El condor pasa

El condor pasa

Parte I

Connosca el Perú

A nossa viagem com a Morales Moralitos prosseguiu em tom de boa disposição, sendo a parte de trás deste ónibus especialmente agitada por momentos musicais e troca de sinergias em vários idiomas.
Neste ambiente bem agradável, um pensamento perturbador me atravessa o espírito.
Então este grupo espetacular vai até Cuzco e eu e a Rose ficamos pelo caminho quando chegarmos à próxima paragem em Puno? Hummm…não me agrada nada este cenário.
Puxando a Rose para perto de mim, digo-lhe em voz baixa:
-Minha querida!…está-me a custar demais deixar este grupo e ficar em Puno.
-Ué, africano!….foi o que nós escolhemos, não?
-Eu sei, guapa!….mas escuta-me bem!…se eles não vierem picar os nossos bilhetes até chegar a Puno, nós continuamos viagem até Cuzco.
-Pirou, Chico? Pergunta a minha carioca com um olhar surpreso e sobrolho carregado.
-Rose, você me conhece. Vou pegar uma caneta e vou transformar os nossos bilhetes. Transformar a palavra Puno em Cuzco.
-Africano falsário sem vergonha volta a atacar, né? Responde a minha guapa com uma expressão que é agora um misto de alegria e preocupação.
-Deixa comigo, garota!
E efetivamente, a chegada a Puno é realizada sem que os nossos amigos da Morales venham controlar os bilhetes dos passageiros…so far so good!

Puno 1

Esta chegada a Puno, que é uma vila encostada ao Lago Titicaca, é geradora de novas e intensas emoções.
Puno é uma importante região agrícola e pecuária pelo elevado número lhamas e alpacas (espécies de animais herbívoros típicos da cordilheira dos Andes) que pastam aqui e ali nos múltiplos planaltos e planícies.
Segundo entendi em conversa com um peruano informado que segue viagem connosco, a grande economia desta região baseia-se no mercado negro, abastecido por produtos gerados pelo contrabando regional.
Entre as margens do Lago Titicaca e as montanhas que cercam a cidade há menos de 2 quilómetros de terra plana entre as bermas do lago e os contrafortes.
Mais ao longe avistamos as zonas mais pobres da aldeia, que estão no alto das encostas, muitas vezes em zonas de topografia muito íngreme.
Sobre este lendário lago, avistam-se as ilhas flutuantes. Sillustani, Taquile, Uros e Suasi. Segundo este meu interlocutor, vale a pena visitar estas ilhas, ver as espécies que ali vivem em total liberdade e sentir de perto a magia do lago mais alto do mundo.
Prosseguindo, ele diz que outra visita a fazer em Puno, e que infelizmente não teremos oportunidade, dado que estamos de passagem inseridos num programa turístico, é a visita de Kuntur Wasi que se avista daqui no cimo de uma colina aos 3.990 metros de altura.
Consta que a vista a partir dali para a vila de Puno e para o majestoso lago Titicaca é de tirar o fôlego.
Nesta colina está uma imponente escultura metálica de um condor andino com uma envergadura de 20 metros. Há cerca de 700 degraus para subir e alcançar este majestoso monumento.
Kuntur Wasi significa Casa da Condor no idioma nativo quéchua.

Puno 2   Puno 3
O condor desempenha um papel importante na mitologia sul-americana andina.
Na verdade,…prossegue este simpático peruano…há evidências do condor ser o grande representante na arte e cultura andinas, desde o ano de 2500 ac. Na mitologia andina, o condor está ligado ao Deus Sol e foi apontado para ser o líder do mundo superior.
Por essa razão, ainda hoje, o condor andino é considerado um símbolo de poder e saúde e muitos acreditam que os ossos e órgãos do condor possuem poderes medicinais.
Este facto tem infelizmente gerado uma crescente caça e abate de condores nos últimos anos no altiplano andino..
Lamentável e ao mesmo tempo misterioso, pensei!

