Ao sabor da irreverência

Ao sabor da irreverência

 

WalkOnThe-WildSide

Com a partida do Bags meses antes para o Brasil, nasceu no meu espírito um novo objectivo na consolidação da minha apetência pelas viagens. Por influência deste meu companheiro passei a vibrar com uma nova aspiração. Conhecer terras do Brasil onde tenho raízes antigas da parte da família do meu pai.
A minha relação com o meu pai atingira o mais baixo nível dos últimos anos, mantendo-se a minha mãe na posição protectora que sempre praticou em relação à minha irreverência.
A minha vida afectiva é nesta fase partilhada com a Tina, uma miúda linda de estatura média com uns olhos muito expressivos, um cabelo ondulado escuro, muito doce no trato e portadora de uma sensibilidade artística fora do comum.
Durante este ano de 1973, a Tina tem sido a minha alma gémea tendo conquistado um lugar especial na minha existência e com quem partilho uma bonita paixão. Nesta fase a Tina frequenta diariamente a casa dos meus pais onde é recebida como um filha.
No sentido de dar forma a este meu plano de ir visitar o Brasil, atravessou-me o espírito fazer um pacto com os meu pais que consta do seguinte:
Se eu conseguir vencer o exame este ano, os meus pais como prémio oferecem-me uma passagem de 15 dias para ir ver o carnaval no Rio de Janeiro.
Perante a clássica resposta maternal dizendo – fala com o teu pai, a resposta algo evasiva do patrão foi esta.
-Estou para ver se és capaz!
Tendo esta missão pela frente, o meu empenho para atingir esta meta foi grande, tendo abdicado durante as semanas seguintes da companhia quase permanente da minha namorada, das saídas com os amigos e das habituais farras, aqui e ali.
A batalha foi finalmente ganha e sobretudo nas duas grandes vertentes que são sempre as disciplinas vitais. O português e a matemática. Em português consegui um 12 e na matemática um tangencial 10,5…podia ser pior.
Mas o meu hipotético contentamento bate contra uma parede de betão quando me aproximo do meu pai a fim de reclamar a minha contrapartida.
-Não fizeste mais do que a tua obrigação. O beneficiado serás sempre tu! E além disso não vejo porque haveria um prémio para ti que nos tens feito a vida negra nos últimos tempos.
Apesar de deveras zangado com esta resposta, a minha decepção paternal teve a posteriori um efeito de mola em mim. Em vez de ir ao tapete, fui assaltado por uma outra inspiração.
Perante esta dificuldade imposta pelo meu pai, entendi chegada a altura de tentar a minha via artística produzindo um conjunto de quadros a óleo para expor publicamente. Com o produto das vendas, conquistar eu mesmo a minha desejada passagem para o Brasil.
O meu encontro com a arte plástica desenvolvida nos últimos dois anos teve como base um curso de formação junto da grande Bertina Lopes com quem tive o privilégio de aprender as técnicas do desenho a carvão.
A minha apetência pelas artes é parte integrante da minha herança materna. Associada a esta tendência paira no meu espírito um outro objectivo para me acompanha desde cedo. Dar corpo a um velho sonho, uma vez regressando a Moçambique. Continuar os meus estudos tendo em vista tirar um curso de Arquitetura.
Este bichinho tomou uma maior expressão na minha vontade no ano anterior, desde a experiência que o meu pai me proporcionou trabalhando voluntariamente, no gabinete de um amigo dele. O arquitecto João Tinoco, onde tomei o meu primeiro contacto com este universo fascinante.
Neste dia, este apelo artístico ganha uma nova importância no meu espírito. Neste propósito sou incentivado pela Tina com quem partilho com entusiasmo este mundo das artes. A Tina tem um especial dom para os bordados em t-shirts ao qual dedica umas horas do dia. Os trabalhos manuais dela, que eu visto frequentemente, são uma imagem de marca entre nós..
Consolidada esta ideia de expor os meus trabalhos publicamente, este meu esforço desenvolve-se ao longo de dois meses onde me fechei no meu atelier improvisado na garagem lá dos fundos, onde pintei, seleccionei e emoldurei 12 quadros a óleo e alguns batiks de maior dimensão.
Os meus temas desenvolvem-se em torno do surrealismo. Uma temática sensível, à qual dediquei nos últimos tempos uma especial atenção, através da leitura e visualização de obras dos grandes mestres onde naturalmente se destaca Salvador Dali. Sentia-me especialmente influenciado por determinadas obras deste mestre como sendo: A Persistência da memória, a Girafa em chamas, o Sono, a Crucifixação de S. João da Cruz, A última Ceia, inspirada na obra de Leonardo da Vinci, entre outros.
Feitos alguns contactos em torno deste objectivo, a minha primeira exposição tem lugar na Sociedade de Estudos no bairro da Polana, por trás da famosa catedral em betão com um formato de espremedor de laranjas. A Igreja de Sto António da Polana, que é um ícone desta nossa cidade.

