Vera Cruz

Parte I – Os contornos de uma nova caminhada

Naquela tarde fria de Outubro de 1973, sob um céu ligeiramente nublado, vestido de forma cuidada em estilo casual, Alfredo dá entrada nas instalações da “National Geographic Magazine” no Highgate Studios, na zona noroeste de Londres. Na mala traz uma carta, recebida semanas antes desta famosa instituição, portadora de uma nova expectativa. A emoção é naturalmente grande. Tendo em mente que este poderá ser um novo convite para a realização de uma outra reportagem, Alfredo vai confiante para este encontro tendo em mente algumas ideias que pretende expor e defender perante os seus interlocutores.

Neste sentido, na noite anterior, uma vez acomodado em casa do seu amigo Simon no bairro de Elephant & Castle, o jovem antropólogo esteve a rever por uma última vez uma apresentação da sua proposta baseada em ideias específicas, norteando o seu projeto numa nova aventura a empreender em terras do Brasil.  Na base desta ideia está uma reportagem a desenvolver localmente, resultando em documentação escrita e cobertura fotográfica em torno da denominada “corrida ao ouro” ao longo dos últimos séculos.Um projeto onde está naturalmente presente o legado deixado por seu avô Donald que, nas suas deambulações de cariz antropológico, dedicou alguns anos da sua vida às temáticas desta febre, enriquecidas por aspetos históricos e pelas suas aventuras e desventuras em terras do Brasil. Mais precisamente nas regiões de Ouro Preto, Morro Velho e rio São Francisco.

Destas notas Alfredo retirou algumas passagens de grande interesse, das quais se destacam alguns relatos em inglês:

“Glasgow, 15 de Fevereiro de 1926.

No Brasil do século XVII, a descoberta do ouro na região de Minas Gerais desenvolveu uma epopeia que foi um palco pleno de acontecimentos dignos dos melhores e piores cenários da existência humana. Autênticos “westerns”, traições, mapas de tesouro, ataques indígenas e assassinatos que levaram à loucura uma população que a partir dali jamais seria a mesma nesta região brasileira. Um fenómeno caracterizando a denominada “corrida do ouro”, tão dinâmica quanto vertiginosa e alucinada.  Esta febre que contagiou de forma transversal esta região do Brasil, deu-se dois séculos antes, movimentando fortunas colossais, alterando radicalmente o ambiente natural na região, gerando turbulências e implementando múltiplas proezas marcadas por aventura, ganância e morte”.

No espólio destas aventuras levadas a cabo por seu avô, estão incluídos mapas de minas, indicações de tesouros escondidos, relatos de intrigas e traições.

E assim prossegue:

“Fui captando aqui e ali relatos de caminhadas árduas em sertões perdidos descritos por alguns garimpeiros. Personagens insólitos deambulando por ruas enlameadas de sombrias cidades mineiras, em tabernas frequentadas por sujeitos mal-encarados e autores de múltiplos atos de audácia. Esta transformou-se numa vasta região percorrida por um grande número de aventureiros de toda a espécie vindos de diferentes origens, vestidos de cabedais e sem dinheiro. Sujeitos arrogantes e prepotentes, apontados como pistoleiros violentos, vingativos, jogadores e devassos. A completar este quadro circulava um alargado número de vadios, ladrões inveterados, traidores e assassinos.”

-Humm!…um autêntico “Far west” brasileiro! – pensou Alfredo com os seus botões.

Nos seus registos Donald prossegue:

“Por mais de 250 anos, o ouro – ou a ausência dele – foi uma obsessão para os portugueses que desembarcavam no Brasil em grande número. Uma verdadeira saga com contornos de maldição com semelhanças aos fenómenos do “El Dorado” hispânico desenvolvido em terras do México e Perú.  Segundo a famosa carta de Pero Vaz de Caminha endereçada ao rei de Portugal D. Manuel I (que Alfredo tivera oportunidade de ver na Torre do Tombo em Lisboa), com a chegada das naus de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro, um indígena apontara para o colar de ouro que adornava o peito do comandante e em seguida para as montanhas no interior. Um gesto expressivo interpretado como um sinal de que naquelas áreas montanhosas haveria o desejado metal.

Esta expectativa haveria de estender-se por quase 200 anos, envolvendo milhares de intervenientes antes de se revelar uma realidade. Apesar de algumas descobertas aqui e ali que provaram tratar-se de áreas auríferas, as explorações levadas a cabo entre 1565 e 1693 revelaram uma presença acentuada de pirite, naquela época denominada por muitos como o “ouro dos tolos”.

Em 1674, Portugal e o Brasil vivem uma profunda crise financeira. D. Pedro II, coroado rei em 1683, encoraja alguns bravos homens a partir para o sertão em busca do apetecido metal e diamantes. Uma missão que durante duas décadas foi marcada por resultados inconcludentes. Era como se, no Brasil, o ouro não passasse de uma miragem.

Em fins de 1693, houve finalmente uma explosão de descobertas determinando que o ouro não era mais uma mera esperança. A grandeza das lavras e a fertilidade das minas eram desta vez palpáveis, sendo o número elevado de descobertas simultâneas e em áreas relativamente distantes, um facto inegável. As quase mil toneladas do metal arrancadas pelo esforço, suor e sangue dos escravos, transformaram D. João V no Rei-Sol de Portugal, ajudando a reconstruir Lisboa após a devastação do terremoto de 1755. Na sequência desta epopeia, a capital do Brasil, ora em Salvador, foi transferida para o Rio de Janeiro em 1763.

Donald Mckenzie conclui:

“Apesar da era excecional que caracterizou a “febre do ouro”, este fenómeno de massas não trouxe um verdadeiro progresso para o Brasil. Uma nação continental que tinha tudo para dar certo e que continuou a escrever a sua história carregando o peso do preconceito, da dor e de um profundo racismo fruto da chegada dos navios negreiros, que durante mais de três séculos trouxeram cerca de cinco milhões de escravos saídos do continente africano.  Um facto gerador de efeitos devastadores na sociedade brasileira, marcada desde então por uma profunda desigualdade e segregação social presentes até aos dias de hoje.”

Perante estas notas paira no espírito de Alfredo uma ideia peregrina. Apresentar à “National Geographic” uma matéria completa que resultará da passagem de cerca de um mês por terras do Brasil. Iniciativa que permitirá recolher os traços deixados por esta extraordinária epopeia, construindo uma reportagem digna de uma revista deste prestígio, pesquisando as pistas e os lugares indicados nos estudos do seu parente.

Caso a sua proposta seja bem acolhida, Alfredo tem consciência de que se trata de uma tarefa que implicará algum investimento pessoal e financeiro.

-Mas vamos a isto! – pensou.

Sentado há cerca de 15 minutos na presença de dois responsáveis de edição desta famosa revista, Alfredo sente que as suas previsões estavam certas. A sua incursão ao Egito deu bons resultados, estando a “National Geographic” interessada na colaboração de Alfredo numa nova publicação.

Concluída esta conversa que durou cerca de uma hora e após apresentação da ideia através de uma sinopse previamente preparada por Alfredo, a sensação recolhida é favorável sendo uma decisão final a ser analisada internamente nas próximas semanas.

A resposta definitiva desta abordagem será emitida e enviada por escrito para a morada de Lisboa, justificando, deste modo, o regresso de Alfredo à capital lusitana.

É com natural expectativa que, passados 10 dias da sua visita a Londres, Alfredo vê chegar pelo correio a resposta da “National Geographic”.

 

E de um rosto compenetrado na leitura destas notícias, solta-se um especial brilho nos olhos de Alfredo, acompanhado de um rasgado sorriso que demonstra a sua inequívoca satisfação.

A revista declarava assim a sua aceitação do projeto apresentado por Alfredo na recente visita a Londres. Neste documento estavam claramente estabelecidas as condições de aceitação do serviço a prestar.

Abre-se então um novo horizonte na vida do nosso antropólogo na companhia de Susana.

A sequência natural desta notícia foi uma nova viagem de Alfredo a Londres para acerto das condições gerais, envolvendo esta sua nova missão e assinatura de contrato.

Parte II – Hemisfério sul – Por terras do Brasil

Recolhidas as informações relevantes e tomadas as disposições necessárias, equipamento jornalístico e fotográfico é tempo de dar corpo a esta nova aventura por terras do Brasil.

Alfredo e Susana estão há cerca de uma hora no aeroporto da Portela em Lisboa, aguardando o seu embarque rumo ao Rio de Janeiro.

Naquela madrugada fria de 8 de Fevereiro de 1974, os termómetros anunciam os clássicos 6º Celsius no exterior.

Animados com a expectativa desta travessia sobre o Atlântico e vestidos de forma casual em tons de verde e cáqui, ambos levam no braço uma peça de vestuário.

Dois bons casacos, sendo o de Alfredo de couro escuro e o de Susana em camurça castanha.

Peças que muito provavelmente irão descansar nos armários e cabides, uma vez alcançado a outro lado do imenso mar onde os espera uma cálida temperatura próxima dos 40º Celsius.

Com um olhar ensonado dissimulado num rosto de natural beleza feminina, Susana olha o painel de informações de voos e comenta:

– Querido! Acho que iremos sair dentro do horário. A TAP costuma ser certinha! Olha ali em cima!

Com o olhar igualmente tocado por um misto de entusiasmo e sinais exteriores de uma noite mal dormida, Alfredo responde:

– Penso que sim! Se formos minimamente confortáveis ainda vamos poder dormir. 10 horas de voo é dose!

– Estive a ler sobre este passarão “Boeing 747-100” e acho que vamos ter uma excelente experiência! – retorna Susana entusiasmada.

-Vamos a ela! – conclui Alfredo, trocando um olhar cúmplice com a sua companheira.

A experiência começou no check-in com o embarque das bagagens de porão, receção dos cartões de embarque e o tradicional certificado de passageiro oferecido pela TAP.

Falando para os seus botões, Susana pensa:

-Esta travessia do Atlântico sul rumo ao Trópico de Capricórnio tem tudo para ser agradável a avaliar pela a excelente imagem da TAP.

Ao entrar a bordo pela escada exterior deste garboso “Jumbo-jet” que começara a operar ao serviço da TAP em 1972 e sobre o qual surge em vermelho vivo a marca “Transportes Aéreos Portugueses”, comporta novas emoções.

Segue-se uma agradável receção por parte da equipe de comissários trajados do tradicional figurino, onde se destacam as hospedeiras com os elegantes chapéus vermelhos e faixa preta, sapatos a condizer, lenços, e seus “tailleurs” nas cores amarelo, azul marinho e vermelho.

Chegando aos respetivos lugares da classe executiva, Alfredo e Susana são prendados com uma nova surpresa. A presença da icónica bolsa da TAP preenchida com um confortável pijama, água-de-colónia Lavanda, creme de mãos Benamôr e uma Pasta Dentífrica Couto. E o famoso jogo “Sabichão”, da Majora, com uma página de perguntas e respostas exclusivamente dedicada à TAP. Para completar, um exemplar do Diário de Notícias, que sempre ajuda a passar o tempo num voo de longo curso.

E com um atraso de poucos minutos, o gigante metálico da Boeing toma gradualmente os céus rumo a sudoeste sobre o Atlântico.

Outro momento alto desta viagem que animou Alfredo e Susana foi a hora do almoço servido a bordo.

Nas entradas, salada de camarão e terrina de faisão, e o Bife do Lombo à Portuguesa ou Bacalhau à Zé do Pipo, como prato principal. Acompanhado de uma fina escolha de vinhos tintos ou brancos tendo com opção cerveja Sagres ou Coca-Cola.

A sobremesa foi coroada com um Parfait de Banana com chocolate, um sortido de chocolates Regina e devidamente rematado com um vinho do Porto Graham’s Tawny, colheita de 1963, que levou estes jovens ainda mais alto nas nuvens.

O que dizer da assistência a bordo? Um banho de prazer e simpatia.

-E que tal, Susana? – pergunta Alfredo com um ar de satisfação.

-Estou nas nuvens no sentido real e metafórico! – responde esta com um sorriso que não engana.

Rolou também alguma diversão durante as dez horas de voo. A tripulação convidou todos os passageiros a participar no jogo do “fura-fura”, numa colaboração e distribuição da fábrica de chocolates Regina. Para animação geral todos participaram tendo direito a um prémio. E entre algum entretenimento e curtas “passagens pelas brasas”, lá se foi vencendo o grande Atlântico.

A perda gradual de altitude e a voz do comandante anunciando a aproximação ao aeroporto internacional do Galeão do Rio de Janeiro, localizado na Ilha do Governador, a maior ilha da baía de Guanabara, foram os sinais a anunciar o final desta travessia.

Repetindo deste modo a façanha dos Almirantes Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que realizaram a primeira travessia aérea do Atlântico sul sem escalas entre Lisboa e o Rio de Janeiro, em 1922.

Do lado de fora a visão é de sonho, sobrevoando o recorte geográfico da fascinante baía de Guanabara banhada pela imensa rede de iluminação emergente. Um verdadeiro deslumbre que deixa os nossos jovens aventureiros com um brilho especial no olhar!

Naquele início de noite, concluídas quase 10 horas de voo, as operações alfandegárias e a recolha de bagagem de porão, os passageiros são prendados com os primeiros sinais da sociedade carioca.

No exterior estão uns cálidos 30 º Celsius e o aeroporto retrata a explosão demográfica típica de uma aerogare internacional utilizada diariamente por milhares de passageiros residentes e flutuantes, num colorido e excitante mosaico social.

Embalados neste turbilhão de novas emoções, Alfredo e Susana são transportados num denominado “ônibus” num circuito que os leva até ao aeroporto Santos Dumont, mais próximo do centro e local de onde partem os diversos transportes para a cidade maravilhosa.

Já de noite e entrando a bordo de um táxi, estes jovens deslumbrados vão agora em direção às passagens mais icónicas da cidade maravilhosa. A famosa Zona Sul.

O destino é o Hotel Nacional, no bairro de São Conrado. Um presente de uma estadia de dois dias de sonho, proporcionado pela relação estreita do pai de Susana com um dos donos desta soberba unidade hoteleira.

O caminho tomado para ali chegar é uma invasão de emoções vividas por quem conhece a zona sul do Rio de Janeiro pela primeira vez. Com a animação do condutor de táxi que fala mais que um papagaio amestrado e com a sensação de muita vista para poucos olhos, estes dois jovens vão seguindo a descrição deste carioca de gema.

Uma fala bem colorida, carregada de vogais bem abertas e alegria de viver.

Num misto de êxtase e emoção, assim se percorrem as agitadas e sempre famosas zonas de Copacabana, Ipanema e Leblon.

-Estou deslumbrada! Sempre ouvi falar dos encantos desta cidade, mas ao vivo e a cores é outra coisa! – diz Susana com uma voz marcada pelas fortes emoções.

-E não é para menos! Parece estarmos dentro de um filme. A sonhar de olhos abertos! – responde Alfredo visivelmente emocionado com esta nova experiência.

Quando por fim o táxi percorre a sinuosa Avenida Niemeyer junto à orla marítima, avista-se finalmente o extraordinário edifício do Hotel Nacional na zona de São Conrado.

Um edifício que salta à vista pela sua arquitetura em formato cilíndrico, com 33 andares inteiramente envidraçados implantado num excecional enquadramento. Um projeto saído da prancheta do famoso arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, em 1972.

Nesta época a cidade maravilhosa crescia em direção à Barra da Tijuca. Uma nova e promissora região de desenvolvimento urbano, formando um novo polo com aspirações a concorrer com a famosa Zona Sul da cidade.

Aproveitando as magníficas vistas oferecidas por esta soberba instalação frente ao mar e próximos aos morros icónicos da região, a restante soirée foi aproveitada com um delicioso jantar tropical no restaurante panorâmico, complementada por um passeio pela zona circundante do hotel debaixo de um céu estrelado.

Um pensamento atravessa o espírito destes jovens. Para entrada, melhor não há!

Momentos de cumplicidade que os conduzem a uma “Queen bed” de um excelente quarto com vista para as montanhas e mar sendo possível a partir daqui avistar a extensão da praia de S. Conrado, os icónicos morros de “Dois irmãos” à esquerda e a extraordinária “Pedra da Gávea” do lado direito.

Regalados com aquela cama excecional e confortavelmente recostados é tempo de respirar fundo e relaxar.

Atrevidamente, Alfredo volta-se para a sua companheira passando a mão pelos seus seios dissimulados num sugestivo “babydoll” azul claro de setim.

Olhando carinhosa para Alfredo e com um brilho nos olhos, ela diz.

-O menino Alfredo não acha que foi um dia bem longo para sugerir travessuras destas a esta hora?

– Acho!- mas o que é bom é para se sentir. Responde o jovem com um sorriso safado.

E as pálpebras se rendem às emoções vividas neste dia especial, dando lugar a um desejado sono de recuperação.

Durante o soberbo pequeno almoço servido numa zona nobre do piso térreo do hotel, Alfredo e Susana cruzam olhares com um cavalheiro da mesa ao lado com o qual trocaram um olhar, uma vez percebido que os três falavam português de Portugal.

Uma troca de prosa que permitiu a estes jovens curiosos a absorção de algumas informações interessantes.

-São portugueses, presumo? – avança simpaticamente o cavalheiro de meia idade vestido de cores claras impecavelmente engomadas com um jornal pousado sobre a mesa.

-Exato! Chegámos de Lisboa ontem à noite. O meu nome é Alfredo e aqui a minha companheira Susana.

-Muito prazer! O meu nome é João Henriques. Sou natural de Coimbra, mas resido há algum tempo no Brasil.

-O prazer é nosso! – retorna afavelmente Susana

A simpática conversa desenvolve-se de forma espontânea. João Henriques é um empresário residente em S. Paulo de passagem pelo Rio, radicado há uns anos deste lado do Atlântico.

Excelente oportunidade para melhor captar o enquadramento atual do Brasil.

A sua abordagem do tema em voz reduzida proporcionou aos curiosos recém chegados a tomada de conhecimento de alguns aspetos interessantes.

Da fala deste lusitano com uma ligeira influência do sotaque local, destacam-se algumas linhas a reter:

“O regime militar fora implantado em 1964 na consequência da abertura política à esquerda em 1961, pela mão de João Goulart, mais conhecido por Jango, que tomara os comandos da nação após o afastamento do presidente eleito Jânio Quadros. Um personagem considerado perigoso aos olhos dos interesses americanos na América latina e que representava uma ameaça comunista no Brasil.

Sentimento muito presente neste conturbado período internacionalmente dominado pela atual “guerra fria”, onde Estados Unidos e União Soviética disputam ferozmente a hegemonia económica, política e militar no mundo.

Assim, e com a forte influência do “Uncle Sam”, este regime de ferro traçou os destinos atuais do Brasil bem como de outros países da América latina”.

E prossegue perante a natural atenção dos seus ouvintes:

“Este é um regime autoritário particularmente marcado entre 1967 e nos dois anos seguintes por uma impiedosa repressão, muita violência, tortura e morte de opositores ao regime, acompanhado de uma grande restrição aos direitos políticos e à liberdade de expressão. Um período muito duro para autores e artistas do espaço cultural, nos campos do cinema, teatro, musica e arte em geral.

Perseguidos por uma férrea censura por parte do Estado, estes veem-se obrigados a puxar de uma criatividade, imaginação e um jogo de cintura extra para resistir a tempos tão nublados.

Em suma, um Estado de Direito totalmente ausente conforme se sente em Portugal desde a subida ao poder de António Salazar”.

Um prosa que naturalmente contribuiu para as primeiras notas de bordo de Susana.

Dando início aos trabalhos deste novo projeto jornalístico, o jovem casal dá os primeiros passos na captação do quotidiano da cidade maravilhosa.

Neste primeiro dia, o objetivo será conhecer os encantos da zona sul e arredores.

Percorrendo este circuito urbano de táxi, estes jovens motivados descem em Copacabana, onde irão percorrer a pé algumas das ruas carismáticas deste bairro cosmopolita. Uma zona caracterizada por uma curiosa mistura humana onde as idades e classes sociais vivem numa agitada harmonia e de onde ressalta um ponto comum. A forma descontraída do carioca, vestido de cores vivas e chinelo no pé, revelando a sua estreita vivência com a praia mais badalada do Brasil.

Segue-se um longo percurso a pé que ficará retido nas suas memórias. Uma passagem pela lendária avenida Atlântica até a Pedra do Arpoador de onde já se vislumbra a orla magnífica de Ipanema e Leblon.

Esta extensão de um mar turquesa delineado por um recorte costeiro invulgar, formado por morros e colinas, é realmente transcendente.

Empolgado com todo este cenário e olhando para o largo, Alfredo comenta com Susana:

-Já imaginaste a sensação daqueles navegadores lusos quando viram pela primeira vez esta enseada?

-Sem dúvida! – responde Susana extasiada. Agora vejo claramente o porquê do termo “cidade maravilhosa”.

Com uma paragem obrigatória numa “lanchonete” de rua, onde se expõem frutas de todas as cores e formatos, é tempo de provar a famosa “vitamina de abacate” acompanhada da popular “coxinha de galinha”. Estamos no Rio.

Na sua Rolleiflex SL35, modelo de 35 mm, Alfredo vai captando um considerável número de imagens inéditas, de ambientes citadinos e geográficos. Susana por sua parte vai tomando as notas escritas. Elementos vitais à construção desta reportagem.

Com uma rápida visita ao “Forte de Copacabana”, que oferece vistas de tirar o fôlego para a enseada e uma interessante amostra das atividades da Marinha brasileira, é chegada a hora de forrar o estômago num dos inúmeros restaurantes ali da zona.

Alfredo quis provar as delícias da famosa feijoada brasileira com aquele feijão preto, enquanto Susana se deixou enfeitiçar pelo tradicional “Filé com fritas”. Sem ignorar o famoso “chope”sempre presente à mesa do carioca. Satisfação alcançada!

Tudo rematado com o popular café brasileiro e pagamento da dolorosa, a parte da tarde é assim iniciada com um novo circuito de táxi até a bela lagoa Rodrigo de Freitas, circundada por vários bairros da zona sul, como Ipanema, Leblon, Gávea e Jardim Botânico.

Numa brochura turística recolhida esta manhã na receção do Hotel pode ler-se:

“A urbanização da Lagoa Rodrigo de Freitas foi inicialmente planejada para as festas do Centenário da Independência. Com quase 8 km de perímetro, a mesma abriga uma grande área verde dedicada ao lazer e atividades culturais. É essencialmente utilizada para a prática de esportes aquáticos, como remo e iatismo.”

Aqui as vistas são novamente de total deslumbre face a um excecional plano de água recortado ao longe pelos icónicos morros “Dois irmãos” e mais além pela “Pedra da Gávea”.

Encantada com tais vistas, Susana exclama:

-Não nos avisaram para trazer de Lisboa uma dose extra de fôlego.

Ao que Alfredo responde sorrindo:

-Verdade!…levo daqui um lote de fotos de coleção. Vou no terceiro rolo de 36 e doido para as revelar!

No intuito de fechar o ciclo deste primeiro dia no Rio, estes jovens forasteiros ainda reúnem forças para visitar mais uma pérola desta cidade. O famoso “Jardim Botânico”.

Passando novamente os olhos por uma informação turística trazida do hotel, Susana lê:

“Uma das mais belas e bem preservadas áreas verdes do Rio de Janeiro, este jardim é um exemplo da diversidade da flora brasileira e estrangeira. Nele podem ser observadas cerca de 6500 espécies, algumas ameaçadas de extinção, distribuídas por uma área de 54 hectares, ao ar livre e em estufas. A instituição é responsável pela coordenação da lista de espécies da Flora do Brasil e pela avaliação de risco de extinção destas espécies.

Por decreto real de 13 de junho de 1808, o príncipe-regente Dom João, futuro rei D. João VI, manda tomar posse do engenho e terras contíguas à Lagoa Rodrigo de Freitas. Essencial objetivo: Criar naquele espaço o “Jardim de Aclimação”. Com a finalidade de aclimatar as plantas de especiarias oriundas das Índias Orientais, como noz-moscada, canela e pimenta-do-reino.”

A incursão neste universo de clorofila tingido por esta fusão de verdes de várias tonalidades, é naturalmente digna de um esforço extra para o diafragma da Rolleiflex de Alfredo.

Não ficou de fora a passagem pela estufa com plantas insetívoras, pelo cactário, pelo orquidário e pela Casa dos Pilões (antiga fábrica de pólvora da Coroa portuguesa).

Parados junto ao lago com soberbas “vitórias-régias” e observando, de um lado as alas de Palmeiras-imperiais e do outro a Alameda do Jambeiro, Alfredo aponta para longe chamando à atenção da sua companheira.

