O grande Hindustão

Capítulo III- O grande Industão

O GRANDE HINDUSTÃO

Brisbane…Novembro de 1948

Chegou finalmente o dia da família Souza Campos iniciar esta aventura no Hemisfério sul. Malas e bagagens feitas e uma dose razoável de entusiasmo acompanham este clã que se prepara para embarcar no aeroporto de Brisbane a bordo da Australian National airways com destino a Sidney.
Para os filhos deste casal esta é a primeira experiência de viagem aérea. A sensação é grande, mesmo para o pequeno Alfredo que completou entretanto o primeiro ano de existência, não tendo a menor ideia de onde se encontra e para onde vai.
Viagem sem percalços realizada num bimotor DC-5 produzido desde 1940 pela americana Douglas aircraft company.
Uma vez em Sidney, a família Souza Campos é alojada na residência de um velho amigo do avô Donald Mckenzie num belo bairro residencial da capital.
Um agradável convívio e um animado jantar culminam numa noite bem passada nesta sumptuosa mansão, marcando a primeira noite desta epopeia.
Nesta manhã nublada do dia 13 de novembro, é chegado o dia de dar corpo à grande viagem desta entusiasmada família.
Como é da tradição, os viajantes de longo curso apresentam-se em regra vestidos a rigor segundo um determinado dress code.
Neste contexto, o período pós-guerra trouxe para o mundo ocidental alguns novos hábitos. A Austrália, como membro integrante do Commonwealth e com os seus laços estreitos com a Grã-Bertanha, acompanha naturalmente as tendências. O denominado New look teve a sua grande expressão a partir de 1946.
Nas ruas das grandes metrópoles o fato clássico domina novamente a indumentária masculina, com atitudes bem à vontade, não precisando de bengala e guarda-chuva como complemento. As gravatas tornaram-se coloridas e os cabelos bem curtos seguindo a tendência dos últimos anos dos cortes militares.
Com o alívio dos tempos difíceis da guerra, suavizaram-se as restrições governamentais em relação à moda e à alta costura, tornando cada vez menos rígida a ação dos estilistas europeus e norte americanos que assim puderam recriar uma nova moda. Neste sentido as mulheres voltariam a ser belas e desejáveis e os homens alegres e originais, longe da tendência dos uniformes.
Seguindo esta tendência e dispondo do tempo e dos recursos necessários, a família Souza Campos vestiu-se a preceito para a realização desta viagem histórica.

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O nosso engenheiro vem vestido de um fato em tons cinza claro em três peças finamente vincado e com um laço cor de vinho que assenta classicamente sobre uma camisa branca de um fino algodão. A completar o Look, este cavalheiro trás na cabeça um chapéu Homborg em tom escuro e uma gabardina parda de excelente qualidade, calçando um par de sapatos Wing tip de um castanho escuro.
Margareth e suas filhas estão impecavelmente penteadas e maquilhadas com cabelos devidamente cacheados, trazendo a mãe um vestido plissado em tecido ligeiramente estampado, um colar de pérolas asiáticas ao pescoço, com umas meias de seda e uns sapatos de salto Peep Toe Ferrete pretos, trazendo aos ombros um fino vison e sobre a cabeça um chapéu Triply muito conhecido em Itália como Fedora.
Judite, maquilhada tão bem como sua mãe, trás um vestido de 2 peças em tons marfim muito bem confecionado, tendo umas meias femininas que desaguam num par de sapatos de meio salto Kitten Heel de tom mel. No alto de uma cabeleira finamente penteada, esta jovem mulher traz uma touca de renda branca integrada num chapéu de aba larga em tons de rosa velho e um colar em prata. A completar o quadro, esta morena de 1.67 trás igualmente um fino casaco de pele que lhe assenta na perfeição.
Nesta vistosa passarelle familiar segue-se Fiona com o seu ar jovial e com um vistoso penteado loiro decorado por um lindo chapéu raso, com um adorno metálico sombreando um rosto de olho azul realçado por uma maquilhagem ligeira e um colar de brilhantes oferecido pela avó materna há uns anos atrás. Esta bonita adolescente vem vestida com um conjunto de camisa estampada bicolor em tons de vermelho e branco, um lenço tipo gravata larga branco e uma saia plissada que lhe assentam muito bem.
A contrastar com umas meias de seda branca, Fiona fez questão de trazer nos pés o seu calçado vermelho de Innes Pasadena, (Califórnia) igual ao de Judie Garland no famoso Wizard of Oz, em 1939.
Para finalizar, o infante Alfredo vem ao colo da mãe Margaret, trajado com um fato de marinheiro nos clássicos azul e branco com um chapéu a condizer e uns sapatos pretos de verniz.

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Inaugurado há cerca de um ano, este voo da Qantas é realizado a bordo dos novos Lockheed Constellation L749, denominados em linguagem corrente por Connie ou apenas Constellation. Um Avião quadrimotor com um mecanismo de pistons, construido pela americana Lockheed a partir de 1943, em Burbank (USA).
Enquanto aguardam a hora de embarque, o pai Joaquim, bastante bem informado sobre a tipologia deste aparelho, explica:
– Esta é uma aeronave muito fiável, dado que foi escolhida para avião presidencial dos Estados Unidos.
A aquisição recente destes aparelhos por parte da Qantas motivou a continuidade e desenvolvimento de uma rota regular em regime de serviço semanal. A Kangaroo route que liga Sidney a Londres e vice-versa. A Kangaroo Route é atualmente considerada a rota aérea mais longa do mundo, abrangendo 10.600 milhas náuticas.

