ESPÍRITO SHONA
África austral – região do Grande Zimbabwe.
Corre o ano de 1867. Nesta grande região austral do continente negro emerge a Febre do ouro despertando a cobiça da era vitoriana sob a batuta da rainha de ferro, proclamando a ocupação e controlo da região. Anos mais tarde, em 1895, pela mão hábil de Cecil Rhodes é constituída a denominada Rodésia do Sul, resistindo às reivindicações de Portugal que reclama os seus interesses na região.
Em Abril de 1880, com um investimento de 200 000 libras, este astuto personagem oriundo de Hertfordshire (Grã Bretanha) funda a De Beers Mining Company.
Em 1885, Cecil Rhodes já controla mais de 50% da economia de Kimberley (Maior extração de diamantes e ouro do mundo na África do sul).
A Rodésia do Sul vive a sua era de apogeu ocidental.
Highlands – Escócia
Neste mesmo período, mais precisamente em 3 de Novembro de 1870, nascia na Escócia Donald Stewart Mackenzie.
Filho pródigo de um de um casal de agricultores de Bridgeton, a sul de Glasgow, este gorducho de tez clara e olhar expressivo é o novo membro desta família do grande norte. Donald é um garoto irrequieto, muito observador e prematuro no seu desenvolvimento.
Enquanto adolescente, interessa-se por matérias de história e ciências que o levam à leitura de variados escritos para adultos e a ser o mais assíduo frequentador na biblioteca de Glasgow, de um estilo arquitetónico singular, contígua à escola de Artes da cidade.
Na primavera de 1890 e contra a oposição paternal, este jovem de 20 anos de 1,80 m, de cabelo alourado, de espírito desperto e de hábitos não alinhados, deixa a sua terra natal para se formar em antropologia na Universidade de Cambridge no Reino Unido.
Este escocês arguto e, por vezes, insondável desenvolve ao longo dos anos dentro de si um personagem à parte. Portador de uma alma errante, Donald é uma espécie de aventureiro apaixonado pela etnologia, antropologia e pelas leis da natureza, reunindo em si qualidades raras.
Com o tempo tornou-se um linguista, dominando mais de 20 idiomas e 30 dialetos, tendo sido igualmente um escritor portador de um peculiar talento, poeta, tradutor, geógrafo, antropólogo, orientalista, amante da esgrima, explorador, diplomata e agente secreto britânico.
Particularmente interessado pela influência colonial britânica em redor de um império onde o sol nunca se põe, Donald desenvolve estudos sobre determinadas regiões do globo onde procura as mais profundas origens dos povos ancestrais. Nesta constante procura, demonstra um especial interesse pela febre do ouro e pelas explorações diamantíferas que o levaram a explorar regiões no Brasil (Morro velho), tendo igualmente percorrido o rio São Francisco, passando longos períodos da sua vida em Minas Gerais e na Bahia.
Amante das noites longas e dedicando ao sono umas parcas 4 horas diárias, estudou os usos e costumes de povos asiáticos e africanos, sendo pioneiro de alguns estudos etnológicos de grande interesse. Neste âmbito, visitou regiões como a Somália e empreendeu, enquanto prospector ao serviço da coroa britânica, expedições à região dos Grandes Lagos africanos onde descobre as maravilhas do lago Tanganica.
O seu especial interesse na procura de respostas sobre os povos arborígenes da Austrália e Papua Nova Guiné levam Donald a radicar-se em Sidney (Austrália) a partir de 1907, onde conhece a sua esposa Rabecca com quem tem uma filha de nome Margareth.
Anos mais tarde, este escocês de carácter vincado e espírito irrequieto aproxima-se de um horizonte de particular interesse na região austral do continente africano. O antigo império de Mwene Mutapa.
O nome Mwene, termo bantu designando Lord, referindo especificamente um rei conquistador e Mutapa, significando as terras conquistadas.
Este foi o título que deu origem à denominação do Império de Mwene Mutapa, a que a coroa portuguesa, presente desde os anos de 1500 nesta região, denominou de Monomotapa.

Segundo a história do Grande Zimbabwe, o rei Matope de etnia Shona foi muito respeitado por sempre procurar a justiça e a verdade. Dizem alguns escritos antigos que Donald teve oportunidade de ler que este Rei possuía um anel poderoso. Diz-se que com este anel o rei podia sempre detetar a verdade mesmo por trás de palavras falsas. E, com a ajuda do poder do anel, a justiça sempre saía triunfante, aumentando o prestígio deste soberano perante o seu povo.
Estes mesmos documentos relatam que este anel teria sido forjado por artesãos de outros tempos e acompanhava os reis desde então. Era feito com ouro extraído no rio Nilo, incrustado com adornos de prata do rio Congo e cravejado de diamantes do rio Zambeze.
O anel em poder do rei representou durante muitos anos a união de várias tribos da África austral, em especial das regiões do Grande Zimbabwe (Rodesia do sul) e Mussa Al Mbique (Moçambique).

