A via Pan-americana

A via Pan-americana

Parte I – Ainda mais alto

A magia continua

Novamente a bordo de Morales Moralitos, a companhia de transportes do altiplano já tão familiar para mim, tomo desta vez o rumo de oeste sobre a estrada nacional 3S.
No sentido de economizar alguma plata, só comprei viagem na Morales até Abancay– Capital do Departamento de Apurimac.
Neste novo percurso de rara beleza, levo o meu pensamento absorto pelas novas mudanças de vida e o meu olhar a divagar entre os intermináveis maciços montanhosos de um lado e de outro da estrada. Embalado nesta minha nova condição de viajante solitário, sinto o quanto me faz falta a minha companheira de estrada. Como um bater incompleto do coração…como um aparelho respiratório que só respira por um pulmão.
Ao mesmo tempo, penso. Se tenho decidido voltar com a Rose para o Rio, ficaria no meu espírito o incumprimento de um sonho grande e altivo…conquistar mais e mais este fabuloso continente sul americano que mudou radicalmente a minha visão da vida.
Enfim!…o sabor do destino prova-se a cada passo da caminhada, moldando a nossa natureza humana às circunstâncias. Entrego todos os males da minha alma ao pai tempo, esse grande curandeiro que irá gradualmente dissipar estas nuvens carregadas que trago no espírito….em frente, africano!

A minha primeira paragem é em Ancahuasi. Um povoação sobre a estrada, onde aproveito para fazer algo que só eu posso fazer…comprando de seguida uma água para beber e uns biscoitos de fabrico local para entreter o paladar.
A estrada para Abancay, é extremamente sinuosa. Uma típica rota de montanha do altiplano, onde a verdura, os pastos e as llamas são uma constante. O frio aqui aperta mais!

On the road 3
Chegado ao meu destino Abankay e uma vez cumpridos 190 km de estrada, deparo com uma pequena cidade, nome igualmente de um importante rio da região, do Distrito de Ayacucho.
Num folheto que apanhei na Central de Autobuses à chegada, passei os olhos pela descrição desta região que informa:
Apurimac está situado no setor sudueste dos Andes centrais. Confronta a norte com os Departamentos de Ayacucho e Cuzco e a sul com o Departamento de Arequipa.
Abancay que está a uma altitude de 2 900 m, é uma cidade que segundo leio aqui, tem cerca de 40 mil habitantes, tendo os seus recursos baseados em serviços e na agricultura com a produção de cana-de-açúcar, frutas, cereais, hortaliças, alfafa, anis e batatas, dedicando-se igualmente à criação, para além das tradicionais lhamas e alpacas, de gado bovino.
Vi igualmente neste folheto, que não longe daqui está outra região de extrema beleza do Perú.
Uma deslumbrante lagoa de montanha denominada de Uspaccocha inserida numa região onde se enquadra a cordilheira de Ampay…que lugar deslumbrante a avaliar pela fotografia!
Já é tarde e vou ter que procurar um lugar onde comer algo e pernoitar.
Vagueando pelo centro, encontro um lugar que pela afluência dos forasteiros me parece ser onde se come bem e barato.
Dando uma volta por aqui, há algo que desperta as minhas papilas gustativas já excitadas com o ambiente gastronómico. Uma vez que os preços nestas tascas até são convidativos, quis saber mais sobre estes petiscos com bom aspeto.
Curioso, pergunto a um homem que está a assar carnes num churrasco.
-Diga-me por favor!…lo que es esto que usted esta preparando?
-Hola, gringo!…esto se llama Cancacho. Cordero al palo. El animal tierno es puesto sobre un bastidor al fuego de carbón, sobre el que se asa lentamente. De rato en rato se unta con una salsa hecha en base de aceite, sal, ají, ajo, pimienta, limón y optativamente un poco de vino. El plato se acompaña de papas cocidas, ensalada y para beber cerveza o chicha de maíz….quiere usted probar?
-Hummm, me parece precioso! respondo com um olhar convincente.
-Pues se acomode que vamos a servir-le dentro de un rato.
Não posso esconder que estes pratos, para além daquele tempero que sempre me acompanha e embalado pela minha natureza taurina, oferecem-me um prazer singular…está delicioso!
A minha alimentação vai sendo apenas suficiente…procuro comer algo mais sólido de manhã, o resto do dia como o passo na estrada vou roendo um pão, umas empanadas e alguma fruta que sempre trago comigo na mochila, sendo esta refeição do final do dia o melhor consolo para forrar o estômago.
Agora estou pronto para descansar algures…em conversa com uns gringos de origem belga que estavam a comer ao meu lado, compreendi que há aqui, a umas centenas de metros, um campismo onde os forasteiros passam as noites. Como a nossa conversa foi fluida, fui convidado a acompanhá-los e passar a noite por lá. A surpresa foi boa!…a dormida faz-se no interior de uma tenda grande onde se aluga não a tenda, mas um lugar para dormir dentro dela…que grande ideia!…pensei.

Abancay 8   Abancay 9

Esta noite, apesar do frio que se faz sentir a esta altitude, está a ser deveras simpática à volta de uma fogueira improvisada fora desta grande tenda. O ambiente neste local é universal, pois foram surgindo outros forasteiros de diferentes partes, alguns vindos das altas montanhas a caminho de Cuzco e outros como eu, em viagem rumo ao oceano Pacífico. Surgiram de mão em mão algumas boas fumaças de maconha e até uma ou outra linha de coca para animar a noite que incluiu as tradicionais batucadas. Este Giannini da Rose provou uma vez mais o que vale.
No desenrolar da conversa, conheci neste local um casal de americanos de Denver que viaja de Kombi em direção a Cuzco que, sabendo que venho de lá, quis colher mais informações sobre a região.
Esta foi uma conversa naturalmente animada, movida pelo facto de alguém de Denver (USA) se cruzar em Abancay (Perú) com alguém de Moçambique…por vezes o mundo é uma laranja!
No desenrolar desta agradável prosa, fiquei igualmente a saber que eles fizeram grande parte da uma estrada lendária que há muito preenche o meu imaginário. A famosa rodovia Pan-americana.
Segundo um guia de viagem que eles trazem a bordo, este magnífico projeto rodoviário liga a cidade de Fairbanks, no estado do Alasca (USA), à localidade de Quellón, no Chile, (América do Sul) estendendo-se de norte a sul do continente americano, totalizando cerca de 25.800 km….absolutamente extraordinário!
Sou desde há muito fascinado com esta via e faço questão de dentro em breve percorrer uma parte dela a partir de Nazca em direção a norte.
Esta conversa teve outra agradável surpresa. Um convite por parte destes simpáticos americanos para os acompanhar no dia seguinte numa visita à cordilheira de Ampay, que eu já tinha espreitado num folheto à minha chegada esta tarde. Convite que naturalmente aceitei.
O meu dormir nesta primeira noite a solo foi duro depois de 6 meses acompanhado pelo calor corporal da minha companheira de estradas poeirentas…não foi fácil! Fazes-me falta, carioquinha!

Novo dia pela frente. Tomar um banho, uma boa taça de café acompanhado de pão e queijo de fabrico local, foram motor de energia para uma nova jornada.
Na companhia destes americanos de meia idade de nome David e Sara, fomos então visitar a tal região que, a avaliar pelas fotografias, é outro paraíso perdido do Perú.

Abancay 3  Abancay 4
No caminho por uma fabulosa estrada de montanha pude ler no tal guia algumas informações sobre esta região:
O seu nome vem do Ampay (neve que protege a cidade de Abancay) e é também o nome das florestas que cobrem as colinas vizinhas. Ele está localizado no departamento de Apurimac, província do distrito de Abancay, Tamburco. Possui uma área de 3 635 ha.
Em termos de vida selvagem, existem mamíferos como a raposa andina , cervos , o vizcacha, o cervo andino e aves como a gaivota andina e muito naturalmente a espécie de excelência da grande cordilheira dos Andes. O grande condor Andino.

Condores em voo
Segundo informações do setor científico, a raposa andina encontra-se em vias de extinção…damn.
A flora é caracterizada pela Intimpa que cresce em manchas que formam florestas nas encostas. A presença de vegetação em altas altitudes resulta em ambientes belos e fascinantes, contrastando com as neves eternas dos picos e com a aridez das colinas circundantes. Assim, podemos avistar belas paisagens pontilhadas com chochos gigantescos, com as flores azuis e arbustos com flores amarelas (Retamales) ,bem como várias espécies de orquídeas.
A região é dotada de duas lagoas, das quais a mais espetacular é a lagoa Uspaccocha, que tudo indica ter sido originada por uma gigantesca cratera vulcânica. Nas suas águas reflete-se a cordilheira Ampay coberta de neve.
Super interessante!…concluo!

