Despertar

Capítulo V - Despertar

DESPERTAR

Província de Moçambique (África portuguesa) – Agosto de 1967

Alfredo é um jovem adulto bem constituído para os seus 19 anos. De um 1,80 m de um corpo alinhado, sobressai um olhar azul escuro e um cabelo alourado herdado da sua linhagem escocesa.
Nesta província ultramarina, para onde veio com a família quando tinha apenas 1 ano de idade, cresceu num ambiente agradável que este território austral proporciona.
A contrastar com a guerra colonial que Portugal alimenta contra o movimento de libertação e independência de Moçambique (Frelimo) desde 1961, está a dolce vita que os residentes deste território levam na metade sul da província.
Deste flagelo a norte o jovem Alfredo encontra-se livre, pois reclamando o seu direito à cidadania australiana cedo, os seus pais trataram de o afastar da nacionalidade portuguesa não correndo o risco de ingresso nas fileiras do exército e eventual participação nesta hecatombe.
Com a contratação do pai Joaquim Souza Campos em 1948, na qualidade de engenheiro de minas pela Société Minière et géologique du Zambèze para dirigir o projecto de extracção de carvão de Moatize , a família radicou-se numa zona agradável da capital.
Neste bairro da Sommerschield respira-se um ambiente residencial onde há poucos edifícios e onde as vivendas com traço arquitectónico moderno marcam a sua presença.
Aqui fixam-se em regra os diretores das empresas multinacionais, gestores de grupos económicos, os diplomatas, e cidadãos ligados à administração da província, entre outros.
O engenheiro Souza Campos, correspondendo ao seu desafio profissional, deu corpo a uma atividade florescente e aliciante na região de Tete, mais precisamente junto ao aldeamento de Moatize onde foram detectadas anos antes importantes jazidas de coque e carvão.

Moatize 2   Moatize 3
Entre as frequentes viagens às minas e outras tantas à Bélgica cumprindo um contacto estreito com a casa-mãe, Joaquim Souza Campos exerce a sua missão de director geral com base nos escritórios centrais na baixa da capital Lourenço Marques.
Este bem sucedido gestor de 59 anos de idade, acumulou uma enorme experiência no setor mineiro, tendo produzido ao longo dos anos excelentes resultados, tornando-se um funcionário de topo desta empresa mineira belga.

Casa na Sommerschield

Nesta manhã de sol na cidade das acácias, Alfredo é surpreendido pelo despertador.
Abrindo apenas um olho dá-se conta que são 8 horas e deve deslocar-se ao aeroporto para receber uns amigos dos pais que chegam da Austrália via Londres.
Cumprida a habitual tarefa das primeiras necessidades matinais, lava o rosto e substitui o pijama por algo mais adequado. Ao abrir a porta do seu quarto, sente alguns sinais de vida vindos do piso térreo.
Trata-se da mãe Margareth que já se encontra na cozinha a orientar o pequeno almoço com a ajuda do cozinheiro de etnia machangane.
-Mãe? Diz este jovem adulto em voz alta para ser ouvido.
-Sim, Alf!…bom dia, filho!…dormiste bem?…temos que sair dentro de meia hora!
Com os sentidos em fase de recuperação de uma noite de poucas horas de sono e de uma tarde anterior passada no mar a velejar, responde:
-Yes, Mom!…vou-me preparar e já desço para comermos algo e sair.
Descendo e dando o habitual beijo de bom dia à mãe, Alfredo senta-se na mesa central da vasta cozinha desta soberba vivenda para tomar um rápido mata bicho.
Margareth, hoje com 57 anos e em boa forma física para a sua idade, gere a casa da família tendo como actividade paralela o trabalho voluntário no seio da Cruz Vermelha portuguesa em acções solidárias.
Pronta para mais uma jornada na cidade das acácias, esta australiana de sorriso franco irá acompanhar o filho ao aeroporto Gago Coutinho a fim de receber e orientar os seus concidadãos de visita a Moçambique.
-E o pai já saiu?
-Já, filho, saiu bem cedo para o aeroporto também. Vai passar estes próximos 2 dias nas minas com um cliente que chegou da Europa. Vão viajar no Cessna da companhia.