 

Exposição Sociedade de estudos 1   Exposição Sociedade de estudos 2

Exposição Sociedade de Estudos 3    Exposição Sociedade de Estudos 4

 

A Vernissage ocorreu no dia 16 de Novembro de 1973 presidida pelo director do Jornal de Notícias de Lourenço Marques, tendo culminado na venda de 8 quadros, o que me permitiu reunir condições para realizar o meu objectivo. Viajar para o Rio de Janeiro.
Com as dificuldades da Tina em me acompanhar nesta viagem, os dias que se seguiram foram geradores de alguma angústia entre nós. A nossa separação física embora temporária, deixava no ar uma emoção pouco agradável tocada por alguma tristeza e inquietação.
-Eu volto no fim do mês e tudo voltará ao normal. Digo eu, abraçando a minha linda companheira.
-Vai, Chico! Tu tens que ir cumprir esse sonho…são 15 dias, estarei aqui à tua espera! Responde-me a Tina com o olhar doce que tanto a caracteriza.
Segue-se uma aventura pouco agradável na área burocrática.
Para embarcar, eu tenho que obter dois documentos essenciais:
A autorização para sair do país, concedida pelos meus pais (obrigatória por lei até a idade dos 21 anos), facto que não ofereceu uma especial resistência com a benéfica ajuda da minha mãe, sendo a autorização militar um outro desafio a enfrentar.
Contrário desde cedo às correntes ideológicas de servir a pátria dentro de uma farda das forças armadas, eu faltara à chamada regular da inspecção militar meses antes.
Coloca-se aqui uma questão delicada. Para sair do país eu tenho que ter uma autorização militar. Para obter uma autorização militar eu tenho mesmo que fazer esta maldita inspecção….damn!
Cheio de coragem, apresento-me naquela manhã no Distrito de Recrutamento Militar da rua de Nevala para a dita inspecção militar antecipadamente marcada.

 

Destino Ultramar

 

Nesta época, com o país em guerra, os refractários são recebidos neste serviço como uma espécie de culpados sem culpa formada e vistos com uma evidente desconfiança pelo aparelho militar.
Numa sala apresentam-se 5 homens. Eu sou o único candidato caucasiano. Os outros 4, moçambicanos de raça negra.
Concluídas os primeiros procedimentos de identificação e explicação sumária dos motivos que nos levaram a não comparecer à primeira chamada da inspecção militar, é de assinalar a passagem peculiar de dois dos candidatos. A minha e a de um outro refractário.
Uma vez concluída a fase de inspecção preliminar, o sargento de serviço olha para mim e diz-me:
-Você sabe que com esse cabedal vai para os comandos?
-Não, não tenho a menor ideia. Respondo com o meu ar falsamente descontraído.
-Mantenha-se calado e aprumado. Aqui quem fala sou eu! Responde-me este sargento com ar arrogante.
E lá pensei para os meus botões …vais-me ver nos comandos, vais!…nem à porrada, meu cabrão!
A outra inspecção curiosa foi a do homem mais velho do grupo, cuja aparência já indicava um candidato fora de prazo.
-E você, o que é que está aqui a fazer? Pergunta o garboso sargento.
Ah, senhor!…patarão mandaste vir no tropa!
-O patrão? Responde o sargento de forma determinada. Mas que idade é que você tem?
Este nosso companheiro, senhor de uma barriga bem pronunciada, com a maior naturalidade, responde.
Quando nasceste, o milho estava desse tamanho. Atravessando a mão esquerda sobre o antebraço direito.
A risada foi geral e o sargento, com alguma dificuldade em conter o riso, lá se impôs dizendo:
-Calados e aprumados! Você vai mas é para casa pois já passou a idade de fazer o serviço militar. E diga ao patrão que você não vai mais fazer o tropa.
-Sim senhor sargento!
Mas esta passagem agreste produziu o resultado desejado. Dois dias depois, passei no DRM (Distrito de Recrutamento Militar), para ir buscar a bendita licença militar.