Abancay 5   Abancay 2
O que presenciamos ao vivo e a cores ao chegar a este local é deveras fascinante e difícil de descrever por palavras. A natureza foi deveras generosa nesta parte do globo, dando ao povo andino uma pérola de rara beleza como esta que estamos a presenciar. Que privilégio poder apreciar esta concentração de criação do universo. De tirar o fôlego!
Numa das paragens, estes meus anfitriões estacionam à beira da lagoa principal, onde tivemos o prazer sublime de montar uma mesa e cadeiras fora da Kombi, deliciando-nos com uma refeição ligeira e um par de cervejas peruanas, usufruindo de uma deslumbrante vista para esta verdadeira maravilha. Uma vez mais senti a enorme falta de uma máquina fotográfica.

Abancay 6   Kombi Picnic
Estarei para sempre grato a estes novos amigos pela circunstância desta oportunidade de viver este dia especial num ambiente de sonho como a região andina de Ampay. Um verdadeiro privilégio….bem hajam por esta jornada!
A segunda noite neste acampamento foi novamente de alegre convívio depois de cumprido um repasto a baixo custo numa tasca popular aqui perto.
Com a minha cabeça cheia de visões raras do altiplano andino, lá me recostei dentro da tenda acolhedora para mais um mergulho no limbo. Uma vez mais o meu último pensamento foi para a minha companheira Rose.

Novo dia pela frente. Tempo de tratar da minha higiene pessoal, de me despedir dos meus companheiros de campismo, fazer o pagamento pela a minha dormida e partir deste local, tendo em vista tomar um desayuno algures na cidade.
Concluída esta necessidade, procurei o mercado central onde me dirigi para tentar uma venda das peças que trago comigo.
Neste fim da manhã, os deuses pareceram compreender a mensagem. Consegui vender um dos batiks de maior dimensão por uns simpáticos 150 soles. Já tenho uma almofada para realizar esta minha viagem.
Com alguma satisfação por este resultado positivo, dirijo-me agora para a saída da cidade para prosseguir o meu roteiro.

Abancay 1
Daqui por diante o meu engenho e arte serão as ferramentas essenciais para conquistar as boleias que possa apanhar, permitindo-me seguir viagem ao longo da nacional 3S.
Vamos a isto, Chicão!….the show must go on!

On the road 1

Ao fim de uma boa hora de espera, tenho a sorte de apanhar uma boleia de um camião de longo curso de abastecimento de combustível que leva dois passageiros sendo eu o terceiro. Tenho assim garantidos mais 120 KM até Chalhuanca.
A estrada continua num interminável sobe e desce, onde a melodia dos Andes se faz percorrendo paisagens de tirar o fôlego. É como escutar uma flauta de pan e sonhar com o tecto do mundo. O frio aqui é cortante e vale-me este capuz de alpaca que me cobre as orelhas que contrastam com o nariz que parece feito de pedra.
Ao olhar estes panoramas de deslumbre vejo grandes quantidades de llamas, vicuiñas, Guanacos e Alpacas a pastar (todos pertencentes à família dos Camelidae andinos), umas mais corpolentas e mais lanzudas e outras mais esguias e airosas. Muito simpáticos estes bichos.

Pampas galeras 1
Quando penso na capacidade de adaptação destes animais que, debaixo de temperaturas negativas, passam as noites nestas Pampas galeras (região onde predominam as vicuiñas) escutando a conversa das estrelas, sinto que sou realmente um privilegiado em poder assistir a tanta magia nesta parte do mundo. O alimento destes bichos, segundo me explica o motorista deste pesado, é o Hicho, uma planta típica aqui das Pampas galeras e do altiplano.

Pampas galeras 2   Pampas galeras 3
Estamos agora a subir em altitude que influi diretamente na quantidade de oxigénio no ar que começa a diminuir. No sentido de minimizar este efeito e tirando da traseira dos nossos assentos um enorme saco de folhas de coca, estes dois peruanos põem em prática um costume ancestral do altiplano. Mascar (Chacchar como se diz localmente) folhas de coca, que é um hábito de grande importância para os povos andinos, que visa amenizar os efeitos da altitude da cordilheira.
Segundo me explica o homem que vai ao meu lado, para mascar basta pegar um punhado da folhas e colocar uma a uma na boca. Estas folhas não se mastigam. Elas ficam na bochecha para humedecer, e apenas devem ser pressionadas para extrair os seus nutrientes. Depois de humedecidas com a saliva, junta-se às mesmas um pouco de cinza extraída do caule da mesma planta. Uma massa de cor cinza que corta o gosto amargo das folhas. As plantas ficam na boca por cerca de 30 minutos.
Esta explicação trouxe alguma luz ao meu espírito, fazendo-me recordar as minhas experiências anteriores com esta prática em Sta Cruz de la Sierra na Bolívia e em Cuzco, que foram deveras desagradáveis. Só agora entendi porquê…naquela vez mastiguei as folhas concentrando dentro da boca e criando uma insuportável massa verde que me vi obrigado a cuspir poucos minutos depois.
Isto assim faz mais sentido e lá aceitei a oferta deste quéchua.
A conclusão foi positiva…assim conservam-se as folhas intactas na boca, extraindo os seus nutrientes, retirando os seus efeitos naturais, sem a desagradável sensação de ter um salivado bolo verde e amargo dentro da boca….sempre a aprender!
Vantagens desta prática – respira-se melhor, sentindo mais energia, menos vontade de comer e de dormir. A única desvantagem é ficar com uma boca de marciano!…é a vida no altiplano!
Ao longe, é frequente a visão dos condores que dominam a região com os seus voos de singular majestuosidade dominando os céus entre os picos nevados e as encostas cobertas de retamales (arbusto local) que, através das suas flores amarelas, oferecem às encostas uma tonalidade de sonho….o deslumbre é total.
Chegado ao meu destino e agradecendo aos meus companheiros de estrada, é tempo de compreender onde estou.
Este povoado pré-andino de nome Chalhuanca está situado a 5 200 m acima do nível do mar, o ponto mais alto que atingi na cordilheira dos Andes, sendo a capital da Província de Aymaraes, situada no Departamento e região de Apurímac.

Chalhuanca 1
Entre os imensos contrafortes de ambos os lados, corre sinuosamente lá em baixo o Rio Grande…o cenário é totalmente deslumbrante!…de tirar o fôlego que já não é muito.
Com o aproximar do final de mais um dia, é chegada a altura de pensar em comer algo.
Numa zona mais agitada do centro de Chalhuanca, deparo-me com uma praça popular com vários alpendres de mesas corridas de onde exala o fumo e os odores da gastronomia local.
-Hummm…Francisco…acho que encontraste o que querias!…digo para os meus botões algo esfomeados.
Resolvi desta vez provar algo que me despertou especial atenção – Camélidos domésticos – à base de carne de alpaca e llama…acompanhado das tradicionais papas (batatas) de nome Yacon de cor alaranjada que são originais aqui do Perú…ao melhor tempero que é sempre o mesmo, juntou-se uma chicha em vaso largo e a troco de poucos soles a voracidade lá se acalmou. A carne de llama preparada deste modo está aprovada!
Tempo agora de inventar um local onde dormir sem encontrar pela frente os eventuais imprevistos desta vida errante.
Ao falar com uns gringos na praça, entendi que ali atrás há um parque bem arborizado de nome Soltera Puccyo onde os forasteiros passam a noite numa associação recreativa local.
Ao chegar ali dei com um ambiente favorável a este propósito.
Dormida dentro de uma casa pertencente a uma associação habituada a receber forasteiros…pagas o que puderes…parece-me bem!
Darei a minha precária contribuição, pois nesta região alta dos Andes dormir fora de portas é totalmente impensável…as temperaturas noturnas são negativas.
Decidi assim encostar-me sobre umas esteiras confortáveis a um canto de uma sala ampla onde está acesa uma lareira, perto de alguns gringos que aqui estão de passagem como eu.
No desenrolar de uma simpática troca de sinergias, como sempre acontece entre viajantes destas paragens do mundo, e depois da habitual queima de uns cachimbos da paz, foi chegando a hora de me recostar com a natural intenção de olhar para dentro.
Amarrando a mochila e o violão com umas tiras de cabedal como sempre faço, entreguei-me aos meus pensamentos e reflexões tendo a flutuar no espírito um nome mágico. Rose.
Um pensamento que me acompanhou durante longos momentos, enfiado no meu sleeping bag coberto com o meu poncho…até que o cansaço falou mais alto e me entreguei ao limbo.