Moatize 1
A caminho do aeroporto e sentada ao lado de Alfredo que conduz o seu carro, esta diz algo que muito  agrada ao seu filho.
-Tenho uma notícia boa para ti!
-Ah, bom? E então?
-Estivemos, eu e a Fiona ontem à noite no sotão à procura de umas fotos antigas que ela precisa para um trabalho que anda a fazer com uma amiga e imagina o que encontrámos?
-Diz logo, mãe! Responde Alfredo com franca curiosidade.
-O dossier do meu pai que andamos há tempos à procura, lembras-te?
-Os manuscritos e estudos do avô Donald?
-Yes, darling!
-Que boa notícia!….isso estava onde?
-Foi a tua irmã que descobriu tudo dentro de uma velha mala de couro no meio de outras velharias do teu avô que trouxemos da última vez que estivemos na Austrália.
-Fantástico!…guardaste isso onde?
-Quando deixarmos este casal no Hotel Polana e voltarmos para casa, telefona à Fiona e pergunta-lhe. Eu tive que sair e ela ficou lá no sotão a arrumar tudo.

M5 Polana7

Fiona, morando perto dos pais no mesmo bairro da Sommerchield, está hoje uma bela mulher de 34 anos. Formada em ginástica desportiva na África do sul, dá aulas nos Liceus Salazar e Dona Ana da Costa Portugal.
Casou entretanto com um engenheiro sul africano que conheceu nas competições de ténis, desporto do qual é uma fervorosa adepta desde que chegou a Moçambique. Tem dois filhos que continuam fiéis à linhagem loira da família materna, tendo reforçado este traço biológico com o sangue anglo-saxónico do pai.
Ao fim da tarde, atendendo o telefone, Fiona identifica a voz do seu mano caçula.
-Hi, Alf!
-Fiona!...hi!…a mãe disse-me que vocês encontraram os documentos do avô Donald!
-É!….eu imaginei que isso ia pôr-te algo excitado!
-Como não é difícil de adivinhar, né? E onde guardaste esses documentos?
-Trouxe comigo para dar uma olhada! Estão comigo aqui em casa.
-Posso passar para ver isso?
-Podes claro, ia dizer-te para passares amanhã ao fim da manhã mas imagino que essa curiosidade está ao rubro, certo?
-Não é preciso imaginar, Fiona. Passo aí daqui a 10 minutos.
-Right, Alf. See you soon!
Esta visita a casa da irmã não se fez esperar. À entrada da porta desta agradável vivenda está uma das sobrinhas que, de pijama vestido, se prepara para encerrar mais um dia agitado.
-Mum!…é o tio Alf, diz esta menina de 8 anos sorridente e com um cintilante olho azul.
Numa sala confortável onde se escuta California dreamin de Mamas and the Papas, segue-se uma breve conversa com o cunhado de nome Tom, animada pelo sabor de uma Laurentina e de umas castanhas de caju torradas no ponto.
-Hi, Alf! Have you had your dinner? Pergunta Tom
No, responde Alfredo, olhando entretanto para a mala de couro trazida entretanto para a sala pela irmã Fiona.
-Here it is!…um legado do granpa Donald!…grande notícia, hein?….já estive a olhar para tudo isso. Tanto quanto te conheço não vais ter descanso nos próximos dias!
-Já sabes como é!…responde Alfredo abrindo aquele olho azul escuro varrendo avidamente o conteúdo desta mala.
Tom, que continua entusiasmado com a sua Laurentina, diz à sua companheira.
-Darling!….o teu irmão ainda não jantou!…vamos convidá-lo para comer connosco?
-Aceito numa condição!….responde Alfredo ao cunhado.
-E aí? Pergunta Fiona.
-Que não seja até muito tarde. Estou a arder para ver o conteúdo desta mala.
Perante o sorriso partilhado entre marido e mulher, Fiona informa.
-Estive a falar com a Judite ontem à noite.
-Ah, bom! E como vai ela? Pergunta Alfredo não tirando os olhos dos cadernos que tem agora nas mãos.
-Vão todos bem!….contei-lhe sobre esta descoberta e, coincidentemente, disse-me que também encontrou lá em casa mais uns documentos do granpa Donald que são igualmente bem interessantes, segundo ela.
Judite, hoje com 37 anos, regressou à Austrália (Brisbane) uma vez concluídos os estudos secundários em Moçambique. Ali frequentou a Universidade sendo hoje uma conceituada médica oftalmologista. Casada com um colega de nacionalidade australiana que cruzou na faculdade, Judite é mãe de 3 filhos, habitando numa bela vivenda num bairro nobre de Brisbane não longe do local onde habitara com aos pais na juventude, antes da partida para a África oriental.
Deveras excitado com tantas novidades, Alfredo reage às notícias indagando:
-E ela disse de que documentos se trata?
-Falou-me de escritos todos arquivados por uma ordem bem ao jeito do granpa. Falou de textos e relatos das viagens dele pelo mundo.
-Humm! Super interessante! exclama este jovem cuja excitação pelo tema é bem visível. Vou pedir-lhe que arranje uma forma de mandar isso para cá. Ela deve poder enviar pelo correio.
-Alf! Repica Fiona franzindo o sobrolho!…não pensas no que dizes! Enviar um legado desses pelo correio para o outro lado do mundo? Nem pensar, mano! É demasiado precioso. Terá que ser através de alguém de confiança da nossa família que os traga em mão até Moçambique, ou até perto de nós.
-Não deixa de ser verdade!….amanhã vou ligar para a Judite para ela me contar mais sobre esses documentos.