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Curiosa, Fiona interrompe o pai perguntando:
-E quais são as escalas, dad?
Entusiasmado com o tema, o engenheiro prossegue:
-O nosso percurso a partir de Sidney terá uma paragem para abastecimento em Darwin seguindo com destino à cidade de Singapore, uma ilha no sudoeste da Ásia onde faremos uma paragem nocturna, visto que os voos nocturnos são interditos na aviação comercial. Ali seremos alojados num hotel promovido pela companhia.
-E a partir dali? Pergunta Judite curiosa.
-Daí seguimos para Calcutá, na Índia, onde esta aeronave fará um novo abastecimento e onde nós sairemos deixando ali a Kangaroo route que prossegue viagem para o Cairo, no Egipto, onde fará uma nova paragem nocturna, seguindo-se uma nova escala em Tripoli na Líbia para abastecimento, rumando finalmente a Londres ao fim de duas noites em terra e 55 horas de voo.
Trata-se de uma viagem que exige não apenas resistência física, mas grande capacidade financeira. Para terem uma ideia, o custo desta nossa viagem aérea até a Índia corresponde a 80 vezes o salário semanal médio na Austrália, ou metade do custo de uma casa suburbana. Felizmente os custos desta viagem são em grande parte suportados pela empresa que me contratou para Moçambique.
Continuando o seu discurso o nosso engenheiro prossegue:
A capacidade do Constellation é de 30 passageiros e 11 tripulantes. Esta nossa viagem foi marcada com muitos meses de antecedência e não foi fácil conseguir passagens para todos nós. Esta é uma oportunidade e uma experiência únicas na nossa vida que ficará gravada na memória de cada um de nós. Vamos tirar o melhor disto, meus queridos.
Com um ar de alguma preocupação, este pai de família retira do bolso do seu casaco algumas caixas de medicamentos, dizendo:
-Por medida de segurança e porque vamos atravessar uma zona de malária com maior incidência em território indiano e africano, tive instruções do Dr. Wilson para tomarmos estes medicamentos à base de quinino. Teremos que tomá-los de forma regular a partir de hoje e até chegarmos ao nosso destino em África.
-Mas o que é a Malária, dad? Pergunta Fiona curiosa.
De forma determinada Joaquim informa:
-A Malária é provocada pela mordida de mosquitos na pele humana introduzindo dentro de nós uma bactéria que nos deixa deitados durante dias seguidos com altas febres e muitas dores no corpo. Não queremos que isto nos aconteça, pois não?
Of course not!….responde Judite.
-Então não se esqueçam de tomar estas pills cada dia. Intervém a mãe Margareth desta vez.
A entrada da família Souza Campos neste aparelho da Qantas foi naturalmente rodeada de alguma pompa e circunstância.

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Os tripulantes usam uniformes brancos e são todos do sexo masculino.
Há apenas uma classe a bordo e os passageiros devem vestir-se de acordo com este tipo de viagem: os homens em fato completo de três peças e laço e as senhoras em casacos de pele, saltos altos e pérolas. As crianças e adolescentes igualmente vestidas a preceito em conformidade com o dress code da Qantas.
No interior, apenas dois assentos de cada lado de um corredor central. A cabine encontra-se pressurizada e isolada, facto que reduz consideravelmente o ruído ensurdecedor dos motores. Estes são os ingredientes para a realização de um voo agradável e confortável.
Vividas as sensações de uma primeira descolagem e da especial dedicação ao pequeno Alf que se encontra demasiado excitado com tantas emoções ao colo da mãe, dá-se duas horas mais tarde uma breve escala em Darwin.
Ao lado do casal Souza Campos viaja um corretor de seguros inglês. Um habitué da Kangaroo route que em agradável prosa vai relatando as suas experiências a bordo desta linha.
A propósito das refeições requintadas que estão a ser servidas a bordo, este cidadão explica:
-As refeições são preparadas em Sidney e enviadas para os locais de escala ao longo do caminho. O entretenimento oferecido aos passageiros em voo, consta de uma visita ao cockpit. Poderão solicitar esta visita em pequenos grupos assim que desejarem.

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Entusiasmado com estas explicações, este habitué acrescenta:
-Vivemos numa época onde a grande maioria dos residentes e visitantes da Austrália se deslocam ao velho continente por via marítima. É o que em regra as suas bolsas permitem, sendo a viagem marítima realizada ao longo de 6 semanas através do Canal de Suez.
A alternativa aérea é, desde 1930, viajar a bordo dos barcos voadores que levam 14 dias a completar esta viagem com 43 paragens durante a viagem, estando gradualmente a ser substituídos por estes Lockheed Constellation.
-Muito interessante, diz Margareth. E a opinião dos passageiros tem sido positiva?
-Há depoimentos por parte de alguns passageiros que apontam o facto desta viagem ser demasiado rápida, sendo que muitos deles não têm tempo para se ajustar ás mudanças horárias. Nos tipos de deslocação praticados anteriormente, viajar em ritmo mais lento e vencendo diferentes fusos horários não constituía até agora um problema.
Desde 1940, estes voos ligando a Austrália à “Pátria mãe” (Grã-Bretanha) foram sendo garantidos pela Qantas até Singapura, sendo tomadas pela BOAC (British Overseas Airways Corporation) a partir deste destino até Londres.
Mais recentemente e com as marcas deixadas pela 2ª Grande Guerra na Europa, a Qantas assume a totalidade deste percurso com os seus próprios meios.
Esta importante ligação entre os dois países permitiu o transporte de quantidades expressivas de alimentos para os britânicos que enfrentam as privações de racionamento do pós-guerra, permitindo igualmente a entrega mais rápida de correio entre os dois territórios tão distantes.
-Muito interessante!… responde Joaquim brindando com este viajante conversador um Cheers com um excelente vinho francês.

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Entre períodos de sono agitado e gerindo da melhor forma os incómodos do pequeno Alfredo, a visita ao cockpit deste Constellation constituiu um momento alto desta viagem para cada membro curioso da família.
Nisto, após uma agitação da aeronave a vencer alguns poços de ar, o pequeno Alfredo vive uma indisposição que o faz vomitar a comida de bébé para cima da mãe Margareth impecavelmente vestida.
Inquietação a bordo com imediata assistência por parte dos stewards da Qantas.
A aproximação e aterragem no aeroporto internacional de Singapore é agora um momento de especial emoção. Está assim cumprido o primeiro dia desta aventura aérea.

