O MISTÉRIO AUSTRAL
Corre o ano de 1978.
Alfredo, na sua idade de trinta anos, e Susana com os seus vinte e oito, juntaram as suas existências partilhando um apartamento no bairro de Campo d´Ourique em Lisboa.
Desta união e para alegria da família nasceu meses antes um novo membro da tribo. Um menino, a quem os pais chamaram de Afonso, forte e saudável, que veio encher a casa de vida, de alegria e de algumas tarefas também.
Como nas melhores famílias, com o nascimento deste novo membro, estes progenitores, amigos dos caminhos poeirentos do mundo, não voltaram à estrada depois da última viagem a África.
Alfredo trabalha como pesquisador em colaboração com uma associação de Antropologia sediada em Osaka, no Japão, tendo aceite o desafio de desenvolver um estudo sobre as migrações humanas entre Portugal e as suas ex colónias além mar.
Susana trabalha onde se formou, na Universidade Católica de Lisboa, dando aulas de sociologia.
Os pais de Alfredo continuam na Austrália onde vivem a merecida reforma.
O pai de Susana adaptou-se à sua nova condição e mantém-se em vida junto de sua esposa. Família que Susana acompanha com alguma frequência.
O tempo foi passando, mas alguma coisa se manteve desperta no espírito de Alfredo. A sua obsessão pelo desaparecimento de seu avô.
Como um raio de luz que só o destino pode dissecar, algo surge no horizonte destes jovens.
Alfredo e Susana são vencedores de um prémio da Lotaria Nacional. Facto transcendente que comporta uma transformação das suas vidas em Portugal.
Sem perder o discernimento nem o sentido de oportunidade, o casal decide sair da cidade de Lisboa e mudar-se para uma vivenda no novo bairro de Birre, em Cascais.
Com este “input” na sua qualidade de vida e com investimentos financeiros a longo prazo, o horizonte abre-se com uma nova perspectiva.
Novos amigos, novos ambientes e melhores condições para o crescimento do pequeno Afonso.
Alfredo vê aqui uma outra oportunidade. Utilizar uma parte deste capital caído da sorte para dar forma a um desejo que vive dentro do seu espírito.
Descobrir o que verdadeiramente se passou com o seu avô Donald Mackenzie.
O universo por vezes conspira dando ao destino novos contornos.
Alfredo recebe da Austrália uma chamada telefónica da sua mãe Margareth.
-Alf dear! It´s mum.
-Uau! Mum! Que surpresa! Está tudo bem por aí?
-Tudo em ordem! Estivemos aqui a falar, eu e o teu pai, e decidimos ir a Portugal conhecer o nosso neto. A nossa ideia é passar cerca de 3 semanas por aí. Que te parece a ideia?
-Great news! Acho a ideia ótima. Mais agora que temos um boa casa para vos receber. Quando pensam vir?
– A nossa ideia é partir dentro de duas semanas. Felizmente as viagens daqui para a Europa já se fazem em melhores condições, apesar das intermináveis horas de voo. Com a nossa idade tudo é mais complexo, como imaginas.
Alfredo faz entretanto sinal a Susana contando a nova.
-Sabes, mum! Tenho aqui ao meu lado a Susana e o teu neto que já estão a sorrir com a ideia.
-Lindos! Louca para ver esse meu netinho. Tem algo mais de que te quero falar filho.
-Diz, mum!
-Andei a arrumar o sotão desta nova casa e encontrei algo que te pode interessar.
-O quê? – pergunta Alfredo com a curiosidade aguçada.
-Uma caixa daquelas que o teu avô sempre acumulava depois das viagens por aí. Dentro dela fui encontrar uma quantidade de documentos sobre o Grande Zimbabwe.
-O quê!? – exclama Alfredo, visivelmente excitado.
-Eu sabia que esta seria uma boa notícia para ti. Vamos fazer o seguinte: Sei que não posso aparecer em Portugal sem estes documentos. Já combinei com o teu pai. Vamos por tudo numa mala adequada e despachá-la no porão com as nossas bagagens. Que tal a ideia?
-Isso é um presente do céu! Até me falta o ar. Traz tudo, please! Sabes o quanto isso me interessa.
-Don´t worry, Alf. Nada faltará para encher essa tua curiosidade que eu conheço bem.
-Thanks a lot, mum.
-Vou passar ao teu pai que quer falar contigo. Beijo grande, meu filho! Vamos falando nestes dias antes de viajarmos.
Concluída tão longa viagem de Joaquim e Margareth, agora nos seus 70 anos de idade, a recepção em Portugal foi naturalmente calorosa e animada.
Conhecer o neto Afonso foi, como era de se esperar, um verdadeiro estado de graça.
Susana, que já não vê os sogros desde as férias que passaram em Moçambique, está igualmente embalada na ideia de proporcionar aos sogros a melhor estadia possível.
– Que casa maravilhosa, filho! Diz o pai Souza Campos com total acordo da mãe Margareth.
A entrega a Alfredo da tal mala contendo os documentos do avô Donald, recentemente encontrados, foi um momento naturalmente emocionante.
-Alf, dear! Aqui está o que prometi trazer. Algo que vais ver com toda a atenção. Outra coisa não seria de esperar, certo?
-Mum! Sabes bem o que isto significa para mim. Como agradecer-te?
-Isto não se agradece entre pais e filhos, querido. Quero, no entanto, chamar-te à atenção de algo que vais encontrar aqui. Uma pasta de cor amarela que te vai interessar especialmente. Dentro dessa pasta está uma carta que o teu avô me escreveu e que, por razões que nunca saberemos, não saiu desta pasta. Algo que me comoveu profundamente.
-Imagino, claro! Como já sabes, isto vai estar em muito boas mãos. – responde Alfredo dando um longo e terno abraço em sua mãe.
Este foi um dia de alegre convívio familiar onde as saudades foram perdendo a sua intensidade.
A convite dos anfitriões, o almoço foi num restaurante icónico de Cascais, o “Mar do Inferno”. O marisco dominou o ambiente. As provas de vinho deram uma especial satisfação a Joaquim. Para este português da cidade do Porto, radicado há muito na Austrália, não faltava nada.
Uma retrospectiva da última viagem de Alfredo e Susana por África na companhia de Stephen Logan, os acontecimentos no novo Portugal, as vivências em Moçambique e a vida australiana e as recentes notícias de Fiona da África do Sul estiveram sobre a mesa. O pequeno Afonso preencheu os melhores sorrisos destes avós recém chegados.
Como seria expectável, o regresso passado algumas horas à casa marcou uma oportunidade espelhada na ansiedade de Alfredo. Consultar os conteúdos deixados no tempo por seu avô Donald, agora trazidos ao seu conhecimento.
Para sua satisfação, o tema tratado neste novo conjunto de textos e ilustrações é centrado essencialmente no Grande Zimbabwe. Alfredo depara-se com uma variedade de novos elementos a acrescentar aos que já tinha em sua posse. Uma leitura que, inevitavelmente, agitou alguns fantasmas adormecidos no seu espírito. Impulsionado pela prosa trocada mais cedo com sua mãe Margareth, Alfredo busca a tal pasta amarela.
Nesta pasta desgastada pelo tempo, pode ler-se o título “On behalf of the Shona people”
Na primeira folha deste conjunto de documentos amarelados, surge a tal carta redigida em inglês que chama particularmente à sua atenção.
“Dearest Margareth,
Fui ao longo desta vida um pai e um marido ausente.
Alguém que correu o mundo atrás das suas convicções, do conhecimento, da curiosidade e de respostas a tantas perguntas.