Chalhuanca 5  Chalhuanca 3

Gostei destas condições de dormida e deste ambiente. Acho que ficarei por aqui mais um dia.
Tempo agora de tratar da minha higiene e comer algo por aí…e circular um pouco por esta simpática povoação, à descoberta de novos aspetos desta cultura andina pela qual me sinto cada vez mais fascinado.
No lugar onde me encontro a tomar o meu desayuno, está um grupo de simpáticos forasteiros com quem naturalmente iniciei uma conversa universal.
Daqui surgiu a ideia de ir assistir a algo que é novo para eles, mas que não seria novo para mim. Uma corrida de touros…algo que é prática corrente na minha terra natal Moçambique e no espaço português em geral.
Algo que, do alto da minha natureza taurina, me deixa sempre um sentimento de desagrado e desconfiança pela forma como são tratados os meus parentes zodiacais. Os touros.
Mas disseram-me que esta é uma corrida de touros diferente e lá fui com este simpático grupo até à praça de touros de Chalhuanca.

Tourada Chalhuanca 1  Tourada Chalhuanca 3
Sem ter assistido ao espetáculo até final, pelo sentimento desagradável que sempre me deixam estas demonstrações medievais, consegui compreender que a afficion deste povo é grande, herança direta dos espanhóis que invadiram o Perú desde 1531.
Estas marcas hispânicas estão bem presentes na acentuada conversão ao catolicismo e na absorção destas práticas grotescas.
Fui ficando por ali no sentido de compreender a mensagem transmitida ao grande público nestas corridas de touros ditas diferentes.
Ora, aqui está! Aqui a tradição, celebrando uma festa à qual chamam de Yawar, faz com que os touros durante a corrida dentro da arena tragam amarrados no lombo um condor de grande dimensão que, aflito com a sua condição, traz as asas bem abertas, o que contribui para um espetáculo degradante. A intenção é demonstrar um sinal de supremacia da cultura andina sobre a cultura do ocupante espanhol…disparate!

Tourada Chalhuanca 4   Tourada Chalhuanca 2
Constatando que se trata de duas barbaridades dentro da mesma arena, retirei-me do local para prosseguir a minha exploração da cidade…as touradas são definitivamente uma aberração latina…concluí!
Como já vai sendo fim da tarde, ainda passo pela Plaza Mayor de Chalhuanca onde estão uma vez mais os grandes traços da colonização hispânica do Perú.
Não longe dali, lá fui ao encontro do meu momento gastronómico do dia…comer algo por pouca plata.
Numa zona de concentração popular, que é onde se come a preços aceitáveis, lá consultei algumas curiosidades gastronómicas onde se destacam:
Picante de trigo, Olluco, Quinua, Papa picante, Cuy a la braza, Picante de haba, Sopa de calabaza, Sopa de maíz, Sopa de cebada, Tortilla de maíz y de quinua, Mazamorra de lecha con harina de maíz, y Mazamorra de manzana…perante estes enigmas perguntei a mim mesmo:
-Francisco, e agora?…vai ser o quê?
Depois de algumas explicações pedidas localmente a uma mamacita sobre o tal do Olluco, eis o que obtive como resposta:
-Pues, gringo!…Calienta-se el aceite en una olla y fría la cebolla y el ajo. Se agregua el ají panca, el comino, el orégano y el rocoto, y cocine durante tres minutos. Incorpore la carne picada y deje dorar. Añada el ají amarillo, revuelva y eche los ollucos.
Esparza la hierbabuena y el perejil. Se sirve con arroz.
Bom!…vamos nessa!…com a fome com que estou há-de ser seguramente bom!
E foi mesmo!…a chicha chegou ao fundo, sentiu-se sozinha e veio outra para alegrar a minha sede taurina.
Mais uma noite se passou neste albergue, onde depois de uma interessante conversa com uns forasteiros, me deixei adormecer no meu canto perto daquela simpática lareira…lá fora estão seguramente temperaturas negativas…putz!

Neste novo dia e depois de tomar o meu banho nas instalações locais e do meu desayuno possível, chego-me para a estrada nacional 3S onde me coloco estrategicamente tendo na ideia alcançar o meu grande objetivo. Chegar ao Oceano pacífico.

On the road 2
Até ao próximo centro populacional de nome Puquio terei de percorrer mais uns 185 KM.
Enquanto espero a minha boleia e tentando ignorar o frio que se faz sentir nestas paragens altas, enrolo um joint de uma boa maconha colombiana que me ofereceu um inglês que partilhou o albergue comigo.
A minha espera é longa e dolorosa…fazer o quê!…resistir e acreditar que alguma alma santa irá parar para me levar.
Tenho finalmente uma estrela que faz com que um camião carregado de legumes pare, fazendo-me sinal de montar a bordo. A receber-me estão dois quéchua que mal falam espanhol…adelante…com gestos e alguns sons percetíveis compreendi que se dirigiam para Nazca.
Este novo percurso de um total de 340 km será pela primeira vez a descer, desde que comecei a subir o Altiplano em Cochabamba, na Bolívia. Aqui se tem a noção da imensidão dos Andes.
A velocidade é reduzida neste primeiro troço em que a estrada 3S, além de sinuosa, ainda apresenta resíduos de gelo nas zonas ao abrigo do sol tímido que não chega para me aquecer a alma. Com este embalo e sem haver uma conversa com os meus companheiros de estrada, adormeço tendo regressado a mim à entrada de Puquio.
A nossa paragem em Puquio foi circunstancial para esticar as pernas, comprar água e umas iguarias que entretenham o estômago.
Esta região, situada a 3200 m de altitude na bacia do rio Alcarí, é rica em agricultura e alimentada por duas grandes lagoas superficiais originárias das depressões de montanha e pelas represas feitas pelo esforço humano no sentido de reter as águas para consumo e irrigação.
Já estamos a meio da tarde e o nosso percurso continua em direção ao nosso destino Nazca.
A meio deste percurso temos uma avaria mecânica que nos fez interromper esta viagem.
Uma avaria ao nível da transmissão que me parece não ter reparação imediata….Damn!
A noite cai e o cenário não é animador. Um camião carregado de legumes parado na berma de uma estrada andina. Dois quéchuas que mal falam espanhol e um moçambicano a deambular pela América latina.
Então vejamos!…está visto que vou passar aqui a noite…sem lugar para dormir a três mil e tal metros de altitude…água para beber há alguma e para comer uns restos de pão e fruta…vamos a isto! O que tem que ser tem muita força.
A madrugada demorou uma eternidade a chegar…confinados a esta cabine e sem qualquer tipo de comunicação com estes companheiros de infortúnio, percebi, apesar da tremenda indisposição que sentia, que devia tomar uma atitude.
Com alguns gestos de agradecimento, decidi deixar estes meus anfitriões entregues ao seu destino, indo eu ao encontro do meu…ou seja, ir caminhando estrada fora com a esperança de alguém passar para me levar.
Penso ter caminhado com a minha mochila e violão às costas uns 3 quilómetros debaixo daquele frio cortante vivido na primeira pessoa naquelas vertentes da cordilheira que começa a dissipar-se dando lugar a um novo cenário geográfico…o cansaço fala mais alto e completamente rendido, encosto-me na berma da estrada onde adormeci coberto com o meu poncho, recostado contra a minha mochila.
Sou despertado por uma camião ligeiro que trava ao meu lado. Do interior vejo uma cara mestiça que me pergunta:
-Que te pasa, gringo?…para donde vás?
Meio atordoado e sem energia para reagir, respondo:
-Me voy hasta Lima!
-Pues venga!…hasta Nazca lo llevamos!
Algo aliviado e feito um zombie, assim fui na companhia destes simpáticos peruanos, descendo as encostas da cordilheira, vendo gradualmente as paisagens do altiplano se transformarem em planícies de vento ao aproximar gradualmente a costa do oceano Pacífico. Apesar do cansaço extremo, uma sensação boa me atravessa o espírito. A de ir vencendo novas etapas.
Percorridos cerca de 130 km, chegamos finalmente a Nazca.
Este nome sempre iluminou a minha mente depois da leitura anos antes de um livro de Erich Von Däniken – Eram os deuses astronautas, onde este autor descreve as figuras e desenhos centenários desenhados no solo desta região. Figuras e símbolos com uma enorme carga mística apenas percetíveis a partir do céu.

Nazca 4
No meu imaginário ficaram sempre duas perguntas sem resposta:
Se o povo inca desenhou tais figuras meio humanas, animais alados outros de cariz pré histórico para serem vistas apenas do espaço…como teve a perceção para as fazer?
Sendo a segunda questão tão complexa como a primeira. A quem eram destinadas tais figuras traçadas na superfície terrestre?…respostas que há alguns séculos agitam as comunidades cientificas contemporâneas.
Num quiosque turístico na praça central de Nazca, recolho um folheto da região para saber mais sobre este fenómeno tão insólito.