-Olha lá em cima, Susana!

-Sim! O que é? – pergunta, acompanhando o gesto de Alfredo na captação de mais uma singular imagem.

Ele lá estava. O guardião do Rio que sempre aparece nos ângulos mais inesperados a vigiar a cidade maravilhosa. O Cristo Redentor imponente no alto do morro do Corcovado!

Concluído este primeiro dia de encantamento e com a memória enriquecida, é chegada a hora destes jovens se recolherem ao hotel em São Conrado onde ainda podem usufruir de um banho de piscina com aquelas vistas de tirar o fôlego.

O jantar é uma vez mais dotado das qualidades oferecidas por esta unidade onde não há nada a apontar.

Impelidos pelo envolvimento sugestivo da noite anterior, estes jovens encontram-se agora no ambiente mágico deste quarto no 14º piso. As roupas perdem agora a sua utilidade dando lugar ao saborear de dois corpos nus tomados pelo desejo.

Os sentidos e os odores falaram mais alto e ar ficou mais leve.

Novo e último dia dedicado a deambular pelo centro histórico do Rio.

Em simpática conversa com uma senhora de meia idade da receção do hotel, Alfredo e Susana puderam estabelecer um possível roteiro para este novo dia.

Sendo descendente de portugueses e conhecedora natural da sua cidade, ela disponibiliza umas brochuras amplamente ilustradas.

-Podem retirar daqui as informações que precisam. Sugiro que peguem um táxi aqui no Hotel até o Leblon, de onde partem vários ônibus para o centro.

-Muito obrigado! – despedem-se os jovens repórteres entusiasmados.

Saindo do hotel, lá estavam os táxis na habitual captura de clientes.

Em conversa negociada com um simpático carioca de nome Sebastião, de estatura média, pele morena e sorriso rasgado, foi possível acordar um preço para a realização de um roteiro turístico, sendo incluído o custo do almoço.

-Vamos a isto! – pensa Alfredo trocando um sorriso com Susana.

Já em marcha e para melhor enquadrar este roteiro, Susana lê um capitulo de uma brochura em voz alta.

“Quando os portugueses se espalharam pelo Brasil e chegaram ao Rio, por volta de 1565, acabaram se fixando na região central da cidade. Muito em virtude de ser mais próxima ao porto de mar, facilitando as viagens e o transporte de produtos entre a colônia e a capital. A sua passagem está bem presente na construção de casas, igrejas, lojas e cafés”.

Neste circuito, a primeira parada é na “Confeitaria Colombo”. Uma pastelaria muito famosa, recheada de doces e salgados com grande influência portuguesa, acariciados pelo gostinho inconfundível do café brasileiro. Local impressionante pela decoração clássica plena de detalhes e portador de uma pegada com 70 anos de história.

Não longe dali, é tempo de observar e fotografar a famosa igreja da Candelária de arquitetura colonial, para em seguida percorrer a Av. Presidente Vargas onde se realiza o famoso desfile do grande Carnaval do Rio.

Animado pela curiosidade destes jovens, Sebastião entra na conversa informando:

– Tá chegando o Carnaval, gente! Pela primeira vez no Rio o desfile já não será aqui. Agora vai ser no novo Sambódromo.

-Isso fica onde? -pergunta Susana.

-Na rua Marquês de Sapucaí. Um negócio desenhado por aquele nosso arquiteto bacana, o seu Niemeyer!

Risos.

A passagem pelos famosos “Arcos da Lapa” transporta estes jovens para uma imagem icónica na cidade de Lisboa. O aqueduto das ”Águas livres”.

Neste caso uma estrutura mais baixa, formando um antigo aqueduto construído pelos portugueses para trazer água do morro de Santa Teresa para a parte baixa da cidade. Hoje em dia, é um dos cartões postais do Rio, onde o bairro da Lapa concentra uma importante parte da boémia carioca.

-Quer escutar um bom sambinha de raiz? É aqui, amigo! – diz Sebastião animado.

O momento gastronómico do dia foi no “Escondidinho”, um típico restaurante perto do largo da Carioca, sugerido por Sebastião.

Aqui foi possível provar um menu clássico da culinária brasileira. Um prato que fez a fama da casa. A costela cozida por cinco horas e servida com agrião e mandioca frita. As porções são bem generosas. Para sobremesa, o espetacular “Mineiro com Botas”, a mistura de queijo, banana, goiabada, cointreau e conhaque. De lamber os beiços.

-Hum! Foi um regalo! -diz Alfredo a Sebastião, captando o olhar concordante de Susana.

-Bom saber! – responde este carioca com um sorriso rasgado.

Na restante tarde e antes do regresso ao hotel, este roteiro foi completado com passagens de mera visualização por mais alguns pontos de interesse do centro do Rio nos quais se incluíram: o “Real Gabinete Português de Leitura”, “Teatro Municipal”, “Biblioteca Nacional” e “Museu Histórico Nacional” . Com evidentes traços arquitetónicos dos tempos de um império que sonhou grande nesta parte do mundo.

Momentos fotográficos cuidadosamente captados por Alfredo.

Cumprido está um dia pleno que teve como essencial objetivo a tipificação da sociedade carioca nesta fabulosa cidade da América Latina.

Concluído este primeiro conteúdo jornalístico e confortavelmente Instalados no quarto do hotel, é tempo de Susana organizar as suas notas de bordo. Texto a enriquecer com a ajuda de informações colhidas aqui e ali e que irão usufruir mais adiante da preciosa ajuda de Alfredo que, igualmente, tomou algumas notas no seu caderno de bolso.

Na sua essência, este texto terá como base uma compreensão tão clara quanto possível do quotidiano local. A leitura de alguns jornais e revistas contribuirão seguramente para completar este propósito.

No eixo condutor desta matéria está a perceção de uma sociedade multifacetada e colorida que vive os anos difíceis de uma ditadura militar imposta.

Neste âmbito, um pensamento atravessa o espírito de Susana.

Apesar da presença militar e policial que vimos aqui e ali, o quotidiano carioca é fiel ao perfil reconhecido no povo brasileiro. O gosto pela vida.

Os inúmeros sinais de sofrimento, pobreza e desigualdade extrema, vividos entre a cidade moderna e as muitas favelas do Rio, não retiram ao carioca a expectativa de mais um grande Carnaval que se aproxima regado pelo samba e alegria de viver. Isto é Brasil.

Parte III – Ouro Preto e o legado mineiro

Ao cair da noite e uma vez acertadas as contas com o hotel é tempo de viver novas experiências. As vivências na cidade maravilhosa deixaram sinais de alguma exaustão.
Um táxi os leva até à Rodoviária Novo Rio, no bairro Santo Cristo onde, Alfredo e Susana se sentam num botequim para tomar uma refeição ligeira.
A próxima etapa será o embarque num ônibus que os levará até ao seu próximo destino. A cidade de Ouro Preto, no Estado de Minas Gerais.
Com partida por volta das 23.30 h, este confortável ônibus equipado de poltronas tipo “Pull man” chegará a Ouro Preto às primeiras horas da luz de um novo dia.

-Que jornada, hein! – desabafa Alfredo, uma vez instalado ao lado de Susana.
-Verdade, querido! Mas podemos dizer que a nossa passagem pelo Rio está bem documentada. – responde a jovem suspirando na sua confortável cadeira recostada.
-Aquela garrafa de água está contigo? – pergunta o jovem antropólogo
-Yes! Olha aqui. Acho que também vou dar um trago a seguir.

Uma vez rodados os quase 500 Km ao longo da noite e com o raiar de um novo dia, estes jovens encontram-se agora no estado de Minas Gerais.
Atingido o seu destino Ouro Preto, Alfredo e Susana seguem agora a bordo de um táxi que os conduzirá ao hotel que Alfredo reservou a partir da agência em Lisboa.

As primeiras impressões da cidade são marcantes pelos traços históricos e coloniais que comporta.
O Hotel Solar das Lajes, localizado no centro da cidade, fica perto da famosa Praça Tiradentes.
Uma unidade que faz parte de um famoso conjunto arquitetónico, historicamente conhecido como Castelo dos Nobres, com direito a uma soberba vista para a referida praça e, segundo consulta à brochura turística, com o privilégio de um magnífico por do sol!

Uma vez instalados e tomada a primeira refeição do dia no hotel, aqui denominada de “café da manhã”, é tempo de recuperar algumas forças e rever com tranquilidade o plano para os próximos dias.
A missão que os jovens portugueses trazem em mãos é revestida de alguns aspetos históricos semeados numa região com uma forte pegada humana. Tendo como natural pano de fundo a vertiginosa corrida ao ouro e diamantes iniciada no longínquo ano de 1700.
Um pensamento percorre o espírito de Alfredo – isto promete!
O jovem antropólogo tem agora uma clara consciência de estar a reviver os primeiros passos do seu avô Donald por terras brasileiras.
Este último, movido pela sua errática curiosidade, por aqui passou nos anos 20, para compreender e documentar uma epopeia sem paralelo decorrida ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII.
Seguindo as memórias escritas do seu avô, Alfredo procurará, passado meio século, refazer o seu trajeto com o essencial propósito de constatar e documentar no que se transformou esta emblemática região do mundo.
Ouro Preto tem quatro séculos de história, sendo uma cidade mineira que viveu o seu auge nos séculos XVII e XVIII.
Uma cidade dotada do maior património de arquitetura barroca do Brasil com mais de uma dezena de monumentos religiosos, cujos traços transportam o visitante para as remotas cidades e aldeias de Portugal.

Confortavelmente instalados à beira da piscina, os nossos viajantes tiram assim proveito das magnificas vistas, saboreando o sumo da grande variedade de frutas tropicais oferecidas aos visitantes do Brasil.

-Que delícia de sumo! Este é de papaia – adianta Susana com a satisfação no rosto
-Eu escolhi o de manga. Que saudades destes frutos que deixei lá atrás em Moçambique! Também com este calor só assim! – exclama o jovem antropólogo.
Alfredo aproveita este momento para retomar a leitura de alguns escritos deixados pelo avô Donald, cinquenta anos antes.

Redigido em Inglês, Alfredo revê um dos relatos retirados do seu espólio:

“Quando os primeiros exploradores encontraram o cobiçado metal, não houve mais tranquilidade na região de Ouro Preto.
Entre 1700 e 1770, a produção de ouro do Brasil foi praticamente igual a toda a produção do resto da América verificada entre 1493 e 1850.
Tudo começou em Vila Rica, atual Ouro Preto, tendo sido a primeira povoação do Brasil ligada à mineração.
Os novos garimpeiros desbravaram caminhos e a descoberta de metais preciosos atraiu aventureiros ambiciosos de toda a parte. A cidade crescia, o ouro era moeda de troca, mas não havia preocupação alguma com a construção de novas infraestruturas. Em consequência, entre 1700 e 1703, as populações de Ouro Preto e de distritos vizinhos sofreram com uma terrível escassez de alimentos.
Este foi um período que gerou conflitos sangrentos entre portugueses e bandeirantes paulistas em confronto pelo direito de exploração das recém-descobertas jazidas de ouro.
Nos primórdios desta epopeia, a mão de obra era indígena, mas num período posterior foi gradualmente substituída pela mão de obra escrava oriunda do continente africano.
Foram assim escritas as primeiras páginas negras da escravatura na América Latina.
Fenómeno que só veio a ser travado pela Lei Áurea de 1888, quando foram dados os primeiros passos para a transformação do setor mineiro.
Seria a partir daqui imposto às companhias de mineração, acostumadas a operar com mão de obra escrava, a assumirem a contratação de trabalhadores assalariados.
Sendo os negros, muitas vezes, excluídos destes processos contratuais.
Abriam-se assim as portas aos garimpeiros clandestinos de múltiplas raças, origens e credos.
Estes garimpeiros, então excluídos das concessões mineiras, procuram os locais mais isolados para tentar a sua sorte, longe dos olhos do controle fiscal.
Extremamente carentes de recursos, estes foram quase sempre duramente perseguidos pela administração colonial e mais tarde pela União…até aos dias de hoje.
Por definição, o garimpeiro tornava-se muitas vezes naquele que era obrigado a
expatriar-se e a passar uma vida de miséria, consequência da proibição de trabalho na mineração legal. Consciente que este seria o seu único meio de subsistência e eventual caminho para o sucesso, ele dá início a uma nova atividade. A extração clandestina reservada ao audaz, intrépido e ambicioso aventureiro, que tenta buscar fortuna numa vida cheia de riscos, perigos e emoções.
Muitos deles terão ficado pelo caminho.”

Concluída a leitura desta passagem, Alfredo volta-se para Susana, dizendo:
-Estou aqui a pensar na melhor utilização do nosso tempo.
-Então diz aí! – retorna Susana saboreando mais um trago do excelente néctar.
-Proponho dormirmos uma ou duas horas e mais tarde darmos um giro pela cidade, sentir a história de Ouro Preto e nos próximos dias visitar algumas minas de ouro da região.
-Parece-me bem! Apesar deste calor estou a gostar disto. Penso que vamos tirar daqui muito boa matéria. E essas minas serão acessíveis?
-Segundo li, algumas são! Logo veremos como vai ser possível visitá-las. Sabes porque foi dado o nome de Ouro Preto?
-Não faço ideia, mas estou curiosa.
-Li em Lisboa uma informação numa revista científica que dizia: “As primeiras descobertas do ouro foram feitas no leito de um rio da região. Na sua aparência eram pedras de cor escura recobertas com uma camada de óxido de ferro . Daí o nome Ouro Preto. Depois de fundidas, estas pedras revelavam o tom amarelo…a cor enfeitiçada do metal da loucura.” -responde Alfredo algo empolgado.
-Hum! Um detalhe bem interessante para introduzir no nosso texto. – retorna Susana igualmente empolgada.

Após um breve período de descanso e com a curiosidade em alta, assim vão os jovens forasteiros à descoberta da lendária cidade de Ouro Preto, cuja informação turística informa:
“Esta foi na sua origem denominada de “Vila Rica de Albuquerque” no ano de 1720.
Aqui se reúne o maior e mais importante acervo da arquitetura e da arte do período colonial de todo o Brasil. Em meio ao casario dos séculos XVII e XVIII, construído nas ladeiras de uma região montanhosa, erguem-se 13 igrejas monumentais, com altares banhados a ouro e imagens sacras, nos estilos barroco e rococó”.

Devidamente equipados e com boa disposição, os jovens repórteres dedicam este primeiro dia a captar as sinergias desta cidade singular. Do seu traço colonial, que lembra a cada canto a passagem dos portugueses, há uma inequívoca marca de religiosidade cristã que deixou fortes traços nas igrejas locais.
Ao apreciar este património, o pensamento de Alfredo relembra algumas notas retiradas da sua visita à Torre do Tombo em Lisboa.
“Com a expulsão dos jesuítas de Portugal em 1759 (Reinado de D. José I), esta ordem mudou-se maciçamente para o Brasil. A presença e atuação dos padres da “Companhia de Jesus” na região de Minas Gerais fez-se notar desde a descoberta do ouro.
Esta corrida desenfreada não inibiu a influência dos jesuítas. Pelo contrário, na primeira metade do século XVIII, estes padres tiveram um peso decisivo na construção da organização política, social e arquitetónica da região.”

Numa entusiasmada caminhada entre-cortada de becos travessas e ladeiras, esta foi uma jornada de reconhecimento, presenteada por um agradável almoço no restaurante tradicional “Contos de Réis”. Bem no centro da cidade perto da Praça Tiradentes e instalado num espetacular casarão do século XVIII.
Aqui foi possível provar algumas iguarias da famosa gastronomia mineira servida em panelas de pedra, além de deliciosos doces caseiros servidos em tachos de cobre e acompanhados do famoso queijo de Minas.
Alfredo, entusiasmado com o cardápio, optou pelo “Feijão Tropeiro”. Um prato originário da época colonial, muito consumido pelos tropeiros, viajantes ou tropas que transportavam mercadorias. Devido às longas distâncias que percorriam, a mistura de feijão, farinha, carne seca e ovos era um alimento prático e nutritivo.
Por seu lado, Susana deixou-se seduzir pelo frango com “ora pro nóbis”, cuja descrição informa:
A palavra “Ora pro nóbis” vem do Latim, e significa em português “Orai por nós”.
Trata-se de um ingrediente marcante da culinária mineira, sendo este o prato mais comum comido em Minas Gerais, com a hortaliça e o frango com o tal “Ora pro nóbis”.

Uma nova página se abre nesta aventura por terras de Ouro Preto.
A desejada visita às minas de ouro da região, recheada de expectativas e geradora de emoções.
Em conversa circunstancial com um homem de passagem pelo Hotel Solar das Lajes, Alfredo e Susana pensam ter encontrado algumas pistas interessantes.
De nome próprio Heitor, este é um personagem dos seus cinquenta e tal anos, mineiro de raiz, com um aspeto aventureiro e semblante de quem leva uma vida errante por caminhos empoeirados, debaixo de sol e chuva.
Com olhos de um azul escuro, portador de uma barba e cabelo grisalhos e uma indumentária típica dos caminhantes dos sertões do interior, este cavalheiro “sui generis” está calçado com um belo par de botas de couro bovino.
Dono de uma voz algo rouca saída do peito, este mineiro vai desenvolvendo uma fala bem típica da região, revelando-se como um bom contador de histórias.
No desenrolar desta prosa espontânea e tomando conhecimento das intenções destes dois forasteiros recém chegados do outro lado do mar, Heitor orienta a sua fala numa direção que encontra o natural interesse dos seus interlocutores. A situação atual das minas onde outrora decorreu a alucinada corrida ao ouro.
Na sequência deste encontro, surge uma excelente oportunidade que Alfredo e Susana não podem ignorar. Usufruir da companhia de Heitor que se dispõe a acompanhá-los na visita às minas em troca de uma verba de 30 dólares por dia, no suporte de alguns drinks e refeições a tomar aqui e ali, bem como dos custos de transporte ao longo dos próximos dias.
Trato feito e satisfação demonstrada por ambas as partes, assim se vislumbra uma nova fase de vivências em Ouro Preto.
A primeira mina a visitar proposta por este singular personagem é a “Mina da Passagem”.
Um programa que faz agitar os espíritos irrequietos dos jovens repórteres.

Um novo dia foi iniciado com a toma do tal “Café da Manhã” que é uma marca da região.
Para os mineiros a mesa é parte importante da sua cultura. Uma costela herdada dos lusitanos que para cá trouxeram a paixão das iguarias gastronómicas.


Por aqui diz-se com uma certa vaidade que o café da manhã mineiro é um dos melhores do mundo.
Sobre esta mesa está muita coisa gostosa e que enche os nossos olhos de gula e a boca de água.
O café, aqui chamado de “cafezin”, é apresentado como vedeta principal. Moído a partir de grãos selecionados no sul de Minas Gerais, o seu sabor e aroma são de facto incomparáveis. Mais mineiro que isto é impossível!
Outra estrela da farta mesa é sem dúvida o queijo mineiro como património cultural, sendo o queijo mais consumido no Brasil.
Queijo puro, queijo com café, queijo com pão, queijo com biscoito, queijo com goiabada e queijo com tudo.
Outra iguaria que é referência da cultura mineira e reconhecida em todo o Brasil é o excecional pão caseiro e o tradicional pão de queijo, que não pode faltar no café da manhã. Bem como o bolo de fubá, o preferido das vovós mineiras. Com opções que variam entre o cremoso, de milho, com coco ou rapadura, ou queijo (aí está ele novamente).
Sem perder de vista o chamado biscoito de polvilho, um segredo dos biscoiteiros da região que passa de geração em geração. Este é frito ou assado, crocante e tão leve que, segundo os locais, é uma das comidas que não se consegue parar de comer após a primeira dentada.
Esta tradição é realmente um caso sério!

O sol já aquecia os vastos horizontes montanhosos e a acolhedora cidade, quando surge Heitor que, a bordo de um táxi, viera buscar os dois jovens para o início do programa previamente combinado.
Assim saíram em direção à localidade de Mariana onde, após percorridos cerca de 7,6 km de estrada rústica, logo chegam às proximidades da entrada da tal mina.

Mina de Passagem


Seguindo a pé um curto caminho de mato já se avista um par de velhos carris sobre os quais está uma espécie de carrinho metálico com cinco pequenas composições movidas a eletricidade. Os sinais de antiguidade deste equipamento oxidado são evidentes.
Ali está igualmente um personagem de meia idade e pele curtida pelo sol que os irá acompanhar nesta descida. O senhor Gabriel, guardião da mina ao serviço dos atuais proprietários.
Ao fundo e após uma primeira descida inclinada, avista-se a entrada da mina. A emoção cresce.
Na sua qualidade de guia e conhecedor destes locais, Heitor entendeu antes de tudo facultar aos dois jovens curiosos algumas informações sobre a mina.
-Vamos lá falar um pouco sobre esta mina.
-Certo, Heitor! Diga-nos então. Como foi descoberta esta mina? – pergunta Alfredo enquanto capta as primeiras fotos do local.
Heitor adianta no seu sotaque mineirinho:
-Os primeiros bandeirantes percorreram alguns veios d’ agua da bacia do rio Doce e atingiram o ribeirão do Carmo ali mais abaixo. Neste local receberam os primeiros sinais da presença abundante do metal dourado em zona de aluvião. Subindo o ribeirão e usando os métodos de prospeção por “bateia”, confirmaram estar no local desejado.
– E como era esse método? – pergunta desta feita Susana
-A “bateia” é uma bacia metálica assim larga com forma de…olhe!…sabe o chapéu dos chineses?…isso aí voltado do avesso…tá me entendendo?
E prossegue:
-Dentro desta peça é colocado o cascalho retirado das zonas de aluvião. Com gestos rotativos o garimpeiro vai expulsando o cascalho maior com ajuda de uma lavagem com água do côrrego. Com a boa prática adquirida vai sendo expulso aquele material inútil, ficando no fundo da bateia os resíduos mais pesados onde podem surgir as pepitas de ouro. De modo geral é assim que funciona, entende?
– E o aluvião neste caso é o quê exatamente? – pergunta Alfredo recordando alguns termos das suas aulas de geologia em Cambridge.
Ao que Heitor responde:
– Aluvião é um depósito de sedimentos (areia, cascalho ou lama) formado por uma inundação ou corrente d´água. Séculos mais tarde este trabalho começou a ser feito com a ajuda de máquinas.
-Certo! E diga-me, Heitor, em que ano se deu esta descoberta?
-No ano de 1719, segundo os arquivos do reino. Esta é atualmente a maior mina de ouro aberta a visitação do mundo. Uma mina que guarda segredos e mistérios que encantarão “oceis” mais adiante – conclui.
Com a preciosa assistência do funcionário local, são em seguida convidados a montar no tal trolley enferrujado que os levará às entranhas da terra.
-Alfredo! Achas que esta carroça é segura? – murmura Susana receosa.
-Sobe aí, moça! Não tem perigo, não. Além do mais vamos devagar. Um jumento faria este caminho mais rápido que nós! – retorna Heitor com total descontração.
Somos entretanto informados pelo Sr. Gabriel que este é o mesmo transporte que levava os escravos para o interior da mina 200 anos atrás.
Uma emoção forte atravessa os espíritos de Alfredo e Susana.

Esta descida para as galerias subterrâneas sobre rails é no mínimo transcendente. O ruído deste mecanismo movido a eletricidade não deixa de ser estridente.
À entrada param para acionar uma lanterna na frente e outra no último carro, de forma a terem uma melhor claridade durante o percurso, completando deste modo a parca iluminação ao longo da linha que foi acesa para a visita.
Segundo informações deste funcionário, este percurso será de 315 metros de extensão chegando a 120 metros de profundidade.
Medo! Mas vamos lá! – pensou Susana.
De olhos bem abertos e máquina fotográfica em riste o jovem antropólogo e a sua companheira sentem estar a fazer uma daquelas lendárias viagens de Júlio Verne até ao centro da terra.
Ao longo do percurso é frequente verificar uma coloração dourada nas rochas das paredes subterrâneas das múltiplas galerias outrora escavadas que vão bifurcando em várias direções.
Heitor vai explicando.
-Engana-se quem pensa que o que se vê aqui e ali nestas paredes é ouro. Na verdade, trata-se de pirite de ferro.
Um facto assinalado nos relatos de Donald Mckenzie. Um minério conhecido como o “Ouro dos tolos” – recorda Alfredo.
O cenário do interior da mina realmente impressiona. Uma fantástica sequência de galerias, salões e colunas de pedra lavrada com tonalidades variando entre os cinzas claro e escuro, com extratos de cor ocre ou marfim e aqui e ali os tais veios dourados.
Um pensamento assalta os espíritos destes jovens. Como ignorar o fator humano, sabendo que estes labirintos foram, ao longo de séculos, o campo de grandes sacrifícios daqueles que escavaram as entranhas da montanha em busca de riquezas? Com forte incidência em trabalho escravo!
-Impressionante! – murmura Susana.