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Os passageiros deste voo são agora conduzidos em transporte terrestre até ao Goodwood Park Hotel.
A passagem pela cidade oferece um visão espectacular, sendo possível ver os encantadores de serpentes duma zona turística de Mount Faber, com uma passagem pela agitada North Bridge Road e Quenn Elisabeth Walk junto ao rio…extraordinária visão para quem visita esta pérola asiática pela primeira vez.
A bordo deste transporte colectivo, o corretor inglês explica à família Souza Campos a história do hotel onde ficarão alojados.
-Os efeitos da 2ª Guerra Mundial atingiram as margens de Singapura em 1941. O Goodwood Park Hotel, construído em 1900, foi convertido em quartel residência para os altos cargos do exercito japonês durante a ocupação de Singapura por parte do Japão, que durou três anos. Quando esta ocupação terminou, o hotel serviu como Tribunal britânico de Crimes de Guerra, sendo devolvido ao legitimo proprietário no início do ano passado tendo sido sujeito a vastas obras de recuperação. Este hotel fez história local sendo o primeiro hotel em Singapura a oferecer uma piscina nas suas instalações. Uma ideia visionária do proprietário Mr. Vivian Bath.

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Uma vez chegados ao local e dando entrada nos sumptuosos jardins desta unidade hoteleira, Judite exclama maravilhada com o que vê:
-Uau!…great scenario!
-Paga-se bem cara esta viagem, mas somos muito bem tratados! Diz desta vez Margareth.
A estadia no Goodwood Hotel é muito bem desfrutada pela família Souza Campos, usufruindo das condições da piscina, das luxuosas instalações e do magnífico jantar servido por voltas das 21 horas ao som de uma orquestra residente.

O segundo dia desta viagem dá-se após o retorno ao aeroporto internacional de Singapura e embarque no Constellation da Qantas.
Uma vez acomodados os passageiros e na sequência da descolagem deste fabuloso pássaro metálico, as emoções concentram-se agora no próximo destino. A cidade de Calcutá, na Índia.
A maior dificuldade foi adormecer o pequeno Alfredo que irá, nesta segunda fase, viajar ao colo da irmã mais velha Judite.
Num misto de curiosidade e boa disposição, o pai Joaquim pergunta à esposa:
-So, darling!…tell me what are your impressions about the Kangaroo route?
Sorrindo com um ar de satisfação, Magareth responde:
-My sweetheart!…so far so good!…à parte alguns poços de ar acho que até as nossas filhas estão a adorar!...thank you so much for this lovely present.
Sentindo-se lisonjeado, o nosso engenheiro diz:
-Pena que o Alf é muito novinho para guardar esta viagem na memória.
Ao que Margareth responde:
-Temos as fotos tiradas pela Qantas em Sidney e muitas outras que tiraremos ao longo da viagem para que ele um dia veja como tudo isto se passou.
A viagem prossegue sobre o espaço austral em direcção ao território indiano. A disposição dos passageiros é, em geral, boa, sendo o serviço de bordo satisfatório.
Na aproximação ao aeroporto de Calcutá, Joaquim vai lendo o jornal de bordo. Olhando agora para a esposa que vem dormitando enquanto o pequeno Alfredo vai passando pelo colo das irmãs nos assentos do outro lado do corredor, diz em tom suave:
-Darling!…conseguiste dormir um pouco?…estamos quase a concluir a nossa Kangaroo route. Vamos aterrar dentro de uns quinze minutos em Calcutá.
-Hummm!…acho uma excelente ideia, diz Margareth! Já tenho vontade de esticar as pernas e deixar para trás este ruído.

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Com as habituais informações e recomendações transmitidas pela equipa de pilotagem, este Constellation toca na pista de Calcutá, dando assim as boas vindas aos passageiros em solo indiano.
Despedidas feitas ao corretor de seguros inglês que prossegue viagem até Londres e da simpática tripulação da Qantas airlines, é chegado o tempo de abrir uma nova etapa desta lendária viagem.
Concluídas as operações aeroportuárias e recuperadas as bagagens da família Souza Campos, Joaquim reúne a família em torno de si e anuncia.
-Meus queridos!….chegámos a Calcutá onde estaremos durante os próximos dois dias. É agora altura de vos presentear com uma das surpresas que guardei para esta viagem.
Com algum cansaço, mas com uma visível curiosidade, a família olha para o engenheiro sorrindo.
A mãe Margareth diz:
-Tu és incorrigível, Joaquim…mas vamos lá ver essa surpresa.
Saindo do aeroporto internacional de Calcutá a bordo de um carro colectivo contratado para o efeito, a família Souza Campos dirige-se agora para o centro desta magnífica cidade da Índia que se tornou recentemente independente.
Capital de Bengala ocidental, Calcutá é a segunda maior cidade da Índia. Também conhecida como a capital cultural e a Cidade da Alegria, pois exala um charme enérgico que impressiona e intimida, abrindo para os seus visitantes os seus segredos e a sua gloriosa história. Enquanto antiga sede da Companhia das Índias Orientais, Calcutá foi a capital da Índia Britânica, englobando um rico e variado património, sendo uma singular fusão da era colonial com os tempos modernos.

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O roteiro é simplesmente único, sendo visível o misticismo da população desta metrópole indiana onde as castas se misturam num universo estonteante de cores, sabores e odores de uma cidade secular.

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A surpresa do engenheiro é finalmente visível com a chegada ao majestoso hotel que este reservara com meses de antecedência. O Oberoi Grand Hotel.
O olhar arregalado da família Souza Campos não deixa dúvidas. A expressão de deslumbre estampada nos olhos do pai, esposa e filhas é de puro êxtase.
Carinhosamente conhecido como o Grand Dame de Calcutá, o Oberoi Grand Hotel está situado numa localização privilegiada, perto do distrito central de negócios, mercados e locais culturais da movimentada Calcutá. Datado de finais do ano de 1880, este hotel foi frequentado por figuras de destaque do país durante o período colonial e, mesmo agora, abrigando grandes funções para os Chefes de Estado, possui o maior salão de bailes em abóbada (sem pilares) da cidade.