Não sei se a vida que me resta me permitirá um dia compensar esta minha ausência.
Passei por muitas partes deste nosso mundo acreditando que este se tornaria mais pequeno com tantas andanças, mas tal não aconteceu. Este foi ficando cada vez maior perante o meu olhar deslumbrado pela vida, atravessando diferentes meridianos e paralelos à procura de respostas.
Por razões que só o destino interpreta, dediquei uma especial atenção à região do Grande Zimbabwe, na África austral e à existência do império de Mwene Mutapa onde se insere o fascinante povo Shona sobre o qual aprofundei os meus conhecimentos.
Apesar de, ao longo da minha existência, ter desenvolvido atividades em nome da coroa britânica na qualidade de diplomata honorário, investigador e agente secreto, fui sobretudo um naturalista e humanista que sempre lutou contra as barbáries e injustiças institucionais avalizadas por grandes poderes dominantes. Como é exemplo gritante a escravatura durante séculos no continente africano.
Corre-me nas veias puro sangue escocês, não corre sangue inglês.
As questões ancestrais do povo Shona e a queda de um dos mais antigos impérios africanos é um claro exemplo das atrocidades perpetradas pelas autoridades inglesas na África negra em prol do crescimento económico do império britânico, no qual vaidosamente se diz, o império onde o sol nunca se põe!
Através de muita investigação vieram ao meu conhecimento, algumas vezes através de meios menos ortodoxos, um conjunto de informações e pistas relativas a factos ali ocorridos que não mais deixaram a minha alma indiferente. Factos que o mundo civilizado parece desconhecer, o que não é de todo aceitável.
Não se trata de retórica ou filosofia em mera defesa dos mais fracos. Há factos por demais evidentes e documentos oficiais que comprovam esta epopeia de horrores. Outros tantos estão por recolher naquela região austral.
Já não tenho o vigor que tive em outros tempos. Mas é chegada a hora de agir e oferecer ao conhecimento da opinião pública internacional os contornos de toda esta barbárie.
Neste sentido dirijo-me por uma última vez à Rodésia do Sul com o propósito de completar este processo, sendo prevista uma posterior passagem em New York onde fui convidado a contar o que sei ao “New York Herald”. Aceitei. Perguntar-me-ão porque razão o faço.
Lendo os inúmeros relatos que elaborei sobre esta epopeia, creio que é tempo de devolver o lendário Anel de Justiça ao povo Shona. Muitos ficarão a saber a que me refiro.
Sendo assim, e porque a minha idade já não me permite continuar o meu percurso errante, esta será a última viagem que farei por este mundo que tanto admiro, regressando à Austrália onde pretendo viver os meus dias junto dos meus. Algo que devo a todos vós.
Apelo ao universo para que este meu desejo se concretize. Possa eu devolver a todos algum do tempo que vos soneguei durante uma vida.
Com todo o amor deste teu pai.
Donald “
Com total estupefação e com a emoção a explodir pelos poros, Alfredo prossegue a sua consulta:
Noutro documento de Donald, pode ler-se:
“Os Mwene Mutapa foram a primeira grande civilização a estabelecer-se na região do Grande Zimbabwe. Este império, liderado por um chefe tribal de grande prestígio, foi fundado por volta de 1420 no seio do povo Karanga, centrado naquela região.
Em meados da década de 1440, o império incluía quase todo o plateau do Zimbabwe e extensas partes do que é hoje Moçambique. Era governado de maneira piramidal, com os Mwene Mutapa nomeando vassalos de base regional. A riqueza desse império era baseada em indústrias de pequena escala, como fundição de ferro, têxteis, extração de ouro e cobre, além da agricultura. No seu auge de crescimento, o estado de Mwene Mutapa fazia parte de uma rede de comércio de ouro que se estendia até ao oriente distante.
Um império que floresceu entre os séculos XV e XVIII.
Com a chegada do navegador português Vasco da Gama, em 1498, à costa oriental do oceano Índico, abria-se uma nova era nesta região do mundo.
O interesse estratégico por este território não mais saiu das vistas da coroa portuguesa.
A retratar este interesse estão ocorrências importantes:
1505 – Ocupação oficial das regiões de Sofala e Ilha de Moçambique.
1580 a 1700 – Ocupação oficial da zona da Zambézia como uma região rica em recursos. Dando-se inicio ao povoamento.
1700 e 1880 – Ocupação oficial das ilhas do Ibo, a Ilha de Moçambique, Quelimane, o Rio Zambeze, Sofala, Inhambane e Baía da Lagoa (Delagoa bay).
No decorrer deste processo de ocupação, os portugueses sempre tiveram desejos de expansão para o interior. Mais precisamente para a região de Mwene Mutapa.
Motivos principais: marcar a sua posição na extração em quantidades expressivas de ouro e outras riquezas minerais que eram escoados através de Sofala e outros pontos da costa. Produtos destinados aos comerciantes swaili, árabes, do continente indiano e oriente distante, através do oceano Índico.
1510 – Nos primeiros contactos dos portugueses com Mwene Mutapa, a resistência encontrada foi grande. Alguns emissários são enviados pela coroa portuguesa para estabelecer conversações com os régulos locais.
1560 – D. Gonçalo da Silveira, um missionário jesuíta português, visitou Mwene Mutapa onde rapidamente iniciou a conversão do povo Shona ao cristianismo. Por receios de demasiada interferência nos interesses da região, o rei Nogomo Mupunzagato manda assassinar este missionário.
Portugal ouve entretanto falar do anel da justiça e do poder místico ancestral exercido por esta joia no seio do povo Shona. Um anel real que teria desaparecido no tempo do rei Mutope. Chega ao conhecimento dos regentes portugueses que o referido anel teria sido usurpado por um rival deste rei , de nome Bvumba.
Numa manobra perigosa e compreendendo o valor deste anel para o povo Shona, Portugal contrata alguns bandoleiros sem escrúpulos que, a troco de um bom soldo, resgatam o anel entregando-o às autoridades portuguesas.
Corre rapidamente a notícia que Portugal se apoderara da joia mais querida do império.
Portugal tem agora um grande trunfo em mãos para dominar a área. A coroa mantém assim a sua hegemonia da região explorando ao seu belo prazer as suas riquezas durante mais de três séculos.
A presença dos portugueses teve um sério impacto no comércio do Império Mwene Mutapa. Gerou uma série de guerras tribais internas, deixando este império tão enfraquecido que entrou no século XVII em sério declínio. Em meados do século XVII, os portugueses controlavam totalmente o comércio originado na região que passaram a designar de Monomotapa.
Tal hegemonia deu sinais de começar a abrandar a partir de 1690.
Por volta de 1885, Diogo Miranda, um português de mau caráter que fora mal tratado pelas autoridades portuguesas, descobre a localização do anel. Num intuito de vingança faz um acordo com um chefe tribal de nome Shangwe, que é rival dos régulos locais, tendo em vista o resgate da joia.
Passado semanas, este anel foi objeto de um sangrento, mas bem sucedido resgate.
Visando a sua troca por grandes vantagens pessoais na região, a joia resgatada é agora negociada com as autoridades britânicas que trazem os olhos bem abertos sobre a região do Grande Zimbabwe.
Concretizada esta negociata com as autoridades inglesas, este português dissidente e o referido chefe tribal passam a possuir terras de mineração, garantindo deste modo o seu rápido enriquecimento e o seu futuro.
Os ingleses em poder do anel passam a ter o domínio sobre o povo Shona, expandindo os seus interesses numa vasta área do interior do continente e deixando os portugueses confinados ao controle das regiões abrangidas pelo território de Moçambique, junto ao Índico.
