Ecos do samba

Ecos do samba

 

Chegada ao Rio

Parte I

Esta nossa travessia do Atlântico sul acompanhando o Trópico de Capricórnio, foi coroada de dois aspectos dignos de realce.
O primeiro, o serviço de excelência que nos foi oferecido pelo pessoal da VARIG, hospedeiras escolhidas a dedo, lindas de morrer que nos fizeram sorrir com uma gastronomia de requinte…mais do que esperavam estes dois foragidos da África austral.
O segundo, pelo facto de estarmos a estrear estes novos pássaros recentemente adquiridos por esta companhia aérea de excelência. Os famosos McDonnell Douglas DC-10. Um trijacto que é um novo marco na aviação, ultramoderno, com um reactor na cauda, seguro e confortável e que é muito bem acolhido pelas rotas transatlânticas.
A visão nocturna oferecida aos ocupantes deste imenso pássaro metálico é inebriante e geradora de um enorme fascínio.
A perda gradual de altitude e a voz do comandante anunciando a aproximação ao aeroporto internacional do Galeão, localizado na Ilha do Governador, a maior ilha da baía de Guanabara , faz-nos vibrar e sentir a presença de uma visão de sonho, sobrevoando o recorte geográfico desta fascinante baía, banhada pela imensa rede de iluminação emergente. Que verdadeiro deslumbre!
Naquele início de noite, concluídas 8 horas de voo, as operações alfandegárias e recolha de bagagem inerentes, fomos presenteados com os primeiros sinais da sociedade carioca.
Estão uns cálidos 30 º Celsius e o aeroporto retrata a explosão demográfica típica de um aeroporto internacional utilizado diariamente por milhares de passageiros residentes e flutuantes, num colorido e excitante mosaico social.
Embalados neste turbilhão de novas emoções, fomos transportados num denominado ônibus num circuito citadino até ao aeroporto Santos Dumont, local de onde partem os diversos transportes para a cidade maravilhosa.

Rio à noite   Praia noite - Rio de Janeiro

Este itinerário é de um total deslumbre para quem como nós, chega a esta metrópole pela primeira vez. Passamos pela ampla Avenida Brasil, abrangendo vários subúrbios e bairros da zona norte da cidade, seguindo pela Av. Presidente Vargas, importante via do centro financeiro, onde no final se avista a Candelária, a famosa catedral católica, chegando finalmente ao nosso destino. O aeroporto Santos Dumont. Este aeroporto serve essencialmente as rotas domésticas, especialmente a ponte aérea Rio – São Paulo, ligando estas duas movimentadas metrópoles. Que grande recepção!
No exterior, em pleno entusiasmo da chegada, aproximamo-nos de um grupo de pessoas que, em jeito de fila indiana, esperam o seu táxi.
Dirijo-me a um cidadão moreno de meia-idade a quem pergunto em português de Camões se ali é a bicha dos táxis?
– Bicha? – Olha-me este cavalheiro com uma cara de poucos amigos!
Por trás do ombro oiço o Nuno em tom de paródia sussurrar-me apressadamente:
– Olha o que dizes, Joe! – Aqui diz-se fila! – Ainda levamos um arraial de porrada!
– Ops! – Apressei-me a corrigir este caricato episódio de boas vindas!

A infiltração nesta imensa cidade colorida foi algo de transcendente a bordo de um táxi manobrado por um carioca conversador que, sem perceber o que lhe dizemos, nos conduziu no seio de um tráfego desarticulado em pleno centro de Copacabana.
Uma vez no nosso destino e carregados de mochilas bem pesadas e mais algumas peças de artesanato africano, lá nos dirigimos para o endereço indicado ao encontro do nosso contacto moçambicano no Rio.
A rua Siqueira Campos é uma via bem movimentada e o edifício onde entramos é moderno e bem iluminado. Assim subimos ao 4º andar.
Ao tocarmos à campainha, a porta abre-se pela mão de um homem com ar austero. O meu vizinho de Lourenço Marques. O sr. Manuel Couto.
Apesar de me reconhecer, pergunta com um ar algo distante e autoritário.
-Sim, o que desejam?
-Gostaríamos de falar com o seu filho Tonecas…é possível? digo eu com o meu ar algo comedido.
-António! diz em voz alta e em bom português o nosso interlocutor. É para ti!
Eis que surge na porta o Tonecas, o meu vizinho em Lourenço Marques, que totalmente surpreso nos cumprimenta perguntando o que pretendemos.
-Oi, Tonecas….tudo bem? Pergunto afavelmente.
-Ué!…surpresa!…vocês aqui?
-Temos indicações que o Bags está no Rio…não saberás por acaso onde ele está?…pergunta o Nuno com um ar descontraído.
Com um tom algo distante, o Tonecas informa-nos que sabe do paradeiro do Bags sim!
-O Bags está lá pros lados da Barra da Tijuca…sabem onde é?…pois já vi que não!…o melhor é levar vocês até la certo?
-Ya, Tonecas. Isso era demais! Respondo eu no meu sotaque moçambicanês a contrastar com o acento marcadamente brasilês do nosso anfitrião.
É já uma noite carioca, quando na companhia deste meu vizinho do outro lado do mar, de feições esguias, vestido com uma longa Kaftan branca, seguindo a bordo de um Vw carocha entramos no tráfego carioca. Num carocha fomos para ao aeroporto em Lourenço Marques e num carocha vamos novamente deste lado do mar…curiosa coincidência.
Neste trajeto temos a agradável sensação de olhar um novo mundo. Como ver algo de familiar que o cinema, os documentários e as histórias aos quadradinhos, nos ofereceram ao longo da vida…fabuloso!
Com uma experiência de vida bem marcada pelas vivências nestas paragens, o Tonecas lá nos foi mostrando o excecional roteiro carioca, pela Avenida Atlântica, seguido da praia de Ipanema, Leblon, Gávea e mais além através de um túnel duplo rodoviário a que chamam de Dois irmãos.
Percorridos mais uns quilómetros deste agradável mundo desconhecido, avistamos por fim o nosso destino – a Barra da Tijuca.
Saltamos do Fusca que é o nome dado aqui aos vw carocha e uma vez estacionados na extrema sul do parque campismo da Barra, lá seguimos o Tonecas por um caminho lateral no escuro da noite, penetrando clandestinamente no recinto do parque através de um buraco da vedação.
Seguindo sinuosamente para os fundos do parque através de uma floresta de tendas e campistas nacionais e estrangeiros, vamos ao encontro de um cenário familiar.
Os acordes daquele violão de 12 cordas ditaram o nosso encontro com o Bags que, ladeado de um outro moçambicano, o Manuel Neto e mais duas morenas, enchem de som uma tenda de lona.
A sensação deste reencontro é forte e soltam-se no ar as emoções da surpresa.
– He! He! Meu irmão! Chegámos!
– Uau! Vocês aqui! Grita o Bags poisando o violão e saltando para o exterior!
Um clima de excitação assaltou este grupo de velhos amigos da costa oriental de África que assim partilharam um forte abraço neste lado do Atlântico.
De sorriso largo e detentor de um pronunciado olho azul, aproximou-se de imediato o Manuel Neto que nos estende os braços dizendo.
-Como é?…chegaram bem? Oi Tonecas tudo bom, cara?
-Tudo Jóia!…imagina a minha surpresa com estes dois batendo na minha porta?
O Manuel Neto, de estatura média, cabeleira loira plena de caracóis, é outro notável da tribo. Como o Bags, também estudou na África do sul e é um homem viajado que se instalou meses antes aqui no Rio.
Feitas as apresentações às sensuais Tigressa e Ruby que partilham o momento, desde logo penetrámos naquela tenda onde a euforia da conversa rodou muito naturalmente à volta das emoções da nossa chegada.
-Uma das morenas, estupefacta com o fogo deste reencontro, exclama com um folgado sorriso:
-Ué, caras, vocês se conhecem todos da África, é mesmo?
-Acertou! Respondi com simpatia!
O Nuno com o seu perfil romanesco pergunta:
E as cariocas por aqui são todas lindas como vocês?
A risada é geral e os olhares entusiasmados ditaram a continuidade da festa. Que grande chegada ao Rio de Janeiro.
No desenrolar desta noite de exceção, ao som inspirado do violão de 12 cordas, deu-se o nosso primeiro encontro com algo totalmente novo para nós. Umas linhas de uma coca que o Bags tinha trazido da Bolívia semanas antes.
Este era o nosso primeiro contacto com este produto sul americano.
-Hey, vocês sabem quem está chegando da Bolívia por estes dias? Diz o Bags com aquele fogo que lhe conhecemos…o Kelp, cara…e vem com uma branquinha especial!
-Ah é!…pergunto eu! Mas e como é para atravessar a fronteira…Há muito controle?
-Sim, claro! A Interpol anda em cima…mas neguinho sempre sabe como fazer, responde-me o Bags com um sotaque marcadamente carioca.
Esta foi uma nota que pudemos de imediato identificar nestes nossos amigos já estabelecidos faz tempo neste lado.
-Como é?…vocês deixaram de falar como lá em Moçambique!…pergunta o Nuno com ar curioso.
-Ô bicho! Diz o Manuel…com vocês vai ser igual, cara!…primeiro porque esse sotaque é contagioso e depois se cês falam português, o mundão aqui não entende o que vocês estão falando…ué?
-Estou a ver!..respondo eu com uma expressão de reconhecida evidência.
Para mim e para o Nuno este primeiro contacto com a cocaína é uma nova experiência pois este é um produto que não circula habitualmente nos nossos meios em Moçambique.
A prova é cheirada através de um canudo de papel, geralmente feito com uma nota nova de Cruzeiro (moeda do Brasil) ou Dollar (USA), aspirando pelo nariz uma linha meticulosamente desfeita com uma lâmina sobre um espelho. A satisfação foi geral perante a qualidade apresentada.
Para mim, este primeiro contacto com a coca deu-me de imediato a sensação de adormecimento das narinas e dos lábios, seguindo-se uma sensação de euforia corporal e uma excitação cerebral que vai ao encontro do speed que tomávamos vezes sem conta em Moçambique. A acompanhar este primeiro ensaio está uma capacidade física e sensorial onde tudo o que pretendemos fazer parece não ter limites.
Esta é uma nova experiência vivida com o produto mais famoso da América latina…este pó branco extraído da planta do mesmo nome, que passa por um processo algo complexo de transformação.

É já tarde na noite carioca quando as duas miúdas partiram e nós, tomados pela fome, resolvemos encostar as papilas gustativas à Lanchonete mais próxima na praia.
Uma onda de cachorro quente completou as necessidades imediatas daqueles dois jovens recém chegados, e as dos residentes que demonstraram sinais de uma vida pouco dedicada à nutrição.
A noite está estrelada, e face às soluções de dormida que revelam alguma complexidade, resolvemos reunir as nossas bagagens, documentos e o dinheiro de bolso que trouxemos, e ali nos instalámos em plena praia não longe da tal lanchonete, em companhia do Bags, do Manuel Neto e do Tonecas, que ainda ficou por ali connosco mais um pouco antes de regressar a Copacabana.
A conversa foi muito animada. E só poderia ser! Cinco moçambicanos oriundos da mesma cidade vivendo um encontro inédito debaixo daquele céu carioca
Exaustos, lá nos esticámos dentro dos sacos-cama, sob um imenso céu estrelado, completando a noite com a partilha das emoções fortes daquela primeira noite brasileira. Seguiu-se uma noite de um sono intermitente e desconcertado numa mistura de cansaço da viagem e o efeito excitante da coca.

O dia raiou da pior forma naquele imenso areal da Barra, com um intenso sol a castigar os corpos moídos e o ruído dos inúmeros frequentadores do local que já circulavam por ali.
-Puta que os pariu! Vocifera o Bags, deitando a mão ao bolso da mochila desesperadamente esvaziado!
Num lapso de imprudência, deixou o passaporte na mochila, facto que lhe custou a perda do documento oficial de identificação que seguiu um rumo desconhecido na ligeireza de umas mãos hábeis que nos visitaram enquanto dormíamos.

Barra da Tijuca - 1974

Conhecemos naquele momento a crua fama de uma sociedade marcada pela sobrevivência e malandragem. Ocorrências próprias das noites do Rio de Janeiro em lugares sem iluminação…pouco recomendável.
Refeitos deste evitável episódio e concluída uma virada de água de coco comprada a um jovem que passava, depositámos as nossas mochilas no parque de campismo dentro da tal tenda da noite anterior, na esperança de as encontrarmos lá quando regressarmos mais tarde. E lá nos dirigimos para um ponto de ônibus a fim de visitar os encantos da cidade maravilhosa.

Este trajeto revelou-nos um curioso hábito praticado nos transportes públicos desta cidade que retrata os momentos de espera nos semáforos da cidade.
De olhar fixo nas cores luminosas e pé no acelerador, os condutores de ônibus e táxis cheios de gente, trocam frequentemente olhares de maliciosa provocação, anunciando uma competição prestes a estoirar. Típico de países do sul.
O circuito caracterizado por este fernesi de trânsito e pela presença maciça de Fuscas, revela a febre que se vive diariamente na cidade maravilhosa. Uma passagem inebriante por avenidas largas e ocupadas por uma população morena e descontraída, de calção e chinelo no pé, onde uma vegetação frondosa completa de forma idílica este cenário tropical, entre o morro e o mar…simplesmente alucinante este Rio de Janeiro.
Atravessámos novamente o tal túnel Dois irmãos a praia da Gávea, Leblon, Ipanema, para chegarmos finalmente à famosa Copacabana.

Rio de Janeiro -1974-1   Rio de Janeiro -1974- 2

O Rio é mesmo um cidade à parte. Ruas agitadas, lojas e decorações multicolores, gente descontraída em trajes tropicais. Isto é mesmo um outro mundo.
Na rua algo despertou de imediato a nossa atenção!…os botequins de fruta da mais variada onde resolvemos provar algo que o Bags vivamente aconselhou. A Vitamina de abacate!…pura delícia!
-Cara, vocês têm que provar isto aqui . Diz o Bags apontando para uns salgados com um aspeto delicioso…as famosas coxinhas de galinha!
É claro que, bem ao jeito do Bags, todas estas despesas foram saindo das receitas que eu e o Nuno trouxemos de Moçambique.
Demo-nos conta que ele já estava bem integrado neste meio onde o aproveitamento de todas as situações do quotidiano devem ser consideradas. Incluindo deixar os próprios amigos recém chegados depenados.
Algo que atraiu a nossa curiosidade foi uma estranha máquina colocada em alguns passeios agitados de Copacabana. Junto a este mecanismo está um depósito de varas de cana de açúcar. Quisemos saber para que servia.
Um carioca descontraído, ao ver-nos aproximar, diz-nos alegremente.
-Vai um caldo de cana geladinho?
-Vai, sim. Tira 3, amizade. Diz o Bags com os olhos gulosos.
-Humm! que delícia, diz o Nuno com um ar de puro prazer.
-Bom, gente, vamos até a praia? Pergunta desta vez o Bags limpando os beiços.
-Bora! respondo entusiasmado.
Após uns dez minutos a pé, chegamos a famosa avenida Atlântica e a uma das praias mais tropicais do mundo.
Este lugar é mágico. Praia bela pela sua natureza, onde se destacam as montanhas e rochas que a delimitam e também pelas ilhas e outras montanhas famosas que dela podem ser avistadas.

Copacabana    orla 74

Aqui estamos em plena Copacabana e Ipanema mais além, ambas famosas e conhecidas de longa data, tanto no cenário nacional como internacional. É em Copacabana que se encontra grande parte do parque hoteleiro do Rio de Janeiro.
Esta avenida Atlântica é muito conhecida pelo seu imenso calçadão onde nos encontramos agora. Um passeio de pedra bem familiar, em tons claro e escuro (calcário e basalto) oriundos de Portugal, conferindo a presença de uma tradição lusitana cujo traçado em forma de ondas, é um dos ícones da cidade maravilhosa.
Este espaço de grande afluência é de todos e onde se vêm pessoas de todas as idades e classes sociais em movimento….simplesmente fabuloso!
-Vem cá, caras! Vamos dar um mergulho! Cês vão ver o que tem de mulher linda nessa areia!…Diz o Bags com um ar entusiasmado!
E efetivamente esta famosa praia apinhada de gente que atravessamos com entusiasmo é um verdadeiro regalo para os olhos.

Calçadão

   Praia Rio-5  Praia Copacabana -2

Embora estando em Copacabana e não em Ipanema, veio-me ao espírito o refrão do Vinicius – Olha que coisa mais linda mais cheia de graça…isto é efectivamente o eldorado das famosas gatas cariocas com biquinis da moda em corpos bronzeados onde o lindo é pouco.
No meio deste festival humano multicolor temos o nosso primeiro contacto com os mares de Copacabana. Primeiro choque inesperado. A água do Rio é gelada. Que contraste entre o calor na areia e este mergulho!
Com estes primeiros contactos com a cidade e com o avançar da tarde, é tempo de regressar ao nosso canto da Barra da Tijuca onde tudo indica já poderemos instalar-nos na tal tenda onde deixámos as nossas mochilas esta manhã…tudo está a tomar forma…bom sinal.
-Cara!…vocês querem vender esses bagulhos que trouxeram da terra, certo? Pergunta-nos o Bags com ar entusiasmado.
-Sim claro! Respondo com alguma curiosidade. Sabes de algum lugar para isso?
-Sim amizade!Tem aqui em Ipanema a praça General Osório onde todo o mundo leva o artesanato para vender. É um lugar muito legal . Amanhã é domingo e é dia de feira…levo vocês lá!
-Boa, Joe! Responde desta vez o Nuno entusiasmado com a ideia.
Esta noite tivemos aqui no camping da Barra uma nova surpresa. A chegada inesperada do Kelp…grande momento…não vejo o Kelp desde Moçambique.
Calorosos abraços acompanham este momento. Animação garantida.
-Kelp! Surpresa boa meu irmão. Diz o Nuno.
-Qual é Chico, Nuno…vocês vieram mesmo, cara! Diz-nos o Kelp com um ar sereno e filosófico a que nos habituou desde sempre. E aí ?…tudo em cima?…chegaram bem?
-É, como sempre, o Bags provocou-nos e nós aqui estamos…risada geral…e tu?…como vieste?
-Encontrei uns gringos em Corumbá que me trouxeram numa Kombi até ao Rio!…estou ficando com eles lá na cidade.
O Kelp é um figurão de média estatura, farta cabeleira e barba pretas com um semblante próprio dos filósofos amigos das ciências metafísicas, o que lhe confere um ar elevado e pensador. Ele é um pouco filho da terra. Filho de pai português e mãe brasileira, já vai conhecendo bem estas terras do Brasil e arredores.
Eu deveras agradado com este encontro, pergunto ao Kelp.
-Como é daquele lado da Bolívia? Pergunto curioso
Com o semblante pausado que o caracteriza e com um sotaque marcadamente brasilês, o Kelp responde.
Bolívia é o maior barato, cara!….é outro mundo!… civilização índia, tá sabendo?…da fronteira pra lá não tem estrada…só um trem a que chamam de Trem da morte que vai até a primeira cidade pelo meio do mato…um dia e pico de viagem…dureza, viu!
-Ya!…o Bags já nos contou um pouco sobre aquilo lá! Respondo entusiasmado.
-Mas e a vida lá é mais barata? Pergunta o Nuno curioso
-Bem mais barata, cara!…aqui cês tão no Rio de Janeiro. Vida cara paca, certo? Lá é outro mundo. Se usa o peso boliviano…cês conseguem passar um dia com 60 pesos. Incluindo Alojamiento e o rango (nutrição na gíria brasileira)! Sem comparação, sacou?
-Aqui o dinheiro que trouxemos está a voar como gaivota. Respondo eu desta vez com os meus olhos arregalados!
-Vão lá!…cês vão gostar! Diz este nosso camarada recém chegado perguntando de seguida.
-Cês querem provar algo que trouxe de lá, algo especial?
Os momentos que se seguiram foram de natural curiosidade tendo o Kelp nos presenteado com um néctar boliviano. Uma coca de superior qualidade.
Novamente me assalta aquela sensação de exaltação, intensa euforia, bem-estar, uma noção de maior segurança em mim mesmo e um aumento gradual de competências e capacidades físicas…não deixa de ser extraordinário.
Enquanto passamos por este ritual, o Kelp explica:
Esta coca é muito pura e apesar de ter uma ação intensa, o efeito é breve durando cerca de 30 minutos.
Quando consumida em doses moderadas, a branquinha pode provocar ausência de fadiga, sono e fome…neste nível a coca é o maior barato!…quem não sabe disto e começa a consumir com mais frequência, tudo fica mais difícil…esse é o segredo, tá vendo?

O nosso segundo dia na cidade maravilhosa conduz-nos novamente a zona sul do Rio. Desta vez a Ipanema ao encontro da famosa praça General Osório também conhecida desde os anos 60 como a feira Hippie, nome dado pelos artesãos da contra cultura que inicialmente fundaram a feira.
Tentando compreender melhor o contexto deste lugar, consegui trocar uma prosa com um destes feirantes que me explicou:
-Esta praça é a concentração de todo o tipo de artesãos e artistas plásticos, sem muita opção de espaço para exporem seus trabalhos. Artistas fiéis a uma cultura do tipo sem lenço e sem documento, que ocupam tradicionalmente este espaço para vender seus trabalhos. Aqui você vai ver trabalhos variados e de qualidade que, dentro do estilo de arte alternativa, foram despertando ao longo dos anos o interesse do público carioca. A feira foi crescendo, ganhando popularidade e ficou…é isso aí, meu amigo! E você também são artesãos ou estão visitando?
-Nós somos, eu e os meus colegas oriundos de África e temos alguns trabalhos para vender. Respondi a este simpático artesão de rasgado sorriso, que me diz.
-Da África!…Ué!…agora cê me deixa curioso!…Então escuta, amigo. A ocupação desta zona da praça é livre. Quem chega primeiro pega o seu espaço e expõe seus trabalhos. Podem ficar aqui mesmo ao lado. Curioso pra ver o que cês trazem lá da África, viu!
– Obrigado pela informações e pelas dicas. Muito prazer…meu nome é Chico e esses são os meus companheiros, Bags e Nuno.
-O prazer é todo meu, amizade. Meu nome é Lucca!

