espadas artesanais. Uma tipo de adaga e outra mais longa. Os masai fazem-no com um certo orgulho guerreiro.
Ali mais adiante, os visitantes tem, talvez pela primeira vez nas suas vidas, a oportunidade de ver alguém acender uma fogueira sem uso de fósforos ou isqueiro. Com o ancestral método de friccionar varas sobre gravetos secos até produzir chama. Extraordinária imagem captada pelos presentes.
Keita exibe agora um dos seus bens mais preciosos: um chapéu feito com crina de leão.
Akin explica:
– É tradição que os rapazes saiam para o mato após a cerimónia de circuncisão pública realizada no centro da aldeia. A estadia no mato dura 5 anos com um grupo de rapazes entre os 15 e 20 anos. Os objetivos deste grupo no mato é sobreviver e matar um leão. O primeiro a atacar o leão é homenageado e recebe um chapéu com a crina deste felino.
-E os visitantes da aldeia têm a chance de usar este chapéu e tirar fotografias com ele.
Como não podia ser diferente. Em troca de uma módica soma de US $ 5.
É chegado o momento de visitar o interior das gomas.
Os visitantes tem que se curvar para passar por uma pequena entrada, talvez adequada a povos de menor porte, como os pigmeus de outras regiões do continente. Imaginar estes gigantes que saltam a passar por aqui é, no mínimo, extraordinário.
O interior fica quase escuro, apesar da luz do dia lá fora. Um ambiente tomado pelo fumo sufocante gerado por uma pequena fogueira acesa no interior. As vozes neste ambiente tem uma entoação própria.
Keita quer agora mostrar algumas peças de artesanato. Um colar, uma pulseira de cobre. Um feixe de luz penetra na sala através de um buraco por onde o fumo tem dificuldade em passar. A renovação do ar é nula e torna-se insuportável respirar. Só resta uma atitude. Sair para a rua. Como podem viver neste ambiente?
E é chegada a hora chave para esta tribo Masai. Levar os forasteiros para uma zona coberta de colmo onde está uma bancada recheada das peças artesanais, figuras africanas de madeira, de animais, máscaras, e uma variedade de artigos em cobre, trabalhos com missangas, etc.
Alfredo pergunta a Akin:
– Isto é produção local?
Akin, com uma expressão desconfiada, retorna:
– Penso que não. Na verdade, eu ficaria surpreso se fosse produzido no Quénia.
Surpresa!
Entretanto, mães e filhos seguidos pelas moscas fazem novas tentativas para levar estes forasteiros a comprar. Nenhum dos presentes está verdadeiramente interessado nesta ou naquela peça, mas todos se sentem comprometidos sem razão aparente. Será talvez pelo estado lastimável das crianças e pelo facto de respeitar as culturas que não se discutem, apenas se constatam. E por fim ajudar na subsistência precária desta tribos.
E cada um lá escolheu uma peça que os fará recordar esta experiência étnica e, ao mesmo tempo, tão insólita.
Ao sair da aldeia, Akin indica uma determinada direção anunciando:
– Quero apresentar-vos a um Masai de outra aldeia aqui perto que nos contará algo interessante.
Numa caminhada por trilhos de terra batida onde a cor predominante da argila se mantém, passam agora diante de outros Masai que vivem em casas simples de blocos de cimento, porém sólidas e com cores vivas. Aqui e ali algumas lojas onde fazem questão que o grupo entre para comprar algo. Uma nota comum. Todos se vestem em tons de vermelho.
Alfredo, algo perturbado com esta visita, faz a Akin a seguinte pergunta:
– Por favor não leve a mal o que lhe vou perguntar. Estivemos a assistir a uma sessão de folclore montado para turistas ou a ver de perto como os masai vivem ainda hoje?
Akin, com um semblante mais sério, responde:
– Eu posso acrescentar algo a isso. Muitos Masai foram deslocados para certos locais para preservar a vida selvagem e manter algumas aldeias com um traço tradicional. Tal favorece uma das maiores receitas do Quénia. O turismo. Estas são linhas traçadas pelo governo de acordo com as comunidades . Em regra os visitantes do Quénia encaram tudo isto com naturalidade, respeitando a cultura sem a questionar.
-Com certeza, nós não seremos diferentes. Entra Stephen sem hesitação, acrescentando algo mais.
– Akin, já nos conhecemos há muito tempo e sinto-me à vontade para falar consigo de um outro tema que nós ocidentais temos fortes dificuldades em entender.
– Diga, Stephen!
– Escutámos as histórias dos rituais dos jovens que são sujeitos a uma prática de circuncisão publica. Uma questão de virilidade e emancipação. Mas sabemos que a prática de excisão feminina (mutilação genital) que o mundo ocidental classifica de ritual bárbaro é frequente e deixado na clandestinidade. Há alguma razão para tal acontecer?
– Sabe, Stephen! Nestas culturas nem tudo é destinado à compreensão. Na tradição ancestral dos masai sempre se disse que esta prática era uma exigência para todas as meninas, o que as tornaria puras. Como dissemos ali atrás, a cultura não se discute, constata-se.
Susana, procurando desviar de um tema tão constrangedor, adianta-se com outra pergunta:
– Há pouco falou-se que muitos Masai foram deslocados para certas regiões para preservar a vida selvagem. Pode dizer-nos mais sobre isso?
– Sim, menina! É precisamente esse o tema da nossa próxima paragem. Vou apresentar-vos
Kamunu, um masai que integra um grupo denominado de “Guardiões dos leões”.
Durante a curta caminhada, Akin explica:
– Na verdade, a conservação começa em casa, entre as pessoas para quem a sublime e aterradora ferocidade de um leão não é um sonho. É uma realidade com que vivem diariamente os masai que habitam no Quénia e em algumas zonas fronteiriças com a Tanzânia. Desde o ano passado, um programa local, com a tal designação de “Guardiões de Leões”, recruta jovens guerreiros masai para quem a caça ao leão faz tradicionalmente parte de um rito de passagem para a vida adulta conhecido como o olamayio.
Este projeto procura torná-los protetores dos leões. Estes homens são assalariados e com uma formação em radiometria, localizando diariamente os leões e impedindo ataques contra o gado. O programa parece até aqui bem sucedido: os abates de leões diminuíram e o papel de Guardião de Leões é agora considerado prestigiante no seio das comunidades.
Chegando ao local, o grupo é apresentado a Kamunu, homem sério e ponderado de cerca de 30 anos, com um rosto escuro afunilado num queixo estreito, olhos que parecem semicerrados e orelhas furadas e alargadas com o uso de discos. Usa um vistoso colar e pulseiras de contas e um shuka vermelho envolvendo o corpo, um punhal masai embainhado num lado do cinto e um rádio no outro.