Outro facto que impulsionou os portugueses a contentar-se com esta nova condição e permanecer junto à costa oriental, foi a aparição de um novo negócio altamente rentável. A compra e venda de escravos.
Inicia-se assim neste e em muitos outros pontos da costa africana sob influência portuguesa, uma era negra na história da humanidade. A escravatura.
Em consequência da crescente hegemonia britânica na região, surge em 1888 o empresário inglês Cecil Rhodes que obteve a concessão dos direitos para exploração de minerais da área do Grande Zimbabwe, região que gradualmente se transforma numa importante esfera de influência britânica.
Em 1891, grande parte da África Austral se transforma num protetorado britânico, sob os auspícios da companhia De Beers Mining Company, fundada por Rhodes. Toma assim corpo a exploração extensiva de grande quantidade de ouro e outros minérios, ignorando a presença dócil do povo Shona, subjugado pelos ingleses detentores do Anel da Justiça.
Uma era de usurpação selvagem,a qualquer preço, de zonas auríferas.
Em 1895, administrada pela Companhia Britânica da África do Sul, é oficialmente formada a Rodésia do Sul, em homenagem a Rhodes.
Em 1923, a Rodésia do Sul é anexada pelo Reino Unido.”
A estupefação de Alfredo cresce diante de todo um conjunto de respostas que vão gradualmente surgindo no horizonte.
Mais adiante, Alfredo pode agora ver relatos circunstanciais de factos ocorridos na região do grande Zinbabwe, relacionados com a queda do império de Mwene Mutapa, com forte incidência na vida da tribo Shona.
Nestes documentos estão incluídos:
– Informações cadastrais de terras auríferas e documentos oficiais de carácter sigiloso reveladoras de grandes interesses coloniais nestas áreas.
-Documentos de valor jurídico para a tomada de posse destas terras – com a chancela do Império Britânico.
-Queixas oficiais no âmbito de violação dos Direitos Humanos por parte de organizações humanitárias e religiosas.
– Relatos de massacres em zonas auríferas e assassinatos de chefes tribais.
-Actas de reuniões com a participação de autoridades de alto nível e com a chancela do Império Britânico.
-Documentos sobre a concessão dada à “De Beers mining company” em território Shona.
Uma pergunta atravessou de imediato o espírito de Alfredo.
Que outros documentos seriam estes que o seu avô esperava recuperar em solo rodesiano nesta sua última viagem?
A resposta surgiu numa folha dobrada no final desta pasta. Aqui Alfredo pode ler alguns nomes de pessoas e instituições a contactar na sua deslocação à Rodésia.
Como uma faísca, outro pensamento atravessa o seu espírito.
Tsehai estava certa quanto ao Anel da Justiça.
Uma forte convicção assalta agora o sua mente em brasa, surgindo à frente dos seus olhos os motivos que, muito provavelmente, estarão por trás do desaparecimento deste seu parente em 1935.
Matéria mais que suficiente para Alfredo exponenciar a pergunta que há muito o persegue. O que aconteceu verdadeiramente a Donald Stewart Mackenzie?
Uma nova febre passa a ocupar os seus maiores anseios.
Regressar à Rodésia com o intuito de aprofundar uma matéria que agora é do seu amplo conhecimento.
Retomando os seus sentidos, Alfredo sabe dos riscos de uma deslocação à Rodésia.
Uma viagem que já não seria como a que realizou em 1971, em companhia do seu colega Arthur Jenkins, quando visitaram a região percorrida noutros tempos pelo seu avô . Tal já nem seria possível dadas as condições de uma feroz luta armada pela independência, em curso no país. Antes, uma viagem centrada na obtenção de mais provas factuais dos acontecimentos relatados nos documentos que acaba de receber.
A estadia do casal Souza Campos em Portugal foi passando, embalada pelo doce convívio familiar que incluiu o do Manuel, irmão de Joaquim, e sua família, que já não se cruzavam há alguns anos.
Este convívio gerou uma ida conjunta à cidade do Porto, local de origem dos Souza Campos. Dias de boa memória pela agradável convivência com parentes da segunda e terceira gerações, visitas a vinícolas desta famosa região no norte de Portugal, bem como algumas provas gastronómicas.
Passadas as três semanas destas excelentes férias em Portugal, é tempo das calorosas despedidas.
Em todos fica a doce emoção de dias de calor familiar guardado em corações que as grandes distâncias inevitavelmente separam.
O regresso à Austrália do casal Souza Campos foi longo, mas sem percalços.
Na casa de Cascais o tema principal é a viagem que Alfredo decide fazer à Rodésia, no intuito da recolher mais algumas pistas.
Desta vez, sem a companhia de Susana, que ficará com o filho em Portugal.
Para tal, Alfredo começa por tentar localizar o seu colega e amigo Arthur Jenkins. Para seu grande agrado fica a saber que o mesmo ainda vive na Rodésia. Um contacto telefónico foi o ponto de partida para dar corpo a esta sua nova deslocação ao hemisfério sul.
Para sua satisfação, Alfredo fica a saber que pode contar com o apoio logístico do colega e amigo em solo rodesiano, com quem troca algumas prosas em torno dos motivos que o movem nesta deslocação.
Este programa implica agora a compra de um bilhete de avião, ida e volta, por um período de dez dias, obtenção de vistos, compra de divisas, toma de vacinas obrigatórias, etc.
Na capital, Salisbury, ficará hospedado em casa de Arthur, a quem explicará mais detalhadamente o propósito da sua viagem.
Tomando um melhor conhecimento sobre a atual Rodésia através de troca de uma boa prosa com o colega e leitura de alguns jornais ingleses, Alfredo toma consciência que neste seu regresso ao continente africano irá encarar um país bem diferente.
Quando em 1971 deixou a Rodésia do Sul, esta tinha decretado unilateralmente a sua independência perante o Reino Unido no ano de 1965, sob o comando de Ian Smith à frente de uma minoria branca.
Como consequência, a ONU imprimiu um bloqueio económico ao país e, em paralelo, a União Nacional Africana do Zimbabwe – Zanu lançou uma guerrilha feroz contra o regime. Movimento este que ganhou um extraordinário impulso após a independência de Moçambique, em 1975.
É neste ambiente, de um país a resistir como pode a tamanhas adversidades, que Alfredo vai tentar a sua sorte.
Susana está naturalmente preocupada com esta febre do seu companheiro. Mas conhece bem demais as causas para não tentar impedir Alfredo de partir.
-Meu querido! Sei o que sentes na tua alma e o que te impele a voltar à Rodésia. Mas aquele país está um caos e estou em pânico com a ideia.
-Susana, meu anjo! Irei por apenas dez dias e num esfregar de olhos estarei de volta à nossa vida.
-Não te esqueças que agora somos três.
-Levo os dois aqui, bem guardados! -responde Alfredo com a mão sobre o peito.
Na hora da despedida, Alfredo abraça fortemente Susana e o pequeno Afonso, sentindo no seu espírito que o universo conspira a seu favor.
20 de Julho de 1978
Nesta manhã quente de Lisboa, Alfredo abre um novo capítulo na sua vida. Regressar à África austral com um propósito diferente.
Assim faz o seu embarque para a Londres via TAP e passadas duas horas de escala em Heathrow, inicia um novo voo para Salisbury com a South African Airways.
Um voo carregado de pensamentos e recordações do seu tempo de estudante na Rodésia.
À sua chegada a Salisbury, onde não pisa há sete anos, está o seu colega de Universidade Arthur Jenkins.
A recepção foi calorosa ultrapassando as expectativas de Alfredo.