Por mera coincidência, voltei a esta zona militar passado uns dias. Desta vez a convite de um meu amigo e colega do Liceu chamado Carlos que me diz:
-Chico, já alguma vez foste ao Hospital militar?
-Não, porquê?
-Tenho lá um amigo de infância que pisou uma mina e está em mau estado. Vou lá visitá-lo esta tarde, se calhar podias vir comigo.
-Ao Hospital militar?
-Sim, Chico, é uma outra visão desta guerra de merda. Uma tomada de consciência dura mas necessária para gajos como nós que não topamos esta loucura.
Passados breves momentos de reflexão, respondo a este meu amigo.
-Por que não. A que horas vais?
-Passo em tua casa que é a caminho pelas 2h 30, ok?
-Ok, Carlos…até logo então.
A nossa entrada naquele pavilhão é marcada por uma visão sombria e angustiante.
O cenário é absolutamente surreal. Estarão nesta ala, de um lado e do outro, seguramente mais de 80 pacientes e o que podemos constatar aqui é deveras chocante. Jovens militares todos vindos das frentes desta maldita guerra que se desenvolve a norte, e mais recentemente, na zona centro de Moçambique. Uns sem pernas, outros sem braços, outros cegos, outros totalmente estropiados e muitos queimados…uma visão do Apocalipse!
Informados onde estaria o paciente que vínhamos visitar, lá nos conduziram à cama onde se encontrava. A nossa passagem em frente daquelas vítimas é puro surrealismo. Nem quero acreditar no que os meus olhos vêm.
Chegados junto do nosso paciente, é fácil e doloroso constatar o seu estado. Perdeu uma perna e um braço ao pisar uma mina na região de Montepuez (zona norte do território onde a guerra é bastante intensa). A nossa chegada junto dele é sinónimo de uma evidente satisfação, marcada naturalmente pelo traumatismo profundo que está a viver. O seu estado psicológico, embora clinicamente estável, é indicador de um incontornável futuro deveras negro que o destino e esta maldita guerra lhe ofereceram.

Passados os 30 dolorosos minutos desta visita, e uma vez fora deste pavilhão de desgraças, digo ao meu amigo Carlos:
-Joe…não tenho palavras! Isto é puro surrealismo. Em que mundo vivemos? Numa cidade onde anda tudo na boa, quando lá em cima se vivem verdadeiros horrores!
-Chico, eu sabia que devias vir comigo…eu é a segunda vez que cá venho. Isto é uma enorme cacetada no cérebro. Assim tens uma outra visão do território onde vivemos.

 

Em nome da pátria

 

O tema resultante desta visita foi naturalmente objecto de acesa discussão lá em casa à hora de jantar. Contando o que tinha visto naquele Hospital militar confrontei os meus pais com questões directas e contundentes.

-Vocês têm a mais pequena noção que estamos a viver esta Dolce vita aqui na capital enquanto centenas, para não dizer milhares de jovens como eu, estão a ser massacrados e a perder a vida dentro destas fronteiras? Já vos ocorreu que algo está profundamente errado em tudo isto? Vocês estão há mais de vinte anos em Moçambique como se estivessem confortavelmente instalados em território português.
-É?…e o que queres dizer com isso? Responde o meu pai com ar duro
Já vos ocorreu que várias nações no mundo apontam o dedo grande a Portugal por este atraso civilizacional? E que um dia este sonho pode acabar mal?
-Lá vens tu com as tuas ideias parvas. Repica, o meu pai elevando o tom de voz.
-São ideias parvas, é?…e que o que vocês dizem da triste realidade de estarem a viver nesta ilusão de uma dita Guerra do Ultramar que está a ser perdida cada dia que passa? A ouvirem a contaminação das notícias do governo de Portugal que vos lava o cérebro dizendo que está tudo controlado. Com uma vergonhosa propaganda.
-Isso tudo são conversas de comunista que recebes das tuas boas companhias…além das drogas e de saltar fronteiras agora também é política. És uma vergonha! Como é que um filho meu pode falar assim?
-Por favor, estamos à mesa. Suplica a minha mãe, extremamente incomodada com o tema.
Pois acontece que esse ditos comunistas, como vocês lhes chamam, têm uma visão bem diferente dos fatos. Enquanto os outros países colonizadores começaram a partir dos anos 60 a negociar com os dirigentes dos países ocupados no sentido de estabelecer auto-determinações e posteriores independências, vejam o que fez o Salazar!…Guiné, Angola e Moçambique são nossos!
-Quem és tu para por em causa as decisões do Estado português?
-Quem sou?…alguém que toma cada vez mais consciência do tremendo erro histórico assinado por esse homem que vocês idolatram. Um governante que nunca pôs os pés em África, e que proclamando esta guerra hedionda, manda para cá uns bons milhares de jovens inocentes, ditando a desgraça de todos aqueles que vi hoje naquele hospital. Destes e muitos outros que perdem a vida em nome deste erro histórico sem tamanho. E quantos destes que nunca saíram das aldeias em Portugal, lhes metem uma G3 nas mãos para combater uma causa que não compreendem. Num continente totalmente estranho em condições extremamente adversas.
-Não há guerras sem vítimas. Aqui e em qualquer lado. Responde o meu pai visivelmente irritado.
A alienação é tal que vocês chegam ao ponto de mandar para este teatro de horrores um filho vosso. E fazem-no cheios de orgulho!
Aflita com o andamento da conversa a minha mãe implora.
-Vamos parar com a conversa para não entornar o caldo. Peço aos dois, em nome do que é mais sagrado nesta família, vamos parar com a discussão.
A reação do meu pai é imediata! Olhando para mim com uma expressão que eu já conheço, levanta-se da mesa, atirando com o guardanapo. Interrompendo subitamente o jantar sai porta fora, vermelho de raiva.
Visivelmente incomodado, retiro-me igualmente deixando a minha mãe lavada em lágrimas.
Por esta altura já o meu irmão Rodrigo concluiu a sua formação de piloto aviador ao serviço da Força Aérea Portuguesa, chegando por estes dias a Lourenço Marques, seguindo para o norte para cumprimento da sua missão. Defender a pátria amada.