Heitor informa: A temperatura aqui dentro é estável o ano todo, entre 17° a 20° Celsius. Estima-se que cerca de 35 toneladas de ouro tenham sido extraídas durante a exploração desta mina ao longo dos tempos. Ainda há ouro por aqui, mas não em quantidade que valha o investimento na extração.
Percorridos os mais de 300 m deste trilho, dá-se início a uma experiência que não mais sairá do imaginário destes jovens. A composição imobiliza-se junto a um maravilhoso lago de águas cristalinas agora bem iluminado pelos holofotes. O sr. Gabriel informa que estes lagos foram formados pelos aquíferos que inundaram quilómetros de túneis, quando estes deixaram de ser bombeados.
-Uau! Que espetáculo! – exclama Susana visivelmente fascinada.
Com os olhos arregalados e pronto a captar um conjunto de imagens espetaculares do local, Alfredo pergunta:
-Falta muito para o centro da terra?
A risada é geral.
Heitor prossegue.
Com o equipamento e treinamento necessários, é possível percorrer uma grande parte deste mundo subaquático. Há pouco tempo trouxemos aqui uns mergulhadores franceses que se aventuraram por aí. Segundo eles há uns dois quilómetros a percorrer nesses labirintos.
-Fabuloso! – remata Susana maravilhada com o cenário.
– Este lago subterrâneo cristalino é resultado de perfurações que chegaram até ao lençol freático. Não existe nenhum tipo de vida na água devido a quantidade de metais pesados, principalmente o arsénio. Daí só ser autorizado o mergulho a profissionais certificados.

Entusiasmado com o relato, Alfredo avança:
– Já que aqui estamos, diga lá, Heitor. A quem pertenceu esta mina?
Portador de uma curiosa sabedoria popular o carismático guia prossegue:
-Segundo a história que está bem documentada em Ouro Preto, os direitos desta exploração foram adquiridos em 1784 por um português chamado José Botelho Borges. Com a morte dele os seus herdeiros leiloaram a estrutura incluindo os escravos, tendo sido rematada pelo Barão de Eschwege, em 1819.
-E de onde saiu este personagem? – pergunta Alfredo curioso.
-Era um influente geólogo, geógrafo, arquiteto e metalúrgico alemão. Com ele foi constituída a primeira empresa de mineração do Brasil. A “Sociedade Mineralógica de Passagem”.
Em 1859, o Barão vendeu os direitos minerários para o inglês Thomas Bawden que então constituiu a “Anglo Brazilian Gold Mining Company”. Esta empresa adquiriu diversas concessões vizinhas e explorou esta rede de minas entre 1864 à 1873.
– E desde então? Qual é a situação atual da mina? – pergunta Susana curiosa.
-Segundo se sabe, passou desde então para as mãos da empresa “The Ouro Preto Gold Mines of Brazil Limited.”
Dado que a exploração terminou nos anos 50, já se ouve falar da sua utilização para fins turísticos. Estando por fazer uma grande obra de reabilitação que passará pela recuperação deste trolley, da linha férrea, renovação da instalação elétrica e adequação de todas as galerias acessíveis para visitação.
Ao momento vivido nestas profundezas da terra, é agora adicionado um novo ingrediente.
Heitor, com uma expressão algo enigmática, prossegue.
-Existem por aí alguns contos populares que valerá a pena referir. Este é o local adequado.
Tomada por uma natural curiosidade Susana diz.
-A sério? Então vamos lá.
Misterioso, Heitor prossegue.
-Vamos aqui fazer algumas considerações e entrar num universo onde não existe fronteira entre o mundo natural e o sobrenatural.
-Hum… Isto promete! – pensou Alfredo.
-Estamos num ambiente que acolhe fenómenos como a aparição de espíritos, vozes desconhecidas e mesmo objetos que se movem. Atividades paranormais que acontecem sem pré aviso como se fosse uma energia em movimento, que pode ser usada, por exemplo, para o mundo espiritual comunicar com pessoas aqui na terra.
-Olha só o rumo da conversa! – pensa desta vez Susana com um arrepio que lhe percorre a espinha.
Alfredo franzindo o sobrolho observa atento o rumo do relato.
-Os moradores do interior de Minas Gerais e cercanias relatam o avistamento de luzes fortes, com brilho amarelo intenso, que cortam os céus aqui e ali.

Fenómenos apelidados de “Mãe do ouro”, pois aparecem próximo aos locais de garimpo de ouro.
Crenças do povo! – pensou Alfredo trocando um olhar desconfiado com Susana.
-Contam os mais antigos que desde meados do século XVIII, tempo do ciclo do ouro, a “Mãe-do-Ouro” andava pela região de Minas Gerais onde existia o cobiçado metal em grande quantidade.
Tida como grande defensora da natureza, esta entidade aparecia sob a forma de uma bola de fogo, pairando nos céus, indicando onde se encontravam jazidas de ouro que não deviam ser exploradas.
Dizem os populares que é uma espécie de protetora desses depósitos naturais de ouro e que graças a ela os garimpeiros não devastaram toda a região. Todo garimpeiro sabe que a desobediência aquele aviso é certeza de infortúnio. E diz-se também que poucos ousam desobedece-la. Aqui em Mariana não há quem já não tenha ouvido falar nela.
O olhar dos jovens forasteiros mantém a perplexidade.
-Já foi avistada por muitas pessoas que se depararam com uma bola incandescente nos céus. Os que ousaram chegar mais perto tiveram queimaduras nos olhos idênticas às feitas por exposição à luz de solda.
Retomando o fôlego e perante o olhar desconfiado dos jovens portugueses, Heitor continua.
-Em muitos lugares do Brasil, a “Mãe-do-Ouro” toma a forma de uma mulher bonita que habita cavernas e locais sombrios. Para ali atrair homens que maltratam as esposas, os fazendo largar suas famílias, mas tratando de não deixar as mulheres sofrendo e colocando outras pessoas em seu caminho.
A lenda diz que a “Mãe-do-Ouro” é ainda mais implacável ao saber de um caso de garimpo nos locais onde ela apareceu. Aí, durante a madrugada, a bola de fogo se torna mais incandescente e usando do seu fascínio, atrai estes garimpeiros e os leva para uma caverna de onde nunca mais sairão.
-Bem, Seu Heitor. Não me lembro de ter visto alguma luz especial antes de entrarmos aqui. – exclama Susana com uma expressão entre o espanto e o sarcasmo.

Heitor não perde tempo e responde.
-Pois não se engane, moça! Eu reparei bem nessa luz lá na entrada. E não sei se algum dia sairemos daqui.
Com um simpático tapa no ombro deste insólito personagem, Alfredo responde.
-Tranquilo Heitor! Eu falei com a “Mãe d´ouro” antes de virmos. Ela ficou a saber que a única ferramenta que traríamos seria esta. – conclui o nosso antropólogo exibindo a sua “Rolleiflex” munida de flash.
A gargalhada foi geral.
Parece que desta vez Heitor não conseguiu o seu propósito de atormentar estes visitantes.
Um vez percorrido o caminho de volta e captado um considerável número de imagens desta viagem próximo do centro da terra, o grupo emerge no mesmo ponto em que entraram nas entranhas da terra, duas horas mais cedo.
Embalados por um reflexo condicionado, os jovens repórteres não deixam de olhar o céu, estando o astro rei próximo do zenit. Não havia sinais de bola de fogo no céu….Ufa!
Cumprida a devida gratificação ao Sr. Gabriel que simpaticamente acompanhou o grupo nesta aventura, estaria deste modo contada uma história com valor próprio que dificilmente será esquecida.
À espera e conforme o combinado, ali estava o táxi para os levar de regresso ao hotel.
A parte da tarde foi bem preenchida com a compilação das notas desta singular reportagem.

No dia seguinte, os jovens repórteres irão, na companhia do carismático Heitor, visitar desta feita mais duas minas de ouro assinaladas nos relatos do avô Mckenzie. A mina de “Chico Rei” e a mina “Du Veloso”

 

A Mina Chico Rei

 

Apesar da chuva que caíra de madrugada, o sol lá rompeu as nuvens iluminando este novo dia de peculiares aventuras.
Por voltas das 9 horas da manhã já a temperatura do ar anuncia mais um dia de calor típico desta região mineira.
Para a visita desta manhã, Heitor propõe uma caminhada a pé até à Praça Tiradentes.
– E a mina é longe dali? – pergunta Susana curiosa
-A mina do “Chico Rei” fica a uns 100 metros da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição.
-Bem! Creio que sei qual é. Vamos lá! – propõe Alfredo.
Uma vez na famosa praça, os três aproveitam para tomar um café com aquele excelente sabor mineiro num botequim ali perto. Susana acusando alguma sede prefere uma água gelada. Momento que Heitor aproveita para dar uma perspetiva do que vão visitar.
Na sua voz rouca prossegue.
-Escutem bem. Esta mina é imensa: são mais de 80 quilómetros quadrados de extensão. Suas galerias estão aqui debaixo da Praça Tiradentes, da feira da Igreja São Francisco de Assis e da Casa dos Contos. Em vários trechos tem mais de um nível.
-What! – exclama Alfredo trocando com Susana um olhar surpreso.
-Tem mais! Esta mina é cheia de histórias. Agora vamos ali conhecer uma pessoa que vai lhes contar muito mais sobre este local.
Embalados nesta expectativa assim continuam até chegar a casa de uma senhora de nome Quitéria. Trata-se uma casa rústica com uma terreno envolvente com algumas árvores frondosas e cercado de um muro de pedra empilhada.
-Mas isto é uma casa particular, certo? – pergunta Alfredo curioso.
Ao que Heitor responde.
-Certo, jovem. E é aqui que começa a nossa jornada.
-Bem, isto promete! – pensou Susana
A sra Quitéria é uma mulher dos seus trinta anos de cujo semblante mineiro ressalta um par de olhos expressivos. A afável receção que dispensa aos visitantes não deixa dúvidas quanto as boas expectativas do propósito a alcançar.
Apresentações feitas com esta anfitriã, foram gradualmente entendendo porque estavam ali.
No intuito de esclarecer algumas dúvidas, Heitor sugere que esta Sra. explique o contexto deste local.

Quitéria, senhora de um sotaque mineiro bem característico, logo os conduz para mais uma história a não perder.
-Então vamos lá! – começa, encaminhando os visitantes para as traseiras da propriedade.
-A partir de 1950, uma grande parte das minas da região de Ouro Preto foi desativada e abandonada.
Naquela época, a minha mãe, D. Mariazinha, com a ajuda de alguns familiares comprou esta casa.
Um dia os meus irmãos brincavam de bola no quintal com uns amigos. Com um chute a bola desapareceu dentro de um buraco escondido por trás dos matos.
Na procura do brinquedo, as crianças se depararam com um buraco escavado que parecia ser uma passagem para algum lugar.
Alguns homens vieram ver do que se tratava e cedo descobriram que esta era a entrada de uma antiga mina.
No seguimento de algumas pesquisas por parte de pessoas ligadas ao setor mineiro, concluiu-se que esta era a entrada da antiga Mina da Encardideira.
-Fantástica descoberta!- exclama Susana tomando algumas notas no seu caderno.
-Mas este não é o nome da mina, certo? Deve-se a quê o nome de Chico Rei? – pergunta Alfredo.
Com um certo entusiasmo Quitéria prossegue.
-Então! Segundo sabemos através do relato de velhos mineiros e os escritos da história, esta mina recebeu esse nome em homenagem a um escravo, que teria vindo da África naqueles navios negreiros.
Segundo dizem, Chico se chamava Galanga e era rei de uma tribo no Congo. Ele, sua esposa e filhos foram capturados com toda sua gente por portugueses que traficavam escravos.
-Incrível! – exclama Susana.

 

 

Quitéria continua o insólito relato.
-Estes escravos foram trazidos para o Rio de Janeiro no navio “Madalena”, por volta de 1730 – 1740. Dizem os escritos de alguns historiadores que sua esposa e filha foram jogadas ao mar para acalmar a ira dos deuses da tempestade, junto com outros negros considerados mais fracos.
-Que loucura! – responde Susana com o olhar arregalado.
-Todos os que vieram com Galanga, inclusive um único filho que sobreviveu à viagem, foram comprados pelo Major Augusto, dono da Mina da Encardideira.
Galanga, que desde cedo demonstrou ser diferente dos outros escravos, foi rebatizado com o nome católico de Francisco. E assim nasceu o termo “Chico Rei”.
-Mas a história de Chico Rei vai mais longe!- continua a senhora.
-Nas minas este escravo demonstrava uma inteligência que o diferenciava dos restantes mineiros. Conta-se que apesar das dores do trabalho forçado, Francisco conseguiu juntar dinheiro e adquirir a mina de ouro.
-Sério? – e como um escravo faz isto? – demanda Alfredo incrédulo.
-Chico escondia ouro em pó entre os cabelos e assim foi juntando meios para comprar a sua liberdade, a de seu filho e a de seus compatriotas. Adquirir a então denominada carta de alforria.

 

Major Augusto, doente e no fim da vida, vendeu a mina para o ex-escravo.
Com a venda do metal precioso, Francisco libertou vários de seus conterrâneos, além de ter contribuído para a construção da igreja de Santa Efigênia. Segundo aqueles relatos ele morreu aos 72 anos vítima de uma hepatite.
-Muito interessante! – exclama Susana enquanto toma novas notas no seu diário de bordo.
Concluído este fascinante relato dá-se início à visita guiada à mina na companhia do Sr. Davi, marido de Quitéria. Este cavalheiro de uns 40 anos, de estatura média e traços de uma vida de trabalho, é um profundo conhecedor da mina. Adiantou-se então a acender a rede de iluminação para podermos entrar.
Antes de entrar, este informa que há 300 metros iluminados e acessíveis para visitação, o suficiente para entender a dinâmica do trabalho na mina.

 

 

Desde logo o nosso guia foi-nos mostrando as paredes das minas, seus veios de cristal, onde provavelmente poderia se encontrar o tal ouro.
A escavação era feita toda no mesmo sentido, explica. Na medida em que iam encontrando ouro, os mineiros o depositavam em uns buracos arredondados chamados buchos. Assim, o ouro ficava bem guardado em um só lugar e poderia ser facilmente recolhido no final do dia.
-Hum! – manobra perspicaz – pensa Alfredo
-Além do ouro, outro elemento era extraído dentro da mina: a argila. Usada para fabricação de cerâmica e também utilizada para maquiagem, conclui.
No interior das galerias é frio e húmido. A água escorre pelas paredes em muitos pontos.
Davi acrescenta:
-Os escravos ficavam aqui dentro o dia inteiro, escavando, carregando peso, escalando as galerias superiores (algumas com uma inclinação incrível), respirando a fumaça do óleo que queimava nas lamparinas, sentando-se no chão molhado para se alimentar, tendo que andar abaixados em inúmeros trechos. É assustador, arrepiante e comovente imaginar esses tempos. Conta-se que os escravos que aqui trabalhavam nas minas tinham um “prazo de validade” de 10 anos, no máximo 15.
Os nossos forasteiros não deixam sentir uma forte emoção perante este cenário.

 

 

Paragem para descanso numa sala mais larga onde se podem ver outros túneis. Alguns deles abertos em dois níveis.
Momento para Heitor adiantar mais algumas informações.
Chico Rei, tendo conquistado a sua carta de alforria e senhor de um considerável poder aquisitivo, mandou construir a Igreja de Santa Efigênia, conforme Quitéria já havia referido. A partir dali os negros passaram a poder ser enterrados em uma igreja. Diz-se também que foi Chico Rei a pessoa que introduziu o “congado” em Minas Gerais.
-Congado? – indaga Alfredo curioso.
O Sr. Davi, com o seu inegável conhecimento do tema, explica.
O Congado é uma manifestação cultural e religiosa de influência africana celebrada em algumas regiões do Brasil.
Também chamado de “congo” ou “congada”, esta é uma mistura de cultos católicos com africanos num movimento sincrético.
-Sincrético? – indaga desta vez Susana.
Davi com um leve sorriso prossegue.
-Um termo usado na mistura de cultos e religiões diferentes, dando um novo sentido aos seus elementos.
É na congada que surge uma dança que representa a coroação do rei do Congo, acompanhado de um cortejo compassado, cavalgadas, levantamento de mastros e música. Os instrumentos musicais utilizados são a cuíca, a caixa, o pandeiro e o reco-reco.
-E quando se dão tais festas? – pergunta Alfredo.
-Ocorre em várias festividades ao longo do ano, mas especialmente no mês de outubro, com a devoção aos santos associados às irmandades negras. Nossa Senhora do Rosário, Santo Elesbão, São Benedito, Santa Efigênia e Santo Antônio. O ponto alto da festa é sempre a coroação do rei do Congo.

 

Tais festas são entendidas como parte das estratégias encontradas pelos escravos para resistirem à escravidão, criando laços de solidariedade e sociabilidade.
-Muito bem Sr. Davi. Não fazia a mais pequena ideia. – diz Alfredo entusiasmado.
Entretanto, Heitor com a sua apetência para criar um ambiente mais inquietante acrescenta.
-Dentro desta mina dizem que ainda residem os espíritos dos escravos que aqui morreram, ao tentar levar embora um pouco de ouro, para pagar a carta de alforria.
-Lá vai ele! – pensou Susana trocando um rápido olhar com o companheiro.
-Há cerca de um ano esteve aqui uma jovem chamada Rosa Jaques que mostrou desejo de visitar a mina.
A senhora apresentou-se como uma estudante e investigadora de fenómenos paranormais.
Segundo ela, existem vários registros sobrenaturais analisados em vários estados brasileiros.
Para esta visita, ela e o seu assistente, trouxeram uns aparelhos estranhos para fazer a ‘tradução’ destes fenómenos.
No meio da insólita visita, Heitor recorda as palavras da jovem que afirmava ter o dom de se comunicar com os mortos. Que era vidente desde os seis anos de idade.
-Relato que produziu uma inevitável troca de emoções entre Alfredo e Susana.
-E você, Heitor, chegou a ver algum desses espíritos? – pergunta Susana muito curiosa.
– Deus me livre e guarde, moça!

Uma vez de regresso ao exterior e com propósito de enriquecer esta visita, Quitéria leva os visitantes a um depósito nas traseiras da casa.
Ali mostrou alguns objetos que foram encontrados dentro da mina, quando foi redescoberta no tempo de sua mãe Mariazinha.
Sobre uma velha mesa de madeira rústica estão instrumentos utilizados para castigar os escravos, como correntes e algemas. Entre estes as sinistras e grossas argolas de ferro que traziam presas aos tornozelos.
Objetos que bem evidenciam as condições impostas aos escravos que trabalharam nas minas durante séculos.
-Triste e vergonhoso período de nossa História. – conclui Quitéria com tristeza no olhar.

Com os agradecimentos e pagamento de uma soma simbólica ao simpático casal que proporcionara aos jovens forasteiros esta memorável visita, assim se conclui mais uma etapa mineira de Ouro Preto.

Segue-se um apetecido almoço na cidade na companhia de Heitor.
Mas Ouro Preto tem ladeiras que não acabam nunca e lá foram eles com a certeza que a comida boa não faltará à mesa.
Por sugestão do nosso guia conhecedor destes recantos de Ouro Preto, seguiram rumo ao restaurante “O Calabouço”, a funcionar no porão de uma casa histórica.
Assim mataram quem os queria matar: a fome!
Apesar de alguma “preguicinha” típica dos ambientes tropicais, resultante de tão agradável refeição, a parte da tarde será assim preenchida com mais um lugar de interesse que tudo tem para enriquecer esta reportagem. A visita à mina “du Veloso” igualmente referida nos escritos de Donald Mckenzie.

 

Mina Du Veloso

 

 

Seguindo as orientações de Heitor, assim chegam à porta de uma casa comum com uma fachada em tom de tijolo.
Não podendo imaginar que ali se encontre uma mina, Alfredo pergunta:
-E aí, Heitor, porque parámos?
-Pois é, meu jovem. Atrás desta porta vamos em direção à mina Du Veloso.
São em seguida recebidos pelo Sr. Miguel, sujeito magro, mas portador de um porte atlético a quem Heitor os apresenta.
Uma vez acertado o valor da cortesia, assim se inicia mais uma viagem às entranhas da terra mineira.
Antes de entrar na mina, o guia começou por explicar três métodos de garimpagem, mostrando desenhos e fotografias.
Com o intuito de captar mais esta interessante informação, Alfredo pede licença para tirar algumas fotos destes documentos e da entrada da mina. Pedido que foi simpaticamente concedido.
Nas traseiras da casa e descendo por uma passagem em terra batida, ladeada por muros de pedra empilhada, lá seguiram para o interior da mina.
Ao longo do caminho e aprofundando mais as suas explicações, tanto técnicas, como relacionadas com o modo de se extrair o ouro, o guia entra num capítulo que sempre afeta as emoções dos visitantes.
As reflexões a fazer com respeito à crueldade do trabalho dentro das minas.
Jornadas extenuantes, carregadas de castigos físicos, doenças e humilhações. Impossível não ficar tocado com o que se sente por ali.
O sr. Miguel prossegue:
-Hoje em dia, a mina recebe iluminação com lâmpadas elétricas, mas séculos atrás, isso era feito com lamparinas movidas a óleo de baleia. Em vários trechos, é preciso ficar encurvado, até eu, que tenho apenas 1,60 m de altura. Por isso, muitas vezes, o trabalho era feito por crianças.
À semelhança das outras minas, o ambiente aqui dentro é frio e húmido devido à água que escorre pelas paredes.
Mantendo o seu tom de voz grave, Miguel vai contando mais sobre as condições de trabalho dentro da mina, desafiando o imaginário destes jovens.
Vocês conseguem imaginar seres humanos trabalhando 18 a 20 horas por dia, em corredores apertados, escuros, com os pés descalços sobre um chão frio e molhado? Carregando ferramentas pesadíssimas e inalando a fumaça das lamparinas?
Pensar que essas pessoas escravizadas mal comiam e que nunca viam a luz do sol?
Que além das doenças respiratórias óbvias, tinham as mais diversas deficiências nutricionais?
-Sem comentários! – retorna Susana consternada.
-Sabiam que as pessoas que foram escravizadas e trabalhavam nas minas viviam, quando muito, até os 30 anos de idade?
– De facto, é difícil de imaginar- responde Alfredo com a voz apertada.

 

 

Uma reflexão que marca incontornavelmente uma visita desta natureza. Ter a noção, mesmo que ao de leve, do tamanho sofrimento humano em nome do metal do delírio.
Estes aspetos da visita são obviamente desagradáveis. A um ponto que os factos aqui apontados deixem a sua marca psicológica. Difícil de esquecer.
Tirando partido da personalidade do Sr. Gabriel, que foi relatando tudo isto e respondendo às questões sem pressa, com a devida calma e notável simpatia, assim decorrera cerca de meia hora e percorridos os quase 200 metros de galerias.
É agora possível avistar um salão com estalagmites e poços bem profundos com águas cristalinas.
Recordando as lagoas da mina de Passagem, Susana pergunta:
-E como é a qualidade desta água?
-Não é uma água potável devido à alta concentração de minérios. – responde o guia.
Confirma-se o mesmo quadro! – pensa Alfredo.
Já no regresso, o guia chama a atenção para uma curiosidade. Apontando para uns fetos, aqui denominados de “samambaias”, este faz notar que os mesmos começam a brotar próximo das lâmpadas.
– Certo! – responde Alfredo. E a que podemos atribuir este fenómeno?
Miguel, com uma expressão algo enigmática e deixando fluir um certo sorriso, responde:
– Como vemos, moço! Em um lugar de tanta dor e morte, a vida ainda insiste em surgir.
Este foi o último pensamento que acompanhou o grupo que, entretanto, voltara ao ponto de partida.
Cumpridos os agradecimentos e a contribuição pela simpática colaboração do Sr. Miguel, estava deste modo cumprida mais uma jornada de visitas subterrâneas.
Já a noite espreitava, quando Alfredo e Susana regressam ao hotel. Carregando no corpo uma natural fadiga, mas seguramente mais ricos no conhecimento dos mistérios de Ouro Preto.