Nazca 1   Nazca 2
O nome desta terra é derivada da cultura Nazca, que floresceu nesta região entre os anos 100 AC e 800 DC. Esta cultura foi responsável pelas Linhas de Nazca e da cidade cerimonial de Cahuachi; aqui foi igualmente construido um impressionante sistema de aquedutos subterrâneos, chamados de Puquios, que ainda funcionam hoje. Daqui o nome da povoação onde parámos antes de aqui chegar.
Segundo esta informação e devido a um clima mais temperado, os espanhóis desenvolveram nesta região uma cultura de vinha onde se produziram vinhos e aguardentes famosas em todo o Perú.
Para lá de cansado, e apesar da fome que trago ao colo, procuro agora um local onde descansar umas horas.
Neste sentido e passando casualmente à porta de um Corpo de Bombeiros, perguntei se poderia descansar em algum canto durante umas horas, tendo felizmente o meu pedido sido atendido.
Quando acordei, já o dia vai dando lugar à noite que se aproxima. Uma das vantagens sentidas nesta terra é a temperatura do ar que já vai sendo mais alta quando comprada à do altiplano. Que saudade deste calorzinho…pensei!
Agradecendo a simpática guarida que me foi oferecida, tenho uma agradável surpresa.
Um dos operacionais graduados, aproximando-se, quis saber um pouco mais de mim.
Deveras regalado com a minha história, pergunta-me:
-Y para donde se va?
-Estoy andando en direccion de Lima. Respondo!
-Tenemos un servicio en Pisco mañana. Um pueblo que queda a unos 220 km de aquí!…si le interesa quede-se por Nazca hoy y mañana lo llevaremos…que tal gringo?
Amanhã uma boleia de 220 km…um lugar para dormir…hummm…Francisco…não há hesitação…a resposta é sim!
-Pues estoy muy agradecido por su cuidado y atención…puedo quedar-me por acá esta noche?
-Claro, hombre!…comprendemos su situación…el Perú es un país solidario.
Com este cenário animador, é agora altura de procurar algum lugar pra comer com os poucos soles que me restam. Vou como sempre à procura dos lugares populares onde se possa comer em tendas na rua.
A minha disposição não é das melhores, mas alguma coisa se há-de encontrar.
E junto ao mercado central de Nazca, lá encontrei uma zona popular onde estavam a grelhar umas espetadas de carne ao ar livre. Pouco entusiasmado e sem grande apetite, lá indaguei do que se trata e quanto custa. Esta minha refeição foi de pouca escolha pois os trocos não dão para mais…lá comi três destas espetadas de carne de llama, acompanhadas por algumas papas (batata local) e um choclo (maçaroca de milho branco)…uma chicha e vamos a isto.

Nazca 3   Nazca 6
A vontade de ir ver as tais figuras traçadas na terra era grande, mas lá nos bombeiros confirmaram-me que estes desenhos só são interessantes vistos do ar. Há no entanto umas montanhas circundantes de onde estes fenómenos podem igualmente ser avistados. Como ir até lá?…nada feito, Francisco. Não se pode ter tudo!
Face a esta realidade, ficar deitado e compensar o meu cansaço foi superior à curiosidade de melhor conhecer o pueblo. E assim passei o resto do meu tempo…fim da tarde e noite usufruindo das instalações precárias, mas muito bem vindas nesta casa dos soldados da Paz.

Parte II – Ao encontro do Pacífico

Ao encontro do oceano pacífico

Um novo dia marcou o fim desta simpática guarida dos Bombeiros de Nazca que antes de atacarmos de novo a estrada, ainda me ofereceram o desayuno. Facto que naturalmente, muito agradeci.
De novo na estrada, desta vez a bordo de um carro dos bombeiros…e aqui vamos numa cada vez maior aproximação ao oceano Pacífico.
Neste trajecto tenho ali mais à frente um outro encontro memorável do meu imaginário. O meu primeiro contacto com a Rodovia Pan-Americana. A tal que percorre o continente americano saindo do Alasca nos Estados Unidos e só terminando no sul do Chile. Que fabulosa sensação estar nesta rodovia com o imenso oceano Pacífico à minha esquerda. Estava assim cumprido mais um sonho na minha vida.
A nossa chegada até Pisco após percorridos mais 220 quilómetros, faz-se sem novidades embalados numa animada conversa com os meus dois acompanhantes.
Neste caminho tenho direito a uma emoção que me fez vibrar. A minha primeira visualização ao vivo e a cores do oceano Pacífico. Como é imenso e distante…que emoção me assalta, ao ponto de ter as lágrimas nos olhos…difícil de explicar!
Pisco, a uma altitude já bastante baixa, é uma vila já próximo do litoral igualmente conhecida pela produção vinícola, segundo me contaram os bombeiros que me trouxeram até aqui. As aguardentes produzidas aqui na região, que foram inicialmente desenvolvidas por monges espanhóis de tempos idos, são conhecidas pela sua tonalidade incolor e alto grau alcoólico…curioso, pensei!
Agradecendo uma vez mais a simpática colaboração destes soldados da paz e visto que o sol ainda vai alto, decidi tentar a minha sorte de chegar a Lima ainda hoje antes do cair da noite…com sorte e uma carona circunstancial tudo é possível…Tenho ainda pela frente 230 km.
Após 50 min de espera à saída de Pisco, para uns metros à minha frente uma carrinha de transporte de pessoal que me pergunta para onde pretendo ir…ao que respondo:
-A Lima me voy, señor!
-Pues gringo se lo llevo hasta Cerro Azul a unos 80 e pocos km…vale?
-Pues que vale!…muchas gracias! respondo entusiasmado.
Esta viagem foi algo atribulada dado que estivemos parados por uma boa meia hora a trocar um pneu que furou…só acontece a quem anda na estrada!
Mas resolvida esta situação, lá chegamos ao nosso destino mais ao fim da tarde.
Cerro Azul é um simpático pueblo à beira mar.

Cerro azul 1
Dada a hora já avançada, entendi que seria mais prudente ficar por aqui hoje…procurei ali perto da praia um lugar para me abrigar…mas não sem antes fazer algo que se impõe…descalçar as minhas únicas botas andinas…puxar as calças para cima ir provar…imaginem…as águas do Pacífico nos meus tornozelos!…parece ridículo mas não é…aquele momento tinha para mim um especial significado…talvez trazido do meu imaginário…dos filmes de aventuras…sei lá! Eu e o oceano Pacífico num contacto do primeiro grau!….sensação!

Pes na água
Naquele momento fui abordado por um pescador de meia estatura bem queimado do sol que me quer vender uns peixes…ao que respondi sorrindo:
-Gracias, amigo!…es que no tengo plata!
-Pero tu eres gringo!…como no tienes plata? Responde-me este pescador bem humorado.
Com humildade no olhar, acenei de novo a este homem, agradecendo a abordagem…olhando para aqueles peixes, disse cá para mim!…oh, se marchavam!
Como um sexto sentido desperto, este homem olha de novo para mim, dizendo-me:
-Gringo! mi nombre es Yaku…Venga comigo!
-E para donde? Pergunto.
-Pues luego verás…vien hombre….como se llama?
-Chico, me llamo!
-Pero usted es grande…como se llama Chico?…risada…constatei rapidamente que este homem é um bem disposto!
Após uma caminhada de alguns 10 minutos ao longo da praia, dirigimo-nos agora para um barraco em madeira junto a uns penhascos na retaguarda. Compreendi que me estava a levar-me para casa dele.
Ao chegar chamou alguém:
-Conchita!
Surge de dentro desta barraca uma mulher do povo igualmente queimada do sol que muito surpresa olha para mim abrindo os olhos.
Num dialeto que pouco ou nada entendi, consegui compreender que ele dava algumas instruções à mulher.
Só me apercebi desta intenção quando este homem me diz para me sentar nuns bancos de pau debaixo de um alpendre, ao lado da barraca de madeira.
Passados momentos de uma tentativa de conversa marcada pela simplicidade, pude neste momento sentir o quanto a solidariedade humana tem peso próprio em qualquer canto do mundo, longe das diferenças e regras sociais, mas tão perto do coração.
Estou, passado uns minutos, a ser presenteado com uns peixes grelhados por esta simpática Conchita, acompanhados de uns legumes desconhecidos, de umas batatas que souberam a céu, tudo regado com um vinho de produção local como há muito tempo não provava…a emoção tomou definitivamente conta de mim…como pode o ser humano tão diferenciado nos seus comportamentos, tão complexo na sua convivência e na sua vaidade, passar tantas vezes ao largo destes momentos, onde se oferece a um forasteiro do outro lado do mundo o que se tem nestas precárias condições de vida…que aprendizagem!…que emoção!
Para completar o cenário, este pescador alegrou o meu prazer gustativo com uma prova da tal aguardente destas zonas mais baixas do Perú ocidental…que delícia diante de tanta simplicidade.
Compreendi, pelo nível de solidariedade demonstrado por este casal tão peculiar, que poderia passar a noite abrigado neste alpendre…mais emocionado fiquei!
A parte curiosa foi quando, já noite cerrada em frente a uma pequena fogueira improvisada pelo nosso pescador, pego no violão e toco algumas notas que estas criaturas nunca ouviram na vida…momento transcendente…como as pequenas coisas podem ser tão grandes!
Esta noite, antes de adormecer naquele ermo frente ao Pacífico, tive igualmente um momento de melancolia ao pensar na minha Rose…faz-me falta aquela carioquinha!…como gostava que estivesse aqui a viver estas experiências extraordinárias!…custou-me a adormecer!