CFM - Moçambique  Pavilhão da Polana

Esta noite foi deveras longa para Alfredo. Esta mala de documentos trazida de casa da irmã é um verdadeiro assalto à sua mente fascinada pelo percurso do seu ascendente Donald Mackenzie.
Nestes documentos estão incluídos alguns estudos de antropologia da Universidade de Cambridge, estudos de linguística da origem e evolução dos povos em vários pontos do globo, relatos sobre a febre do ouro e a corrida aos diamantes, relatórios de viagens empreendidas à Somália, expedições à região dos Grandes Lagos africanos com a descrição das maravilhas do lago Tanganica e a procura de respostas sobre os povos aborígenes da Austrália e Papua Nova Guiné, que o levaram a radicar-se na Oceania.
Os dias que se seguem são de pura febre para Alfredo que se encontra fechado no seu quarto afundado nos manuscritos do avô Donald. Uma febre interrompida na manhã seguinte com uma conversa telefónica de longa distância com a irmã Judite que lhe conta mais uns pormenores sobre os achados no arquivo do avô Donald.
Trata-se desta vez de um vasto conjunto de documentos sobre as experiências e descobertas vividas na região austral do continente africano. Mais precisamente da região do Grande Zimbabwe.
Uma ideia persiste nesta mente agitada. Recuperar esses documentos através de alguém de confiança que venha para estas partes do mundo e os possa trazer.

Ponta do Ouro+Leong

Praca_do_museu   Fortaleza

Com o regresso de Joaquim Souza Campos a casa e durante o habitual jantar de sexta feira em que são igualmente convidados Fiona, Tom e os infantes, Alfredo tem algo a anunciar à sua família.
Com um ar firme este jovem pede a atenção de todos dizendo:
-Tenho pensado muito no que fazer da minha vida. A leitura dos textos deixados pelo avô Donald invadiram-me a mente e reforçaram uma ideia que, como todos sabem, alimenta o meu imaginário e me faz vibrar há alguns anos. A carreira do avô Donald.
-Sim, isso é visível para todos nós! e daí, filho? pergunta o pai Joaquim curioso.
-Sei que os avós Donald e Rebecca deixaram uma herança para um dia seguirmos uma formação académica. A Judite e a Fiona tiraram bom proveito desse bónus. Agora que conclui os meus estudos secundários aqui em Moçambique, chegou a hora de eu seguir também o meu caminho.
Margareth, sabendo o que vai na mente agitada do filho, avança com uma pergunta cuja resposta é mais do que previsível.
-E o que tens em mente, filho?
– Quero seguir uma carreira de antropólogo como o fez o avô Donald.
-Sabes que em Moçambique não há esse curso, certo? Pergunta desta vez o pai Joaquim.
-Sim, eu sei…tenho falado com alguns colegas que estudam na Rodésia e me disseram que este curso pode ser tirado lá na Universidade de Salisbury.
Após algum silêncio que retrata alguma surpresa nos presentes e perante uma troca de olhares entre Joaquim e Margareth, esta diz ao filho.
-Como sabes, a qualidade da tua formação é importante para o teu futuro. E tens informações sobre essa Universidade? O nosso amigo Richard Cleveland tem um filho a estudar na Rodésia. Podemos falar com ele e saber mais informações.
-Já escrevi para lá para saber detalhes e a resposta que recebi é interessante. Esta faculdade tem fortes ligações com a Universidade de Cambridge onde o avô Donald estudou quando tinha a minha idade. Tenho indicadores que apontam este curso como sério. O que preciso de saber com vocês é o que acham dos custos desta minha formação tirada na Rodésia. O conjunto das minhas despesas mensais onde estarão incluídas as mensalidades da Universidade, deslocações entre Salisbury e Lourenço Marques, bem como  o alojamento representam uma soma que não é muito simpática.
-E tens alguma informação aproximada dos custos de tudo isso? Pergunta o pai Joaquim demonstrando particular interesse no tema.
-Sim, tenho aqui um estudo que tenho estado a elaborar com esse meu amigo que está lá a estudar. Tenho aqui esse estudo. Diz Alfredo levantando-se e retirando uns documentos de uma bolsa em cima do sofá. Um estudo de custos e a resposta da faculdade.

