PEUGADA
Rodésia do sul – Outubro do mesmo ano.
Com a admissão de Alfredo na Universidade de Salisbury no curso de Antropologia, abre-se na vida deste jovem adulto uma nova história para escrever.
Vive-se neste território uma fase complexa de identidade institucional.
Em novembro 1965, Ian Douglas Smith à cabeça dos destinos da Rodésia do sul declara unilateralmente a independência do território, desvinculando-se dos laços administrativos impostos pela Grã-Bretanha.
Esta grande potencia que promovera um período de transição para um regime autónomo sob a sua tutela, condiciona esta independência impondo sanções económicas sobre a colónia rebelde, que incluem o congelamento de bens no Rhodesian Reserve Bank.

A OUA (Organização da União Africana), considerando estas medidas insuficientes, exige que a Grã-Bretanha imponha um embargo de petróleo deixando Ian Smith em posição crítica.
Na sequência da não aceitação destas condições por parte da Grã-Bretanha, nove estados africanos chamaram os seus diplomatas e delegados isolando o primeiro-ministro britânico, Harold Wilson, na Assembleia Geral das Nações Unidas em dezembro do mesmo ano.
Dois dias depois, Wilson, sem qualquer capacidade de resposta, declara o embargo à Rodésia.
Estas sanções energéticas são amenizadas pela neutralidade da política colonial portuguesa que, em função dos interesses regionais, rompe este embargo fornecendo à Rodésia produtos petrolíferos recebidos através do porto da Beira em Moçambique.
Neste contexto de alguma complexidade, Alfredo Souza Campos, oriundo de Moçambique, goza de algum proteccionismo para prosseguir os seus estudos neste atribulado país.
Para além dos poucos estudantes como ele, oriundos de destinos diferentes, Alfredo convive com muitos colegas da Universidade de origem britânica nascidos em território rodesiano cujo discurso frequente é:
”Eu sempre olho para mim como um nativo da Rodésia sob o ponto de vista de que não
somente nasci aqui, como conto viver por cá por tempo indeterminado. Sinto-me destinado a viver na Rodésia e aqui pretendo que os meus filhos cresçam também.
Em suma, não estou aqui a construir uma vida a prazo sabendo com antecedência que um dia terei que mudar-me para Inglaterra ou África do sul.
A África do Sul não me satisfaz. Em todos os meus anos de vida na Rodésia, refiro-me a Inglaterra como “casa”…como muitos de nós fazemos. Em regra vamos lá de dois em dois anos para passar férias voltando sempre a este país fabuloso. Ao voltar, fico sempre com a sensação que este território se tornou a minha casa. Mais casa do que Inglaterra”.
Apesar da Rodésia do sul ter sido considerada como um território oficialmente “não reconhecido” pelas Nações Unidas após a declaração unilateral de independência de 1965, as instituições ligadas ao grande império britânico mantém os seus elevados níveis de ensino, como é o caso da Universidade de Salisbury.
Ao ritmo de toda esta complexidade o quotidiano da vida na Rodésia começa a ser duro sob os efeitos do embargo económico, tendo como ponto mais crítico a gasolina que começa a escassear nos postos de combustível. A única maneira de comprar gasolina é através da aquisição de cupons emitidos pela administração central. Estes são fornecidos prioritariamente aqueles que se encontram a residir longe do local de trabalho. Não há cupons extra para o lazer.
A Rodésia do sul vive de forma crescente o aumento de pressão dos grupos independentistas africanos sobre o governo de Smith.
Apesar disso, a Rodésia obtém nesta fase complexa da sua história um dos mais elevados padrões de vida do continente.
Neste âmbito aumenta a frustração da maioria negra que, ao ver negada a sua independência, intensifica maciçamente os movimentos de guerrilhas, mais eficientes, mais atuantes e muito mais coordenados. Assim Smith, que resistira durante anos às pressões externas, vê-se na obrigação de ceder aos movimentos internos.
Condições deveras complexas para a vida da grande maioria dos residentes na Rodésia.
A Universidade da Rodésia é uma instituição pública de ensino superior e a mais importante universidade do território. Foi fundada em Salisbury em 1953 e é o centro educativo governamental mais antigo do país, contando com com 70 professores e mais de 8 mil estudantes de licenciatura.