Cerro azul 2   Cerro azul

Um novo dia começa cedo à beira-mar junto a um oceano de perder de vista…algo me atravessou o espírito às primeiras horas deste novo dia…mergulhar nesta água do mar totalmente nova para mim.
E aqui vou, passo após passo pisando a frescura de uma areia de aspeto semelhante ao açucar mascavado, entro nestas águas lendárias que na verdade estão totalmente pacíficas…a temperatura é fresca mas o prazer é superior…Um mergulho no mar não acontecia desde Arembepe…do Atlântico para o Pacífico…Francisco!…mais um sonho cumprido.
Na sequência deste imenso prazer, segue-se uma passagem por água doce que a tal Conchita me oferece dentro de um balde…hummm…energia renovada!
É tempo de olhar para norte, despedir-me calorosamente deste casal de peruanos da beira-mar e fazer-me de novo à estrada, passando ali perto por uma tienda, onde comprei algumas peças de fruta e um par de maçarocas assadas para forrar o estômago.
Lima…vamos a isto! Tenho cerca de 145 km a percorrer, sempre junto ao mar…que prazer!
E a sorte está comigo…não esperei meia hora para um comerciante me levar até Chorrilos que já faz parte integrante da capital.
Este circuito acompanhando a costa é feito com uma animada conversa com este comerciante que quer saber de onde venho, para onde vou, o que acho do seu país, etc.
Conversas que sempre comportam o seu lado interessante onde a troca de culturas é sem dúvida o lado mais construtivo destes diálogos.
Chego ao meu destino Chorrilos a meio da tarde. Segundo indicações trazidas desde Cuzco, devo procurar a zona turística da cidade onde provavelmente circulam os freaks e onde poderei melhor compreender onde estou e como fazer para me desenrascar a partir daqui.

19 de Junho de 1974 – Lima – capital do Perú

Lima 7

E assim fiz. Encontro-me desta vez numa área metropolitana que tem outro ritmo urbano.
Saí das altitudes da cordilheira para a costa do Pacífico e agora trata-se de conviver com o betão armado. O ar aqui é mais húmido devido a proximidade do mar e mais pesado devido à temperatura que está francamente mais alta.
Procurando o centro de Chorrillos, lá encontrei uma zona movimentada onde está centrado o comercio citadino.
E efetivamente ali encontrei uma calle onde se encontram os meus pares a vender artesanato num calçada larga junto a um vistoso jardim urbano.
-Hola!…digo, aproximando-me de uns freaks sentados no chão com os seus trabalhos expostos.
Numa breve conversa com um casal de argentinos e uma francesa de olhos azuis, compreendi que estava no lugar certo, havendo outros locais mais ao centro da capital junto à orla marítima que também valeria a pena tentar. Um tal bairro de Miraflores.

Lima 3   Lima 4
A necessidade de vender é grande pois os meus soles chegaram ao fim.
As vendas de um colar de missangas e duas pulseiras trabalhadas em prata foram o meu alívio e o que me permitiu sair daqui para procurar algo para comer ali perto. Assim fiz.
Regressando ao local das vendas, procurei saber onde se alojavam os forasteiros de passagem por Chorillos.
Foi aqui que cruzei um artesão peruano de nome Nikita, com quem desenvolvi uma agradável conversa ao sabor de uma maconha de grande qualidade.

Artesanato 6   Artesanato 1
Nikita é um fulano magro, de meia estatura com olhos e um cabelo negros agarrado numa grande trança que lhe chega a meio das costas ,vestindo-se de forma bem extravagante.
Neste agradável bate-papo, quis saber de onde eu vinha, qual era a minha história e ao fim de algum tempo, compreendendo que eu acabara de chegar sem ter onde ficar alojado, convidou-me a vir para casa dele até encontrar uma solução.
Esta proposta caia naturalmente do céu face à condição financeira cada vez mais precária em que me encontro…quem sabe em casa deste companheiro se encontre mais algo para comer.
Chegados mais tarde a casa deste meu anfitrião, deparo-me com um barraco em madeira inserido num bairro pobre, mas onde ficarei debaixo de um tecto…uma inquestionável vantagem…
Foram chegando alguns amigos aos quais fui apresentado. Um casal de nome Andres e Nancy que acabam de chegar de outra paragens do interior do Perú junto à fronteira com o Brasil….interessante!…pensei!
Esta viagem, e o facto de estarem a falar com alguém oriundo da costa oriental de África foi naturalmente um tema de grande entusiasmo, embalados numas linhas de coca que entretanto preparou o nosso anfitrião.
Compreendi que este casal, ele peruano e ela americana há muito residente no Perú, tinham ido para uma região de nome Pucallpa em plena selva peruana no sentido de viver experiências insólitas com um produto de nome Ayawaska.
Interessado por esta experiência sensorial para mim desconhecida, quis saber mais.
Face à minha curiosidade, estes dois recém conhecidos contam-me o seguinte em espanhol:
-Nós descobrimos que dois xamãs (Xamã é um sacerdote tradicional do xamanismo que possui contacto com o mundo dos espíritos, demonstrando particular capacidade de profecia ou cura. Também denominados de mago, feiticeiro, curandeiro, ou bruxo), viriam visitar o Perú para conduzir sessões de cura espiritual utilizando Ayahuasca.
Dois dos nossos melhores amigos aceitaram juntar-se a nós nesta viagem inspiradora, e mesmo porque sentimos que estaríamos mais à vontade indo em grupo. Esta sessões têm a duração de três dias, sendo uma sexta-feira e o sábado de intensa aprendizagem e o domingo seguinte um dia para refletir e relaxar. Quando chegámos, fomos apresentados a estes xamãs de rostos poderosos, radiantes, sábios, mas acima de tudo, amorosos e muito gentis. Na nossa cultura, o papel do xamã tem sido esquecido e este contacto lembrou-me o quanto eles fazem falta nas nossas vidas. Os Xamãs mais velhos conhecem o funcionamento interno da mente e a influência que a sociedade tem sobre ela. Esse conhecimento de “o que foi” parece cada vez mais importante neste nosso mundo que está em constante transformação e tão rapidamente.

Ayahuasca 1
Extremamente atento a este relato, quis saber um pouco mais, perguntando a ambos:
-Mas vocês já tinha tido contactos anteriores com este tipo de experiência psíquica?
O Andrès, de forma esclarecida, prossegue:
-Tudo começou com o meu interesse na ligação entre experiências psicadélicas e a espiritualidade humana, em parte alimentada por um livro que li há um tempo chamado DMT: The Spirit Molecule por Rick Strassman. Para mim, a espiritualidade e a vivência do espírito, são a essência do que eu chamo de ‘Eu’. Diferentes experiências comportam vantagens físicas para uma compreensão mais ampla do mundo exterior e interior em que habita o nosso espírito e a nossa consciência. Esta tem sido a minha principal motivação para testar a nível pessoal, os diferentes níveis da minha consciência. Esta motivação levou-me, num passado recente, a práticas como a meditação, yoga, qi gong, a um estado psíquico flutuante, ao jejum, a drogas, ao sono polifásico, ao sonho lúcido e o mais importante de tudo, a conduzir minha vida diária segundo um determinado estado de consciência. Estados que me ajudaram a manter-me em frente ao meu verdadeiro Eu.
Bem impressionado com o que acabo de ouvir, pergunto:
-E qual é o saldo que vocês extraem de uma experiência deste nível?
Com um ar circunspecto e em total concordância com o olhar da Nancy, ele responde-me:
-A experiência com a Ayahuasca foi a mais intensa, espiritual, emocional, alucinante, assustadora e amorosa que já tivemos. Nada poderia ter-me preparado melhor para a viagem interior que vivemos desde Pucallpa. Porque eu acredito que morri. O que significa que estou nesta forma atual, enquanto descrevo esta experiência. É como se a minha consciência que anteriormente eu denominava de normal, estivesse vinculada a este corpo físico e entrasse a partir dali num mundo antes desconhecido. O meu maior desafio depois de viver esta experiência reside em interpretar e expressar essas visões que eu encontrei, para compartilhar os conhecimentos adquiridos com terceiros, despertando novas consciências na humanidade.