Rhodes University
-Deixas-me isto para eu olhar mais logo, filho?
-Yes, dad! Se for para avançar, tenho três semanas para enviar a minha candidatura.
Margareth, vendo o entusiasmo do filho e o fervor que corre nas suas veias, vêm-lhe ao pensamento uma emoção antiga. A memória deste mesmo fervor que movera durante uma vida o seu próprio pai. Na sequência desta visão, diz ao filho:
-Alf, dear! como sabes, os avós deixaram um fundo para a vossa formação académica. Esse fundo está num banco em Queensland (Austrália). Podemos pedir a transferência dos valores que forem necessários para cumprires este teu desejo. E se tudo isto correr bem, quando achas que irás para Salisbury?
-Dentro de mês e meio, mum!…terei que ver entretanto onde vou ficar alojado.
Por último, o pai Joaquim depois de ler nos olhos de Margareth alguns sinais de tristeza por ver o caçula da casa ganhar asas, entende dizer o seguinte:
-É claro que todos desejamos que sigas o teu caminho, filho. Não deixa de ser verdade que nos habituámos à tua presença entre nós. Mas a vida é assim. Lembro-me que a minha partida para Londres para estudar engenharia não foi um dia de festa lá em casa. Well!…Vou olhar com mais calma para os papéis que me deixaste e voltamos a falar em breve, ok?
Com um certo brilho nos olhos e o sorriso cúmplice de Fiona, este jovem entusiasmo com a ideia remata com uma frase curta.
-Thanks, dad….thanks, mum!
-Agora diz lá a todos nós…esta tua ideia de estudar na Rodésia tem algo a ver com o facto do teu avô ter deixado de nos dar notícias neste país? Pergunta Joaquim com ar curioso.
-Vocês todos sabem que não conheci o avô Donald, mas tenho uma enorme curiosidade e admiração pelo que ele fez ao longo da vida. Quem sabe um dia saberemos o que aconteceu ao avô! Conclui este jovem lendo no olhar da mãe sinais de uma certa tristeza.
-Humm!….filho!…já lá vão tantos anos. Conclui esta senhora acariciando a face deste jovem.
– Bom, a companhia está boa, mas tenho que ir. Há uma festa no Grémio hoje há noite e miúdas giras não vão faltar. Posso levar o teu carro, mãe?
-Yes, darling! Be wise, will you?
A noite de farra promete ser das boas neste conhecido clube da capital, sendo o ritmo preenchido pelo impacto sonoro dos Inflexos.
Este grupo, portador de um estilo naturalmente influenciado por um movimento musical em escala global impulsionado pelos Beatles, deu há pouco os seus primeiros passos na música pop e rock, sendo uma das bandas de revelação em território moçambicano. Terra onde não faltam adeptos do rock com especial influência da vizinha África do Sul, por onde entram as correntes oriundas de Inglaterra e Estados Unidos e onde os grupos de Moçambique encontram condições excepcionais para gravar os seus Long play.
Deste país vizinho emergem alguns nomes sonantes, como The Bats, The A-Cads, The Invaders etc, tendo exportado para o mundo muita gente de peso como Manfred Mann, Johnny Kongos, Sharon Tandy e o famoso produtor Frank Fenter.

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Na verdade, as bandas de Moçambique só podem contar com os recursos limitados dos estúdios locais e com uma deficiente distribuição. Face às inúmeras dificuldades do mercado moçambicano, os artistas locais encontram assim um bom apoio na estrutura dos estúdios sul-africanos que, à revelia de um establishment racista e ultra-conservador (Apharteid), investem forte no rock’n’roll, propagando de forma expressiva os ecos da música negra norte-americana e os últimos hits do Reino Unido.
Segundo as notícias que correm no meio musical da capital, os “Inflexos” preparam o lançamento de um primeiro LP para breve.
Alfredo, depois de tomar um belo duche nos seus aposentos, veste uma das suas camisas cintadas com gola comprida e um par de calças de boca de sino, peças de vestuário muito em voga em Moçambique. Calçando uns sapatos de bom couro e passado um pente na cabeleira loira, é tempo de lançar sobre o espelho um olhar matador…impecável! pensa Alfredo, olhando aquela figura que se parece incontornavelmente com ele.
O circuito de sua casa até ao Grémio é relativamente curto e ao chegar ao parqueamento desta associação, Alfredo compreende pelo número de carros ali estacionados que a adesão ao evento é boa.
O denominado Grémio é fruto de uma iniciativa dos antigos estudantes de Coimbra em Portugal, tendo recentemente dinamizado a criação deste clube de cariz intelectual e recreativo em paredes meias com às suas instalações originais na capital, situada no final do bairro da Sommerschield frente à baía do Espírito Santo.
Ao entrar no recinto desta associação, Alfredo sente a animação que já se respira no local.
Um grande som preenche o espaço e Alfredo está impressionado com a descoberta deste grupo musical emergente.