Neste contexto, Alfredo segue o seu sonho de se formar na área de antropologia, mas no seu pensamento nasce gradualmente uma outra paixão. A fotografia.
Uma paixão que nasce do estreito convívio com alguns colegas de faculdade com quem passa horas em câmara escura, vindo dentro em pouco a adquirir, com o apoio da família, sua primeira câmara fotográfica da conhecida marca austríaca Voigtlander.
Esta paixão leva-o a tirar em paralelo um curso dedicado à fotografia no Prince Edward School of Salisbury, do qual sai muito bem classificado ao fim de um ano de formação.
Ao longo deste período de estudos na Rodésia, Alfredo vai regularmente a Lourenço Marques no seu período de férias. Motivo de natural alegria para a família que passou a vê-lo esporadicamente.
Na última passagem pela capital moçambicana recebe a agradável notícia que a irmã Judite encontrara alguém que poderia trazer em mão os tais documentos do arquivo do avô Donald. Alguém que viria de visita à Rodésia dentro de pouco tempo. Excelente…pensou!
Para plena satisfação deste estudante de antropologia os documentos do seu avô virão parar às suas mãos ao longo das próximas semanas.
Este facto irá naturalmente aumentar as suas expectativas em relação ao percurso do seu parente em terras do Grande Zimbabwe.
Passadas duas semanas, a receção destes documentos em Salisbury produz o efeito esperado. A emoção é grande e serão necessárias algumas noites para ver à lupa todos estes documentos.
Nesta fase nasce um novo objetivo no espírito de Alfredo. Visitar a região onde o seu avô fora dado como desaparecido três décadas antes.

Trinta anos é efetivamente muito tempo, mas ele sente que estando a viver neste país, tem que visitar, nem que seja por um curto período de tempo, a região do Grande Zimbabwe onde se concentra o secular império de Mwene Mutapa, a que o avô dispensou uma especial atenção na última fase da sua vida.
A febre é intensa e Alfredo toma uma decisão. No dia seguinte comunica telefonicamente à família que nas férias que se aproximam não virá a Lourenço Marques tendo como objectivo visitar a região nativa do povo Shona na companhia de um colega da faculdade.
A noite cai em Salisbury e no seu quarto de estudante Alfredo varre os vários escritos do avô Donald enviados da Austrália pela sua irmã Judite.

Algumas informações aqui presentes são deveras interessantes, dos quais se destacam algumas notas de bordo de Donald Mackenzie:
Shona. Uma etnia original fundada há séculos na região do planalto do Zimbabwe na África do Sul-central. O Império Mutapa cobre uma parte substancial da actual Rodésia incorporando todo o Moçambique, a sul do rio Zambeze e norte do rio Save em direcção ao mar.
O surgimento da linguagem Shona foi provavelmente um desenvolvimento a partir da Idade do Ferro. Uma língua amplamente falada no Zimbabwe, Moçambique, Zâmbia e Botswana. Língua nativa com vários dialetos tendo este povo migrado para o Grande Zimbabwe durante a grande expansão Bantu entre os séculos 16 e 19. Uma movimentação que se desenvolveu para norte antes da invasão dos primeiros colonos europeus no século 19.
Na leitura destes arquivos, Alfredo compreende igualmente que Donald aprendera os dialetos Karanga ou Chikaranga falada no sul do Zimbabwe assim como outros tantos subdialetos que são falados na região central do território.
A admiração pelo avô Donald continua a surpreender este seu fervoroso seguidor.
Chegado o dia de viajar para a região predominante dos Shona, Alfredo e o seu colega de antropologia Arthur Jenkins vão com natural entusiasmo percorrer novas regiões deste país que os acolheu.
Ficarão durante os próximos três dias alojados nas condições rudimentares que a região oferece, tentando passar nas zonas assinaladas pelos escritos de Donald.
Esta viagem traz alguma luz a Alfredo. Inteirando-se das características geográficas e culturais desta região tão particular, tem igualmente a noção de que o tempo é um factor chave para melhor compreender a extensão das descobertas do seu parente Donald Mackenzie.
A terra que pisam de cor vermelha exala um cheiro a fertilidade e a recepção que vão tendo nas aldeias que atravessam é um misto de surpresa, admiração e desconfiança. Aos mais velhos da aldeia, Alfredo vai mostrando uma fotografia do avô fazendo-se acompanhar por um guia que compreende vagamente inglês. Uma iniciativa até ver inconsequente.
No seu espírito desperto e junto destes anciãos das aldeias percorridas, Alfredo vai falando dos feitos descritos pelo avô nos seus documentos.
A dificuldade de comunicação tem peso próprio e, apesar de levar consigo um intérprete, nem sempre as respostas são claras e afirmativas.
Outro facto que perturba este nosso candidato a antropólogo e seu colega é quando chega o momento de falar de Tsehai. A mística figura que tanto influenciou as descobertas do seu avô.