Na sequência de um forte abraço é agora tempo de colocar em dia as inúmeras novidades da vida de cada um.
Arthur mantém-se até hoje na Rodesia, casado com uma jovem inglesa de nome Kate, onde uma vez concluído o seu curso se dedica a trabalhar em colaboração com revistas de ciência e organização de eventos internacionais na Rodesia e na África do Sul.
A caminho da casa de Arthur, onde Alfredo ficará hospedado, vão passando as imagens familiares da cidade que o tempo e a história marcaram com os acontecimentos vividos neste país ao longo dos últimos anos.
-E aí, Arthur? És um resistente! – exclama Alfredo.
-Face às transformações deste país podes dizê-lo. O ambiente social na Rodesia está muito complicado.
-Conta mais! – responde Alfredo com uma curiosidade aguçada
Num circuito urbano que é familiar a Alfredo apesar da longa ausência, Arthur explica:
-Muito recentemente, o regime de Ian Smith viu-se forçado a aceitar a entrada de membros negros no governo e a minoria branca encara pela primeira vez um acordo político com alguns partidos negros, garantindo 28 dos 100 assentos do parlamento para os brancos, o controlo das forças armadas e o poder judicial. Vamos ver até quando.
-Puxa! Está sério assim? – pergunta Alfredo com um ar grave.
Arthur prossegue:
-A grande quantidade de brancos espalhados pelas “Farms” vive as incertezas de uma causa perdida face aos avanços do partido independentista ZANU e outros que se formaram entretanto, ganhando força política e militar. A Rodésia que conhecemos naquele tempo de estudantes está a desmoronar. Eu mesmo não sei até quando estarei por cá.
Uma vez em casa de Arthur onde Alfredo é apresentado à sua esposa Kate, o diálogo continua ao som de umas cervejas geladas de fabrico nacional.
Confortavelmente instalados, Arthur prossegue:
-Pois é, Alfredo! A situação é nua e crua! Na atual Rodésia os negros estão a matar brancos num país governado por brancos. A partir deste ano, grupos de guerrilheiros nacionalistas infiltraram-se nas aldeias no nordeste começando a conviver com homens das tribos locais. De dia fazem-se passar por agricultores e à noite dão corpo a ações de guerrilha atacando as farms e não só. Um clássico das guerras de guerrilha que foi muito usado na luta pela independência de Moçambique, contra os portugueses. Já há relatos de ataques de guerrilheiros com rifles, granadas e até poderosos foguetes antitanque.
– A sério! – exclama Alfredo espantado.
-Pois é! Isto levou o governo a tomar medidas punitivas contra civis negros coniventes com o movimento, agravando a polarização racial no país e atiçando ainda mais os instintos dos mais de cinco milhões de negros espalhados pela Rodésia.
No seio da opinião pública branca, a revolta crescente da população negra não representa uma ameaça séria para os 250.000 brancos, apesar de estarem em minoria. Mas estão cientes que tal compromete seriamente problemas políticos possivelmente insolúveis.
Apesar de tudo, a vida continua na Rodésia como um todo, sem afetar drasticamente o quotidiano e os meios de subsistência da grande maioria dos brancos que dizem que irão resistir. No pensamento de muitos destes, a Rodésia é o seu país e não têm uma homeland para onde regressar.
-Pois! Recordo-me que já no tempo de escola ouvíamos muitos colegas falar assim. -retorna Alfredo com uma expressão séria.
– Estão cerca de 200 famílias de fazendeiros brancos a viver e resistir nas áreas de perigo. Em geral não parece haver razão para otimismo por parte destes. Um elemento novo e significativo veio perturbar este ambiente. A criação de um corredor a partir de Moçambique, recém independente, constituído por guerrilheiros que combateram durante longos anos o portugueses. Isto obrigou as forças armadas da Rodésia a reforçar a vigilância ao longo de centenas de quilómetros de fronteira.
– Os guerrilheiros contra o atual regime, parecem estar muito mais bem treinados, armados, liderados e motivados do que nos anos sessenta. Por outro lado, a maioria dos cidadãos rodesianos do sexo masculino está no exército ou na reserva policial. Ouve-se dizer que há novos recrutamentos a partir da África do Sul.
Alfredo, algo estupefacto com todo este relato, exclama:
-Pois é, meu caro! A situação não está para brincadeiras. Agora compreendo quando admites que o teu futuro pode não ser na Rodésia.
– É difícil de prever. Face a tudo isto ainda é comum ouvir alguns brancos aqui radicados afirmar:
“Sabemos que isto não vai desaparecer e teremos que viver com esta instabilidade pelo resto das nossas vidas. Será que vale a pena?”
-Efetivamente! Dá que pensar! – retorna Alfredo.
-Mas vamos ao tema que te fez regressar a estas paragens.
Alfredo, usando a sua clareza de espírito, explica ao seu colega de forma mais detalhada as motivações desta sua deslocação à Rodésia.
Arthur, após escutar com toda a atenção este relato, diz:
-Depois de ouvir a breve explicação que me deste ao telefone e confirmares a tua vinda, a minha cabeça pôs-se em marcha.
-E então?
-Então acho que tenho uma pessoa que vai poder ajudar-te. Um sujeito de origem shona, muito bem informado sobre matéria histórica da Rodésia, dado que o seu pai foi um influente comerciante com importantes ligações à administração do território.
-Fantástico! – exclama Alfredo visivelmente entusiasmado.
– O seu nome é Tinashe Kimbala e podemos marcar com ele um encontro amanhã pela manhã. Agora tem uma condição, amigo.
-Que condição? – quer saber o jovem antropólogo.
-O que precisas vai ser envolto em alguma delicadeza e clandestinidade. Ele certamente vai ter que passar algumas barreiras administrativas utilizando para isso o velho sistema africano.
-Pois! Sei a que te referes. Abrir as portas administrativas com a força dos dollars, certo?
-Nem mais! África no seu melhor. – conclui Arthur
-Sem problema, meu caro. Vim preparado para isso.
A apresentação de Tinashe Kimbala a Alfredo é feita na manhã seguinte num café perto de casa. Este personagem de traços faciais bem definidos e portador de um notável conhecimento do seu país, tem um certo orgulho no olhar, uma estatura de 1,75 m e vem trajado de forma casual muito ao gosto da maioria dos homens na Rodésia.
A conversa é mantida em voz reduzida, numa cidade onde as notícias se propagam através do ar. Uma troca de ideias onde Alfredo compreende que esta tarefa será alcançada com a devida paciência, uma parte aqui na capital e outra em Bulawayo, para onde terão que se deslocar por um período de alguns dias. As somas envolvidas nesta missão serão do conhecimento de Alfredo, após alguns contactos a realizar junto de funcionários da administração local no dia seguinte.
Enquanto o processo corre, Alfredo aproveita a sua estadia para revisitar a cidade que o acolheu no passado, incluindo uma visita à Universidade de Salisbury e à escola Prince Edward School, onde deu os seus primeiros passos nas artes da fotografia.
Em Salisbury faz-se notar o ambiente social e político que o país atravessa. Há cartazes espalhados pela cidade com propaganda governamental e sinais claros da oposição clandestina através de palavras de ordem e frases escritas sobre estes cartazes, fachadas de edifícios e lugares públicos. E igualmente sinais de repressão que se fazem sentir a cada canto por onde Alfredo vai circulando. A reunião de negros aqui e ali é imediatamente dispersada.
Apesar de o governo demonstrar sinais de orgulho rodesiano, sente-se o peso de um apartheid dissimulado, bem patente no quotidiano desta sociedade.