Tempo de prosseguir o nosso trajeto em direção ao nosso próximo destino. A lendária cidade de Cuzco.
Tempo igualmente de eu puxar das minhas artes de falsário pegando nos nossos bilhetes (meu e da Rose), para transformar a palavra manuscrita de Puno, para Cuzco.
Franzi o sobrolho!…não é nada linear, Chico!…mas vamos a isto…a sobrevivência fala mais alto…missão cumprida da melhor forma possível e vamos em frente.
O Nuno, ao perceber o que eu estava a fazer, diz-me:
-Mano velho!…back in action, certo?
-É, meu irmão!…o que tem que ser tem muita força…mas não é nada evidente. Respondo com alguma preocupação.
A expectativa e o aperto do coração deu-se com a nossa entrada nesta cidade absolutamente única. Estamos em Cuzco, centro espiritual e político do Império inca.
Os tons predominantes são os castanhos, o branco de algumas casas caiadas e o tom da pedra natural da região nas calçadas e muros. Ao entrar neste novo universo, recordo alguns escritos que li em La Paz sobre esta misteriosa cidade.

A magia de Cuzco

Cuzco 10

Cuzco é conhecida como a cidade imperial dos Incas. O nome original da cidade era Qosq’o em quéchua, que significa o umbigo do mundo. Esta cidade foi praticamente destruída com a ocupação espanhola, tendo os grandes monumentos aqui presentes sido construídos sobre as ruínas do Império Inca.
O idioma quéchua é instituído por volta dos anos 1400 como linguagem oficial do império, pelo chefe Inca Pachacutec. Este foi, segundo reza a história, o chefe Inca mais importante de todos.
De regresso à nossa realidade e aproximando-nos do nosso destino, pergunto aos meus botões.
-Será que vamos ter sorte?
Antes de pararmos na Central de Auto buses de Cuzco, um dos funcionários da Morales recolhe os bilhetes de todos os passageiros. Os nossos incluídos.
Já chegados e parados na Central, as portas não se abrem e reparo numa conversa algo privada entre os dois funcionários.
-Hummm…algo está a correr mal, digo à Rose.
-Ai africano!…vai pintar sujeira né?
Nisto, um dos funcionários sai fechando-se a porta atrás de si, regressando passados 10 longos minutos, acompanhado de um agente da polícia peruana….gelámos!
Vindo em direção ao grupo dos fundos, este policial trás na mão dois bilhetes. Não foi necessário fazer um desenho. Francisco, o teu plano não funcionou e o mundo acaba de desabar sobre as nossas cabeças.
A Rose, em pânico, olha para mim e eu, não menos afetado com a situação apenas lhe digo com relativa ou nenhuma convicção:
-Calma, querida…não será o fim do mundo!
Após a nossa identificação através dos nossos passaportes, são abertas as portas para a saída de todos os passageiros. Exceto nós!
Neste movimento, troco um olhar com o meu camarada Nuno Quadros que lê no meu rosto a gravidade da situação, ao que correspondo com um encolher de ombros. Ele sabe que eu troquei os nomes do nosso destino nos bilhetes. Algo mais complexo de fazer quando comparada a uma operação feita meses antes, ao fabricar a autorização paternal e licença militar para ele viajar comigo até este continente.
Não se podem ganhar todas as batalhas, Francisco.
Segue-se um episódio de grande tensão, uma vez levados (eu e a minha companheira) para a Calle Saphi onde estão as instalações da polícia e onde somos colocados sob imediata custódia.
Os funcionários da Morales, após viva discussão e correspondendo ao pedido expresso de algumas pessoas do nosso grupo liderados pelo Nuno, lá aceitam retirar a queixa se forem pagos da diferença do custo dos nossos bilhetes entre Puno e Cuzco. O Nuno sabia que estamos com os nossos tostões bem contados para comer e nada mais.
Este circo durou mais de 30 longos minutos nos quais eu e a Rose vimos a vida seriamente a andar para trás.
Findo este período e fruto de uma iniciativa conjunta, todos os que puderam contribuíram para o cumprimento deste objetivo e nós fomos finalmente libertados. Tudo terminou com a retirada da queixa formal por parte da Morales Moralitos, não evitando no entanto o registo de um auto policial com os nossos nomes!..bien venidos a Cuzco!…uff!…obrigado pessoal!…a vida continua!