Apresentado ao grupo, este dirige-se a todos em dialeto Swahili que Akin vai traduzindo.
Kamunu comunica ter morto pessoalmente cinco leões. Todos para olamayio.
Agora, não tencionava matar mais. Aprendera que os leões podem valer mais vivos, através do dinheiro proveniente do turismo, do seu salário como Guardião de Leões, adquirindo com esse dinheiro alimentos e educação para sustento da família.
Agora este carismático masai propõe fazer um circuito a pé pela savana, sendo seguido pelo grupo de visitantes. Nesta caminhada vão serpenteando um bosque de acácias, atravessando mais adiante um leito de rio seco. Kamunu segue as pegadas de leão na poeira e o grupo vai atrás. Tendo caminhado cerca de 3 quilómetros, localizam um leão adulto solitário, cujo grande focinho permitiu que Kamunu o identificasse como um conhecido macho problemático. Quando do outro lado do vale se avista uma longa fila de vacas dirigindo-se a uma zona de água com os badalos a tocar e acompanhados por rapazes masai, Kamunu avisa-os para se manterem longe daquele leão.
Aqui houve uma demonstração de defesa do gado.
Mais adiante ele descobre um rastro diferente, muito fresco, deixado por uma fêmea com duas crias. Sob um arbusto vê-se o capim pisado no local onde os animais passaram algumas horas a descansar.
Seguindo Kamunu e com o coração apertado, percorrem os traços sinuosos da leoa e seus filhotes até um bosque de árvores que se torna mais denso à medida que avançam. Kamunu deslocava-se silenciosamente. Por fim, param. Não se vê mais nada para além de uma vegetação fechada e alguma poeira no ar. O silêncio é ensurdecedor.
Este carismático Masai informa em voz baixa:
– Eles andam por perto. Este sítio é bom. Não há gado nas proximidades. Não devemos aproximar-nos mais. Não queremos perturbá-los.
Uma atitude que teve a total concordância e o alívio de todos.
Kamunu diz:
– Eles aqui estão seguros!
Ficou aqui bem clara a percepção do quanto este guardiões zelam igualmente pela vida e conservação dos felinos. É mais do que se pode dizer em relação a muitos outros leões africanos, entregues ao seu destino.
Tempo de regressar ao ponto de partida. Algum cansaço já marca o compasso deste grupo beneficiando agora de uma gradual descida de temperatura do final deste último dia em contacto com a savana. Com a noção de ter acrescentado mais conhecimento aos seus ativos neste extraordinário país da África oriental.
Todos a bordo do Land Rover, é hora de voltar ao camp aproveitando o esplendor de um por do sol que o Quénia oferece.
Para além das centenas de gnus e zebras espalhadas pelas planícies, uma ou outra girafa e uma trupe de búfalos já nas proximidades de Oi Pejeta camp, assim se entra no perímetro desta prestigiada propriedade.
Parando à entrada do Sweet Waters Serena Camp, é hora de um caloroso agradecimento a Akin por mais esta singular experiência.
Após um merecido duche e a noção de missão cumprida, estes três forasteiros reúnem-se no Rhino Room, onde a gerência faz questão de presenteá-los com um copioso jantar de despedida. Junta-se à mesa o diretor do OI Pejeta Conservancy Camp, David Robinson e a esposa, bem como o jovem casal de sul africanos do tour da tarde. A mesa está muito bem frequentada e a animação está garantida.
O menu de jantar consta de:
Entradas:
Cogumelo castanho coberto com espinafre cremoso, queijo feta e uma ligeira nuvem de vinagre balsâmico.
Prato principal :
-Filé de Elande com Molho de Cranberry, servido com Polenta de Ervas e Feijão com caril.
+
-Peito de pato grelhado com molho de laranja, servido com arroz de cogumelos, ervas aromáticas e lentilhas com caril.
Sobremesa:
Torta Mexicana (Creme Caramelo)
Bebidas:
Tintos – Chablis 1973
Branco – Meursault 1975
Cervejas locais – três à escolhas
Sumos de uvas tropicais – preparados na hora.
Não foi necessário dizer mais quanto à uma tal degustação digna desta última refeição em ambiente de safari. A conversa é agitada e calorosa. Os vinhos desta categoria sempre ajudam a soltar os espíritos.
Stephen levanta-se e pede a palavra. Erguendo a taça de vinho, diz:
– Quero fazer um brinde especial a estes jovens que tiveram a paciência de acompanhar este quase jovem nesta aventura por terras da África oriental. Que tão bem acolheram as minhas ideias, nem sempre tranquilas ou despidas da ousadia, que há muito me acompanha. Não quero deixar ao acaso o meu reconhecimento ao grupo Serena que, ao longo desta aventura, nos proporcionou vivências que jamais esqueceremos. E uma palavra especial ao meu amigo David aqui presente, por tão boa recepção que nos ofereceu neste ambiente de excelência. A todos o meu sincero agradecimento.
Alfredo levanta-se e acompanhando as emoções do momento, adianta:
– Em meu nome e da minha querida companheira Susana, não deixaremos de valorizar esta extraordinária experiência que o Stephen nos proporcionou. Creio poder aqui evocar um hipotético desejo. Como gostaria de ter connosco aqueles aventureiros do além que nos antecederam e que por aqui passaram atrás do tempo. Arthur Logan e Donald Mackenzie. Por fim, quero reforçar o que Stephen disse ainda agora. Um grande e caloroso agradecimento ao grupo Serena e ao Ol Pejeta project, que nos trataram como se trata a realeza.
– Levamos connosco uma outra missão. Dar corpo a toda esta passagem por África conquistando um lugar de destaque na National Geographic Magazine. Tudo faremos para que tal aconteça. A todos o nosso bem hajam.
Um grande e ruidoso cheers ecoou no Rhino Room chamando a atenção dos restantes hóspedes.
Encerrando esta reunião com a degustação de uma excelente mistura de café do Quénia, é dado um próximo passo rumo ao descanso destes aventureiros por terras de África.
Naquela tenda mágica onde os sons da noite tomam o seu lugar de destaque, encontram-se dois jovens embalados pelas emoções da noite.
Ao abrigo daquele dossel e despidos de qualquer traje, as sensações corporais tomam o seu lugar deixando levar-se numa espiral de emoções. As palavras dão lugar aos gemidos de um intenso prazer. O tempo e a força da gravidade ausentam-se temporariamente.
Lá, onde esta planície não tem mais por onde espalhar a grandeza do sentir, estão dois jovens que por fim se olham, dizendo:
– Alfredo, querido! Continuas insuportável, sabias?
– Eu tento corrigir! Mas depois chega perto de mim uma diva, linda, sensual e cheirosa que me afasta dos bons caminhos. Fazer o quê?