 

Orgulhosamente sós

 

Em conversas de bar que tiveram lugar nas semanas seguintes, há alguém que se interessou especialmente pelo meu projeto brasileiro comunicando-me a sua intenção de me acompanhar.
O meu amigo Nuno Quadros.
Conversa de doidos, pareceu-me à primeira vista.
O Nuno é um amigo de há alguns anos e o filho mais novo de um clã de 9 irmãos (3 rapazes e 6 raparigas) oriundo de uma tradicional família moçambicana da época.
O Nuno que é um tipo alto, bem parecido, com um nariz pronunciado, portador de uma gargalhada fácil, de um carácter mordaz e humorista, é senhor de uma farta cabeleira alourada.
Sentados ao balcão a saborear uma Laurentina, o Nuno, voltando-se para mim, diz-me:
-Vou contigo pro Brasil, Chico!…arrancas quando?
Espantado, respondo.
-Devo ir nos primeiros dias de Janeiro…dentro de uns 17 dias. Mas diz lá como vais fazer para vir, joe?
-Tenho aqui uma ideia que pode funcionar, mas vais ter que me ajudar. Diz-me o Nuno com ar determinado.
-Como assim? pergunto
Chegando-se mais perto do meu ouvido diz-me:
-Se eu vender umas cenas que estão na cave lá de casa acho que consigo comprar o meu bilhete, ainda levar algum taco e algumas outras cenas para vender. Mas este assunto é só entre nós…ok?
-Bom, ideias não te faltam! exclamo com o meu ar de total surpresa!
Esta cave a que o Nuno se refere é um rico depositário de troféus adquiridos nas rondas de caça grossa realizadas desde há muito pelo irmão Rui Quadros, conceituado caçador com prestígio e experiência adquiridas nesta actividade, que colhe muitos adeptos nesta região da África austral.
A ideia peregrina do Nuno é retirar furtivamente daquela cave um par de defesas de elefante com uns bons vinte e tantos quilos de peso cada e vendê-las no mercado local. O assunto é grave, visto que estas defesas estão destinadas a um cliente estrangeiro do irmão Rui.
Com os olhos bem arregalados o Nuno diz-me:
-Tenho que encontrar um comprador desta cena logo que possível, sacar o taco, comprar a passagem e arrancamos…o que achas?
-Meu caro…a tua ideia é mais do que louca!…mas se conseguires fazer essa transação nestes dias que faltam, digo-te que é uma missão de alto risco, mas quem sabe?…vamos a isso! respondo com a cabeça quente e movida pela adrenalina que o tema inspira.
A verdade é que passados uns dias o Nuno se aproxima novamente de mim dizendo-me:
-Para que dia tens a tua passagem pro Rio?
-Dia 14 de Janeiro…então porquê? pergunto curioso!
-Joe, tenho o negócio fechado e vou esta tarde sacar o taco e comprar de imediato o bilhete. Reservaste onde? Quer saber o Nuno com o entusiasmo estampado nos olhos
-Na Wagon-lits da Manuel de Arriaga. Vou na DETA para Joanesburgo e na VARIG para o Rio. Regresso previsto para dia 30 de Janeiro.
– Ok, vou lá esta tarde. Depois digo-te como é!
-Mas olha lá!…conseguiste fazer negócio? E quando o teu irmão der pela falta…levas uma carga de porrada!
-Nessa altura já estamos do outro lado do Atlântico! Diz-me o Nuno com um ar de total malandragem.
-Mas uma outra barreira tem que ser ultrapassada para poderes viajar. A tua autorização paternal e a licença militar. Como é? pergunto eu desta vez.
-Ya! ganda merda! Responde-me o Nuno com ar naturalmente preocupado.
Desta vez o assunto é mais sério e depois de uma reflexão profunda sobre a matéria ocorreu-me uma ideia peregrina na sequência da qual digo ao Nuno:
-Joe, só vejo uma hipótese nesta parte da documentação.
-O quê, man? Pergunta-me o Nuno com um ar expectante.
-Tenho lá em casa uma licença militar em branco que saquei lá no DRM. Vou preenchê-la com o teu nome, etc, assinar com uma assinatura igual e inventar forma de a carimbar conforme está na minha.
– Achas que consegues? Pergunta o meu camarada de olho arregalado!
-Eu levo algum jeito para estas merdas. Vamos ver.
-E a autorização do meu velho?
-Essa é outra aventura, Nuno! Respondo com um ar preocupado. Mas vamos fazer isto. Dá-me os teus dados (Nome, data de nascimento etc) e um documento onde esteja a assinatura do teu pai. Há lá em casa uma máquina de escrever. Eu faço um documento semelhante ao meu e vou tentar lá pôr a assinatura do teu velho feita por mim.
-Chi! meu irmão! Nós somos loucos, mas somos determinados. Vamos nessa!…tu és um artista e acho que vais conseguir. Diz-me o Nuno com um sorriso confiante.
No dia seguinte esta operação foi recheada de momentos delicados que se estenderam noite dentro… mas o resultado apareceu finalmente.
Olhando para os documentos que acabara de lavrar, pensei para comigo. Chico!…tu és lixado!