Ayahuasca 2   Ayahuasca 3
-Super interessante, exclamo!…mas segundo sei, o Ayahuasca é extraído de um cipó na floresta, certo?
Ayahuasca é um nome quéchua de origem inca, que se refere a uma bebida sacramental produzida a partir da coação de duas plantas nativas da floresta amazónica: o cipó Mariri ou Jagube, que serve como IMAO e folhas do arbusto Chacrona ou rainha, que contém o princípio ativo dimetiltriptamina…para melhor entender todo este universo tem que se viver esta experiência na primeira pessoa….conclui!
Que papo interessante a que eu tive direito esta noite, aumentando os meus conhecimentos nestas áreas tão intangíveis da nossa mente…notável!…mais uma aprendizagem!
Com um chá servido a todos pelo nosso anfitrião Nikita e alguns biscoitos de fabrico caseiro, acompanhados de mais um belo baseado, assim me encostei a um canto desta modesta casa para tentar o meu merecido descanso. Confesso que começo a habituar-me a esta sensação de adormecer com fome….grave!
Antes de adormecer, atravessou-me o espírito uma ideia que poderia ser interessante.
Uma vez que estou na capital do Perú, indagar onde será a Embaixada de Portugal e quem sabe, dali receber algum apoio circunstancial…uma ajuda logística…e quem sabe financeira.

Novo dia, novos desafios pela frente e tempo de aproveitar a guarida deste meu anfitrião, para ir saber onde estará a tal Embaixada Portuguesa e assim ter uma maior perceção da capital do Perú.
O meu desayuno foi mais uma vez precário com base num par de bananas e uma fatia de pão que pude comer em casa do Nikita antes de sair.
Sinto que estou a perder peso que já não é muito aceitável, desde que comecei há uns 5 meses atrás esta aventura sul americana. Estarei a viver das minha reservas físicas que já não são famosas. A palavra de ordem é tentar não ficar doente…face às condições em que me encontro, tenho que procurar alimentar-me melhor…não está fácil!
Hoje vou igualmente visitar a tal zona de Miraflores onde se vende igualmente algum artesanato na rua…levo comigo o meu stock e o meu estratégico tecido negro sobre o qual exponho o material….vamos a isto!

Lima 1  Lima 2
Uma vez no centro de Lima, tentei compreender onde seria a tal zona de Miraflores.
Ao chegar, constato que é à partida o local mais adequado para as vendas de artesanato, vendo os freaks que se estendem ao longo de um passeio largo em frente à praia e por onde efetivamente passa muita gente. Tenho que vender alguma coisa pois a minha situação está deveras complexa.

Artesanato 2   Artesanato 4
Depois de umas horas aqui instalado vou fazendo algumas vendas de bijutaria, tendo uma conversa muito interessante com um cara que se instala ao meu lado. Trata-se de um peruano de nome García muito viajado e que está de passagem em Lima onde habitam os pais. Segundo me contou, é filho de um conhecido psiquiatra da capital….estranhei o facto do filho de um psiquiatra vir para aqui vender artesanato…deve ser filosofia de vida…pensei!
Em conversa animada com o García que, tomando conhecimento de onde venho e consciência da minha situação precária, diz-me que os pais vão viajar e que poderá abrigar-me em casa dele durante 2 noites, a partir do dia seguinte…Humm…pareceu-me uma estrela cadente a riscar o céu.
-Pues García…es para mi un privilegio…muchísimas gracias!
-Y donde estás ahora, Chico?
-Me quedo desde ayer en la casa de un muchacho que es un artista que he conocido en Chorrilos.
-Entonces corre lo que tienes, nos encontramos aquí mañana e al final del día nos marchamos hasta mi casa que está cerca de aquí en un barrio que se llama San Isidro.

Esta segunda noite dormida em casa do Nikita é dotada de alguma solidão…encontro-me só dentro deste barraco e encontro o tempo de escrever mais umas notas no meu road book, onde vou deixando cair alguns pensamentos manuscritos, desenhos e impressões desta última parte da minha viagem.
Antes de adormecer volto a ter algumas reflexões que me atormentam e me colocam questões sem resposta.
Longe de casa e sem qualquer tipo de apoio, começo a sentir que as possibilidades de resistir a tanta dificuldade se revelam cada vez mais escassas. Factos que no entanto não alteram esta vontade de prosseguir viagem mais para norte.
Incontornavelmente, há sempre um pensamento que produz neste meu sentir alguma amargura…onde estará a Rose que eu nunca mais vi?…a Regina já terá chegado a Cuzco?…enfim!…uma roda de reflexões que rodopiam no meu espírito, dificultando o minha partida para o limbo. O estômago queixa-se de vazio e neste casebre não há propriamente soluções…Francisco, vira-te de lado e vamos lá tentar dormir.

Esta manhã, explicando ao Nikita o convite que tive ontem para ir passar duas noites na cidade, pude agradecer a sua solidariedade com um forte abraço.
Pela frente!…mais uma caminhada até Miraflores com mochila e violão às costas…e o estômago mal forrado.
Estas minhas jornadas de vendas vão tendo fracos resultados. O suficiente para ir comendo umas empanadas e umas sanduíches mais consistentes aqui e ali e uma peça ou outra de fruta. Refeições mais completas é algo que não vejo faz dias.

Artesanato 5 Artesanato 3
Mas por aqui vou ficando na tentativa de vender mais qualquer coisa. Pela tarde e para minha satisfação vejo chegar o Garcia que me pergunta:
-Que tal el negócio hoy, Chico?
-Bah!…fraquito, hombre!…se vende unas merditas y la vida sigue!…y tu que tal?
-Bueno…yo estuvo tratando estas bolsas de cuero con pirógrafo….vamos a ver el impacto.
Uma vez terminada mais esta jornada em Miraflores, é tempo de rumar a casa deste muchacho. Estou curioso!
A casa onde entro passado 15 minutos de marcha, fica no tal bairro de San Isidro. Um imóvel simplesmente palaciano…algo que não bate certo com este africano filho do talvez, que há muito dorme onde calha e muitas vezes debaixo das estrelas….estou impressionado!
Dois aspetos essenciais tomam uma especial dimensão na minha passagem por esta casa…tomar um banho a sério e dormir num colchão como as pessoas fazem….simplesmente transcendente.
Esta residência tem igualmente algo que me perturbou durante a visita que fizemos à chegada.
O escritório e o salão dos pais do Garcia tem expostos umas duas dezenas de corujas e mochos embalsamados espalhados por todos os cantos, com aquele olhar penetrante próprio destes misteriosos seres amigos da noite.
Vendo a minha expressão de alguma estranheza, o Garcia diz:
-La lechuza es considerado el símbolo de la sabiduría que atraviesa la oscuridad de la ignorancia, que puede ver en los temas oscuros asociados con la clarividencia (ver lo que otros no ven, escuchan lo que otros no escuchan).
El búho tiene una visión 100 veces mayor que la visión humana y una audiencia excepcional. Creo que por esta razón los psiquiatras han adoptado estas aves como sus símbolos naturales.
-De acuerdo, amigo…pero me deja un poco intranquilo por la forma como nos miran.
O García responde-me naturalmente com um sorriso.
Esta primeira noite da realeza foi, apesar de mais uma vez me deitar com alguma sensação de fome, de um sono reparador depois de tomar um banho de água quente como há muito não tomava…conforto é realmente outra coisa!
Durante este banho tive uma outra desagradável surpresa. Ao lavar a cabeça, tive uma visão no fundo da banheira que me deixou algo arrepiado. Piolhos no cabelo.
Está justificada a comichão que ando a sentir há já vários dias na cabeça.
Nada de admirar face às condições de vida das últimas semanas. Dormir em lugares duvidosos e levando uma higiene precária…o lado complexo desta vida errante.
Tenho pouca plata mas amanhã terei que passar numa farmácia para tratar deste assunto. Insuportável a convivência com estes seres minúsculos que entraram no meu couro cabeludo sem pedir licença…grrrrrrr!…
Aproveitando estas condições excecionais em que me encontro, lavei triplamente o cabelo.