-Que tal dar-me um daqueles beijos que me deixam doida?
A noite do Quénia foi uma vez mais igual a si própria. Serena, profunda e agradavelmente sonora.
4º Dia – regresso a Nairobi
Estas últimas horas de agradável convívio com o Sweet Waters Camp são dedicadas a um copioso pequeno almoço com as delícias oferecidas pelo grupo Serena, e aquele último mergulho nas águas cristalinas daquela apelativa piscina.
Neste ambiente favorável a uma boa prosa, este grupo de forasteiros, prestes a deixar as savanas, desenvolve um ultimo convívio com o casal de jovens Sul Africanos que voltarão à cidade do Cabo no dia seguinte.
Um período igualmente dedicado a organizar os materiais de reportagem e a arrumar as malas para um último voo no condor de Charles que virá, conforme o combinado, ao encontro dos três por volta das 15 horas.
Antes do almoço, houve espaço para uma rápida visita de agradecimento e despedida a David Robinson e desejo de votos de sucesso para o futuro.
Após um simpático e talvez um pouco nostálgico almoço no Rhino Room, segue-se aquele repouso típico dos trópicos. Uma meia hora a olhar para dentro.
À hora marcada, o condor de Charles toca naquela pista de terra batida. O sol está no pico da temperatura. Um incómodo que será prontamente resolvido com a conquista dos ares.
-Hi, Charles! Como vais? – pergunta Stephen, preparado para mais uma etapa.
-Eu cá estou, meus caros! Aposto que que já estavam com saudades minhas. Calma, gente! Ainda temos mais um voo até Nairobi.
-Saudades suas e do seu condor vamos ter, com certeza! – retorna Susana pegando a mala de viagem.
Feitos os agradecimentos junto do gerente e staff do Sweet Waters Camp, é tempo de levantar os pés do chão e voar por aí.
– All aboard? – pergunta o homem pássaro rolando sobre aquela pista de terra batida. Desta vez vamos ter um voo de menos de uma hora rumo ao sul. Vamos dizer adeus ao Monte Quénia à nossa esquerda. Vale a pena apreciar.
E assim este grupo se despede fisicamente deste solo da famosa savana queniana.
A baixa altitude e sempre com os olhos na mudança de cores entre o verde e o dourado, assim surge o Aberdare National Park do lado esquerdo.
Stephen em voz alta explica:
– Vamos percorrer a fronteira leste deste parque, localizado a cerca de 100 km ao norte de Nairóbi e se estende por uma ampla variedade de terrenos em altitudes entre 2.000 a 4.000 metros, como vamos poder ver aqui de cima.
– Existe há muito tempo este parque? – pergunta Alfredo.
Charles, que conhece bem o Quénia, responde:
– Este parque foi fundado em 1950, cobre uma área aproximada de 750 quilómetros quadrados e faz parte da Cordilheira de Aberdare.
Fazendo um ligeiro desvio para ocidente, Charles dá uma melhor perspectiva do parque aos seus passageiros.
Uma grande variedade de paisagens, desde picos de montanhas que se elevam até aos 4.000 metros, até vales profundos em forma de V, banhados de rios, deslumbrantes quedas de água e florestas de bambu. Motivos de sobra para Alfredo captar estas últimas imagens aéreas difíceis de esquecer.
– E quanto à vida selvagem desta área?
-Toda a que possamos imaginar. Abundância de água e pastos férteis. Um equação simples de entender. – responde Charles.
E não poderia ser de outra forma. Naquela região avistam-se aqui e ali elefantes dentro dos charcos, alguns búfalos e também elandes; e nas zonas mais escarpadas as aves de rapina, bem como uma variedade de herbívoros e felinos da montanha, como o chacal listrado, alguns javalis e os babuínos de pelo verde azeitona.
Não há olhos para tanta riqueza.
E o Cessna de Charles faz agora a sua aproximação à capital do Quénia.
-Well, folks! Aqui vamos para o nosso ponto de partida. Não sei se ainda se lembram qual foi.
Risada geral.
Com uma vista aérea de uma nova floresta de betão e asfalto, é feita esta última aterragem na pista secundária do aeroporto Jomo Kennyatta.
O Cessna foi, sem dúvida, um dos heróis desta aventura.
Bem vindos de volta a Nairobi!
Entrando na companhia de Charles na gare do aeroporto, é tempo de acerto de contas com o admirável homem pássaro que permitiu tantos sonhos aéreos e uma extraordinária visão do continente africano sempre com aquela agradável sensação de segurança. Alguém que Alfredo e Susana jamais esquecerão.
As despedidas são calorosas e carregadas de uma natural emoção.
-I´ll see soon, buddy! – diz Stephen abraçando calorosamente o homem pássaro.
-So long, folks! Sempre que precisarem de planar por aí, contem comigo.
Já a tarde vai caminhando para o fim de mais uma jornada.
Stephen informa:
– Vou ali falar ao telefone com aquele meu amigo que nos recebeu quando chegámos a Nairobi. Talvez ele possa enviar o motorista para nos vir buscar aqui.
– E ele está por cá desta vez? – pergunta Alfredo.
– Sim! Vocês vão conhecê-lo e à sua simpática esposa. Uns jovens da minha idade.
Resolvido o tema transporte, é tempo de aguardar a chegada do motorista no exterior do aeroporto.
Um novo circuito citadino é oferecido a estes forasteiros da savana. Não haja dúvidas. Este é o regresso à civilização.
O sol já se deita no horizonte, dando a este percurso um especial espectro luminoso rodando por vielas e avenidas bem arborizadas.
Nairobi é, conforme sentido na última passagem por cá, uma cidade à parte. Uma pérola do Quénia.
À chegada aquela mansão vitoriana onde ficaram excelentemente alojados quando esta aventura africana começou, ali os aguardavam os anfitriões.
Stephen, saudando calorosamente o casal que já conhece há muito, trata de apresentar os jovens com quem viveu esta aventura africana.
-Deixem-me apresentar-vos Alfredo e Susana. Meus jovens, aqui estão os nosso anfitriões Henry e Julianne.
Um casal de ingleses ambos com mais de 70 anos de idade, residentes há 40 anos no Quénia, onde gozam da sua aposentadoria nesta soberba mansão. Henry, um britânico alto de cabelo grisalho e portador de uma cuidada postura, foi durante muitos anos um alto funcionário da administração do Quénia.
Julianne é senhora de belíssimos olhos azuis e muito bem vestida com um figurino a condizer com a moda clássica dos anos 70.
A recepção é calorosa deixando os recém chegados sentirem-se em casa.
Desta vez, Alfredo e Susana vão partilhar o mesmo quarto e Stephen ocupará outro dos vários quartos destinados às visitas.