General Osório -1   General Osório- 2

E aqui estamos nós a enriquecer o cenário da General Osório.
A exposição dos nossos materiais rapidamente desperta a atenção dos feirantes e visitantes com uma vasta colecção de capulanas moçambicanas (tecidos tingidos de forma industrial com um traço e desenhos típicos da África Austral), algumas máscaras em madeira esculpidas a mão, um conjunto variado de pulseiras e colares de missangas multicolores, as famosas pulseiras de pelo de elefante, peças em pau preto, etc.
Os elementos que causaram maior sensação foram uns garfos e colheres de 1,20 m de altura talhados em madeira e uma sensacional pele de jibóia tingida de vermelho com 8 metros de comprimento.
As vendas destas primeiras horas deram-nos o ânimo necessário e a noção de que valeu a pena carregar aquele material até este lado do mar.
A meio da manhã tivemos igualmente uma outra surpresa.
De uma Vw Kombi de matrícula americana que acaba de estacionar, vemos sair 3 tipos de fartas barbas e cabeleiras e de um largo sorriso. Entre estes recém-chegados à praça vem alguém que desperta a nossa especial atenção. O nosso amigo Kelp.
-Olha só! Surpresa boa meu irmão. Diz o Nuno entusiasmado.
Com um ar sereno e filosófico que o caracteriza, o Kelp responde.
-E aí, caras!…tudo em cima?…se instalaram por aqui?
Apontando para os acompanhantes continua:
-Estes são os caras que me trouxeram de Corumbá. O Stephen e o Neil.
Apresentações feitas, percebemos que estes dois americanos que andam a viajar pelo mundo há 8 anos traziam um conjunto de sacolas peruanas multicolores para vender aqui na praça. Que artesanato fabuloso!…pensei.
-E aí, meu irmão? Pergunta o Bags com aquele ar clandestino…vamos rodar por aí e tratar da saúde?
-Vamo nessa, responde o Kelp acenando aos amigos gringos que vão expondo o artesanato Inca pelo chão.
Hummm…uma neve daquela qualidade que pudemos provar ontem à noite não se pode recusar.
-Vamos dar um passeio na Lagoa? Propõe o Bags entusiasmado.
A Lagoa Rodrigo de Freitas é um extraordinário plano d´água que banha esta zona interior de Ipanema, não longe aqui da praça. Local para onde nos dirigimos pedindo ao Lucca que vigiasse a nossa área de vendas por uma meia hora.
E neste agradável ambiente da lagoa lá nos retiramos para um canto menos frequentado, longe dos olhares curiosos e da eventual vigilância das autoridades, para voltar a provar este néctar recém chegado da Bolívia.
Desta vez é utilizado o método tradicional boliviano. Uma pequena colher de prata que o Kelp trás ao pescoço que mergulha num saco recheado desta neve alimentando diretamente o nariz de cada um de nós. A qualidade é, sem margem de dúvida, melhor que a primeira testada lá no campismo da Tijuca. Segundo estes nossos amigos já habituados a distinguir estes produtos, estamos perante uma coca de superior qualidade.
De seguida e por razões de segurança, lá nos retiramos do local, não nos esquecendo que estamos num país debaixo de uma dura ditadura militar onde a repressão social tem peso próprio.
Escusado será dizer que a sensação de um poder ilimitado invadiu os nossos neurónios comandando as nossas reações sensoriais pelo resto da tarde naquela sensacional praça. Que grande coca!

Ao final de mais uma animada tarde na General Osório chegou a hora de regressar ao nosso canto da Barra para mais uma noite que prometia na companhia do Kelp que nos acompanhou até lá.
Uma vez no nosso ambiente e enquanto os instrumentos musicais já preenchem o espaço da tenda ouvimos o Bags entusiasmado e com um espelho na mão dizer.
-Vamos lá provar uma linha, gente?
Dentro de momentos chega o Manuel Neto que cumprimenta calorosamente o Kelp e os restantes companheiros.
A noite promete.
-Como é? Pergunta o Manuel. Já deram um giro na cidade?
-Estivemos todo o dia na General Osório para vender o que trouxemos de Moçambique.
-E correu bem?
-Resultado positivo, meu irmão. Aquele lugar é demais!…responde o Nuno animado.
Nisto o Manuel, provando igualmente a iguaria recém chegada da Bolívia, diz satisfeito.
-hummm….coisa fina Kelp! Virando-se de seguida para o Bags, diz.
-Cara, tá sabendo de um show que vai pintar em Copacabana no teatro Tereza Rachel? É uma banda que tá saindo e todo mundo anda falando. Se chamam Secos e molhados. Estreiam amanhã acho. Eu tenho alguém lá da organização que pode guardar entradas pra nós!…vamo nessa, gente?
-Bom, fizemos umas vendas hoje, ganhámos algum taco e penso que será uma boa ideia. Respondo entusiasmado.
Perante o acordo geral, o Manuel diz
-Ok…vou falar ainda hoje com o cara e reservo para 5, certo?
-Vamos nessa, responde o Bags com o habitual fogo pela vida.
-Valeu. Também tou nessa. Confirma o Kelp.

Este novo dia desponta com um calor que convida ao melhor despertar. Um mergulho no mar…yes!
Este camping está numa zona bastante arejada onde se vê ao longe a construção de 2 novas torres de habitação de um arquitetura futurista. Tudo indica que estamos numa zona de ocupação urbana a médio prazo.
Hoje temos show no centro de Copacabana. A noite promete.
O teatro Tereza Rachel, fundado em 1971 pela atriz do mesmo nome, conhecida do grande público brasileiro por papéis de destaque no Teatro e em novelas da Globo, tem sido palco de alguns espectáculos de grande brilho nas noites cariocas.
Quando ali chegamos o ambiente está bastante animado e a rua já está cheia de gente colorida como vai sendo hábito ver na cidade maravilhosa. A fachada do teatro é de um vermelho vivo e no interior predomina a madeira como característica arquitetónica mais marcante.
Em conversa lá fora e neste ambiente de festa, compreendemos que os Secos e Molhados são a nova vaga de rock brasileiro onde se destaca o vocalista Ney Matogrosso com uma apresentação em palco de grande exuberância através de vestes e maquilhagens extravagantes.

Secos e molhados-1    Secos e molhados -2

Na hora de rebentar o show surgem do escuro 5 figurões bizarros que incendeiam a sala deste teatro que durante duas horas de pura excitação oferecem a este público entusiasmado faixas que vão seguramente ocupar as tabelas de maiores vendas do Brasil.
Falo naturalmente do Vira, inspirado na música tradicional portuguesa e com mensagens subliminares contra a ditadura militar vigente, de Sangue latino, Assim assado e do climax deste espectáculo que foi sem dúvida Rosa de Hiroshima.
Noite cheia, noite grande para recordar nesta passagem musical no Tereza Rachel.
-Super concerto cara!…diz o Bags à saída do teatro. Esse Ney é louquíssimo!
-Nova vaga do rock brasileiro! digo eu entusiasmado. Nota 10!
-E que tal celebrar com mais uma branquinha? diz o Kelp com o seu semblante sempre nas nuvens.
-Falou e disse! respondemos em uníssono.
-Caras…cês querem ir amanhã ver o Corcovado?…pergunta o Manuel animado. Eu vos levo no Fusca. Enquanto couberem vamos!…estão nessa?
-Grande ideia, mano. Reponde de imediato o Nuno.

Neste novo dia de contacto com a cidade maravilhosa, a sensação do momento é a viagem no fusca amarelo do Manuel em direcção ao Corcovado onde se encontra a estátua do Cristo Redentor, ícone internacional do Rio, oferecida pela França, é um importante ponto de observação da cidade mais linda do mundo.

Cristo-Redentor- 1

O monumento do Cristo Redentor com 38 metros de altura é de uma grandiosidade inexplicável. Construído entre 1927 e 1931, na base da estátua existe uma pequena capela dando ao lugar a sua marca indubitavelmente católica.
De uma prosa entre dois visitantes ao meu lado pude escutar uma conversa interessante:
-”Diz-se que a primeira iluminação nocturna do Cristo Redentor foi inaugurada pelo Papa, em directo de Roma, através de um sistema accionado por ondas de rádio, feito especialmente para a ocasião pelo inventor do Rádio Guglielmo Marconi…curiosa descoberta!
Uma vez vencida esta subida através do elevador e mais uns lances de escada, pudemos ter uma das mais maravilhosas vistas que é dada a um ser humano. A visão da cidade maravilhosa aqui de cima é de tirar o fôlego. Opinião partilhada pelos milhares de visitantes que aqui vêm oriundos de todas as partes do mundo.

Cristo Redentor 2   cristo_redentor_3

A vista do Corcovado é realmente transcendente! Daqui do topo, e aproveitando este momento sem a névoa que muitas vezes domina o ambiente, vemos a cidade inteira. Definitivamente um lugar a não perder para quem passa no Rio! Simplesmente magnífico!
-E aí, caras?…valeu a pena pela vista, certo?
-Claro!…sem palavras, Manuel. Confirmo com o meu ar de total satisfação.
Na descida e de regresso a zona litoral parámos junto a um botequim da praia do Arpoador para beber um chope (termo da gíria local aplicada à cerveja de pressão).
Com o bigode carregado de espuma, o Bags diz:
-Caras. Já está cheirando a festa de Carnaval!…vamos hoje de noite ver os ensaios das escolas de samba?
-Como é isso? Pergunta o Nuno curioso.
-É um festão popular- responde o Manuel. O povo se junta num pavilhão ou num estádio desportivo e solta a festa até o sol raiar. Dança, comida e bebida …all night long!
-Tem bom ar, digo…com o nariz bem tratado estamos nessa…He…he!
-Grande ideia – Cheers!

Nas noites que se seguem nesta cidade louca, o tema é o carnaval que se aproxima.
Tempo de viver de perto a folia que antecede este fenómeno que paralisa o país durante uma semana e de conhecer ao vivo e a cores os locais onde rola o ambiente festivo das Escolas de Samba.
3 noites de pura loucura nos ensaios das escolas do Salgueiro, Mangueira e Portela, três fortes candidatos ao título deste ano do Carnaval de 1974, com início em 23 de Fevereiro no famoso desfile na avenida Presidente Vargas. A avenida mais carnavalesca do mundo.
O cenário destas noites de cariz marcadamente popular são de pura folia , onde a mistura de classes e personagens de todos os tipos é uma constante. Então vamos lá!

  Escola de samba- 2

Nestes espaços desportivos que a população ocupa maciçamente, temos as bancadas de um lado e do outro. De um lado estão três músicos que dão o mote de mais uma composição para o desfile deste ano. Um instrumento de cordas (o Cavaquinho), uma voz, uma Cuíca e um Tamborim.
Na bancada oposta está a Bateria composta de um impressionante grupo de percussão.
No inicio de cada espaço musical este trio lança um som acústico embalado num samba ligeiro.
A loucura dispara quando o orientador da bateria toca no apito dando o arranque da bateria a partir da outra bancada. Daqui em diante a festa é imparável.

Escolas de samba -1   batucada Fp

Não há descrição quanto à folia vivida aqui em baixo onde nos encontramos, embalados no calor da noite e nas bebidas tradicionais com base na cachaça, servidas abundantemente.
Além da cerveja que jorra como um rio, as bebidas da pesada são essencialmente a Batida de limão (Caipirinha) e Leite de onça que deixam o povo doidão.
Para além da bebida e da maconha bem consumida nestes lugares ao longo da noite, circulam os mais variados personagens, mulheres exuberantes de todas as cores e foliões que dão asas à alegria total. O samba está no ar e o carnaval é sem dúvida um fenómeno inexplicável neste canto do mundo.

Nestes dias de ambiente pré-carnavalesco surgem as primeiras conversas sobre o espírito do Carnaval.
Nos convívios onde este tema é falado com alguns amigos e conhecidos alguém diz:
-Cara, se vocês estão a fim de uma festa de carnaval de rua então vão até Salvador. Lá a festa é totalmente popular. E além disso, cês lá podem viver mais barato que aqui no Rio.
-É mesmo? Pergunto curioso.
-Exato, amizade!…em Salvador cês podem viver com menos dinheiro e assistir ao carnaval na rua por metade do custo. Aqui no Rio se cê quer assistir ao desfile na Presidente Vargas ou curtir os bailes nesses clubes que há por aí, cês largam uma nota preta, meu irmão. Tá vendo?
-Hummm…matéria para alguma reflexão, digo eu para os meus botões!
Nascia assim uma nova noção do carnaval nas nossas cabeças.

Carnaval em Salvador

Emergia igualmente a noção de que o nosso regresso a Moçambique no final do mês se transformava gradualmente numa hipótese cada vez mais improvável.
A sustentar esta tendência está a certeza de que um regresso a Moçambique implica a integração no exercito português para ir defender uma causa desprovida de sentido, algo que para mim e para os meus companheiros de exílio se revelava como um horizonte totalmente inimaginável.
Em paralelo com estas certezas, as perspetivas desta viagem cresciam para novos patamares de entusiasmo, embalados numa vontade de partir à descoberta de novos horizontes mais a norte. Estado da Bahia.
No turbilhão destas conversas e decisões coletivas, atravessa-me frequentemente o espírito, a minha namorada Tina.
Procuro uma resposta para o facto de ter prometido a esta minha doce companheira que regressaria a Moçambique no final deste mês de Janeiro e que tudo seria como antes.
Mas, com um certo aperto no coração, uma voz grita mais alto aqui dentro impulsionada pelas perspetivas de uma nova aventura que se desenhava no horizonte…nada fácil de gerir estas emoções!
É nestes momentos em que o meu pensamento voa até casa, que sinto igualmente um primeiro impulso para dar notícias a família, escrevendo uma carta de algumas folhas para a costa oriental de África.
No meu espírito eu sei que estas cartas comportam um duplo sentido. Diminuir a preocupação dos meus pais que não imaginam onde anda este filho aventureiro. E pedir um reforço financeiro que ajudará o dia a dia desta vida de contornos complexos.

Decisões tomadas em grupo, e aproveitando as reservas financeiras que resultaram das nossas passagens pela praça General Osório, decidimos finalmente rumar a norte dando por concluída esta memorável passagem pela cidade maravilhosa que marcou esta nossa chegada à América Latina.
Neste dia encontramo-nos com o Tonecas e Kelp na Barra da Tijuca. O Nuno com ar de malandragem diz:
-Mas vamos pra Bahia sem o Manuel Neto, gente?…não pode ser!
-Ué!…mas o gajo está a trabalhar num Hotel algures aqui perto. Respondo eu na expectativa de uma reação do grupo.
O Bags que também gosta de agitar, diz de imediato:
-Onde é o Hotel? Vamos lá resgatar o Manuel?
O Tonecas que é conhecedor da zona diz.
-Hotel Nacional. Eu sei onde fica esse hotel.
Uma voz da geral soou!…bora lá!
Este magnífico hotel fica em São Conrado, entre o final do Leblon e a Barra, onde chegamos pela Av. Niemeyer, via sinuosa e lindíssima de onde avistamos o morro Dois Irmãos.
Ao entrar neste Hotel de 5 estrelas não longe dali e vestidos como é comum neste tempo, calças boca de sino, beach buggies nos pés e fartas cabeleiras, lá avistamos o Manuel que está na receção impecavelmente vestido com um “blazer” verde que lhe assenta como um príncipe, devidamente identificado com o logo desta cadeia hoteleira.
O bom do Manuel quando nos vê fica de todas as cores. Na defesa do novo emprego que está a levar com todo o empenho, este nosso camarada faz uma careta que revela bem o que lhe atravessa o pensamento. Aflito, suplica-nos!
-Caras!…não dá!….pelamordedeus!….saiam daqui!…não façam isto!
Mas nós, que somos terríveis e irreverentes, lá confirmámos ao bom do Manuel a nossa intenção de partir no dia seguinte para a Bahia.
-Manuel!….não vamos sem ti! Dispara o Nuno!
-Mas cês estão loucos, cara!…cês querem-me desgraçar?…estou trabalhando, gente!
-Nada disso, companheiro!…tens que vir junto!…diz o Bags insistindo.
-Caras! eu estou fodido! Me aguardem lá fora que já falo com vocês. Mas saiam daqui! Responde o Manuel que está vermelho como um tomate. A contrastar muito bem com a cor do tal blazer.
Lá saímos do hall para aguardar a resposta do Manuel lá fora.
A resposta foi esclarecedora. Passado 15 minutos e na sequência de uma tempestade que atravessou o espírito deste nosso companheiro, o bom do Manuel, não resistindo ao apelo, esgueirou-se por uma porta dos fundos, já não trazendo aquele traje verde vestido que lhe dava uma grande distinção.
Numa demonstração de pura irreverência vira-se para nós e diz com total excitação:
-Que sacanagem, gente!…mas não vai ninguém pra Bahia sem mim não!…risada e alegria geral.

 

Parte II

Viagem Itapemirim

Neste dia 27 de Janeiro de 1974 e feitas as despedidas do Kelp que iria ficar pelo Rio, este troca com o Bags uma conversa curiosa.
-Olha aqui, Bags! tá sabendo que eu tenho a dupla nacionalidade, né cara? Pergunta o Kelp.
-Sim, tou sabendo, responde este surpreso.
-Como te roubaram o passaporte, tu quer ficar com o meu passaporte português para o caso de necessidade?
-Como assim, cara?
-Cê troca a foto e passa a se chamar António. Diz o Kelp com um sorriso malandro.
-Chi méirmão! Sujou!…mas pensando direito eu acho que sim….quem sabe vai quebrar o meu galho…fico com ele sim. Diz finalmente o Bags agradecendo ao Kelp pela perspetiva criada.
Prontos para nossa partida cedo, chegamos às instalações da rodoviária do Rio de Janeiro.
A nossa viagem com destino a S. Salvador da Bahia vai ser feita num ônibus da companhia de transportes Itapemirim…vamos nessa!
Uma viagem algo longa pelo interior do Brasil nos espera.
Primeira paragem em Belo Horizonte (capital do estado de Minas Gerais).
Belo Horizonte é uma cidade circundada de uma vasta área de geografia diversificada, com morros e planícies. Cercada pela Serra do Curral, que lhe serve de moldura natural e referência histórica, esta cidade, segundo conversa com um companheiro de viagem residente na região, foi planeada e construída para ser a capital política e administrativa do estado mineiro sob influência das ideias do positivismo, num momento de forte apelo da ideologia republicana no Brasil….e siga estrada fora!
A nossa próxima paragem para esticar as pernas é em Governador Valadares, mais a norte. Ainda no estado de Minas Gerais, esta cidade desenvolve-se ao longo da margem esquerda do Rio Doce…nome curioso!
Vitória da Conquista é o nosso próximo ponto de paragem. Já estamos no estado da Bahia, segundo anuncia o nosso motorista. Mas por quê este nome?
Ao obter um folheto turístico ali perto, entendi.
O Arraial da Conquista, primeiro nome desta cidade fundada em 1783 pelo português João Gonçalves da Costa, oriundo de Chaves (Portugal), que veio para o Brasil ao serviço de D. José I (Rei de Portugal), com a missão de conquistar as terras ao oeste da costa da Bahia…curioso!
Feira de Santana é o nosso último ponto de paragem antes de Salvador. Como é grande este Brasil, pensei!
Em conversa com este simpático motorista que vai para 10 anos que faz esta rota, aprendi mais alguma coisa sobre esta região.
Localizada numa zona de transição entre uma região conhecida como o Agreste e o Sertão baiano e graças a uma posição privilegiada, esta cidade possui um importante e diversificado sector de comércio e serviços, além das indústrias de transformação.
Fiquei igualmente a saber que, em anos recentes, esta cidade cresceu progressivamente, tendo evoluído para um importante e variado centro industrial, logístico e económico regional, tornando-se uma das principais cidades do interior do Brasil.

E agora S. Salvador da Bahia….vamos nessa que a estrada já vai longa.

Salvador 2   Salvador 3

A nossa chegada ao fim do dia a Salvador impele-nos a ir ao encontro da famosa Baía de Todos os Santos, nome dado pelos primeiros portugueses que aqui chegaram na época das descobertas. A fome aperta e disseram-nos que a melhor ideia aqui é procurar as tascas populares para comer farto e barato.
O primeiro impacto visual de Salvador é muito curioso. Um misto da uma presença de África nos traços da população negra predominante e de uma arquitetura marcadamente portuguesa, bem visível no aspecto das igrejas em grande número, casas e ruas da capital baiana. Que sensação estranha e ao mesmo tempo familiar!
Lá nos sentamos para comer. O lugar é popular com bancos de madeira corridos e onde as mesas são partilhadas. O prato mais servido é o tradicional feijão preto. Custo individual de 5 cruzeiros. Vamos a isto!
Embalados pelo melhor tempero que é a fome, assim nos regalamos com um prato fundo carregado de feijão preto afundado num molho escuro. A juntar-se a este prato, colocam-nos em cima da mesa umas garrafas tipo vinho, cheias de uma farinha granulada.
-Isto é farinha de pau, cara!…diz o Bags apontando para o povo que come na mesma mesa. -Olha como eles fazem. Botam a farinha dentro do molho e faz bolinha pra comer com a mão, tá vendo?
-Ha! então é isso!…responde o Manuel pegando sem hesitação na garrafa de tal farinha.
E assim tivemos o nosso primeiro contacto com a gastronomia baiana, enchendo bem a barriga de feijão!
Hora de procurar um lugar para passar a noite.
-Lá no Rio disseram-me que os freaks que chegam ficam junto ao Farol da Barra. Lembra o Nuno.
– Se assim é, vamos então! digo eu, com uma sensação de enfartamento depois de tamanho festival de feijão.

 

Forte da Barra 3   Forte da Barra 2
E assim fazemos. É já noite cerrada quando, após uma caminhada algo longa, chegámos ao famoso forte. Uma fortificação tipicamente portuguesa com um farol para a navegação. A vista da baía mesmo de noite é inspiradora.
Estoirados e com vontade de assentar, encostamo-nos às muralhas do forte onde montamos o nosso acampamento debaixo das boas estrelas para passar a noite. Não somos os únicos. Efectivamente estas muralhas em frente ao mar são um abrigo muito procurado por forasteiros como nós.
A fumaça de uma boa maconha que o Bags trouxe do Rio foi o bálsamo para uma noite que nos embalou num merecido sono dentro dos sacos-cama debaixo daquele céu baiano. Mochilas e documentos bem junto ao corpo. O vento sopra ligeiro e a temperatura da noite está agradável. A vida segue o seu curso!

Um novo dia banhado do sol que já nasceu e nós despertamos com a nossa curiosidade. Temos que ver onde estamos e qual o nosso destino a partir daqui.
Em conversa com um dos passantes pela zona, indagámos sobre as possibilidades de encontrar um lugar onde ficar e também onde vender o nosso artesanato.
A resposta foi minimamente esclarecedora.
-Cês podem ficar por aqui mesmo no Farol da Barra que a polícia não vai sacanear. Mas para onde for, pega seus bagulhos que malandro por aí não falta não!
-Valeu!….obrigado, viu. E me diga!….nós temos alguns artigos para vender. Artesanato e tal…onde você acha que podemos vender? Pergunto com alguma expectativa.
-Isso a polícia já pode pegar vocês. Procurem negociar isso na cidade, que tem loja que compra, ou noutros locais tipo feira que também tem.
– Obrigado, viu!
Posto isto resolvemos aproximar-nos da praia do Porto da Barra com a nossa carga atrás. Este lugar da beira-mar em Salvador é um mundo à parte frequentado pelas típicas baianas a vender umas comidas locais, a passagem de mulheres e homens gordos, magros , altos e baixos, pescadores, alguns policias fardados de calção jeans munidos de cacetete, o que é uma visão curiosa, e um montão de estrangeiros de um lado para o outro. Que lugar inédito!
Curiosos, queremos provar o que aquela negra gorda vestida com muitas saias e lenços brancos de renda está a preparar.
-Senhora, me diga por favor o que é isto aqui? Pergunta o Manuel com uma vontade evidente de provar aquela iguaria com o resto do dinheiro que ainda tínhamos.