Último dia em Ouro Preto. Choveu bem de noite e madrugada dentro. O que impulsionou os jovens forasteiros a viver momentos de uma estreita e deliciosa intimidade sexual neste confortável quarto de hotel.
-Hum! Alf, deixas-me nas nuvens!– diz Susana ao seu companheiro, recostada sobre o seu peito, deixando o seu corpo nu escorregar na languidez de um prazer partilhado.
Na sequência desta viagem aos sentidos, Alfredo, vestido como veio ao mundo e sentindo com particular prazer o contacto dos seios de Susana sobre o seu peito, responde:
-Fazes-me sentir mais leve que o ar, miúda! Tu és um caso, Susana! Se não existisses, tinhas que ser inventada.
-Ai é, gostoso? E o que seria eu sem o meu antropólogo preferido? Responde esta jovem ao roubar um novo beijo ao seu companheiro.
Travessuras que unem mais esta vez estes jovens algo cansados de tanta andança, mas bem motivados para continuar a aventura.
Após um bom duche, vestidos de roupa casual e garantida a toma do tal café da manhã “mineirin”, os dois jovens preparam-se assim para a sua última etapa em terras de Ouro Preto.
Por sugestão de Heitor, trata-se desta feita de visitar a “Mina de Jeje”.
Vindo entretanto ao seu encontro, o carismático guia apresenta-se esta manhã com uma camisa multicolor e com um chapéu bem comum das gentes mineiras.
Olhando este personagem, Susana pensa:
-Pinta não lhe falta! Ventania também não!
A localização da “Mina Jeje” oferece uma oportunidade para realizar um passeio algo diferente dos anteriores. Instalada em um bairro tradicional da cidade, ela é de fácil acesso tanto para quem a visita de carro, quanto para quem deseja conhecê-la indo a pé.
Seguindo a pé pela Praça Tiradentes num trajeto sempre agradável, Heitor conduz os jovens lusitanos ao longo de um percurso de cerca de 1,3 km.
Durante esta caminhada, Heitor aproveita para dar mais algumas informações pertinentes, enquanto Alfredo aproveita para captar mais umas imagens desta singular cidade.

 

Mina Jeje

 

 

A Mina Jeje é uma típica mina de ouro do século XVIII, toda construída pelo trabalho humano com auxílio apenas de alguns instrumentos rudimentares como: pás, picaretas, marretas e lamparinas.
-Mais daqui a pouco vos apresentarei a um descendente de mineiro que sabe tudo sobre este lugar – Heitor adianta.
-Certo, Heitor, então vamos a isto. -responde Susana entusiasmada.
Uma vez chegados ao local, deparam novamente com a fachada de uma casa comum.
Ao seu encontro vem o Sr. Pedro que, portador de um semblante típico de um trabalhador rural, simpaticamente os recebe.
Ao entrar na propriedade rústica, são levados a um área coberta onde se criam algumas galinhas e patos. Mais adiante avistam uma horta bem cuidada.
Pedro dá inicio à sua fala com uma abordagem sobre a criação de Vila Rica e a história do ouro, sendo interpelado por Heitor, que lhe diz:
-Seu Pedro, estes jovens já estão há uns dias por aqui e já tiveram oportunidade de saber sobre Ouro Preto e sua história.
-Bem! Então vamos ao que interessa. -retoma o anfitrião.
-Como já sabem, todas as minas de Ouro Preto foram lavradas com a utilização de escravos africanos. É interessante ressaltar que muitos dos escravos trazidos pra cá eram de uma região específica da África, chamada “Costa do Ouro”, atual Gana. Em sua região de origem, quando ainda livres, estes já praticavam a extração de ouro e por este motivo foram desde cedo vistos como uma mão-de-obra cobiçada e valiosa pelos senhores das minas.
– Muito curioso! – pensou Susana, retirando da bolsa o seu diário para a tomada de algumas notas.
-Temos pela frente uma vista que, conforme outras que já visitámos, é drasticamente marcada pela sórdida, maldosa e repugnante utilização da condição humana. – pensou Alfredo, tocado uma vez mais por uma certa angústia.
A entrada desta mina foi certamente uma surpresa. Ela está bem em frente aos olhos de quem chega ao local, de frente para a portaria da casa do Sr. Pedro, mas é necessário estar atento para percebe-la de tão simples que é.
Previamente acesa a iluminação e, uma vez dentro da mina, Pedro informa:
-Segue-se um percurso de 160 metros que está iluminado, mas a mina com todas suas ramificações possui um total de 760 metros de comprimento.
-Impressionante, hein? – exclama Heitor.

 

 

Já dentro da mina, Pedro mostra o primeiro detalhe. Existe um ressalto ao longo de uma das paredes de entrada que, naquele tempo, servia para os escravos deixarem as suas ferramentas, talvez para facilitar o controle e evitar o extravio de ouro escondido em alguma delas.
Entrando mais fundo na mina, o grupo depara-se com um ambiente mais apertado e até claustrofóbico que deixa uma desconfortável sensação a quem visita este lugar pela primeira vez. Sentimento este amenizado pela presença da iluminação e pela segurança transmitida pelo guia. Nas paredes estão as marcas originais feitas pelos escravos com suas ferramentas.
As dimensões do túnel por onde seguimos em fila indiana tem apenas 80 centímetros de largura com pequenas variações para mais e para menos. A altura mínima é de 80 centímetros e máxima de cerca de 4 metros.
Momentos que não escapam à objetiva da Rolleiflex de Alfredo.
O grupo faz a seguir a primeira parada, deparando-se antes com uma passagem realmente estreita que obriga os presentes a se baixarem para conseguir passar. Um ambiente onde o medo e a apreensão estão inevitavelmente presentes.
-Afinal, estamos de baixo de terra, porra! – pensa Susana com o coração apertado.
Chegando a uma zona mais alargada, o grupo pode agora recuperar os seus sentidos.
Momento aproveitado pelo guia para acrescentar mais umas informações.
Embora esta mina seja de ouro, existe alguns outros produtos aqui explorados. Dentre eles o ocre, que era extraído junto de todo material estéril sem valor comercial.
-E para que era usado este material? -pergunta Susana curiosa.
Este ocre é uma argila colorida muito utilizada para pintar fachadas de casas e também igrejas, podendo possuir tons amarelados ou avermelhados – responde o guia.
-Muito interessante! -retorna desta vez Alfredo.
Seguindo o circuito da visita, surge mais à frente um novo cenário de grande interesse.
Um sector, entre os diversos túneis da mina, que é o único que desce num acentuado plano inclinado. Este contexto torna-se relevante por dois motivos: o primeiro, considerada a sua extensão de cerca de 50 metros, com uma inclinação visual de aproximadamente 45 graus negativos e o segundo, o facto de ser um túnel de grande risco porque durante a escavação se pode encontrar um bolsa d’água, incidente que poderia matar vários trabalhadores e inutilizar a mina.
Pedro acrescenta:
-Uma dificuldade extrema de trabalho, como se pode imaginar. Descer e subir com auxílio de cordas até que é possível, mas extrair minério em um túnel tão diminuto e de cabeça para baixo, mesmo na atualidade, seria quase impossível. O que nos leva a observar toda a bravura e habilidade dos escravos que aqui trabalhavam.
A caminhada continua e o grupo chega assim a um grande espaço. Este salão é proveniente de um desabamento que a mina sofreu enquanto desativada, o que hoje é conveniente por servir de acomodação e ponto de descanso a quem visita a mina. -explica o guia, comunicando em seguida:
-A nossa visita guiada se encerra aqui, mas a mina continua por vários túneis que partem deste salão. Grande parte destes túneis são extremamente pequenos.
Com uma expressão grave, Pedro prossegue: isto se deve a um fato muito infeliz. Estes túneis que daqui partem foram escavados por crianças.
Alfredo e Susana estão incrédulos com esta informação. Apesar do choque, estas estruturas são captadas pela objetiva de Alfredo e objeto de novas notas no caderno de Susana.
Pedro adianta: na época da escravidão, uma criança que apresentasse condições de trabalho já era utilizada na mineração. Algumas pesquisas descobriram que as crianças começavam a trabalhar nas minas a partir dos seis anos de idade. Pelo fato de iniciarem o trabalho tão cedo, pela insalubridade e todos os demais fatores que envolvem risco nesta atividade, a expectativa de vida deles era de apenas 20 a 25 anos.
Concluído aquele momento de pausa e assombrado por tamanha chicotada na consciência, é dado início ao regresso à superfície, percorrendo no sentido inverso a tortuosa caminhada, desta vez a subir.
Haja pernas e alguma resistência para respirar um ar pesado como este.

Feitos os acertos e agradecimentos ao guia por esta visita a mais uma lendária mina de Ouro Preto, é tempo de retornar à base.
Com uma última paragem na Praça Tiradentes, onde o grupo aproveita para saborear uma água fresca e em seguida colocar duas cartas no posto dos correios, nas quais Alfredo e Susana aproveitam para dar notícias à família.
Chegada igualmente a hora de acertar contas com Heitor e lhe prestar um sincero agradecimento pelo excelente serviço e companhia, proporcionados ao longo dos últimos dias nesta passagem por Ouro Preto.
Este carismático mineiro não mais saíra da lembrança destes jovens forasteiros.
Como também não sairá a aventura vivida nesta bela cidade mineira.

 

 

Tendo em mente apanhar um novo transporte rumo à zona de Morro Velho, próximo da cidade de Nova Lima, ainda no Estado de Minas Gerais, estes jovens dedicam as últimas horas da tarde a organizar os seus materiais de reportagem, preparar as suas bagagens pessoais e acertar contas com o hotel Solar das Lajes do qual levam uma agradável memória.
São 17 horas, quando o ônibus com estes jovens a bordo inicia uma viagem de cerca de 2 horas por estradas do Estado em direção à capital Belo Horizonte.
Já a noite reina quando descem no seu destino . O posto rodoviário de Nova Lima.
O céu apresenta-se limpo e estrelado. Bom sinal para começo de uma nova aventura.

 

Parte IV – A epopeia de Morro Velho

 

 

13 de Fevereiro de 1974

A primeira impressão que os jovens portugueses recebem desta cidade é, apesar de já ser noite, a de uma cidade carregada de história com o incontornável traço colonial lusitano.
Entram entretanto a bordo de um táxi que os levará para o alojamento que Alfredo reservara na agência de Lisboa. A pousada “Solar dos Sepúlvedas”.
No decorrer dos 30 minutos deste percurso por estradas rústicas do interior mineiro, Susana volta-se para o seu companheiro e indaga:
-Lembro-me de me teres mostrado em Lisboa uma informação turística deste lugar. Mas confesso que não fixei os detalhes.
Alfredo responde:
-O que retive é que se trata de uma tradicional casa mineira com traço de época. Creio que vamos ter direito a umas vistas bem agradáveis.
O condutor do táxi, mostrando-se prestável, acrescenta:
-Sepúlveda é uma família originária da Espanha. Chegaram aqui no Brasil por volta de 1750 na região de Salvador, na Bahia, vindo alguns anos mais tarde para Minas Gerais. Nessa casa viveu o Dr. Joaquim Aureliano Sepúlveda, médico cirurgião que prestou grandes serviços à cidade de Sabará. Mais tarde a família converteu este lugar em albergue para turistas.
-Obrigada! – responde Susana elucidada.
Apesar de ser de noite as primeiras impressões do lugar são positivas. À sua frente está uma casa com uma arquitetura clássica de fachadas brancas com varandas e portadas em tom de azul. Atravessam um jardim bem cuidado antes de chegar a uma porta igualmente azul onde são recebidos por uma sorridente senhora de meia idade.

 

 

 

 

 

 

 

 

Feita a recepção e com o habitual preenchimento das fichas de admissão, segue-se a subida para o piso superior por uma ampla e tradicional escadaria de acesso. A madeira e o ferro forjado são elementos bem presentes no traço desta pousada. Segue-se a instalação num quarto amplo decorado com móveis de madeira escura e casa de banho a condizer. A dimensão da cama coberta com uma colcha branca bordada é a promessa de uma merecida viagem ao limbo.

Após uma noite em que a mente viaja pelos caminhos do subconsciente, o novo dia começa com o chilrear de pássaros no jardim exterior.
Este é um convite para uma visita geral a esta simpática mansão. Um lugar bem acolhedor com os seus recantos, varandas, jardins, piscina e as vistas para a região circundante.
Boa escolha, concluem os jovens recém chegados.

O café da manhã é servido numa área parcialmente coberta com excepcionais vistas para o verde da região e equipada com mobiliário a condizer com a restante instalação.
Os saberes e os sabores mineiros estão mais uma vez presentes à mesa. Aquele regalo que sempre oferece esta região do Brasil.
O sol brilha neste cenário típico de um clima tropical de altitude.
Confortavelmente sentado numa cadeira em ferro forjado à beira da rústica piscina, Alfredo vai observando as braçadas de Susana numa água cristalina.

 

Não perdendo um hábito que o acompanha no início de cada nova fase de reportagem, o jovem antropólogo passa os olhos por mais um relato manuscrito do avô Donald (em inglês), que tem como eixo condutor a sua passagem por esta região nos anos 20.

“Posterior ao período vivido na região de Ouro Preto onde se deu início à corrida do ouro no Brasil, a exploração da Mina de Morro Velho, situada no arraial de Congonhas do Sabará, começou por volta de 1725 .
A notícia da descoberta de quantidade expressiva de ouro na região espalhou-se rapidamente pela colónia chegando posteriormente a Portugal. Uma notícia que provocou uma incontrolável “corrida do ouro”, trazendo para a região milhares de pessoas em busca do sonho de enriquecimento fácil.
“Congonhas do Campo”, primeira designação de Nova Lima, transformou-se rapidamente numa área sobrepovoada desprovida de qualquer infraestrutura urbana, económica, política ou administrativa. Factos que conduziram a uma situação de confusão e violentos conflitos em decorrência das disputas pela posse das jazidas e crises de fome, devido à falta de produção de alimentos ou carência no abastecimento de géneros básicos de subsistência. Não raro ocorriam casos de roubo, estupro, incestos e assassinatos.
Esta situação caótica comprometia seriamente o futuro da mineração aurífera na área, bem como a desejada apropriação da riqueza mineral da terra pela Coroa Portuguesa.
Face a este quadro, a metrópole interveio, interessada não só em manter a ordem na região, mas sobretudo em melhor controlar a exploração e a arrecadação de impostos.
Em 1720, é então criada a Capitania das Minas Gerais com a montagem de toda uma estrutura administrativa com a finalidade primordial de garantir a arrecadação do quinto do ouro e evitar o seu contrabando.
Sob ameaça das invasões napoleónicas na Europa, dá-se em 1763 uma atropelada fuga da monarquia portuguesa para os trópicos deste lado do Atlântico.
Em 1808, o Rio de Janeiro virou a sede de todo o império português, que incluía Angola e Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Principe em África, Goa, na Índia, Timor, no sudeste asiático e Macau, na China.
O capital inglês influenciou fortemente a economia brasileira ao longo do século XIX.
Os seus agentes souberam aproveitar as oportunidades abertas quando o Rio de Janeiro passou a sediar a nova capital do império português, estabelecendo acordos e tratados que lhes permitiram atuar vantajosamente em diversos setores da cadeia produtiva nacional. Um deles foi naturalmente, a mineração.
Apesar da política internacional britânica se empenhar contra a escravidão e o tráfico de africanos sob os auspícios do Iluminismo, as suas companhias usavam mão-de-obra escrava em países onde predominavam formas arcaicas de exploração da escravidão negra no trabalho. Como era o caso do Brasil.
Os ingleses estabeleceram-se solidamente em 1834 para explorar uma das maiores minas de ouro do mundo: a mina do Morro Velho.
Uma mina que produziu ao longo desta epopeia mais de 570 toneladas de ouro, extraídas por cerca de 100 mil trabalhadores que escavaram galerias, chegando a 2,7 mil metros de extensão.
Uma epopeia que foi palco dos mais drásticos relatos e de múltiplos acidentes que provocaram a perda de milhares de vidas.”
-Crazy times! – pensou Alfredo

 

Neste primeiro dia, estes jovens decidem dar um giro pela cidade de Sabará e sentir de perto os atrativos da região. Num folheto colhido esta manhã na recepção da Pousada pode ler-se:
“Sabará – Cidade histórica situada à 20Km de Belo Horizonte. Conheça as maravilhas do barroco mineiro com a exuberância de suas obras e o brilho do seu ouro, retratados em suas igrejas e museus.
Este foi o primeiro povoamento de Minas Gerais. A sua história tem raízes nos primórdios da colonização do Brasil e está intimamente relacionada com a lenda da serra do Sabarabuçu.
Esta lenda refere a serra do Sabarabuçu, uma montanha lendária, descrita como uma “serra resplandecente” pelos indígenas brasileiros no século XVI.
Pela altitude e proeminente destaque no seu relevo, a serra da Piedade, no município de Caeté (Minas Gerais), ganhou reputação regional como sendo esta a montanha lendária.
No imaginário da época, podia se afigurar como constituída de ouro ou de prata.
Este mito confundiu-se no século seguinte, na época do bandeirismo, com a Serra das Esmeraldas, alvo da afamada bandeira de Fernão Dias.”
A passagem por ruelas carismáticas e a visão de edificações coloniais aqui e ali são novo motivo para colocar a Rolleiflex em ação.
Esta é, segundo dizem, uma das mais tradicionais cidades mineiras, tendo ganho a sua época de glória no período da corrida dourada. Aqui se sediou a Casa da Intendência para a cobrança do “quinto”, o imposto de 20% que o governo português cobrava de toda a extração mineral na colónia.
-Os tugas não brincavam com este tema – pensou Alfredo por momentos.
O almoço foi no restaurante rústico Sabarabuçu na R. D. Pedro II, no centro da cidade.
Após curiosa consulta das ofertas, Alfredo deixou-se, mais uma vez, impressionar pelo feijão tropeiro, um tradicional prato da região.
Do seu lado, Susana escolheu a Canjiquinha que consta de milho triturado de forma grosseira até se esfarelar, sendo cozido com carne de porco, geralmente costelinha e outros temperos caseiros.
Estaria assim concluída a introdução a esta cidade mineira.
Neste novo dia os jovens jornalistas estendem a sua curiosidade à capital do estado.
A cidade cujo nome é por si sugestivo. Belo Horizonte.
Para além de sentir os ares da capital, estes jovens trazem no pensamento uma ideia peregrina. Uma visita ao Museu de Mineralogia de onde poderão retirar alguns dados relevantes para o seu objetivo jornalístico.
Ao longo de um percurso a bordo de um táxi por cerca de 47 quilómetros, os jovens curiosos puderam captar algumas curiosidades sobre Belo Horizonte.

 

       

 

Nascido e criado na região, este mineiro com alguma fluência na fala e conhecimento popular, informa:
-Ora então! Tem uma época que a capital de Minas mudou de Ouro Preto para Belo Horizonte. Aqui nascia uma nova cidade, inteiramente planejada e construída num local onde existia um pequeno arraial chamado de Curral del Rei.
O plano previa uma cidade dividida em três áreas: uma área central urbana; em torno desta, uma outra suburbana; e uma terceira chamada de área rural.
-Interessante -retorna Alfredo
-Nos últimos anos, a cidade vem crescendo com o surgimento de muita construção nova. Cês vão encontrar o centro com grandes edifícios e onde foram surgindo novos bairros também.
E fora da cidade como é? indaga Susana, apreciando o cenário ao longo do trajeto.
-Sabe, moça? Com a expansão urbana, as áreas mais afastadas do centro se transformaram também. Aqui por exemplo, estamos passando na zona de Barreiro e Venda Nova. São regiões que tinham um ritmo lento de crescimento e que passaram a ter uma outra dinâmica com o avanço da cidade grande.

Conforme acordado, o simpático taxista deixa os jovens à porta do Museu de Mineralogia de Belo Horizonte.
Um edifício neogótico, em estilo manuelino localizado na Praça da Liberdade denominado de “Museu de Mineralogia Prof. Djalma Guimarães”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Um nome em homenagem a um pesquisador, que foi um dos principais geocientistas do Brasil.
Muito curiosos com o que vão encontrar por aqui, Alfredo e Susana entram no edifício e podem agora observar o acervo desta instituição, composto por cerca de 3.000 peças, incluindo amostras dos principais minerais extraídos no planeta.
Na entrada o Memorial da Mineração onde está o quartzo considerado um dos maiores do mundo e chamado de Patriarca.
Entre as raridades, estão amostras de topázio imperial e gemas de alto valor económico. A Fenacita é outro destaque do acervo. Trata-se de um mineral raro e só encontrado na região de Rio Piracicaba (MG). Um topázio da região de Araçuaí (MG), com 20 kg, óxidos de manganês, cuja jazida na serra do Navio (AP) se encontra extinta. E mais adiante os diversos tipos de minério de ferro, ouro e gemas, que são fruto da ocupação e história de Minas Gerais.

 

Impressionados com o que viram por aqui, é chegado o momento dos jovens solicitarem junto de um funcionário uma troca de palavras com o diretor do Museu. Objetivo primordial: tentar saber um pouco mais sobre a atual exploração da mina de Morro Velho.
Após uns momentos de espera, foram cordialmente recebidos por um cavalheiro dos seus 50 anos, bem vestido que, de forma educada, os cumprimenta indagando quanto ao propósito desta abordagem.
Ouvindo a breve descrição dos jovens, retorna:
-Acho que posso ajudar-lhes. Sentem-se, por favor.
Na sequência da breve troca de impressões, o diretor pega no telefone e comunica com alguém diretamente para a mina de Morro Velho, abordando o tema em causa.
Passado momentos, informa:
-Falei com o Sr. Robert Southfolk que é meu amigo pessoal e diretor da mina de Morro Velho.
-Ótimo! exclama Alfredo entusiasmado.
-Expliquei-lhe o contexto do seu projeto e tenho boas notícias. Ele irá recebê-los e lhes dará uma perspectiva do atual funcionamento de Morro Velho. Está bem assim?
-Excelente! -retorna desta vez Susana com um brilho no olhar.
Debruçando-se sobre um papel timbrado do museu, o diretor escreve uma nota de apresentação que os jovens levarão à presenta do tal inglês quando visitarem a mina.
Feitos os sinceros agradecimentos pela atenção dispensada e os elogios pela qualidade do acervo que puderam observar nesta visita, os jovens dão por encerrada mais esta interessante etapa da sua reportagem.
Com o prazer de uma refeição ligeira num botequim ali perto da mesma praça, é tempo de regressar ao contexto da simpática “Pousada dos Sepúlveda”.

Na parte da tarde, e completando um dia algo agitado, não resistem ao impulso de um mergulho na piscina, enquanto gradualmente o calor do dia se vai dissipando no horizonte montanhoso.
Ao cair da noite e depois de um duche renovador, estes jovens estão em frente um do outro, sentados sobre a cama.
Numa troca sensual de olhares com Alfredo, Susana está vestida com um babydoll transparente de cor lilás deixando sobressair os seios e uma fina calcinha rendada de cor branca. Aproxima-se do companheiro coberto apenas de uma toalha de banho branca, da cintura para baixo..
-Sensualmente ela morde ligeiramente a sua orelha.
Alfredo mostrando-se arisco, afasta o rosto, reaproximando-se logo de seguida numa atitude safada.
Susana morde ligeiramente o seu lábio inferior dando sinais de um desejo crescente, ao que Alfredo corresponde beijando-lhe docemente o pescoço e passando os braços na sua cintura.
Impelida por uma doce libido, a sensual Susana segura a cabeça do seu companheiro apertando o seu rosto contra os seus seios erectos. Um momento mágico em que estes jovens sentem o seu corpo estremecer de excitação.
Alfredo, embalado por um desejo ardente, liberta a sua companheira do doll sensual deixando a toalha que o cobre, ganhar o chão.
As fragrâncias de seus corpos quentes, a intensidade dos beijos e as vibrações de cada toque de mão no intimo dos seus corpos nus é agora gerador de doces gemidos que invadem uma atmosfera em que o peso do ar perde expressão.
Um turbilhão de sensações os conduzem a uma inevitável fusão corporal. Ligados por uma reação fisiológica e uma tensão muscular são agora conduzidos a um total clímax.
Embalados por tamanha espiral de sensações, Alfredo e Susana entram num intangível universo de bem-estar e felicidade. Momentos em que a ausência da força da gravidade invade o Nirvana.

Um novo dia raiou anunciando a continuação do programa jornalístico. Uma visita à cidade de Nova Lima seguida da desejada visita à mina de Morro Velho.

