A encruzilhada biliar

A encruzilhada biliar

Parte 1 – O renascimento de Phoenix

Escudo-Ecuador 2

27 de Junho de 1974 – Entrada na Republica del Ecuador.

Cumpridas as operações de controle de passaportes, tive direito apenas a 15 dias de estadia neste país, contrastando com os 90 oferecidos pelo Perú.
Será pela dimensão reduzida do país? Ou serão menos dependentes do turismo?
É o que há!…vamos em frente.
Nesta estrada até Guayaquil já se nota a predominância de uma cultura bem típica deste país…a produção em grande escala de banana que é exportada para o mundo inteiro.
Segundo me conta este meu companheiro de estrada, Guayaquil é um dos principais portos da América do Sul no Pacífico. Aqui o clima é quente no primeiro semestre do ano e sopra uma brisa fresca para o restante período anual. Esta é uma cidade tropical, orgulhosa pela sua geografia e pelo seu clima, onde os estrangeiros são bem recebidos, onde a música e frutos do mar são um ícone.
Na última década, esta cidade passou por uma mudança positiva mantendo um olhar promissor sobre um futuro de desenvolvimento.
Curioso com esta descrição, quero saber um pouco mais, perguntando:
-Al largo de Guayaquil hay las islas Galápagos que me gustaría mucho visitar.
Ao que entusiasticamente me responde:
-Las Islas Galápagos son una provincia del Ecuador, formado por un pequeño archipiélago en el Océano Pacífico. Islas remotas que quedan a unos 1000 km de la costa de Ecuador.
-Tanto?…las creía más cerca de Guayaquil! Respondo surpreso.
-Las Galápagos se componen de 13 islas principales y seis más pequeñas, distribuidos en tres cantones. Juntas miden unos 50.000 km2. Usted tiene transporte marítimo para hacer una visita al este archipiélago a partir de Guayaquil.
-Bien! Gracias por esta información. Concluo, dizendo a mim próprio. No estado de saúde em que me encontro e sem plata para percorrer uma tão grande distância, desconfio que este será um sonho desconseguido…

Chegados ao nosso destino e a meu pedido, este companheiro de quem me despeço calorosamente, deixa-me a uma quadra do Corpo de Bombeiros num bairro denominado de Malecón.
Este meu pedido tem uma razão de ser. Sinto-me francamente sem energia para andar por aí e a ideia de pedir guarida aos soldados da Paz parece-me a melhor ideia que posso ter.
-Bien, gringo! Usted no esta en buena forma, hombre…está muy amarillo!…hay que cuidarse, la salud acima de todo, vale?
-Si, ya lo se!…Muchissimas gracias y mucha suerte! Digo ao sair penosamente deste camião.
Como uma estrela a brilhar no céu, a resposta dos bombeiros ao meu pedido foi positiva. Por aqui ficarei o resto da tarde e esta noite, tendo em mente procurar uma solução para a minha situação de saúde que começa a ser crítica. Para me alimentar, apenas comi uma peça de fruta e um pedaço de pão. Não há apetite para mais.
A minha noite foi deveras inconstante. Ao passar pelos sanitários desta instalação pude ver-me ao espelho. A minha cor de pele tornou-me amarela e sentia agora enjoos quase permanentes. Estou definitivamente doente e amanhã terei que fazer algo por mim.
Para agravar o meu quadro, sentia também que o meu combate com as criaturas invasoras do meu couro cabeludo não tinha chegado ao fim…as lêndeas produziram novos habitantes indesejáveis!…isto está lindo, Francisco!
Dormir neste turbilhão de pensamentos não é tarefa fácil, fenómeno agravado pelos movimentos desta unidade de Bombeiros..só de madrugada entrei no limbo, abandonando por umas horas o meu consciente deveras perturbado com a minha condição.

Um voo em tons de amarelo

Novo dia em Guayaquil. Fui gentilmente presenteado por uma caneca de café com leite e um sanduiche oferecido pelos bombeiros que devem ter compreendido que eu não estou nada bem. Agradeci e fiz um esforço para comer…e a custo lá bebi dois golos do café com leite e metade da sanduiche…se não comer, pior será.
A grande questão coloca-se agora. O que vou fazer da minha vida?
Tentar vender os meus artigos implica ir procurar o local adequado. Não tenho energia para isso…resta-me talvez deambular um pouco aqui por perto e ver se vendo umas peças a quem passa. Vai, Francisco!…está difícil estar de pé, mas vamos a isso!
No meu percurso deveras penoso vou olhando para alguns edifícios onde vejo escrito – Consultório médico. No meu pensamento baila uma vontade de subir as escadas e entrar nestes consultórios para pedir ajuda…hesito, pois acho que não conseguirei subir aquelas escadas… e continuo.
Mais à frente vejo outro consultório e a mesma vontade me invade o espírito. Sinto que estou a entrar num estado que é um misto de total desalento e um pânico azul de não saber o que tenho. Apenas sei que estou a ficar gravemente doente.
Às pessoas que vão passando vou propondo a venda de alguns colares que trago comigo e uns quantos batiks de pequena dimensão sobre o braço. A sorte não parece estar a sorrir.
Mas para me manter vivo e tentar uma qualquer ajuda clínica vou precisar de um mínimo de dinheiro. Esta é uma realidade dura e crua.
Entendi chegada a altura de, pela primeira vez na minha vida, por em prática algo de aterrador. Pedir diretamente dinheiro às pessoas que passam. O surrealismo da situação a que cheguei ultrapassa os valores nos quais se baseia a minha educação e a minha formação humana. Tenho vinte anos, estou a milhares de quilómetros de casa, encontro-me sozinho e só me resta uma alternativa. Receber a solidariedade de alguém.
Sinto por instantes que a vida me abandona e que tudo vai na direção do fim. De um fim sem esperança.
Mas por vezes o universo conspira. Como uma força de atração espelhada no meu olhar, cruzo mais adiante um cavalheiro de média estatura a quem proponho a venda dos meus artigos dizendo que preciso de comer.
Este cidadão bem parecido pára e olhando para mim, diz-me algo que guardarei na memória para o resto da minha vida:
-Gringo!…estás enfermo!…ven conmigo!
-Si, ya lo sé, señor!…es que llegé ayer…estoy solo y no conozco la ciudad.
-Tranquilo, gringo!…ven conmigo!…te llevaré a un lugar para que cuiden de usted!
Como uma mensagem caída do céu e música nos meus ouvidos, respondo a este cidadão:
-Tengo que ir a buscar mi mochila que dejé a una cuadra de aquí. En los bomberos de Malecón.
-Bueno! Pues allí nos bamos a buscar tu mochila!
Com enormes dificuldades em andar, lá chegámos às instalações dos bombeiros, onde este meu interlocutor trocou umas palavras com estes soldados da paz sem que eu tivesse percebido o teor das mesmas…também já não importa!…já estou para tudo!