Acarajé 4   Acarajé 3
-Isto é Acarajé meu filho – não conhece não? Responde a anafada senhora das muitas saias.
-Como é, malta? Ainda há uns trocos e não comemos nada hoje. Vamos provar isto? Pergunto aos meus companheiros tão curiosos e esfomeados quanto eu.
-Vai, Chico pede 4 que com esta fome só pode ser bom! Responde o Bags com olhos gulosos!
-E quer com ou sem Vatapá ? Pergunta de novo a baiana.
Habitados aos temperos da África-mãe, lá dissemos com Vatapá.
-E pimenta, cês vão querer também? Eu não vou botar muita não!…cês não está habituado e depois esquenta mesmo!
Efectivamente o Vatapá, que é uma massa com um óptimo aspecto que esta baiana coloca dentro do tal do Acarajé, é uma delicia . Quanto à pimenta, deu-nos de imediato a noção que com este produto não se brinca….é fogo, porra!
Mas a fome e a vontade de comer juntam-se perante esta delícia e com as sobras de algum dinheiro ainda pedimos mais um para cada um. Desta vez com muito pouca pimenta, viu?
-Com um ar trocista esta baiana lá nos estende mais quatro destas delícias…ah….gostosa Bahia!
Depois de um primeiro mergulho naquele magnifico mar azul e com as nossas economias a chegar ao fim, entendemos que era chegada a hora de reagir no sentido de vender mais umas Capulanas e afins!
Fomos desta vez para o meio da cidade que percorremos de loja em loja sem qualquer sucesso, contrariamente ao que esperávamos que fosse o impacto do nosso artesanato africano.
-Mas me diga, moço!…isso não é tecido brasileiro não?
-Tou gostando desta sabe! mas tou achando caro viu!
Enfim! Ossos duros do ofício! Ao fim de umas horas e com um cansaço a tomar conta do corpo, lá convencemos alguém à porta de uma loja que se interessou pelas nossas novidades africanas. Primeira venda em Salvador. Uma capulana vendida por 60 cruzeiros. Dinheiro na mão e um sorriso na cara que ultrapassa o cansaço.

Salvador 1
E nós de novo sentados numa tasca baiana para uma nova sessão de feijão, ao qual desta vez também juntamos o tradicional arroz. Momentos de agradável prazer e fome saciada!
Concluído este momento gastronómico e vendo o sol a descer no horizonte, lá decidimos voltar ao nosso posto no Farol da Barra, não sem tentar pelo caminho vender mais qualquer coisa aqui ou ali….sem sucesso!
Esta noite as muralhas do farol estão mais frequentadas de forasteiros.
Em conversa com um novo grupo estacionado ali perto e com quem partilhámos uma fumaça de maconha, a conversa fluiu neste sentido.
-Então cês vieram da África? Pergunta uma moça brasileira de tranças alouradas que faz parte do grupo.
-Exato! responde o Nuno. De Moçambique. Sabe onde fica?
-Nem ideia!
-Fica na costa oriental da África austral.
-Austral? Pergunta esta moça fazendo uma expressão de estranheza.
-Sim. Respondo eu desta vez. Na zona sul do continente africano junto a África do sul.
-Ah! Tou imaginando!…responde desta vez um rapaz alto de longas barbas igualmente brasileiro. E vocês tão de passagem por aqui? Pergunta curioso.
-Viemos curtir o Carnaval em Salvador. Responde o Bags. Mas estamos procurando um lugar pra ficar. Cês podem nos dar umas dicas?
-Tem um lugar aqui perto que chama de Jardim de Alah onde o pessoal que vai passando em Salvador fica por lá acampando. Tem um ônibus aqui na cidade que passa por lá várias vezes por dia.
-Interessante! Valeu pela dica, digo eu, desta vez passando o baseado ao Manuel e pegando emprestado o violão para largar neste ambiente baiano uns Blues e não só!
Estas jam sessions improvisadas sempre causam um excelente ambiente de grupo…momentos musicais enriquecidos pelos batuques, e uma harmónica ou uma flauta que sempre aparecem no saco de alguém. Uma noite simpática que durou até bem tarde.

E assim começamos um novo dia e um novo ciclo de imprevistos.
A primeira etapa seria fazer uma primeira ronda pela cidade no sentido de vender mais alguma coisa. As nossas finanças estão no zero.
Mas após umas horas a rondar por Salvador descobrimos uma praça onde se encontra o Mercado Modelo junto a um outro ícone da cidade – O Elevador Lacerda. Esta estrutura, com cerca de 70 metros de altur,a tem uma vista magnifica sobre a Baía de todos os Santos. Resolvemos subir por este monumento para ter uma vista lá de cima. Que visão fascinante! Uma vez de regresso ao nível inferior, chegamos ao Mercado Modelo, local bem agitado onde se concentra a grande venda ambulante de Salvador e por onde passam turistas em abundância.

 

Elevador-Lacerda1   OLYMPUS DIGITAL CAMERA
-Acho que aqui podemos tentar a nossa chance!…diz o Nuno.
-Concordo!…digo eu, lembrando-me do resultado positivo que tivemos na praça General Osório em Ipanema.
E uma estrela brilhou naquela tarde baiana. A exposição do nosso artesanato foi uma sensação. Conseguimos vender 4 capulanas, umas tantas pulseiras e colares e um sari indiano bordado a fio d´ouro. O resultado da tarde foram uns simpáticos 650 cruzeiros.
Tempo de comer algo na cidade. O lugar onde nos encontramos é bem baiano e a escolha gastronómica mais variada. Vamos lá provar essa gastronomia baiana uma vez que estamos mais abonados. Hoje o negócio correu bem e nós merecemos este prémio.
Eu resolvi provar um Bobó de camarão ( base dos bobós é feita de macaxeira ou inhame, amassada e cozida com azeite de dendê, leite de coco e temperos).
O Bags e o Manuel escolheram a Moqueca de peixe feita com diversas componentes: peixe, camarão, frutos do mar, aratu (tipo de mexilhão), maturi (tipo de castanha), etc.
E o Nuno foi em direção ao Acaçá. À base de milho, o verdadeiro deve ser preparado segundo rituais do candomblé onde a folha de bananeira é essencial sendo esta uma receita de oferenda aos orixás….curioso…pensei!
Lembrando-nos daquelas delícias que provamos lá na praia da Barra, ainda pedimos para todos uma rodada de Acarajés.
-Com pouca pimenta, moça!…um verdadeiro regalo, gente!
Terminado este magnífico rango, é tempo de apanhar o ónibus para o tal Jardim de Alah.
Este jardim é uma simpática zona plantada de coqueiros em frente ao mar. Sobre uma relva selvagem que cobre a área, vemos várias tendas de campismo ali estacionadas.
-Bonito lugar, digo aos meus companheiros.
-Valeu!…vamos ficar aqui junto destes coqueiros, não? Diz o Nuno com ar de satisfação.
A noite cai e temos pela frente mais uma dormida debaixo do céu baiano. Felizmente o tempo colabora. A temperatura é ótima, o céu está estrelado e em princípio não vai haver chuva. Assim esperamos!
Tempo de queimar mais uma boa erva que sempre ajuda à conversa que vamos ter com as estrelas.

No despertar de um novo dia comecei por um belo mergulho no mar…deliciosa a temperatura destas águas da Bahia quando comparada com aquela temperatura da água do Rio.
Tempo de comer umas iguarias que trouxemos ontem da cidade.
Ali perto estão uns freaks que pelo sotaque me parecem ser brasileiros.
Acenando com a cabeça vejo uma jovem morena levantar-se dirigindo-se a nós.
-Oi, bom dia!…vocês estão de passagem por aqui? Pergunta simpaticamente.
-Sim! Chegámos ontem à noite e por aqui dormimos. Responde o Bags.
-E vocês? São de cá ou estão de passagem?
-Nós somos um grupo de 5. Somos do Rio, outros de S. Paulo e viemos passar o Carnaval na Bahia!
-Valeu! Responde o Bags. Nós também viemos do Rio para ver o Carnaval, mas viemos de um pouco mais longe. De Moçambique.
-Ué! Moçambique? …mas o que é isso? Pergunta um rapaz magro que se juntou a nós.
-É um país que fica em África responde o Nuno.
-Que legal! E vocês têm barraca para acampar? Pergunta a moça.
Não!mas por quê pergunta? Intervém o Manuel desta vez.
Depois de falar em voz mais baixa com os outros do grupo retorquiu dizendo
-Por que tamos vendo que cês são gente boa procurando uma saída, certo? Vamos fazer o seguinte: Nós temos a nossa barraca montada aqui ao lado. Nossa ideia é propor a vocês de ficar na nossa barraca durante os dias que vamos estar em Salvador. Assim cês quebram o seu galho e nós ficamos sabendo que a nossa barraca vai estar em boas mãos. O que é que cês acham?
-Muito legal! diz de imediato o Bags em nome de todos e com um ar de satisfação.
É a minha vez de dizer.
-Muito obrigado!…vão em paz que a vossa barraca está bem entregue.

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Neste novo ambiente do Jardim de Alah tivemos a oportunidade de viver alguns momentos bem típicos da Bahia.
O primeiro foi ao final da manhã com um grupo que se juntou ali bem à nossa frente entre os coqueiros.
Um grupo de baianos da nossa idade com calça branca e em tronco nu que fazem uma roda todos sentados. Cinco deles estão de pé, três batem palmas, outro toca um Berimbau e ainda um outro que toca um Timbau (instrumentos bem típicos aqui da Bahia).
Ao ritmo da música saltam dois outros para o centro do círculo iniciando uma dança acrobática muito peculiar. Um misto de luta e dança onde os corpos simulam agredir-se sem nunca se tocarem. Espantosa encenação!
A alguém ali perto a assistir pergunto.
-Me diga por favor!…que dança é esta?
-Oh moço, isto é a Capoeira da Bahia. Cê não é daqui não?
-Não, estamos de visita. Obrigado, viu!.
O resto do dia passou-se por aqui. Aproveitámos para ir bebendo a tradicional água de coco vendida ao preço da chuva pelos neguinhos que vão passando aqui pelo Jardim, uns mergulhos nesse delicioso mar, e aproveitar pra fazer mais uns colares e pulseiras de missanga para vender.
No dia seguinte e antes de ir para a cidade ao final da manhã, pudemos ver algo ainda mais inédito neste local.
Do lado de cima do coqueiral vem um grupo colorido com uma daquelas baianas negras bem nutridas na frente, vestida com as suas tradicionais rendas e saias brancas.

Yemanjá 1   Yemnjá 2
Ao seu lado, vários morenos de chapéu de palha vestidos de forma bem tropical, que transportam um grande bolo de festa com uma santa em cima e rodeado de uma folhagem verde.
Entrando mar dentro numa espécie de transe com os olhos fechados e embalada pelos cânticos do grupo, esta negra leva agora aquele bolo amparada por dois homens. Os cânticos ritmados acompanham este extraordinário ritual. Com o aumento dos cantares e das emoções e já com água pela cintura, esta figura carismática entrega este bolo à flutuação no mar, vivendo um momento de uma espécie de exorcismo. Intenso este momento!
Em conversa com um dos presentes que me pareceu um entendido na matéria compreendi tratar-se de uma cerimónia bem brasileira com especial incidência aqui na Bahia.
– É verdade, moço. Aquela negra é denominada de Mãe de santo e estamos a assistir a uma cerimónia de oferendas a Yemanjá. A deusa do mar.
Interessado pela minha curiosidade, aquele simpático baiano explicou-me um pouco mais acerca deste ritual que tradicionalmente ocorre neste dia 2 de Fevereiro.
Yemanjá, é oriunda de um Orixá (como um santo) africano e é um termo da cultura afro-brasileira cujo nome deriva da expressão Yéyé omo ejá (Mãe cujos filhos são peixes). Yemanjá é parte do nosso Candomblé.
Deveras interessado neste fenómeno, pergunto:
-E o Candomblé?
-Candomblé é uma religião derivada do animismo africano onde se faz o culto dos Orixás.
-Certo, e quando você diz animismo africano?
Animismo é a visão de mundo através de entidades não-humanas como sendo animais, plantas, objectos inanimados ou fenómenos que possuem uma essência espiritual.
-Valeu amigo. Você me deixou mais rico com esta sua simpática explicação.
-Com certeza! O prazer é todo meu!

Depois de queimada mais uma bela maconha, vamos de regresso à cidade onde podemos sentir os primeiros sinais de um carnaval que se aproxima. Já há um espírito de festa no ar e no comportamento excitado de certas pessoas que cruzamos.
Há algo que me desperta uma particular atenção também. Uns cartazes em exibição aqui e ali, a anunciar o Festival musical Verão na Bahia. Neste cartaz surgem nomes sonantes de certas vedetas que desde Moçambique nos fazem vibrar. Entre eles Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Betânia, Chico Buarque, Jorge Mautner e vários outros – Salvador promete gente!

Fachada_Vila_Velha
Nesta noite no Teatro Vila Velha na Avenida Sete de Setembro em Salvador, vai atuar Caetano Veloso.
Deixando alguém aqui no campismo a vigiar o nosso património, lá vamos ao fim da tarde ver o ambiente.
O Teatro Vila Velha é um lugar carismático e tem como missão promover a criação artística, mantendo ao longo do ano uma intensa programação.
Quando ali chegamos, o local já está bem cheio de adeptos deste ícone da musica baiana.
Ao aproximar da entrada do edifício, uma realidade nos bate direto nos olhos. Os preços dos bilhetes.
No meio da multidão e numa voz bem alta, o Bags diz:
-Não vai dar, cara!…uma grana preta!
Depois de refletir um pouco e numa voz igualmente alta o Nuno diz.
-Se nos metermos no meio do maralhal e entrarmos à má fila!….será que conseguimos?
-Acho que é de tentar! reforço eu desta vez. Bora lá!
Sorte ou não, o que é verdade é que no meio da multidão a forçar as entradas do teatro, lá nos colocámos bem juntinhos a todo o mundo. Como não somos baixinhos, lá fomos furando e o resultado obtido foi positivo…passados minutos já estávamos no interior do teatro no meio de um ambiente de pura festa.

 

Caetano 2  Caetano Veloso 5  Caetano Veloso 4
Passada uma meia hora neste ambiente agitado, o concerto começa com a entrada de Caetano Veloso em palco, vestido com os exuberantes trajes da estação tropical e com a sua farta cabeleira, acompanhado naturalmente do inseparável violão. Receção ruidosa do público!
Por trás ao piano, está sentado António Perna que complementa em pleno o som do mestre Caetano e os restantes músicos da noite.
Estamos a assistir a uma fase marcante deste vaga musical de exceção em que o Caetano junto com Gilberto Gil estão regressando à cena musical brasileira, depois de um exílio de dois anos em Londres (entre 1970 e 1972). Exílio motivado pela repressão por parte do regime militar brasileiro.
Uma vez consumado este regresso ao panorama musical da Bahia, aqui está Caetano Veloso a dar mais uns passos na consolidação de uma carreira promissora na sua terra natal.

 

Caetano 3   Caetano Veloso 1
Que concerto pleno de uma maestria e que subtileza na voz e no violão! É admirável ver como Caetano conduz o espetáculo sabendo tão bem como transmitir energia boa ao seu público. Quanto talento, quanta energia, Caetano!
Pode-se dizer que este primeiro contacto ao vivo e a cores com o movimento tropical baiano superou as nossas expectativas. E mais à borla!…grande Bahia!…grande noite!…grande Caetano!

Dois dias se passaram e hoje temos uma outra aventura musical pela frente. Tentar ver desta vez o show de Gal Costa. A tarefa não está fácil, pois temos informação que os bilhetes estão todos vendidos e a vigilância das entradas está apertada.
-Porra, digo indignado. Adorava ver a Gal também!
-Só tem uma solução, diz o Manuel! Vamos pra lá mais cedo a ver se pinta alguma coisa!
-Ya! Por que não? diz o Nuno com esperança e entusiasmo.
E assim foi. Uma vez no exterior do edifício sentamo-nos cá fora no relvado do Vila Velha no meio de tantos outros, naturalmente penduras como nós.
Lá queimámos o belo baseado que sempre acompanha estes momentos musicais. Dentro do teatro o ruído já é intenso anunciando o inicio de mais uma noite de festa.
Nisto entra nas traseiras do parque um Triumph descapotável de cor branca com uma gadelhuda ao volante trazendo ao lado uma outra figura feminina.
Uma vez estacionado este carro fashion, vimos alguns fotógrafos se aproximarem para tirar chapas, enquanto as ocupantes saem e tiram da mala uma caixa de violão.
-Mas é a Gal, gente!…diz o Bags espantado!
-E se fossemos falar diretamente com ela? Diz entretanto o Nuno levantando-se instintivamente.
Dito e feito. Cheios de coragem e perfeitamente preparados para receber uma reação negativam aproximamo-nos da estrela e da sua companhia.
-Oi boa noite! diz o Nuno com um ar entre o nervoso e o desconcertado.
-Oi, gente!…conheço vocês? Pergunta a própria Gal com ar simpático.
– Creio que não!…mas me deixa explicar! tenta o Nuno a sua sorte. Nós viemos de África e somos fãs da sua musica faz tempo. Adoraríamos ver seu concerto, mas o show está esgotado.
– Desta vez a resposta vem da acompanhante muito supostamente a manager da Gal.
-Meus amigos, se está esgotado não há nada que possamos fazer. Tem um montão de gente como vocês querendo entrar, mas a Gal não pode satisfazer os pedidos de todo mundo, tá entendendo?
-Seria um grande favor. Viemos de tão longe pra ver você!…diz desta vez o Bags cheio de coragem e circunstancial humildade.
Perante a falta de reação da algo fria e distante Gal Costa, esta última diz-nos de forma desconcertante.
-Muita pena, moços!…cês são bem simpáticos, mas não vai dar. Tem outros concertos neste verão aqui na Bahia. Tentem mais tarde, valeu?
Entretanto, junta-se um monte de gente no local para ver a estrela de perto. Passados momentos a nossa vedeta e sua acompanhante entram por uma porta lateral para o interior do Vila Velha.
-Porra, não funcionou! Diz o Nuno desolado.
-E nós tentámos! diz o Bags com cara de quem levou com um balde de água fria.
Por ali ficámos a queimar mais um baseado e a sentir o ambiente que está animado, evidentemente dececionados face a esta tentativa frustrada de furar o sistema.

Gal Costa- 1  Gal Costa 3  Gal Costa 4
Qual o nosso espanto, quando passados uns minutos alguém sai por aquela mesma porta lateral e que, com alguma pressa, se dirige a nós perguntando.
-Foram vocês que falaram com a Gal dizendo que vinham da África para assistir ao concerto?
-Afirmativo! Respondemos entusiasticamente numa só voz!
-Então venham comigo.
Um milagre está em curso.
Lá seguimos aquele figurão com quem entramos para o interior do teatro e que nos fez atravessar todo o backstage sentando-nos em cima do palco na lateral, ao nível da banda. Parecia inacreditável, mas é pura verdade o que nos está a acontecer.
-A Gal não se esqueceu de vocês, mas só vai dar pra ficarem por aqui. Se mantenham aqui sentados, valeu?
-Pode deixar! Está mais que bom aqui!…digo a este nosso mensageiro da fortuna!
-Diz pra Gal que estamos muito agradecidos, dispara desta vez o Manuel inflamado com a situação.
-Valeu!…tudo de bom! Diz-nos este colaborador, desaparecendo de novo no backstage!
A estrela Gal Costa tinha finalmente captado os nossos sinais. Estávamos ali ao nível do palco para assistir em primeiro plano a este concerto tão desejado. Deste local atrás das cortinas vemos em primeiro plano a banda e os acontecimentos do show, mas não vemos o público…que privilégio!…grande Bahia!
Gal Costa é fundadora e fiel seguidora do movimento Tropicália em plena ascensão no Brasil e muitas vezes a musa inspiradora de Caetano que por seu lado compõe muitas músicas para ela.
Vamos com certeza assistir a uma grande noite desta geração que invade este país de inspiração e muito especialmente esta extraordinária região da Bahia.

 

Gal Costa 5   Gal Costa - India   Gal Costa 6
E este concerto é um verdadeiro estoiro de emoção observado a partir deste lugar onde nos encontramos.
Canções como Índia,  Mãe minininha, Trem das onze,  Cantar, e Milho verde foram um rastilho mais que suficiente para incendiar este concerto digno deste fabuloso movimento Tropicália.
Que noite Gal…bem hajas por este presente tão especial!

Parte III

Ao encontro do paraíso

Nestes dois últimos dias chove copiosamente em Salvador e no Jardim de Alah as nossas condições de abrigo não estão famosas dentro de uma tenda que deixa entrar a água da chuva intensa que cai sobretudo de noite.
Para além disso, tivemos a notícia de que os nossos simpáticos amigos que nos emprestaram a tenda estariam de regresso aqui ao jardim dentro de 2 dias.
A venda de artesanato continua a dar alguns frutos nos habituais pontos de venda em Salvador e estamos ultimamente a dar uma atenção especial a produção de bijuteria com uma mistura de missangas, prata e arame, artigos que estão a ter alguma saída.
-Gente! Temos que encontrar uma solução!..diz o Bags, preocupado com a situação.
-Vamos tentar a nossa sorte fora de Salvador? Pergunto com ar igualmente preocupado.
Uma bela manhã, passa por mim um par de mulheres com aspeto freak que me encontram a pintar a mão um prato de cerâmica.
-Oi, cara!…Tá trabalhando esse prato?
-Oi, respondo…é! são alguns trabalhos que fazemos aqui para vender na cidade.
As duas se apresentam de seguida. A primeira é uma bonita mulher de estatura média dos seus 25 anos e a segunda mais nova e igualmente bonita, mas ligeiramente mais baixa. Ambas vestidas de longas saias coloridas e com as kaftans bem populares nesta época hippie que vivemos.
-Eu sou a Myres e a minha amiga é a Raquel.
– Valeu! respondo calorosamente..Eu sou o Chico e estes meus camaradas, o Bags, o Nuno e o Manuel, que foi ao mar e está vindo aí.
-Faz tempo que cês estão aqui? Me pergunta desta vez a Raquel.
-Uma semana, responde o Bags recostado dentro da nossa tenda.
-Mas estamos a precisar de encontrar outro lugar pois essa barraca é emprestada e dentro de dois dias temos de a libertar.
Entretanto, roda um baseado de uma maconha do Uruguay, deixada na noite anterior por uns camaradas que passaram aqui pelo jardim. Partilhando o momento com estas nossas convidadas, é igualmente ocasião de saborear uma tradicional água de coco que um negão que sempre passa racha na hora, facultando esta bebida de eleição da Bahia…uma verdadeira delícia!
No desenrolar da conversa, a Myres diz:
-Vocês têm algumas outras alternativas, gente. Já foram ver pros lados de Itapoã?
-Não, responde o Nuno…de que lado fica?
-Vocês indo pra norte de Salvador, a uns 15 quilómetros logo encontram Itapoã. É um lugar que tem muitas casas frente ao mar, algumas delas mais pequenas não longe da praia que com sorte, conseguem alugar. Outra alternativa é a lagoa de Abaeté que fica na mesma zona. Quem sabe com um pouco de sorte cês acham por ali uma solução.
-Gente!…vamos dar um salto a Itapoã amanhã para ver o lugar e tentar a sorte? Pergunto aos meus camaradas face ao riso destas miúdas perante o nosso sotaque.
-É, pode ser uma boa!…responde o Bags!
-Cês têm um ônibus que sai várias vezes de Salvador pra lá.
– Obrigado, Myres e Raquel…vocês nos deram aqui algumas dicas preciosas, viu!
-Valeu, gente!….boa sorte e até breve, quem sabe!