Cuzco 1   Cuzco 2

Estamos a 7 de Abril de 1974, abrindo-se aqui um nova etapa desta nossa passagem pela América latina.
Por informação de alguns habitués destas paragens, soubemos que ali bem perto na mesma calle se encontra uma casa tipo Alojamiento que alberga muitos dos gringos que passam por aqui.
Ao chegar a este local, vemos à entrada uma placa com o nome Samana.
Nome curioso, digo à Rose! Ao nosso lado está um argentino que, captando a nossa curiosidade, nos diz:
-Hola, me pregunté esta misma pregunta cuando llegué aquí hace unos dias. Samana significa descanso en idioma hindú. También es un término d´el yoga hindú de las 5 Pranas (formas de fuerza de vida), donde “Samana” significa “equilibrio de fuerzas”.
-Gracias, hombre…muy interessante!…respondo entusiasmado!
Na porta grande de entrada com duas abas pode ver-se alguns cartazes dizendo:
Colabore con el esfuerzo colectivo e Amor es Fuerza.
Ao entrar nesta casa, somos convidados a tirar os sapatos. O cheiro a incenso é uma presença forte e o artesanato peruano é predominante neste ambiente deveras atraente.

A primeira impressão que temos deste lugar é deveras positiva. Uma sala grande à entrada, onde vemos uma decoração tipicamente Hippie com esteiras no chão, tapetes nas paredes, almofadas no chão e a presença de diversos instrumentos musicais. Aqui estamos em presença de gente de vários países e idiomas. Respira-se um ambiente bem ao gosto da contra-cultura, onde segundo compreendi, muitos são artesãos como nós, dedicando-se a fazer trabalhos de vários tipos para sobreviver.
Logo sentimos que seria um bom local para passar uns dias.
Tentámos assim compreender como funciona Samana.
Neste sentido, tivemos um primeiro encontro com um peruano magro de pele escura, de média estatura de nome César Segura, com a sua companheira americana de nome Janet, de pele muito clara e de um cabelo loiro aos caracóis e uma criança linda ao colo de nome Manu.
-Hola, me llamo Chico, vengo de Mozambique con mi amigo Nuno e estoy con mi compañera Rose, brasileña de Rio de Janeiro.
-De Mozambique?…pergunta-me este nosso anfitrião com um ar surpreso.
-Aquí en Samana tenemos forasteros de todas partes del mundo…pero Mozambique creo bien que es la primera vez!…hola! Rose, Chico, Nuno…sean muy bien venidos.
Fomos igualmente apresentados a outros mentores deste projeto. Três freaks de nome Maria, Verónica e um tal de Emile com duas crianças adoráveis.
Estes simpáticos anfitriões mostraram-nos a estrutura da casa e compreendi que estamos numa espécie de comunidade onde toda a gente colabora em diversas acções, contribuindo financeiramente de forma voluntária para o bom funcionamento da estrutura.
O edifício é composto de 3 pisos estando no piso térreo a grande sala social , outra sala mais pequena, a cozinha comum e alguns quartos, sendo os outros quartos distribuídos pelos pisos superiores constituídos por um soalho de madeira.
Os quartos são espaços amplos ocupados livremente, desde que haja espaço para estender as esteiras e sacos cama de quem chega.
-Que te parece?…pergunto à Rose no final da visita.
-Tou gostando, africano!…se encontrarmos um espaço para dormir num desses quartos e se colaborarmos como todo mundo, acho que podemos ficar por aqui uns dias.
-Concordo carioca!…vamos dar uma volta nesses quartos e ver o que acontece.
Efetivamente no piso de cima e falando com uma bonita mulher argentina de olhos verdes compreendemos que num dos cantos desta peça há um espaço que foi liberto esta manhã.
Satisfeitos com o resultado, ali nos instalámos sabendo logo mais que o Nuno e os outros também teriam encontrado uma solução noutra parte da casa. Tomámos conhecimento de algo agradável. Havia banheiros grandes e confortáveis equipados com banheira e água quente…Hummm…bela surpresa!
Esta noite assistimos a uma Jam session de grande qualidade na sala grande onde pudemos conhecer uma grande variedade de pessoas de vários países, entre americanos, chilenos, brasileiros, ingleses, franceses, belgas, etc.
Aqui circula facilmente a coca, a maconha e o hashish. Que ambiente fabuloso!
Samana é um lugar muito especial e penso que vamos viver aqui momentos de grande energia positiva.
Os convívios nesta sala são de uma riqueza extraordinária.
Em conversa com um casal de ingleses que viajam pelo mundo há vários anos pude constatar que estiveram de passagem rápida por Moçambique em 1972 a caminho da África do sul…queriam ir até à Tânzania, mas com a guerra bem acesa na zona norte, não puderam concretizar este sonho.
Quando compreenderam que a Rose é do Rio de Janeiro a conversa animou ainda mais.
-Great Rose!….we´re heading towards Brazil….and Rio is definitely a place to visit…tells us more about it…dispara desta vez a nossa interlocutora. Uma inglesa de tranças ruivas com uns lindos olhos azuis.
A Rose, com um natural entusiasmo e um especial brilho nos olhos lindos quando se fala na cidade maravilhosa, vai adiantando:
-You will be amazed with my home town…the most beautiful city in the world!…diz esta minha carioca empolgada.
Um alemão que estava perto de nós de nome Markus entra na conversa.
-She is quite right!…I have been there too. Rio will take your breath away, man!
Continuando, e virando-se para mim e para o Nuno este alemão pergunta:
-But tell me guys!…you come from East Africa?…outstanding!..tell me more about it!
Está visto que a conversa da Rose com os ingleses e as nossas revelações a este alemão, foram objeto de uma conversa muito interessante, condimentada com uns pipes da melhor qualidade…Samana promete.