Guayaquil 1   Guayaquil 2
Entramos passados momentos num taxi que nos levou em direção a um destino desconhecido, mas com sabor a céu…emocionado, senti que a minha jovem vida de 20 anos acabara de ser presenteada com uma segunda chance.
Passados uns bons vinte minutos deste sinuoso percurso citadino, damos entrada no interior de uma propriedade com bonitos jardins onde ao fundo se encontra um edifício grande em tons de azul claro de cariz marcadamente colonial.

Hospital Luis Vernaza
Na fachada principal pode ler-se – Hospital Luis Vernaza. Uma descrição que entrou pelos meus olhos amarelos como um raio de luz ao amanhecer.
Subindo a custo uma pequena escadaria e ajudado pelo meu companheiro de fortuna que carrega a minha mochila e o meu violão, damos entrada num amplo átrio, dirigindo-nos a uma outra ala lateral onde se encontra muita gente.
Passado instantes e depois de uma curta conversa deste cidadão com uma enfermeira de serviço, fui conduzido a uma zona onde estão formadas duas filas. Uma mais longa onde estão supostamente os doentes à espera de ser atendidos e uma outra mais ao lado com poucas pessoas que corresponderá a um regime de atendimento diferenciado…talvez aqui seja para o povo assistido pelo serviço nacional de saúde e ali para quem paga…deixei-me estar imóvel..com vontade de me sentar no chão…e sem mais forças para estar de pé, deixei-me sentar curvado de dores no chão.
O meu anjo da guarda, após nova conversa com a mesma enfermeira, chega-se a mim dizendo-me:
-Gringo…estás muy enfermo!…aquí cuidarán de ti…que tengas mucha suerte y sobretodo salud!…vaya con Diós!
-Como podré agradecerle esta asistencia divina? Pergunto emocionado a este homem.
-Gringo…Ecuador es un país solidario…cuida-te, hombre…esto es para ti. Responde-me este homem, colocando no meu bolso una nota de 100 sucres (moeda do Ecuador).
Seguido a um forte abraço e com as lágrimas nos olhos, vejo este homem afastar-se…a quem nem perguntei o nome. Mais uma imensa lição de vida.
Agora estou entregue ao meu novo destino. Como não me aguento em pé, sento-me novamente no chão tentando esconder as minha dores abdominais que já são insuportáveis.
A tal enfermeira, mulher dos seus 30 anos de idade, morena e muito bonita com uns expressivos olhos escuros, passa por mim, deitando-me um olhar especial, talvez por eu ser um estrangeiro ali sentado no chão numa condição pouco abonatória.
Passado uns 5 ou 10 minutos, aproxima-se de mim dizendo-me:
-Gringo!…estás sufriendo, si?…ven conmigo!…diz-me esta alma caridosa pegando-me no braço e ajudando-me a levantar.
Percorridos uns 40 metros com as dificuldades próprias da minha condição crítica, dou entrada num consultório onde está um cavalheiro (supostamente um médico) sentado que escreve sobre uma mesa.
A enfermeira interpela-o dizendo:
-Doctor…aquí está el gringo de que le hablé hace momentos.
Este homem bem parecido de cabelo grisalho e senhor de uns cinquenta e tal anos, passado momentos interrompe a sua escrita, levanta a cabeça e, olhando para mim por cima dos óculos, diz numa voz sábia e clara.
-Hummm! Hepatitis!
Neste precioso momento, em que as emoções fortes se misturam com uma sensação de alívio, no meu horizonte interno abre-se um raio de luz…estou enfim a ser clinicamente assistido ….a emoção é imensa!
-Acomode-se por favor! pede-me este médico, apontando uma cadeira à sua frente, perguntando-me de seguida:
-Usted esta viajando en Ecuador?…llegó a Guayaquil hace cuanto tiempo?
-Llegué ayer venido del Perú.
-Hummm…y diga-me de onde viene usted? ..cual es su país?
-Yo vengo de Mozambique en la costa oriental de África.
Com os olhos arregalados, este médico sorri e diz-me em seguida.
-Que raro!…veo que usted está bien lejos de su casa!…tendrá que quedarse por aquí con nosotros pues tiene que curarse de una enfermedad agravada en su hígado…una hepatitis.
La señorita le acampanará para empezarnos de inmediato su tratamiento. Ella necesitará naturalmente de su documentación para poceder a su internamiento . Diz então este médico passando para a mão da enfermeira um documento que acaba de assinar.
Emocionado respondo:
-Muchisimas gracias, Doctor.
Concluída esta conversa introdutória com este simpático médico, devo aguardar sentado numa cadeira fora do consultório.
Passados uns dez longos minutos e dado o meu estado de debilidade física, sou conduzido junto com a minha bagagem numa cadeira de rodas, pela mão desta preciosa enfermeira, a uma ala fora deste edifício principal, atravessando uns jardins muito bem cuidados…que hospital imenso…pensei!
Ao chegar a esta nova ala, posso ler à entrada Sala Julien Colonel. Este seria um novo universo onde acabo de entrar.
Trata-se de uma ala bem grande onde estarão seguramente umas 80 camas de um lado e de outro. Tive aqui um desagradável flashback…aquela visita no ano passado ao Hospital militar em Lourenço Marques…no meio desta invasão do meu espírito e algo atordoado com o que está a acontecer-me, sou conduzido à cama N.º 15.

À conversa com o fígado
Após uma breve conversa com uma outra enfermeira que entretanto acabara de finalizar alguns preparativos para a minha chegada, esta informa-me que devo primeiro que tudo tomar um banho nos sanitários ao fundo da enfermaria. Sabendo que estou com dificuldades em andar, sou informado que serei acompanhado por um assistente para este efeito.
No sentido de esclarecer outro aspeto particular da minha condição, informei que estava a debater-me com uma invasão capilar de piolhos, ao que esta enfermeira, franzindo o sobrolho, chama alguém a quem dá umas instruções.
Passados alguns minutos, aproxima-se de mim um moreno com um farto bigode e barriga algo pronunciada que me diz com um ar bem disposto.
-Hola, gringo!…yo soy Pablo…bienvenido a Julian Colonel. Usted va a utilisar este producto cada ves que se va a bañar….esto reglará su problema en el pelo…lo que vamos a tratar desde luego es su condición del hígado que es algo más grave…de acuerdo?
-Mucho placer, Pablo!…yo me llamo Chico y vengo de muy lejos de aquí…vengo de África!
-Africa!…exclama este assistente de aspeto mexicano….pero usted no es moreno, hombre!
A risada não foi amarela porque amarelo já eu estou…de alto a baixo…nem me quero ver ao espelho….vou seguramente fugir de mim próprio!
-Vamos, hombre, a tomar su baño y vamos de inmediato empezar su tratamiento. Conclui o simpático Pablo empurrando-me na cadeira de rodas até aos sanitários ao fundo.
Este banho que a custo tomei sozinho, soube-me a céu apesar das condições críticas em que me encontro. Estar de pé é uma verdadeira tortura, as náuseas são permanentes e esta sensação de enjoo uma constante…damn…nunca me senti tão mal na minha vida!
Há outro aspeto deste banho, que me dá um certo prazer…com a aplicação do tal produto capilar, pude ver estes piolhos de merda a fugir em debandada…agora em ambiente hospitalar é que vamos ver quem fala mais alto, seus cabrones…pensei para comigo.
Uma vez concluída esta minha higiene, vestido o meu pijama às listas azuis e brancas e deitado na minha nova cama, iniciei de imediato o meu tratamento com a extração de amostras de sangue, controle da febre, e tensão arterial seguida de uma perfusão na veia do braço esquerdo de um líquido (garrafa de 1 litro) menos amarelo do que eu.