Com uma passagem por uma duche reparador, é chegada a hora de saborear um drink na sala de estar, partilhar uma interessante troca de impressões e conhecer o percurso de uns e outros.
O jantar servido na sala ali perto, com o requinte que Julianne gosta de oferecer aos seus convidados, foi do agrado geral saboreando uma gastronomia caseira acompanhada de vinhos à altura de verdadeiros apreciadores.
O café não deixou a desejar, acompanhado por um Glefidish e um Cherry que falam por si.
Stephen informa:
– Meus jovens. Amanhã temos que visitar a minha habitual agência de viagens aqui em Nairobi para confirmar as passagens que foram reservadas pelo funcionário do Kilaguni Serena lodge.
– Com certeza! Vamos lá! – confirma Alfredo
– E amanhã falaremos igualmente de algumas voltas a dar localmente. Ainda há alguns resíduos na caixa de surpresas.
Um sorriso malandro foi a resposta de Susana a mais esta provocação de Stephen.
Que melhor ambiente para estender uma agradável conversa por mais um par de horas.
Um dia perfeito que agora pede uma outra posição corporal. A horizontal.
Deixaram de se escutar aqueles sons bem típicos dos Safari lodge.
Aqui é Nairobi, muchachos! Boa noite!
2º Dia em Nairobi
Com uma boa disposição e espírito relaxado, estes forasteiros são convidados por Julianne para saborear aquele tradicional english breakfast. Ambiente descontraído em que novas perspectivas se abrem.
Susana, curiosa por natureza, pergunta:
-Stephen, além daquela passagem pela agência ontem, compreendi que a sua caixa de surpresas tinha lá no fundo umas surpresinhas.
Stephen, que aprecia estas pequenas provocações por parte da jovem portuguesa, responde:
– Susana, Susaninha! Nada lhe escapa, certo? Vamos lá então. Temos dois dias pela frente até regressarmos a casa. Penso que será uma boa ideia visitar a casa de Karen Blixton, uma escritora dinamarquesa que deixou a sua marca no Quénia. Fica a uns 10 quilómetros de Nairobi. Visto que não temos compromissos, sugiro uma visita ao Nairobi National Museum cujo diretor é um amigo da casa. Certo, Henry?
– Claro! Quando forem, irei acompanhar-vos. – responde o anfitrião.
– Muito bem! Como sempre, seguiremos a corrente. – retorna Alfredo descontraído.
A parte da manhã foi preenchida pela passagem obrigatória pela agência de viagens. Com a preciosa ajuda dos anfitriões que colocam à disposição o motorista da casa.
Nesta agência são confirmadas as passagens aéreas de regresso ao velho continente.
Stephen partirá a bordo da British Arways para Londres e Alfredo e Susana irão na KLM para Lisboa, com escala em Amsterdão.
Susana, que já tem algumas preocupações familiares a assaltar-lhe o espírito, sugere:
– Podemos aproveitar esta volta pela cidade para passar no Posto dos Correios? Gostaria de dar uma palavra à família pelo telefone.
Stephen, com uma expressão de total concordância, responde:
– Excelente ideia. Aproveito para contactar os meus em Londres também.
Alfredo, não querendo ficar fora desta iniciativa, adianta:
– Para mim será um pouco mais longe. Brisbane. Mas está na hora de falar com a minha tribo também.
Assim cumprida esta tarefa em que cada um deu aos mais chegados as últimas desta aventura e as datas de regresso a casa, Stephen sugere uma passagem para almoço num lugar icónico da capital. O restaurante Tamambo.
A decoração é de tirar o fôlego. Uma espécie de grande estrutura com uma decoração bem africana que compreende três zonas à escolha: uma grande sala coberta com uma marquise, uma grande tenda árabe e a sala de jantar interna. A escolha dos recém chegados foi naquela soberba tenda das mil e uma noites.
No cardápio pode ler-se a seguinte publicidade:
“Casa fundada primeiramente em Mombaça, em 1972 pelo grupo Tamarind, detentor de restaurantes e operações de lazer mais bem sucedidos de toda a África. A nossa missão é continuamente melhorar a qualidade e valor dos nossos serviços.
O Tamarind é merecedor de vários prémios alcançados ao longo dos anos, mantendo padrões de comida e serviço que estão entre ao melhores do mundo.”
– Vaidade não lhes falta! – pensou Susana.
A variedade gastronómica é impressionante e não foi fácil a escolha de tamanha oferta.
A bem da verdade, duas horas se passaram em amena conversa onde o regresso à Europa vai sendo um tema mais presente. Para ser gradualmente digerido por todos.
As perspectivas destes jovens quanto à elaboração e entrega da matéria de reportagem ao longo deste mês em África à National Geographic Magazine, deixaram a Stephen a agradável sensação de um bom desfecho.
O restante tempo deste segundo dia na capital do Quénia foi dedicado a algum descanso, a organizar as últimas matérias de reportagem e usufruir das riquezas da biblioteca que Henry colocou à disposição dos visitantes.
A noite foi tranquila e sem contrariedades.
3º Dia em Nairobi
Pela manhã, enquanto tomam o tradicional breakfast, Henry adianta-se com o plano do dia.
– Creio que se mantém o programa de visitas que ontem abordamos, certo?
– Exato! – confirma Stephen.
– Ótimo, porque eu e Julianne estamos na disposição de partilhar esta jornada, se não for incómodo para vocês.
-Será antes um prazer. Ter cicerones desta categoria em Nairobi é um luxo. – retorna Stephen sorridente.
A concordância é geral.
-Excelente, vamos então visitar a casa de Keren Blixton na parte da manhã. Aqui vos deixo este artigo que vos dará uma perspectiva da vida e obra desta senhora.
Olhando agora para Stephen, Henry sugere:
– A seguir, uma vez que estaremos ali perto, sugiro uma passagem pelo Karen Country Club para tomar uns snacks e uma cup of tea. Que vos parece?
– Excelente, Henry. E quanto a nossa visita ao Museu?
– Já falei com o diretor anunciando a nossa visita esta tarde.
– E quem é agora o diretor? – quer saber Stephen.
– O mesmo Richard Leakey que creio teres conhecido aqui em Nairobi.
-Creio ter cruzado com ele em alguma parte. Mas vamos lá sim. Certamente estes dois jovens vão apreciar aquela pérola do Quénia.
Antes de sair, Alfredo leu em voz alta para Susana o tal artigo simpaticamente fornecido por Henry.