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O Oberoi Grand foi o primeiro hotel a ser adquirido por Rai Bahadur MS Oberoi, fundador do grupo Oberoi. Sob sua propriedade, esta unidade tornou-se conhecida por seu estilo clássico e modernas instalações. Simplesmente magnífico.
-Thanks a lot, dad!…exclama Judite que trazendo o irmão ao colo está simplesmente maravilhada com o que vê.
-Hummm!…some royal treatment we´re having here!….confirma Fiona.
Margareth, não deixando ao acaso a sua especial impressão, diz por sua vez beijando o marido na face.
-Darling!…you are an amazing creature!…fascinating place…great surprise!
-Hummm!…fico satisfeito com a vossa reacção…esta foi a primeira de algumas outras surpresas que ainda virão…enjoy the premises and be happy! Responde o pai Joaquim com total ar de satisfação.
Sendo recebidos pelo gerente em pessoa, este dá as boas vindas à família Souza Campos afirmando em bom inglês:
-O Oberoi Grand, consegue ser em muitos aspectos uma casa longe de casa…graças à cortesia e simpatia do seu pessoal, ao conforto de suas magníficas instalações e à grande atenção prestada em cada detalhe. Sejam todos muito bem vindos!
Os quartos reservados para esta estadia encheram a alma desta entusiasmada família.
Estes quartos oferecem de um lado uma vista de espaços movimentados do mercado de Calcutá. Do outro lado oferecem, varandas privadas com vista para o jardim quadrante e piscina, rodeada por imponentes palmeiras reais – um oásis de tranquilidade no coração da cidade.
Cada quarto está decorado com uma cama king-size, estofados com estampas em estilo colonial, finamente atapetados nas paredes, equipados com tapetes de pelúcia e múltiplas comodidades modernas. Os sanitários são dotados de banheira de corpo inteiro e chuveiro de pressão variável.
O almoço tardio é servido numa sumptuosa sala de jantar do hotel. O requinte do serviço e a qualidade da gastronomia não deixam dúvidas a estes recém chegados.
À mesa de almoço, a proposta do pai Joaquim vai no sentido de visitarem alguns dos encantos desta fabulosa cidade banhada pelo rio Ganges.
Entusiasmado, este propõe:
Segundo algumas informações que colhi com o gerente há pouco, penso que poderemos dar uma volta na cidade esta tarde.
-What are your plans, dad? Pergunta Fiona curiosa.
-Proponho que visitemos o Museu Indiano que fica aqui perto do hotel. Segundo consta, é um dos melhores museus da Ásia, com uma excelente colecção de arte, bem como fósseis e meteoritos.
– E como vamos fazer com o Alf? Pergunta desta vez a mãe Margareth.
-Já providenciei. O hotel vai dispensar um carrinho onde poderemos instalar o nosso campeão. Entre todos não será difícil levá-lo.
Se estiverem nessa disposição, ainda podemos visitar um parque mais adiante denominado de Maidan.
-E o que há neste parque? Pergunta Judite desta vez.
-Trata-se, segundo me disse o Sr. Raj, de um enorme parque que é um dos pulmões de Calcutá e oferece um espectáculo fascinante da vida da cidade. Podemos percorrê-lo a bordo de um velho elétrico. Perto está o velho forte britânico Fort William e mais ao lado um fabuloso monumento com 48 m de altura. O Monumento Ochterlony. Que acham?
-Vamos então!….responde Margareth. Se o pequeno Alf ficar muito cansado, voltamos para o hotel.
Concluída uma fabulosa tarde de visita a esta pérola da índia, a noite passada neste sumptuoso hotel foi sinónimo de prazer, tendo o casal depois de jantar passado um momento agradável no grande salão, enquanto as filhas Judite e Fiona se entretinham com o irmão à volta da grandiosa piscina e salas contíguas. Uma dormida da realeza completou este cenário de elite.

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A manhã do dia 15 de Novembro de 1948 traduz-se num dia de sol aberto convidando ao lazer neste sumptuoso hotel.
-Querem dar mais umas voltas para aproveitar o último dia em Calcutá? Pergunta o pai Joaquim aos restantes membros da família durante o copioso English breakfast servido numa das inúmeras salas do hotel.
Olhando para pai, Judite pergunta:
-O que propões, dad?
Joaquim com ar sereno responde:
-Proponho fazer um roteiro mais longo que passará pela visita de Raj Bhavan.
Esta já foi a residência do vice-rei britânico na Índia. Não muito longe, estão outros belos exemplos de arquitectura: a Câmara Municipal, Edifício Writers (o antigo escritório da East India Company) e a Igreja de St. John. Perto dali está o South Park Street Cemetery, com seus túmulos antigos e inscrições. Enfim, poderemos ver só uma parte de todas estas atrações. Desta vez iremos num transporte requisitado aqui no hotel.
Fiona com os seus olhos azuis procura a apoio da irmã, dizendo:
-Ontem já demos uma volta pela cidade. Se a Judite concordar, ficamos pelo hotel com o Alf. Sempre podemos gozar da piscina. Assim vocês podem dar essa volta mais à vontade. Are you ok with that, Ju?
Judite, captando a ideia da irmã mais nova, responde:
-Well, I guess it is a good idea…I will read my book in this marvellous place!

Parte II- uma aventura em cavalo de ferro.

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Este último dia em Calcutá culminou com a curiosidade da família Souza Campos que interpela o pai à hora de jantar querendo saber mais quanto ao programa de viagem a partir de Calcutá no dia seguinte.
Com a devida serenidade, o pai Joaquim responde:
Iremos amanhã viajar de comboio até Bombaim que é a maior e mais populosa cidade da Índia. Onde ficaremos mais uns dias, embarcando a partir do porto local num navio que nos levará até a costa africana. Que tal?
Margareth, não escondendo alguma curiosidade, pergunta ao marido:
-E em Bombaim ficaremos instalados onde, darling?
Com um ar algo malandro, o nosso engenheiro responde:
-Querida! Sabes que eu trouxe comigo nesta viagem uma caixa de surpresa. Essa é outra das minhas novidades.
-Dad!…tu és impossível!…diz Judite sorrindo enquanto aperta os sapatos do pequeno Alf.
Joaquim sente no entanto que deve informar a família quanto à próxima etapa ferroviária desta viagem familiar.
-Escutem bem! Amanhã iremos até à estação de comboios de Howrah atravessando o Hooghky river por cima da Howrah bridge num transporte disponibilizado pelo hotel. Ali vamos encontrar o maior e mais antigo complexo ferroviário na Índia, sendo uma das estações ferroviárias mais movimentadas do mundo em termos de volume de passageiros por dia.

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Perante a cara de algum espanto dos membros do seu clã, Joaquim prossegue informando:
Aqui iremos embarcar no Howrah Bombay Mail line que é um comboio expresso rápido pertencente a Indian Railways – South Eastern Railways que sucede à britânica Imperial Indian Mail que foi desativada no ano passado após a independência do território.
Esta linha opera desde Howrah Junction aqui junto a Calcutá, até Bombaim na costa ocidental da Índia.
Vamos assim percorrer a distância de 1968 km em 33 horas 15 minutos, puxados por uma locomotiva a diesel a uma velocidade média de 55 km/hora…not bad!