Pela manhã somos acordados com música dos Stones que é acionada de modo a acordar os residentes. Só a seguir compreendi o objetivo desta música. Era o anúncio para que todos saibam que o desayuno acaba de ser servido no piso inferior.
-Que boa ideia Chico!…olha só essas mesas bem recheadas de comida!…que barato!
-Humm….carioquinha!…o meu apetite já está aos pulos.
Efetivamente é bom de ver! Desde o pão, manteiga, cereais, mel, fruta, sumos naturais e café com leite para todo o mundo. Terminado este simpático momento animadamente partilhado com gringos de diversos cantos do mundo, foi tempo de eu e a Rose participarmos na arrumação da sala, ajudando na limpeza da cozinha e colocando tudo no seu lugar. Esta é a forma de participação que nos transmitiram o César e a Janet ontem durante a nossa conversa. Os que têm meios colaboram financeiramente sendo dispensados destas tarefas.
Esta manhã compreendemos que há uma ala da casa reservada aos mentores do projeto. A única parte da casa algo mobilada com camas, cómodas e guarda fatos.
Novo dia nesta cidade mágica. Depois de uma noite bem dormida e bem juntinhos para fazer face às temperaturas desta cidade do altiplano e deste delicioso desayuno, é tempo de tomar um banho e partir à descoberta de Cuzco.
Assim vamos eu, a Rose, o Nuno, um chileno e mais duas argentinas.
Está um belo dia de sol. Saindo de Samana e descendo a Calle Saphi onde colhi um folheto turístico, somos muito naturalmente atraídos pelo epicentro desta cidade . A famosa Plaza de Armas, local central de cada cidade dos Andes com forte traço da presença colonial hispânica.