“Karen Dinesen, por casamento Blixen, conhecida mundialmente por Karen Blixen, nasceu em Rungstedlund (Dinamarca), no seio de uma família aristocrata e rica, em 1885. A mãe foi a primeira norueguesa eleita para o Parlamento. Aos 10 anos o pai de Karen, militar, escritor e desportista, suicida-se provavelmente na sequência de ter contraído a sífilis, uma doença quase tão grave como hoje o cancro. Karen teve uma educação primorosa, ligada às artes, e aos 22 anos começa a publicar pequenas histórias. Sabe-se que Karen teve irmãs, que com ela estudaram francês, na Suiça. Aos 28 anos casa com o Barão Bror von Blixen-Finecke e partem para África, onde Karen vai gerir uma plantação de café perto de Nairobi. Com o início da Grande Guerra, em 1914, aquela parte de África ficou sob domínio da Grã-Bretanha. Em 1915, Karen regressa à Dinamarca para se tratar da sífilis, contraída pelo contacto com o marido. O homem da sua vida, Denys Finch Hatton (1887 – 1931), conheceu-o aos 30 anos. Em 1925, Karen está divorciada do marido e vai viver um ano na sua casa da Dinamarca. Embora tenha redigido esporadicamente para jornais dinamarqueses, foi com “Gotic Tales” (1934), que escreveu em inglês sob o pseudónimo de Isak Dinesen, que realmente iniciou a sua carreira literária. O interesse de Karen por África começou meramente pelo gosto dos safaris, desporto da moda, para gente rica, durante o século XIX e parte do séc. XX, quando as mentalidades achavam normal matar animais por prazer e fretar africanos para lhe fazer todos os trabalhos que os brancos, como colonos, não faziam. Quando Karen publica, em 1938, o seu mais conhecido romance “Out of Africa” é já uma mulher com larga experiência de convívio com africanos. Um livro autobiográfico. Muitos dos seus livros posteriores foram publicados simultaneamente em inglês e em dinamarquês. Ehrengarda, a Ninfa do Lago (1963), foi publicado no ano seguinte à morte de Karen Blixen, ocorrida em 1962.
Uma das suas frases mais marcantes foi:
“Há algo na vida de safari que nos faz esquecer todas as tristezas e sentir como se tivesse bebido meia garrafa de champanhe – borbulhando com a gratidão sincera por estar vivo. Karen Blixen.”
Estando os cinco a bordo, Henry dispensou o seu motorista de modo a haver mais espaço para este circuito.
O trajecto no confortável e espaçoso automóvel do casal de anfitriões faz-se com um especial entusiasmo, dado que estes ingleses são profundos conhecedores desta cidade. Em cada canto, em cada bairro uma história. Um livro aberto.
Já fora da cidade e percorridos cerca de 10 km, chegam à lendária casa que pertenceu a Karen e ao Barão Bror von Blixen-Finecke. Uma casa típica das grandes propriedades de cultivo de café da era colonial do Quénia. Aqui está um imóvel que transpira histórias e que guarda muitos dos enredos tão bem descritos pela autora sobre os anos que passou no Quénia.
– A casa é visitável? – pergunta Alfredo já no exterior e com a curiosidade de poder captar mais algumas imagens dignas desta reportagem africana.
Julianne, fiel admiradora de Karen Blixton, responde:
– Com a sua morte, a casa foi vendida a uma empresa dinamarquesa, atual detentora da propriedade. Infelizmente, não é visitável. Ela detém um grande espólio dos anteriores proprietários. Há atualmente alguns contactos e esforços do governo queniano para a adquirir e a transformar em museu. Há esperança de que tal venha a acontecer em breve.
Alfredo aproveitou para captar da melhor forma esta casa carregada de histórias.
Conforme sugerido por Henry, o grupo desloca-se agora para um dos mais antigos Clubes do Quénia, que comporta o nome da famosa escritora dinamarquesa. Karen Country Club.
Este icónico clube, fundado em 1937, é um dos mais antigos clubes privados do Quénia.
Com uma oferta gastronómica e serviços de eleição, esta instituição tem cinco diferentes áreas de alimentação em função dos desejos variados dos seus clientes.
Por sugestão de Henry, a escolha foi o Restaurante Bustani & Garden com vista para um magnífico campo de golfe. O restaurante apresenta uma seleção de menu diversificada e um café-bar. Este é o ambiente casual perfeito para este grupo relaxar e aqui passar este período do dia, embalado por uma refeição ligeira e uma prosa que tem muito para dar.
Cumprido este capítulo onde não houve desta vez lugar à tal sesta, é tempo de rumar à cidade e dar ao conhecimento o especial prazer de conhecer uma das pérolas de Nairobi. O National Museum of Kenya.
Este edifício é um dos icónes da capital, edificado com uma fachada em tons claros com um conjunto de quatro imponentes colunas e uma grande porta em madeira. O exterior está muito bem cuidado exibindo jardins exuberantes.
Já presentes no local e entrando pela lateral do sumptuoso edifício destinada à secretaria e administração, é chegada a hora de assinalar a uma simpática funcionária queniana que um encontro foi marcado com Richard Leakey, o diretor.
Richard é um cavalheiro bem disposto de cabelo aparado e bigode arruivados na casa dos seus 65 anos. Impecavelmente vestido com umas calças em tyrilene bem vincadas, uma camisa a condizer e uns suspensórios que completam o seu estilo classic british.
– Hi, Henry! – exclama calorosamente este anfitrião.
-Richard! Faz tempo, meu caro. Como vais? Apresento-te Julianne, a minha esposa de quem seguramente te lembrarás, aqui um velho amigo Stephen e os jovens Alfredo e Susana.
– Sintam-se em casa. Posso pedir um café ou um cup of tea? – pergunta Richard, convidando os visitantes para uma confortável sala ao lado.
-Será um prazer! – responde Henry, procurando o acordo dos presentes.
E Richard prossegue:
– Faz algum tempo que não passamos por cá! Aqui o jovem Alfredo, que é antropólogo e a Susana, que é socióloga. Eles vieram fazer um grande roteiro pela África oriental na companhia de Stephen, um habitué destas andanças. Pensei que uma passagem neste local seria uma ótima forma de encerrar esta aventura. Eles regressam amanhã à Europa.
– Pois tiveram uma excelente ideia! – retorna Richard, recebendo uma funcionária que traz os cafés, chás e uns cookies para melhor entreter a conversa. Vou talvez começar por vos dar uma visão sobre esta nossa instituição:
– A história desta casa remonta a 1910, quando um museu foi estabelecido em Nairóbi pela então Sociedade de História Natural da África Oriental e Uganda, atualmente a Sociedade de História Natural da África Oriental. O grupo era essencialmente composto de colonos naturalistas que precisavam de um local para manter e preservar suas coleções de vários espécimes. Seu primeiro local foi na atual Nyayo House. O lugar logo se tornou pequeno e um edifício maior foi construído em 1922, onde atualmente está o Nairobi Serena Hotel.