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-But, dad!…isso são quase 3 dias de viagem. Como é que vamos viajar durante tanto tempo num comboio? Pergunta Fiona com os olhos azuis algo arregalados.
-Easy, baby!….o teu pai pensa no melhor para a sua família. Vamos viajar em Sleeper Class, em aposentos duplos com condições para dormir, sanitário individual e com direito a uma carruagem restaurante para a 1ª classe….it costs a lot of money but I´m sure we´ll find it amazing, dear. Don’t worry…let´s enjoy it the best way we can.
Judite interpela o pai com uma questão pertinente:
-E porque é que chamam a esta linha Mail?
-Porque, além de transportar passageiros, esta linha comporta uma composição especialmente dedicada ao transporte de correio, tendo assim recebido o título mail.
-E vamos ter muitas paragens, querido? Indaga Margareth mostrando alguma apreensão.
Sim, segundo os prospectos que pude ler quando reservei as nossas passagens em Brisbane, esta linha vai parar em alguns 6 pontos antes de chegar ao seu destino. Será uma boa ocasião para lerem os livros que trouxeram e apreciar as paisagens deste imenso território indiano. Pensem nisto como uma experiência única na vossa vida que talvez não volte a acontecer.

India express

O dia 16 de Novembro de 1948 revelou um sol aberto convidando ao sorriso e à expectativa de uma nova experiência pela frente.
Mas o encontro com a estação de partida não foi propriamente simpática e descontraída.
Uma vez ultrapassada a grande agitação vivida em Howrah Junction, com uma circulação alucinante de passageiros em trânsito para as 23 diferentes linhas a partir desta estação, esta família consegue finalmente embarcar a bordo da Howrah Bombay Mail line sem perder nada pelo caminho. O alívio é geral!
O casal Souza Campos viaja num compartimento privado levando consigo o pequeno Alfredo e as irmãs irão partilhar outro compartimento contíguo.
A aliviar o stress vivido na últimos 30 minutos para embarcar, estão as excelentes condições desta composição. Acomodações espaçosas e confortáveis, onde a privacidade está garantida, as zonas de arrumação de bagagens correspondendo às melhores expectativas, instalações sanitárias de excelência e uma janela franca para o exterior, neste momento guardada por uma cortina de luxuoso tecido.
Tempo de partir para esta nova epopeia. Próximo destino. A ainda longínqua capital Bombaim.
Saindo com 10 minutos de atraso, a locomotiva ao serviço da Howrah Bombay Mail line está em marcha, dando um sinal sonoro de partida para mais uma epopeia desta grande viagem.
A primeira paragem dá-se em Kharagpur Junction que é uma das maiores oficinas ferroviárias da Índia, com a plataforma ferroviária mais longa do mundo, com 1072,5 m.
A sua localização geográfica e as ligações ferroviárias com o resto do país favoreceram a construção desta oficina centralizada com instalações equipadas para a realização de grandes reparações de todos tipos em composições.
De novo sobre rails e com o ruído típico das linhas férreas, a viagem segue o seu percurso, saindo gradualmente da grande província de Bengala.
A bordo, a disposição da família Souza Campos é boa e das grandes janelas é possível apreciar as enormes planícies que oferece o gigante hindustão….fascinante!
As salas de jantar são todas sombreadas com persianas de fino bronze, com banquetas muito confortáveis e toalhas de mesa engomadas.
No serviço prestado nesta primeira refeição na carruagem gastronómica, o charme e os cuidados são uma constante, correspondendo ao elevado nível de requinte e qualidade esperado numa linha deste tipo, constituindo a inteira satisfação dos presentes.
Estas refeições são de multi-escolha e dispõem de muita variedade – tanto na cozinha indiana como em opções ocidentais.

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A ideia que fica nesta primeira fase da viagem é que o comboio é excelente e muito bem gerido.
Nos aposentos sente-se um refúgio de paz e limpeza, com toalhas limpas e bebidas frescas servidas por mordomos qualificados, a contrastar com a tradicional Índia empoeirada lá fora. Crua e ao mesmo tempo fascinante.

Depois de uma tarde de viagem, é chegada a hora do jantar a bordo do Howrah Bombay Mail line.
Aos passageiros é dada uma escolha de três entradas, depois uma sopa, sendo em seguida facultada a escolha de três pratos correntes da gastronomia europeia – um de carne, outro de peixe e um vegetariano e alguns vinhos selecionados; em alternativa, é oferecido um denominado “The Indian Experience“.
Este último servido em bandeja de prata com um excelente arroz, pão rústico fresco (naan / japati / etc) e alguns chutney variados. Em complemento, são servidas 5 pequenas tigelas de diferentes pratos de carne e vegetais. Para sobremesa e deleite dos passageiros, há uma escolha de dois ou três pudins, bem como café e bebidas espirituosas de eleição.

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Um dos elementos essenciais em viagens pela Índia é a toma regular de água potável que desempenha naturalmente um grande papel.
Em alguns folhetos presentes a bordo podem ler-se algumas recomendações:
-Não engolir a água de uma vez – esta é a chave para manter-se hidratado.
A qualidade da água corrente pode ser um problema para estrangeiros de passagem. Para evitar problemas com a água a bordo que é de qualidade duvidosa, os passageiros sentem a necessidade de escovar os dentes com esta água engarrafada, o que já não é possível no ritual dos banhos tomados ao longo da viagem. Como habitual recomendação, propõe-se manter a boca fechada durante o duche e utilização de loções contendo álcool depois de cada banho.
O contacto com as águas duvidosas deste país deixa naturalmente algumas preocupações quanto à ingestão de frutas e saladas.
Neste folheto pode ler-se igualmente que estão disponíveis a bordo kits standard contendo: repelente de insetos, produtos de limpeza das mãos, uma embalagem de anti-diarreico para desarranjos intestinais, uma embalagem de analgésicos, toalhetes anti-sépticos e uma caixa simplificada de primeiros socorros.
Mais se informa que viaja nesta linha um médico para atender situações de pequena urgência ocorridos ao longo da viagem.
-Se assim é, estamos realmente num oásis dentro desta composição. Pensa Joaquim em silêncio ao ler este folheto.
A primeira noite a bordo desta linha faz provas de qualidade após uma nova paragem em Bilaspur Junction.
A sensação de um sono solto ao sabor do estremecer repetitivo da composição e a ausência de mosquitos deixa uma agradável sensação de repouso. Excepção feita para os que não estão habituados a este tipo de viagem ferroviária ou estranhem o ambiente nesta primeira noite de viagem.