Cuzco 5   Cuzco 11
Este é um lugar especial com grandes jardins, com bancos e um chafariz em pedra no centro de onde brota água em permanente repuxo. Ao fundo está a imponente Catedral da Virgen de Assumption com uma bela escadaria pela frente e nas zonas laterais duas igrejas de Jesús María e El Triunfo. Uma evidente influência católica. Os arcos em toda a praça são a marca arquitetónica da presença hispânica destes países do altiplano.
Segundo o folheto que trago na mão, consta que foi aqui que o colonizador espanhol Francisco Pizarro declarou a conquista da cidade em 1530. Esta praça foi desde o império inca, considerada como um local de grande importância cerimonial.
Durante a civilização inca, tudo conduzia à Plaza das Armas naquele tempo denominada de Huacayapata (Praça de guerreiros). Este foi desde sempre o coração de Cuzco, fundada no século XII por Manco Cápac.
O local da Plaza das Armas, durante o império inca foi o centro de muitas celebrações e mantém-se até hoje como o ponto central de reuniões culturais e políticas da cidade.
Hoje, esta praça reflete, tanto a invasão dos espanhóis, como a destruição da civilização inca.
Estamos a ver este fantástico lugar de dia. Disseram-nos que de noite ainda é mais espetacular com a iluminação.
-Y que tal nos marcharmos para el mercado San Pedro? Pergunta uma das argentinas.
-Excelente ideia…responde o Nuno entusiasmado.
Ali próximo e entrando pela Avenida del Sol, fomos ver um monumento que, segundo leio neste folheto, os espanhóis tentaram encobrir construindo o Templo Santo Domingo, conhecido como Coricancha. Uma linda edificação que terremotos na região tentaram destruir, tendo a edificação resistido deixando vestígios do império inca. Sublime!
Em seguida, quisemos finalmente visitar um lugar muito típico da cidade. O mercado de San Pedro.
Á entrada, demos com um índio cego que, com uma harpa peruana de grande dimensão toca algo que mexe especialmente comigo. El Condor pasa. Aqui fiz uma viagem obrigatória ao álbum de Simon & Garfunkel editado em 1970. Que arrepio!

El condor pasa
Aqui encontra-se de tudo, desde artesanato tipicamente andino de vários tipos, fruta variada, queijos, carnes e comidas típicas servidas em barraquinhas populares. Isto é uma bela confusão numa mistura de índios mestiços e gringos de todas as partes do mundo. Pelo que vejo aqui e ali, pechinchar é a alma do negócio.
Este será um lugar para tentar vender uns batiks e mais uns colares que vamos fazendo com missangas e arame, pensei!
Com o entusiasmo desta visita, digo aos meus companheiros:
-Gente!…temos aqui um lugar para fazer negócio, não?
-Penso o mesmo! Responde o Nuno…há que voltar aqui para estudarmos melhor as nossas saídas.
No regresso ao centro de Cuzco, parámos numa espécie de botequim onde nos permitimos comer algo com os soles que trouxemos de La Paz.

Cuzco 4   Cuzco 8
A grande vantagem é que tudo é bem barato nestas paragens. De assinalar que 1 dollar US vale aqui 50 soles. Imagine-se como os americanos se regalam nestas paragens.
Alguns dos pratos já confecionados, estão expostos numa espécie de cartaz visível à entrada. Preços entre 3 e 5 soles por prato!…hummmm…água na boca!
A Rose escolheu provar Kapchi (Guisado).
Eu atirei-me aos Tamales (Masa de maíz rellena con carne).
Os nossos colegas provaram a Lawa (Sopa) e Olluco com carne de Llama…achei curioso…um dia tenho que provar isto…pensei!
Para beber, pedimos os sucos naturais que são magnificamente servidos em grandes garrafas….sublime!…e tudo barato!…
-Ficamos bem comidos por hoje guapa!…digo à Rose, limpando o bigode deste nutritivo sumo…humm!…maravilha!
-Podes crer, africano!…isto está uma delícia mas eu acho que em Cuzco vamos poder forrar o estômago pagando mais barato se comermos naquele mercado onde se come com pouca plata.
-É, penso que tu tá com a razão. Temos que explorar melhor esse mercado.

Mas algo temos na nossa consciência com o decorrer dos dias em Cuzco…poderemos comer o nosso desayuno cada manhã em Samana, mas as nossas refeições diárias terão de sair das vendas de artesanato que ainda temos connosco. Alguns colares de missangas que vamos fazendo lá no quarto com arame, alguma prata e os restos da coleção de batiks feitos no Brasil.
Neste âmbito, corre uma pergunta no meu espírito. Como e onde vou poder fazer os meus batiks?