29 de Junho de 1974 – Internamento hospitalar

Luis Vernaza 2   Luis Vernaza 4

Francisco…tens pela frente uma nova etapa na América latina…adelante!

A minha prostração nesta cama neste primeiro dia é total…a energia sumiu do meu ser e só conheço uma posição…deitado nesta cama onde passeio os meus olhos pelos movimentos dentro desta imensa enfermaria, seguindo das conversas das enfermeiras e que vão fazendo com os outros doentes…e a atividade de alguns médicos que também por cá passam. O resto do tempo…é dormir, dormir, dormir. O que não está mal visto, pois o maior segredo da cura desta minha doença é, conforme me informou a enfermeira que me colocou a perfusão, a maior imobilidade possível.
Aqui o movimento, como na grande maioria dos hospitais, começa com o dia a clarear…depois das 6 h da manhã já há movimentos dentro desta ala, sendo as primeiras atividades as operações de limpeza.
Ouvi de noite vários lamentos…uns de dor, outros de senilidade talvez…outros ainda de protesto.
Ao meu lado está um fulano já de idade que está em estado grave…uiva de noite e tem um respirar cavado…não foi propriamente uma ária de Chopin escutar o sofrimento deste desgraçado.

Esta manhã, trocando umas impressões com o tal de Pablo, compreendi que este hospital que é um dos maiores do Equador, é do Estado, financiado pela Junta de Beneficencia de Guayaquil e apoiado pela igreja católica, contando com a participação ativa de uma irmandade de freiras muitas das quais fazem aqui uma função social e de assistência aos doentes. Algumas delas circulam por aqui garantindo os momentos religiosos (rezas) antes de cada refeição principal…enfim! O ambiente é católico e tenho que me adaptar a estes cenários.
Compreendi igualmente que estas garrafas de soro com a medicação adequada à minha doença me serão administradas uma de manhã e outra pela tarde, sendo frequente a passagem de enfermeiras para verificar o bom funcionamento da prefusão e controlar a minha temperatura e tensão arterial. Estou em ótimas mãos…penso aliviado e extremamente agradecido.
Neste primeiro dia fui dispensado de tomar banho e de comer. Apenas saio da cama para levar comigo a minha medicação de pé alto e uma cadeira de rodas ir ao banheiro fazer as minha necessidades. As minhas fezes mantêm-se de cor clara e a urina muito escura. Há que ter paciência e esperar as melhoras do meu quadro clínico.
Com a chegada da noite, o quadro do meu vizinho da cama 16 agrava-se. Esta foi uma noite de inferno dado que o coitado entre gemidos, delírios e enormes dificuldades de respiração deixa-me poucas hipóteses de dormir…não está fácil!
Já de madrugada e quando finalmente tento dormir um pedaço este homem dá um suspiro prolongado, tendo de seguida acalmado a sua agitação.
Só passados momentos com um certo alvoroço dos enfermeiros à volta dele e a passagem de um lençol branco sobre o seu corpo, compreendi que tinha partido para as grandes pradarias de caça!
Episódio que não deixou de me impressionar, pois assisti ao vivo e a cores durante toda a noite como a alma deste homem se desprendeu do corpo físico…que descanse em paz!
Ninguém merece sofrer deste jeito antes de partir para a grande viagem…mas é assim o mistério da vida!
Retirado o corpo em presença de alguns familiares chorosos, de imediato esta cama foi sujeita a total reciclagem e desinfeção.
Da parte da tarde, a cama 16 já tem um novo inquilino…desta vez um homem dos seus trinta anos com problemas de circulação que terá que ser operado a umas varizes feias que trás em ambas as pernas….cada um com as suas…pensei!

E assim se passam os meus primeiros dias na sala Julien Colonel.
Já me sinto mais em forma e já vou ao reservado sem necessitar da cadeira de rodas, tomando o meu banho sozinho e começando a comer alguns sólidos que me dão a hora de almoço e do jantar…há dentro de mim uma nova voz que me diz…Francisco….estás no bom caminho…um novo sorriso me acompanha.
Um dos acontecimentos curiosos neste hospital, dá-se quando somos visitados por um conjunto de estudantes de medicina acompanhados do respetivo prof que percorre esta ala, apresentando os diferentes casos clínicos e colocando perguntas aos alunos.
Ao chegar a mim, sinto que sou alvo de alguma particular atenção. Facto que não me deixa propriamente à vontade…no meu imaginário, ao ver aproximar este grupo de jovens estudantes (homens e mulheres) da minha cama, dá-me a sensação que vou ser alvo de uma visita ao jardim zoológico…imaginando este quadro:
-Então aqui temos um espécimen oriundo da África austral com algumas características que vocês já puderam verificar no compêndio de história natural…com todos os traços de um australopiteco do paleolítico inferior, com uma acentuada juba capilar e esta tonalidade amarelada muito típica desta raça!…cala-te, Chico!
Ao contrario!…além de se interessarem pelo meu estado físico e pelo tratamento que está a ser administrado, também querem saber de onde venho, qual a minha história, etc…a mim até me dá gozo estar ali com estas guapas de bata branca…o prof é que não vai na conversa!

Luis Vernaza 3   Luis Vernaza 5
Continuo muito pálido, mas menos amarelo, havendo aqui um certo indicador de melhoras do meu estado geral. Já tomo o meu desayuno hospitalar e sinto que já começo a ter algum apetite quando chega o almoço e o jantar….bom sinal.
Tenho tido uma outra constatação que me dá um certo prazer…com o tratamento capilar que estou a fazer terminaram as comichões na cabeça e acho que aqueles merdas capitularam perante a superioridade do exército nacionalista…boa notícia e uma nova paz de espírito para mim.
Ainda falando de temas capilares, conheci entretanto um cavalheiro brincalhão e bem disposto que sempre vem ter comigo para uma investida sistematicamente desconseguida…o barbeiro do hospital.
Eu, na minha qualidade do mais barbudo e cabeludo da sala Julien Colonel, sou um alvo bastante apetecível para este cavalheiro . As tesouras que este barbeiro tráz dentro de numa bolsa a tiracolo, quando se aproxima de mim começam a agitar-se freneticamente.
-Entonces gringo?…bamos al pelo?
A minha cara é sempre a mesma e depois de me perguntar se estou melhor, lá vai ele fornecer os serviços dele para outros enfermos. Não deixa de ser um tipo muito divertido!