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No raiar de um novo dia, já o sol vai alto e a temperatura cálida quando esta viagem é interrompida por volta das 9h da manhã.
Lá fora ouve-se um enorme ruído e o barulho de carros que se aproximam da composição imobilizada no meio de uma planície sem fim onde o pó no ar não deixa ver o que realmente está a ocorrer no exterior.
Dentro do comboio há agora um enorme rebuliço e passos acompanhados de gritos e vozes que, num dialeto desconhecido, ecoam nos corredores das composições.

Confronto Kachemir
Pressentindo que algo não está bem, Joaquim Souza Campos abre a porta do compartimento dizendo às filhas que venham para o seu aposento imediatamente e pedindo em simultâneo a Margareth que traz o pequeno Alfredo nos braços para fechar de imediato a grande janela e correndo a persiana.
-Entrando em pânico, Fiona perde o controle das suas emoções e o pai tem que a segurar firmemente entre os braços murmurando.
-Minha filha!…shhhhh!…estamos aqui todos unidos!…vá!…acalma-te…algo se passa que nós não sabemos o que é. Se ficarmos unidos tudo vai correr bem!
Margareth, percebendo que o pequeno Alfredo está igualmente a sentir que algo não está bem, segura o petiz entre os braços olhando desesperadamente para o marido.

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No corredores desta composição o tumulto aumenta e sente-se que algo de muito anormal está a acontecer.
Gritos de pessoas em dialetos desconhecidos preenchem agora o espaço deste comboio, apenas cortados pelos primeiros tiros de fuzil que ecoam lá fora e igualmente no interior do comboio. O pandemónio está instalado.
O momento é de difícil compreensão. O engenheiro Joaquim Souza Campos tranca por dentro a porta do seu aposento e, esperando que o rebuliço passe, mantendo a família abaixada no solo atapetado.
No exterior sentem-se agora mais gritos e mais tiros ecoam dentro da composição. A tensão está ao rubro!
Vozes estridentes são agora mais próximas. Com uma forte pancada na porta ouve-se uma ordem dada num dialeto desconhecido.
A família Souza Campos vive aqui momentos de especial stress.
Margareth prostrada e protegendo o pequeno Alfredo pede desesperadamente ao marido que não abra a porta.
Uma nova voz vocifera no corredor, desta vez em inglês.
-Open the door or we will shoot it!
Hesitando, Joaquim sente um verdadeiro perigo ameaçar a sua família se não o fizer.
Erguendo-se, abre a porta permitindo a entrada de dois indivíduos trajados de indianos com turbantes empunhando espingardas e longos punhais que o agarram violentamente encostando-o contra a parede.
Dois outros que entram nos aposentos levantam violentamente mãe e filhas que gritam de desespero demonstrando sinais de histeria. Margareth não larga o pequeno Alfredo.
Perante os gritos de Judite e Fiona, um destes desfere uma violenta bofetada em cada uma atirando-as contra o solo.
O pai Joaquim, no seu natural instinto de proteção, reage tendo de imediato três homens a imobilizá-lo com um violento soco na face, atravessando um deles um punhal junto ao seu pescoço.
A situação da família Souza Campos é agora crítica.
Entra entretanto neste aposento um outro homem trajado com tecidos diferentes que, apontando para Joaquim, lhe pergunta agressivamente:
-British?
Joaquim, sentindo que deve responder para não agravar a situação, responde:
-No! We are Australians travelling to Africa. This is my family!
-Passports! grita este homem barbado de olhos negros com cara de poucos amigos.
Libertado para cumprir este pedido, Joaquim consegue alcançar os passaportes da família passando-os para a mão deste personagem ameaçador.

Kachemir cause
Passados alguns momentos, esta criatura sinistra dá instruções aos seus homens para revistar as bagagens.
Neste momento drástico que parecia interminável, as bagagens do casal foram viradas do avesso, culminando na entrega ríspida dos passaportes na mão de Joaquim.
Com cara de poucos amigos este homem profere a seguinte frase:
-If you move from this room you will be all killed!…do you understand?
Margareth, sentindo que este pesadelo pode estar a chegar ao fim, acena com a cabeça. Joaquim entende seguir o gesto da sua esposa.
Com a partida destes invasores deste aposento totalmente desordenado, a família Souza Campos vê efetivamente chegado ao fim este momento que ficará gravado por longo tempo nas suas memórias.
Os tumultos prosseguem a bordo deste comboio transformado num campo de batalha. A ideia é de deixar o tempo passar e aguardar o fim deste inesperado pesadelo.
Passada uma boa hora, os motores dos carros estacionados no exterior põem-se em marcha. Tudo indica que o estado de sítio estará a chegar ao fim.
Com a partida desta comitiva invasora e tentando reencontrar algum equilíbrio, os ocupantes deste comboio tentam gradualmente retomar os sentidos e recuperar alguma serenidade juntando-se em pequenos grupos no exterior do comboio.
O que se passou afinal a bordo do Howrah Bombay Mail line?
Em conversa com alguns passageiros e assistentes desta linha ferroviária, a explicação foi dada em inglês claro por um alto funcionário da Indian Railways que reúne os passageiros dizendo em voz grave e institucional:
Estimados passageiros:
O que aconteceu dentro deste comboio teve como objetivo o rapto de um importante elemento ligado ao governo indiano que seguia a bordo.
Prosseguindo para uma explicação mais extensa, este funcionário explica:
Jammu e Caxemira são duas regiões culturalmente distintas, dominadas desde o século 19 por um governo Sikh (doutrina religiosa designando um grupo forte e tenaz localizada entre a Índia e o Paquistão).
Em 1846, após anos de combates contra os sikhs, a Grã-Bretanha em vez de assumir o controle direto sobre estas regiões, instala um governante hindu como Maharaja (Título em Sanscrito significando “Great ruler”).
O controle territorial deste Maharaja incluiu desde então a área budista de Ladakh, a região predominantemente hindu de Jammu, a maioria do vale muçulmano de Caxemira, bem como reinos muçulmanos menores no oeste.
Nos dias do Império Britânico, o estado de Jammu e Caxemira foram um dos mais de 560 estados principescos considerados autónomos devido à sua lealdade para com a Grã-Bretanha. Recentemente, pela ocasião da independência da Índia, os governantes foram aconselhados a participar, através de um processo de adesão, escolhendo a sua integração na Índia ou no Paquistão, tendo em conta a posição geográfica de seu estado, a sua religião e a atitude dos seus habitantes.
A atenção é grande e, perante a curiosidade geral, este funcionário prossegue:
Em Agosto do ano passado, na data de partição, os governantes de Jammu e Caxemira ainda não tinham decidido qual o domínio escolhido.
O Paquistão entende, utilizando a força das armas, que Jammu e Caxemira devem ser integrados no seu território, dado que a população do estado, concentrada no vale da Caxemira, é muçulmana.
Pouco tempo mais tarde o Maharaja, em representação destas regiões, decide finalmente juntar-se a Índia dando origem a uma discórdia feroz entre os dois países vizinhos.