Estes momentos são invariavelmente seguidos de silêncios e da seriedade espelhada na face dos seus interlocutores. O que estará por trás destes silêncios? Pergunta Alfredo aos seus botões…as respostas continuam ausentes e o enigma continua!
No final destes dias vividos com particular entusiasmo, Alfredo toma consciência que terá que dedicar muito mais tempo a esta missão. Até porque há uns tantos enigmas que Donald aponta nos seus manuscritos como essenciais para a obtenção de algumas respostas que procurava nesta região na altura do seu desaparecimento. Temas aos quais Alfredo pretende dedicar alguma investigação.
Uma outra incursão de Alfredo e seu colega Arthur foi uma visita a Matopo Hills onde se encontra a tal mina de Mayfair mine, à qual Donald Mackenzie dedicou uma parte importante dos seus escritos.
Igualmente aqui e passadas 3 décadas do desaparecimento misterioso do seu parente, os resultados não são satisfatórios.
Estas férias dedicadas ao Grande Zimbabwe servem enfim para dar corpo a algo precioso no espírito deste jovem apaixonado pela captação de imagens. Uma vasta cobertura fotográfica da região que fará objeto de longas noites de revelação em câmara escura, uma vez regressando ao seu quotidiano em Salisbury.
No decorrer dos anos crescem no território as convulsões políticas resultantes de confrontos de natureza racial.
Em 1969, a Constituição é alterada. A modificação mais significativa diz respeito à separação formal dos dois cadernos eleitorais por raça. Um caderno reservado aos europeus (50 lugares) e um outro aos não-europeus (8 lugares). Além disso, os chefes tribais passam a poder eleger mais 8 membros.
O resultado prático destas medidas indica que 270 mil brancos podem eleger 50 delegados e 6 milhões de africanos podem eleger apenas 16 delegados na Assembleia. Estas reformas contribuem para reforçar a rejeição negra do sistema, aumentando os níveis de tensão no país.

Em conversa com um professor da sua faculdade e sentindo a degradação das condições sociais no território, Alfredo fica a saber que enquanto cidadão australiano pode pedir a sua transferência para uma universidade em Inglaterra.
Qual a sua satisfação quando no leque de possibilidades está a Universidade de Cambridge onde o seu avô fez a sua formação em antropologia.
A decisão de concluir os estudos em Inglaterra é tomada após uma apreciação global das suas condições de estudante e apoio favorável dos pais. No seu espírito perdura igualmente a recolha de mais informações sobre as pistas do avô Donald. Começar por Inglaterra faz todo o sentido.
Seguem-se as conversas em família que tem lugar ao telefone e através das cartas que Alfredo troca com os pais e irmãs.
A decisão de avançar toma um peso próprio no espírito de Alfredo. Uma vez apreciadas as vantagens de frequentar um ensino mais qualificado e ultrapassadas as pressões naturais dos pais que veem com alguma angustia a partida do caçula para mais longe ainda, são dados os primeiros passos da sua candidatura.
No final do verão de 1971, após vencida uma difícil fase burocrática e sendo neto de um digno aluno desta conceituada escola, o jovem Souza Campos ingressa na famosa Universidade de Cambridge para concluir os seus estudos. Alfredo deixa assim para trás uma epopeia africana que preencheu a sua existência desde a sua chegada, com 1 ano de idade, por via marítima à costa oriental do continente.











Uma belissima descrição muito elucidativa sobre a viagem deste jóvem herdeiro do velho Donald Mckenzil. Vai ser um percurso com grandes aventuras pelo caminho e, com o talento a que nos habituou,serão esperadas sempre com muito interesse. Saudações amigas com um beijinho para os dois.
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É sempre um prazer receber estes seus sinais Maria Teresa!…a saga segue em frente!…grande abraço nosso!
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