Itapoã-1   Passar um tarde em Itapoã

Neste novo dia, partimos eu e o Nuno para Itapoã tendo esta nova missão pela frente. Encontrar um novo abrigo para nós na Bahia.
Na viagem de saída da cidade em direção a norte estes nomes algo familiares bailavam no meu espírito com o cantarolar de uma música do Vinicius Passar uma tarde em Itapoã e uma outra cantada pelo Caetano se não estou errado falando de  No Abaeté tem uma lagoa escura….arrodeada de areia branca..
E assim chegamos a mais esta simpática região da costa baiana para passear pela zona e falar com os locais no sentido de encontrar uma casa para morar. Esta missão levou-nos a passar em vários locais da simpática vila, tendo apenas surgido uma resposta positiva por parte de um proprietário local que pedia um preço simpático.
A nossa deceção foi quando compreendemos que esta casa se encontrava no meio de uma favela…pouco recomendável!…pensámos de imediato.
E prosseguindo na nossa procura ao longo da bela praia de Itapoã lá passamos frente aquele lugar emblemático do famoso poeta Vinicius de Morais, o branco mais negro do Brasil…Saravá!…lembrei-me!
Lugar inspirador, onde em companhia do seu velho companheiro Toquinho, produziram muitos e belos poemas retratando nas suas músicas todos os encantos deste lugar: o mar, o bar, a preguiça de sua gente, o arco-íris no ar, a água de coco, o sol, a pinga, a terra a rodar, o céu, a lua e o amor….grande Vinicius!

abaeté-1   Abaeté-3

Na falta de alternativas e antes do nosso regresso a Salvador, ainda passamos na tal lagoa de Abaeté, lugar lindo também onde, apesar de rodeada da tal areia branca, não produziu as eventuais soluções que estávamos a procura de encontrar. Regresso frustrado ao Jardim de Alah!

No dia seguinte fui a posta restante dos correios de Salvador ver se teriam chegado notícias de Moçambique. E na verdade chegaram.
A primeira carta recebida em território brasileiro. Carta emocionada da minha mãe com um filho na guerra e outro nestas andanças sul americanas.
Um longo texto com umas 5 folhas (retro e verso) onde a minha doce mãe escondeu duas notas de 50 Dólares, e umas saquetas de tintas de tingir tecidos compradas nos indianos lá na baixa de Lourenço Marques. Produtos essenciais para fazer os meus batiks, conforme lhe pedi na minha última carta escrita e enviada do Rio. Mãe há só uma, diz o ditado…e é bem verdade!
Pelo meio, chegavam igualmente algumas notícias inquietantes contando-me das condições militares vividas pelo meu irmão em zona de combates lá no norte (Mueda e Montepuez) e um pedido que sempre me deixa algo inquieto. Pede-me que escreva umas palavras a Tina que pergunta por mim querendo saber notícias.
Um tema para o qual eu continuo sem resposta.
Outro aspeto desta carta que também bate forte é o facto de que nem uma palavra do meu pai aparece nestas longas e dedicadas linhas maternais. O velho é duro de roer!…pensei!

Por mera coincidência, encontramos à saída dos correios a Myres que nos perguntou se tínhamos encontrado algo interessante em Itapoã. Ao que respondi com o meu ar algo dececionado.
-A zona é linda, Myres!….mas a única alternativa que surgiu foi de uma casa encravada numa zona de favela!…não é isso que estamos procurando, sabe?
-A Myres, senhora de um conhecimento muito razoável da região, responde:
-Entendo, Chico! Mas eu acho que vocês podem também tentar Itaparica. É uma ilha que fica aqui em frente de Salvador e que é acessível de barco numa ligação regular. Muitos estrangeiros escolhem viver lá pois a vida lá é tranquila e mais barata que aqui na capital da Bahia.
-Ah, parece interessante! diz o Nuno curioso com a perspetiva.
-Estou indo pra Itaparica amanhã para ver uns caras que estão morando lá! Cês querem vir junto?
Um olhar concordante entre nós produziu a resposta.
-Valeu, Myres…vamos nessa! respondeu o Manuel com entusiasmo.
-Nos encontramos no porto de Salvador pelas 8h da manhã, tá bom? Cês vão ver lá a placa indicando os barcos de Itaparica.
-Estamos lá, Myres…e obrigado mais esta vez. Respondo simpaticamente.
A travessia no barco para Itaparica deu-nos uma nova perspetiva da Baía de todos os Santos. Que zona bonita! Fico a imaginar como se sentiram aqueles portugueses das naus ao descobrir estes paraísos virgens nos longínquos anos de 1500.
A bordo deste barco que nos leva a Itaparica, meto conversa com um habitué que me explica.
Itaparica teve sua fama inicial como balneário de repouso e de saúde devido às suas bonitas praias e à sua água mineral que jorra da Fonte da Bica, localizada dentro da cidade, na costa oeste. Na parede frontal desta fonte cê vai encontrar um azulejo que tem escrito: Êh! água fina. Faz velha virá menina.
Curiosidades desta região tão peculiar….pensei!

Itaparica-1
A nossa jornada em Itaparica foi algo cansativa dado que passamos o dia circulando à procura de casas para alugar. Um passeio pelo Centro Histórico da ilha, Fortaleza de São Lourenço, Praça da Quitanda, e pelo Centro de Artesanato, onde pensámos que este seria um ponto interessante para as nossas vendas se por ventura nos mudarmos para cá.
Tarefa apenas interrompida com um simpático almoço que tomámos num botequim bem popular onde comemos e bebemos bem e a preços simpáticos.

Itaparica-3   Itaparica-4
Reencontramos mais tarde a Myres junto ao cais de embarque.
-E que tal, gente? Pergunta a Myres expectante.
-Não temos novidades, à parte de algumas casas que não são pro nosso bico e outras que os donos não estão a fim de alugar. Responde o Bags sentando-se em cima do casco de um pequeno bote.
-Acho que devem ter algum medo de alugar casa a estranhos! Digo eu desta vez.
No regresso a Salvador e tirando partido daquela bela travessia, esta nossa amiga diz-nos algo novo.
-Caras! Eu pelo que já conheço de vocês acho que tem um lugar onde cês se sentirão em casa.
-É mesmo? pergunta o Nuno curioso.
-É! Responde a Myres. É uma aldeia de pescadores mais para norte onde vive um montão de forasteiro como vocês que vêm de todas as partes do mundo. Se chama de Arembepe.
-Arembepe! Respondo com a minha evidente curiosidade. Mas fica na costa?
-Sim, é um aglomerado urbano junto à costa que tem uma aldeia de pescadores e uma lagoa interior. Um lugar muito legal onde se vive com pouco e onde cês podem alugar casa de pescador por 200 ou 300 cruzeiros por mês.
-Hummm….acho que temos que ir a Arembepe, gente! Digo eu com natural entusiasmo.
-Acho que sim…confirmam concordantes os meus três companheiros de fortuna.
-Eu costumo ir até lá entregar umas mercadorias e estou indo amanhã. Cês querem vir comigo? Fica a uns 30 quilómetros de Salvador.
-Valeu, Myres!…topamos! Diz o Bags com o habitual fogo pelas aventuras.
Esta noite entendi que era altura de escrever de volta para casa, dando as notícias e anunciando que só voltaria à posta restante depois do Carnaval. E anunciando naturalmente que o nosso regresso a Moçambique estava definitivamente comprometido e sem data de regresso prevista. Motivo mais que suficiente para aumentar as angústias lá em casa….fazer o quê?
Numa breve palavra e com um certo aperto no coração, pedi à minha mãe que dissesse à Tina que as circunstâncias evoluíram e que não tinha data prevista para voltar a Moçambique.
Feitas as despedidas daquele simpático grupo que nos deixou morar naquela tenda do Jardim de Alah, assim partimos para Arembepe a bordo da Vw Kombi da simpática Myres.
Ao chegar este nosso transporte, a Raquel que sabia que éramos amigos da música, saca de dentro da Kombi uma caixa de violão.
-Uau, Raquel!…um violão, minina? Exclamo eu com um sorriso solar!
-É! Eu sei que cês são amarrados em violão.
O instrumento que sai da caixa é um soberbo Di Giorgio de fabrico brasileiro. Caixa funda e braço largo talhado com cordas de nylon preto. Instrumento perfeito! Pensei.
-Magnífico violão, Raquel. Digo eu maravilhado!
-Gostou?…então e que tal agora no caminho tocar algo pra gente?
-Vamos nessa!
Entretanto começa a cair uma chuva copiosa e é tempo de nos abrigarmos dentro daquela Kombi.
O nosso percurso, embora debaixo de chuva, foi animado pois lembrei-me de tocar o Country roads do John Denver e o Season of Witch do Donovan tendo de seguida passado este violão ao Bags.
-Man! Prova lá esta maravilha!
-E o Bags igualmente se regalou com a qualidade deste instrumento. Dali em diante e até chegar ao nosso destino o forte foram os Blues.

Arembepe-47
O cenário de Arembepe é deveras acolhedor com muitas casas rústicas à beira desta estrada de terra com tetos de colmo entre os coqueirais junto ao mar.
-Tamos chegando a Arembepe gente! Diz a Myres animada.
-E parou de chover!…yes!…diz o Nuno guardando a harmónica no bolso.
A primeira sensação é de estarmos a chegar a um mundo à parte onde o tempo corre mais devagar, numa vida descontraída a avaliar pela forma como os freaks se vestem e se movem por aqui.
-Vocês sabiam que Arembepe é considerada a primeira aldeia Hippie do Brasil? Pergunta a Raquel.
-Não custa a acreditar digo eu no momento que paramos bem no centro de Arembepe.
-Caras!…cês aqui estão em casa, viu?…aqui é o vilarejo de Arembepe. A aldeia hippie fica no coqueiral mais adiante onde vocês podem chegar caminhando por ali. Chegando lá o melhor é bater papo com o pessoal residente e ver as possibilidades.
-Valeu, Myres…que barato esse lugar. Diz o Bags entusiasmado.
-De qualquer forma todas as semanas eu venho a Arembepe…nos vamos cruzar por aí com certeza!
-Legal, mininas…muito obrigado, viu! Diz desta vez o Manuel com um sorriso solar.

Chegando a Arembepe   Arembepe-24

Caminhando para a aldeia logo cruzamos um grupo que está vindo em nossa direção. Dois homens barbados e vestidos de kaftan de cores claras e uma bonita mulher com saia comprida e sutiã de biquini vestido.
hi guys!…how ´re doing?…just arriving?
Respondendo igualmente em inglês o Bags diz.
-Yeha! we´re fine…just arriving. Name is Bagse, this is Nuno, Manuel and Chico…and you?
-I´m Stephen and I´m from Australia. This Nick and Angie from Frisco.
-Nice to meet you…digo eu desta vez com um cumprimento cruzado. We are from África- Mozambique!
Mozambique? …exclama a rapariga desta vez…what in the name of!
-Yeah!…I heard about it. It is next to South Africa ain´t it? Pergunta o tal australiano. You come a long way!
You got it!…confirma o Nuno. Actually your way is longer then ours!….risada geral!
-We are just arriving and we´re looking for a place to stay. Would you have some nice clues to give us? Pergunta o Manuel curioso.
-Well guys the first thing to do is contact the fisherman. They won the local houses around here.
Nisto aproximam-se mais um casal de simpáticos hippies que nos perguntam em bom brasilês.
-Cês são novos por aqui?…são brasileiros? Meu nome é Murilo e aqui a Mada.
-Oi, tudo bom? Nós viemos d´África, respondo já a espera da reação habitual.
-D´África? pergunta a moça recém chegada com uns lindos olhos azuis.
É isso aí! Somos de Moçambique do outro lado de África. Nosso mar é o oceano Índico. Eu sou Chico, aqui o Bags, Manuel e aqui o Nuno….prazer!
-Mas como é que cês já estão falando tão bem brasileiro? Pergunta a moça.
-Nossa língua de origem é português, tá sabendo? responde o Nuno tirando as dúvidas.
-Que legal! Arembepe é mesmo universal, gente! De Moçambique!…nova risada geral.
Tempo de nos despedirmos do simpático australiano e do casal americano que seguiram o caminho da vila.
E explicando o que pretendíamos, assim fomos com este simpático casal brasileiro que nos levou a caminho da tal aldeia contando como o pessoal vive por aqui.
Umas das características marcantes do lugar é que as pessoas aqui falam devagar e tudo é muito cool. Dá a sensação que o tempo aqui anda mais devagar. Curioso!
Ao passarmos a porta das várias casas no nosso caminho vimos realmente um inacreditável mosaico hippie nunca dantes visto em outras partes por onde andámos.
Aqui a nossa esquerda, a frente de um casa muito peculiar está um freak sentado na posição de lotus a tocar cítara e uma mulher ao lado com as tablas e mais uns tantos a volta, ambos com cabelos coloridos e com trajes tipicamente indianos…convidativo….pensei!
-Estes são uns americanos que estiveram uns anos em Goa na Índia, antes de vir para Arembepe. Já estão por aqui faz um tempão…informa o Murilo.
Mais a frente agora do lado direito há quem faça Yoga em grupo e ali ao lado uns tantos artistas de pincel na mão que pintam quadros de alguma dimensão, e outro que está a esculpir um tronco de madeira.
-Mano velho!….lembras-te a casa do Ray na Swazi?…estamos numa viagem parecida não? Pergunto ao Bags
-Yeah!…estou a gostar disto!…acho que nos vamos dar bem por aqui gente.
Nisto chegamos a um lugar tipo cantina onde o Murilo pensa que é um bom ponto de partida para nós.
-E aí D. Deja?…tudo jóia?
-Diga aí, Murilo?….se melhorar, estraga né?….risada!
-Então aqui os companheiros recém-chegados tão procurando casa pra alugar. Tá sabendo de alguma coisa nas redondeza?
-Olha! Até que! E virando-se para alguém dentro do barraco com quem trocou umas palavras, diz-nos de novo. Estavam morando aqui perto uns caras que foi embora hoje de manhã. Cês devia ir lá ver, viu!
Nisto chegam a cantina duas jovens mulheres com roupa muito colorida uma de cabelo aos caracóis e outra de cabelo curto com uma criança de uns 5 anos. Têm um sotaque espanholado.
-Olá! diz de imediato o Murilo. Cês que tão vindo daquele lado tão sabendo de alguma casa para alugar? Aqui para os camaradas recém-chegados da África…apontando na nossa direção.
-De África! diz uma delas arregalando bem os olhos! Esse Arembepe es un lugar increible…de África?…Pero ustedes no son morenos!…nova risada geral
Percebi segundo me diz a Mada, que estávamos a falar com duas argentinas. Arembepe no seu melhor!
-Mira pués que si. Hay un par de dias que unos muchachos dejaran una casita alli mas arriba! Vayan-se por la banda isquierda y logo la veran…una casita pequeña que está libre desde hace pouco. Diz-nos descontraidamente esta argentina.
Muchas gracias! Digo eu do meu espanholês!
E despedindo-nos calorosamente de D. Deja, lá fomos andando no encalço da tal casa.
A nossa surpresa não foi das melhores. Esta casa tinha já uns ocupantes chilenos que acabam igualmente de chegar.
-Porra! digo ao Nuno! Bad luck!
Vemos entretanto o Murilo afastar-se para falar com outros freaks que estavam a volta de uma fogueira a preparar algo para comer.
Volta passados momentos e diz-nos.
-Gente, tem uma outra ali mais adiante que é dum pescador que vive do outro lado do rio. Segundo me disseram, está vazia neste momento. Querem tentar?
-Vamos nessa, diz o Bags sem hesitação.

Arembepe-29  Arembepe-27
Por indicações que fomos colhendo junto de alguns locais inseridos no mosaico tão diversificado quanto bizarro desta insólita aldeia, lá fomos dar com a casa do pescador do outro lado do rio que atravessamos a pé.
-O Murilo bateu numa porta meio aberta e lá surgiu uma baiana de pele queimada do sol, desgrenhada e com poucos dentes, que pelo jeito está amassando pão, acompanhada de uma criança de tenra idade puxando pela saia. Segundo compreendemos é a mulher do Sr. Galo, proprietário da casa em questão.
Depois de introduzida a conversa inicial, esta senhora vai dizendo.
-Cês tá falando da casinha ali perto da praia, gente? Ai mas ela não tem telhado, que o vento brabo levou! De qualquer jeito cês tem que falar com meu marido que está pro mar.
Percebemos então que o marido era efetivamente pescador.
-Ele só vai chegar quase de noite!
-Ah é? …mas Dona…cê acha que podemos dar uma olhada na casa e depois voltamos pra ver seu marido? Pergunta o Manuel.
-Pode sim!…é aquela terceira depois da curva do coqueiral e que não tem telhado! E nisto a senhora desapareceu atrás da porta.
E atravessando de novo o rio lá fomos ver a casa.
Paredes de terracota pintadas de um branco deslavado como era a construção tradicional da aldeia e com uma porta de entrada bem rústica de uma madeira comida pelo tempo e pela erosão. Telhado efetivamente não tinha, tendo apenas restado uma grosseira estrutura de madeira.
Entrámos e vimos que tinha 3 divisões. Uma maior e duas mais pequenas. Um chão de terra meio desnivelado e janelas incompletas com uma madeira que a erosão igualmente comeu.
-Hummm…há trabalho pra fazer aqui, gente! Digo eu aos meus companheiros.
-Mas olha que cês podem fazer aqui uns melhoramentos e fica muito legal, diz a Mada entusiasmada.
-É certo que com jeito vai dar pra nós quatro. Diz desta vez o Bags com alguma satisfação.
– Calma, meus caros…temos que falar primeiro com o tal do Galo. Responde o Nuno
-Adoro esse sotaque de vocês, diz desta vez o Murilo com ar trocista.
E deixando partir estes novos amigos brasileiros que foram uma preciosidade para esta simpática receção em Arembepe, sentamo-nos numa sombra, aproveitando para beber uma água de coco vendida por um moreno que vai passando.
Passando ao Nuno um baseado de uma erva do Uruguay que ainda sobrava do Jardim de Alah, comento.
-Que lugar, gente! Olha só esse mar azul ali em baixo. Maravilha esse Arembepe!…digo eu aos meus companheiros de aventura.
-Vocês acham que vai ter alguém aqui para nos comprar a nossa mercadoria? Aqui é tudo freak tesos como nós!…pergunta o Nuno.
-Ouvimos a Myres dizer que vem cá todas as semanas…sempre podemos ir um dia a Salvador e fazer a nossa feira habitual!
-Verdade!…se trabalharmos por aqui que a vida é barata e vendermos lá, o negócio corre! Responde desta vez o Bags.
Ao cair da noite lá fomos a casa do sr. Galo que já sabia da nossa existência.
O sr. Galo é um tipo magro de bigode e cabelo crespo com um corpo rijo bem marcado pelo sol e pela vida do mar. A receção foi simpática.
-Oba!…nha mulé me falou que cês tá procurando ficar na nha casa ali daquele lado da praia? Pergunta o sr. Galo com este sotaque bem baiano fumando o seu cigarro enrolado.
Embora com a noite já fechando o dia lá fomos ver a casa com o sr. Galo.
-Ô moços!…cês tão vendo que essa casa não tem telhado. O vento passou um dia e derrubou tudo.
E tem uma parede ou outra com rachadura que precisa uns reparo tá vendo?
Numa tentativa de atingir o nosso objetivo e confiando nas nossas mãos e na nossa capacidade de improvisação, digo de imediato ao nosso pescador.
-Nos diga, senhor!….se nós mesmos fizermos este telhado e a reparação destas paredes o senhor nos alugaria sua casa durante um mês?
O nosso homem faz uma careta e passados momentos responde.
-Ô gente!…até que pode ser, viu!…cês me parece gente boa!…eu desde que esse telhado partiu não aluguei mais essa casa, mas se cês me diz que bota telhado novo, podemos chegar a um acordo sim! Mas lhe digo também. Os estrangeiro que estiveram aqui deixaram essa casa na maior bagunça. Não quero ver mais isso não!
-Valeu! Então nos diga por quanto podemos alugar sua casa. Pergunto desta vez ao nosso interlocutor.
-O grupo de estrangeiros que estiveram aqui faz pouco tempo me deram 250 cruzeiros, mas como cês me deixa um telhado novo, eu vou deixar por 150 cruzeiros.
-Topamos!…responde o Bags depois de uma rápida consulta entre nós com o olhar.
Dinheiro vivo na mão do Sr. Galo e vamos em frente.

Esta primeira noite em Arembepe vamos passa-la dentro desta casa sem telhado que nos permite ver quantas estrelas tem este céu da Bahia. Se não chover estamos bem!
Ao dar um giro para ir ver a praia, passamos por uma grande clareira rodeada de coqueiros onde notamos uma pilha de lenha ao centro.
-Que será isto aqui? Pergunto a uma jovem morena que vai passando!
-Essa é um lugar onde o pessoal passa e vai depositando pedaços de lenha ao longo do mês. Na noite de lua cheia botamos um fósforo nela e sai um fogueirão….diz-me ela sorrindo!
O primeiro contacto com a praia de Arembepe, mesmo sendo de noite oferece-nos um momento muito agradável.
Sopra uma brisa marítima e num imenso areal onde se estende a magia de um coqueiral sem fim de um lado e do outro, oferece-nos uma visão espetacular.
Passando um baseado ao Bags, digo:
-Meus irmãos!…acho que desta vez acertámos!
-Concordo!….diz-me o Nuno a olhar o céu estrelado de costas na areia.
-Maior barato Arembepe!….responde o Bags com a maior satisfação.

Este novo dia que dá início a nossa passagem por esta Goa do Brasil, começamos com o matabicho possível e com um objectivo essencial. Cobrir este nosso palácio com um novo telhado.
Em conversa com o Sr. Galo no dia anterior compreendemos que o recurso as folhas de coqueiro entrelaçadas a moda dos pescadores, seria a forma mais eficaz de alcançar este objetivo. Mãos a obra!
Em conversa com um vendedor ambulante de água de coco, fizemos um acordo.
Ele trazia para o local os materiais necessários para cumprir esta tarefa de reparação, faria este trabalho do telhado, e nós naturalmente colaborando e aprendendo como se faz. Em troca oferecemos-lhe uma capulana moçambicana…deal!
O trabalho artesanal ficou bem feito, demos o nosso contributo, fizemos um novo amigo e no final da tarde conquistámos um novo look deste nosso palácio.
No chão, depois de mais ou menos nivelado, colocamos umas esteiras e cobrimos algumas das paredes com batiks e capulanas trazidas do outro lado do mundo. Esta decoração diferente chamou naturalmente a atenção dos habitantes de Arembepe. A nossa integração nesta comunidade estava assim a consolidar-se.
De imediato pensei na possibilidade de retomar a minha produção de batiks. Esta produção ia com certeza ajudar-nos a sobreviver neste lugar sedutor!
Tinha os tecidos, a cera, os pincéis e as tintas de tingir. Faltava-me um pequeno tacho para aquecer a cera e um alguidar, assunto que creio poder resolver na cantina da tal D. Deja.
No dia seguinte, com uma moldura em madeira para esticar os tecidos gentilmente cedida por um Inglês que morava mais abaixo da nossa casa e o bom negócio feito com a Deja, permitiram-me dizer a mim mesmo.
-Chico!….tens tudo o que precisas!….vamos a isto!
Neste dia tivemos a visita da mulher do nosso proprietário que veio de alguma forma inspecionar as obras do palácio com a criança pela mão.
-Oi Dona!…tudo bem com a senhora? Pergunta o Manuel
-He!….tou passando pra ver que cês tão fazendo com a barraca….hummm. Tou vendo que já colocaram o telhado e tá tudo ficando bonito com esses panos colorido….gostei!
Depois de provar o chá que tínhamos feito momentos antes e com um ar aliviado, esta senhora lá partiu. Tudo em paz!