– Curioso! – exclama Stephen. Sou há muito um utilizador do Serena de Nairobi e não sabia deste facto.
Richard, sorrindo, prossegue:
– Em 1929, o governo colonial reservou terras na Colina dos Museus e as obras começaram no local atual. Foi inaugurado oficialmente em 1930 e recebeu o nome de Coryndon Museum em homenagem a Sir Robert Coryndon, ex-governador do Quénia e um firme apoiador da Sociedade de História Natural de Uganda. Na conquista da independência em 1963, foi renomeada para National Museum of Kenya. A partir de então, expandiu seus serviços e ativos para incluir Museus Regionais e adquiriu sob sua jurisdição monumentos que o Governo reservou como acervo do património nacional. Cada um dos museus regionais tem a sua própria identidade e desenvolve os seus próprios programas.
– E qual a filosofia deste museu? – indaga Alfredo.
– O Museu tem como objetivo interpretar a rica herança do Quénia e oferecer uma oportunidade para os visitantes captarem a rica herança do país, tanto em educação quanto em lazer. Além do museu, os visitantes são tratados com uma variedade de lojas e restaurantes, além de jardins botânicos que oferecem um ambiente sereno.
– Muito bem! – exclama Susana, tomando mais um trago do excelente café.
– O que sugiro agora é uma visita em que terei o prazer de vos guiar.
– Será para nós um privilégio. – retorna Julianne.
E a visita de conhecimento começa no piso térreo.
Richard vai informando:
– Como vocês podem ver, neste vasto hall de entrada demos prioridade a uma grande exposição do mundo animal. Animais emlanchamados segundo as melhores práticas.
A visão deste sector é, sem dúvida, impressionante. Estão aqui animais de grande porte desde um elefante e ao lado uma carcaça de outro grande exemplar, uma girafa, um búfalo, uma zebra e uma impala.
Alfredo, cuidadoso, pergunta se pode fotografar.
– Sim! Apenas lhe peço que não use o flash. – responde Richard delicadamente.
– Aqui no piso térreo temos um sector que interessará particularmente ao jovem antropólogo. O Quénia tem o maior número de restos humanos fósseis, aprox. 1000 indivíduos, do que qualquer outro país da África. Restos humanos mais antigos desde os 7 milhões de anos de idade, provenientes de Turgen Hills, Baringo.
Circundando este mesmo piso, várias vitrines estão à disposição de quem visita.
Iniciando a passagem por este sector, o diretor prossegue:
– Alguns dos esqueletos mais completos, por exemplo, aqui o Turkana Boy tem 1,6 milhão de anos, que forneceu uma grande riqueza de informações sobre a fisiologia humana, mais do que em qualquer lugar do mundo. Como é sabido, o Quénia possui muitos locais de primatas, principalmente no oeste do país. Esses macacos são, segundo Darwin e outros naturalistas, os ancestrais dos primeiros seres humanos, sendo o Quénia o provável local onde terão ocorrido os primeiros processos de transição. Não deixarei de dizer que o Quénia tem o registo mais longo e mais completo desta evolução humana.
– E quanto a achados arqueológicos? – indaga Stephen curioso.
– Há uma enorme coleção em relação aos achados da pré-história. Vamos a esta outra secção ver o que temos. Na verdade, está aqui a maior coleção de fósseis relacionados a seres humanos do mundo. Esta coleção está bem documentada. Não são apenas todas as espécies de hominídeos representadas, mas também algumas outras espécies de fauna e flora que se relacionam com a teoria da evolução, por exemplo, elefantes, girafas, crocodilos e até mesmo os dinossauros de épocas mais remotas. Além do registo fóssil, há um longo histórico de evolução tecnológica, como ferramentas de 2,3 milhões de anos.
– É realmente espantoso! – exclama Julianne.
Continuando a visita para outras salas, o diretor prossegue:
– Existe uma ampla representação ambiental em locais abertos e fechados, relativos à evidência de fósseis e ferramentas . Cada região do Quénia tem uma história para contar em relação à história da origem humana. Ambientes variados que podem ter sido fundamentais na evolução de seres humanos e de outras espécies. Existe uma ampla representação genética entre alguns integrantes dos Turkana, apontando para o facto de que os humanos estão aqui há muito tempo.
– E quanto à distribuição para outras regiões do planeta? – indaga Alfredo
– Temos indicadores fortes de uma conexão feita com o Extremo Oriente através do Mar Vermelho, por onde se acredita que os seres humanos se tenham dispersado para outras regiões do mundo.
– E, segundo os dados que temos hoje, é possível determinar a data dos primeiros estudos? – quer saber Alfredo.
– Existem evidências de outros fatores relacionados com a evolução dos seres humanos. A descoberta do fogo, por exemplo. Acredita-se que a humanidade produziu fogo há cerca 1,8 milhões de anos. O estudo da evolução humana começou no início do século XX e continua presente. Possuímos no Quénia cerca de vinte locais do Mioceno, 23 milhões de anos atrás, enquanto a Etiópia possui apenas dois, no momento.
Passando agora para o primeiro piso do museu, através de escadas em formato de espiral, uma de cada lado do salão, Richard conduz o grupo para uma outra atração.
Num circuito oval o museu faz aqui uma homenagem aos heróis do Quénia. Uma exposição de desenhos intitulada de Shujaa Stories. Shujaa é o termo swaíli para designar heróis.
Richard informa:
– Nesta exposição houve um critério de escolha de heróis e heroínas pré-coloniais porque sentimos que eles foram ignorados e esquecidos no passado recente. Destacam-se lendas como o guerreiro Lwanda Magere, que se acreditava ter força sobre-humana, e o líder mágico Gor Mahia, ambos da comunidade Luo, no sudoeste do Quénia. Os irmãos Maasai Senteu e Batian também são apresentados não apenas por sua bravura, mas pela luta pelo poder para suceder seu lendário pai, o chefe Mbatian.
– Que interessante! – diz Susana. E estas guerreiras aqui à frente?
– Estas são as heroínas Mekatilili wa Menza, líder antes da independência da comunidade Giriama da costa, e Wangu wa Makeri, a única mulher kikuyu nomeada chefe do governo colonial.
Mais um lote de fotografias para o já longo espólio de Alfredo.
Para conclusão da interessante visita, Richard conduz o grupo para o lado oposto.
Aqui o museu dá uma grande visibilidade às descobertas de um cemitério monumental construído pelos primeiros pastores da África Oriental, perto do Lago Turkana.