Cuidadosamente, e com a sua Nikon dentro da bolsa a tira colo, Alfredo capta algumas situações dignas de registo. Nunca perdendo de vista a regra de não fotografar temas que possam gerar algum tipo de conflito ou polémica.
Na visita que Alfredo faz à Universidade de Salisbury tem a satisfação de reencontrar um professor de quem guardou excelentes recordações. Numa longa conversa que partilharam, Alfredo ficou a saber mais sobre a atual situação da Rodésia.
– Podemos afirmar que, desde o ano passado, há um crescente clima de guerra na Rodésia.
Os três principais players em guerra são o exército rodesiano, agindo em nome do governo da minoria branca, apoiado pela África do Sul, o ZIPRA, o exército guerrilheiro da ZAPU operando na Zâmbia com apoio da União Soviética, o exército guerrilheiro ZANU operando a partir de Moçambique. O objetivo destes grupos guerrilheiros é minar o controle governamental da Rodésia sobre a população rural, interrompendo todos os serviços públicos e uma campanha de intimidação dirigida pelos chefes locais para minar seu poder tradicional subjugado e substituí-lo por poderes efetivos.
Estes movimentos têm uma estratégia militar maoísta traduzindo-se principalmente em ataques surpresa, sabotagem, emboscadas e minas terrestres. E alvos específicos, como sendo infraestrutura estratégicas, como linhas ferroviárias, fábricas, estradas e pontes.
-Terrível o quadro que me está a relatar, professor. – diz Alfredo impressionado.
– Tem mais, Alfredo!
– O ano de 1978 foi declarado pela ZANU como o “Ano do Povo”. Com o propósito de mobilização política de toda a população rural e preparação para, em 1979, declarar o “Ano da Tempestade Popular”. Sendo este considerado o ataque final contra o governo da minoria branca na Rodésia. Por outro lado, a ZIPRA mantém-se ativa como um exército de guerrilha que, a partir deste ano, se envolve em ataques de terrorismo urbano a centrais elétricas e aeroportos.
A estratégia destes movimentos estava de início mais focada na guerra convencional e os seus exércitos estão a ser treinados em numerosos campos de guerrilheiros na Zâmbia, Angola e Botsuana. Fala-se muito na Hora Zero da grande operação.
-E isso significa o quê, professor?
-Uma estratégia militar desenvolvida recentemente que envolve uma grande ofensiva militar visando a vitória final.
-E diga-me, professor. Como é que está a par de tudo isto?
-Tenho um parente que está ligado aos serviços de inteligência do exército. Sabe o que lhe digo, meu jovem. Faça a sua passagem por cá, mate as suas saudades, reveja os amigos, mas depois siga este meu conselho. Saia da Rodésia, Alfredo. Não existe futuro neste país conforme o conhecemos.
-E como encara a sua estadia por cá?
-Com muitas dúvidas! Já tenho os meus planos para por em marcha se isto se agravar.
Com um forte abraço e alguma angústia na alma, Alfredo despede-se deste personagem que guardou na memória. As palavras do professor tinham a carga de uma profecia.
No dia seguinte, por volta das nove e quinze da noite, ouve-se ao longe um enorme estrondo e um gigantesco fogo eclodir na zona dos depósitos de petróleo da capital.
Arthur e Alfredo, espantados, saem para a rua. Compreendem, passado momentos, que se trata de alguma ação de sabotagem no depósito de petróleo localizado na área industrial, perto do centro. Uma unidade de armazenamento composta de 32 tanques cheios de gasolina, querosene e diesel pertencentes às empresas Shell e BP.
Aproximando-se o mais próximo do local de carro, dez minutos após o início do incêndio, a área está totalmente controlada pelo exército, polícia e o corpo de bombeiros que já estão a atuar em redor dos depósitos em chamas. Segue-se a total evacuação de civis, o bloqueio do perímetro e de todas as estradas circundantes.
É face a este incidente que Alfredo se dá verdadeiramente conta que tem que cumprir a sua missão de deixar, assim que possível, a Rodésia.
Num novo contacto telefónico com Susana, Alfredo é cuidadoso com as palavras, poupando a sua companheira de certos detalhes da realidade atual do país.
Mais perto da hora de almoço, Alfredo dirige-se para o centro onde conta almoçar num dos restaurantes mais frequentados da capital. Andando a pé por ruas que conheceu bem noutros tempos, o sentimento de insegurança é uma constante. Neste ambiente a captura de fotografias não encontra a habitual motivação.
Sentado em um dos locais emblemáticos de Salisbury, o Bamboo Inn, cuja especialidade é a gastronomia oriental, Alfredo vai matar saudades de algumas das delícias ali servidas.
A escolha foi pelos saborosos camarões agridoces, panados e fritos numa massa crocante e dourada. De seguida a sua escolha foi por uma porção generosa de chow-mein de frango, um prato cheio de peito de frango macio, legumes fritos, incluindo couve-flor, feijão verde e a deliciosa pasta oriental fina e macia, al dente. Tudo regado com umas cervejas locais bem geladas. Lá surgiu a tal frase que aprendeu no Brasil. Se melhorar, estraga!
Entretanto, passa os olhos pelo “Sunday mail” onde cruza um artigo que reforça bem os temores dos brancos aqui residentes.
“Na noite de 23 de junho de 1978, a Missão Elim nas Terras Altas da Rodésia foi submetida ao pior massacre de missionários já noticiado em solo Rodesiano.
Oito missionários britânicos e quatro crianças pequenas – incluindo um bebê de três semanas – foram mortos à baioneta por terroristas na fronteira oriental da Rodésia, na sexta-feira à noite. O pior massacre de brancos desde o início da guerra seis anos atrás.
Três dos missionários eram homens e os outros cinco mulheres.
Uma sexta mulher foi esfaqueada, espancada e deixada para morrer. Ela cambaleou 300 m no gelo da noite abrigando-se nuns arbustos para passar a noite antes de ser encontrada semiconsciente pelas forças de segurança. Apesar dos cuidados intensivos prestados num hospital de Salisbury, veio a morrer posteriormente.
Outros assassinatos hediondos, foram cometidos por um grupo de oito a dez terroristas, na Escola Missionária Emmanuel – 15 km a sudeste de Umtali e 8 km da fronteira com Moçambique – antes usada como internato da Eagle.
A maioria das mulheres havia sido agredida sexualmente e uma mutilada.
As crianças foram arrastadas de suas camas. Duas crianças estavam de pijama amarelo, uma com um roupão vermelho e uma terceira com uma camisola florida.
Uma criança tinha os pequenos polegares cerrados nas palmas das mãos.
O massacre começou pouco antes das 8.30h quando as famílias brancas foram forçadas pelos terroristas a sair de suas casas e salas de aula e marchar para um campo de jogos.
Perto do pavilhão desportivo, a cerca de 400 m da escola principal, eles foram divididos em grupos, depois espancados com pedaços de madeira e esfaqueados.
Quando as forças de segurança chegaram ao local, o horror e o choque face a tamanha barbárie, não se traduz por palavras.”
Alfredo preferiu parar por aqui a sua leitura. Até falta o ar. O seu avô Donald não teria como imaginar onde chegou a Rodésia que conheceu noutros tempos. – pensou.
Alfredo toma uma decisão importante. Manter-se o mais possível resguardado de acontecimentos sociais.
Três dias se passaram desde a sua chegada a Salisbury. A expectativa quanto ao cumprimento dos seus objetivos aumenta.
Sentimento confirmado por uma reunião anunciada com Tinashe em casa de Arthur, na manhã seguinte. Uma reunião que, dado o tema em questão, é naturalmente dotada de alguma privacidade.