 

 

Nova Lima está encravada nas montanhas mineiras e muito próxima da capital Belo Horizonte. Com cerca de 60 mil habitantes, a cidade é hoje um polo turístico, gastronómico e cervejeiro, se destacando no cenário nacional pela produção de cervejas artesanais.
As montanhas e as trilhas são convites para passeios e prática de atividades físicas.
O grande período de efervescência de Nova Lima deu-se a partir de 1834. Nesse ano, a companhia inglesa Saint John del Rey Mining Company comprou a antiga mina de Morro Velho.
Realizando um circuito a pé pelos caminhos históricos da Nova Lima, estes jovens são agora atraídos por um restaurante no centro onde pretendem dedicar-se um pouco mais à incontornável gastronomia desta região mineira.

 

 

 

 

 

 

 

 

Susana escolheu provar o Tutu de feijão: uma receita que leva ingredientes comuns com um resultado final diferente. Aqui, o feijão consta de um caldo bem cremoso por causa do uso da farinha de mandioca.
Do seu lado, Alfredo escolheu o Angu: Uma boa opção para quem gosta do sabor do fubá. Aqui, porém, é acrescentado um pouco de molho de linguiça calabresa. Esse toque faz com que o prato fique muito mais gostoso.

Para sobremesa os jovens forasteiros decidiram partilhar duas iguarias da região.
A famosa queca que tem o seu nome derivado de “christmas cake”, o bolo de natal inglês. Com frutas cristalizadas, nozes, castanhas, passas, cerejas, ameixas, um bolo trazido pelos britânicos para a antiga Congonhas do Sabará.
E a Lamparina, composta de massa folhada e muito coco. Uma tradição que remonta ao ano de 1881, quando o então imperador Dom Pedro II visitou a cidade e foi surpreendido com uma adaptação do pastel de Belém de origem portuguesa. O doce tem esse nome porque se colocava no centro dele um pavio embebido em azeite que era acendido com fogo.
Satisfeito aquele momento gastronómico, é tempo de dar corpo a uma importante parte do programa. A visita à Mina de Morro velho.
Com uma passagem pela praça central da cidade é fechado um acordo com um táxi que os levará à mina. Um percurso de uma hora e meia ao longo de 74 km.
A estrada rústica deixa a sensação de curioso trajeto por montes e vales. Passagens que não escapam à objetiva de Alfredo.

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma vez chegados ao seu destino, estes jovens deparam-se com uma instalação de grande porte, a atual Mina de Morro Velho. Ao aproximarem-se do edifício administrativo, são apresentados ao diretor Robert Southfolk.
Uma vez introduzida uma breve conversa em português e lida a nota de recomendação escrita pelo diretor do Museu de Mineralogia de Belo Horizonte, a mesma é agora feita em inglês, após Alfredo transmitir a sua total fluência da língua.
Analisado o propósito da visita, este cavalheiro de postura altiva, cabelo loiro e olho azul diz simpaticamente:
-Vou conduzi–los ao departamento onde se encontra o nosso acervo histórico. Serão ali recebidos pelo responsável deste sector que terá muito para vos contar. Está bem assim?
-Excellent, Mr Southfolk! – retorna Alfredo entusiasmado.
Susana, sorrindo, igualmente diz: Very kind of you, sir!
Segue-se o trajeto pelo interior desta unidade até um lugar onde se encontra o acervo histórico da mina, sendo recebidos por um funcionário local. Um homem dos seus 50 anos, vestido com o uniforme oficial da mina, que cordialmente os recebe.
-Bom dia, me chamo Ezequiel. O diretor acaba de falar comigo pelo telefone. Sejam bem vindos!
-Bom dia Sr Ezequiel, eu sou Alfredo, comigo a minha companheira Susana. Viemos de Portugal com um determinado propósito. Meu avô Donald, de nacionalidade inglesa, foi um antropólogo investigador que por aqui passou nos anos 20, tendo feito uma reportagem sobre a região com especial foco na epopeia da corrida ao ouro.
-Interessante! – retorna o Sr. Ezequiel com um certo brilho no olhar.
Com natural entusiasmo Susana acrescenta.
-O nosso propósito é compreender como tudo se passou em Morro Velho e como evoluiu a mineração na região passado meio século.
-Compreendo! Queiram acompanhar-me a esta sala para lhes mostrar alguns documentos de grande interesse.
Retirando de uma prateleira alguns arquivos com sinais evidentes de antiguidade, Ezequiel convida os jovens para se sentarem numa mesa redonda no centro da sala.
– Com uma voz pausada este anfitrião informa:
-Vamos começar por lhes dar um panorama da história desta mina.
-Bem! – acena Alfredo com evidente expectativa no olhar.
Ezequiel prossegue:
-Falemos antes de mais nada da história da mina de Morro Velho.
Ezequiel inicia então a leitura do documento.
“Inicio de atividade – 1725 – Primeiro proprietário : Família Freitas
Em 1830, a concessão é vendida à empresa inglesa “Saint John D’el Rey Mining Company”, recebendo todos os seus bens, incluindo escravos, rebanho, minério bruto, ferramentas e utensílios, maquinaria e armazéns.
Iniciando suas atividades em 1834, esta companhia inglesa imediatamente começou a mudar os procedimentos, usando tecnologia das minas de carvão da Inglaterra, pois não se justificava lavrar a céu aberto quando os veios de ouro se aprofundam e estando encravados na rocha. Assim, começam a perfurar a montanha, como cães que farejam e desentocam a caça, mesmo tendo que cavar quilómetros de túneis, de poços e rampas inclinadas, atingindo a profundidade de 2.543 metros.
Para tanto, utilizavam pólvora e depois dinamite, e moinhos de pilões para triturar o minério. Inventaram mesas com pele de cabrito para a lavagem do minério, sendo o ouro e a prata recuperados por meio de amalgamação.”
– E foi assim até que data? – pergunta Susana curiosa
-Pois, mais tarde há alguns aspetos de realce nesta história, reponde Ezequiel prosseguindo a sua leitura:
”Até a abolição da escravatura em 1888, a companhia inglesa tinha 2,5 mil trabalhadores, entre os quais 1.690 escravos.
Esse fato causava protestos veementes nas cidades vizinhas, uma vez que a Inglaterra, que durante anos pressionou o Brasil para suspender o tráfico negreiro, nada fazia contra o uso de escravos nas zonas dos seus investimentos no Brasil.
Foi então organizada um campanha para arrecadar fundos a fim de alforriar os escravos da companhia britânica.
-Muito interessante! -diz Susana tomando nota de múltiplos tópicos no seu diário.
Prosseguindo o sr. Ezequiel informa:
“Esta companhia é detentora de uma história de 126 anos da espoliação mais brutal e desumana de gerações de trabalhadores. Tudo isto sucedeu para que ela alcançasse a desejada contrapartida. Segundo os registros da empresa, foram neste período, além de prata e outros minérios, extraídas 300 toneladas de ouro, o que representa 20% de todo o ouro extraído no Brasil, desde os primeiros descobrimentos de jazidas em Ouro Preto.
Em 1960, a companhia adquire o nome de “Mineração de Morro Velho S.A”, estando a operar até hoje em moldes bem diferentes. Esforços veem sendo feitos com o objetivo de uma maior responsabilidade social.”
Alfredo, tomado pela curiosidade, diz:
-Sabemos através de relatos do meu avô que ao longo desta epopeia se deram muitos acidentes de trabalho.
Ao que Ezequiel responde retirando outro caderno de uma estante.
-Para conhecer a história de sangue de Morro Velho, comecemos por uma consulta dos desastres ocorridos nesta mina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ezequiel retoma a sua leitura.
“O primeiro deles se deu em 1857, com o desabamento do madeirame do teto, provocando a destruição de escadas, bombas e planos inclinados.
-Em 19 de abril de 1864, houve novo desabamento que vitimou oito operários.
-Em 13 de fevereiro de 1865, mais outra calamidade paralisou a mina.”
-E por aí vai! após pequena pausa e seguindo o texto manuscrito parecido com um pergaminho, Ezequiel retoma.
– Houve outro em 21 de novembro de 1867, com um incêndio nos vigamentos, que matou 17 trabalhadores e um feitor inglês.
-Em 10 de novembro de 1886, sucedeu a maior catástofre de todos os tempos, quando morreram dezenas de operários, soterrados vivos, numa profundidade de 570 metros, interrompendo totalmente o funcionamento da mina durante vários meses. Foi por esta época que, uma vez normalizada a situação, os mineiros ergueram um grande cruzeiro para lhes servirem de proteção na direção da entrada da Mina Velha, O Cruzeiro da Boa Vista.
-Impressionante! – exclama Susana que não para de tomar as suas notas.
-As condições de trabalho para a obtenção de subprodutos como o arsênico – foram responsáveis pela morte de milhares de trabalhadores, vitimados pela silicose e outras doenças, contraídas no ambiente insalubre de trabalho e em razão das normas impostas pela empresa exploradora.
Algo engasgados com este relatos os jovens jornalistas querem saber mais.
-E diga-nos! As condições de trabalho eram de extrema dureza, presumo? – pergunta Alfredo
Ezequiel prossegue a sua leitura consultando um outro arquivo.
-É impossível descrever com poucas palavras a labuta dos mineiros na Morro Velho.
“O trabalho era ininterrupto, 24 horas por dia. Três turnos seguidos, cada um dos quais de oito horas, sem que nelas fosse incluído o tempo de deslocamento dentro da mina, quando o normal era o mineiro gastar uma hora para ir e outra para voltar. Subindo ou descendo pelos elevadores e caminhando pelos túneis e galerias.
A temperatura ia do frio intenso, nos locais mais ventilados até o calor de mais de 40 graus no fundo das galerias. Por isso, os mineiros necessitavam beber água de 15 em 15 minutos. Não lhes forneciam uniformes e trabalhavam apenas com um calção e uma camiseta, sem máscaras, luvas ou botas. Usavam apenas alpercatas de pano com solado de corda – as chamadas de “urucubacas”. Esses apetrechos tinham que ser comprados pelos trabalhadores, embora não durassem um mês, em razão do calor, do suor dos corpos e da dureza rochosa do piso e das paredes das galerias.
Não havia sanitários nas minas; os operários defecavam e urinavam nos locais de trabalho; as fezes se petrificavam e seu cheiro impregnava os corpos dos mineiros. O ambiente era mal iluminado e cada trabalhador usava um lampião de carbureto ou, posteriormente, uma lanterna.”
– Se não ouvisse o que nos lê a partir de registos autênticos, isto tudo seria difícil de acreditar. Diz Susana consternada com o relato.

 

 

 

-Tem mais, moça! E adianta:
“A função da grande maioria dos carreiros, era carregar de minério os vagonetes de ferro, por meio de pás. Depois empurravam os carros até o local em que seriam levados por animais, e posteriormente por locomotivas elétricas. Um grupo de três carreiros precisava encher por dia, em média, 16 vagonetes e cada um deles pesava três toneladas.”
-Sem comentários! – exclama Susana de boca entreaberta e tomando mais algumas notas.
-Nestes escritos existem relatos de trabalhadores? Pergunta desta vez Alfredo embalado por uma natural estupefação.
De forma prestável e retirando um outro caderno dos arquivos, Ezequiel continua sua leitura.
-Um dos mineiros declarou: “Lá vem o choco que esmigalha; a queda num poço que esquarteja; o atropelamento pelas locomotivas elétricas que mutilam e esfrangalham; o fogo falhado que estilhaça; o fio elétrico que carboniza; as portas da ventilação que amassam; os elevadores que decapitam; o gás grisu que asfixia e a pneumonia fatal”
Seguindo com o dedo a cronologia dos textos, Ezequiel prossegue.
-Outro mineiro descreveu um acontecimento muito comum: “Começa-se a sentir em todos os músculos exteriores umas ligeiras contrações sem dor. Perde-se a ampla liberdade de respirar. Ao teimar no exercício do trabalho, um se vê num dado momento, abruptamente, arrebatado por intensíssima rigidez muscular. Aí, a vítima vê-se violentamente atirada sobre as pedras ásperas e cortantes do local de trabalho. Contorce-lhe todo o corpo, numa convulsão medonha. Muitas vezes toma uma atitude inerte, mostrando em si todas as características de um cadáver. Só assim, é metida numa maca e conduzida para o hospital”.
-Outro mineiro da Morro Velho, diz: “A gente trabalhava vendo a morte nos olhos do outro”.
E terminando este relato de horrores, Ezequiel conclui:
-A labuta de outras categorias era igualmente terrível: por exemplo, a daqueles que manejavam as perfuratrizes. Além da poeira, estavam constantemente em perigo devido aos desabamentos ou ao manuseio de dinamite na extração do minério.
Uma sensação de natural angústia assalta o espírito dos jovens jornalistas.
Estavam assim confirmados os apontamentos de Donald Mckenzie sobre esta epopeia de horrores de Morro Velho.
A visita ao interior desta mina que se encontra em laboração não é autorizada a pessoas estranhas ao trabalho. O que não constitui decepção para Alfredo e Susana que trazem presente no seu espírito o ambiente insalubre que puderam vivenciar no interior das minas de Ouro Preto, desativadas há muito.
Este é um ambiente com múltiplas agravantes, tratando-se de uma mina de superior dimensão em plena atividade, onde só se pode entrar com os equipamentos específicos de proteção.
O Sr. Ezequiel remata – acreditem! Ocês não gostariam de ali passar.
– Deixe pra lá, amigo. Não perdemos nada ali dentro! – retorna Alfredo cordialmente.

E assim se conclui uma jornada recheada de informações relevantes que muito contribuirão para o objetivo desta reportagem.
Feitos os agradecimentos ao nosso simpático interlocutor, os dois jovens dirigem-se agora para o exterior onde ainda podem captar a dimensão gigante desta exploração.
A objetiva de Alfredo entra novamente em ação.
No exterior da instalação os espera o táxi que os conduzirá de volta à “Pousada Solar dos Sepúlvedas”.

 

            

 

Neste início de um novo dia, o clima tropical não ajudou. Chovera intensamente toda a noite e as nuvens negras aqui e ali não indicavam um cenário favorável a novas andanças.
Outra circunstância marcou este dia.
Susana, que teve uma noite algo agitada, apresenta sinais de grande indisposição, uma diarreia que a fez visitar a casa de banho ao longo da noite, seguida de vómitos e também alguma febre.
Sem saber como agir e naturalmente preocupado com a companheira, Alfredo consulta a senhora que os recebera à chegada, explicando o quadro.
Mantendo o seu semblante sereno, esta senhora responde.
-Isso foi alguma comida que o organismo da moça não tolerou. Sabe, nós os mineiros estamos habituados. Por vezes passam por aqui pessoas que não toleram muito bem a nossa comida que é em geral muito gostosa, mas é pesada.
-E o que acha? Devo levá-la a algum médico na cidade? – pergunta Alfredo com alguma aflição no olhar.
-Calma, moço! Fique com ela no quarto. Vou preparar algo que lhe fará muito bem. Me aguarde, por favor. Vou passar lá no quarto daqui a pouco.
-Certo, muito obrigado! – responde Alfredo aliviado.
Susana, que entretanto voltou a vomitar, sempre fica mais confortada com a perspectiva da assistência da sabedoria popular.
A confirmação dá-se com a entrada no quarto da tal mineira que traz consigo um tabuleiro com uma gamela de madeira e um bule com um líquido quente e uma chávena.
-Com licença. Então vamos lá tratar desta linda moça.
-Bom dia. E o que trás consigo? Pergunta Susana, expressando no rosto o mau momento que atravessa.
-Olhe, moça! Coisas da nossas avós. Por enquanto não vai comer nada a não ser o que aqui trago pro cê, viu?
-Obrigada! E como devo fazer?
-Acha que ainda vai vomitar ou ir ao banheiro?
-Sinto que talvez não.
-Bem! Sinal de que deitou fora o que estava lhe fazendo mal. Então vai começar por tomar este chá de erva-doce e camomila feito com plantas que colhemos aqui no nosso quintal. Vai tomando sem pressa, viu? Deixando o chá fazer o seu efeito e só mais daqui a pouco começa a tomar este caldo. Sem pressa também, viu?.
-E este caldo é feito de quê? – pergunta a doentinha queixosa
-É um caldo sem qualquer gordura, à base de vegetais bem lavados e cozidos onde entram alguns amigos do nosso corpo. O gengibre, a canela e o cominho. Vá tomando devagar e vai ver que tudo melhora. Não deixe de tomar todo, mesmo que o sabor lhe pareça estranho, viu?
-Muito obrigado! – retorna Alfredo perante a atenção cuidadosa desta senhora.
-Se mais tarde tiver vontade de comer algo mais consistente, temos na cozinha uma sopa caseira que vai lhe deixar novinha em folha!

 

         

 

-Assim espero! Muito obrigada mais uma vez. – responde Susana agradecida.
O dia será então dedicado ao repouso e recuperação de Susana, aproveitando a serenidade oferecida por esta agradável pousada.
Tempo aproveitado por Alfredo para organizar as matérias de reportagem e organizar uma nova etapa a partir do dia seguinte, caso Susana se sinta recuperada. A realização de uma outra aventura. A passagem pela bacia do Rio São Francisco, seguindo mais alguns passos do carismático avô Donald por terras brasileiras.
Com Susana dando sinais satisfatórios de gradual recuperação, houve um momento gastronómico aproveitando as iguarias da Pousada. Susana deixou-se estar com uma alimentação mais regrada e a piscina foi o palco escolhido para aproveitarem algum sol do fim da tarde.
Ao cair da noite, alguém bateu à porta.
Era a senhora da recepção anunciando que estaria alguém ao telefone para falar com a senhorita Susana. Uma chamada do exterior. Pela voz é uma senhora com um sotaque que nem o seu.
Espantada, Susana exclama – Uma chamada de Portugal? Como é possível?
Ao que Alfredo responde:
– Só pode ser dos teus pais. Antes de virmos, deixei-lhes uma folha com o nosso possível itinerário no Brasil e umas brochuras dos hotéis e pousadas onde estaríamos, fornecidas pela agência.
De um impulso, Susana sente-se impelida para a porta.
-Que estranho! – pensou, dirigindo-se algo apressada pelo corredor do piso superior, sendo seguida por Alfredo, igualmente intrigado.
-Estou! Diz a jovem segurando o telefone na mão.
-Susana!
-Sim, mãe! A ligar pra cá? Como sabia que estávamos aqui?
-Oh, filha! O Alfredo deixou connosco aqueles folhetos dos hotéis, lembras-te?
-Sim, mãe! Aconteceu alguma coisa? – pergunta a jovem com uma voz apertada.
-É, minha querida! Venho contar-te sobre o teu pai.
-Que houve com o pai?
-Ele tem andado nas últimas semanas com um grande mal estar. Nestes últimos dias deixou de comer e foi ao médico. Depois de alguns exames foi-lhe detetado um tumor no esófago.
-Ai, mãe! E agora?
-Oh, filha! Ele desmaiou aqui em casa e caiu ali na sala. Foi levado de urgência para o Santa Maria. Está a fazer exames e mais exames. Os médicos dizem que talvez tenha que retirar o estômago.
Com a respiração suspensa, Susana vive um instante de forte impacto. Com uma expressão que não passa despercebida a Alfredo, ela responde:
-Oh, mãe? O que vamos fazer?
– Filha, estás tão longe. E eu preciso tanto de ti neste momento.
-Sim, mãe! Vamos falar eu e o Alfredo e já retorno a ligação.
Aquela notícia drástica caía como uma bomba neste dia sem história na Pousada dos Sepúlvedas. A passagem destes jovens pelo interior de Minas Gerais sofre assim uma radical mudança de planos.
Por decisão comum e no sentido de acorrer à aflição trazida por esta notícia recebida de Lisboa, Susana irá deslocar-se a Portugal para acompanhar o impasse clínico vivido por seu pai e a aflição vivida pela família.
Medidas imediatas a tomar. Contacto com o amigo do pai do Hotel Nacional do Rio de Janeiro, no sentido explicar o contexto e pedir apoio financeiro e logístico para a realização deste regresso urgente a Portugal.
Na sequência da troca de algumas conversas telefónicas com o Hotel Nacional e família em Lisboa, foi possível obter esta ajuda, abrindo-se o compromisso de acerto de contas com a família de Susana, em data posterior.

Na manhã seguinte, acertando as contas com a Pousada e feitos os sinceros agradecimentos pelo apoio prestado, os jovens Alfredo e Susana tomam um táxi para Belo Horizonte. Um percurso de 15 quilómetros marcados por pensamentos surdos e angustiados.

 

 

Dali partirão de avião com destino ao Rio de Janeiro.
Após algumas disposições tomadas com o precioso apoio do tal amigo do pai de Susana, esta tomará no dia seguinte o primeiro voo em direção a Lisboa. Ficando Alfredo no Rio de Janeiro durante o período que Susana necessitar para seguir de perto o caso clínico de seu pai.

São quatro horas da tarde quando os jovens portugueses sobem a bordo de um avião da Varig com destino à Cidade Maravilhosa.
Aquela aterragem, passada uma hora, no aeroporto de Santos Dumont do Rio de Janeiro tem um gosto algo diferente do que eles viveram semanas antes na chegada pela primeira vez ao Brasil.
Paira no ar uma certa angústia que envolve as notícias recebidas de Lisboa no dia anterior.
Alfredo e Susana irão desta vez instalar-se na zona sul da cidade, sendo prevista a partida do voo da TAP para Lisboa às primeiras horas do dia seguinte.
Concluída uma pesquisa na área, Alfredo e Susana se hospedam num pequeno hotel em Copacabana. O Copacabana Rio Hotel, na Av. Nossa Sra de Copacabana, que apresenta alguma simplicidade e uma boa relação custo-benefício. Trata-se de um hotel tradicional numa das típicas ruas da agitada Copacabana, perto do Posto 6.

 

 

As primeiras horas do dia 17 de Fevereiro marcam o embarque e partida de Susana no grande pássaro de metal da TAP que a levará até Lisboa.
Mostrando alguns sinais de falta de chão, Alfredo sabe que tem pela frente um período imprevisível da sua estadia por terras do Brasil.
É naturalmente seu desejo que Susana volte assim que possível para retomar a missão que os trouxe para este lado do mar.

Parte V – No calor da folia

Beneficiando de uma instalação de baixo custo, Alfredo continua hospedado no Copacabana Rio Hotel, numa rua interior de Copacabana, gerindo da melhor forma as suas economias nesta sua inesperada passagem pela cidade maravilhosa.

     

 

Tempo de partir à descoberta de novos ambientes urbanos.
Os sinais do Carnaval que se aproxima estão espalhados por toda a cidade. Também não passa despercebido o patrulhamento militar dos locais mais frequentados.
Alfredo vai-se dando conta de alguns aspetos relevantes do momento vivido pela sociedade carioca.
Nestes anos de chumbo da ditadura militar, a liberdade dos blocos de Carnaval de rua não é vista com bons olhos pelo regime. Se um grupo reunido na rua para conversar já é considerado suspeito, imaginemos milhares de pessoas fantasiadas, ébrias, cantando e dançando, com sua alegria e sexualidade à flor da pele. Os militares vão ter muito trabalho pela frente. – conclui Alfredo.
Num botequim em Ipanema, Alfredo cruza um grupo de jovens que simpaticamente o abordam no sentido de conhecer aquele gringo de cabelo arruivado.
Conversas que estimularam uma nova convivência carioca com idas à praia, provas gastronómicas aqui e ali, sempre bem regadas pelos chopes e a tradicional água de coco.
Alguns elementos novos entram neste círculo de convívio. Uns baseados de boa maconha e umas subversivas cheiradas numas linhas de coca, em casa deste e daquele.
Algo que é totalmente novo para Alfredo. No capítulo maconha, ele aprende os caminhos da risada fácil e de uma perceção diferente do seu entorno. As pálpebras fecham camuflando um olhar em tom avermelhado. Sente-se invadido de um relax mental e de alguma preguiça física, seguidos mais tarde de uma fome avassaladora e de noites bem dormidas, recheadas de sonhos.
No capítulo cocaína, Alfredo dá passos mais tímidos, reconhecendo o efeito oposto. A euforia provocada por aquela substância oriunda da cordilheira dos Andes, é-lhe transmitida através de uma anestesia das narinas, seguida de uma sensação de força, poder, beleza e sedução. E contrariamente à maconha, retirando o apetite e o sono.