O rei Matope só tirava o anel quando tomava o seu banho cerimonial. Ele era levado pelos servos e familiares até um pequeno afluente do rio Limpopo, onde havia uma bela cachoeira e uma mata virgem em volta – com lugares perfeitos como troncos de árvore ocos, dentro dos quais o rei podia esconder o seu precioso anel. Ninguém – nem o filho do rei – sabia onde o monarca escondia o seu anel poderoso.
Acontece que um dia, depois do banho, o rei vestiu as suas roupas e procurou a sua joia no lugar secreto, mas não a encontrou. Várias questões assaltaram o seu espírito.
O anel terá sido roubado? E quem faria isso? Será que esta pessoa ganharia o seu poder e se tornaria rei? Ou derreteria o anel e venderia o ouro, prata e diamantes? Será que isto traria desgraça e separaria as tribos do reino de Mwene Mutapa? Quem possuísse o anel também começaria a possuir o seu poder? Seria, como ele, um senhor da verdade e da justiça? Mas poderia um ladrão ser justo e verdadeiro? E o povo, assim que descobrisse o seu desaparecimento, revoltaria-se-ia achando que o rei estaria fraco e não era mais justo para com o seu povo?
No seio do povo Shona diz-se que o desaparecimento deste anel trouxe sinais de mau agouro ditando, a partir de 1500, a invasão de povos estrangeiros ao império.
A paixão que desenvolve pelos mistérios ancestrais deste império e o enigma do anel real desaparecido levam Donald a percorrer múltiplos caminhos na região do Grande Zimbabwe onde descobre mais profundamente os fascínios e mistérios do povo Shona.
Aqui aprende que os Shona, anteriormente conhecidos como os Karanga, acreditam em dois tipos de espíritos – espíritos denominados de Shave Vadzimu e os espíritos que são considerados ancestrais. Também aprende que estes acreditam em espíritos bons e maus, os maus espíritos relacionados com a bruxaria, enquanto que os bons são relacionados com o bom humor, podendo inspirar talentos individuais, poderes de cura, dotes para a música ou habilidade artística. O povo Shona usa a feitiçaria e danças tradicionais para chamar os espíritos de seus antepassados, tema que interessa particularmente ao impaciente Donald.
Fort Victoria (Rodesia do sul)– Julho de 1930
Ao serviço da coroa britânica, enquanto investigador de interesses na região, este escocês de olho azul e de uma farta cabeleira e barba louras interessa-se particularmente por um enigma relacionado com o Rei Matope e os seus sucessores e, mais precisamente, com o “anel da Justiça” misteriosamente desaparecido séculos antes.
No intuito de melhor compreender este enredo, Donald explora algumas pistas que lhe chegam às mãos, partindo para uma região contígua denominada de Matopo Hills onde se encontra uma mina há séculos desactivada denominada de Mayfair mine.
Numa aldeia indígena próxima, no interior de uma palhota em terracota e cobertura de colmo, Donald é resgatado ao limbo nesta madrugada cálida sentindo de novo a presença de alguém no seu quarto.
Alguém do sexo feminino que não conhece, mas com quem sente fortes e inexplicáveis laços.
Perturbado com sonhos tão transcendentes, decide averiguar algo mais sobre os mesmos.
Nesta manhã em que o sol da savana já vai alto e o gado regressa do repasto madrugador, Donald dirige-se à aldeia Mofata tendo como principal objectivo trocar impressões com Nyasoro, um ancião da tribo local.

Desta circunstancial conversa, este escocês recebe algumas revelações interessantes:
Usando um dialeto ancestral Shona e numa voz rouca e serena, o sábio dirige-se a Donald que, com a maior atenção, capta as suas palavras com a ajuda de um tradutor de inglês que o acompanha:
-A pessoa que te visita é Tsehai, cujo nome quer dizer Raio de sol no dialeto Geez oriundo da Etiópia, que é uma mulher esbelta de 1,80 de pele luzidia, olhar intenso e seios opulentes.
Ao ouvir atentamente o ancião, Donald sente que o sonho que lhe assalta o espírito nas últimas semanas tem relações estreitas com as suas investigações.
Com uma voz serena o sábio prossegue:
-Tsehai é conhecida na cultura Shona como um ser imortal e consta na voz do povo que esta misteriosa mulher é conhecedora da localização do anel do rei, tendo sido sua concubina há séculos atrás. Ela relata que relacionado com o desaparecimento de tão preciosa joia está o maior rival do rei Matope de nome Bvumba.
Passado um momento de pausa e com os olhos fixos no horizonte e queimados da idade, este ancião conclui:
-É tudo o que tenho para te dizer bwana Mckenzie.

Alterado por tamanha revelação e movido pelo furor de uma paixão inconsciente, Donald vê nesta invulgar mulher o grande incentivo dos incansáveis esforços que o levam a explorar este tema deveras fascinante.
Na aldeia onde habita, iluminada por uma noite de lua cheia, Donald tem finalmente o seu encontro com esta misteriosa mulher.
Este encontro deveras perturbador permite-lhe dar mais uns passos em direção ao misterioso e enigmático paradeiro do anel de um valor incalculável para o povo Shona.
No contacto estreito que passa a ter com esta invulgar mulher que surge a altas horas da noite, Donald descobre igualmente que esta joia se encontrou durante um largo período nas mãos das forças ocupantes, tendo sido recuperado por um chefe tribal de nome Shangwe que o negocia com as autoridades britânicas, em troca de interesses superiores no território do Grande Zimbabwe.
Nesta espiral de recentes descobertas Donald decide regressar ao Reino Unido onde pretende recolher algumas outras informações. Passadas algumas semanas, junto de personagens bem posicionadas no contexto geo-político do Grande Zimbabwe e após consulta a alguns manuscritos arquivados na Academia de Ciências de Londres, este escocês regressa a África com alguns dados que lhe permitem finalmente resolver o enigma e localizar o famoso anel dos reis de Mwene Mutapa.
Pouco tempo decorrido do seu regresso a esta região austral, Donald Stewart Mckenzie encontra-se em parte incerta e, após múltiplas e intensas buscas realizadas pelas autoridades britânicas em solo rodesiano, é dado como desaparecido em finais do ano de 1935.