Tendo completado 5 dias no Hospital Luis Venaza, aproveito algumas horas do meu dia para colocar em dia as minhas notas do Road book. Uma excelente oportunidade que tenho efetivamente aproveitado, organizando e desenvolvendo os tópicos que fui registando neste meu caderno, desde a minha chegada a este continente americano.
Com a recuperação de algum peso e do meu apetite, sinto que estou gradualmente a voltar a mim.
A minha medicação começou a ser reduzida também. Já só tomo uma garrafa de prefusão por dia e as minhas análises de sangue são indicadoras que o meu fígado está a reagir bem…a minha alegria perante estes indicadores é naturalmente vivida com enorme emoção.
Durante o dia e sobretudo às horas de sol, já saio um pouco para o jardim onde vou trocando umas prosas com alguns doentes com quem entretanto abri portas para uma amizade circunstancial. E como sabe bem este sol!
Outra cena que se tornou caricata nesta enfermaria foi o facto da Madre superiora ter notado que eu não acompanho as rezas antes de cada refeição.
Em regra, os doentes põem em prática estas rezas, tendo de seguida a refeição à sua espera.
Talvez para testar o grau da minha fé católica, esta freira baixinha e com ar austero, resolveu um dia conduzir estas rezas próximo de mim. Em frente à minha cama!
-Gringo!…reza conmigo!…en nombre del Padre, del hijo y del Espirito Santo….Amen!
Vendo que eu não colaborava, logo insistia a olhar para mim….e começava outra vez!
No meu espírito existia uma resistência natural a esta evangelização, lembrando-me de uma cena que aconteceu em Moçambique com o Padre Pinheiro que me deu a primeira aula de religião e moral no Liceu Salazar. Lembro-me de chegar a casa, onde recebera uma educação deveras liberal no capítulo religioso, extremamente confuso perguntando aos meus pais:
-Mas afinal aquilo que vocês nos disseram toda a vida, o Sr. Padre hoje veio dizer isto…e aquilo…
Sem hesitação o pai Nuno pega numa folha branca sobre a qual escreveu:
A partir de hoje o meu filho Francisco Jorge Lourenço da Cunha está dispensado das aulas de Religião e Moral…sem direito a discussão.
Apesar daquela insistência, a Madre superiora não tem qualquer hipótese com este australopiteco.

Ai gringo
Ao fim de uma semana neste internamento hospitalar dá-se um outro episódio deveras interessante.
A hora das visitas dos doentes sempre me deixava alguma nostalgia embora já houvesse familiares de outros doentes que passavam para conversar comigo e saber como estava a minha condição clínica. Momentos que sempre levam o meu pensamento até minha casa em Moçambique, sabendo de antemão que os meus pais não tem a mais pequena ideia do me me aconteceu nestas últimas semanas. E ainda bem!
Mas este dia foi diferente. Entra na sala Julien Colonel o meu companheiro de estradas poeirentas Nuno Quadros que em alto e bom som me diz:
-Chicão!…mas que vida é a nossa…num hotel de 5 estrelas e não dizias nada aqui ao teu camarada?
-Nuno!….exclamo eu trocando um sentido abraço com este meu companheiro de aventura.
-Então mé irmão?…lá teve que ser, né?
-Pois, isto agravou-se seriamente e estava a ver que me ficava aqui no Ecuador.
-Qual quê, bro!….natural não treme!….mas é verdade!…tu estavas mesmo em baixo de forma em Lima…não te disse nada na altura para não te deixar ainda mais down!….mas diz lá, o que se passa contigo? Pergunta-me o Nuno com curiosidade no olhar.
-Uma bela hapatite!…fui trazido para aqui por um gajo que se cruzou comigo na rua e foi um anjo da guarda que eu encontrei…uma segunda chance na vida!…entre nós, mano velho!…por momentos julguei que desta eu não escapava!
-Mas está a correr bem, certo? Diz-me este meu companheiro com um olhar positivo.
-Sim!…já sinto a minha forma voltar gradualmente, já vou comendo melhor e estou a ganhar algum peso também…tenho é os braços todos furados destas cenas que eles me metem na veia….fazer o quê?…aguentar!
-Eu fui aos Bombeiros em Guayaquil como combinámos!…imagina a minha cara quando me disseram que tinhas vindo para o hospital muito doente?
-Pois, eu imagino!…mas finalmente a nossa combinação é perfeita. Digo eu desta vez com alguma satisfação.
-E agora como vai ser contigo? Pergunta-me o Nuno.
-Comigo?…não faço a menor ideia. O Ecuador deu-me apenas 15 dias de estadia…uma semana já foi…não sei quanto tempo ainda vou ficar aqui….mas o que conta agora é curar-me e por-me em forma. O resto logo se vê.
-Eu tive uma enorme bronca para sair do Perú…como ultrapassei o prazo de três meses, quiseram multar-me com um montão de soles. Quando viram que eu era um teso deportaram-me…imagina!
-Que filme!…digo eu surpreendido com esta história….e agora qual é o teu plano?
-Vou seguir até Quito e, se tudo correr bem, entrarei de seguida na Colombia.
-Do meu lado é como tu vês!….estou prisioneiro (no bom sentido!) desta cama…assim que me libertem sigo atrás de ti…se ainda estiveres em Quito ainda nos cruzaremos…senão será mais arriba já na Colombia.
A nossa conversa foi naturalmente embalada com os relatos dos acontecimentos que um e outro vivemos nas últimas semanas. Tema deveras rico de improviso para encher a alma e os ouvidos como sempre.
Concluída esta surpreendente e super agradável visita, despedimo-nos mais esta vez com um forte abraço e com a sólida convicção de um até logo.
-Cuida-te, Chicão!…estás a ficar porreiro!…estou gostar de ver!
-Farei por isso!..cuida-te também, mano!…a gente abana mas não cai!…so long buddy!

Estamos a 10 de Julho de 1974. Já lá vão uns dez dias do meu internamento hospitalar no Ecuador.
Para trás ficaram os dias de grande dureza vividos em Lima e na estrada até entrar neste hospital… e um sonho que ficará por concretizar. A minha tão desejada visita do arquipélago das Galápagos.
O meu amigo barbeiro nas muitas passagens que faz por aqui, e em conversa animada comigo, repara em algo que está por trás da cabeçeira da minha cama hospitalar. O meu violão.
-Super entusiasmado exclama:
-Diga-me gringo!…usted toca la guitarra, hombre?
-Si, respondo com satisfação!
-Pero yo tambien, hombre…toca-te una última gringo!…exclama entusiasmado!
Perante a minha careta e a minha estranheza por um pedido destes neste lugar, é ele que desta feita me pede para ver o violão. Ao que acedi naturalmente.
Este ecuatoreño extravagante e muito bem disposto, saca do violão e arranca com umas tantas do reportório dele ali mesmo em plena enfermaria. Os deuses devem estar loucos!
A festança que este homem produziu foi tal, que começam a juntar-se à volta da minha cama tudo o que é doentes que se conseguiam por-se de pé e andar. Uma cantoria de música del Ecuador como a sala Julien Colonel nunca tivera assistido.
Este momento que durou uns largos minutos foi interrompido quando la passionária (A (Madre superiora) irrompe na sala ladeada por dois assistentes com algum tamanho.
O resultado foi drástico e imediato. Uma bela reprimenda no barbeiro, outra em mim e a guitarra imediatamente confiscada pelas autoridades hospitalares…oh! minha senhora, pensei para os meus botões…com momentos destes, muitos doentes se curavam mais depressa dentro desta unidade.
Rápidamente a ordem foi restaurada no setor, o barbeiro foi posto a andar sem direito a conversa e eu com cara de pau olhei para muitos dos meus companheiros de infortúnio que, com a maior cumplicidade no olhar, me mostraram a sua satisfação por este evento clandestino. Que grande momento hospitalar!