Arembepe-17   Arembepe-19
A partir deste dia passamos a fazer parte da comunidade local composta de dois tipos sociais. Os pescadores locais e freaks de todas as partes do mundo. Arembepe no seu melhor!
Um dos lugares que me agrada especialmente em Arembepe é o lugar do Jeff e da Sheryl, os trovadores de cítara e tabla que vivem numa casa bem bonita com uma porta cravejada de vidros coloridos, janelas com rendas de pano e uma entrada com um grande mapa astral gravado em madeira colorida. E outros lugares aqui e ali carregados de arte, música e criatividade que são ocupados pela população residente e flutuante desta aldeia muito singular.
Que privilégio conviver com o misticismo e boa vibração deste lugar…pensei!
Ao fim da tarde deu-se um encontro curioso nesta nova casa. Passaram a nossa porta dois americanos e uma francesa que encontramos na praça General Osório no Rio. Emoção no ar, motivo de mais um chá, e um par de baseados de uma maconha de grande power. A famosa manga-rosa que eles agradavelmente partilharam connosco. Para completar este encontro, esta bela francesa presenteou-nos com um magnífico momento de flauta.
Mais tarde, pela ocasião de mais uma visita a cantina do povo da D. Deja, vejo chegar mais duas moças bonitas que me pareceram brasileiras.
Uma, muito descontraída que veste uma kaftan branca bordada com um dragão de ouro e outra com um olhar muito expressivo, com uma túnica e pantalonas coloridas e uma farta cabeleira aos caracóis.
Peço a D. Deja uma garrafa de óleo para cozinhar quando uma destas jovens me diz com um ar simpático e uma voz quente:
-Oi….tudo bem? Você é novo por aqui!…ou está de passagem?
-Sim, cheguei faz dois dias com mais três companheiros e alugamos uma casa aqui no coqueiral.
– Você é brasileiro?
-Não! somos d´África!
Ela com um ar muito admirado sorri.
-D´África!!!…mas cê fala português…ué?
-Viemos de longe! explico eu de seguida. Da costa oriental da África austral – Moçambique que é uma colónia portuguesa, tá vendo?
-Hummm…entendi, diz agora a outra moça…mas cê fala com um sotaque curioso.
-Nós estamos numa casa mais lá em cima que tem uma decoração bem africana. Bem fácil de identificar. Passem por lá quando quiserem! Convido eu de forma simpática.
-E vamos mesmo, viu! Responde desta vez a dos caracóis com uma voz quente e um olhar brilhante que captou a minha especial atenção.
Mais pela noite, após comermos a nossa refeição com os recursos do momento, estamos a arrumar um pouco mais a nossa barraca quando sentimos alguém bater a porta.
Ao aproximar-me dou pela presença de três jovens de roupas bem soltas e coloridas duas das quais tinha encontrado esta tarde na D. Deja.
-Oi! digo com uma expressão de agradável surpresa. Sempre vieram, garotas?
-Claro! Encontrar uma casa com esses tecidos foi fácil!…risada geral!
As nossas convidadas trazem uma boa surpresa. Um violão brasileiro de marca Giannini.
Umas vez sentados à frente da porta da nossa recém inaugurada cubata, assim nos juntamos para celebrar este agradável encontro com um chá que servimos e com um baseado que o Bags prepara entretanto.
A moça dos caracóis começa a tocar violão suavemente despertando a minha natural atenção.
-Como é que vocês se chamam? Pergunta ela enquanto toca uns acordes de música brasileira.
-Eu Chico, ali é o Bags, o Manuel e aqui o Nuno…e vocês? Pergunto
-Eu sou Rosangela ou Rose, se quiser. Aqui é a Angela e a Ana Luiza.
No desenrolar da animada conversa, o Nuno pergunta.
-E que tal celebrar este encontro com uma cachaça regada com limão, cá da vossa terra?
A cara que todos fizeram continha a resposta adequada, facto que impulsionou uma viagem do Nuno à D. Deja onde se comprava o arroz, batata, conservas, pão e outras artigos de consumo diário desta comunidade baiana….e a cachaça, muito naturalmente.
A Rose, mostrando curiosidade no nosso estilo, pergunta-me:
-E onde é que vocês vivem habitualmente?
Com o meu ar descontraído respondo.
-Em todo o lado…temos agora esta casa para morar durante estes próximos tempos mas vivemos em qualquer lado.
-E chegaram quando?
-Faz dois dias!
-Pena!….se vocês tivesse chegado há uma semana iam ver uma festa que fazem aqui em Arembepe na noite de lua cheia lá no areal. Maior barato!
-Já estou sabendo…uma moça me contou….aquele fogueirão, certo?
Acertou, Chico! Responde-me a Rose com um brilho nos olhos lindos que ela tem.
Nisto a mais baixinha e cabelo curto de nome Ana Luiza pergunta-nos:
De qual signos son ustedes ?
-Touro respondo colocando a mão no peito, Carneiro apontando para o Bags, Capricórnio o Manuel, e o Nuno é Sagitário.
Hummmm….aqui em Arembepe é tudo Touros , Aries, Leos, y Sagitários!…riso geral.
Sentindo passar uma boa vibração com esta carioca de cabelo aos caracóis, pergunto se posso passear um pouco do seu violão.
-Ah, você também toca violão?
-Sim, nós em África, como aqui no Brasil, temos muita proximidade com a música.
E com a chegada da garrafa de Super Quentão, uma marca de cachaça bem conhecida aqui da Bahia a qual adicionámos bastante limão e uma boa conversa, a música fluiu em tom de festa alimentada, pelos fumos de maconha que sempre foram surgindo na mãos do pessoal.
Dei assim a minha volta pelos Blues com os meus camaradas na harmónica, nos dois batuques e uma flauta que trouxeram entretanto dois muchachos atraídos pelo som da festa, que moram aqui perto.
Deliciada com o que via e ouvia, a Rose da voz quente diz-me às tantas.
-Tou gostando muito, africano! Diz-me ela com os olhos brilhando.
-Que bom!…sabe uma coisa?…é a primeira vez que alguém me chama de africano.
Ao que a Rose responde com um olhar felino….então já sabe!….sou eu!

Rose - Bahia 1974
A minha inspiração e o bom ambiente que se gerou nesta noite estrelada de Arembepe levaram-me a viajar pelos sons de Cat Stevens, Bob Dylan, Joan Baez e Beatles, entre outros, que foram completados com mais uns hits dos Stones e John Mayall com que o Bags entretanto nos presenteou. Esta Giannini está a provar bem o que vale esta noite.
A primeira garrafa de cachaça sentiu-se sozinha e teve que vir outra da D. Deja fazer-lhe companhia, completando uma emocionante noite de festa e uma química de grupo bem especial.
Que momentos bons!…que miúdas bonitas! Que corrente boa vivida com a garota dos caracóis e olhos de amêndoa.
Já era tarde quando o grupo dispersou com o centro de gravidade algo desviado… Arembepe no seu melhor!

 

Parte IV

Arembepe-33

Este novo dia é de alguma ressaca. A opção, evite a ressaca – mantenha-se bêbado, não é o melhor remédio e um mergulho no mar foi sem dúvida a fórmula mais adequada para um novo despertar. Depois deste mergulho de puro prazer, de comer algo e beber uma boa água de coco, pensei para comigo.
-Chico, agora sim! Vamos retomar as energias?…e que tal começar pelos batiks?…vamos a isto!
E assim o tempo vai passando nesta vida de total tranquilidade. Tem chovido bem de noite e o nosso telhado passou no exame. Com a noção intemporal que Arembepe nos dá, os dias seguem as noites e a lua já é crescente. Ao centro da tal clareira, a pilha de madeira vai igualmente crescendo, anunciando a proximidade de mais uma noite de Luau como chamam aqui no Brasil às grande festas de Lua cheia. Arembepe promete!
A nossa vida neste canto do mundo, apesar da permanente luta pela sobrevivência, é a expressão da felicidade e do bem-estar em estado puro.
Eu, com a minha nova produção de batiks e os meus camaradas com os colares e pulseiras feitas com arame e missangas de Moçambique, vemos com bons olhos fazer uma venda em Salvador, talvez ainda antes do Carnaval.
Nos intervalos destas nossas tarefas sempre há lugar para uns bons mergulhos no mar. E que temperatura boa a destas águas baianas.

Arembepe-13  Arembepe-28
Esta tarde encontrei na praia as garotas que passaram lá em casa e com quem partilhámos aquela festa bem agradável. Me aproximando do grupo, vi a Rose acompanhada das três garotas da festa e mais dois jovens brasileiros a quem fui apresentado.
-Oi, gente!…que bom ver vocês por aqui!…digo eu entusiasmado.
-Oi, Chico!…que prazer ver o africano mais musical de Arembepe….responde a Rose com entusiasmo e aquele brilho nos olhos.
Depois de um belo mergulho no mar e deitados na areia, pergunto à Rose:
-Naquela noite você ficou curiosa com a nossa origem e como viemos parar nesse paraíso brasileiro, certo? Mas me conta um pouco de você também.
-Pois não!…eu sou do Rio de Janeiro, sou estudante de faculdade e vim pra Bahia de férias com este grupo de amigos!
-Você está estudando o quê lá no Rio?
-A minha Faculdade é a Escola Superior de Comunicação. Responde-me esta carioca de olho bonito.
-Está indo bem? Pergunto.
-Sim…vida de estudante vivendo em casa dos pais…é o jeito, né?
-Tá vivendo com seus pais, é?…a responsabilidade é deles então!
-Responsabilidade? Pergunta-me a Rose franzindo o sobrolho.
-Sim…de ter posto ao mundo uma moreninha como você, cheia de caracóis e olho lindo.
-Ai africano!…assim você vai me deixar sem graça….responde ela, algo derretida com o meu comentário.
Continuando com este agradável diálogo, perguntei:
-E Arembepe, você já conhecia?
-Que nada!…nem a Bahia eu conhecia!…este grupo de amigos me desafiou pra vir até Salvador passar umas férias e conhecer este paraíso…eu aceitei e vim sem saber o que iría encontrar.
-E gostou do que encontrou?
-Ai, Chico!…eu vou contar pra você. Você tá olhando para uma garota de 20 anos que não conheceu antes nada parecido com esse ambiente maluco aqui de Arembepe.
-Ah, é! E aí, está gostando?
-Eu não tenho como vocês um contacto próximo com a filosofia Hippie. Esta é a minha primeira experiência neste campo. Mas eu estou adorando, cara!. Acho isto tudo o maior barato. Responde com um sorriso solar.
-Hummm…estou vendo!…sabe, Rose?…em Moçambique temos uma cultura portuguesa muito marcada pela influência inglesa. Todos os nossos 5 países vizinhos falam inglês e inclusive nós dirigimos na estrada como em Inglaterra. Do lado oposto de todo o mundo.
Esta proximidade com a cultura anglófona nos trás algumas vantagens. Sobretudo a proximidade com a África do Sul que recebe todas as informações de Inglaterra e Estados Unidos. De onde muito naturalmente recebemos a influência da contra-cultura Hippie. Tudo o que acontece por lá nós recebemos pouco tempo depois. Isso nos permitiu entrar mais facilmente neste movimento.
-Faz tempo que vocês praticam esta filosofia? Me pergunta esta guapa muito curiosa com as minhas informações.
Ao qual eu respondo com algum entusiasmo:
-Eu tenho 19 anos e comecei fumando os meus baseados e tocando violão com os meus 16 anos…Faz mais ou menos 3 anos.
Esta agradável conversa com a Rose terminou um pouco mais tarde, quando eu digo:
-Tenho que voltar pra casa, pois estou trabalhando sobre uns batiks.
-O que é isso?
-Passa lá em casa que eu te mostro como funciona.
-Valeu, africano!…passo sim. Diz-me esta carioca com um olhar de satisfação.
-Posso te dar um beijo antes de ir embora? Pergunto com ar malandro.
A Rose com um olhar de mel responde:
-Hummmm…sim, pode!
Fruto de um impulso e sem ela dar por isso, em vez de encostar os meus lábios ao seu rosto, roubei um beijo naqueles lábios que são lindos demais.
A resposta dela foi feita com um olhar felino!…seguindo-se estas palavras:
-Você é um safadinho, africano!…mas sabe que mais?… gostei!…tchau…até mais, seu tourinho!

Rose na praia  Arembepe-5

Algumas das conversas locais vão ao encontro deste grande evento que se aproxima. O grande Carnaval de Salvador que começa agora no dia 23.
Trazemos no espírito ir lá passar alguns destes dias loucos para viver esta festa nacional que foi afinal uma das grandes razões que nos impulsionou a vir ao Brasil.
Mas para isso acontecer, tenho que cumprir com os meus objetivos na produção de algumas peças em batik que trago em mãos.
A produção, quer minha quer dos meus companheiros, está em bom ritmo, mas parece-me que não poderemos pensar numa venda antes do Carnaval…vamos ver.

Por vezes, quando o mar está mais agitado e com a maré vazia, preferimos mergulhar nas águas das piscinas naturais formadas pelas rochas, ou em alternativa nas águas mornas e doces da lagoa interior. Aqui as águas são baixas, tranquilas e de uma temperatura de sonho, onde nos deixamos relaxar e mergulhar no meio de algas finas que fazem parte deste ambiente aquático.
Naquela tarde, e para minha grande satisfação, encontro na lagoa a Rose, a Ângela e os demais que moram lá em casa.
Aproximo-me do grupo e digo:
-Olha que turma mais legal que eu encontro aqui. O mar hoje está um pouco bravo, né?
-Oi Chico!…tudo bom?…responde a Ângela.
A Rose dos olhos doces sorri quando me vê.
Ao que eu retribuo, rastejando naquele espelho de água tépida a cobrir meramente os nossos corpos, na sua direção.
-Olha quem está aqui se banhando deliciosamente! Digo com o meu ar visivelmente satisfeito por ali encontrar esta carioca bonitona que tem mexido tanto comigo.
Satisfeito continuo
-E aí carioquinha dos olhos de amêndoa? Tudo bem com você?
-Oi, Chico!…que bom ver você! diz-me esta sereia de sorriso luminoso que me olha com uma inexplicável doçura, soltando no ar umas feromonas femininas.
-Que bom te ver também! Digo eu, soltando a minha tangível sedução e aproximando-me desta deusa de caracóis molhados, de um rosto lindo com uns insinuantes seios desenhados por baixo de um tímido biquíni.
Sentindo que o clima deste nosso reencontro é gerador de um mútuo prazer, o meu coração começa a bater mais rápido!
Este inexplicável poder de atração e o primeiro contacto das minhas mãos com as pernas submersas desta doce morena, são momentos de natural emoção. Face à aceitação mútua deste contacto, ambos sentimos que o momento é de convergência e partilha sensorial sentidas por dois jovens que se aproximam e se envolvem, beijando-se gostosamente. O sabor do último beijo roubado lá na praia tinha sabido a pouco.
Muito ao jeito desta geração despida de preconceitos, o nosso enlace ali dentro desta água maravilhosamente tépida, conhece ao fim de alguns momentos o seu ponto de não retorno, transportando estes dois taurinos para uma outra dimensão. Para uma esfera onde uma boa química e as emoções vibrantes os conduzem numa espiral de desejo onde o tempo e o espaço se tornam intangíveis.
Ambos sentimos neste momento transcendente vivido a dois nesta lagoa, que este não é um encontro de circunstância. Algo de mágico se produz entre nós. Como uma passagem para um estado de regozijo onde tudo será diferente dali em diante. Como uma deliciosa sensação de união, fruto da sedução de um olhar…de uma atração à primeira vista que começou naquela festa e que tomou forma ao longo dos últimos dias.

Esta noite levei um tempão a adormecer pensando no que me tinha acontecido naquela lagoa. Sorri sozinho a olhar para aquele telhado de folhas de coqueiro. Em mim bailava uma euforia e uma voz interior que me dizia!…Rose – que criatura maravilhosa!
Nos dias que se seguiram, eu e esta linda carioca passámos a ver-nos cada dia, embalados nesta melodia que não se explica nem se mede, que aproximou dois taurinos fascinados um com o outro neste paraíso terrestre.

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Com a obtenção de alguns tecidos de cor branca, através de uma troca que fiz com uma morena da aldeia com um aspeto índio que me lembra a Bambina, achei que era chegada a hora de produzir mais uns batiks para vender logo que possível em Salvador.
Trabalhei o dia todo na produção destes novos batiks! O resultado, apesar das condições precárias de trabalho, estava a tomar forma. Na manhã seguinte ia passar para o tingimento de mais uma cor.
Depois de deixar algumas peças a secar ao sol, eu, a Rose e mais uns tantos, fomos dar um mergulho no mar e visitar a casa de um tal Manu de quem já tínhamos ouvido falar.
Manu é um figurão. Um moreno alto de corpo esguio e dono de uma grande cabeleira afro.
A forma como recebe quem chega, é bem reveladora de um tipo muito simpático e definitivamente muito criativo tendo como atividade principal a produção local de vestuário tendencialmente Hippie. Em casa do Manu respira-se arte. Há quadros em fase inicial, outros quase concluídos, entre aguarelas, acrílicos e óleos. Mais ao canto, as esculturas em madeira…simplesmente fabuloso! E outra marca forte desta casa. A abundância de instrumentos musicais. Conta-me um do nosso grupo que já é habitual frequentador desta casa do Manu, que todos os dias se desenvolvem aqui jam sessions espontâneas da melhor qualidade!
Outro dos pontos interessantes deste lugar. Passámos a saber que sempre que faltar uma passa para fumar, chez Manu tudo se pode transacionar…uma vez mais, pensei!…mais uma demonstração da magia de Arembepe. Este será um lugar para voltar seguramente.

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Ao voltar a casa tive a primeira sensação nefasta desde a nossa chegada a este paraíso baiano. Os batiks que deixei a secar fora de casa já não estão onde os deixei!
-Porra! Grito para o ar desesperado!
-Que foi, Chico! Pergunta-me o Bags
-Levaram os batiks que deixei aqui a secar!!!
-Ai, que sacanagem! Diz a Rose, com ar desolado.
-Filhos da puta! Vocifero…trabalho de dois dias!
Não é difícil concluir que este não é dos meus melhores dias nesta aldeia onde me senti até este momento em casa, mas onde a maldade humana e o instinto de sobrevivência estão inequivocamente presentes.
Vamos em frente!…Tenho felizmente outros trabalhos em fase de acabamento e sei que a partir daqui o jeito é não deixar nada fora de casa nas nossas ausências, evitando por água na boca dos amigos do alheio.
Entre os trabalhos que fazemos em casa e os frequentes mergulhos de mar e na lagoa durante o dia, sempre se sucedem algumas batucadas animadas que acontecem regularmente aqui na aldeia. O violão da Rose passou a ser uma presença permanente em casa dos africanos de Arembepe. O que também ajudou a manter a animação neste grupo amigo do som.

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Gostosamente ao meu lado e como um passeio diário nas nuvens, passei a ter a minha namorada carioca. Como um sonho de olhos abertos onde o romance é uma constante e onde amor não tem hora nem limites. Parabéns, cupido! Fizeste muito bem o teu trabalho.
-Vem cá, gata dos olhos lindos…me dá um beijo!
-Ah, o meu africano quer um beijo, é?
-Não! tem que ser dois!…mas como diz o ditado, não há dois sem três…então quero três carioquinha.
-Hummmm….tá bom!…vem cá, grandão!
Aquele sorriso e aquele brilho nos olhos de amêndoa não enganam! O resto é tocar no céu!

O tema Carnaval entrou definitivamente nas conversas do nosso quotidiano.
-Como é, pessoal?…o festão começa amanhã!….vamos até Salvador? Pergunto com ar entusiasmado.
-Sim, mas vender os bagulhos em pleno Carnaval não dá, né? Dispara o Nuno.
-Pois, deve lá estar uma bela confusão. Mas vamos nessa. Encontrei ontem a Myres ali na casa do Jeff. Ela vem por aí amanhã. Aproveitamos a boleia?
-Vamos nessa!….diz o Bags animado pelo fogo da festa.
-Eu e as meninas também vamos até lá no sábado, diz a Rose. Mas vamos voltar no mesmo dia! Vai, africano!…vocês nunca viram o Carnaval brasileiro…para mim um dia tá bom!

Carnaval de Salvador

6ª feira 23 de Fevereiro de 1974.
Casa fechada, tudo guardado e pedindo aos nossos vizinhos para deitar um olho no nosso palácio, aqui vamos a caminho de S. Salvador da Bahia.
A nossa chegada com a Myres a Salvador que foi feita pela avenida Oceânica, é agitada pois os sinais da maior festa deste país já estão nas ruas.
Aqui e ali, grupos de batuqueiros do samba, já enchem os bairros da cidade e a euforia já é bem visível neste mosaico de personagens de todas as raças e tipos.
-Caras, vou deixar vocês aqui na Barra pois não vai dar pra circular não! Diz-nos a Myres com um ar algo stressado.
-Valeu, garota!…obrigado pela carona!…você é um anjo! Respondemos quase numa só voz.
São 3 h da tarde e a partir daqui estamos entregues à folia que está no ar.
As ruas já estão cheias de gente. Personagens fantasiados, outros não (homens, mulheres e crianças) altos, baixos, bonitos, feios, gordos, magros, sambistas saindo de todos os lados embriagados por uma invulgar alegria colorida.