Um novo dia desponta…Lima é uma cidade onde se sente o peso da atmosfera que contrasta com o ar puro que respirei ao longo de meses no Altiplano andino. Após um desayuno agradável que o Garcia me proporcionou em casa dos pais, e que me soube a céu, é tempo de regressar a Miraflores para novas vendas.
No caminho para este meu destino e preocupado com a invasão da minha cabeleira, passei numa farmácia onde comprei uma loção própria para as invasões destes pequenos seres repelentes.
Depois de umas horas decorridas em Miraflores, há surpresas neste mundo dos vivos que são, pela sua emoção, um acontecimento com peso próprio.
Andando na minha direção vem alguém que surpreendentemente me faz levantar e gritar:
-Nuno!
E trata-se efetivamente do meu companheiro Nuno Quadros que está vindo acidentalmente ao meu encontro…alegria no ar!
Um forte abraço tem lugar naquele passeio dos freaks de Miraflores.
-Mano velho!…digo eu, visivelmente satisfeito com mais este encontro por caminhos da América latina com este companheiro de estradas poeirentas.
-Chicão!…cá nos cruzamos novamente, cara!…infalível!
-E então? estás bem?…faz quanto tempo estás em Lima? Pergunto embalado no fogo deste encontro.
-Já faz uma semana. Estive uns dias num lugar chamado Barrancos em casa de um casal de freaks daqui da feira. Mas a gaja foi com a minha cara e atacava-me à noite na minha cama enquanto o homem dela dormia ali a uns metros. Tive que sair de lá, man!…senão aquilo ia dar merda!
-Hilariante! Respondo com o meu ar de gozo…e aí foste para onde?
-Olha, tive uma estrela que brilhou pra mim, cara! Encontrei por cá aquela cantora que conheci em Cuzco. A Verónica, lembras-te dela?
-Sim, tenho uma ideia! Qual era o nome artístico dela? Elsa?
-Sim, Elsa Maria Elejalde. Olha, foi a minha sorte. Levou-me para casa dela aqui num bairro chique chamado San Isidro.
Com ar de alguma picardia, respondo:
-Sempre tens umas gatas a correr atrás de ti, certo? Mesmo nesta vida de vagabundo a tradição mantém-se portanto.
-Que queres que eu faça?…elas aparecem e eu tenho que as socorrer…responde-me este meu companheiro com a mordacidade que lhe é tão característica…risada no ar!
-Mas é curioso! Também estou a dormir nesse bairro…mas só por estas duas noites. Encontrei aqui um freak que é filho de um psiquiatra que me ofereceu dormida enquanto os pais estão a viajar.
-Small world, buddy!…vamos sentar aqui…como é com as vendas?
-Nada de novo…a dureza do costume. Mas a propósito de dureza. Estou aqui com uma ideia que talvez tu alinhes comigo.
-Conta aí! responde o Nuno curioso.
-Agora que se deu aquela revolução lá em Portugal e visto andarmos aqui aos caídos, que tal passar pela Embaixada Portuguesa aqui em Lima e ver o que pode pintar em termos de apoio a dois refugiados políticos foragidos do regime deste lado do mundo?
-Piraste, Chico!…refugiados políticos?…responde este meu companheiro com ar divertido.
-Porque não?…tentar não custa…vamos lá ver como é?
-Pois seja…já fizemos tantas loucuras juntos…mais uma…vamos nessa! Diz finalmente o meu companheiro com ar de malandragem.
Pedindo informações num posto de polícia ali próximo, ficámos a saber que a Embaixada Portuguesa é numa zona de Lima chamada Callao….não longe de Miraflores….ótimo!…bora lá!
Ao entrar neste edifício com uma bandeira familiar, sinto uma sensação, talvez aparente, de alguma proteção.

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Uma sensação marcada pela surpresa ao ver dentro de uma sala ampla onde entramos, uma fotografia do General Costa Gomes na parede e em cima de uma mesa a um canto, outra do Marcelo Caetano….os deuses devem estar loucos!…disse para os meus botões! O Marcelo ainda aqui anda?
Após apresentação dos nossos passaportes, a nossa abordagem junto de um funcionário que nem fala português, foi algo bizarra. Explicando a nossa condição financeira e as nossas circunstanciais convicções políticas, fomos serenamente ouvidos por este cavalheiro com ar de tudo menos de lusitano, que se retira, deixando-nos à espera nesta sala por uns bons 10 minutos.
A resposta que obtivemos foi simples, curta e conclusiva.
Em tons cinza este funcionário diz-nos:
-El señor consul aqui presente me manda transmitir a ustedes que esta Embajada no está capacitada para este tipo de apoyo a ciudadanos portugueses, pero me dijo para les entregar esto.
Disto isto, somos patrióticamente regalados com um maço de tabaco e uma nota de 50 soles cada um…em nome da pátria amada…e não digam que não, seus vagabundos….pensei!
Uma vez cá fora, olhamos um para o outro com umas caras que demonstram bem um misto de deceção e gozo, fruto deste momento nacional caricato vivido ao vivo e a cores deste lado do mundo.
E assim voltamos para o canto das vendas em Miraflores.
-Mano, qual é o teu plano a partir daqui? Pergunta-me curioso o Nuno.
-Na verdade, acho que estou a pensar seguir caminho para o Ecuador. Tenho na ideia ir ver as Ilhas Galápagos…respondo eu.
-E ficas mais quanto tempo por cá? Quer saber este meu companheiro.
-Mais esta noite, acho…e vou aproveitar a cama onde estou a dormir e descansar antes de partir…não me ando a sentir em forma nestes últimos dias…pouco apetite…mal estar…acho que tenho que comer melhor. Aqui em Lima não está fácil, mano!
-Bem, eu conto viajar dentro de dias para norte também e acho que nos cruzaremos más arriba.
-Ya!…isso tem acontecido entre nós curiosamente. Em principio vou daqui até à fronteira de Tumbes e daí até Guayaquil no Ecuador. Respondo com alguma convicção.
-Ok!…vamos combinar algo daqui em diante então…dispara o Nuno
-Diz aí, mano!
-Nas próximas grandes cidades passamos nas instalações de Bombeiros locais, que é um bom lugar onde ficar uma noite ou outra e onde podemos deixar notícias para quem vem a seguir. Que te parece Chico?
-Perfeito, cara!…se passares em Guayaquil passa por lá e logo saberás se continuei o meu caminho ou se por ventura estou nas Galápagos.
E com mais esta troca de sinergias entre estes dois moçambicanos deste lado do mundo, um forte abraço encerra mais este encontro em Lima.
-Te cuida, Chicão…não estás na melhor forma, mano!
– Eu sei Nuno!…vou fazer por isso!…Thanks buddy!

A minha ideia de visitar este arquipélago das Galápagos vem de outras leituras que fertilizaram o meu imaginário, ao ler anos antes o livro de Charles Darwin – A origem das espécies.
Neste livro, escrito a bordo de um navio de nome Beagle, onde este cientista inglês navegou durante 5 longos anos, são abordadas e desenvolvidas as imensas teorias sobre o surgimento e desenvolvimento dos seres vivos no nosso planeta azul.
Teorias das quais sou em geral adepto desde então, nas quais se insere uma especial incidência de estudos desenvolvidos em torno das florestas tropicais da América do sul e sobre o fenómeno animal presente nestas insólitas ilhas ao largo de Guayaquil. Algo que desde então viveu no meu espírito. Agora que estou aqui tão perto não posso deixar passar uma oportunidade desta dimensão científica.
Esta noite, antes de me recostar para descansar, passei novamente na banheira para um bate papo sério com os invasores do meu cabelo.
Penso que com a aplicação deste produto obtive no imediato um bom resultado, a avaliar pelo número de baixas no lado do inimigo!…resta saber se as lêndeas (ovos) se soltam com este produto…em regra não!…vamos ver daqui em diante!
Se esta festa continuar terei que optar pela solução mais radical. Fazer um corte radical da floresta…mas magro como estou, imagino como ficarei…um sobrevivente de Auschwitz no mínimo…adelante!
Com o fim desta simpática estadia em casa do García, com a aproximação do final do meu visto em terras del Perú e a vontade de conhecer o tal arquipélago, pensei que seria uma boa ideia retomar a estrada na direção norte. Único contra…este mal estar que se apoderou de mim nos últimos dias.
Uma má disposição que me provoca um cansaço extra ao qual não estou habituado, uma falta de apetite crescente e uns enjoos frequentes que começam a preocupar-me sériamente.
Em casa do García tive esta manhã a oportunidade de aferir o meu peso atual…54 kg…olhando para o espelho, disse aquele fulano franzino que está à minha frente…que te pasa hombre?…temos merda pela frente certo?…enfim!…vamos em frente!
Feitas as despedidas e sinceros agradecimentos a este meu anfitrião peruano e antes de ir novamente para a estrada, faço uma última passagem por Miraflores numa tentativa de vender mais alguma coisa. O resultado não foi famoso, mas sempre deu para reunir uns trocos para comer algo antes de seguir viagem.