Esto es uno hospital

Com o andar dos dias a minha recuperação já é bem visível, não só no meu aspeto, como na leitura dos meus valores hepáticos, popularmente denominados de cruzes hepáticas.
Já me foi retirada a perfusão intravenosa, sendo agora a minha medicação numa base oral.
As minha veias agradecem.
O meu apetite de há alguns dias para cá passou de tímido a voraz. O desayuno vem a dobrar e as seguintes refeições também, não me importo de comer algo que os meus vizinhos não queiram. Aumentei 14 kg de peso neste espaço de tempo…Yes!
Apanho sol durante algumas horas do dia, o que me ajuda a recuperar um tom de pele mais parecido com as pessoas. A sensação de uma vida nova e da recuperação da minha forma física tem no entanto o seu lado preocupante.
Eu tenho um visto de estadia na Republica del Ecuador de 15 dias. Com este internamento hospitalar irei com certeza ultrapassar esse prazo, o que pode representar um problema com as autoridades fronteiriças.
A este propósito, falei com o meu médico assistente que depois de ouvir as minhas preocupações me diz:
-De su cuadro clínico y de este tema hablaré com mi jefe mañana durante nustras reuniones regulares…Luego lle diré como haremos, vale gringo?
-Te lo agradezco, doctor!
A minha condição física ao fim de 14 dias de internamento é como um regresso à vida.
Sinto-me com força e energia suficiente para o regresso ao meu quotidiano, sabendo por conversas com os médicos e com o meu amigo Pablo que há muitos anos lidam com este tipo de doença, que o fígado é uma grande central de funções no nosso organismo. É um sistema único que uma vez inflamado deve ser tratado com alguns cuidados.
Se anteriormente eu desconhecia de que lado estava o meu fígado, a partir de hoje eu sei muito bem onde se encontra, onde começa e onde acaba.
Dentro deste quadro de cuidados, a alimentação joga igualmente um grande papel, sendo o repouso diário outro factor que contribui fortemente para uma recuperação efetiva.
No meu intimo soava uma voz de alguma preocupação, pois a minha vida errante iria continuar e os meios para conduzir uma alimentação mais cuidada não estavam no meu horizonte. Enfim, aproveitemos o que esta recuperação me oferece e saibamos manter alguma higiene alimentar que tudo estará no seu lugar…concluí!

Neste 15º dia de internamento no Hospital Luis Venaza tive direito a uma deslocação ao gabinete do chefe da equipa médica responsável pelo sector Julien Colonel.
Um médico alto e corpolento com cerca de 50 anos e muito bem parecido que, com um tom de alguma altivez, levanta-se à minha entrada numa sala grande e confortável, dizendo-me:
-Buenos dias señor, Cuña!
-Buenos dias, doctor! Respondo com respeito, cumprimentando-o, bem como o meu médico assistente que se encontra ao seu lado.
-El doctor Suaréz me habló un poco de su caso y a este proposito me gustaria compartir con usted algunas ideas y le informar de unos apectos relacionados com su enfermedad.
-Si, doctor, mucho te lo agradezco. Respondo expectante.
-Tome asiento, por favor. Diz-me cordialmente este médico, sentando-se na sua poltrona executiva em couro de um tom castanho carregado.
-Cuando usted llegou a Luis Vernaza sofria de una inflamacíon agravada de su hígado. Lo que la medicina popularmente classifica de hepatitis del tipo A. Le administramos un tratamiento clássico que hace muchos años que es eficaz para tratar este tipo de enfermedad.
-Si, Doctor. Verdad!…me siento muy bien.
Com um ar sério este médico continua.
-Para su total récuperacíon y ségun el control de la sangre que mantenemos com los enfermos internados, deberíamos guardalo en esta unidad hospitalar por algunos días más. Segun me dijo el Doctor Suarez, usted tiene su visto de permanencia en Ecuador que termina hoy. Quiero decir que no se preocupe com esto, una vez que usted estuvo internado en un hospital Estatal de Ecuador.
-Comprendo doctor! Y como haré para justificar este internamiento junto de las autoridades de la frontera?
– Le portaremos documentacíon necessaria en este sentido. Pero me gustaria le informar un poco más a proposito de su condicíon clinica.
-Si, Doctor. Le agradezco y le escuto com toda attencíon.
-Su condicion necessita la continuacíon de su tratamiento. De esta ves de forma oral que lle forneceremos para tomar durante las próximas dos semanas. Pero hay algo importante que quiero que compreenda tambiém.
-Si, Doctor! Respondo com um ar atento.
-Para su récuperacíon total usted debe querdarse tranquilo durante algunas horas de cada día.
Aparte la medicación que le vamos a fornecer, su reposo físico y una alimentación más cuidada son una parte importante de su cura total.
-Si, comprendo lo que me dice. Ya me han advertido. Así intentare hacer doctor. Finalmente el hígado es lo mio.
– Exactamente, señor Cuña. Quiero finalmente decirle que Ecuador es un país solidario y que sabemos que usted esta muy lejos de su casa. Recibirá una pequeña ayuda monetaria para seguir su viaje en seguridad. Por lo menos durante los próximos días. En nombre d´el Hospital Luis Vernaza le deseo buena salud y mucha suerte.
Cumprimentando estes dois anjos na terra, sinto as lágrimas virem-me aos olhos e com a voz cortada respondo:
-Jamas olvidaré lo que han hecho por mi en esta casa, señores. Muchísimas gracias por esta segunda oportunidad de vida que me han regalado. Muchísimas gracias!
Tempo agora de regressar a esta ala onde vivi duas semanas deveras merecedoras de um lugar de destaque na minha memória nesta passagem alucinante na América latina.
Tendo-me sido devolvido o violão confiscado, entregue a minha medicação oral para as próximas semanas com as devidas instruções, a documentação que devo apresentar na fronteira e um outro envelope com umas notas no total de 300 sucres, é chegada a hora de partir.
Chegada igualmente a hora de me despedir dos doentes com quem convivi durante este período da minha convalescença, desejar-lhes sorte, sobretudo muita saúde e um especial abraço ao meu amigo Pablo e às enfermeiras que foram verdadeiras fadas madrinhas.
Por fim, dirigi-me ao gabinete de alguém que fiz questão de cumprimentar e me despedir pessoalmente. A Madre superiora que olhando para mim com o seu olhar sábio, compreendeu no fundo da sua alma que apesar de não rezar as Avés-Marias, este gringo é finalmente uma boa pessoa.
É com um gesto maternal que esta religiosa encerra a minha mão nas suas duas mãos, olhando-me nos olhos, e dizendo-me:
-Vaya con Dios, gringo!
-Muchísimas gracias por todo, Madre.