Atento aos sinais de Lisboa, Alfredo mantém contactos telefónicos regulares com Susana. Infelizmente as notícias não são animadoras. Após uma bateria de exames, o seu pai foi operado por uma equipa de médicos tendo retirado o estômago que já estaria condenado por um tumor maligno. Condição delicada que implicará uma nova forma de se alimentar, e enfrentar uma fase de quimioterapia e vigilância clínica. Susana sente que a sua presença em Lisboa é essencial para o equilíbrio da família. A data do seu reencontro com Alfredo é indeterminada, face a estas circunstâncias.
Este por seu lado, sentindo que a sua companheira passa por uma fase difícil em Lisboa, omite algumas passagens do seu convívio festivo deste lado do mar às portas do Carnaval.
Fruto de novas experiências no Rio, este jovem vai vivendo dias de alguma agitação na companhia deste novo círculo de amizades. Oportunidade de viver ao vivo e a cores os primeiros acontecimentos do Carnaval de 1974, nos quais se destaca o acompanhamento dos ensaios das escolas de samba.
Segundo conversas trocadas com este grupo, Alfredo se dá conta que estes ensaios acontecem antes do Carnaval. São eventos que ocorrem habitualmente em recintos desportivos onde se reúnem jovens, quase jovens, comunidade, turistas e famosos em concorridas festas populares que começam ao cair da noite e se estendem até ao nascer do sol.

 

   

 

Esta noite o animado grupo, onde Alfredo já se sente integrado, vai acompanhar o ensaio de uma das famosas escolas do carnaval do Rio. A Estação Primeira de Mangueira, na zona norte da cidade maravilhosa.
O grupo chega ao local ao cair da noite, movido por alguma agitação cerebral gerada pelo efeito eufórico de umas linhas de cocaína. A energia necessária para atravessar a noite está garantida.
A escola de Mangueira, com as suas cores verde e rosa, já está ao rubro. Com o pagamento de um ingresso de baixo custo, o grupo penetra no recinto invadido por pessoas de todos os tipos, muitos mascarados, outros não tanto. Ponto comum a todos: muita alegria, muito álcool, pouca roupa e sinais de uma sexualidade à flor da pele.
No calor da folia movida pelo som típico do samba carioca, Alfredo sente a proximidade de uma rapariga loira do grupo. A sequência natural de uma troca de olhares que o jovem antropólogo já teria captado horas antes lá na casa, em Ipanema.
De nome Vanda, ela é bem risonha e descontraída. Da sua estatura média evidencia-se um corpo feminino apelativo com uns seios que não passam despercebidos ao olhar masculino. A sua roupa não é um traje de Carnaval. Mas é bem colorida como os cariocas gostam de andar.
Alfredo, embalado na euforia e com o clima da festa a rolar, sente algumas emoções no contacto físico mais próximo com Vanda.
Algo, no entanto, faz Alfredo resistir a este apelo. Susana, que não estando ali presente, continua a habitar no seu pensamento.
Após um período agitado de um lado para o outro no meio da multidão eufórica, Alfredo toma o seu primeiro contacto com uma nova iguaria do Carnaval carioca. O denominado “Leite de onça” que resulta da mistura de cachaça com leite condensado e umas boas pedras de gelo. Terminando a primeira que escorrega bem, Alfredo sente subir um certo calor e entrando na segunda compreende que o seu centro de gravidade está a ficar ameaçado.
O grande momento chega. O período mais aguardado da noite que é o ensaio do “Samba enredo” que levará a escola ao desfile deste ano no maior Carnaval do mundo.
Neste recinto fechado há bancadas de ambos os lados. Do lado esquerdo dá-se inicio ao som inicial composto por três instrumentos de raiz do Samba carioca. Um cavaquinho, uma cuíca e um tamborim.
Do outro lado da bancada está a denominada bateria com um grupo gigante de batuqueiros com diferentes instrumentos de percussão. A visão é impressionante! Alfredo não tem olhos para acompanhar tanto movimento.
De repente, silencia-se a música de fundo que anima a festa. Entram em cena os três instrumentistas da ala esquerda, seguidos do “Puxador de Samba” que, de cima de um palco central, dá voz à festa. É assim iniciada a apresentação do Samba Enredo deste ano.
Passada esta primeira introdução, escuta-se alguém soprar um apito estridente. Sinal para o arranque da bateria do outro lado das bancadas.
Abre-se a partir daqui uma festa rítmica que só existe no Rio de Janeiro. A loucura está no ar. O céu é o limite.
Alfredo, numa tentativa fugaz de imitar os cariocas, vai dançando ao som deste contagioso ritmo, sempre acompanhado de Vanda que não mais o largou e que ali demonstra bem uma expressão corporal reservada a quem sabe sambar. Grande Brasil! – pensou.
Os restantes amigos circulam perdidos entre a multidão.
Entre umas idas e vindas aos sanitários, plenas de dificuldade e peripécias, estes dois jovens sempre aproveitam para uma passagem pelos pontos da bebida, onde se retiram mais uns chopes e o tal Leite de onça destinado aos mais audaciosos. Alfredo bebe mais um.
Dando-se conta de algum desequilíbrio físico, o jovem sente o considerável desvio do seu centro de gravidade. Tempo de deixar a Onça e optar pelo Chope. Vanda acompanha-o.
A batucada frenética continua. O recinto da Mangueira está inflamado!

 

     

No decorrer desta indescritível folia, este jovens vêem a madrugada aproximar-se. O efeito alcoólico que comanda o seu espírito deixa uma aberta para dizerem a si próprios que é tempo de apanhar um táxi para o hotel, antes que caiam em algum canto, de onde muito provavelmente não mais se levantarão. Neste último esforço de consciência e tendo Vanda como amparo, estes jovens totalmente embriagados e com a cabeça a transbordar samba, estão no limite das suas forças e da sua lucidez.
Sem muita noção do trajeto que fizeram naquela madrugada carioca, Alfredo e Vanda chegam aquele quarto do Copacabana Rio Hotel caindo sobre a cama sem pedir licença. Já o sol rasgava um novo dia.

A manhã já vai alta quando estes jovens se dão conta de onde estão e da aventura vivida na noite anterior. Vanda levantara-se mais cedo para vomitar. Alfredo, ao acordar, segue o exemplo. Num misto de sujidade e indisposição, um único impulso conduz os seus espíritos nublados. Tomar um duche gelado e cair na piscina onde ficaram por umas boas horas.
Comer algo não foi uma opção face a tamanha ressaca. Beber sim! Muita água de coco e de preferência gelada.
Vanda, recomposta dos seus sentidos e passados momentos agradáveis na piscina com Alfredo, diz:
-Vem cá, bicho! Apesar da cacetada, acho que nossa noite foi o maior barato!
Olhando para esta jovem loira escondida atrás de uns óculos de sol, Alfredo responde:
-Valeu pela experiência, Vanda. Mas temos que dosear na bebida. Aquele “Leite de onça” derruba qualquer um.
-Podes crer! Acho que vou até minha casa. Tomar um banho, comer um rango e cair em cima da cama.
-Fazes bem, miúda.
-Miúda? É a primeira vez que alguém me chama disso. Eu acho você o máximo, sabia?
-Obrigado pela companhia desta noite, Vandinha. Sem você não sei se não estaria por lá caído em algum canto.
Num gesto carinhoso, Vanda toma a dianteira e dá com um beijo terno nos lábios de Alfredo, acrescentando:
-A gente se vê mais tarde em Ipanema, certo, bonitão?
-Valeu, garota. Vamos descansar e carregar baterias para mais logo. Ouvi alguém dizer que iríamos passar esta noite na Escola de Samba da Portela.

Ao fim de mais este dia carioca, Alfredo, após alguma recuperação, encontra-se em casa do seu já habitual grupo de amigos em Ipanema.
O tema principal é naturalmente o relato de uns e outros sobre a noite anterior na escola da Mangueira.
Alfredo é agora abordado por Pedro, um dos amigos do grupo.
-Escuta, Alfredo. Estamos aqui fazendo uma vaquinha para pegar uma grama ou duas da branquinha. Cê quer colaborar?
Alfredo hesita por momentos pensando. Será que devo entrar nessa? Não desgostei do efeito, mas é mais uma despesa complementar. Por outro lado é um meio interessante para viver esta fase louca do Carnaval.
-Valeu, Pedro. E quanto sai para cada um?
-Seria bom cada um dar uns 40 ou 50 cruzeiros. Aí a gente pega um bom barato. E a noite é nossa.
Fechado o acordo, segue-se uma sessão musical nos fundos do apartamento com um violão, uma flauta e umas congas. O Brasil é sem dúvida uma nação musical.
Junta-se entretanto ao grupo Vanda, que acaba de chegar, sentando-se no chão ao lado de Alfredo. A troca de um beijo e de um olhar marcam alguma cumplicidade entre estes parceiros de folia da noite anterior.
E a sessão de boa musica inspirada na nova vaga brasileira, que por cá chamam de Tropicalismo, prossegue enchendo o espaço positivamente. Uns baseados de boa maconha sempre ajudam a enriquecer o ambiente.
Já é noite quando Alfredo se recolhe ao hotel a fim de descansar uma horas, sabendo que a noite vai ser novamente longa e agitada. Vanda pede a Alfredo para acompanhá-lo.
Uma vez no quarto de hotel, os dois jovens encostam-se à cama com a intenção de partilhar aquela letargia que a maconha sempre oferece a quem a fuma.
Vanda, num gesto carinhoso, encosta a cabeça sobre o peito de Alfredo e desapertando alguns botões de sua camisa, diz:
-Alfredo, tô a fim de você. Você me enche de tesão, sabia?
Alfredo, pouco surpreso pela investida da Vanda, responde:
-Vandinha, você é uma garota gostosa e sensual. Mas quero dizer algo a você.
-Sim. Me conta.
Alfredo abre o livro dizendo em que contexto veio para o Brasil e que namora com Susana, que teve que regressar a Portugal, por este e aquele motivo, voltando em breve. Um resumo da sua história.
-Captei. Você tá apaixonado por ela, né?
-É, Vanda! Tudo isto que eu estou a viver no Brasil é novo para mim, sabe? Sinto que um envolvimento com outra mulher vai deitar abaixo o projeto que tenho com ela. Você me compreende?
-Sim, entendi! – responde Vanda com um ar mais sério. Mas quero te dizer uma coisa, cara. Se em algum momento você se sentir só, a precisar de um ombro, de companhia boa ou mesmo dar uma transada gostosa, você me avisa. Eu me amarro em você, garotão!
-Combinado, miúda! Vamos passar um pouco pelas brasas?
-Ué! Passar pelas brasas? – pergunta a loirinha com uma expressão intrigada
-Sim, Vanda. Em Portugal isso quer dizer – dormir uma sesta.
-Cara! Com você a vida é um filme!
Risos

O regresso na companhia de Vanda a casa dos amigos em Ipanema, marca o início de mais uma noite que antecede o Carnaval do Rio, que começará dentro de dois dias.
Ao cair da noite e após aquele convívio que antecipa uma noite de festa, o fumo de mais uns baseados anima este grupo de amigos que se deslocará mais tarde para o bairro de Madureira, na zona norte do Rio.
À semelhança do ensaio da noite anterior, este evento acontece num recinto desportivo com alguma grandiosidade. Um ambiente decorado com as cores azul e branco, cores oficiais da escola da Portela, estando em destaque o símbolo da mesma, representado por uma águia de grande dimensão.
Em conversa com um rapaz do grupo mais entendido nestas questões do Carnaval carioca, Alfredo toma conhecimento que esta escola de samba é a detentora do maior número de títulos de campeão de Carnaval do Rio, tendo alcançado o primeiro em 1935.
Ficou igualmente a saber que este ano o tema do enredo seria uma homenagem a um famoso músico do samba carioca, falecido há pouco tempo. Um tal de Pixinguinha. “O mundo melhor de Pixinguinha” é o título a defender este ano por esta prestigiada escola.

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma vez no interior do recinto, o ambiente já ferve de animação. Já circulam as bebidas tradicionais em abundância, bem como uma variação de figuras de todos os tipos.
Muitos destes fantasiados, que se agitam ao som do samba de raiz das noites carnavalescas.
Alfredo esta noite tem uma voz interior que lhe diz: Mais calma na bebida, rapaz! Senão o caldo entorna outra vez. E duas noites seguidas ninguém aguenta.
Tendo novamente Vanda como parceira destas folias, os dois lá se infiltram como podem no meio da agitada multidão.
Uma vez mais o ponto alto da noite foi a apresentação do samba enredo em moldes semelhantes ao da Mangueira.
Quando a bateria explode, tudo muda no recinto. Um ritmo frenético que só terminará com a luz de um novo dia.
Tendo esta noite sido mais contidos no consumo de álcool, Alfredo e Vanda puderam melhor apreciar o desenrolar desta apresentação.
Por volta das 4 horas da madrugada, Alfredo faz sinal a Vanda comunicando a sua vontade de se recolher ao hotel.
Uma vez no exterior, Vanda pergunta a Alfredo:
-Cara! É tarde para ir pra casa. Posso ficar com você em Copa?
-Vem, Vandinha! Lá você fica bem e ainda fazemos boa companhia um para o outro.
A loirinha, deixando soltar um lindo sorriso, pega na mão de Alfredo e vão andando até a uma praça ali perto para apanhar um táxi.
Foi uma noite mais bem dormida que a anterior, que permitiu a estes jovens começar o novo dia com um gostoso café da manhã à beira da piscina e umas simpáticas braçadas naquela água cristalina.
Entretanto entra no recinto da piscina um funcionário que se aproxima destes jovens, indagando:
-Sr. Alfredo Campos? – pergunta o jovem educadamente.
-Sim! – responde Alfredo.
-Tem alguém na recepção perguntando se a senhorita Vanda Müller se encontra aqui com o Sr.?
– Vanda, que acaba de sair da piscina e se enxuga numa toalha, diz ao funcionário com alguma curiosidade.
– Sim, moço! Sou eu!
-Pode por favor chegar à receção? Tem uma moça querendo lhe falar.
-Sim, vou me vestir e já vou.
Alfredo, surpreso com aquele momento, pergunta a Vanda:
-Alguém sabia que você estava aqui?
-Só disse ontem à minha irmã que passei a outra noite aqui com você, e que talvez ficasse de novo esta noite. Vou lá ver quem é! Volto logo.
Alfredo, sem saber o que acrescentar, retomou a leitura do seu livro.
Passado alguns minutos Vanda regressa, trazendo no rosto uma expressão de alguma tensão.
-E aí, Vandinha? Era o quê? – pergunta Alfredo, preocupado.
-É minha irmã, cara, aconteceu algo grave.
Com uma expressão de natural aflição, Alfredo quer saber mais.
Vanda prossegue:
-Nosso irmão teve um acidente grave esta manhã na estrada. Foi para o hospital em estado grave.
-Ai, Vandinha! I´m sorry! E onde foi isso?
-Foi em Vitória do Espírito Santo onde meu irmão mora. Minha irmã veio me pegar. Temos que viajar com a mamãe pra lá!
-E agora o que você vai fazer? Há notícias do seu estado de saúde?
-Poucas, Alfredo! Mas o acidente foi feio! Vou pegar minhas coisas no quarto e sair com minha irmã, viu!
-Eu vou com você. – responde Alfredo com uma atitude solidária.
Despedindo-se da sua amiguinha de olhos molhados de emoção, Alfredo pediu que esta desse notícias quando voltasse ao Rio. Que não tinha intenção de sair deste hotel até saber novidades de Portugal.
E perante estes factos, Alfredo decidiu passar o seu dia em Copacabana. Sem agitações carnavalescas e sem convívios com os amigos de Ipanema.
Dia ideal para repor energias e rever alguns detalhes do seu trabalho jornalístico.

No final daquela manhã do dia 22 de Fevereiro e às portas do mais famoso Carnaval do mundo, há uma promessa de mais um dia quente.
Alfredo, para renovar a sua energia, entendeu dar um mergulho na piscina do hotel.
Encontrou o local vazio, com exceção de uma morena que se bronzeava no canto oposto da piscina. Saltou à atenção de Alfredo um corpo feminino, sensual e muito bem torneado.
Decide dar um mergulho naquela água cristalina puxando umas braçadas que sempre tonificam os músculos. Ideia excelente para recuperar forças, pensou.
Senta-se em seguida numa das confortáveis cadeiras longas em volta da piscina, entregando-se à leitura de um livro que alguém lhe emprestara dias antes. O sol, embora quente, estava gostoso.
Passados momentos, ao virar a página deste livro, Alfredo vê a tal moça levantar-se e entrar na água onde dá igualmente umas braçadas para lá e para cá.
Após alguns minutos desta observação furtiva, Alfredo não deixa de ver algo de interessante por trás dos óculos de sol.

A moça de estatura média saindo da piscina, vai agora secando o seu corpo escultural com uma toalha. Passando-a nos seios expressivos que escapam por cima do biquini em tons laranja e amarelo, contrastando com aquela pele bronzeada, nas coxas e barriga bem definidas.
Ela tem um cabelo tipo afro de tom escuro muito comum nas mulatas brasileiras. Neste caso muito bem arranjado, terminando em pontas de finos cachos em tonalidade dourada.
De repente, a moça vira-se e deita-se de bruços. Alfredo não conseguiu deixar de notar um traseiro igualmente bem torneado.
Depois de um certo tempo, ela vira-se novamente, acenando para Alfredo com um sorriso, que o jovem antropólogo corresponde subtilmente.
Alguns momentos se passam quando a morena contorna a piscina com a toalha apoiada nos ombros, sentando-se ao lado de Alfredo.
-Olá! -diz a bela moça dos seus 25 /30 anos.
-Olá, responde simpaticamente Alfredo, retirando os olhos da sua leitura.
-Meu nome é Yara. Diz esta bela mulata estendendo a mão a Alfredo com umas cuidadas unhas de cor rosa velho.
Vendo a seu lado um exemplo digno da beleza feminina brasileira, Alfredo corresponde simpaticamente ao cumprimento.
-Prazer, meu nome é Alfredo.
– Você é gringo, né? Pelo seu sotaque, é português ou italiano, acertei?
-Passou perto! Sou filho de pai português e mãe australiana. – responde o jovem sorrindo.
– De passagem pelo Rio?
-Sim, estou a fazer um trabalho jornalístico aqui no Brasil.
-Você é jornalista?
-Não, sou antropólogo. Interesso-me por estudar acontecimentos históricos de povos antigos.
-Casado? – pergunta esta linda morena de olhos rasgados com um sorriso safado colado a uns sensuais lábios bem desenhados.
-Não! Mas comprometido com uma namorada que teve que ir a Portugal e que voltará em breve.
-E você? É carioca?
-Não! Sou baiana. Filha de São Salvador.
Com um sorriso algo provocador, Alfredo responde.
-Não é uma baiana qualquer que tem uma escultura corporal como você, certo?
-Eu sei que você me notou. Vi no brilho de seus olhos. Gostou do que viu, né?
– Na realidade a sua figura não me passou despercebida. Você é muito sensual, Yara! E um homem reage a estes impulsos.
-Hum! Que bom saber. Você está hospedado nesse hotel? – pergunta desta vez a bela morena.
-Estou sim.
– Vai passar o Carnaval aqui no Rio?
-Vou, tenho um grupo de amigos com quem já visitei umas escolas de samba para assistir aos ensaios.
-E o que achou dos ensaios?
-Muita música e muita animação. Rio é assim! Muita bebida também. No dia seguinte vem a ressaca. Creio que faz parte – diz Alfredo encolhendo ligeiramente os ombros.
– E nesse Carnaval? O que vai fazer?
-Vou seguir no rastro desse grupo. Eles são cariocas e conhecem tudo por aqui. Irei para onde me levarem. Eles sabem bem por onde ir, sem confrontar a polícia militar.
-Pois, os tempos aqui no Brasil estão complicados. – confirma Yara.
-Falaram de acompanhar um bloco de Carnaval de rua chamado Banda de Ipanema e à noite passar por uma casa noturna chamada Sambão, aqui em Copacabana. Enfim, Rio de Janeiro não para! Mas como disse, eu sou gringo e vou na corrente.
-Posso ir junto? – pergunta Yara, entusiasmada.
Algo surpreso com a pergunta de Yara e não escondendo algum agrado ao escutar a mesma, Alfredo responde:
-Bem! Eu não vejo porque não. Você está sozinha aqui no Rio?
-Cheguei ontem de Salvador a convite de uma amiga. Mas algo me diz que meu Carnaval vai ser mais interessante com você e seus amigos.
-E você está hospedada aqui no hotel?
-Não, marquei encontro aqui com essa minha amiga. Vou ficar na casa dela durante o Carnaval.
-Bem. E como fazemos então?
-Que tal eu encontrar você aqui no hotel? Vou deixar minha mala e passo aqui mais tarde.
Alfredo concorda com um sorriso de camuflada satisfação.
Chega entretanto a amiga de Yara. Uma jovem aproximadamente da mesma idade vestida com uma saia colorida, um top branco e chinelo no pé. Pelo seu semblante, que Alfredo começa a identificar mais facilmente, trata-se de uma carioca de gema.
Feitas as apresentações, Alfredo e Yara combinam encontrar-se mais tarde aqui no hotel. A ideia será de se juntarem ao grupo de amigos que vão entrar pela folia carnavalesca que já incendeia a cidade maravilhosa.
A ideia é passar por Ipanema, reunir o grupo e quem sabe preparar o clima com alguns fumos e uma ou duas narigadas da branquinha antes de sair por aí.

Alfredo, encontrando-se só e continuando a sua leitura, sente algo atravessar o seu pensamento. O desejo de um contacto telefónico para Lisboa.
A conversa com Susana foi tocada por uma certa estranheza.
Ao telefone, Alfredo foi confrontado com um sentimento de maior distância por parte da sua companheira, que lhe diz:
-Escuta, Alfredo! Sinto que algo de diferente se passa entre nós. Eu aqui a apoiar uma situação muito delicada do meu pai. Tu no Rio de Janeiro a entrar no Carnaval onde tudo acontece. Noto que pouco falas do que tens feito por aí. Sei que encontraste um grupo de novos amigos. Mas o que tens feito com eles e por onde tens andado, pouco ou nada sei.
Alfredo, face a este discurso de Susana, sente estar numa situação delicada. Se contar tudo o que se tem passado deste lado do mar, só vai piorar a situação e deixar Susana ainda mais perturbada. Não sabe muito bem como gerir esta desconfiança crescente por parte dela.
Concluída esta conversa com um sabor amargo, algo perturba o seu espírito.
Um certo feitiço sentido pela aparição de Yara no seu caminho.
Falando para os seus botões, Alfredo tenta refletir:
Isto é o carnaval no Rio de Janeiro. Porque não viver esta folia? Muito provavelmente não haverá outra experiência desta na minha vida. Se a situação com o pai de Susana se complicar, terei que dar por concluída esta passagem pelo Brasil. E regressar a Lisboa. Vamos lá!

E as horas decorreram entre alguma leitura e a organização dos conteúdos da reportagem feita até à data. A parte escrita por Susana só poderia ser melhor organizada pela própria.
O sol já vai alto. De banho tomado e vestido com uma roupa fresca bem ao seu estilo, Alfredo aguarda a chegada de Yara na entrada do hotel.
A aparição da sensual baiana no hall faz estremecer Alfredo, deixando o rapaz da recepção com cara de paisagem.
Yara traz uma calça azul com um top branco que evidencia o seu soberbo par de seios. Sobre os ombros uma camiseta aberta em tecido mais leve que o ar, estampado com motivos bem tropicais. A maquilhagem e o odor de Yara são transcendentes. Na mão traz um enfeite de penas multicolores para colocar na cabeça e a tira colo uma bolsa bem feminina.
Que mulher sensual! Pensa Alfredo algo vidrado com aquela visão.
-E aí antropólogo bonitão! Vamos curtir esse carnaval? Você está lindo menino! Diz Yara com um sorriso rasgado que imediatamente conquista Alfredo. A sensualidade daquela baiana escultural faz correr o sangue mais depressa nas suas veias.

 

 

Uma vez em Ipanema Alfredo apresenta Yara ao grupo de amigos. Uma alegre e simpática receção ajudou esta baiana a sentir-se integrada.
Alguns comentários rolaram sobre as notícias da família de Vandinha. Tristes notícias. Votos para que tudo se normalize.
Na sala dos fundos rola mais uma jam session do Tropicalismo brasileiro, com uma passagem de mão em mão de uns baseados de uma maconha bem cotada aqui no Brasil. A Manga Rosa.
Pouco depois, deu-se uma retirada estratégica para um quarto ao lado onde rolava uma branquinha enfileirada num espelho. Umas narigadas marcaram o momento.
Alfredo, observando Yara, repara a sua descontração perante estas práticas que não conhece mas nas quais se integra algo insegura mas sem preconceito.
Ao cair da noite o grupo dirige-se para o tal Sambão.
Curioso sobre este lugar, Alfredo troca uma prosa a propósito deste plano com um dos habitués das noites cariocas.