Conseguindo os bilhetes para os mesmos voos que eu, os dias que se seguem na vida do Nuno são bem recheados de adrenalina e de uma bela carga psicológica, dado que iria partir comigo para uma aventura sem dimensão e sem dar conhecimento à família. Barra pesada!
Segue-se o período da festa de Natal cá em casa que assume este ano um significado especial e carregado de emoções.
De um lado o meu irmão finalmente formado como piloto da Força Aérea Portuguesa vai dentro de dias para o norte de Moçambique, cumprindo assim o seu sonho de homem pássaro ao serviço da nação…missão: Combater os denominados Turras. Um misto de orgulho e inquietação para os meus pais…sem comentários!
De outro lado está aqui o caçula que de mochila às costas e com as suas barbas e cabelos fartos vai cumprir o sonho de visitar o Brasil do outro lado do mar. Os contrastes de uma família e o choque de gerações bem presentes.
A festa do fim do ano de 1973 é vivida como sempre até ao sol nascer. Tem desta vez um certo gosto a despedida e vem como sempre recheada de uns bons copos, umas boas batucadas na praia, algumas passas de qualidade e muita gargalhada. LM no seu melhor!
Nos primeiros dias do novo ano, o meu irmão parte para o norte de Moçambique destacado para Nacala onde vai ter os primeiros treinos e os primeiros contactos com o teatro de guerra.
Os meus pais, conscientes da seriedade e importância deste facto, irão acompanhá-lo até à cidade da Beira de onde partirá em avião militar.
A minha despedida do meu irmão foi naturalmente sentida, apesar do afastamento ideológico que cavou entre nós um fosso considerável nos últimos tempos.