O meu percurso até ao portão de saída, atravessando estes jardins tão bem cuidados, foi um trajeto lento, refletido e sem pressa.

Antes de sair para o mundo voltei-me para trás murmurando:
Até um dia meus anjos da guarda!…jamais vos esquecerei!

Muchisimas gracias

Parte II – O condor abre novamente as asas

Novo azimute

Aproveitando o gesto solidário desta instituição hospitalar e para não dar a este corpinho recauchutado logo de inicio, o regresso à dureza da vida errante, entendi como melhor opção apanhar um ónibus em direção à capital do Ecuador. Próximo destino: Quito.
Tempo de deixar a costa deste pequeno país sul-americano, onde abundam as plantações de banana e rumar mais para o interior subindo novamente as montanhas. Tenho uma viagem em de 630 km pela frente…on the road again!
Os meus pensamentos são agora mais leves que aqueles que me atormentavam dias antes de entrar naquele bendito hospital.
O ponto comum é sempre o mesmo. O imprevisto no horizonte…e aqui vamos desta vez a bordo da companhia de transportes PátriaQuito, vamos lá!
A estrada é sinuosa e, ao afastar-me da costa, estou de novo a ganhar alguma altitude. A nossa primeira paragem para esticar as pernas é numa concentração urbana de nome Babahoyo…nome curioso!

Babahoyo 1   Babahoyo 2
Esta pequena cidade situa-se na margem esquerda do rio San Pablo, onde mais a frente se junta ao rio Catarama formando o rio Babahoyo. Água aqui não falta, pensei.
A nossa paragem seguinte dá-se mais à frente numa outra zona urbana de nome Ambato.
A cidade é um centro de comércio e de transporte numa região fértil perto da encosta norte do vulcão Tungurahua. Talvez por esta razão a agricultura aqui tenha um elevado sucesso.
Ao fim deste dia na estrada, é tempo de chegar à capital deste pequeno, mas deveras simpático país da América latina. Quito.
Ao ler um jornal que alguém me emprestou dentro do ônibus, vinha a ler um pouco sobre esta cidade.
Quito, que originalmente se denominava de San Francisco de Quito, é a capital do país e a segunda maior cidade do Ecuador (depois de Guayaquil).

Basilica del Voto Nacional panorama
Situa-se ao norte do Equador a uma altitude de 2 850 m, na bacia do rio Guayllabamba e nas inclinações orientais do Pichincha, um vulcão ativo na cordilheira dos Andes que atinge os 4 794 metros de altitude…humm!…soberbo!
Quito é a segunda cidade importante mais elevada do mundo. Extraordinário tudo isto!.
Outro dado interessante desta cidade é o facto de a meio dela passar a linha imaginária (geo-cartográfica) do Equador.
Em breve passarei para o hemisfério norte do nosso planeta azul. Uma sensação curiosa.
A primeira impressão transmitida por esta cidade é excelente. Está mais frio, o que é natural devido à altitude e algo salta imediatamente à vista. A arquitetura desta cidade. Um verdadeiro deslumbre de traço marcadamente colonial com destaque para a Compañia, que é um soberbo convento lá no alto construído pela Companhia de Jesus de Quito…bela e imponente cidade dos Andes.

Quito 2   Quito 4
Com o pouco dinheiro que tenho e seguindo um pouco as instruções dos médicos, vou aproveitar para me quedar esta noite em Quito num alojamiento popular que encontrei aqui próximo do centro. Não puxar muito por mim, tomar a minha medicação, comer com regularidade e passar as tais horas de descanso recomendadas.
Quanto a estes dois últimos aspetos, vamos ver como posso cumprir com esses requisitos que não são fáceis de gerir numa vida errante como a minha.
No meu espírito paira uma outra preocupação. Chegar quanto antes à fronteira com a Colômbia, visto que oficiosamante me encontro ilegal no Ecuador. Tenho um visto para 15 dias e este é o 17º dia de permanência por aqui. Vamos ver como tudo isto vai funcionar quando chegar à fronteira.
Com o cair da noite, deixada a minha bagagem no alojamiento onde estive deitado a descansar durante um boa hora e pondo algumas notas do meu road book em dia, é tempo de sair para comer algo por aí.
A minha alimentação também não será a mesma a partir daqui. Estou proibido pelos médico de comer fritos, comidas com gorduras e totalmente impedido de tocar em álcool, tendo como auto obrigação tomar a medicação prescrita no hospital. Então vamos lá!
Ao fazer duas quadras e uma vez na zona centro, posso novamente confirmar as belezas desta cidade que me convence pela traço urbanístico. Um deslumbre noturno!
E lá me sentei num restaurante popular onde estive a olhar para o cardápio durante mais tempo do que é costume. Só aqui me dou conta do quanto é restrita a minha nova dieta…não é fácil, Francisco…uma sopa cai sempre bem e depois algo cozido na água, ou grelhado na chapa quente ou no carvão…nada de molhos…sujou, meu caro!…agora é assim!
Ao regressar ao meu parco alojamiento de cidade sou abordado por alguém que estava no hall de entrada à minha chegada neste fim de tarde.
Um homem de aspeto mestiço, bem parecido que me diz:
-Que tal, gringo?…primera vez en Ecuador?…mi nombre es Javier.
-Si, es mi primera visita en Ecuador!…me llamo Chico…respondo de forma simpática apertando a mão a este homem.
-Cuando usted llegó aquí yo pensé. El gringo es músico…y viene de Brasil!
-De Brasil? Pergunto com alguma surpresa no olhar.
-Si, yo he mirado su guitarra brasileña!…a mi me gusta mucho las guitarras brasileñas. Diz-me este caricato cidadão.
-Usted tambien toca guitarra? Pergunto eu desta vez.
Si, hace muchos años que toco guitarra y me gustaría bien tener una guitarra brasileña como la suya…le interesaría me la vender?
Apanhado de total surpresa fico por instantes a olhar para este cavalheiro e a pensar no que acaba de me dizer. Passado momentos respondo.
-Usted es de aquí, Javier? Pergunto-lhe
-Si, trabajo aqui durante el día pero tengo un otro trabajo tocando en los bares de Quito por la noche.
-Hummm…interesante lo que me cuenta. Lo que podremos hacer es lo siguiente. Yo partiré mañana para Colombia. Cuanto a la venta de mi guitarra lo pensaré esta noche.
-Pues pense bien, gringo!…me daría placer comprar su guitarra….volta este entusiasta da música a insistir.
-Vale, mañana le daré mi respuesta.
-De acuerdo, gringo!
Esta noite neste quarto de passagem, dou comigo a olhar para este violão que me liga sentimentalmente à Rose, sendo assaltado por um turbilhão de pensamentos.
Por um lado flutua no meu sentimento o facto da minha querida carioca me ter oferecido este instrumento de alma e coração. Um instrumento que desde os ares inspiradores de Arembepe (Brasil) vem acompanhando as muitas e intermináveis sessões musicais de grande qualidade. Por outro, uma viagem para fazer para a Colômbia amanhã com apenas uns tostões no bolso, sob risco de regressar a uma vida errante, onde o imprevisto de mãos dadas com o risco irão novamente pôr à prova a minha resistência nesta fase de convalescença em que me encontro.
Humm!…A solução não está fácil…neste quarto, deitado e a olhar para este Giannini…os meus olhos estão molhados e o cruzamento de todos estes pensamentos torna muito difícil a minha entrada no limbo. Adormeço finalmente rendido às evidências…a minha sobrevivência fala mais alto. Vou vender o violão!
Neste novo dia na capital do Ecuador e após tomado o meu banho matinal, é tempo de descer com este meu violão indo ao encontro do eventual comprador.
Enchendo o peito de coragem e não olhando para trás, estou passado momentos perante o tal Javier cujo olhar brilha ao ver este brinquedo.
-Buenos dias, me permite, gringo? Pergunta este homem que, pegando neste violão, entoa um par de acordes.
Quem conhece estes instrumentos sabe de imediato identificar os seus pares. Eu estou perante um guitarreiro e disso não ficam dúvidas no ar.
O preço acordado foi razoável. 1 200 sucres. Vamos em frente, Francisco…num ápice uma frase surda atravessa o meu espírito…um pensamento dedicado à minha namorada…sorry, baby!…tem que ser!…sinto que se aqui estivesses, farias como eu!
Na hora da despedida   Quito 5
Disseram-me aqui no alojamiento que havia uma atração interessante para visitar na capital. Um parque temático denominado de Mitad del mundo.
Para ir até lá, informei-me junto de um polícia que me indicou a direção de uma estação de trolleys La Ofélia situada no centro histórico da capital….vamos a isto.
O trolley é um transporte muito típico da cidade de Quito que me faz lembrar Lisboa. Com uma diferença…estes trolleys são de cor vermelha e andam sobre rodas de borracha.