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Nesta viagem seguia um dos principais dignitários defensores desta adesão.
As forças paquistanesas, tendo esta informação através dos serviços de inteligência, tomaram este comboio de assalto levando este e outros membros do grupo como reféns para forçar o governo Indiano a entregar Caxemira.
Temos a lamentar a morte de três destes membros que fizeram resistência ao assalto.
Em nome da India Railways quero pedir a todos as devidas desculpas pelo episódio ocorrido e informar que tudo faremos para estabelecer a ordem e prosseguir a nossa viagem para Bombaim conforme planeado.
Ao lado de Joaquim está um cidadão inglês que conclui em voz alta.
-Estivemos no lugar errado à hora errada, certo?. Não é o nosso dia de partir deste mundo. Será sim hora de nos recompormos e seguir as nossas vidas a salvo deste conflito que não é nosso.
Assim seja!…é o desejo de todos aqui presentes.
Passaram-se mais duas horas antes da ordem ser devidamente restabelecida nesta linha ferroviária. Os três cadáveres vitimas deste assalto, uma vez devidamente acomodados, serão entregues às autoridades competentes na próxima paragem em Bilaspur Junction.

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A locomotiva está de novo em marcha, estando a grande maioria dos passageiros traumatizados com este acontecimento. Lentamente, esta viagem retoma o seu curso normal em direcção a Bombaim.
Em alguns casos o médico de serviço está bastante ocupado no sentido de amenizar alguns maus tratos infringidos pelos invasores, sendo dada especial atenção a alguns idosos que viajam a bordo.
Algo refeitos deste episódio e com a força interior necessária para ultrapassar este traumatismo, cabe ao casal Souza Campos devolver aos filhos a serenidade possível.
Tarefa difícil, sobretudo para Judite e Fiona que sentiram na pele a agressividade dos invasores.
A paragem em Bilaspur Junction foi mais demorada do que o esperado.
As autoridades locais passaram em revista o comboio fazendo um inquérito minucioso, incluindo conversas detalhadas com alguns passageiros que presenciaram o resgate dos reféns.
Retomando o ritmo da viagem e desfrutando da melhor forma os serviços proporcionados pela Indian Railways, o resto deste 2º dia de viagem foi passado de forma reservada e em silêncio.
A noite é boa conselheira, o espírito dos passageiros é de recolha e uma nova paragem nocturna em Nagpur Junction não teve história para contar.
O terceiro dia desta viagem, que já leva um atraso de 5 horas, prossegue sendo agora do desejo de todos os passageiros chegar quanto antes a Bombaim, deixando para trás esta viagem de má memória.
A próxima paragem desta extensa travessia do território indiano é em Manmad Junction Esta estação é um importante entroncamento da rede ferroviária indiana deixada pelo Império britânico.
Já estamos no estado Maharashtra, sendo esta região situada no distrito de Nasik onde se cruzam importantes circuitos económicos do país.
Da janela do comboio, Judite, mais recomposta do episódio sucedido no dia anterior, observa as belezas naturais desta zona montanhosa. A altitude desta região ronda os 580 m.
Da janela do lado vê debruçar-se a Mãe Margareth que, olhando a filha com ternura, lhe pergunta.
-Judite dear!…how are you today?
Olhando a mãe com alguma cumplicidade e com um tímido sorriso, esta jovem responde.
-No hard feelings, mum!…soon we will be out of this train and life goes on!
-That´s my girl…love you!

Devido aos contratempos causados pelo assalto ao comboio, esta viagem ultrapassa os 3 dias, sendo previsível a chegada a Bombaim por volta da 1h e 40 m do dia 19 de novembro.

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O desembarque nesta última estação de Bombay CST, apesar da hora tardia, é igualmente deveras agitada dado que se trata da chegada a uma grande metrópole indiana. O mosaico e atividades humanas são intensas e esta família, sentindo um franco alívio por sair deste comboio de má memória, tem contudo uma agradável surpresa.
À espera da família Souza Campos está um homem impecavelmente trajado que leva as malas para o interior de um carro espaçoso e muito vistoso. Uma espécie de limusine.
Francamente surpresa com a novidade, Judite pergunta.
-Uau!…temos direito a este tratamento? Hummm…e a seguir vamos para onde, dad?
-Pois filha!…daqui em diante só o vosso pai vos dirá o que nos reservou desta vez. Responde Margareth olhando para o marido com ar provocador.
O engenheiro, com uma clara intenção de animar a família, responde:
Como vocês imaginam, está na hora de voltar a abrir a caixa de surpresas e ver de novo os vossos sorrisos. Venham daí que não se vão arrepender.
Esta primeira impressão da capital, embora seja de noite, é naturalmente impressionante.
Este simpático motorista pergunta entretanto em inglês.
-É a vossa primeira visita a Bombaim?
-Certamente!…responde Joaquim deslumbrado com o trajecto.