Plaza de Armas

E assim foram rolando os nossos dias nesta cidade única. Os nossos circuitos habituais passam a ser feitos entre a Calle Saphi, a Plaza de Armas e o mercado de S. Pedro.
A nosso favor está o facto que a comida neste mercado popular ser substancial barata…por 1 ou 2 soles forra-se o estômago com as comidas já preparadas.
Explorando melhor este local, descobrimos algumas alternativas bem interessantes.
Dezenas de bancas que vendiam comida exposta em grandes ollas, com vários tipos de carnes, batatas, arroz, frejoles e legumes que podiam encher um prato bem servido por um preço à nossa medida, e matando assim a nossa fome muitas vezes voraz.
Neste mercado conhecemos igualmente uma especialidade peruana, o ceviche, que consiste de filete de peixe fresco cru, em pedaços pequenos, marinado no limão e temperado com cebola roxa, coentro e servido com choclos (milho) e camote (tipo de batata de cor alaranjada). Muito gostoso e saudável. Outras vezes, optamos por sanduíches feitas com pão de trigo integral, abacate, cebola, tomate, pernil, ou frango. Muito naturalmente acompanhados de um suco misto de laranja, mamão (papaia), banana, cenoura e beterraba, servidos em vasos grandes…um dá para nós dois…uma delícia estes sucos!
Quando não conseguimos vender nada, tentamos trocar alguns dos nossos colares e peças de batik por um prato de comida…um objetivo algumas vezes conseguido com facilidade e muitas outras vezes sendo uma negociação difícil com as mamacitas quéchua, que olham para nós desconfiadas e nos negam a troca. Estes momentos por vezes são uma luta e a fome aperta…este é o nosso dia a dia de Cuzco.

Esta noite em Samana, tivemos mais um excelente ambiente musical…são acontecimentos sempre espontâneos onde cada um participa de forma livre. Esta noite circulou uma coca e uma maconha de muito boa qualidade. Dois efeitos contrários que eu sempre que posso começo por aceitar umas narigadas de coca que ajudam bastante à batucada, deixando a maconha para depois, o que nos ajuda a mergulhar mais facilmente no sono. Único contra….a conhecida fome de passa que nas nossas circunstâncias só satisfazemos com restos de pão e uns biscoitos peruanos.
Uma vez mais temos uma troca de ideias super interessante com um grupo de argentinos e um belga que estão igualmente de passagem por Samana.
O tema desta vez incidiu sobre as maravilhas da arqueologia Inca, onde falámos das ruínas no vale sagrado e como não podia deixar de ser…Ollantaytambo e Macchu Picchu por, supuesto!
-Ustedes ya estubiran por aí? Pergunto.
O belga num espanholês esforçado diz:
-Yo todavia non…pero los amigos aquí ya, y nos podrán decir algo.
Efetivamente estes argentinos que já estão no Perú faz dois meses, descreveram com natural entusiasmo as maravilhas do vale sagrado.

Cuzco 9   Cuzco 3

Esta noite, eu e a Rose, quando nos deitámos no nosso canto da peça onde dormimos, fomos prendados com a ausência dos restantes ocupantes.
-Carioca linda?
-Fala meu africano!
-Estamos sós já viu?…vamos entrar nos nossos sacos e trocar uns cafunés?
-Africano safadinho!..você lê os meus pensamentos, né?…vem cá, grandão…me leva pro céu!
-Hummm…carioquinha!…tu és o meu céu!
Estes nossos momentos são sempre uma viagem a um universo sensorial sem gravidade…onde o prazer e o adormecer são doces como o mel…bom demais!

Hoje, tomado o nosso habitual desayuno em Samana e após conversas com o pessoal ontem à noite, combinámos ir visitar um templo que fica sobre uma das colinas de Cuzco a cerca de 2 km a subir. O templo de Saksaywaman.