Com um semblante de missão cumprida, Tinashe faz uma exposição dos resultados obtidos através dos contactos tidos com os seus interlocutores, que receberam uma quantia inicial de 50% do dinheiro acordado, sendo-lhes paga a restante parte com a entrega dos documentos.
Deste lote de informações de caráter sigiloso, constam os seguintes documentos:
– Acta da criação, em 1889, da BSAC (British South Africa Company), entre Cecil Rhodes e a coroa Britânica com o objetivo de colonizar e explorar o território, principalmente em busca de diamantes, ouro e outros recursos minerais. Assinada por Rhodes e o alto comissário para os assuntos africanos.
-Documento militar decretando o envio de tropas britânicas para ocupação e consolidação do território. Com a chancela da coroa britânica.
-Documento militar decretando a construção dos fortes de Victoria e o Salisbury. Com a chancela da coroa britânica.
-Documento militar determinando a imposição de autoridade sobre os principais povos da região. Os shona, etnia predominante no centro e norte do país e, os ndenbele, ao sul do território (região de Bulawayo) ditando o domínio de suas terras. Com a chancela da coroa britânica.
-Decreto para expropriação de terras indígenas destinadas ao cultivo com criação das Native Reserves. Com a chancela da coroa britânica.
-Relatos de historiadores acerca do “Anel da justiça” e sua influência no povo Shona.
-Autos policiais da investigação e buscas acerca do desaparecimento de Donald Stewart Mackenzie, em 1935.
Tinashe, satisfeito com a reação positiva de Alfredo, acrescenta:
-Estive a conversar deste tema com um colega de Bulawayo ligado à administração local. Ele acha que valerá a pena uma deslocação a Bulawayo. Haverá por lá outros documentos que podem interessar-lhe.
-Esse colega é da sua confiança? – indaga Alfredo preocupado.
– Inteira confiança. Somos parentes afastados.
– Que tipo de documentos?
– Alguns decretos emitidos pela coroa britânica e mais ilustrações históricas sobre aquele período.
Satisfeito com os resultados obtidos até aqui, Alfredo prossegue:
-Ainda tenho alguns dias pela frente. Estou com certeza interessado nessa viagem, mas francamente preocupado com o fator segurança.
Ao que Tinashe responde:
-Terei que falar com um amigo que nos pode conduzir até lá. E teremos que lá dormir umas duas noites em algum hotel. Como sabe, tudo isto vai ter mais custos.
-Sem problema! -retorna Alfredo. Mas, e quanto aos riscos desta viagem?
-Temos que confiar na nossa sorte, sabe! O país está como você vê. Mas com alguma sabedoria e instinto vamos alcançar o objetivo. Confie em mim.
Com a necessária coragem, Alfredo retorna:
-Pode tratar do transporte e da dormida em Bulawayo?
-Assim farei! Partiremos amanhã cedo. Passaremos aqui pelas 7 horas da manhã.
Nasce assim a necessidade de uma nova etapa para cumprir em terras da Rodésia.
Às primeiras horas de um novo dia, Alfredo e Tinashe embarcam com o tal amigo de nome Hasan, rumo ao sudoeste do território. Novo destino, Bulawayo.
A estrada é razoável e o carro, que já não é novo, dá sinais de cumprir esta missão. Assim se espera! Por percorrer estão cerca de 440 quilómetros, a fazer em cerca de 7 horas incluindo uma paragem para almoço. Ao longo do caminho vão cruzando algumas patrulhas militares. Não é difícil entender que estão num país que vive sobre uma espécie de bomba relógio.
-Fale-me um pouco sobre Bulawayo. – pede Alfredo ao seu companheiro de viagem, confirmando que esta é a sua primeira visita aquela cidade.
-Então vamos lá! – prossegue Tinashe.
-Como é do seu conhecimento, Bulawayo é a segunda maior cidade da Rodésia depois da capital Salisbury.
Historicamente considerada como o grande centro do império zulu , tendo sido durante um longo período o Krall de Shaka Zulu, o mais famoso guerreiro e líder do povo Zulu.
Cidade fundada por volta de 1840 e governada pelas forças tribais até 1893, quando o assentamento foi capturado pelos soldados da Companhia Britânica da África do Sul após a Guerra de Matabele. Naquele ano, os primeiros colonos brancos de origem inglesa chegaram e reconstruiram a cidade.
-Interessante! E qual a sua importância económica?
-Bulawayo é uma das cidades mais antigas e historicamente mais importantes da Rodésia do Sul. Cresceu expressivamente neste período colonial, tendo conquistado o estatuto de significativo polo industrial e um importante centro de transportes com ligações à África do Sul.
– E em relação a toda esta agitação? Como se vive por lá?
-Com a atual instabilidade político-social que se vive no país, Bulawayo tornou-se uma cidade mais perigosa. Ali devem-se evitar manifestações de caráter político. As consequências podem ser imprevisíveis, pois a pressão racial está instalada e a luta armada ganha terreno. Quem circula atualmente em Bulawayo, sobretudo quem não conhece, deve ter um alto grau de observação do ambiente social e acompanhar de perto o que vai surgindo nos jornais. Não é permitido fotografar membros da polícia e das forças armadas ou manifestações e protestos.
-Puxa! Está portanto tão mal como Salisbury, certo?
-Está, sim! A abstenção de opiniões políticas em locais públicos é a melhor atitude. Circular com a identificação à mão, é importante. A qualquer momento é necessário mostrá-la às forças de segurança. E, sobretudo, evitar locais com maior concentração humana.
Tempo de parar junto a um motel de estrada onde aproveitam para fazer o plano de gasolina e comer alguma coisa. A escolha gastronómica não é propriamente apetitosa, mas é o que se pode ter.
Aproveitando para fazer as suas necessidades básicas, os três viajantes retomam a sua marcha rumo a Bulawayo. O calor faz-se sentir.
Uns dez quilómetros mais à frente, numa zona de mata mais densa, a marcha abranda e o motorista Hasan diz algo a Tinashe no dialeto local. Algo de estranho se passa ali adiante.
Tinashe diz de imediato a Alfredo:
-São guerrilheiros da ZANU. Mantenha-se calmo e não diga nada.
Não tiveram outra opção senão parar junto a uma patrulha de cinco guerrilheiros mal encarados, vestidos de camuflado e armados até aos dentes.
Estes olham para dentro do carro e num dialeto que Alfredo desconhece, fazem sinal com a Kalashnikov em riste para saírem do carro.
Uma vez no exterior e sujeitos a uma linguagem de tom agressivo, são agora obrigados a deitar de barriga no asfalto.
Alfredo tenta manter o sangue frio. Não está fácil pois o mesmo corre quente e a alta velocidade dentro das veias.
Num inglês macarrónico, um dos guerrilheiros encosta o cano da arma ao pescoço de Alfredo, perguntando:
-Are you English?
Olhando de soslaio para Tinashe e com o coração bem acelerado, Alfredo responde:
-No! I´m Australian.
-Passaport?
Alfredo aponta para a sua bolsa que deixara no interior do veículo.
Um dos gorilas, talvez o mais mal encarado, recolhe a bolsa de Alfredo e a abre com alguma rispidez. Naquele instante, toma posse da sua carteira e da sua máquina fotográfica. Abre de seguida o seu passaporte de nacionalidade australiana. O que Alfredo opta por utilizar sempre que se desloca a países de expressão inglesa.
Para sua grande apreensão, este guerrilheiro não mais solta a sua máquina fotográfica.
O diálogo prossegue no tal dialeto com os seus companheiros.