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O motorista simpaticamente prossegue:
Bombaim é a capital do estado indiano ocidental de Maharashtra. Uma cidade metropolitana, também chamada de “capital comercial e de entretenimento da Índia”. Ladeado pelo Mar Arábico, no lado ocidental, Bombaim goza de um clima moderado o ano inteiro.
Na verdade, é uma cidade que nunca dorme e oferece muitas coisas para visitar e fazer.
A cidade está repleta de glamour, festas pela tarde e de noite, múltiplos locais para comer e muitos outros locais de entretenimento abertos durante toda a noite. Além disso, a rica herança cultural de Bombaim é visível no estilo de vida das pessoas comuns, adicionando mais charme à cidade.
Entrando na região de Colaba, este circuito citadino leva esta curiosa família ao encontro da nova surpresa do engenheiro.
A entrada nos sumptuosos jardins de um hotel que deixa todos de olhos arregalados.
Este é o momento de conhecer o famoso Taj Mahal Palace Hotel. Um hotel de cinco estrelas de Bombaim , localizado próximo da grande Porta da índia (Gateway of India).
A receção já tardia a este magnifico lugar foi oferecida aos recém-chegados por um dos gerentes que, dirigindo-se à família Souza Campos, anuncia em bom Inglês.
-Sejam muito bem vindos a Bombaim e ao Taj Mahal Palace Hotel. Esta é a vossa casa.

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A esta recepção de príncipes seguiu-se a instalação da família nos grandiosos aposentos.
Desta vez o pai Joaquim surpreendeu bem a família que, entre olhares de fascínio e puro deslumbre, tem dificuldades de manter a boca fechada face a este cenário.
Fica por contar o montante gasto pelo engenheiro para proporcionar este prazer ao seu clã.
O engenheiro guarda isso para si.
Uma vez acomodados e refeitos de uma longa viagem ferroviária, foi tempo de tomar a primeira refeição numa sala de jantar da realeza.
Na mesa ao lado dos Souza Campos apresenta-se um casal inglês de meia idade com ar distinto que, no desenrolar de uma animada conversa, adianta:
-Fazendo parte da cadeia dos Taj Hotels, Resorts & Palaces, este hotel é considerado a principal propriedade do grupo e contém 560 quartos e 44 suites. Há cerca de 1.500 funcionários, incluindo 35 mordomos.
Segundo muitos afirmam, este hotel oferece o mais alto nível de serviço na Índia, tendo já recebido muitos convidados notáveis, desde presidentes a patrões da grande indústria e estrelas do show business.
-Hummm!…impressionante! responde Margareth. E quem são os proprietários deste palácio?
-Este edifício foi encomendado pela família Tata e abriu as suas portas para os seus primeiros convidados em 16 de dezembro de 1903.
Acredita-se amplamente que Jamsedji Tata decidiu construir o hotel depois de ver recusada a sua entrada num dos grandes hotéis da cidade da época, o Watson Hotel, que foi desde sempre restrito apenas a “brancos”. No entanto, esta história tem sido contestada por alguns comentadores que sugerem que era improvável que Tata se preocupasse com este aspeto como uma vingança contra seus adversários britânicos. Em vez disso, eles sugerem que o Taj foi construído a pedido de editor do The Times of India que sentiu que um hotel “digno de Bombaim” era necessário.

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Durante a Primeira Guerra Mundial, o hotel foi convertido em um hospital com 600 camas.
Bombaim é a maior e mais importante cidade da Índia. Conta com uma população estimada em 12 milhões de habitantes residindo apenas no seu núcleo urbano, ou cerca de 20 milhões, se consideramos a sua região metropolitana, conhecida como Grande Bombaim.
-Fabuloso!…responde desta vez Joaquim!…e como nasceu este prestígio?
Empolgado em transmitir os seus conhecimentos, este inglês há muito frequentador destas partes do mundo prossegue:
-As sete ilhas que vieram a constituir Bombaim foram habitadas por nómadas que tinham a pesca como principal fonte de sobrevivência. Durante séculos, as ilhas estiveram sob o controle de sucessivos impérios indianos, antes de serem cedidas aos portugueses que depois as cederam aos britânicos, quando toda esta região passou a ser controlada pela Companhia Britânica das Índias Orientais. Em meados do século XVIII, a urbanização de Bombaim foi reformulada pelos britânicos, com grandes projetos de engenharia civil, fazendo surgir uma cidade comercial e cosmopolita. O desenvolvimento económico e educacional caracterizou a cidade durante o século XIX, tornando-a uma forte base para o movimento de independência da Índia, no início do século XX.

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Na sequência desta interessante descrição Judite pergunta ao pai.
-E o que pensas que podemos fazer nesta cidade, pai?
Animado com a conversa, Joaquim propõe:
-Há vários roteiros para fazer em Bombaim. Na fase de reserva deste hotel, contratei um serviço de taxi personalizado que nos levará durante os próximos dias a visitar o que desejarmos em Bombaim. Além do tradicional City Sightseeing Tour, há muitos locais de interesse. Entre eles estão Victoria Terminus que é o mais famoso exemplo da arquitectura gótica vitoriana de Bombaim. O Gateway of India, um arco de basalto negro refletindo a cultura Hindu num estilo de arquitectura islâmica localizado aqui bem perto. Um passeio através de Marine Drive onde podemos ver o antigo templo de Shiva Babulnath, lugar sagrado dos devotos ao Senhor Shiva. A visita da Mesquita Haji Ali do século 14, situada numa ilhota ao largo da costa do sul de Bombaim, e admirar a bela arquitcetura islâmica indiana. Continuar a volta à cidade e ver o Dhobi Ghat, a maior lavandaria ao ar livre da cidade, onde os homens lavam a roupa contra lajes de pedra.
Enfim…uma imensidão de lugares para visitar. Temos 5 dias para usufruir desta metrópole e destas magníficas instalações conforme desejarmos.

Os dias de Bombaim ficarão na memória da família Souza Campos, exceptuando a desagradável surpresa vivida por Margareth na visita a um mercado típico da cidade onde se dispõe a comprar uns Saris (vestidos com um corte típico indiano). Neste agitado mercado uma pequena falta de atenção traduziu-se no desaparecimento da sua pequena mala contendo objetos pessoais e algum dinheiro de bolso.
Os pequenos fenómenos onde a sobrevivência e a cobiça andam de mãos dadas com os amigos do alheio.

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