Carnaval-6  Carnaval-2

Nunca na minha vida vi tamanha energia popular e tamanha explosão de espontaneidade….estamos no Brasil, gente!
-Entusiasmado com o ambiente o Manuel diz.
-Me disseram que na praça Castro Alves é a concentração da loucura. Vamos até lá?
-Vale tudo! Vamos! Se conseguirmos lá chegar!
Com algum esforço, lá nos metemos pela Av. Princesa Leopoldina e perguntando aqui e ali, lá nos disseram que seguindo pela Araújo Pinho encontramos mais adiante a praça Castro Alves.
O comportamento social nesta época de festa é indescritível. Vive-se em pleno um Carnaval contrastante com o regime militar vigente, num país onde as pessoas de todos os quadrantes sociais se permitem fazer de tudo. Como que guiados por uma libertação cultural, social e sexual…incrível!
Ao chegar finalmente a esta praça onde o ambiente já está ao rubro, queremos saber do que constam os famosos Trios elétricos que compõem o desfile.
A um baiano alegre e bem disposto que está aqui a porta de um botequim com uma cerveja na mão, pergunto em voz bem alta devido ao som do samba que já ocupa totalmente a praça.
-Viva, meu amigo!…eu não sou de cá e é a primeira vez que venho ao Carnaval da Bahia. Me conta por favor como é que funciona esse negócio do Trio elétrico.
-Ah! Você é forasteiro?…valeu. Me responde este folião que me conta em seguida.
Os Trios elétricos são estes caminhões alegóricos que cê vai ver desfilar por aí, alguns com forma de garrafa de cachaça, ou de outros tipos. Tudo relacionado com os patrocinadores. Carnaval também é uma indústria, tá sabendo? Eles estão todos equipados com grandes alto-falantes e amplificadores feitos com válvulas e trazem em cima 3 músicos. Uma guitarra baiana, o baixo e a guitarra tradicional. Tudo ligado na eletricidade em movimento. Daí o nome Trio elétrico!
– Bem!…e qual é o trajeto deles?
Eles vão sair lá de Campo Grande até aqui, passando pela avenida 7 de Setembro
-Valeu …obrigado, viu! Respondo simpaticamente batendo a minha mão na deste simpático folião..
Neste ambiente o consumo generalizado de cerveja, cachaça, maconha e cocaína é fora de medida e a polícia, que já circula por aqui em grande quantidade, não chega para controlar tanta loucura.
Voltando-me para os meus companheiros, digo-lhes:
-Estive ali a falar com um cara que me disse que isto vai começar lá em Campo Grande, e continua pela Av. 7 de Setembro em direção à Praça da Sé, para chegar finalmente aqui na Castro Alves…vamos seguir um Trio elétrico para sentir essa loucura?
-E onde fica esse Campo Grande?
-Vamos perguntando e vamos andando, não?
E às tantas, estoirados que estamos, deitamo-nos num jardim relvado a comer umas iguarias compradas no último botequim onde bebemos mais umas cervejas. Ao nosso lado está um grupo de americanos tão cansados e alucinados quanto nós perante esta folia sem tamanho.
Conversa puxa conversa, ficamos a saber que eles tinham chegado há dias ao Brasil vindos da Bolívia. E o melhor da história é que tinham uma coca de exceção que partilharam ali connosco utilizando as famosas colherinhas de prata pendentes ao pescoço…caídos dos céu estes gringos! Nada melhor que uma boa coca para enfrentar este ritmo alucinante do Carnaval de Salvador.

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Um pouco mais tarde, já ao cair da noite e com os neurónios mais acelerados por este néctar Boliviano, chegamos ás proximidades, do Campo Grande. Vimos então surgir na tal avenida 7 um Trio elétrico de nome Trio Saborosa, uma das grandes marcas de cachaça da Bahia.
Um camião com forma de garrafa de cachaça, conforme me explicou o baiano lá atrás e lá vêm os 3 músicos em cima tocando alto e bom som os novos hits do Carnaval deste ano, dos quais um marcou o ritmo do dia – Atrás do Trio eletrico só não vai quem já morreu!
E como estamos bem vivos e com esta coca ainda mais vivos nos sentimos, a vontade de partilhar esta loucura e este frenesi, impele-nos de entrar mais fundo neste fenómeno da famosa Avenida 7.
Aqui o povão que quer assistir ao desfile fica nos passeios que estão apinhados de gente dos mais diferentes tipos. A alegria e a excitação não tem fim.
Combinei com os meus companheiros que caso nos perdêssemos na multidão, nos encontraríamos mais tarde no mesmo botequim junto à Praça Castro Alves. Medida bem tomada pois não faltou muito para eu não ver mais nem o Bags, nem o Manuel, nem o Nuno no meio desta multidão aos pulos.
E no meio desta loucura pensei!…e se eu experimentasse entrar no cordão atrás do Trio elétrico?
O cordão delimita a faixa de rodagem da avenida, onde normalmente circula o trânsito e que se encontra separada dos passeios de um lado e doutro pelo dito cordão.
Esta experiência vai ficar com certeza gravada na minha memória por muitos e longos anos. Ali entrei no meio do povo pulando e cantando ao som do samba atrás do Trio elétrico, sentindo que, no seio daquela massa humana, quanto mais me aproximava do trio lá na frente, mais ela se tornava compacta.
Chega um momento em que a folia se mistura com a claustrofobia e eu com o meu 1,85 m de altura dou por mim a avançar com a multidão sem tocar com os pés no chão.
As palavras são insuficientes para descrever este momento que dura uma eternidade. Invadido por uma certa aflição, penso. Tenho que sair daqui!
Aproveitando um abrandamento do movimento, lá consegui à força e fruto de muito empurrão, chegar-me para o cordão saindo daquela máquina infernal…totalmente arrasado, enfio-me para dentro de um beco e pensei ofegante…Atrás do Trio elétrico só vai quem não se importa de morrer…Chico!…olha só por onde tu andas!…ufff!
Já é noite cerrada quando chego a zona da praça Castro Alves acompanhado de um casal, um francês e uma chilena que entretanto conheci, perdidos como eu no meio da multidão. Esta tarde, para além da inédita experiência do cordão, pude presenciar as cenas mais insólitas nas ruas de Salvador no meio de um povo em delírio e com a cabeça cheia de samba. Vi de tudo no espaço de três horas, Os Reis Momos, Arlequins, Columbinas e Pierrôs que integram os grupos mais marcantes da festa, …e muito mais!

Tinham-me dito que a atividade sexual livre era bastante visível nestes dias de festa. Confirmado ao vivo e a cores. Qualquer canto de rua, jardim ou automóvel serve para dar asas à libido que anda a solta por todo o lado. Absolutamente inédito! Vai seguramente vir muita gente ao mundo dentro de 9 meses!
Agora chega à praça um novo bloco chamado de Afro Ilê Aiyê.. Segundo alguns entendidos ali ao meu lado, compreendi ser uma nova expressão no Carnaval baiano. A aparição do Afoxé Filhos de Gandhy, todo composto de homens com uns vistosas vestes e turbantes brancos na cabeça, constituem uma vaga de reafricanização da festa, que passou a enfatizar os conflitos e a protestar contra o racismo. Foi pelo menos o que consegui compreender.
Já são horas bem adiantadas quando reencontro no tal botequim o meus companheiros de aventura.
Depois de partilharmos as emoções loucas que cada um experimentou e, uma vez apresentados aos meus acompanhantes ocasionais, lá decidimos dirigir-nos para uma zona mais familiar da cidade. A zona da Barra.
São 4h da matina e, por incrível que pareça, estamos sentados à mesa de uma tasca local a comer feijão preto com arroz, a inseparável farinha de pau e uns acarajés. Puro prazer mais uma vez condimentado com o melhor tempero. Uma fome negra.
Onde iremos passar o resto da noite é uma total incógnita, mas como estamos para lá de cansados, qualquer canto vai servir para passar pelas brasas.
Passadas algumas horas de um sono marginal num jardim ali perto, dou por mim a abrir os olhos e perguntar por momentos aos meus botões…onde estou?
Neste segundo dia de Carnaval começamos por dar um belo mergulho nas águas da praia da Barra onde nos acontece um episódio curioso.
Sentados na areia da praia a olhar para aquela maravilhosa Baía de todos os Santos, alguém se aproxima pedindo lume para acender um cigarro. Atendendo a este pedido, o Bags estendeu o gasolineiro a este alguém que é finalmente uma cara deveras conhecida. Caetano Veloso…estamos realmente em Salvador!
O resto deste nosso dia passamo-lo a circular pela cidade e a viver o ambiente de um festa que vive presente no espírito deste povo durante 4 dias e que recomeça para nós com uma tremenda batucada de rua ali perto, com capoeira e outras danças que nos deixam de quatro. Simplesmente fabuloso!

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No meio deste frenesi que se vive em toda esta cidade colorida e vibrante, deu-nos novamente a fome e lá estacionámos num dos lugares populares onde se come bem e barato. Hora de carregar baterias para mais uma jornada carnavalesca.
-Loucura este carnaval gente! Digo francamente satisfeito com a experiência.
-Sem dúvida! Agora vamos até onde?…eu tenho uma ideia diz o Bags. Encontrei ontem uns caras que me falaram daquele grupo Novos Baianos que vão atuar hoje num dos blocos como eles chamam por aqui.
-Grande ideia! Por mim tou nessa, respondo….adoro Novos Baianos!
E a entrada na avenida deste bloco foi um estoiro. Algo nunca visto no Carnaval do Brasil.
A razão desta emoção foi-nos explicada por um local que estava connosco assistindo. Ele explica que é a primeira vez que um Trio elétrico se apresenta com equipamentos transistorizados.
O momento alto é quando Baby Consuelo surge cantando com um microfone ligado ao cabo de uma guitarra. Delírio total na avenida.

Carnaval-7

Ao fim deste dia e bem cansados de tanta folia, já pensávamos no regresso ao nosso coqueiral de eleição. Mas ali num momento de descanso e deitado de costas a olhar para o céu, penso. É preciso admitir um facto. Só brasileiro consegue enfrentar 4 dias deste ritmo absolutamente frenético onde o consumo de álcool é excessivo, onde as pessoas se libertam de preconceitos se beijando em qualquer lugar, onde a promiscuidade e o sexo estão presentes, e onde o aumento de criminalidade é um facto real que as estatísticas não escondem.

Para muitas pessoas, o Carnaval é o momento de fazer o que em regra não se faz no quotidiano ao longo do ano.
Em países tropicais como este, o clima é propício, a ousadia sem restrições vive no espírito das pessoas, a música é ritmada forte e abundante, as roupas são coloridas curtas e justas. Neste período o tempo não conta, e as classes sociais fundem-se democraticamente para viver um festa, que paralisa o país durante uma longa semana… para tudo se acabar na quarta-feira!

O nosso capítulo Carnaval de Salvador tem um desfecho simpático. Encontramos na avenida 7 de Setembro um casal de ingleses que moram em Arembepe, que estão com carro e na disposição de nos levar mais tarde quando regressarem…carona caída do céu!

Como ontem chegamos muito tarde a Arembepe, o nosso dia começa mais tarde também.
Depois de tomar o meu matabicho acompanhado de uma boa taça de café para despertar, e sentindo as naturais saudades da minha namorada, decidi atravessar o rio para ir vê-la e saber como tinha sido o carnaval ontem em Salvador.
As notícias que a Rose me conta não são as melhores. Com o Carnaval correu tudo bem, mas no regresso a Arembepe, ela, a Angela e a Regina viram-se aflitas para se libertarem dos dois tipos que as trouxeram. Uma tentativa de assédio sexual que produziu momentos de intensa angústia e muito stress. Infelizmente nada de novo no mundo dos vivos, seja no Brasil ou em qualquer lugar.
Depois de ouvir a sórdida história, chego a Rose para mim dizendo-lhe ternamente:
-Vem cá, minha querida!…já lá vai!…vocês voltaram e está tudo bem!

Entramos assim na nossa terceira semana neste paraíso baiano.
Dentro de poucos dias será lua cheia e a festa desta vez (Luau) será aqui na aldeia com uma fogueira gigante que estou muito curioso em ver.
Semana igualmente fértil no desenvolvimento de novas ideias e criação de novos objetivos.
O Bags com o seu instinto apurado para a abertura de novos caminhos e influenciado pela viagem feita anteriormente com o Kelp à Bolívia, trazia no espírito a vontade de lá voltar. Uma terra onde a branquinha é de qualidade e onde supostamente se vive bem mais barato que aqui no Brasil.
Este foi um tema igualmente debatido com alguns aqui na aldeia que já conheciam bem a Bolívia e o Altiplano andino.
Dizem que as conversas são como as cerejas! As informações recebidas são fascinantes, fazendo-nos sonhar com um novo horizonte e alimentando o nosso imaginário.
Impérios antigos e novas culturas faladas numa língua que nos é de todo desconhecida. O espanhol.
Nasce assim nos nossos espíritos errantes uma nova etapa desta nossa passagem na América Latina. Viajar para oeste.
Hoje de tarde, num dos nossos momentos de deliciosa intimidade olhando a Rose, pergunto-lhe:
-Querida, me diz uma coisa! Você tem escutado entre nós algumas conversas sobre esta ideia de partir de Arembepe e viajar pra Bolivia, certo?
-Sim, claro! Quando vocês vieram pro Brasil já traziam esta ideia de continuar viajando para esses países?
Oferecendo um beijo terno a minha namorada explico:
-Me escuta, carioca linda!…nós viemos para a América Latina por duas razões principais. A primeira movida pela vontade de conhecer um novo mundo e viver novas experiências, mas essencialmente para não participar numa guerra terrível que está a acontecer em Moçambique. Uma guerra que não é nossa e que pode tirar-nos a vida ou deixar marcas profundas. Eu tenho um irmão que é piloto da força aérea portuguesa e que está há vários meses a combater nesta maldita guerra. Não quero isso para mim! Respondi com ar grave e sério. Nós viemos com um bilhete de avião válido para duas semanas, com algum dinheiro no bolso e uns negócios para vender. Os nossos planos sempre foram Brasil. Mas uma vez neste continente as circunstâncias evoluem, viemos para a Bahia e agora as antenas se viram para a Bolivia. Quem pode prever o futuro, minha querida?…a melhor forma de prever o futuro é criá-lo…vamos criá-lo!
-É por isto que eu me amarro em você, sabia? Nessa liberdade de pensamento sem fronteiras, sem medo da vida.
Com um ar sério e algo determinado, olho a minha namorada nos olhos, e digo:
-Eu não sei o que você vai me responder, Rose. Mas eu adorava que você viesse comigo nessa viagem.
Com uma voz quente, a Rose responde.
-Africano!…escutei bem o que você acaba de me dizer?…quer repetir pra mim?
-Você ouviu direito!…eu não quero deixar você sumir assim da minha vida. Eu gosto demais de você, guapa.
Depois de um silêncio que durou tempo demais, esta minha companheira responde:
-Africano! Eu sou muito amarrada em você…você sabe disso…você me dá confiança e eu quero muito ir com você nessa viagem. Eu nunca saí do Brasil e quero muito participar nesta aventura sim.
O meu coração bate agora mais depressa e a excitação toma conta de mim.
-Está falando sério, garota?…isso pra mim é uma emoção sem tamanho…mas, e a tua família lá no Rio…a tua faculdade?
-Me escuta, Chico!…eu estou indo embora pro Rio dentro de poucos dias. Mas agora que esta ideia excitante entrou na minha cabeça, eu quero muito ir com você. Vou tratar de tirar meu passaporte, juntar uma grana e trancar a minha matricula na faculdade. Aí você passa no Rio pra me pegar…concorda, africano?
A minha resposta vem através de um terno beijo que ofereço a esta carioca que eu adoro e que acaba de me levar às estrelas com esta resposta mágica e esta inegável prova de amor.

Arembepe-38  Arembepe-26

Tivemos hoje uma visita inédita em Arembepe.
Do meu vizinho de Lourenço Marques Tonecas Couto que ainda mora no Rio de Janeiro e que traz uma novidade bombástica.
-Como é, Tonecas? Você por aqui, cara? Pergunta o Bags cumprimentando este nosso amigo recém chegado a Arembepe.
-É, tudo legal. Mas tenho que falar com o Nuno Quadros. Ele está cá com vocês?
-Olha ele vindo aí! Aponto eu desta vez para o Nuno que estava vindo da praia com uma namorada brasileira bonita de morrer. Muito ao jeito do Nuno!
-Oh, Tonecas por aqui? Exclama este totalmente surpreendido.
O Tonecas sem perder tempo, responde.
-É!…eu trago algumas novidades pra você, cara.
-Ué! …e do que se trata? pergunta o Nuno com ar surpreso.
-O teu irmão Rui foi lá a nossa casa em LM e pressionou a minha irmã Lena para lhe dar o nosso endereço no Rio de Janeiro.
-E aí, ela deu?
-Aí ela viu-se na obrigação de dar o nosso endereço e a bomba estoirou na minha cara.
-Como assim? Continua o Nuno.
-O seu irmão Rui faz uma semana que está no Rio te procurando e está muito puto da vida, viu? Eu lhe perguntei porquê mas ele só me explicou que tinha que te encontrar…de qualquer jeito!
-E tu disseste onde eu estava? Pergunta o Nuno com um semblante carregado.
-Não….até porque eu só sabia que vocês tinham vindo pra Bahia, mas não tinha a menor ideia que vocês estavam aqui. Quem me falou de vocês foi um cara que encontrei no Carnaval lá em Salvador que por acaso conhece vocês.
-E agora, Tonecas?
-Agora eu não sei de nada. Você me diga o que quer fazer com este negócio. Ele também me falou que queria que você viesse vê-lo no Rio pois tinha arrumado lá um emprego pra você na firma de um amigo.
-Valeu Tonecas! Tenho que pensar um pouco nisto tudo. Você vai ficar por Arembepe?
– Vou estar uns dias por aqui, sim!
-Então vou te contar mais tarde o que vou fazer com isto. Obrigado, viu! E me desculpa por todo este circo.
Ainda com a respiração suspensa, vejo o Nuno afastar-se para casa e resolvi segui-lo.
-Como é, camarada?….grande merda!…exclamo.
-Eu sei o que é isto! Dispara o Nuno com ar sério. O meu irmão não me perdoa a cena dos dentes de elefante e outras peças que eu saquei lá da cave. Além do mais, a minha mãe deve estar super preocupada comigo e pressionou esta viagem dele ao Brasil para me puxar as orelhas e levar-me na marra de volta para Moçambique. Essa do job para mim no Rio não passa de uma armadilha.
-E se ele souber que estamos aqui é maluco suficiente para vir cá buscar-te, não?
-Eu sei lá, Chico!…vou ter que pensar em tudo isto de cabeça fria!

Parte V

 

Arembepe 50   Arembepe 49

Chegara o dia da lua cheia que tanto esperamos neste paraíso perdido da Bahia.
Na clareira central da aldeia hippie, a pilha de madeira está alta e bem amontoada funcionando desde esta manhã como um Totem, originando a concentração de grupos de freaks de todas as partes do mundo, que se espalham em redor, animando jam sessions de vários tipos, onde se vê a tradicional Capoeira e outras demonstrações culturais próprias do Flower Power.
O ambiente é inspirador e a festa promete!
Ainda promete mais, desde que cruzamos há dias um americano que circula com uns ácidos dos quais já tínhamos ouvido falar. California sunshine. Numa animada conversa com este camarada que faz cinco anos que viaja pelo mundo, transacionámos uns tantos destes ácidos que guardámos naturalmente para a celebração desta noite.
Hoje é um dia especial, o vento corre ligeiro e acho que vamos ter uma noite de céu estrelado e limpa de nuvens. Dia de deixar o trabalho quieto, dar uns mergulhos no mar, conviver aqui e ali com os habitantes residentes e com as muitas visitas flutuantes da aldeia neste dia especial.
Tempo também para namorar e dar uns passeios com a minha guapa aproveitando os últimos dias dela por cá.
Preparámos um rango (termo que quer dizer refeição na gíria local) especial para o jantar de hoje. Um frango preparado à moda da Bahia que tem na sua essência uma grande influência da culinária africana, onde são acrescentados temperos típicos como o azeite de dendê, leite de coco, pimenta e gengibre. Para completar este nosso encontro com as papilas gustativas, temos ainda direito a uns acarajés feitos por uma baiana que está colaborando com a D. Deja neste dia de grande movimento. Para beber, vamos ter umas Brahmas (cerveja brasileira) bem frescas trazidas para o nosso palácio na hora de comer. Momento gastronómico de excelência!
Tempo agora de fumar uma maconha muito boa que o Nuno trouxe da casa de uns argentinos. A variedade destes produtos aqui em Arembepe é permanente.
E agora que a lua cheia já vai surgindo no horizonte, estamos reunidos para uma violada e uma batucada com alguns camaradas que se foram chegando aqui à frente da nossa casa. O ambiente está ótimo e a música improvisada vai fluindo. Momentos de curtição nesta aldeia que ficarão seguramente gravados na nossa memória durante longos anos.
-Africano!…diz-me a minha namorada. O tal de California Sunshine é para tomar quando?
-Mais logo, minha querida!…quando formos para o Luau lá no areal. Quando o pessoal botar fogo naquele monte de lenha. Respondo com os olhos a brilhar.

Luau de Arembepe
Excitados e atraídos pelo acontecimento principal da noite, lá nos aproximámos deste local onde já estava um montão de gente num enorme circulo em redor da majestosa pilha de lenha. Os instrumentos de música abundam, criatividade também e a animação é total.
-Ao meu lado oiço um brasileiro que, olhando o céu, me pergunta.
-Cara!….cê viu ainda agorinha aquela luz passar?…presta atenção, viu!…vai ter muito Ovni passando esta noite!
Eu e a Rose cruzamos um olhar e sorrimos!…Arembepe no seu melhor!
A lua já vai alta quando alguém grita pra todo o mundo ouvir!…BORA VER ESSE FOGO?
O SIM foi estridente e numa só voz!…emoção no ar e momento ideal para distribuir pelo nosso grupo aquele selo mágico concentrado de ácido lisérgico denominado de California Sunshine.
O momento de acender este enorme fogueirão foi simplesmente emocionante, seguindo-se o movimento geral do grupo que andou uns bons metros para trás, perante o aumento gradual de energia de fogo que se produziu momentos depois.
Um momento carregado de emoção e um fenómeno humano com um sabor muito especial. A euforia reina neste centro da aldeia.
A perspetiva desta nova experiência sensorial vivida neste paraíso terrestre transporta-me naturalmente para um referencial vivido com estes alucinogénios na Suazilândia e na nossa terra natal Moçambique.
Esta seria por este motivo, uma vivência familiar marcada por emoções e aprendizagens colhidas num passado recente. Tem tudo para dar certo! O lugar, o ambiente e as pessoas à nossa volta.

Learning to fly
Nesta primeira meia-hora, o corpo aparenta entrar num processo de semi combustão espontânea.
Gradualmente, o sangue parece circular mais pesado, mas o coração começa a bater mais forte transformando-se aos poucos num cavalo de corrida. Uma sensação algo paradoxal.
Sinto-me agora entrar num universo anárquico com uma sucessão de fogos de artifício que variam as cores do que me rodeia, iluminando todo o horizonte à minha frente.
Sinto-me igualmente invadir por uma sensação de felicidade por estar num lugar que já não identifico com precisão. A imaginação é agora a rainha da noite. Os caleidoscópios a sua maior diversão.
O crepitar e a invasão de luz daquela enorme fogueira começam agora a transformar a noite num mundo de sensações. A noção de corpo físico dá agora lugar a uma expressão corporal sensorial onde os movimentos são perfeitos e sincronizados. Sinto que o meu corpo se adaptou ao ambiente de tal forma que já não precisa mais de produzir movimentos, eles já saem automaticamente. Quando menos espero, dou-me conta que não tem mais ninguém perto de mim, o crepitar e a luz do fogo desapareceram.
Mas tudo está normal, afinal!…estou a conversar com alguém…mas quando paro de falar o sorriso abandona o meu rosto…esse alguém está estranhamente verde e da boca só sai música.
Este estado onde ainda me é possível descrever pensamentos de alguma consciência cognitiva, é daqui em diante impercetível. Como um passagem para lá do espelho.