Chegada a data da nossa partida para a América latina, a combinação com o Nuno é vir dormir na véspera em minha casa dizendo aos meus pais que irá viajar no mesmo voo que eu para Joanesburgo, tendo lá uma consulta marcada para o dentista.
Nada de extraordinário, dado que a vizinha África do Sul é um destino muito utilizado pelos portugueses residentes em Moçambique para as questões de saúde.
A propósito de saúde, a cidade de Lourenço Marques está a ser assolada por uma epidemia ocular que se transmite facilmente entre as pessoas denominada popularmente de conjuntivite.
Um fenómeno deveras incómodo que deixa as vítimas com uma sensação atroz de ter areia nos olhos, deixando a vista avermelhada, inflamada e a lacrimejar permanentemente.
Pois para o nosso azar, eu e o Nuno (e tantos outros) levamos com esta dose a poucos dias de embarcar em direção ao outro lado do mar….haja muita paciência!
Não foram as gotas que insistentemente colocamos dia e noite nos olhos que nos livram deste tremendo mal-estar, às portas da nossa viagem.
Neste último dia, a despedida da minha companheira Tina foi dolorosa deixando-nos com um nó na garganta. Mas o chamamento do Brasil é grande, maior que o Atlântico e não há nesta fase ventos e marés que me impeçam de viver uma tal experiência.
Na véspera da nossa partida, o aparecimento do Nuno lá em casa artilhado com a mochila de viagem é uma situação que comporta algo de caricato e inquietante.
A minha mãe ao ver o Nuno pergunta-lhe.
-Oh, Nuno!…tu por aqui?
O bom do Nuno com um ar meio embrulhado responde mesmo assim com alguma descontração.
-É, D. Leonor…falei com o Chico e como tenho que ir a África do Sul tratar dos dentes, aproveito e vou com ele no mesmo avião, aproveitando a sua boleia amanhã cedo….não se importa, espero!
-Ah, bom, está bem! Dormes na cama do Rodrigo então e amanhã de manhã cedo eu levo-os ao aeroporto….mas olha para mim meu querido!…essa maldita conjuntivite também te apanhou certo? Faz-me imensa aflição ver o meu Chico ir para tão longe com os olhos neste estado.
-Oh, mãe! Repico eu com o meu ar despachado!
-Isto já esteve pior! O enfermeiro lá do posto da Cruz Vermelha diz que isto passa ao fim de alguns dias a tomar estes anti-inflamatórios e a por gotas nos olhos várias vezes ao dia. É o que estamos a fazer.

14 de Janeiro de 1974

O dia despontou com aquele sol característico de uma manhã quente de Janeiro na cidade das acácias. O primeiro dia de uma aventura fora dos habituais roteiros realizados até ali nas nossas existências.
São 7 horas da manhã quando, depois de um copioso matabicho, nos metemos à estrada com a D. Leonor ao volante do velho VW a caminho do aeroporto Gago Coutinho.
Já fora da cidade atravessamos a estrada de subúrbio passando em frente à Praça de Touros e a um bairro a que os Coca-colas chamam de bairro do Caniço.
Trajeto feito sem surpresas, mas acompanhado dos nossos pensamentos algo acelerados pelas circunstancias desta nossa saída algo furtiva de Moçambique.
Feitas as despedidas emotivas da minha mãe, a contrastar com as mais frias e distantes do meu pai na véspera, lá nos dirigimos ao check-in da DETA (Linhas Aéreas de Moçambique) que nos levariam dentro de umas duas horas em direcção a Joanesburgo.
O nosso voo na DETA passou-se bem não fora o incómodo daquela maldita conjuntivite. Seguiu-se até ali sem percalços o nosso tempo de escala no aeroporto de Joanesburgo aguardando o nosso voo da VARIG (Viação Aérea Rio Grandense), em direcção ao nosso destino Rio de Janeiro.
Neste espaço de tempo, dois episódios tomam entretanto uma importância capital.
Sendo o primeiro o facto da D. Maria Quadros (mãe do Nuno) dar por falta do filho que não dormira na passada noite em casa. Na sua natural angústia, a mãe Quadros decidiu contactar os amigos chegados para compreender o paradeiro do filho.
Nesta operação desesperada, toca o telefone lá de casa dando origem ao seguinte diálogo:
-Estou sim!…D. Leonor…é Maria Quadros, mãe do Nuno. Por acaso o seu filho sabe dizer-me alguma coisa do meu Nuno que não me apareceu em casa para dormir esta noite?
-Oh, D. Maria…mas o seu filho dormiu cá em casa esta noite. Deixei-os no aeroporto esta manhã. O meu Chico vai para o Brasil passar 15 dias, e o Nuno para Joanesburgo para tratar dos dentes.
-O que é que me diz, D. Leonor??? responde espantada a mãe do Nuno.
-Pois é conforme lhe digo. Então não sabia que o seu filho ia a África do sul tratar dos dentes? Riposta a minha mãe com um ar já deveras aflito.
-Ai não me fale de tal coisa!…oh D. Leonor, diga-me por favor. A que horas era o voo para Joanesburgo? Pergunta desesperada a D. Maria Quadros.
-Oh minha querida!…a estas horas já estão no ar!…há uma boa hora que saíram de cá!….ai, valha-me deus!