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Entrando e passando pelos seguranças que o conhecem desde há muito, Alfredo vai navegando entre os presentes na sua grande maioria jovens como ele e, acenando a alguns deles, encontra numa ala da sala de espectáculos o seu grupo habitual.
-Olha o Alfredo!…dispara uma voz feminina que encontra eco nos restantes amigos ali presentes.
Entusiasmado com o ambiente e por este encontro com os colegas, Alfredo, usando os seus melhores decibéis vocais responde:
-Oi gente! grande ambiente, hein?….então são estes os Inflexos?….Uauuuu!…isto promete!
Uma outra entusiasta que se encontra sensualmente sentada num cadeirão e de copo na mão confirma.
-Acho que são o máximo!…temos noite pela frente!
Fazendo sinal a todos, Alfredo vai na direcção do bar para recorrer ao natural drink que acompanha o calor da noite moçambicana.
Neste percurso perto da zona de dança onde o ambiente está ao rubro, cruza um amigo e colega do Liceu Salazar que cumprimenta calorosamente, sendo a fala ao ouvido a única forma de comunicação naquele ambiente sonoro e estridente.
-Vou ali buscar um drink e já falo contigo!….estás onde?
-Isso, saca o teu drink e vem ter connosco à piscina lá fora. Aqui só dá para falar aos berros.

Esta noite no Grémio dos estudantes será memorável ao som deste grupo emergente que convence e com o convívio entre amigos e ao sabor dos Whiskey, Gin tónico e as cervejas “Laurentina” e “2M” que são um excelente motor para a expressão e irreverência de uma juventude embalada no regime conservador da Província de Moçambique.
No calor da dança entre Rock, o Twist e o Yé-yé há igualmente lugar aos slows que os jovens adultos aproveitam para dançar com algumas das mais belas mulheres da sala.
No intervalo de actuação da banda, Alfredo vê a sua emoção subir quando convida para dançar uma miúda lindíssima que já vira dias antes no cinema Manuel Rodrigues, na baixa da cidade.
Trata-se de um momento especial ao som do grupo britânico Procol Harum com uma faixa recentemente lançada e que já tem um enorme sucesso denominado A whiter shade of pale…esta faixa mexe com os corações e sobretudo com as feromonas de uma juventude em ascensão….segura-te, Alfredo!
Grandes noites de Lourenço Marques!
São 4h da madrugada. O ambiente está quente e os ânimos agitam-se no calor desta noite tropical que a capital oferece frente à esta fabulosa baía.

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Mas no espírito do jovem Alfredo paira um outro objectivo. A continuação da leitura dos manuscritos do avô Donald.
Com o regresso a casa sem incidentes este jovem, apesar de algo transtornado com o calor da festa e alguns copos a mais, dá asas ao seu desejo dedicando-se à leitura dos manuscritos do avô Donald até ao raiar de um novo dia.
Tarefa apenas perturbada por um pernilongo que se introduziu estrategicamente dentro do quarto e cuja caça deu algum trabalho. Este Anopheles voador (mosquito) capitulou finalmente durante um voo mal calculado em torno do ouvido do nosso Alfredo.
E já o dia vai clareando quando este espírito irrequieto se rende ao limbo.
Com um fechar de olhos, um novo dia sucede a uma noite agitada. E a vida continua.

 

 

2 comentários

2 thoughts on “Despertar

  1. Maria Teresa.Barbosa.

    Clara e excelente prosa que nos transporta ao mundo civilizado das primeiras décadas do século vinte,que apesar-da ditadura que nos foi imposta durante 48 anos há que reconhecer ,que nem tudo foi negativo.
    Aguardo, como sempre com muito interesse a continuação de tão bela narrativa.Saudações amigas da M Teresa

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    • Olá Maria Teresa!…As suas palavras chegam sempre como um elixir!…a saga continua em solo africano…sem perder de vista a influência inglesa desta região do continente negro!…com um forte abraço!

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