Psychedelic_1   Psychedelic-2

Senti o sol nascer, projetando nos meus olhos sinais de um mundo novo…o casco de num barco voltado ao contrário sobre a areia da praia, o meu corpo deitado, o meu olhar perdido percorre o horizonte possível.
Onde estou? Pergunta-me a consciência que se debate com a desordem dos meus sentidos.
Retornar à vida e colocar de novo o hemisfério no seu lugar, é um exercício gradual carregado de flashbacks de vários tipos…um vai-vem de alucinação em fusão gradual com o mundo real. O sol já quente debate-se com a sombra que, em conversa com a areia molhada, revelam uma total indiferença pela minha pessoa…ali estou à procura de mim!
Lentamente e de forma intemporal, o mundo retoma a sua ordem. Afinal tudo está no seu lugar!
Tempo de dizer à medida que regresso a mim. Mais uma extraordinária experiência sensorial vivida neste lugar mágico numa noite tão insólita!…tão intangível!
Este retorno ao mundo, partilhado com os meus companheiros e muito particularmente com a Rose, foi um exercício difuso e deveras complexo de definir. Que grande viagem, gente!…Que grande noite!…Arembepe no coração!

Passados alguns dias, chega o dia de ver partir a minha namorada que completa mais de um mês em Arembepe.
A nossa separação é naturalmente dolorosa.
-Africano!…tá me custando tanto ir embora e deixar você aqui!
-Eu sei, Rose!…está doendo aqui dentro.
Olhando-me bem com aqueles olhos mágicos, diz-me.
-Estou te esperando no Rio, viu? Cês já têm o meu endereço e é só aparecer, falou?
-E você me promete que, apesar das dificuldades, vem comigo nessa viagem?
-Vou mover o céu e a terra pra isso acontecer. Me diz outra coisa. Quer ficar com o violão?
-Não, querida! Ainda vamos passar em Salvador para tentar umas vendas lá no Mercado Modelo. Você leva o violão pois eu nem sei como iremos fazer essa viagem até ao Rio.
-Mas se vocês venderem alguns trabalhos em Salvador, por que não pegam um ônibus?
-Vamos ver como tudo vai correr. O sol nasce cada dia, carioquinha. Me dá um beijo daqueles como só você sabe dar.
E este beijo marca a despedida destes dois taurinos apaixonados que se cruzaram semanas antes numa lagoa de águas tépidas deste paraíso chamado Arembepe.

Estamos a 28 de Fevereiro. Dia da nossa despedida deste lugar mágico.
O Tonecas depois da festa regressou ao Rio, acompanhado do Manuel Neto e o Nuno partiu ontem para Niterói com o tal Murilo, levando no espírito duas ideias essenciais. Escapar às buscas feitas pelo irmão Rui e tentar negociar mais uma peça de valor que trouxe de Moçambique, a fim de recuperar algum capital e prosseguir viagem.
Combinámos encontrá-lo mais adiante no Rio, ou já na Bolívia.
A minha partida deste lugar divino acompanhado do Bags não é despida de emoção. Guardo em mim uma noção que Arembepe ficará nas nossas memórias por muitos e longos anos.
Chegando a Salvador, lá fomos até ao Mercado Modelo onde se concentram os artesãos. Aqui ficaremos o dia todo no sentido de vender as mercadorias fabricadas nas últimas semanas em Arembepe e alguns artigos restantes que trouxemos de Moçambique.
Antes de vir para aqui passei na posta restante dos correios centrais ao encontro de algumas notícias lá de casa. Confirma-se o ditado! Mãe há só uma! E lá estava uma carta desta minha mãe que é uma jóia da coroa. No meio das folhas manuscritas com aquele estilo inconfundível lá estavam duas preciosas notas de 50 Dollars…Yes!
As novidades eram poucas, à exceção dos relatos de guerra que chegavam do norte de Moçambique, onde o meu irmão Rodrigo descreve alguns horrores em que se vê envolvido na qualidade de piloto aviador. Na utilização de armas de grande destruição inventadas pela mente tortuosa dos homens. As bem conhecidas bombas incendiárias de nome Napalm que estes pilotos de caça deixam cair sobre as aldeias onde há focos de resistência, deixando um rastro de destruição total. Relatos que me revoltam e me deixam mais e mais com uma certeza. Não regressarei à minha terra natal enquanto durar esta loucura.
A par de todas estas notícias, no final desta carta a minha informa-me que a Tina deixou de perguntar por mim, compreendendo que o meu regresso a Moçambique deixou de ser uma realidade expectável. Uma matéria que sempre produz um certo aperto no meu espírito que o tempo e o desenrolar de tantos acontecimentos deste lado do mundo vão gradualmente dissipando. No final, depois de ler esta carta, pensei. O velho é mesmo durão. Nem uma palavra!…a vida continua!
O esforço das nossas vendas em Salvador produziu alguns resultados e estamos agora em condições de rumar ao sul.
Neste momento é tempo de satisfazer o estômago, o que conseguimos com uma visita a uma tasca que já conhecemos aqui perto.
Em seguida, e sentindo alguma familiaridade com a zona em que no encontramos, lá nos dirigimos para o Farol da Barra para passar a noite ao abrigo das estrelas da Baía de Todos os Santos.
-Como é, mano velho? Como vamos pro Rio amanhã? Pergunto ao Bags enrolando um baseado que cai muito bem depois desta moqueca de peixe que estava deliciosa.
-Acho que gastar essa grana que fizemos hoje em ônibus não é grande ideia….vai fazer falta lá no Rio.
-Mas no Rio podemos ficar em casa da Rose.
-Hummm…e se não pinta essa? Estamos ferrados.
O meu feeling quanto a ficar pelo menos 2 ou 3 dias em casa da Rose é positivo.
Apesar de trazer esta convicção presente no espírito, digo ao meu companheiro.
-Então vamos por estrada à boleia e poupamos a grana para o caso de algo correr mal no Rio.
-Ainda agora, quando estive com aqueles caras ali em cima, eles me disseram que vieram do Rio pela costa…vamos lá falar com eles?
Uma conversa que foi útil porque ficamos a saber que o melhor é pegar a BR 101 que segue na direção sul. Tem muita boa circulação de pesados e se apanham boas caronas. A única dificuldade é que teremos que ir até lá pela estrada de Feira de Santana. Chegámos à conclusão, vale mais pegar um ônibus que sai aqui de Salvador até essa estrada e daí vamos de carona em direção ao sul. Decisão tomada….vamos nessa!

E depois de mais uma noite dormida debaixo das estrelas baianas que já nos conhecem, assim começamos um novo dia.
Depois de um matabicho rápido tomado logo ali na Barra, lá apanhamos o tal ônibus que nos levaria até à tal BR 101.
E com os olhos húmidos de emoção, um pensamento atravessa o meu espírito:
Bye, São Salvador da Bahia. Te levo no coração!
Já dentro deste bus veio-me ao espírito um pedaço de música que os Canned Heat tocaram no Woodstock – On the road again.

Regresso ao sul
O local onde nos apeamos chama-se Conceição do Jacuípe.
-Tem cada nome nesse Brasil, pensei!
O primeiro troço desta nossa viagem na BR 101 começa passado uma boa hora de espera quando um pesado para nos levar.
-Bom dia, amigo! Tamos indo pro sul! Diz simpaticamente o Bags a este camionista.
-Hoje é vosso dia de sorte, rapazes!…posso levar vocês até Itabuna.
-Valeu mesmo! Obrigado digo eu montando naquele camião de longo curso sem fazer a menor ideia onde fica Itabuna. É para o sul a caminho do Rio. É o que interessa!
No desenrolar de uma longa e fluida conversa com este amigo da estrada ficamos a saber que Itabuna fica perto de Ilhéus que já é na zona sul do Estado da Bahia.
Nesta troca de ideias com este simpático motorista ficamos a saber que Itabuna começou por ser terra dos índios Tapuias até à chegada dos primeiros portugueses no século XVI à região.
Os portugueses implantaram na região a Capitania de Ilhéus, porém esta fracassou economicamente devido aos constantes ataques dos índios Aimorés que, a partir da década de 1550, retornaram à região, provenientes do interior do continente.
Estão assim completados 460 km de estrada. O sol já desce no horizonte quando decidimos que iremos passar aqui a noite.
Uma refeição gostosa num botequim serviu bem para matar a fome a estes dois aventureiros que se retiraram para um jardim público ali perto para passar a noite esperando, que não houvesse surpresas imprevistas. À parte da companhia de algumas muriçocas (mosquitos na gíria brasileira) que acharam o gosto do nosso sangue interessante, o cansaço era muito e o sono acabou por falar mais alto.
Deste percurso até a cidade maravilhosa que dura 4 dias ao todo, retenho uma aventura vivida perto de uma localidade de nome S. Mateus (Estado de Espírito Santo).
Depois de mais um dia de estrada, a última boleia deixa-nos numa zona junto a uma pequena aldeia na BR 101. Tínhamos que passar mais uma noite em algum lugar.
Indagando junto do povo da região, disseram-nos que havia ali, mais adiante, uma casa abandonada rodeada de uma plantação de bananeiras. Quem sabe é uma solução pelo menos para não dormir mais esta noite ao sabor das estrelas e da chuva que ameaça cair dentro em breve.
Assim nos dirigimos para esta casa de aspeto duvidoso montada sobre pilares em madeira que tinha traços evidentes de abandono.
Em conversa com um habitante da região, compreendemos que a casa estava efetivamente vazia, mas que tinha a fama de ser uma casa assombrada.
Olhando pro Bags, digo!
-Como é, mano velho?…vamos dar importância ao que o povo diz?
-Sei não?….mas na chuva não vamos ficar né, Chico?
Sendo que já chovia com alguma intensidade, decidimos entrar e ocupar este casarão para passar a noite ao abrigo da chuva.
Uns jovens que andavam por perto dizem-nos entretanto.
-Ô moço!…não entra nessa casa não!…essa casa está assombrada!
Olhando novamente um para o outro, pensamos…porra de negócio este! Por um lado não temos onde dormir!…pelo outro esta conversa de casa assombrada!..enfim entramos forçando uma porta em mau estado.
O que é certo é que o nosso sono naquela casa algo sinistra não se concretizou…ambos guardámos no espírito aquele mal-estar, fruto da ideia gerada pela conversa de casa assombrada.
Nem eu nem o Bags somos suscetíveis a estes rumores populares….mas!
Mas certo é que a meio da noite quando a chuva parou, ouvimos fortes pancadas no telhado que nos provocaram um verdadeiro arrepio na espinal medula.
Para quê dissimular o sentimento de medo que nos assaltou face aquelas circunstâncias?
O que sabemos é que em menos de um Ai, estávamos os dois de novo na estrada a esperar o nascer de um novo dia longe daquele lugar.
Para falar com alguma convicção, ficou uma dúvida guardada no nosso pensamento. Casa assombrada, ou um grupo dos fedelhos que nos disseram para não entrar naquele lugar e que a meio da noite resolveram pregar-nos um imenso cagaço e rir desmesuradamente na cara daqueles dois forasteiros….algo que nunca saberemos.
Neste último dia tivemos o privilégio de chegar a Niterói e atravessar a Baía de Guanabara sobre a recentemente inaugurada ponte Rio-Niterói.

Ponte Niterói 1   Ponte Niterói 3
Esta ligação rodoviária com mais de 13 km de extensão, dos quais 9 km km sobre água e 72 m de altura em seu ponto mais alto, foi inaugurada há poucos dias. Que obra extraordinária de engenharia…que vista de tirar o fôlego!
A nossa chegada ao Rio encheu-nos de um sentimento deveras agradável…o regresso à cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. Uma emoção especial que quem conhece o Rio de Janeiro sabe bem compreender a excitação que esta cidade transmite.

Rio - vista geral
Uma vez em Copacabana e seguindo a pé pela Rua Siqueira Campos perpendicular à famosa avenida Atlântica informaram-nos que umas quadras mais à frente encontramos a R. Alfredo Valadão. Onde será este prédio no Nº 35?
Ora! É este prédio de esquina. Agora temos que subir ao 4º andar – Apartamento 411.
O lugar onde mora a minha namorada Rose de quem já morro de saudades. A expectativa é naturalmente grande.
Na sequência do nosso toque nesta porta, o que vivi a seguir não é traduzível por palavras:
-AFRICANO!…grita uma carioca linda saltando para o meu pescoço.
O momento é de enorme emoção e depois de um beijo sentido, a nossa receção nesta casa tem um sabor muito especial.
-Oi, Bags…dispara a Rose com um sorriso luminoso de franca alegria de nos ver…vamos entrando.
Fomos de imediato apresentados à mãe da Rose que nos acolheu com um simpático sorriso. O pai da Rose não se encontra, sendo este encontro adiado para quando chegar a casa mais tarde.
Celeste é o nome desta simpática senhora de olhar vivo, uma brasileira de estatura média, um pouco mais baixa que a filha, de sorriso franco e que exala uma notável descontração que nos deixou bem à vontade.
Encontramos igualmente cá em casa a Ângela, a Regina que conhecemos em Arembepe e algumas outras figuras que foram surgindo quando souberam que os africanos tinham chegado.
Face a todo este entusiasmo, dou-me conta do quanto já somos notícia por estes lados. Uma publicidade naturalmente conduzida por esta minha carioca cheia de vida e entusiasmo.
Há um momento que se segue que me enche de particular emoção.
-Africano!…olhe o que eu tenho aqui!…diz-me a Rose trazendo orgulhosamente na mão o seu novo passaporte. Eu não falei?…eu vou com você, cara!
Perante esta notícia, foi difícil disfarçar a minha alegria…o nosso abraço e um beijo especial foi presenciado por todos…não me importa!…naquele momento eu explodia de emoção!
Passadas umas horas de franca animação com os amigos da Rose que já enchem aquele quarto, é chegada a hora de conhecer o pai que acaba de chegar.
Somos apresentados ao senhor Alcides portador de uma estatura média, calvo e de barba grisalha que cordialmente nos dá as boas vindas…uma simpatia também.
Desta nova fase da nossa aventura saltam dois aspetos que têm peso próprio e contribuem em larga escala para o meu sorriso nos dias que se seguem. Estamos a dar início a um período mágico de conforto e nutrição. Algo que já não sinto desde Janeiro, quando saí de casa dos meus pais em Moçambique.
Perante as delícias apresentadas à mesa e voltando-me para o Bags, digo em voz baixa.
-Mano velho!…época de nutrição!
Com um brilho inconfundível no olhar, este meu companheiro oferece-me um sorriso solar dizendo-me igualmente em voz baixa.
-Chicão!….cala-te e come!
O outro aspeto relevante é o facto de eu poder usufruir em pleno desta paixão com a minha namorada embalados num sonho de olhos abertos…eu e esta guapa vamos viajar juntos para a Bolívia. Um país novo para nós…alegria no ar!
Este apartamento onde estabelecemos a nossa morada temporária não é grande e o Bags, que dormiu a primeira noite num colchão improvisado no chão, estabeleceu contacto com uns amigos cariocas do interior de Ipanema onde passou a dormir em condições mais confortáveis, passando naturalmente todos os dias por cá.
O quarto da Rose é muito confortável e equipado de uma cama de casal que é uma raridade nos tempos que tenho vivido.
Lugar de eleição para a reunião com os amigos que circulam durante o dia, onde as guitarradas, alguns fumos simpáticos e as conversas animadas são a agitação diária. Por aqui passam regularmente o Alex, que é outro apaixonado por Arembepe e pelos fenómenos da contra-cultura, a Ângela Recruta (alcunha de guerra) e a Regina, tendo passado a conviver diariamente connosco a Alcione e a Leninha, ambas amigas do peito da Rose.
Mais tarde pela noite, eu e a minha carioca dedicamo-nos a viver em pleno a nossa intimidade que passou a ser um sonho bom, fruto desta paixão nascida nas águas tépidas de uma lagoa mais a norte. Um romance lindo demais!
Esta manhã tivemos um episódio deveras extraordinário neste quarto.
Depois de uma noite algo intensa vivida a dois e já de manhã, quando ambos dormimos no relax total da nossa nudez, tivemos uma visita inesperada.
A mãe Celeste que é muito à frente do seu tempo, irrompe pelo quarto com uma bandeja copiosamente artilhada de um matabicho de babar.
-Bom dia, meninos!…olhem só o que eu aqui tenho para vocês?
Nus como estamos, eu acordo totalmente surpreso, sem saber onde me meter e a puxar desesperadamente para mim o lençol que estava a quilómetros ao fundo da cama.
A Rose meio sonolenta, mas totalmente descontraída diz à mãe.
-Uau, mãe!…que legal!…Chico…olha só como a mamãe está mimando a gente!
Esta D. Celeste é outra jóia da coroa. E vejam só quanta descontração.
Neste dia soube pela Rose, que a mãe gosta muito de me ouvir quando pego no violão. Algo que muito naturalmente me encheu de satisfação. Eu adoro este país!
Esta nossa passagem no Rio inclui igualmente outros circuitos fora de casa. Nos quais não falham umas passagens na praia de Copacabana, uns giros pela cidade maravilhosa com uma cicerone de luxo, aproveitando para tratar de alguns preparativos para a nossa viagem.

Rio - Praia 1   Rio cidade
Hoje fomos comprar uma mochila e um calçado prático para a Rose levar. Um circuito muito agradável que me permitiu conhecer um pouco mais do quotidiano desta cidade que eu adoro.
Amanhã que é domingo impõe-se igualmente uma passagem pela praça General Osório para uma venda de mais alguma mercadoria, o que sempre ajuda a suportar financeiramente a viagem que temos pela frente.
Lá encontrei novamente o nosso amigo Lucca que é um habitué desta praça. Após uma calorosa receção, lá nos instalamos para mais uma jornada de vendas.

General Osório -3   General Osório-5  General Osório-4
Este é tempo igualmente para me concentrar sobre uma tarefa delicada. O Bags não tem passaporte desde que foi roubado na praia da Barra da Tijuca em janeiro.
Quis a previdência que o Kelp lhe deixasse o seu passaporte português. Trata-se agora de substituir as fotos e inventar um selo branco sobre a nova fotografia do Bags que, perante as autoridades fronteiriças, passaria a ter um novo nome. O nome do Kelp muito naturalmente.
-Como é, Chico? Acha que consegue conduzir este negócio? Pergunta-me o Bags expectante passando-me o passaporte do Kelp para a mão.
Quando olho para este documento, lembro-me de alguns relatos de uns livros que li da 2ª guerra mundial, onde muitos cidadãos judeus passaram por Lisboa com passaportes falsos a caminho de um exílio nas Américas do norte e do sul. Havia nessa altura em Lisboa um grupo de experts nestas matérias….Hummm….inspirador!
-Mano velho!…não sou um profissional, mas levo jeito nestas tarefas. Não sei se sabes que o embarque do Nuno para vir para o Brasil passou por uma licença militar e uma autorização paternal made by Chico.
-Africano falsário sem vergonha! diz-me a Rose que estava a presenciar a conversa, abraçando-me ternamente…risada geral!
Tudo começou por o Bags tirar uma foto que servisse este propósito…o resto foi deixar-me no meu canto durante umas horas entregue a esta tarefa delicada.
No final, chamei o meu companheiro de estradas poeirentas, dizendo.
-Mano velho!…agora chamas-te António. Digo eu, passando-lhe para a mão este documento vital que lhe permitia atravessar a fronteira em Corumbá (fronteira com a Bolívia)!
– Chicão!…tu é imbatível cara!…diz-me o Bags com um caloroso bate mão.

Quase duas semanas se passaram desde o nosso regresso ao Rio. Um período maravilhoso de recuperação de energias, onde a nutrição e o amor partilhado com a minha guapa foram os pontos altos de uma passagem que teve um sabor muito especial.
É chegada a hora de abraçar uma nova caminhada e escrever o futuro. Vamos a isto, gente!
Desta vez levo comigo algo mais. Algo que não me importo nada de carregar. O violão da Rose.
As despedidas do pessoal que sempre aparecia cada dia aqui em casa foram calorosas e muito especialmente com a mãe Celeste a quem agradecemos a hospitalidade com um forte e carinhoso abraço.
-Seu Chico!…trata bem deste meu tesouro, viu! Ela é uma jóia preciosa que Deus me deu, viu?
Sensibilizado com aquele discurso e com as palavras tocadas pela emoção, respondo:
-Deixe comigo, Celeste!…eu adoro esta carioquinha…tudo vai dar certo!
Estava de algum modo a despedir-me da minha mãe sul americana.
Este agradecimento estendeu-se naturalmente ao senhor Alcides que, embora mais reservado, foi muito cordial connosco ao longo destas quase duas semanas,
Bem hajam por este calor humano que não tem preço. Ficarão eternamente no meu coração.

Estamos a 23 de Março de 1974. Tendo como objetivo alcançar a fronteira com a Bolívia, o nosso primeiro percurso neste imenso Brasil é apanhar um ônibus na Rodoviária do Rio que nos levará até Campo Grande (Estado de Mato grosso) a oeste de S. Pauloquite a long way!
A nossa passagem pelo Estado de S. Paulo foi longa e a cidade de S. Paulo parecia não ter fim. Sempre que pergunto à Rose:
-Isto ainda é S. Paulo guapa?
-É Chico! Ainda estamos rodando dentro de S. Paulo.
No comments! Penso com os meus botões.

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Já sem posição para nos acomodarmos dentro deste bus e com o corpo feito num oito rolamos toda a noite. Com o nascer de um novo dia, é enfim anunciada a aproximação ao nosso destino.
Para melhor compreender onde estou, estive a ler um folheto turístico na gare à nossa chegada. Campo Grande foi fundada por mineiros, que vieram aproveitar os campos de pastagens nativas e as águas cristalinas da região dos cerrados. A cidade foi construída no meio a uma vasta área verde, com ruas e avenidas largas.
Estamos no estado de Mato Grosso. Coincidência ou não, reparei que é uma cidade bastante arborizada e com diversos jardins ali e ali, demonstrando uma forte relação com a cultura indígena e com as raízes históricas.
Já estamos a dia 24, 1974 anos depois do nascimento do carpinteiro da Galileia.
A nossa próxima etapa é apanhar um comboio que nos levará até Corumbá (fronteira com a Bolívia) através de uma região muito bela e selvagem. O famoso e deslumbrante Pantanal.
Bilhetes comprados, e perante uma fome de leão, o nosso tempo de espera começou por nos sentarmos numa tasca ali perto da estação onde as papilas gustativas se sobrepuseram à apreciação do que estamos a comer. De seguida e saciados desta necessidade diária, entramos estrategicamente neste comboio onde deixámos o sono falar mais alto…desta forma não iríamos com certeza perder este nosso transporte.
Ao fim de algumas horas desta marcha ferroviária estamos parados em plena zona do Pantanal, próximo da cidade de Aquidauana. Somos informados que há uma avaria na locomotiva…porreiro!
-E agora, gente? Pergunto aos meus companheiros de aventura.
-Da outra vez que passei aqui com o Kelp foi sempre andando!Agora estamos ferrados!….diz o Bags com cara de poucos amigos.
É de aguentar! Felizmente trouxemos água para beber e algumas iguarias que nos irão entreter a fome. E temos uma Giannini para animar o ambiente com alguns Blues e Country music que se enquadram na perfeição no ambiente onde estamos inseridos.
A ler uma revista turística que peço emprestada a um dos passageiros, deixei os meus olhos passear pela descrição desta região tão especial.