Escusado será dizer que este episódio gerou um outro que fica nos anais da história desta nossa aventura.
De assinalar a nossa passagem de extrema angústia passada na zona de trânsito do aeroporto Jan Smuts em Joanesburgo, que se traduz nesta situação pouco simpática.
Sentados nos bancos de espera da imensas salas de embarque deste aeroporto internacional e a dar conta de uns snacks que trouxemos para entreter o estômago, temos um frisson que nos percorre a espinal medula.
Nos altifalantes do aeroporto estão a partir deste momento a ser chamados os nossos nomes em língua inglesa para comparecermos aos balcões da DETA, a fim de tratarmos de assuntos do nosso interesse. Sem hesitação, olhamos um para o outro dizendo em uníssono.
-Apanharam-nos…estamos quilhados!
Uma adrenalina extrema percorre agora os nossos seres, tendo-nos feito de imediato transpirar por todos os poros, deixando pouco espaço para uma reação refletida perante os factos que estamos a viver ao vivo e a cores.
Após um período de imenso stress, tomamos a decisão de ignorar aquela chamada dos nossos nomes e esperar desesperadamente que o voo para o Rio parta quanto antes.
O próximo grande desafio é o embarque na VARIG.
Dito e feito. Integrados na fila para este embarque conseguimos ver dois funcionários da DETA com um olhar muito curioso e inquisidor à passagem no controle de embarque.
Com plena consciência que estamos a atravessar uma fronteira da Alemanha em plena 2º Guerra mundial, olhamos um para o outro. Eu digo:
-Nuno…chegámos até aqui…vamos em frente, joe!
-Estou contigo…vamos em frente. Responde-me o Nuno com um ar de pânico.
Ao aproximarmos o ponto de embarque, resolvemos não olhar senão em frente colocando sobre o ombro um dos nossos sacos de viagem que de alguma forma escondesse o nosso rosto.
Aquele preciso momento de passagem por aquele controlo foi de extrema angústia e aflição que acabou por ser aliviada pelas forças do universo. Vinte minutos passados, estamos a entrar para aquele bendito pássaro metálico da VARIG que nos levaria para o outro lado do mar. Os deuses estão connosco.
É com um indescritível alívio que nos sentamos naquelas poltronas do DC-10 da VARIG, onde um primeiro contacto com o pessoal e o ambiente a bordo nos transmitem os primeiros e agradáveis sinais em verde e amarelo, em direcção a um novo mundo. Seguem-se umas boas 8 horas de voo em direcção às terras do Zé Carioca.

 

Brasil -Aqui vamos

 

América do sul…vamos lá!

 

14 comentários

14 thoughts on “Ao sabor da irreverência

  1. Todos nos valentes a dar o fora do apocalipse do Ultramar Portugues, puxa mesmo a tempo!

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    • Esta foi a guerra dos que lá foram ganhar fortunas com comissões de serviço, dos que lá foram convencidos que estavam a defender a pátria, e infelizmente dos muitos que não puderam escapar a este erro histórico…mas estava escrito e aconteceu!

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  2. Viva o sabor da irreverencia e da desobediencia civil! Agora fico a espera de seguir com vontade a vossa aventura no Brasil, seus corajosos refractarios de LM (:

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  3. sonia lavinas

    chico, desta história gostei, espero pela aventura brasileira. abraço,

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  4. Teresa Amaral

    Como já vem sendo teu hábito, muito bem descrito com algumas passagens hilariantes!! Episódios alguns já de certa forma conhecidos, mas agora enriquecidos com detalhes rocambolescos e muito engraçados que me deram imenso prazer de ler!
    Bem hajas Chico!
    Aguardamos o próximo!!
    Abraço,
    tt

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    • Mana Teresa,
      Sempre atenta!…sempre presente!…a tua força é alimento para esta epopeia lavrada na memória e no ADN dos inconformados.
      E vamos adiante…a América Latina é um continente de excepção.
      Abraço miga

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  5. Cada vez me encanta mais,a sua discrição.Essa juventude irreverente e sonhadora ,transformou e deu cor à vossa vida.Saudações amigas

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    • Olá Teresa Barbosa,
      Sempre um prazer verificar o quanto as Teresas (mãe e filha)…estão presentes nesta caminhada.
      Vamos prosseguir…com mais e mais para contar como foi.
      Forte abraço…bem haja!