Richard explica:
– Os arqueólogos há muito procuram as origens da arquitetura monumental entre sociedades que estavam a tornar-se populosas, sedentárias e territoriais. Na África subsariana os pastores foram os pioneiros na construção monumental. O primeiro local monumental da África Oriental foi construído pelos primeiros pastores da região, entre 5.000 e 4.300 anos atrás, quando o Período Húmido Africano terminou e a costa do lago Turkana recuou. A zona norte era um cemitério comunitário enorme, com pilares megalíticos, círculos de pedra, montes de pedras e uma plataforma montada que acomodava centenas de enterros. Esta cavidade mortuária abrigava indivíduos de idades e sexos diferenciados e com diversos adornos. Conseguimos aqui reunir esta quantidade de elementos que resultaram desta expedição arqueológica.
– Simplesmente magnífico! – retorna Alfredo impressionado com a riqueza histórica ali concentrada.
Concluídos estes noventa minutos de conhecimento que ultrapassaram as expectativas de quem aqui passa pela primeira vez, é tempo de calorosamente agradecer o diretor desta instituição de excelência.
– Dear Richard! Creio poder falar em nome de todos. Tens aqui uma magnífica obra que muito orgulha o Quénia e todos que contribuem para esta mostra de excelência. Parabéns, buddy!
Palavras partilhadas por todos que deixam exteriorizar as boas emoções aqui sentidas.
Richard, agradecido, retorna:
– Este país faz parte da nossa alma curiosa. Esta casa é o reflexo dos nossos esforços. Para os que vão viajar, votos de um excelente regresso a casa e um até sempre. Bem hajam!
O final da tarde foi passado naquela mansão que deixará saudades a estes jovens pelos dias bem agradáveis vividos ali.
Depois de um bom duche e um drink na sala de estar, Stephen tira mais um coelho da cartola.
– Meus caros! Voltaremos amanhã ao velho continente. Correção, depois de ver o que temos visto em África, aquele é o segundo velho continente.
Risada.
– E que tal fechar este nosso ciclo com um jantar no Muthaiga Country Club?
Julianne olha para o marido dizendo:
– Já não vamos lá há um tempo. Parece-me uma excelente ideia, Stephen.
Por sua parte, Susana retorna.
– Deixe-me adivinhar, Stephen. A caixa de surpresas agora é que ficou vazia!
– Tenho a certeza que ela vai na sua memória, não é, garota? – retorna Stephen algo emocionado.
– Adorei todas as surpresas que saíram dela. Mesmo aquelas em que eu queria gritar e a voz não saía.
Nova risada.
– Iremos, com certeza! O Muthaiga é um lugar que já conhecemos e me parece bem, à altura desta nossa última reunião à mesa por terras do Quénia, com pessoas desta qualidade. Com todo o prazer! – responde Alfredo.
O convite é de Stephen, membro há muitos anos deste distinto clube com traço puramente colonial nos arredores de Nairobi. Longe da agitação urbana, Muthaiga é uma elegante casa de campo, dotada de restaurantes de excelência e uma área de piscina que, com a iluminação noturna, oferece a quem chega um valor acrescentado. Aquele ambiente que Alfredo e Susana puderam confirmar na sua chegada a Nairobi. Desta vez é à noite, o que dá a este lugar um charme especial.
Numa sala de jantar com aquela decoração em estilo requintado, os recém chegados sentam-se na mesa reservada por Stephen, antes de sair de casa.
O cardápio é diversificado com escolhas de várias entradas, entre um consomé de ervilhas, abobrinha recheada com linguiça e queijo, ou camarão empanado com coco. Os pratos principais variando entre carnes grelhadas ou estufadas, peixes grelhados ou cozidos e frutos do mar, acompanhados de batatas salteadas, arroz de cogumelos, legumes estufados ou fritas e molho tártaro.
As sobremesas são igualmente variadas com uma excelente oferta de delicias com base em sorvetes italianos, frutos secos e toppings de groselha ou chocolate líquido, pavé de pêssego e gelatina de abacaxi.
Quanto aos vinhos, as variações são igualmente convidativas entre as seleções de Bourgogne e Marseille, os Chianti italiano e o português Marquês de Marialva.
Nas cervejas o serviço Muthaiga não deixa a desejar com a sua seleção de cervejas locais, alemãs ou holandesas.
Feitas as escolhas, entra no círculo uma prosa animada onde os temas principais são as vivências do dia, o resumo desta aventura africana e muito naturalmente os projetos para o futuro.
Como parte de uma celebração em fim de linha, o toast final foi feito com aquele extraordinário vinho português Marquês de Marialva.
Cinco taças deste néctar se juntaram no centro desta requintada mesa com os melhores votos e desejos de saúde e prosperidade.
Esta simpática reunião gastronómica deixa aos que partem aquela emoção especial que sempre assalta os espíritos de quem vai partir. A vontade de um dia voltar.
No regresso a casa, a noite de Nairobi combina uma lua em quarto crescente com o encantamento de um céu estrelado nesta cidade junto ao equador.
É com a noção de missão cumprida que Alfredo e Susana encostam o corpo naquela cama real.
– Minha querida! Quando chegamos a Nairobi, há um mês, não era previsível tudo o que esta terra abençoada nos ofereceu, pois não?
– Impossível, sobretudo com aquela cartola mágica do Stephen.
– Vamos sentir falta deste escocês, não vamos?
– Não quero pensar nisso! – responde a doce Susana encostando a cabeça ao ombro do seu companheiro.
A um beijo sentido juntam-se as emoções que são muitas. Mas, uma vez mais, os espíritos cansados encontram o caminho do limbo e suavemente embalados na respiração, deixam o sonho comandar a noite.
19 de setembro de 1975 – regresso à Europa
A partida para o aeroporto de Nairobi faz-se às primeiras horas deste novo dia. O sol no exterior anuncia mais um dia tropical junto aos ventiladores.
A toma de um quick breakfast é um momento de partilha de emoções onde estes visitantes se despedem calorosamente do casal que os recebeu com uma excelência que viverá nos seus corações.
A caminho do aeroporto Jomo Kennyatta, alguma nostalgia acompanha o olhar destas três almas que apreciam uma vez mais esta cidade arborizada de onde levam uma ótima impressão.
O desejo de um dia voltar não se diz. Sente-se.
No átrio do aeroporto e feitas as tarefas de check-in e despachadas as bagagens, dirigem-se para o habitual controle policial e acesso à zona de embarque.
Olhando para as informações de voos, é agora sabido que Stephen embarcará pouco antes dos jovens portugueses com destino a Lisboa.
É chegado aquele momento em que as lágrimas, embora tímidas, retratam bem os laços consolidados com este tão especial escocês ao longo deste mês de sonho por terras de África.