Estamos a 24 de Junho de 1974…tempo de dizer…bye, Lima!…see you again one day!
Tempo também de viajar no meu pensamento até Cuzco onde se festeja hoje o Inti-Raimy . A festa do sol com uma grande celebração nas ruínas de Sacsayhuaman.
Impossível não pensar na minha companheira Rose que junto com a Regina lá estarão a assistir a esta grande festa em Cuzco. Afasta daí o teu pensamento, Francisco. Olha para o norte e vamos a isto!
Sentindo alguma falta de energia que já vem sendo uma constante e respirando este ar húmido e pesado da capital peruana, lá me sento na berma da rodovia Pan-americana em cima da minha mochila…com o violão da minha carioca, sempre fiél ao meu lado.

Tenho pela frente 1280 km até à fronteira com a República del Ecuador.
Nesta nova fase da minha aventura sul americana, a primeira boleia leva-me até Chimbote num circuito costeiro muito agradável. Trata-se desta vez de um camião de distribuição de combustível. Mais uma vez, a conversa com o condutor é bem animada até chegarmos ao nosso destino. Apesar da minha disposição não ser das melhores, sou um bom comunicador e gosto de contar histórias, o que sempre contribui para estas correntes de comunicação fluida. E os quilómetros vão passando.
Chimbote é conhecida pela sua atividade portuária, além de ser um importante centro para a indústria pesqueira e siderúrgica do país. Segundo o condutor deste camião, em meados do século XX, o porto de Chimbote chegou a ser o porto de pesca com a maior produção do mundo…impressionante, pensei!
E por aqui fiquei aproveitando mais uma iniciativa solidária que me é oferecida por este simpático companheiro de estrada…poder dormir dentro deste camião até ás primeiras horas da manhã, quando partisse para a entrega da carga de combustível num fábrica ali perto.
Novo dia, pouca disposição para seguir viagem, mas tem que ser. O apetite mantêm-se fraco e por vezes sinto-me enjoado. Uma tentativa de comer algo mais consistente dá-se apenas num botequim popular ali perto onde, a custo, me alimento com uma sopa e umas frutas locais…o suficiente para seguir caminho!
A minha próxima boleia só aparece ao fim de uma boa hora quando uma carrinha de nove lugares para, para me perguntar:
-Hola, gringo!…buenos días!…para donde sigue?…pergunta-me um fulano mestiço de pele escura com um grande bigode e ar simpático.
-Hasta Ecuador me voy!
Bien!…pues, hasta Chiclayo puede venir con nosotros!
-Muchas gracias, digo eu entrando naquela carrinha tipo station acompanhado de 3 homens e duas mulheres de aspeto índio.
Sobre esta via pan-americana, o meu espírito segue solto e vazio de emoções dado o estado debilitado em que me encontro. Entre as retrospetivas que me acompanham e que são muitas, trago uma nova preocupação no espírito. Descobrir o que se passa comigo.
Ao longo do caminho pararmos nas localidades de Trujillo e Pacasmayo para cumprir as necessidades fisiológicas. Tempo de descobrir que até a cor das minhas feses é estranhamente clara e a urina estranhamente escura…os enjoos são mais frequentes!…Damn! Tenho que ir ver um médico quando chegar ao Ecuador.
A nossa chegada a Chiclayo dá-se passado umas horas.

Chiclayo 2   Chiclyo 4
Chiclayo é um importante centro urbano, sendo conhecido, conforme pude ler num painel à entrada, como a Capital da Amizade pela simpatia e cordialidade de seu gente…bom sinal, pensei!
Não tendo mais paciência nem disposição para continuar o meu caminho, dirigi-me a uma tasca ali perto onde pude saciar a sede e comer mais alguma coisa com os trocos que ainda trago comigo. O apetite é zero e tudo o que como é feito com esforço.
Cumprida esta missão, penso. Vou precisar de descansar, mas não sei onde. Uma ideia que já é um clássico me ocorre…procurar o corpo de bombeiros local que uma vez mais correspondem ao meu pedido, deixando-me dormitar num canto das instalações, sobre uma cama de serviço.
Às primeiras horas da manhã sou presenteado com uma taça de café com leite e uma sanduíche que estes bombeiros me oferecem…agradecendo, pensei…..almas santas estes soldados da paz!..com algum esforço lá tomei este meu parco desayuno.

Chiclayo 1  Chiclyo 3
Após este simpático momento e agradecendo o apoio dado a este forasteiro em dificuldades, segue-se um novo dia. Sinto-me, apesar do meu estado debilitado, com uma sensação de algum sono recuperado e um pouco mais de energia para cumprir esta última etapa em terras do Perú….adelante!
A espera desta vez na Pan-americana foi mais longa e penosa…ali estive com algum sofrimento físico à saída de Chiclayo uma boas duas horas, tendo parado ao meu lado o meu próximo anjo da guarda…um camião de carga de matrícula do Ecuador….será que estou com sorte?
-Hola, señor!…buenos días!…usted es ecuatoreño?
-Si…gringo, me voy a Ecuador…si este es su camino, pues venga!
Em conversa com este homem bem disposto de traço mestiço que viaja sozinho, e depois de uma breve troca de palavras, compreendi com natural satisfação que o nosso destino é o mesmo. A cidade de Guayaquil no Ecuador…great!
Sem perder durante mais uns quilómetros a fantástica vista da costa do Pacífico e numa agradável troca de prosa, assim chegámos à fronteira do Ecuador. Uma localidade denominada de Tumbes. Estão assim cumpridos mais quase 500 km de rodovia Pan-americana.

Tumbes 2   Tumbes1
Zona de fronteira. De realçar a concentração de gente que circula entre os dois países e a intensificação do tráfego rodoviário. Segue-se o controle de passaportes e o stress associado a estes momentos obrigatórios. O que tem que ser tem muita força!
Apesar do mal estar em que me encontro, é tempo de evocar os 3 fantásticos meses que vivi junto com os meus companheiros neste fantástico país que é o Perú.

Ali, junto à fronteira, posso ler duas frases filosóficas escritas à porta de um bar:

“Todos vivimos bajo un mismo techo, pero no tenemos el mismo horizonte.”

“En Perú nunca andes por el camino trazado, pues te conducirá únicamente hacia donde los otros fueron.”

Republica del Perú

Adiós Perú!…estarás para sempre em lugar de honra na minha memória!

 

Continua na próxima quarta-feira dia 03-06-2015.

8 comentários

8 thoughts on “A via Pan-americana

  1. Teresa Amaral

    E vivam os Soldados da Paz!!! Boa!

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  2. Maria Teresa.Barbosa.

    Meu corajoso amigo,depois de tão longa bela e terrível viagem,estou a precisar, não do nobre acolhimento dos Bombeiros mas sim do sofá fofo da minha saleta.Mais uma vez a discrição brilhante que me foi dado acompanhar deixou-me completamente encantada e,com uma enorme admiração por este belíssimo repórter.Bem haja por mais uma vez me levar ao País dos meus sonhos.Foi duro mas valeu a pena Aguardando a próxima etapa,envio as minhas amigáveis saudações.M.Teresa

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  3. Olá Maria Teresa,
    Os acontecimentos sucedem-se, cumpro alguns sonhos do meu imaginário mas a condição de vida infelizmente não melhora….antes pelo contrário!
    Mas a minha vontade de descoberta e o destino tem conversas frequentes…e só me contam uma parte…há que viver cada momento e usar uma estratégia que vai sendo eficaz…a audácia…com a ajuda sempre preciosa dos soldados da Paz…
    E vamos em frente…
    Um forte abraço!

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  4. Teresa Amaral

    Foste ao médico???? 😉

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  5. Não!…foi tudo muito complicado…mas não foi fatal!…otherwise não estaria aqui a contar como foi!
    Quem ler saberá como foi!
    Abraço mana!

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  6. Teresa Amaral

    Hoje (sábado, 30/5) não tem novo episódio?? 😦

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  7. Olá Teresa,
    Não teve porque o timing não dá para tudo…ás vezes a vida agita-se…4ª Feira (3-06-2015) há mais miga!
    Beijo grande!

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  8. lenocas

    Puxa Chico, grande aventura que tiveste,muito agitada de emocoes.

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