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  6. Macaneta

    Viagem ao fundo do Baú! Chico Chicão! Força xamuar. Abração

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  7. Ao contrário do que dizia o Administrador dos Casinos em Lisboa, numa entrevista concedida à RTP, este dizia que ao longo da longa experiência dele, tinha constatado que não havia Sorte’…mas sim e só…o azar maior ou menor…quantas foram as chamadas coincidências existenciais ( também elas muito contestadas) entre as nossas vidas..as vidas de todos os Moçambicanos naquele tempo de guerra, à qual, muitos não tiveram essa sorte’ em escaparem-se dela! Sim Chico, eu fui um deles, estive bem enterrado nela e por coincidência’ também, em Montepuez, onde presenciei cenas verdadeiramente surreais..,mais…diabolicamente reais, às quais, , te congratulo mais uma vez por teres escapado delas…nada que nos ensinasse algo de útil para a trajectória que já se vinha imprimindo nas nossas vidas…mas assim foi…uns escaparam e bem…outros sujeitaram-se a tamanha tirania!
    Mais uma vez, essa capacidade de relatar momentos, se expõe de forma perfeita, desconfio mesmo que esse mini curso’ de belas artes, se tenha entranhado em ti de tal forma, que hoje, consegues desenhar nas nossas memórias, bem defronte a nossa atenção, ideais, sentires, desavenças familiares, cambalachos’, milongas, e todas essas encenações que se impuseram para se concretizar um sonho…e que sonho Francisco Cunha, ..sair de um continente para um outro à distância imensurável’ na altura pela nossa memória, pois ela já existia presente a todo o instante na vida que já se nos escapava a alta velocidade!
    Interessante abertura de diálogo com os teus familiares, mais interessante a tua tomada de consciência agarrada aquando da visita ao hospital militar, uma realidade a ser rejeitada até mm pelas nossas entranhas, sei bem o que isso é, em Tete tive ocasião de me confrontar com imagens dessas, mas de companheiros de campanha, conhecidos, amigos de copos e ‘bazucas Manica’, que se bebiam às dezenas por cada tarde que era vencida…com a ajuda de umas anfetaminas puras, que o chinês de Montepuez nos proporcionava….abençoado chinês!!! rsrsrsr
    Mas, afinal a sorte existe, mas de uma forma só, fabricada por nós próprios, foi o que fizeste pela tua, esse elan’ que te empurrou, nós designávamos de vibe’ ( lembras?)..que te impulsionou para as terras do verde e amarelo como tão bem dizes, caso não tivesses insistido nele(a), engendrado toda essa magnifica maquinação para o(a) cumprir. essa sorte’ te trairia certamente…mas assim não foi, dou graças por isso também meu irmão…quantos de nós e entre nós o fizeram também, uma coroa de glória, ornamentada pelas ideias que a compuseram, e tu Chico, te coroaste em beleza, com sucesso e inteligentemente bem sucedido! Parabéns.
    Um só pormenor…deu para sentir aquela angustia que se instalou em vós, entre ti e a tua gentil Tina, no momento para mim, mais profundamente sentido, porque quando se separam duas almas gêmeas, a dor que nos é infligida, será certamente tão ou mais profunda e cortante, que o parto de uma mulher qualquer…nessas, ficou-lhes a marca no corpo…em nós, ficou-nos na alma.
    Sigamos então meu irmão…essa epopeia que já se lhe vê a feição!
    Um abraço ao Nuno Quadros, com quem tive o prazer de privar por breves instantes aqui em Lx, já ele com o Neto, juntos, a caminho de Moçambique, muito possivelmente de regresso dessa vossa viagem ao Brasil…quem sabe né?
    Um aplauso bem audível pela qualidade literária que se tem vindo a impor ao longo de todo este trajecto, através do qual, se têm vindo a realçar nitidamente, tanto os diálogos como todas as vossas decisões tomadas! (Y)
    Obrigado pela coragem que nos tens projectado!

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  8. Caro Rui,
    Estamos a falar de uma época onde a consciência flutuava entre a publicidade enganosa da máquina estatal da guerra e os sinais que iam surgindo aqui e ali demonstrando que algo estava muito errado em todo este processo histórico.
    Não se vencem guerras de guerrilha…seja em que parte do mundo for…é um clássico!…o maquiavélico professor de Santa Comba é que nunca entendeu isto!…infelizmente!
    Optámos por um outro tipo de crescimento pessoal para entrar na vida adulta…mais liberta por um lado mas bem dotada de sofrimentos e amarguras também…foi digamos…uma “self made army!”
    Nem sempre estas decisões foram compreendidas na época em que foram tomadas…apenas a história veio mais tarde em nosso socorro!…dando legitimidade aos nossos actos e dignidade filosófica à nossa visão…visão esta que mais à frente nesta narrativa, estará associada a ocorrências drásticas desta maldita guerra, que mudaram o resto da minha existência…lá chegaremos a seu tempo.
    Uma vez mais a tua dissecação, lavrada na arquitectura das minhas palavras escritas, é promotora do meu entusiasmo e um sinal vivo do quanto valeu a pena resgatar esta história ao passado…bem hajas chamoir…obrigado por mais este momento!

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