Ainda deitados de barriga no asfalto, Alfredo compreende que o que pretendem agora é dinheiro. Confirmada esta intenção, Alfredo vê a sua carteira perder os 200 dólares que trazia para as despesas correntes. Se escaparem com vida desta aventura já será um dia ganho! – pensou.
Com mais algumas palavras em tom agressivo trocadas com Tinashe, Alfredo compreende aliviado que o pior já passou. Infelizmente está equivocado. A intenção daquele gorila de devolver a sua Nikon é uma mera ilusão.
Uma vez autorizados a colocar-se de pé, Alfredo desesperado faz sinal para lhe devolver o aparelho.
A resposta foi imediata. Uma violenta coronhada no ventre que deixou Alfredo dobrado de dor, ajoelhado no chão.
Tinashe intervém dizendo a Alfredo em voz baixa: – Não resista. Isto pode correr muito mal se o fizer. Estes homens matam sem qualquer hesitação.
O diálogo no tal dialeto estende-se por mais uns minutos e a esperança chega com um gesto de Tinashe segurando Alfredo para o levar até ao carro.
Um pensamento atravessa o seu espírito atormentado. Perdera a sua Nikon e mais 200 dólares. Mas há uma boa notícia, apesar de tudo. Os outros 400 dólares e o livro de cheques estão bem guardados no bolso da sua jacket. E a vida segue. Sair o quanto antes do local é agora o maior desejo deste trio atordoado.
Uma vez dentro do carro, que retoma a sua marcha rumo a Bulawayo, Tinashe pergunta:
-Como se sente?
-Bem dorido, mas acho que não parti nada! Vamos, vamos para bem longe daqui! Malditos gorilas!
-Vai precisar de assistência médica?
-Penso que não, obrigado! Terei que viver com isto. Mas diga-me! Que conversa trocou com eles para nos libertarem?
-Expliquei que você estudou aqui enquanto jovem e que está de visita à Rodésia por alguns dias.
Este incidente deixou uma pesada marca no ambiente. O restante percurso até Bulawayo fez-se sem novas histórias para contar. Em silêncio.
Ao entrar no perímetro da cidade e no sentido de recuperar o ânimo, Alfredo quer saber um pouco mais sobre Bulawayo.
Tinashe, mostrando-se cooperativo, explica:
-Bulawayo, apesar do período complexo que se vive no país, é uma cidade descontraída, com uma atmosfera atraente, com ruas e avenidas arborizadas e belos parques. Esta cidade oferece um contraste significativo com Salisbury, pois consiste em uma mistura de casas coloniais com varandas amplas, muitos edifícios públicos antigos e amplas avenidas com jacarandás originários da América do Sul. Mas, como falamos anteriormente, muita atenção com o ambiente social.
O percurso urbano até ao Hotel Continental, no nº 9 da Forrester Cresent Gardener, serviu para que Alfredo tivesse uma noção do traço arquitetónico que, segundo Tinashe, se encontra algo degradado em relação a outros tempos.
Trata-se de um hotel com um acolhedor estilo urbano, perto do centro, ideal para passagens em negócios ou lazer de curta duração, como é o caso.
Alfredo irá ocupar um quarto e Tinashe ocupará outro, acompanhado de Hasan, o motorista.
Uma vez instalados, é tempo de Alfredo retomar o foco da sua missão na Rodésia, que conheceu esta tarde uma experiência extrema com a perda irreparável da sua Nikon F2, de algum dinheiro e um choque psicológico difícil de esquecer. – Mas vamos lá! – pensou.
O convívio com Tinashe e Hasan passa agora por um drink no pátio exterior do hotel onde a conversa roda em torno dos objetivos a cumprir durante esta visita.
Tinashe adianta-se, informando:
-Já ontem falei ao telefone com as pessoas que me vão receber. Amanhã logo cedo irei encontrá-los e combinar ao detalhe o que se pretende, seguindo aquela lista de objetivos que traçámos e pagando a parte inicial do nosso acordo. O que está combinado é no dia seguinte haver um novo encontro para a recolha dos documentos e pagamento da restante soma. No entanto, eles impuseram uma condição.
-E qual foi! – pergunta Alfredo curioso.
-Os encontros devem ser realizados exclusivamente comigo.
-Compreendo! Está nas suas mãos, conforme fizemos em Salisbury. Vou lhe deixar o dinheiro ainda esta noite.
-Assim sendo, depois de amanhã, uma vez concluída esta tarefa, regressamos à capital.
-Certo. Eu amanhã conto ficar por aqui mesmo para descansar e colocar as minhas forças em ordem. Darei mais tarde uma volta pela cidade. E quanto ao nosso jantar de hoje?
-Vejo com agrado que não ficou ferido com o episódio desta tarde. Para compensação iremos jantar a um restaurante icónico no centro da cidade.
-Excelente! – retorna Alfredo agradecido.
E uma vez sentados à mesa do Indaba Book Cafe, na esquina da Josiah Tongogara Avenue com Corner 9th Avenue, os três recém chegados sentam-se para degustar a gastronomia local. Tratando-se de uma região do mundo com a marca tradicional da cozinha britânica, não haverá grandes surpresas na escolha.
Alfredo escolhe o Big Man’s Brekky composto de bacon, ovos, linguiça de porco, filé macio, tomate grelhado, cogumelos, cebola, batatas fritas e feijões cozidos. Nada mau para quem está a morrer de fome.
Os seus acompanhantes escolheram Indaba Burger, especial da casa com bife de filé, salada e batatas fritas, e Summer Chicken com pedaços de peito de frango temperado e grelhado com tiras de pimentão, pepino e tomate com uma salada mista de folhas com o molho da casa à base de ervas e limão.
Todos optaram por provar a cerveja local que retrata a satisfação do momento.
A conversa foi fluida, tendo o resto da noite sido completada com mais uma volta de carro pela zona urbana do centro, antes do regresso ao hotel.
A noite fresca e o céu estrelado convidavam agora ao encerramento de mais um dia de fortes emoções.
Pela manhã, Alfredo toma o seu tradicional english breakfast sozinho no hotel. Os seus acompanhantes saíram bem cedo para cumprir a sua missão.
Faz entretanto uma nova ligação para Susana dando conta da sua estadia, tendo naturalmente omitido o episódio durante a viagem para Bulawayo. Este é um relato guardado para o seu regresso a Portugal.
Preparado para um circuito turístico pela cidade e claramente frustrado por não ter mais a sua Nikon, Alfredo traz uma ideia no pensamento. Adquirir em algum quiosque ou loja local uma daquela máquinas fotográficas descartáveis Instamatic da Kodak, para captar alguns momentos de Bulawayo. Esta é a sua melhor opção para não sair sem registos de imagem de uma cidade que não conhece.
Chegando ao centro a bordo de um táxi, esta foi a primeira tarefa a cumprir junto com um rolo de 24 diapositivos.
-Agora sim! Vamos lá rodar por aí! Mas com aqueles cuidados! – pensou.
Olhando para um folheto turístico recolhido no hotel, Alfredo irá passar por três locais com uma notável arquitetura colonial. O icónico Bulawyo Club , o edifício do Supremo Tribunal e a carismática estação ferroviária da cidade. Entrando no Bulawayo Club situado no centro da cidade, a fim de tomar um drink e sentir o ambiente, Alfredo vive uma viagem no tempo.
Este belo edifício, que outrora serviu como um popular ponto de encontro dos rodesianos, dá agora sinais de uma qualidade sofrível, o que se explica à luz dos problemas atuais que o país atravessa. Fora isso, o ambiente continua acolhedor. O drink não é barato.