Trolley Quito 1   Trolley Quito 2
A partir desta estação, lá apanhei um ónibus até este parque num circuito citadino muito simpático que leva aproximadamente uma hora.
Parque Mitad del Mundo: Um parque onde supostamente passa a Linha cartográfica do Equador que divide os hemisférios norte e sul. É aqui que toda a gente capta aquela imagem clássica pisando nos dois hemisférios ao mesmo tempo. Como estou só e uma máquina fotográfica é uma das grandes lacunas desta minha viagem ao continente sul-americano, resta-me concluir…não se pode ter tudo, Francisco!
Interessado em saber um pouco mais sobre este tema, fiquei a ouvir um guia que explicava a um grupo como foi feita a determinação exata da posição da linha do Equador.

Charles Marie de la Codamine

Estamos en la zona al norte de la prefectura de la provincia de Pichincha, Ecuador. El parque está situado en la parroquia de San Antonio del Distrito Metropolitano de Quito.
Este lugar ha sido objeto de numerosos estudios tratando de determinar la localización exacta del ecuador.
Los primeros resultados fueron obtenidos a principios del siglo XVIII por Charles Marie de la Condamine.
A finales del siglo XVIII el general Charles Perrier, de la Academia Francesa de las Ciencias, fue enviado en una misión científica para verificar el resultado de su predecesor. Posteriormente, en 1936, con el apoyo del Comité Franco-Americano, el Dr. Luis Tufiño, un geógrafo ecuatoriano, construyó un monumento de 10 metros en San Antonio de Pichincha.

Monumento Ecuador 4   Monumento Ecuador 3
Super interessante!….não fazia ideia da importância dada no passado a este tema . Não é por acaso que estamos no Ecuador….do outro lado desta linha imaginária está o hemisfério norte do nosso planeta azul. Para onde irei de seguida.
Concluída esta rápida visita e com um peso a menos para carregar, lá apanhei o mesmo ónibus que me deixou novamente no centro histórico da cidade.

Quito 3   Quito 1
Tempo de retomar o meu caminho desta vez já no hemisfério norte. Tenho uma nova etapa pela frente.
Próximo destino. Fronteira com a Colômbia. Tenho cerca de 220 km para vencer.
A minha espera à saída de Quito é algo demorada, mas lá apareceu um camião carregado de madeira que trava junto a mim para indagar.
-Buenos días gringo!…para donde va? Pergunta-me um sujeito de meia idade com um caricato bigode de Pancho Villa.
-Para Colombia me voy, señor!
-Pues es su dia de suerte, gringo!…yo me voy hasta Pasto en Colombia….venga pues….sera una compañía para mi que viajo solo.
Entrando neste camião de longo curso com apenas o seu condutor, pensei que este é um bom sinal para a próxima etapa da minha viagem.
Numa já habitual e simpática troca de impressões, esta viagem vai-se desenrolando até chegarmos a uma região de montanha muito bonita chamada Ibarra.
Neste local, onde aproveitamos para esticar as pernas e tomar uma bebida, aproveito este momento para explicar a este meu anfitrião acerca da minha situação com o visto, a minha hospitalização, etc.
Ao que me responde com uma natural compreensão dos factos.
-Pero gringo, no te molestes con esto por que estuviste enfermo en un Hospital en Guayaquil…si tienes los documentos del Hospital….tranquilo, hombre!
Não deixando de ser um tema de alguma preocupação para mim, o mesmo não impediu que eu continuasse estrada fora na nossa amena e agradável prosa, apreciando estas paisagens de sonho que me embalam ao longo de cada quilómetro.
E assim nos aproximamos do Posto fronteiriço de Tulcan. Derradeiro centro populacional do Ecuador.

Tulcan 1   Tulcan 2
Mais uma destas cenas típicas da América latina no seu estado puro…um amontado de gente e de veículos de vários tipos. Um corre-corre de um lado para o outro num caos que é evidente e cultural…é assim mesmo!…adelante, Francisco.

Fronteira Tulcan 3   Fronteira Tulcan 4
Chegara a hora de testar a minha versão dos factos.
A bomba estoirou na minha cara quando o funcionário olha para o meu passaporte.
-Usted esta ilegal en Ecuador, gringo!
-Si, lo sé, pero comprenda por favor…estuvo enfermo y he estado internado en un Hospital en Guayaquil…aquí tiene los documentos comprobatorios.
Depois de olhar para estes documentos, este funcionário retira-se para o interior das instalações fronteiriças para provavelmente consultar um chefe qualquer.
Passados uns longos 10 minutos, volta dizendo.
-Lo que sabemos es que usted queda 3 días ilegal en Ecuador. Por supuesto por las razones que los documentos indican. Pero tiene que pagar por los 3 días que despasan su visa. 50 sucres tiene que pagar.
-Pero señor, me comprenda!…respondo eu com um ar algo indignado agitando os papéis do hospital.
-Gringo, lo pagas y sales….de otra forma no quitas el Ecuador. Responde este funcionário frio como o gelo com cara de poucos amigos
Por trás de mim, o meu condutor que já tinha tratado do controle de saída do Ecuador para si e para o camião, diz-me:
-Gringo, ellos tienen el poder en la mano. Trata de pagar y pronto, amigo…será mejor.
Conformado com as regras e sem mais argumentação possível, lá paguei os benditos 50 sucres sentindo bem a falta que me fariam para comer mais à frente…Damn!