Pantanal 1   Pantanal 3
Aqui pode ler-se:
“O território que compreende o Pantanal Mato-Grossense é considerado a maior planície de inundação do planeta, englobando o sudoeste do Mato Grosso, o oeste do Mato Grosso do Sul, e parte do Paraguai até à Bolívia.”
-Que loucura, Rose! …esse teu país não acaba, meu bem!…você se dá conta que só viajar cá dentro já uma viagem interminável?
-É, africano! Eu sei disso, querido….eu amo muito o meu país! Mas pela primeira vez na minha vida estou saindo. Só você para me levar para fora!…responde-me esta adorável criatura com aquela voz quente encostando a cabeça no meu ombro.
Continuando a minha leitura, vejo:
O Pantanal é uma região com alto índice pluviométrico (quantidade de chuvas), e alagamentos periódicos da região ocasionados pelo transbordamento de inúmeros córregos e lagos, cujas águas fertilizam o solo com uma camada de lama humífera (húmus), constituída por restos de animais e vegetais misturados à areia.“
Curioso! Pensei…daqui esta riqueza natural! Continuando, leio em voz alta:
“A flora, com predominância típica de plantas de brejo, tem em sua constituição espécies como: buriti, manduvi e carandá. Neste ecossistema, também é possível observar a caracterização entremeada da vegetação de cerrado, campos e florestas.
Considerado um dos mais extraordinários patrimónios naturais do Brasil, o Pantanal possui uma biodiversidade faunística apenas superada pela Amazônia, porém apresentando maior número de indivíduos por espécies”.
-Que tesouro esse Pantanal, digo à Rose…buriti, manduvi, carandá!…que bichos são esses querida?
-Chico! Responde-me esta carioca com um ar provocador. Minha faculdade lá no Rio é Comunicação…não é biologia viu seu Africano de Moçambique!
– Parva!…dá-me um beijo!
-Não!…e eu ganho o quê em troca?
-Ganhas dois, gata!
Deal!

Pantanal 2   Pantanal 4

Com esta avaria que durou umas boas 7 horas, assim passámos a noite dentro deste comboio. Já tínhamos as bundas quadradas e os corpos totalmente moídos quando enfim este cavalo de ferro se pôs novamente em marcha.
A nossa chegada a Corumbá deu-se já ao cair da tarde.
Corumbá, conforme estava escrito naquele roteiro turístico que li dentro do comboio, é uma cidade conhecida através da sua diversidade multicultural, com influências culturais árabes, italianas, portuguesas, sul-americanas (paraguaios, argentinos, uruguaios, bolivianos), índios, pela sua culinária e, finalmente, pela sua música.
-Vamos para onde, gente?…a fronteira já fechou…agora só amanhã. Pergunto com o meu ar mais do que cansado.
A resposta dos meus companheiros não é convincente. A Rose sempre avança com uma ideia.
-E se formos andando para os lados da fronteira?…o que vocês acham?
-Porque não!…responde o Bags pra lá de estoirado também.
Depois de uma caminhada desconcertada, lá nos aproximámos da zona da fronteira passando por uma tasca que tem um cheiro de comida convidativo.
Mesmo aquela hora, tirando partido do melhor tempero que existe que é a fome negra que trazíamos ao colo, assim nos instalámos naquele local onde o sotaque já era outro. Deve ser da proximidade com a Bolívia.
A noite foi passada debaixo de um alpendre de um edifício baixo que nos pareceu ser um clube ou algo parecido.
Se não fosse o inferno de mosquitos que acharam o gosto do nosso sangue interessante e nutritivo, até teríamos passado uma noite menos mal. Mas os pernilongos estavam desvairados transformando a nossa merecida noite de repouso num calvário….damn!

Novo dia, após uma noite de inferno com cabeça pesada e a marcar passo…tomámos o nosso café por ali antes de nos chegarmos para a zona de fronteira, tendo aproveitado para fumar um último baseado em terras brasileiras.
Passando à Rose este joint, o Bags diz:
-Caramba!…tenho que me lembrar que agora sou António…vamos ver se não vai dar merda!
-Confiança, companheiro!…respondo eu, enquanto dou uma boa passa naquele joint. Se passarmos esta fronteira do Brasil…na da Bolívia acho que não tem grilo.

Informados da hora a que partiria o nossa nossa ligação ferroviária já na Bolívia e com tempo suficiente para não perder esta ligação, lá nos aproximámos do momento crítico.
Posto fronteiriço de Corumbá. Apresentação dos passaportes.
-É melhor entregar os três passaportes juntos…digo eu com um ar sério!
-Ya!….vamos nessa, diz o Bags visivelmente perturbado.
O funcionário brasileiro que está atrás do guichet pega em primeiro lugar no passaporte da Rose por onde passa os olhos. Passaporte sem carimbos…a estrear…carimbo de saída e vamos em frente.
No meu passaporte também não houve hesitações. Acabo de ganhar um novo carimbo para a minha coleção. Entrada na Bolívia.
Por último, temos o momento onde a nossa respiração fica suspensa.
Este funcionário com o passaporte do Bags (Kelp) aberto na mão e olhando para nós diz com um ar divertido:
-Poxa! Vocês lá em Portugal são todos Antónios e Marias, verdade?
O Bags com os sentidos aos pulos, responde de forma amarela…é verdade!
Aquele som do carimbo a cair em câmara lenta sobre o passaporte do Kelp teve um gosto a vitória. Mais uma corrida….mais uma viagem, pensei!

Corumbá 1   OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Um pouco mais à frente dá-se a nossa entrada no posto fronteiriço da Bolívia, marcando de forma inequívoca uma entrada num novo mundo. Conforme já estávamos à espera tudo correu sem complicações de maior. ..Yes!
Já em território boliviano e batendo na mão do meu companheiro, eu digo cheio de orgulho, soltando de forma enérgica uma frase bem brasileira.
-Esse já está liquidado. Uma bala bem no centro da testa…risada de alívio….putz!
Daqui em diante meus caros fala-se espanholês…uma nova experiência cultural nas nossas vidas.
Ao que o Bags responde:
-Cês vão pegar rápido. Essa língua é o maior barato!
A Rose excitada com esta travessia, diz:
-Meus queridos!…vencemos esta etapa, mas vamos ter outra pela frente.
-Estou sabendo!…responde o Bags montando a bordo deste insólito transporte meio carroça meio bus, que bem ao jeito de um pais do 3º mundo nos levará até Puerto Quijarro.
Nova aventura…bora lá!
Sabíamos bem a que se referia a Rose com aquela frase …a viagem até Santa Cruz de la Sierra. A nossa primeira etapa em território boliviano que vamos fazer sobre uma linha férrea que atravessa uma região totalmente primitiva.

Dia 26 de Março de 1974

Bolívia!….nós aqui estamos!…adelante!

 

Continua no próxima quarta-feira dia 29-04-2015

29 comentários

29 thoughts on “Ecos do samba

  1. Teresa Amaral

    Maravilha!!
    Iiisshhh….Secos e Molhados….que chegaram cá pouco depois, através dos amigos que vinham do Brasil, e que foi “tema de fundo” do meu namoro com o Jorginho!
    Praça General Osório e a sua feirinha, onde comprei alguns modelitos lindissimos….já me tinha esquecido!!
    Aguardo 4a feira com curiosidade!
    Abraço

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    • Minha querida,
      Este era o Rio mágico daqueles tempos…uma cidade que nunca mais se esquece…agora vamos para outra pérola do Brasil….Salvador.
      A aventura neste continente apenas começou.
      Grande abraço

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  2. lenocas

    estou gostando’ ate’ o Sr Manuel Couto aparece aqui,fantastico, de certeza que estava tambem pro la’ nessa altura,tambem vi o show dos secos e molhados, estou gostando ahahahah

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    • Oi miga,
      Pois foi tal qual como leste!..a única ficção é o 4º andar…será que era??? E estarias lá em casa quando batemos aquela porta?…não me lembro de perguntar ao teu irmão…mas também se estivesses penso que ele me teria dito.
      Anyway my dear…isto é uma viagem onde a memória é como uma candeia que vai iluminando o caminho…mas por vezes não ilumina tudo.
      A viagem continua mais para norte.
      Grande abraço para vocês

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  3. lenocas

    Puxa Chico como te lembras do 4 andar era mesmo. Se qqueres que te lembro devia estar la’ mas talvez fora de casa,porque senao tinha aparecido,mas tens uma memoria que me fazes lembrar de muitas coisas daquela bem dita epoca,adorava aquela feira hippy waw etc etc.
    Grande abraco tambem ai para voces.

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  4. Oi Lena,
    Pois a memória quando é alimentada é um recurso poderoso.
    Tinha sido muito bom ter-te cruzado por lá…mas não estava escrito no guião.
    Vamos continuando a caminhada!
    Beijo…

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  5. Teresa Amaral

    Aventuras como estas são totalmente inesquecíveis, passe o tempo que passar!!!! Obrigada por as partilhares com todos nós que te estamos a ler!
    Este vosso episódio do show da Gal, somou mais pontos á jà elevada consideração que eu tenho por esta excelente voz! Bonita atitude de considerar, e não esquecer, essa verdadeira “embaixada de África” tão bem representada, e permitir assistir em lugares privilegiados! Digamos que “cês” também tinham uma estrelinha protectora, ou talvez todas aquelas debaixo das quais vocês dormiam!
    Saravá, meu irmão!

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    • Teresa my dear,
      O destino e o improviso foram sempre o nossos melhores companheiros.
      Nada disto teria acontecido segundo um plano programado…cada dia era um dia…usámos bem a protecção dessas estrelas.
      Por vezes não estavam presentes e as curvas tornaram-se mais apertadas…prever o futuro imediato não era tarefa fácil….foi sempre mais fácil criá-lo.

      Saravá Teresa!…um termo bem daqueles tempos que o Vinicius eternizou.

      And the show must go on!

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  6. Que dizer:Cinco Moçambicanos oriundos da mesma cidade, dormindo debaixo daquele céu carioca pela primeira vez.Tal como o meu amigo descreveu e depois todo o encantador desenrolar que nos deu tanta saudade daquilo que não vivemos .Bem haja saudações amigas.

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  7. Muito obrigado Teresa,
    Sempre atenta…sempre por perto…que bom!
    Um forte abraço

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  8. Kelp

    Obrigado e com todas humildes cortesias grande companheiro! Que delicia ler e re-ler as aventuras do VOO DO CONDOR, tanta poesia, exotic at times, its a wonder to see such generosity of heart in dharma, articulated in such a beautiful way,and of the most refined and exquisite sensitivity, one refreshes one’s heart with that burning indomitable and free spirit,Thank you, Kelp.

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    • Meu caro,
      Esta estrada foi traçada no nosso ADN…no improviso de génio, e na determinação dos dias face à incógnita…ao sabor da irreverência que nos moveu e que tanto enriqueceu…a estrada é longa…o altiplano é alto!…o Condor pasa…a caminhada continua!
      The show must go on!…thank you so much brother…long live Rock & Roll.

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  9. Cê encheu, meu ! Valeu mesmo

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  10. Teresa Amaral

    Wow! Senti até frio no estômago com essa travessia fronteiriça, e a “bunda quadrada” de tanto trem!
    Aguardando as aventuras Bolivianas, vai mais um abraço de parabéns pelo dia de hoje (25/4 oiiieeee!)

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  11. Muito lindo sua estoria na Bahia dos hippies, fiquei logo apaixonado pela terra, pelo amor delicado da Rose com o tal Africano! Bem contado, beleza de fotografia tambem, ate precisa de filme ne? Ao mesmo tempo que voces estavam a atravessar a fronteira com a Bolivia, eu tinha tambem escapado de Portugal pela Espanha, Franca, Belgica e estava em Amsterdam com meu violao e cheio de frio e fome, a sonhar com os tropicos, a sonhar com um milagre (: Fico a espera das aventuras na Bolivia, voa Condor!

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  12. Verdade Mwana,
    Tempos vividos com os 5 sentidos apurados e embalados pela força de uma geração que naquela época no Brasil chamavam de “sem lenço e sem documento”…
    Arembepe foi uma passagem alta deste voo e o grande incentivo para a caminhada se voltar agora para as terras bolivianas onde tudo se torna mais cinematográfico…as vivências serão carregadas de improviso e os dias sucedem-se marcando a diferença e onde a dureza anda de mãos dadas com a capacidade de improviso.
    Vamos em frente pois temos à nossa espera um viagem deveras insólita…

    Kanimambo buddy!

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  13. Maria Teresa.Barbosa.

    A força da juventude ainda hoje se reflecte no maravilhoso relato que acabei à pouco de ler.
    Como sempre fico desejando,continuar a viagem,no próximo capítulo .Saudações amigas

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  14. Urubu

    um António chamado Octávio Nuno! Joder!

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  15. Parte I
    Bem movimentada essa vossa deslocação de um continente para outro, ainda melhor descrita como tem vindo a ser apanágio da tua narrativa, dispensa a imaginação para se presenciarem todas essas belezas exóticas de um Brasil imenso, tanto territorial como de cores e rituais’! Muito bem descrita essa sensação do milagroso e analgésico’ pó sul americano, também o testei mas por um acaso qq, não gostei…antes um Prelodin ou Methadrine’. Desta vez não me irei alongar muito, mas depois de todas essas andanças de lá para cá, da praia para a tenda, tanto pormenor que se foi vivendo entre 5 amigos que se conheciam como irmãos…uma delícia existencial. Por fim, e para além das belezas monumentais que se nos afiguraram todo ao longo do vosso percurso, mais as belíssimas fotos a comprovarem-no, gostei do desprendimento por parte do Neto, quando desafiado para mais uma aventura para o norte do país, denotando-se aí, aquele à vontade com que nós Moçambicanos, sempre nos habituámos perante qq sonho’ que se nos atravessasse perante as nossas vontades. Assim fomos todos criados e educados, não cedendo à sedução irresistível com que a Liberdade sempre nos presenteou. Por agora, ficarei só por aqui, virei o mais avidamente possível para consumir a 2ª parte desta aventura dos cinco’! Um abraço sempre a respeitar amigo Francisco Cunha.
    Parabéns!

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  16. Grande Rui,
    Noto com alguma admiração que absorves esta narrativa com os detalhes e pormenores de cada episódio…sem pressa…sem atropelos…como a degustação de uma boa taça de champagne!
    Gosto de ver isso…sente-te totalmente à vontade para o fazer ao ritmo da tua interpretação….da tua apreciação.
    Quer isto dizer que tens um manancial pela frente que na sua dimensão se saboreia mais devagar…e com um olhar mais longo sobre as múltiplas passagens deste voo.
    Vamos em frente…enjoy it buddy!
    Obrigado pela dedicação a esta história que vos conto com imenso prazer!

    Cheers!

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  17. Parte II

    Que vergonha se entranhou em mim mesmo, pela mais miserável da razões que poderiam alguma vez me invadir,,,é que tenho um amigo que visitou a Bahia.,,, e o pouco que me disse, hoje, agora, não só me envergonhou a mim, como ainda mais a ele próprio,,,,que curta visão o man’ trouxe desse lugar acabado de ser descrito como se o céu na terra…que sensibilidade tão emporcalhada e quanta ignorância demonstrada por um Beirense…que arrepio me percorreu a mente…é que a única coisa que esse gajo me disse, quando me encontrou depois da viagem que tinha efectuado ao Brasil…mais propriamente aí a esse lugar povoado por Orixás e outros deuses encantadores para a alma de qq homem que se digne sê-lo…me disse: (cito) ” Eh pá, na Baía…é só putas’…é tudo putas!!!!” fim de citação e fim de exclamação…agora vê bem a diferença entre o que acabo de visualizar e o que aquele desgraçado me disse ter encontrado…uma vergonha de espírito, uma vergonha de existência… tão crua e cruel substância humana aquela!?
    De regresso à v/viagem, admirável toda aquela cumplicidade’ humana efectivada e vivida entre os naturais daquela região, desde o Rio de Janeiro ao norte desse tão diversificado território, desde a troca de impressões e direcções com o condutor do autocarro…às gentes que disponibilizaram seus aposentos para se instalarem,,,,passando pelos sabores aromáticos dessa comida tão apimentada’ eheheheh….continuado pelas avenidas da cidade, rodeadas de mais pessoas, todas elas com essa atenção redobrada, essa simpatia tão espontânea….as feiras…o aperto da falta de massa’…a facilidade com que colocaram vossos artefactos africanos…essa facilidade de diálogos que se prolongaram por noites a dentro….Caetano Veloso rsrsrsr…que glória em pessoa ali mm defronte vossas presenças….esse atrevimento para com a Gal Costa, um regalo de relato,,,,mais ainda a resposta dada pela diva, quem nós, lá do outro lado, na Beira, tínhamos encontrado em modo vinil …mais tarde em forma de cartuchos’ para tijolos ambulantes que nos levavam para lugares mais escondidos nas nossas matas,,,,até a frescura da chuva que se abalou sobre vós, a cheirámos e sentimos….sobretudo, essa tua visão tão comum entre vós, em uníssono, que se foi descartando do vosso imaginário…todo esse movimento contínuo, sustentado e abraçado por desconhecidos prenhes de boa Fé…reproduziu em que te leia, uma salutar inveja’, uma vontade involuntária de querer estar aí presente,,,,sim,,,assim valeu o tempo que passou por todos nós…tanto aquele lá por vós, inundando-vos de alegria e júbilo…como este aqui, que nos encheu os olhos com realidades distantes…mas tão seriamente desejadas! Parabéns meu querido amigo cidadão do Globo.
    Continuarei a trotear’ atrás de vós…..com um sorriso aberto de espasmo e contentamento! Obrigado Francisco Cunha….até à 3ª parte…que venha ela!

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  18. E bom verificar este teu saborear de uma viagem atrás do tempo…a forma como captas cada passagem e cada imprevisto que foi testando a nossa capacidade de adaptação e o nosso improviso!
    Uma caminhada que vai evoluir para paragens que seguramente irás apreciar ainda mais!…tenho esse feeling!.
    And on we go!
    Obrigado por este teu saborear…bom de ver!…Cheers!

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  19. Parte III

    O vosso ritmo de novos conhecimentos é impressionante, tanto quanto interessante, como forma de nos introduzirmos por um território a dentro…como o de nos familiarizarmos com todos os estranhos’ que foram aparecendo, embora todo o ambiente descrito, nos proporcione uma visão muito exacta dessa vastidão libertadora,,,dessa abertura humana e dessa atmosfera, também toda ela, feita de uma união de prazeres e estados de espírito do mais comum que se possa encontrar on the road’…gostei da expressão que deu vida à solidão da primeira garrafa de cachaça 😉 eheheh…fazendo-se acompanhar logo de seguida por outra…demais essa região, as fotos fazem-lhe jus’, e a nós, quem vos esteja a acompanhar, este nervinho’ miudinho de uma salutar inveja salienta-se, por não termos estado lá também. Como te disse Francisco, vou atravessar agora um período mais alargado sem aqui vir, estarei uma semana fora, de maneira que vai aguentando os cavais’ eheheheh…que retornarei com o mm entusiasmo com que peguei esta vossa admirável viagem a tantos mundos novos…estarei mais atento à vossa partida do Brasil para entrarem nessa tão falada quanto obscura’ e desconhecida Bolívia…até lá então…te deixo aqui um forte abraço de agradecimento por tanta Vida’ aqui tão bem exemplificada como vivamente descrita! Kanimambo (Y)

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  20. Viva mais uma vez chamoir,
    Este saborear da minha narrativa é como sair de uma prova oral de peito cheio e dizer a mim mesmo que afinal consigo trazer os mais atentos a viver estes ambientes ao vivo e a cores…convidando-os a viajar comigo e com os que me acompanharam neste voo além-mar.
    E que prazer me confere tal constatação!
    Grato mais esta vez pela maestria da tua análise, e por respirar esta noção que valeu a pena convidar a memória para esta fantástica caminhada.
    E vamos em frente…sempre que chegares perto desta narrativa…agora depois…mais tarde…és bem vindo.
    Cheers buddy!

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  21. Esse Carnaval é uma torrente de pequenos espectáculos em alta voz ambulante com fogo na boca e corpo de serpente…as mulheres são as escamas, os homens as suas caudas…um desfile de dragões a cuspirem serpentinas de sexo e delícias de frutas…aromas naturais no ar, fertilizantes e promotoras de extâses…teu reencontro com a carioca’ d’ olhos de amêndoa…aquele primeiro toque de pele dentro da lagoa morna, nos envolve de tal maneira que se sente o “trio eléctrico’ a percorrer-nos as veias…lume pedido por Caetano Veloso é uma trombada da mais real possível…uma alucinação, que é de onde partiram todas elas…do nada e inesperadamente…um alvoroço feito boca aberta, gritando guinchos’ de alegria…inundando-vos de sons e danças….é uma verdadeira loucura…ela é assim..aberta e bem sonorizada….um espanto de presenças…um só espaço mais que suficiente para todos naquela praça..demais mesmo…levaste-nos até lá…estivemos lá contigo. Surpresa deste episódio, o Rui Quadros ehehehh…nada previa que o Rui fosse pessoa para procurar o mano mais novo…ficando com mais de metade daquilo que me faltaria para conhecer no e do Rui….competimos juntos..anos e anos…e desconhecia essa faceta nele….não acredito que fosse para resgatar’ as pontas’ que o Nuno havia levado…vinha mesmo pela preocupação da Mãe deles…isso deu para ver…mas também deu para sentir aquela aflição’ ( que tu havias pensado antes quando entalado pela folia eheheh)…demais Chico….nota bem….tu pensaste na aflição que estavas a sentir heheh..isto é já resultado de um estado espiritual bem elevado….isso sim…também deu para reler para sentir também…vou ficar por aqui…primeiro pqe este teclado tem mais buracos que teclas…e depois porque ler….é necessário ver…e então depois….relatar o que se visualiza e se sente….. escrevendo…coisa difícil de momento….mas valeu…para abalançar a curiosidade. Estou bem cut’…lento…mas com o Olho’ bem enchido’ eheheheh com este longo, adocicado, apimentado, colorido, barulhento, denso de vibrações que ainda me percorrem o corpo…chiça que tudo se tornou tão real…até espantou e embasbacou-me! Assim fiquei Chico…O Africano’…..Freakalhada’ é demais…uma Fiesta’ Gigante..foi o que foi! Abraço, obrigado (Y)

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  22. Meu caro,
    Eu resgato memórias antigas e neste exercício viajo no tempo, no espaço e em torno de acontecimentos singulares que marcaram uma época intensa desta geração à qual demos o nosso melhor.
    Mas o que francamente me agrada na arte da escrita é conseguir transportar-vos para os acontecimentos vividos ao vivo e a cores…isso é o melhor prémio que poderia esperar neste voo.
    A tua análise é um tónus e a viagem que fazes nas minhas palavras uma força incontornável.
    Mais uma vez Kanimambo chamoir…
    Grande abraço!

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