De seguida Alfredo visita outro local de referência na cidade. O Supremo Tribunal que está sediado num espantoso edifício de traço colonial com uma cúpula central. Lugar onde se tratam grandes questões relativas à justiça da Rodesia e onde se salienta a ação de um juiz natural de Bulawayo, Hector Norman Macdonald, na presidência deste Tribunal desde 1958. As imagens captadas nestes dois locais completarão bem a memórias desta passagem por Bulawayo.
A caminho da estação ferroviária, Alfredo depara-se com um tumulto junto a um mercado local. Com a intervenção imediata da polícia mista de brancos e negros que, face a protestos e desordem popular, agem com visível brutalidade. Como consequência imediata, estas forças de segurança desencadeiam algumas prisões arbitrárias.
Um pensamento atravessa o espírito de Alfredo. Sair da zona e, por medida de precaução, regressar ao hotel. O ambiente social está de facto pesado. Circular o mínimo possível será o melhor remédio.
A segunda noite nesta cidade foi novamente premiada com um jantar a três, onde Alfredo teve oportunidade de falar das suas vivências pela cidade.
Um novo e último dia se apresenta com uma temperatura que não engana. Será mais um dia de calor. Alfredo decide deixar-se estar pelo hotel, enquanto Tinashe parte de novo para a sua missão, conduzido por Hasan.
O princípio da tarde foi coroado de algumas novidades.
Tinashe sugere um encontro no quarto de Alfredo para mostrar os resultados do seu esforço. Entre os documentos obtidos em Bulawayo, estão:
-Acta de constituição da “Concessão de Lippert” em 1889 – Com a chancela da coroa britânica.
– Acto que precedeu a ocupação real do Zimbábwe em 1890 e permitiu que os pretensos colonos adquirissem direitos à ocupação de terras dos povos indígenas. Em 1893, quase 26,000 km2 já haviam sido ocupados por voluntários, soldados e por europeus tentando fazer fortuna nas colónias. Além do roubo das terras e confisco do gado dos povos nativos, ndebele e shona, os colonos forçaram os antigos donos a trabalharem em regime de escravidão nas terras herdadas de seus ancestrais.
– Decreto sobre o “Ato de Distribuição da Terra” em 1930. Com a chancela da coroa britânica. Em consequência deste decreto, a colónia seria dividia em regiões separadas racialmente, relegando-se aos habitantes nativos e donos originais das terras shona e ndebele, cerca de um milhão de nativos, menos de 30% de seu próprio território, enquanto a população de colonos brancos, pouco mais que cinco mil pessoas, contava com mais de 51% das melhores terras do país.
Visivelmente satisfeito com o resultado, Alfredo estende a mão a Tinashe, dizendo:
– Você surpreendeu-me, sabe! Estou-lhe francamente agradecido.
– Eu lhe disse desde o nosso primeiro encontro para confiar em mim. Conheço bem o meu país e tenho alguns contactos importantes. Além do mais, descendente que sou do povo Shona, só poderia ajudar nesta causa.
– E eles aceitaram o pagamento sem problema?
-Conforme o acordado. Agora é hora de fechar as contas com o hotel e regressar a Salisbury.
-Sem dúvida, Tinashe. Vou já tratar disso. Até porque queremos viajar enquanto é dia, certo?
-Com certeza! Vai correr tudo bem desta vez!
Com um leve sorriso e dando um leve tapa no ombro de Tinashe, Alfredo diz:
-Fingers crossed, my friend.
A chegada a Salisbury, ao fim do dia, correu efetivamente sem incidentes, para satisfação de todos. Como desfecho, Alfredo acerta o pagamento pelos serviços de Tinashe e Hasan, de quem se despede com um forte agradecimento e um abraço de reconhecimento.
Os dois últimos dias em Salisbury foram marcados por algumas saídas de carro na companhia de Arthur.
Uma visita à escola Prince Edward School foi um ponto alto para Alfredo. O reencontro com esta instituição que o acolheu anos antes foi emocional, mas onde inevitavelmente se observam sinais de degradação, face à evolução dos acontecimentos no país.
A última noite é premiada com um jantar que Arthur e Kate oferecem a Alfredo no Amanzi Restaurant com um toque da cuisine française.
Situado no coração dos subúrbios a norte de Salisbury, o Amanzi é um restaurante moderno e elegante com a capacidade para acomodar 100 pessoas, inserido numa área com um grande jardim muito bem cuidado e iluminado. O interior é versátil, com salas convenientemente ligadas por arcos abertos que oferece aos clientes a opção de jantar em uma das duas salas principais, ou numa pequena sala de eventos mais privada e, em alternativa, no amplo terraço ao redor do restaurante.
Uma vez confortavelmente instalados, Alfredo optou pelo Confit Duck Leg acompanhado de uma mousseline de maçã, cassoulet de feijão e molho de framboesa.
Kate deixou-se seduzir pela Codorniz Assada com cogumelos, cebolas carbonizadas e dauphinoise de beterraba.
Arthur entusiasmou-se com Bife de brócolis carbonizado, com veloute de gengibre, cebola, couve-flor, molho de limão e pimenta.
Para beber, a escolha foi num excelente vinho tinto Cabernet Sauvignon Excelsior de 1975 e água mineral.
As sobremesas, embora deliciosas, não escaparam ao carisma de mera degustação muito habitual na gastronomia francesa.
A conversa foi naturalmente embalada pelos acontecimentos vividos ao longo desta passagem de Alfredo e pela evolução da situação político-social na Rodésia.
-E agora vem aquela pergunta! Com o regime atual a desmoronar desta forma, vocês trazem no vosso espírito algum plano B? – pergunta Alfredo curioso.
Arthur, convicto do peso da pergunta, responde:
-Já temos bons contactos de familiares da Kate que vivem em Cape Town. Se tudo correr como desejamos, mudamos a nossa base para lá dentro de 2 meses.
-Boa, companheiro! Essa é uma iniciativa inteligente. O futuro na Rodésia está condenado.
-Todos sabemos que sim. Tenho muita pena. Dediquei uma boa parte da minha vida a este país, mas sempre tive a noção que os brancos aqui viveram sentados sobre um barril de pólvora.
Levantando a sua taça, Alfredo diz:
-Ao nosso futuro e um voto para que possamos continuar a cruzar os nossos caminhos.
-Cheers, Alfredo! Foi bom demais reencontrar-te.
– Os melhores cumprimentos à tua família. – diz desta vez Kate.
-À nossa, buddy! A esta nossa amizade que muito prezamos! – reforça Arthur.
Nesta última noite em solo austral e antes de se entregar ao limbo, Alfredo sente que, apesar das grandes peripécias por vezes nefastas, e das dificuldades encontradas, cumpriu a sua missão. Tempo de abandonar a Rodésia.
Uma vez no Aeroporto Internacional de Salisbury e antes de transitar para a zona exclusiva de embarque, Alfredo despede-se de Arthur e Kate.
-Não sei como vos agradecer este apoio e hospitalidade. Vocês vão no meu coração.
-Vai, meu caro! E trata de cumprir a tua missão. Se um dia vieres a Cape Town, fala comigo. Amigos é para isto e muito mais. – responde Arthur, animado.
-O mesmo digo eu! Se passarem por Lisboa, estamos lá à vossa espera.
Um abraço carregado de emoções encerra este capítulo em terras austrais.
– South African Airways, vamos lá!
Próximo destino: Lisboa, com escala técnica em Londres.
























