Desta vez vez vamos num grupo de 7 pessoas. Para ajudar na subida e evitar a fome, alguém oferece folhas de coca para mascar.
Confesso que da última vez que tivemos esta experiência em Santa Cruz de la Sierra a lembrança não é boa.
O gosto amargo das folhas na boca formam junto com a saliva uma massa dentro da boca que confesso que não é agradável. A Rose disse de imediato.
-Pra mim não!…não suporto esse negócio!
Desta vez disseram-me que se mistura uma espécie de uma massa de cor cinza na boca que corta o amargo. Confesso que a Rose tem razão. Isto é mesmo intragável.
Passados minutos deitei fora este bolo verde.
O nosso trajecto até este templo faz-se por zona urbana até um certo ponto…depois a corta mato. E cá estamos.

Sacsayhuaman 1
Saksaywaman é uma fortificação localizada sobre uma colina íngreme, com uma fabulosa vista sobre a cidade de Cuzco. Um complexo fortificado com uma história bem antiga.
Tem uma grande área de praça, capaz de acolher milhares de pessoas, destinado à realização de cerimoniais, tendo várias estruturas no local que tudo indica eram usadas durante rituais.
Sentámo-nos no meio da praça onde alguém do grupo se dedica a enrolar um belo joint.
Passando este joint à Rose, a Maria que nos acompanha pergunta-lhe:
-Então você e Chico estão viajando juntos faz muito tempo?
-Ai, menina!…faz uns meses apenas, mas a nossa história é algo inédita sabe?
-Me conta, vai?…responde a Maria com a curiosidade feminina e um certo brilho no olhar.
Entretanto, um dos argentinos que veio connosco, trouxe um livrinho sobre o Perú. Abrindo no capítulo Saksaywaman, ele informa:
Estudos arqueológicos baseados no estudo de peças de cerâmica indicam que a primeira ocupação deste morro data de cerca de 900 AC.
Devido à sua localização no alto Cuzco e às suas grandes paredes e terraço imenso, esta estrutura é frequentemente referida como uma fortaleza.

Sacsayhuaman 2   Sacsayhuaman 3

A importância das suas funções militares foi destacada em 1536, quando Manco Inca sitiou Cuzco. Muito dos combates da época ocorreram dentro e ao redor de Saksaywaman, como era fundamental para manter o controle sobre a cidade. Descrições do cerco, assim como as escavações no local, haviam registado a existência de torres no topo do forte, bem como uma série de outros edifícios.
Por exemplo, Pedro Sancho, que visitou o complexo antes do cerco, menciona nuns escritos a qualidade labiríntica do complexo e as suas muitas salas de armazenamento preenchido com uma grande variedade de artigos. Ele também refere a existência de construções com grandes janelas que davam para a cidade. Estruturas estas , como tantas outras, há muito destruídas.
Esta fortaleza Inca, conhecida como Chena, anterior à ocupação colonial espanhola, era um local ritual de cerimonias denominada de Huaca de Chena.
Aqui respira-se um ar bem puro e a completar o cenário sempre aparecem umas llamas a pastar por ali…que lugar fantástico!
-Mas me diz uma coisa…pergunto a este nosso amigo. Este lugar apesar da ocupação espanhola mantém muitos traços do Império Inca.
-Si, hombre!…mira que no es facil transformar una fortaleza como esta…risada geral!

Sacsayhuaman 4   Sacsayhuaman 5

Ao fim da tarde lá descemos, regressando a Cuzco, onde uma volta pelo mercado se impõe para forrar o estômago com alguma coisa. Uma operação diária integrada na nossa precária alimentação. Assim que cumprida esta missão, tempo agora de regressar a Samana e ao nosso lugar de repouso. Um dia diferente e bem agradável.
Esta noite em conversa com um dos argentinos que foi connosco a Saksaywaman e consultando o tal livro, fiquei a saber que há outros lugares interessantes para visitar aqui na região de Cuzco. E disto exemplo KusilluchayucTemplo de los monos.
Assim combinámos ir ver na manhã seguinte mais este local carregado de misticismo.
Esta noite, aproveitando alguns momentos solitários, aproveito para acrescentar mais umas notas e alguns esquissos ao um road book. Uma espécie de diálogo escrito que tenho comigo mesmo desde que cheguei à América Latina. Penso que um dia mais tarde, a leitura destas notas será objeto de singulares lembranças que me permitirão reviver todas estas emoções com particular prazer.
Novo dia de descobertas! Desta vez vamos num grupo menor só de 4 rapazes. A Rose e a Maria (uma das nossas companhias do dia anterior), cansadas da caminhada até Saksaywaman, ficam por Cuzco para ir dar um giro ao mercado e conhecer novas paragens.
Eu, o Nuno e estes dois outros companheiros temos desta vez um guia que encontramos no dia anterior e que, a troco de uns soles, nos leva a conhecer este locais místicos.
Através deste argentino interessado, fiquei a saber um pouco mais sobre o nosso destino.