Fronteira Tulcan 2   Fronteira Tucan 1

Ultrapassado este impasse, vamos agora para o próximo Posto fronteiriço de IpialesRepublica de Colômbia.
Aqui temos à nossa espera um novo encontro com o caos. O amontoado de carros e pessoas aqui na fronteira com a Colômbia ainda é mais impressionante do que a saída do Ecuador.
Homens, mulheres, crianças, sacos, caixotes, malas de viagem, animais de criação e alguns gringos atordoados fundidos como podem neste extraordinário mosaico social. Que vontade de captar tudo isto com uma máquina fotográfica.
Ipiales, onde o tempo para, o factor talvez é a nota dominante. Bem vindos à Colômbia….pensei!
Após uma interminável espera no meio deste tumulto, chega finalmente a minha vez.
-Buenas tardes!…diz-me um tipo com ar mestiço de porte esguio e uma voz cortante…para donde va?
-Buenas tardes, señor!…a Bogotá me voy!…respondo com firmeza
-Cuanto tiempo piensa quedar-se en Colombia?
-Un par de meses, señor!
-Para que se quede por un periodo regular de três meses, tendrá usted que presentarnos una reserva monetaria de 10 dólares (270 pesos colombianos) por cada día de su estadía en Colombia. De otra forma le permitimos 15 días no más.
Com isto, estoirou naturalmente mais uma bomba na minha cara. É a primeira vez que me pedem para mostrar o dinheiro que tenho para entrar num país. Se tiver 80 dólares que me sobraram da venda do violão, é o dinheiro que tenho…está tudo louco?
Embalado pelo índice de maladragem que a vida me ensinou, ocorre-me uma ideia peregrina.
-Pues mire usted…yo tengo la plata que me permite llegar a Bogota..donde partiré en avión de regreso a mi país.
-Entonces porque me dijo usted que se quedará por un par de meses en Colombia? Dispara este funcionário com uma cara fechada e sem rodeios.
Com os sentidos todos alerta, respondo.
-Porque tengo contactos con una persona que me espera en Bogotá para que podamos volver juntos a nuestro país… pero no tengo fechas específicas.
A discussão é acesa e, pelo canto do olho, vejo o meu anfitrião condutor que, abanando a cabeça, me pergunta o que se passa.
Ao qual respondo com um aceno de dúvida. Aproximando-se de mim digo-lhe.
-Amigo, me están exigiendo plata para entrada en Colombia. Yo estoy intentando contornar el problema. La plata que tengo es para mi sustento, entiendes?
-Queda-te tranquilo, gringo…deja-me hablar con este funcionario.
O que foi que os dois falaram não sei. O que sei é que a conversa foi quente e animada.
Este meu amigo, aproximando de mim novamente, pede-me uma nota de 100 sucres que, imaginando o seu destino, lhe entrego sem hesitação.
Fácil de compreender. Este funcionário difícil, com a minha nota no bolso, deixa cair (em câmara lenta) um carimbo de permanência de 90 dias no meu passaporte….no meu pensamento bate um flash e um sorriso interno percorre o meu ser…mais uma vitória!…mais uma prova de solidariedade deste meu companheiro de estrada Ecuatoreño, a quem agradeço vigorosamente o empurrão que acaba de me dar.
Tenho que pagar uma bebida e um snack a este amigo numa próxima paragem…pensei!

Uma vez fora deste edifício onde o caos é oxigénio e toda a gente fala por cima uns dos outros , é tempo de olhar para trás e murmurar:

Adíos, Ecuador…levo no espírito a imagem do quanto foste importante na minha vida!…do quanto as tuas gentes me deram a mão e a possibilidade de melhor compreender o verdadeiro significado da palavra solidariedade… e mesmo, é preciso dizê-lo, a oportunidade de ter tido uma segunda chance na vida!
Vou recauchutado e com a noção de ter pela frente uma caminhada com novas regras. Vamos ver como tudo acontece na Colômbia.

Mapa Ecuador

Até um dia, país pequeno que és tão grande na tua alma!

Hasta siempre quedaras en mi corazón!

Continua na próxima quarta feira dia 10 de Junho de 2015

9 comentários

9 thoughts on “A encruzilhada biliar

  1. Teresa

    Boa!! Estrelinhas e anjos a’ tua volta!!!
    Curiosa com o que se segue …….

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  2. Segue-se um voo mais para norte…com um novo olhar…com um fígado mais amestrado…mais aventuras!…the show must go on!

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  3. Maria Teresa.Barbosa.

    Não leve a mal,este meu curto comentário pois dá-me vontade de dizer :mas estes jovens não têm juízo,desprezam a saúde cometendo tantas loucuras.Tenho filhos na sua faixa etária e pensando que a qualquer deles a sua situação lhes poderia ter sido aplicada,arrepiou-me e creia o vê-lo sem família tão longe de casa num País desconhecido,causou-me grande tristeza e preocupação,mas a grande garra e a força da juventude rapidamente deram uma volta de 185 graus e heis que me voltou alegria de continuar esta tão atribulada e arriscada viagem.
    Saudações cada vez mais amigas da M.Teresa.

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  4. Sabe Maria Teresa?
    Mesmo 41 anos depois, ao escrever esta narrativa tenho um reflexo condicionado na zona do fígado.
    Durante estes dias de escrita numa viagem atrás do tempo, fomos tendo (eu e ele) algumas conversas chegadas…ele sabe que ambos vacilámos, mas com a ajuda do universo e dos nossos anjos da guarda, discutimos largamente o assunto….e lá nos pusemos em pé, sacudimos a poeira e cá continuamos firmes nos nossos postos respectivamente…aprendemos muito juntos!…e aqui estamos até hoje com vontade de desbravar muitas novas caminhadas…assim seja!
    Forte abraço e um bem haja por esta preciosa simpatia!

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  5. Carla Rodrigues

    Amigo, agora que está cada vez mais interessante… tens realmente uma memória incrível! Tenho gostado muito de ler estas tuas aventuras. E venham os próximos capítulos! Bjinhos

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  6. Música para os meus ouvidos miga!…há muito mais estrada pela frente…o caminho faz-se caminhando!
    Beijo

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  7. Maria Teresa.Barbosa.

    Meu bom companheiro ,uma convalescença bastante agitada ,foi aquilo que me foi dado ler até à sua entrada na Colômbia.Como sempre muito bem comentada e acompanhada por lindas e elucidativas fotos.Mostra-nos também como é bonita a solidariedade que sempre tem encontrado por essas tão exóticas terras que tem percorrido .
    Até ao próximo dez de Junho,dia de Camões e aniversário de meu filho LuisVasco que vive em terras de Santa Cruz.
    Saudações amigas da M.Teresa.

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  8. lenocas

    Tempos dificieis que tiveste,mas sempre bom saber dessas aventuras loucas tuas.

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  9. Vai-se ao chão…sacude-se a poeira e segue-se em frente!
    Aquele abraço miga…

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