 

                    

 

O Sambão é um clube que foi aberto há uns anos aqui em Copa por um personagem das noites cariocas de nome Osvaldo Sargentelli. Ele começou na Rádio como apresentador de programas bem bacanas mas em 1964, com a implantação da Ditadura, o programa foi interditado. Aí, Osvaldo se dedicou ao samba. Primeiro abriu este Clube onde estamos indo. O Sambão. Depois deste, o cara abriu mais dois aqui no Rio, o Sucata e o Oba-Oba. Isto apesar da oposição do regime que vê com grande desconfiança estes pontos de reunião de gente de várias origens e classes, ambientes difíceis de controlar.
Ao entrar no Sambão o grupo depara-se com uma vasta sala com um grande palco onde já rola o espírito do Carnaval carioca. A animação está alta e contrariamente ao recintos das escolas de samba, Alfredo sente que aqui dá para circular, beber e sambar na zona central.
Yara, bem animada com o ambiente, leva Alfredo para a dançar um samba gostoso. O jovem antropólogo faz um esforço para imitar Yara. Em silencio e vendo aquela baiana super sensual a sambar com aquela descontração, diz a si próprio. Realmente é preciso ter Brasil no corpo para fazer isto.
Depois de algumas passagens pelo bar na companhia de Yara, Alfredo tem a noção que o seu envolvimento com esta baiana cresce. Abraços e beijos vão sendo uma constante entre os dois. O tesão por Yara é agora difícil de disfarçar.
São umas 3h da manhã quando alguém do grupo se aproxima de Alfredo falando em tom alto para se fazer ouvir.
-Vem cá, Alfredo! Estamos aí combinando uma mudança de planos.
-Sim! E qual é a ideia?
-Dar um rolê por um outro clube lá na Lagoa. O Monte Líbano. Festa grande na certa. Você e a Yara topam vir também?
Alfredo pensa por instantes e consultando Yara do seu lado, logo diz:
-Vamos nessa sim. É Carnaval ou não?
Após algum trabalho para reunir o grupo, este lá seguiu a bordo da Kombi de um outro amigo que ali estava. Apertados como sardinha em lata, lá se dirigiram para a zona da Lagoa Rodrigo de Freitas onde Alfredo passara com Susana na sua chegada ao Rio.
O contacto físico durante este percurso com Yara foi um prazer complementar. A troca de olhares de cumplicidade, uma constante.
Ao chegar ao local e a Kombi estacionada num beco ali próximo, o animado grupo dirige-se a pé para o famoso Clube Monte Líbano.
Sabendo que o dono da Kombi, não só pela sua idade um pouco mais madura, mas por demonstrar um conhecimento grande da cidade maravilhosa, Alfredo puxa uma prosa no sentido de melhor compreender o contexto deste local icónico do Rio.
-Vou dar-lhe uma ideia. Qual é seu nome mesmo?
-Alfredo! Muito prazer, aqui a minha companheira Yara.
-Você é português?
Sorrindo, Alfredo responde: Em parte. É a minha forma de falar, certo?
-Sim, cara. Mas aqui a companheira é brasileira, né?
Yara, animada, retorna sorrindo:
– Filha de São Salvador.
-Valeu!-então vamos lá! O Monte Líbano foi fundado por um grande grupo de personagens oriundos do Líbano, em 1946. Uma casa que faz parte da história artística/cultural do Brasil e mais particularmente do Rio de Janeiro. Artistas de grande destaque e prestígio já passaram por aqui. A maior cantora do Líbano, a Sabah, Roberto Carlos também fez show no Monte Líbano, Raimundo Fagner e Maysa Matarazzo também se apresentaram nesse lugar. Tivemos aqui também uma edição do festival nacional da canção, que contou com a presença de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros. Além dos shows, o Clube Monte Líbano também tem uma grande tradição nos bailes de carnaval e réveillon.

 

       

 

-Uau! – diz Alfredo impressionado.
No plano político este Clube tem igualmente uma grande história.
-Como assim? – pergunta Yara.
-Os presidentes João Gulart e o João Figueiredo, em épocas diferentes, aqui montaram gabinete e governavam o país de dentro do Clube. O prefeito Negrão de Lima e Leonel Brizola eram igualmente frequentadores assíduos das festas e bailes no Monte Líbano. Tivemos aqui palestras sobre pena de morte, sobre o alargamento da Avenida Atlântica e sobre o divórcio, com o famoso senador Nelson Carneiro, que lutou e conseguiu legalizar o divórcio no Brasil. Esses debates eram realizados no salão nobre com um grande público a assitir. Os noticiários nacionais e internacionais replicaram muito este debate sobre o divórcio.
Espantado com tamanha informação, Alfredo pergunta:
-Diga-nos lá, como é que você conhece todos estes detalhes da história do Clube?
-Embora nascido no Rio, sou filho e neto de emigrantes libaneses que vieram para o Brasil nos anos 50. Me chamo Samyr. Muito prazer.
O Clube Monte Líbano é realmente uma instalação espantosa.
Alguém do grupo diz:
-Fizemos bem em vir essa noite, pois a partir de amanhã não cabe um rato aqui dentro.
Este clube icónico tem um extraordinário hall de entrada, salas vastas, salões imperiais e um pátio exterior em torno de uma magnífica piscina.

 

     

 

O som que preenche completamente o ar é produzido por uma banda de sambistas colocada no palco principal de um grandioso salão de festas. O carnaval está no ar, a bebida rola e a noite promete.
Uma vez mais, Alfredo consegue apreciar o show de dança de Yara. Algo bem percetível por muitos outros ali embalados na folia.
São quase 5 horas da madrugada quando Alfredo toldado por tanta agitação e algum álcool a mais, dá sinais de recolhimento. No seu espírito algo ele sabe. Não vai mais repetir a aventura daquela noite na escola de samba de Mangueira.
Saindo com Yara deste magnífico local, entram num táxi em direção a Copacabana.
Yara com aquela sensualidade que a caracteriza, pergunta a Alfredo:
-Você quer a minha companhia no hotel?
Alfredo, captando aqueles sinais, mas recorrendo inconscientemente a alguma resistência, responde:
-Yara querida! Gostei muito do nosso programa. E da sua companhia também. Você é um tesouro. Mas estamos bem cansados e a precisar de dormir. Aquela sua amiga vive onde?
– Também gostei muito dessa noite. Você é um gato. Minha amiga mora em Botafogo. Responde Yara com uma expressão de quem precisa de dormir.
-Vamos fazer assim! Este táxi me deixa em Copa e segue para Botafogo para deixar você. Eu pago a corrida.
-Valeu, Alfredo. Amanhã começa o Carnaval do Rio. Vamos curtir essa juntos?
Este jovem, com um semblante de alguma safadeza, responde:
-Não, Yara. O termo certo é, juntinhos! Quer dar amanhã um mergulho lá na piscina antes do almoço? Para começar o Carnaval em beleza?
-Sim, meu gato. Virei com certeza. – responde Yara trocando um beijo sensual com Alfredo.
Risos!

Sábado – Dia 23 de Fevereiro de 1974. 1º dia de Carnaval do Rio.

Conforme o combinado, Alfredo e Yara se entregaram a um sono prolongado e reparador até que um novo dia avança sem pedir licença.
O refrescante banho de piscina permitiu uma reaproximação destes jovens que sentem crescer entre eles um sentimento forte.
Seguiu-se um simpático almoço a dois num botequim ali perto.
-E aí, como vai ser o nosso programa? – pergunta Yara, com um rosto iluminado de satisfação.
Alfredo, pegando nas suas mãos lindas, responde docemente:
-Penso que nos vamos juntar à turma de Ipanema e curtir o Carnaval por lá mesmo. A ideia é seguir um tal bloco de rua chamado Banda de Ipanema.
-Acho que já ouvir falar sim. Vamos levar uma fantasia?
-Puxar da imaginação. E vamos nessa.
Yara, demonstrando total satisfação, rouba um beijo a Alfredo, dizendo:
– Com você eu vou até onde a vida nos levar.

 

       

 

A Banda de Ipanema foi fundada em 1964 por alguns personagens bem conhecidos da sociedade carioca e com a participação de um grupo muito popular que edita e publica um jornal de grande tiragem, O Pasquim.
Esta banda, segundo Alfredo compreendeu, foi criada em torno de uma mística hedonista e boémia muito própria da essência do bairro de Ipanema. Como alguns dizem por cá, uma ilha paradisíaca e idílica no coração do Rio.
Alfredo e Yara se vestiram com cores mais vivas. A baianinha trazia um cocar de índio multicolor e Alfredo improvisou um traje que faz lembrar os boémios pintores de Paris do século XIX.
Após uma passagem por casa da turma animada de Ipanema, onde sempre se vivem aqueles momentos musicais animados por uma boa maconha e para os que querem ter uma energia suplementar, aquela linha ou duas de coca. É chegado o tempo de ganhar as ruas para soltar mais uma vez a energia boa que caracteriza o Carnaval do Rio.
O percurso da banda é sempre partindo da Praça General Osório, rua Teixeira de Melo (em sentido proibido), avenida Vieira Souto, rua Joana Angélica, rua Visconde de Pirajá, e retorno à praça General Osório.
Na primeira saída da banda, Alfredo e amigos logo compreendem a força e o carisma que tem esta marcha popular bem animada, que tão bem retrata o Carnaval de rua da zona sul da cidade maravilhosa.
Em cada paragem da Banda no ponto de partida, é tempo de refrescar o espírito com mais uma corrente abundante de chope e uns petiscos que sempre marcam a gastronomia carioca.
Estão igualmente presentes aqui e ali os sinais da repressão militar, que não passam despercebidos aos cariocas e a milhares de estrangeiros que nesta época invadem a cidade.
A energia não abranda e pela primeira vez na sua existência, Alfredo capta a essência do Carnaval brasileiro. Trata-se em definitivo de um comportamento cultural, alegre, eufórico e desmedido onde a intensidade dos decibéis não conta.

 

             

 

Outra marca bem saliente do comportamento carnavalesco, é a libertação sexual que este fenómeno impulsiona. O calor é intenso, mesmo de noite, as roupas são poucas e o sex appeal anda solto pelas ruas. Ao ponto que, em becos mais escondidos ou atrás de uma ou outra moita de um jardim, se reúnem condições para aumentar a população brasileira, nove meses mais tarde.
A noite vai chegando e a folia deste dia em Ipanema chegando ao seu final.
O grupo decide então passar por alguns bares e casas de amigos onde se vive o caloroso ambiente que o Carnaval propaga. A música e bebida em abundância marcam este primeiro dia de euforia carioca.
Com um pouco de sangue no álcool e muito samba na cabeça, Alfredo sente que é chagada a hora de recolher.
Pegando Yara pela cintura que igualmente dá sinais de alguma exaustão, Alfredo propõe uma saída estratégica do local.
-Baianinha linda! Que tal irmos andando até Copa?
-Concordo com você. Está de bom tamanho, né? – responde Yara com uma expressão dengosa.
-Então vamos! Você aceita ficar comigo no hotel?,
-Que pergunta é essa, bonitão? É tudo o que eu quero.
E assim, amparados um no outro, os jovens foliões vão caminhando pelas ruas da zona sul até chegarem ao hotel. Uma caminhada algo longa que puxou pelo que restava das energias de uma memorável 1º dia de Carnaval.

Uma vez no quarto de Hotel estes jovens passam pelas delícias reparadoras de um duche frio. Exaustos e vestidos com roupas leves deixam-se mergulhar na horizontal de uma madrugada que já vai terminando. A partilha do contacto destes corpos cansados e a precisar de limbo, não deixa de ser na sua essência um prazer partilhado por uma doce sensualidade. A passagem para as pradarias da semi-consciência foi suave e fluida.
Como dizem no Brasil: Se melhorar estraga.

Domingo – 24 de Fevereiro- 2º dia de Carnaval

Já é perto do meio dia quando estes jovens voltam à vida.
Uma constatação invade o sentir de Alfredo. Dormir com esta gata linda triplicou as suas emoções. Yara, em silêncio, sente algo muito semelhante.
Com a toma de um café da manhã à medida dos seus apetites, regressam ao hotel com a perspetiva de umas boas braçadas na piscina, tomada de algum sol e o gozo de um merecido lazer vivido a dois.
-Alfredo querido. Qual é a sua ideia para hoje à noite? – pergunta Yara com aquele sorriso lindo.
-Bem! Não sei se você concorda, mas que tal um jantar a dois por aí e passar uma noite mais tranquila aqui no hotel.
-Hum! Música para os meus ouvidos. Como não concordar? Fechado, garoto. – diz a baiana com um sorriso solar.
Ao fim da tarde e depois de uma banho relaxante, estes jovens vestidos de forma descontraída seguem o programa combinado.
Yara, sem o fazer de forma inocente, vestiu-se com um modelo bem atraente com cores suaves que deixam adivinhar o seu corpo de diva.
Alfredo por seu lado está igualmente apelativo aos olhos brilhantes daquela sensual morena.
O jantar foi bem saboreado e mais demorado. A troca de olhares doces não faltou entre estes jovens entusiasmados com o momento e com o conteúdo de uma boa prosa.
Seguiu-se mais um fim de tarde na piscina.
Alfredo, olhando para Yara, sente, apesar de algumas reflexões de consciência que lhe assaltam o espírito, uma extraordinária atração. A cumplicidade com esta filha de São Salvador é boa demais. Que tesão de menina, pensa.
Já a noite é mais madura quando estes jovens se encontram no quarto, sós e expectantes pelo seu primeiro momento mágico.
Alfredo sente que neste dia a resistência a uma diva como Yara, dá os seus últimos suspiros.
Cauteloso, Alfredo pergunta a Yara:
-Diz-me cá, moreninha linda! Você toma contraceptivos?
Com alguma determinação, Yara responde:
– Você tem à sua frente uma garota que se cuida e sabe o que faz. Vamos passear os dois nessa praia. Sem stress, bonitão!
O olhar maravilhado de Alfredo, dispensa uma resposta.
Alfredo, esperando Yara sair do banheiro, estivera a cuidar do seu odor e do seu appeal sentindo aproximar-se um clima de pura magia.
Passados momentos, Yara surge à sua frente vestida com um Doll de cetim azul céu gostosamente transparente, em que Alfredo pode ver uma fina lingerie rendada de cor branca, poisada naquele corpo maravilhoso. Os odores de volúpia invadem o espaço. O sangue corre mais rápido dentro deste jovens.
Os evidentes apetites sexuais já demonstrados no decorrer dos últimos dias, encontram agora uma oportunidade de se soltarem no éter. Numa promissora viagem sensorial.

 

                       

 

Alfredo aproximando-se de Yara não resiste a perguntar a esta gostosa baiana.
-Yara, eu posso…
Yara antecipa-se, dizendo ao seu companheiro.
-Eu sei, Alfredo! Louquinho para brincar com os seios da tua baiana, certo?
-Sim, Yara ! São lindos demais.
-Vem, meu gato! Me tira este soutien e vem brincar com eles. Faz vários dias que esperam por essas suas gulodices.
Alfredo com uma delicadeza sem fim, despe a sua deusa, libertando o seu corpo perfumado do doll e em seguida daquele soutien idílico, ensurdecedor.
O olhar de Yara é de pura felicidade.
Alfredo tem à sua frente um magnífico par de seios. Que as palavras não alcançam.
Destas forças da natureza que recebem as mãos deliciadas de Alfredo, brotam uns mamilos de um tom escuro que invadem totalmente as emoções do jovem antropólogo. A atração da sua língua por estes brincos de prazer é algo que deixa ambos em suspensão.
Yara, deliciada com o momento, geme de prazer não perdendo de vista aquele jovem nu que tanto desejou de forma gulosa, nestes últimos dias.
Libertando-se da linda e delicada calcinha e segurando graciosamente as partes empolgadas de Alfredo, Yara conduz este seu amante para o jardim do Éden, entre suspiros de prazer e odores, embalados num desmesurado tesão.
E assim os seus corpos fundidos perdem o peso da gravidade e a fluidez dos seus néctares emergem numa espiral de emoções.
Durante uma deliciosa hora de intensas sensações, a narrativa retira-se por falta de capacidade de descrição dos momentos vividos por estes jovens na flor da sua idade, na bebedeira dos seus sentidos.
No rescaldo de tamanho ciclone, o tempo perdera a sua expressão e o espaço os seus limites.
No final, vencidos e entrelaçados num universo difuso, estes jovens nus se abraçam e se entregam a um sono profundo.
Depois desta passagem pelo Nirvana, o seu despertar é presenteado com o contacto de uma nudez lânguida, saborosa e com a noção que afinal o paraíso estava ali, tão perto.

2º feira – 25 de Fevereiro –3º dia de Carnaval

Nesta manhã carioca onde o sol de verão sempre dá as suas graças, o melhor da vida para estes jovens relaxados foi um delicioso duche a dois, seguido de um copioso café da manhã e uma não menos promissora passagem pela piscina.
No final da manhã um rapaz da receção apresenta-se à frente de Alfredo, dizendo:
-Sr. Alfredo Campos. Tem uma chamada para o senhor numa das cabines junto à recepção. Pode atender?
Algo surpreso, Alfredo sente uma faísca atravessar o seu espírito. Chamada de telefone. Só pode ser de Susana.
Uma nova conversa de longa distância marcada por uma intuição feminina que as palavras não explicam.
O tom de Susana é agora marcado por uma desagradável e desconfiada emoção, que ela não consegue esconder.
-Bom dia, Alfredo. Estou a ligar para saber como vai esse teu Carnaval? Tens com certeza algumas histórias para me contar, certo?
-Olá, Susana! Nunca me ligas para o Brasil. Sou eu que tenho ligado. Há algum motivo para estas perguntas?
-Sinto que há! Mas tu me dirás.
-Susana, tenho saído com os meus amigos por aí a conhecer locais do Rio que são totalmente novos para mim. Eles são de cá e eu sigo a corrente da festa que invade esta cidade nos últimos dias.
-Pois é, Alfredo. E diz-me lá porque é que eu sinto que tem mais coisas a acontecer contigo? Com outras mulheres. Porque será?
Alfredo fica gelado e em silêncio. A seguir prossegue:
-Susana, escuta.
-Alfredo, escuta-me tu! O teu silêncio fala por ti. Não subestimes a intuição de uma mulher.
-Estás a fazer uma tempestade em copo d´água, responde Alfredo despido de convicção.
-Estou, é? Então a nossa conversa fica por aqui. Diz Susana num tom de evidente irritação. Quando entenderes que deves falar comigo como um homem maduro que sempre julguei que serias. Estou deste lado. De outra forma esquece que eu existo, tá!
-Calma, Susana! – ainda diz Alfredo antes de ouvir aquele ruído cortante de um telefone que se cala compulsivamente.
Sem fôlego e tentando por momentos recuperar os seus sentidos, um pensamento lancinante lhe atravessa o espírito. O espectro de uma rotura com Susana que vai tomando forma.
Visivelmente perturbado, Alfredo regressa à piscina ao encontro de Yara que lhe pergunta:
-Alfredo querido! Quem era ao telefone?
O jovem com um semblante carregado responde. Era uma chamada de Portugal. De Susana, a minha namorada.
-E aí? A conversa correu mal ?
-Sim, Yara! Você vai desculpar-me, mas não quero falar disso. O tempo tudo cura e esta nuvem passará.
-Valeu, querido. Só estou querendo ajudar.
-Eu sei, Yara! Você é um doce! – diz Alfredo colando um terno beijo nos lábios da sua companheira.
No seu espírito perturbado por esta conversa com Susana, um pensamento paira no seu ser. Não deixar que isto estrague o espírito de festa que tem marcado positivamente a sua passagem pelo Rio de Janeiro. Sentindo-se algo encurralado, Alfredo sabe no entanto que a melhor parte desta sua experiência carnavalesca tem nome: Yara.

E mais uma noite carioca se apresenta, impulsionando estes jovens a uma nova experiência carnavalesca.
A reunião com o grupo em Ipanema já é uma constante.
Após um delicioso duche a dois, o contacto intimo é indicador de mais um encontro escaldante. Estes jovens resistem mal ao tesão que cresce dentro deles e a mais uma experiência gulosa que invade os seus seres, sem pedir licença.
No rescaldo de mais este desafio aos sentidos, Alfredo pergunta à sua companheira:
-Que loucura é esta, Yara? Você me deixa louco de prazer!
-O mesmo digo eu, gostosão! E sabe que mais? Vamos lá curtir esse Carnaval senão eu vou propor a você um outro programa.
-Ai sim morena, e qual? – pergunta Alfredo com um ar provocador.
-Passar a noite com você dentro de mim. E partir rumo às estrelas.
A alternativa a esta provocadora proposta foi uma troca gulosa de beijos nas partes quentes destes corpos ávidos de prazer. Vamos em frente.

Mais uma noite de folia com Yara e amigos.
Programa: Passar por casas de outros amigos onde rolam algumas festas privadas e mais tarde seguir um outro Bloco carioca chamado de Cacique de Ramos na zona norte do Rio.
Após uma passagem aqui e ali nas tais festas particulares, estes jovens tiveram a oportunidade de entrar na noite ao som típico do samba de raiz e de algumas marchas que marcaram os carnavais dos últimos anos.
Não perdendo de vista aquelas saídas furtivas de nariz anestesiado com a branquinha dos Andes. Momentos que sempre abrem uma outra perspetiva para entrada em noites longas.
Uma vez chegados à zona norte, foi tempo de encontrar a energia que já se soltava do Bloco Cacique de Ramos.
Em conversa com um jornalista que cobria o evento, Alfredo pode compreender um pouco melhor o contexto deste Bloco.
-Sabe, cara?
-Cacique de Ramos tem uma história dentro do Carnaval carioca tão icónica quanto o famoso Bloco Banda de Ipanema ou do Bola Preta.

 

                 

 

Este é um Bloco que vai atravessando de forma corajosa estes tempos duros da ditadura militar.
-Já existe há muito tempo este Bloco? – pergunta Alfredo curioso
– Cacique de Ramos foi fundado na Zona Norte do Rio de Janeiro em 1961. É um dos que mais reúne grandes estrelas do samba entre seus membros e fundadores. Nenhum outro bloco lançou tantos clássicos do samba quanto o Cacique.
-Valeu pela informação. Obrigado.
-Entra nessa que vocês vão se amarrar, concluiu.
-Obrigado e bom trabalho!
-O prazer foi meu, cara!
No desenrolar da folia, o grupo de Alfredo e Yara vai seguindo o percurso de mais esta animada manifestação cultural. Sem perder de vista a bebida que é o habitual motor de tanta energia.
Yara, como boa filha da terra brasileira, uma vez mais dá um show de samba dançado, deixando regalado Alfredo e os demais à sua volta.
O circuito assim vai por mais uns quilómetros, percorrendo avenidas e ruas locais onde a adesão popular é total.
Nova paragem do Bloco. Tempo para retomar o fôlego e encher os copos vazios que tudo indica estarem furados no fundo. Pois!
Alfredo diz à sua companheira:
-Yara querida, vou ali atrás daquela esquina falar com a minha bexiga, volto logo.
-Valeu, bonitão. Te espero aqui.
Ao passar naquele beco e concluída a sua tarefa, Alfredo sente um forte estrondo ali bem perto. Seguida por uma agitação humana que Alfredo tem dificuldade em definir.
No escuro da noite quente e numa tentativa de se afastar daquela confusão, o jovem já algo stressado corre para junto de Yara, dizendo-lhe em voz de aflição:
-Yara, vem cá! Rápido! Temos que ir embora daqui.
A baiana espantada, vê Alfredo pegar na sua mão e, deixando o muro onde estava sentada, começa junto dele a escapar numa determinada direção.
No meio da confusão, os jovens escutam duas ou três sirenes policiais nas proximidades. Alguns tiros atravessam o ar e vários carros blindados passam a bloquear as ruas vizinhas.
Entre a correria de uns e outros ali presentes em várias direções, Alfredo e Yara não sabem muito bem para onde ir. O stress tomou conta dos seus espíritos atormentados.
Yara, com os instintos à flor da pele tem uma ideia.
-Vem, Alfredo! Vamos ficar na entrada daquele prédio ali ao fundo.
Ali ficaram abaixados num canto escuro, agarrados um ao outro, tentando compreender o desenrolar dos acontecimentos.
Algo parecia fácil de entender. Trata-se de uma acção enérgica da polícia militar que começara a reunir grupos de foliões numa determinada zona mais iluminada. A partir dali é visível o embarque do pessoal em viaturas de transporte coletivo estacionadas.
-Mas que merda é esta, Yara? – pergunta Alfredo em total stress.
A baiana de olhos bem arregalados e agarrada como pode ao seu companheiro, responde:
-Estamos em ditadura militar, querido. A repressão não avisa e está em todo o lado. Vamos ficar aqui bem quietos.
Uma estratégia que apenas resultou por alguns minutos. Descobertos por dois policias que apareceram do escuro com uma lanterna em riste. Assustados e sem capacidade de reação, veem-se arremessados ao chão e, na base de cacetada, obrigados a juntarem-se a um grupo reunido mais adiante. Outras viaturas da polícia chegam entretanto.