Emocionado, Stephen diz:
– Meus caros! Eu, quando desenhei esta nossa aventura, tinha um voz que me dizia que o casting era perfeito. Acho que acertei. Vocês são uma equipa extraordinária. Não quero de forma alguma deixar que o tempo e a distancia nos tirem este contacto que é um privilégio. E me desculpem por alguma safadeza, aqui e ali.
Susana emocionada e com o olhar encharcado, abraça calorosamente Stephen, respondendo:
– Está mais que desculpado. Mas algo eu não vou conseguir fazer.
– O que será? – quer saber este escocês igualmente emocionado.
-Tirá-lo deste meu coração, Stephen! Sinto-me uma privilegiada por o ter cruzado nesta vida. E um novo abraço confirma este sentido momento.
Com as emoções igualmente ao rubro, Alfredo dá um forte abraço em Stephen.
– Como a Susana diz e eu reforço. O nosso canal estará aberto para isto e tudo o que a vida nos oferecer. O nosso primeiro encontro em casa dos meus pais em Brisbane foi uma conjugação de astros que produziu este efeito de pura magia. Bem haja, meu caro. Vamos trabalhar a fundo nesta reportagem para a National e estaremos naturalmente em contacto com as notícias.
O medo de ir embora é um desafio que habita na natureza humana. Um último aceno antes de Stephen embarcar é a confirmação do quanto a vida é preciosa quando se vive com esta intensidade. Até sempre, Stephen.
Passada menos de uma hora, numa porta mais adiante, é dado o embarque para o voo da KLM com destino a Amsterdão.
Alfredo e Susana sentados de mãos dadas naquelas confortáveis poltronas em tons de azul, olhos escondidos atrás dos óculos de sol, observam o exterior enquanto aquele pássaro de metal se posiciona na pista principal. As emoções são tantas que não cabem nas palavras.
Adeus Quénia. O sonho comanda a vida. Até um dia!
Este regresso à Europa tem um sabor de alguma estranheza. Esta passagem africana foi transcendente e transformadora.
Alfredo e Susana tem pela frente um novo desafio baseado numa certeza firme. Querem construir uma vida juntos.
No horizonte próximo Susana ficará em casa dos pais e Alfredo em casa do tio Manuel.
Os primeiros dias as histórias a partilhar com a família são tantas que as horas perdem aquela sequencia habitual.
O pai de Susana, contrariamente ao que se poderia esperar, adaptou-se relativamente bem à sua condição clínica, o que não deixa de ser uma luz que brilha no coração de Susana e da sua mãe.
Há no entanto uma tarefa que leva agora estes dois jovens para uma missão tirânica. A reorganização cronológica de todos os elementos colhidos ao longo da epopeia africana. Um grande objetivo paira no seu espírito. Entregar, segundo os seus parâmetros de qualidade, os conteúdos desta reportagem à National Geographic Magazine em Londres. Dedos cruzados, concentração máxima e vamos a isto.
À semelhança da última maratona para a entrega da reportagem do Brasil, as semanas seguintes são de pouco sono, alimentação desregulada e alguma ansiedade. Mas com uma grande diferença. Desta vez o desafio é feito a dois.
No dia 7 de outubro, Alfredo está novamente no ar a caminho de Londres. Objetivo: A entrega em mão no Hillgate Studios da National Geographic Magazine da proposta para publicação da recente aventura africana.
Missão cumprida, mesmo sabendo que desta vez não há vínculo contratual com esta instituição. Resta agora esperar pacientemente pela resposta da equipa de edição.
Passam-se semanas de alguma ansiedade. Em Portugal a vida retoma o seu curso.
Susana estabelece conversações com a Universidade Católica de Lisboa no sentido de uma colaboração como professora na área de sociologia. Os sinais parecem promissores.
Alfredo explora as suas relações com associações de antropologia em Inglaterra e Austrália. Não há até aqui muito a acrescentar. Como diziam em Moçambique e Angola. A luta continua.
Mas eis que, numa certa manhã, chega a casa do tio Manuel um correio da National que Alfredo abre ansiosamente.
Esta carta anuncia o interesse da revista em publicar o artigo africano, mas sugere algumas alterações em partes pontuais do conteúdo.
Motivo de sobra para estes jovens uma vez mais se fecharem dentro de portas tendo em vista o objetivo proposto pela revista.
O novo modelo é enviado de volta à National, passados quatro dias. É novamente necessário aguardar os resultados sabendo que alguma luz já iluminava o fundo do túnel.
Passados 2 meses e já perto das festas do fim do ano, Alfredo recebe uma carta de Londres com notícias que o enchem de alegria e excitação. Corre então para o telefone a fim de dar a notícia à sua companheira.
– Susana, minha querida!
– Sim, Alfredo! O que se passa? Viste algum bicho?
– A National vai incluir a nossa reportagem na edição de janeiro do ano que vem. – exclama Alfredo com a excitação ao rubro.
– YUPIIIII! – retorna Susana aos saltos de alegria. Temos que comemorar, querido!
– Com certeza. E sabes a quem vou comunicar esta boa nova ainda hoje?
– Sei, meu amor! Ao nosso escocês das estradas poeirentas. Faz isso, Alfredo. Ele bem merece.
O que tem que ser, tem muita força e quando Stephen levanta o auscultador do telefone na sua casa de Kensington, em Londres e recebe esta novidade, o universo enche o céu de estrelas. O seu feeling estava certo em relação a estes jovens aventureiros. A sua alegria não tem tamanho e o coração está aos saltos.
Já podia comunicar ao grupo Serena Hotels, aos seus amigos do Lago Tanganica, a Jane Goodall, a David Robinson do projeto Ol Pejeta, um exemplar da famosa revista com a merecida publicidade que largamente fizeram por merecer. E aos seus anfitriões em Nairobi que tão bem os receberam.
Naquela noite o fog de Londres dissipou-se dando lugar ao espetáculo das decorações de Natal que invadem a cidade neste período do ano.




























































































































































































































































































































