 

O pesadelo estava instalado. Estes jovens, junto com muitos outros ali presentes, são agora revistados da cabeça aos pés e dispensados da posse da sua documentação e pertences. Sendo de seguida encarcerados numa ramona que se põe em marcha em direção desconhecida.
Passados uns 20 longos minutos em que os olhos passeiam no escuro da incerteza, chegam ao seu destino, a viatura policial imobiliza-se para finalmente entrar no pátio interior de um edifício com um aspeto sinistro.
Uma vez abertas as portas traseiras daquela gaiola coletiva, ouvem-se agora os gritos dos carrascos fardados que, com cacete em punho, carregam todos para o interior do edifício.
Ali dentro, como gado, este grupo de umas 12 pessoas é colocado numa ala fechada e com pouca luz. Sem a mais pequena explicação que motivasse esta bárbara ação policial.
Em voz baixa, os agora detidos puderam trocar algumas palavras entre todos.
No meio de tantas perguntas sem resposta ouve-se a voz de um sujeito mais maduro com traço carioca, que diz ao grupo:
-Fiquem calmos e falem baixo. Eu já fui pego por duas vezes nestas merdas da polícia.
-E o que nos vai acontecer? – pergunta desesperada, uma jovem de voz trémula.
-Esta noite vamos ficar aqui. Dormir nesse chão. De manhã vão começar a chamar uns e outros. Quem foi agarrado com posse de maconha, cocaína ou LSD está ferrado. E quem tiver o nome lá na lista deles também.
-E quem nada tiver a ver com esses negócios? . pergunta outro jovem.
-Vai passar por um cadastro e ser liberado mais tarde.
E ali passou este atormentado grupo com a roupa no corpo, sem documentos, sem comer ou beber. Os pensamentos pesados gerados por esta situação desesperada, sobrepõem-se a qualquer compreensão do sucedido. Afinal, estavam apenas a curtir uma boa festa de Carnaval.
No seu pensamento, Alfredo lembra-se de alguém há uns dias lhe dizer que a polícia tolera mal reuniões de rua. Isto também é Brasil. – pensa Alfredo.

 

       

 

Com a chegada de um novo dia, novos acontecimentos tomam forma naquele local sinistro. De alguma maneira, aquele que previu o que ia acontecer a seguir, parecia ter adivinhado os contornos desta novela.
Um a um deste grupo de 12 pessoas, entre os quais alguns bem jovens e outros mais maduros, foram levados para interrogatório.
Yara foi levada antes de Alfredo. A jovem lança a Alfredo um olhar que deixou ver algum desespero. Quando foi a sua vez de se apresentar aos policiais, Alfredo não mais viu Yara ou os outros levados anteriormente.
O jovem antropólogo confronta-se agora com um oficial de rosto duro numa sala de pouca iluminação. Uma prosa que duraria mais do que o desejado.
-Sr Alfredo Campos?
-Sim, senhor! Sou eu. – responde Alfredo instintivamente.
-O Sr é português?
-Tenho dupla nacionalidade. Sou filho de pai português e mãe australiana.
-Bem! E o que faz no Brasil? O seu visto de turismo é por três meses. Veio em visita ao Brasil?
-Sim. Mas o meu principal objetivo foi a recolha de dados de uma reportagem para uma revista. A National Geographic Magazine.
Uma conversa onde Alfredo desenrolou os detalhes e o contexto desta reportagem. Seguiu-se a sua passagem numa outra secção, onde lhe foram retiradas as impressões digitais e um par de fotografias. Estando deste modo aparentemente concluída esta sua passagem sórdida pelo filtro da atual repressão assinada pela ditadura militar brasileira.
Uma vez devolvido o seu passaporte e bolsa, Alfredo é deste modo conduzido por outro agente à porta de saída do edifício. Já no exterior depara-se com Yara que sentada sobre um muro não longe dali, o aguarda. Um terno abraço encerra este episódio nefasto vivido por estes jovens. Mesmo que a vontade seja firme, não será fácil apagá-lo das suas memórias
Algum alívio os invade sentindo de novo a liberdade. Não deixam de pensar em alguns que eventualmente continuariam ali detidos.
Caminhando abraçados pela avenida, estes jovens partilham o mesmo desejo. Apanhar um táxi para Copacabana, parando num qualquer botequim a fim de matar quem os estava a matar. Uma fome e sede avassaladoras.
Este desagradável desfecho de mais uma noite de Carnaval, produz um outro desejo nestes jovens. Recolher ao hotel, tomar um duche reparador, entregando-se em seguida à posição horizontal, entrelaçados pelo contacto de uma nudez compensadora.

3ª feira – 26 de Fevereiro – 4º dia de Carnaval

Alfredo, no rescaldo do episódio policial da madrugada anterior, dá sinais de saturação do Carnaval do Rio. No seu pensar reside a ideia de não mais participar em programas festivos, grandes ou pequenos., Afinal de contas a sua vinda para o Brasil tinha um propósito bem diferente e mudanças radicais estavam em curso na sua vida. Factos que o perturbam e com os quais tem que saber lidar.
Ao transmitir este sentimento à sua companheira, esta parece compreender os seus motivos.
Decidem assim passar este último dia de Carnaval na tranquilidade oferecida por esta unidade hoteleira, na agradável companhia um do outro.
Pela noite, surgia no entanto uma perspectiva carnavalesca que muitos países do mundo acompanham através das televisões. O desfile das escolas de Samba do Rio.
Yara, vamos ver este espetáculo?
-Vamos, claro! – responde a doce morena em tom animado. Todos os anos vejo pela televisão lá em Salvador, com família e amigos.
O jantar a dois foi desta vez num lugar bem típico de Copacabana que Alfredo ouvira falar. A “Adega Pérola”, que pertence a uns portugueses da ilha da Madeira e que serve uma gastronomia genuinamente lusitana.
A prova de vários petiscos bem característicos da cozinha portuguesa, acompanhados de vinhos tintos e brancos importados de Portugal e servidos à taça, foi a melhor forma de coroar a noite. Yara está maravilhada com os sabores da cozinha portuguesa que prova pela primeira vez.
Satisfeitos com esta experiência gastronómica e acertadas as contas, seguem a pé em direção ao Copacabana Rio Hotel, cerca de um quilómetro mais adiante.
Confortavelmente sentados numa das salas do hotel e seguindo o programa do desfile, tomaram conhecimento que este ano o programa seguia um formato diferente.

 

 

 

 

 

 

 

O mais famoso desfile de Carnaval do mundo não seria realizado na Avenida Presidente Vargas, devido a obras de grande dimensão para a construção do Metro naquela zona. Por este motivo, o mesmo seria realizado na Avenida Presidente António Carlos.
Yara diz a Alfredo:
-Olha, não sabia disso. Espero que essa alteração não tire o brilho e o prestígio desse espetáculo!
-Penso que não! Esta é a maior festa do Brasil! Vamos ver.
O maior espetáculo do mundo começou tarde, como sempre. A explosão de cores e luz que sempre acompanham as escolas, o samba enredo com o mestre sala e porta bandeira, a bateria e os vários carros alegóricos não deixam ninguém indiferente. Um verdadeiro êxtase. Caso único no mundo.
Alfredo prestou uma particular atenção ao desfile de escola Estação primeira de Mangueira e Escola de samba da Portela, tendo acompanhado os ensaios de ambas semanas antes. Ver o resultado de tanto empenho a desfilar perante os olhos do mundo inteiro é, sem dúvida, uma emoção especial. O Rio de Janeiro continua lindo.
Eram umas 3 horas da madrugada quando Alfredo faz sinal a Yara para se recolherem ao quarto.
Yara, captando os sinais, responde:
-Está de bom tamanho, né, querido?
Uma vez no quarto, Yara se encosta a Alfredo, dizendo:
-Você está a fim da sua gata, meu antropólogo lindo?
Alfredo sente um certo frisson percorrer a sua espinha.
-É um convite safado que eu aceito, baiana linda! Responde pousando as mãos naqueles seios de sonho.
O envolvimento destes jovens neste quarto de hotel foi uma vez mais arrebatador. Uma viagem por planícies intemporais onde os odores e os prazeres se confundem como numa tela de Van Gogh.
Sentir profundo e tesão extremo são agora uma peça musical tocada por uma orquestra sinfónica em dó maior, sem pauta, sem maestro, sem instrumentos. Só prazer!
E uma vez mais aquele fiel colchão cumpre brilhantemente a sua missão. Acolher dois seres apaixonados numa madrugada que já vai extensa e pronta para receber o astro rei que emergirá em breve do grande Atlântico.

4ª feira – 27 de Fevereiro – Dia de cinzas.

Este novo dia marca o rescaldo de um Carnaval que deixa marcas na memória.
Uma ideia paira no espírito de Alfredo. Fazer uma chamada telefónica para Lisboa.
Em Lisboa, do outro lado da linha, surge a voz feminina da mãe de Susana.
-Bom dia. É Alfredo. Como vão as coisas por aí? Do seu marido há melhores notícias?
Em resposta, a senhora com uma voz tocada por uma evidente tristeza, deu a Alfredo as últimas notícias demonstrando mesmo assim alguma esperança de melhores dias pela frente.
-Como lamento tudo isto! Posso falar com Susana?
-Um momento, Alfredo. Beijinho!
-Um grande abraço para todos e muita força para o seu marido. Torcendo por vocês.
-Obrigada!
Alguns minutos se passaram. Uma espera longa e angustiada.
-Estou, Alfredo. Eu falei com a minha filha que se recusa a vir ao telefone. Ela está muito afetada com tudo o que tem acontecido. Não sei o que se passa entre vocês, Alfredo. Mas acredite que lamento. Ela só me disse para lhe transmitir isto “O Alfredo que me esqueça e que deixe de me ligar”. Lamento muito, Alfredo.
Esta conversa de longa distância tem um peso de toneladas no espírito atormentado deste jovem . A rotura com Susana está a consumar-se.
Indo ao encontro de Yara na piscina, Alfredo não consegue disfarçar o semblante carregado que reflete o peso da sua alma.
-E aí, Alfredo? – pergunta Yara naturalmente.
-A minha vida virou uma merda!
Yara sente que o momento não é propício a desenvolver uma conversa com Alfredo. Oferece no entanto o seu ombro e seu ouvido ao seu companheiro que deixa transparecer o seu penoso estado psicológico.
Passada uma boa meia hora de silêncio, Alfredo diz a Yara:
-Me desculpa Yara. Você não tem culpa do que se passa na minha cabeça. Eu vejo o mundo desmoronar à minha volta.
-Me conta mais, vai!. Bota pra fora, garoto. Estou aqui te escutando.
-Eu tenho um contrato com aquela famosa revista National Geographic Magazine para entregar um trabalho jornalístico com um prazo que vai acabar em breve. Um trabalho de equipe com Susana. Com esta recusa de falar comigo, como vou cumprir essa meta? É ela que tem toda a parte escrita desta reportagem.
-E como se pode contornar isso? Tem que ter uma solução.
-Qual solução? Estou aqui deste lado do mundo fazendo já não sei o quê! Meu dinheiro está no fim e não sei como resolver tudo isto.
Algum gelo se instalava de vez nesta relação com Susana. No lugar de deitar alguma água fria sobre o assunto, Alfredo deitou cerveja…muita cerveja!
Ao fim da tarde e após algumas tentativas sem sucesso de aligeirar o espírito de Alfredo, Yara equaciona passar o resto do dia em casa da sua amiga carioca.
Alterado do fundo dos seus sentidos e tomando conhecimento desta intenção de Yara, Alfredo responde:
-Ah, é? Pois vai e se quiser nem volta.
Yara, senhora dos seus sentidos e tentando não seguir aquele tom agressivo do seu namorado, tenta segurar a situação respondendo em voz controlada.
-Alfredo! Eu não sou cega e vejo que você está passando por uma fria. Não serei eu a agravar o seu mau momento. Quero que saiba que nunca vou esquecer os dias que vivemos nesse Carnaval. Gosto muito de você, viu?
-Então porque vai embora? – responde Alfredo com semblante toldado pelo álcool.
-Porque quero guardar o lado bom de você dentro de mim. Porque sei que temos destinos diferentes para seguir nessa vida. O seu, você irá encontrar em breve voltando pra Portugal. O meu é o que São Salvador me guardou.
-Pode ser. Mas não sei como sair desta!
-A vida sempre encontra o seu caminho. Mas também lhe quero dizer isso. Amanhã, como era previsto, retorno à minha casa em Salvador. O Carnaval já foi e é tempo de retomar a vida perto da família.
-Você fala a sério? – pergunta Alfredo com tristeza na voz.
Tentando com todas as suas forças segurar as emoções, Yara responde:
-Sim, meu querido! É o melhor para nós! Deixo aqui este bilhete com o meu endereço em Salvador. Se um dia você voltar ao Brasil e quiser me ver, sabe onde me encontrar. Ou quem sabe me escreve para eu saber como você está!
Os momentos agora vividos por estes jovens não encontram nas palavras a tradução dos seus sentimentos atormentados. Mas o destino fala mais alto. A vida segue.
Bolsa arrumada com os seus pertences, Yara, com os olhos húmidos, coloca-se frente a Alfredo, dizendo-lhe:
-Vou andando, garoto! Eu te amo, viu? Nunca vou esquecer você!
Ao que Alfredo responde com uma voz trémula:
-Yara, me perdoa tudo isto. Nunca esquecerei a baiana mais linda que cruzei no Brasil. Te amo também!
Um longo e apertado abraço acompanhado de um sentir molhado de lágrimas, marca o final deste cruzamento escrito no destino destes jovens que se guardam num lugar especial dos seus corações.

O restante dia de Alfredo foi marcado por uma solidão em todos os sentidos.
No turbilhão dos seus pensamentos, resolve contactar Pedro em Ipanema com uma ideia em mente.
Adquirir umas gramas da branquinha para atravessar de forma iludida, ou mesmo alienada, esta nova fase turbulenta que forma uma tempestade perfeita na sua mente.
Pedro dá-lhe um contacto de alguém que habitualmente fornece o grupo.
A noite de Alfredo desenrola-se num novo circulo desconhecido onde vai poder ver ao vivo e a cores como tudo se passa nos pesados meandros do narcotráfico da zona norte.
Sem se dar conta, Alfredo deixa-se levar numa estrada sem horizonte. Atormentado, sem norte e vivendo um stress a que não está habituado, traz consigo a tal grama da branquinha libertadora a troco de uma expressiva soma dos seus últimos recursos.
Alguns dias se seguem na companhia de alguns amigos da branquinha.

 

                     

 

A cocaína é agora a rainha dos dias e das noites longas. Gradualmente, Alfredo deixa de se alimentar adequadamente e o sono foi de férias sem hora para voltar.
O seu destino está no entanto do seu lado. Alfredo resiste ao convite por parte deste e daquele para uma nova experiência. A sensação superior da cocaína injetada nas veias.
Um sentimento surdo se agita no seu intimo. Alfredo, esse não é um caminho a seguir!
Flutuando numa esfera acima da realidade, este jovem tenta viver à margem dos seus tormentos apesar de ouvir aqui e ali uma voz que o chama de volta para o mundo dos vivos. Dias e noites longas marcadas pela falta de nexo e sem norte à vista.
Outra tomada de consciência assalta o seu espírito. Os suas finanças de reserva vão ganhando asas com os copos e o consumo de cocaína.

Nesta manhã quente, Alfredo acorda com um tremendo baixo astral. Sente-se sem chão e a perder capacidades físicas e intelectuais. Neste rescaldo de um Carnaval louco e agitado, procedido de dias sem destino nem propósito, paira no seu espírito uma séria reflexão sobre o que se transformou a sua vida deste lado do mar.
Em choque psicológico com as experiências vividas nas últimas semanas, Alfredo cai na real.
Num rasgo de lucidez compreende agora que o seu maior anseio é recuperar a sua vida. O jovem antropólogo resolve concentrar os seus pensamentos num objetivo primordial. Deixar de lado a agitada vida noturna, o exagerado consumo de álcool e interromper a perigosa habituação da cocaína.
Quanto aos efeitos desta e suas consequências, Alfredo consulta um pequeno livro que comprou semanas antes numa livraria de Copacabana. Uma leitura em que pode aprender alguns aspetos elucidativos relacionados com o consumo daquela neve branca oriunda do países vizinhos, Bolívia e Perú.

“O uso continuo de cocaína pode levar o cocainômano (viciado em cocaína) a ter efeitos físicos crônicos (distúrbios cardíacos, respiratórios/nasais e gastrointestinais) e também disturbios psíquicos crônicos, além do risco iminente de sofrer uma overdose.
Tornando-se uma substância da moda, em certas festas, a oferta de pó pelos anfitriões se tornou um sinal de exibicionismo de novos-ricos.”

Um texto que bate forte no seu espírito atormentado.
Em paralelo, Alfredo sente que a sua sustentabilidade no Brasil está seriamente comprometida. Tomando consciência que o dinheiro que tinha para se sustentar e completar a sua reportagem se tinha esfumado em noitadas e no consumo de cocaína.
Dá-se agora conta que já não tem dinheiro suficiente para pagar a sua estadia no Copacabana Rio Hotel.
Na sequência deste grito de consciência, tem agora uma noção clara no seu espírito. Deixar o Brasil e regressar a Portugal.
Resta-lhe uma única alternativa. Pedir apoio à família.
Num posto dos correios de Copacabana, Alfredo tenta uma ligação telefónica com os seus pais para Moçambique. Uma chamada à cobrança paga pelo destinatário.
Numa conversa franca, mas algo penosa com sua mãe Margareth Mckenzie, Alfredo expõe a sua situação, não se abstendo de alguns detalhes que em regra filhos partilham só com as mães. No final, Alfredo sente-se confortado, aguardando o resultado da conversa que sua mãe irá ter com o seu pai a este propósito.
Como era expectável, esta preciosa ajuda chegou passados 2 dias através de uma transferência bancária internacional.
Abriam-se deste modo novas portas no percurso do jovem antropólogo por terras de Vera Cruz. Podia agora iniciar os preparativos do seu regresso a Portugal.
Acertadas as contas com o hotel e adquirida uma passagem de avião na TAP com destino a Lisboa, o jovem antropólogo tem agora o tempo necessário para rever esta sua aventura sul americana recheada de emoções, muita aprendizagem e com inúmeros momentos insólitos e atribulados. Tempo de virar a página.
Como vai resolver o desafio com a National Geographic Magazine, é algo que vai pensar quando chegar a Portugal.

 

 

Às primeiras horas do dia 5 de Março de 1974, Alfredo, de malas prontas, faz o seu trajeto a bordo de um táxi em direção ao aeroporto internacional do Galeão na Ilha do Governador. Próximo destino: Lisboa.
Segue-se uma viagem de umas 9 horas sobre o Atlântico. Tempo de sobra para reflexões que Alfredo comporta no seu espírito. As lembranças da viagem memorável que fizera em Janeiro deste ano para o Brasil na companhia de Susana.
Esta era uma viagem diferente. Realizada com mais preocupações e menos histórias para contar.

Uma vez na capital portuguesa, Alfredo está novamente hospedado em casa do tio Manuel, irmão de seu pai Joaquim, no bairro do Areeiro.
No seu espírito paira um primordial objetivo. Reorganizar e compilar a matéria jornalística que o levara ao Brasil. O tempo que lhe resta para a entrega deste trabalho aproxima-se da data limite contratual. 24 de Abril próximo.
Como conseguir este objetivo se a parte escrita desta reportagem está nas mãos de Susana, com quem tivera um recente corte de comunicação.
Várias tentativas foram feitas no sentido de falar com Susana. Sem qualquer sucesso.
Todas marcadas por uma persistente recusa de resposta.
Numa última tentativa, Alfredo comunica à mãe de Susana que compreende a sua recusa em falar com ele, mas que fosse compreensiva quanto às obrigações contratuais que Alfredo tinha com a famosa revista. Uma vez que não pretendia colaborar naquele desafio, que ao menos lhe forneça aquelas matérias escritas, para que possa a solo cumprir da melhor forma o seu objetivo.
Sentindo os dias a passar sem qualquer resposta da parte de Susana, Alfredo vai desta vez tentar outros caminhos. Falar do tema com Madalena, uma grande amiga de Susana, colega da faculdade. A quem explicou o contexto, transmitindo a sua grande aflição para o cumprimento do contrato que estava em sério risco de rescisão.
No dia seguinte, Alfredo vê alguma luz no final do túnel. Num novo encontro marcado com a colega de Susana, esta entrega-lhe uma pasta, dizendo-lhe:
-Foi com dificuldade que consegui este material, Alfredo. Susana está muito magoada contigo. Depois de muita insistência, ela disse-me que o faz por consciência profissional. Mas que não conte com ela na organização de todos os conteúdos. O que aqui está é o material em bruto, não editado!
-Bem, Madalena! Não sei como agradecer-te este imenso favor que me fazes. Quanto a Susana tudo o que se passou entre nós não é o fim do mundo. Foram circunstancias que o pai tempo que é um grande curandeiro das almas, poderá um dia curar.
-Também tens que entender que Susana está a passar por uma fase muito difícil com o caso do pai.
-Sei, Madalena. Por favor diz-lhe que estou solidário com ela. Depois de tudo o que já vivemos juntos, ela mora aqui dentro de mim.
Um sincero abraço encerrou este diálogo e também este capítulo. Segue-se um outro igualmente complexo. Tentar por todos os meios reunir e selecionar os diferentes materiais desta aventura, entre textos e fotografias, de modo a construir um trabalho jornalístico dentro de padrões que Alfredo exige a si próprio.
O jovem antropólogo com os ativos colhidos na viagem pelo Egito, sabe bem o que pretende fazer. Só não sabe se lá chegará em tempo útil.
Entendeu por bem contactar a National Geographic em Londres via telefone. Em primeira mão para informar o ponto da situação e onde lhe foi comunicado que o prazo contratual de entrega teria de ser escrupulosamente cumprido, dado que a redação tinha em mãos outras propostas para possível publicação.

As semanas que restam para atingir esta meta levam Alfredo a uma corrida desmesurada. A um desafio a solo onde terá que recorrer a uma força interior.
O jovem antropólogo arregaça as mangas e despede-se do tempo regular de comer, dormir e conviver com a família e amigos.
Os dias e as noites ganham uma nova dimensão. A convencional divisão do tempo em partes iguais deixou de fazer sentido. O seu único fator ameaçador estava ali bem à sua frente. O calendário do mês de Abril de 1974.
Com a queima expressiva de pestanas, perda de algum peso e um desgaste anormal de neurónios, Alfredo sente que vai cumprir o seu objetivo.
Na madrugada do dia 20 de Abril e depois de uma última revisão do projeto, este jovem sabe que é chegada a hora de se deslocar a Londres para a entrega em mãos deste dossier nos escritórios da National Geographic Magazine.
Novo contratempo surge pela frente. Ao contactar a sua habitual agência de viagens, é informado que só terá bilhete disponível no último voo do dia 22 de Abril. As alternativas mais cedo em outras companhias comportam preços exorbitantes adquiridos em cima da hora.
Alfredo arrisca. Contacta o seu amigo Simon que vive em Londres no bairro de Elephant & Castle, pedindo-lhe guarita por um par de dias e mais importante que isso. Levá-lo no dia seguinte no seu carro aos escritórios da revista na Highgate Studios em London NW5.
Contando com o esforço e amizade de Simon, Alfredo chega a Londres conforme previsto, cerca das 21 horas de segunda-feira. Dia 22 de Abril.
Com a preciosa colaboração de Simon e movido por uma intangível força da atração, é com enorme alívio que Alfredo consegue dar entrada do documento na secretaria da National Geographic Magazine. Dia 23 de Abril de 1974 – terça-feira pelas 14 horas.

 

 

Um dia antes da data limite estabelecida em contrato.
Naquela noite, o céu de Londres voltou a ser estrelado e a fazer sentido. Deitado na cama e vivendo uma espécie de viagem no tempo, Alfredo vê passar à sua frente um conjunto de imagens tipo celuloide em 35 mm, tendo como pano de fundo a América Latina. Uma sequência frenética de imagens onde surge Susana, a cidade maravilhosa, as aventuras em Minas Gerais, a passagem pelo maior Carnaval do mundo, a bela Yara, filha de São Salvador, os amigos cariocas e a sua passagem acidental pela branquinha malvada.
Tempo de pedir licença para entrar no limbo.
Game over.

A continuar em breve…

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