Kusilluchayuc – Templo de los monos

Monos 1   Monos 2

Kusilluchayuc é uma palavra quéchua que significa Kusill (Templo) Chayuc (Macacos).
Segundo o tal livro, a primeira imagem notável deste lugar, distingue-se através de um grande achado arqueológico esculpido na pedra com quase dois metros de altura onde com alguma imaginação se pode distinguir a forma de um sapo. Neste rocha estão igualmente presentes relevos visíveis com forma de cobras e macacos, sendo estas as figuras que deram nome ao lugar.
Seguindo mais adiante e localizado a 500 metros diretamente a leste de Quenco Grande, está este outro lugar de grande valor arqueológico, que tem galerias e passagens que se comunicam umas com as outros. As paredes foram esculpidas em nichos alojados, onde se pode ver os restos de uma bacia de água, sendo assumido que foi utilizado para fins litúrgicos ou rituais, bem como a escultura de um felino de grande porte, provavelmente de um puma.
Nas proximidades, existe ainda o Templo da Lua, sendo esta área ainda usada para rituais mágicos e religiosos, onde é evidenciada a oferenda de flores encontradas no local.
Interessante!….vamos lá ver isto de perto.

Monos 3   Monos 4
No caminho e durante uma paragem, o nosso quéchua tira da bolsa um saco com um produto comestível desconhecido, perguntando num espanholês estranho se estaríamos interessados em provar aquilo a troco de alguns soles.
Um dos argentinos há muitos meses estacionado na região de Cuzco, explica:
– Hombre, esto es Mescalina. Se extrae de un cactus muy típico de aquí d´el Peru llamado de San Pedro que es un catus familiar del Peyote mexicano.
-E toma-se assim…comendo? Pergunto desta vez.
-Si, se come diretamente o com un pedaço de pan o algo asi. Los efectos de la mescalina toman algun tiempo para trabajar en el cerebro, una vez que entra en el circuito de la sangre por digestión. Esto es comparable a otros psicodélicos como la psilocibina de los hongos (cogumelos), mas el efecto d´el San Pedro es más débil que el Peyote mexicano. Con el San Pedro podras seguir por unas 3 horas. El Peyote mexicano puede durar de 6 a 12 horas.
Todos quiseram provar esta iguaria…mais uma experiência, mais uma viagem…vamos nesta.
Voltando-me para o Nuno, digo:
-Mano, mais uma aventura, certo?
-Vamos nessa, Chico!…en Perú…seremos peruanos, non?…risada!

Passada uma meia hora começo a sentir três efeitos algo bizarros, confirmados pelos meus colegas de caminhada.
Algumas náuseas, caimbras nos membros inferiores e uma tendência estranha para os olhos começarem a lacrimejar sem razão. Efeitos estes que passam cerca de uma hora mais tarde.
Agora invade-me uma sensação de euforia e um enriquecimento da visualização de tudo o que nos rodeia. Sem no entanto perder a noção do lugar onde nos encontramos, a nossa caminhada continua até ao nosso destino.
Confesso que as figuras esculpidas na pedra neste Templo de los Monos passaram a ter formas bem mais fantásticas do que as descritas no livro do argentino.
O sapo tomou proporções de um animal de grande porte, não classificado no meu conhecimento, sendo as cobras e macacos objeto de metarmorfoses várias que me deram um particular gozo a visualizar…senti um certo júbilo tomar conta de mim…o meu sorriso flutua numa sensação de bem estar que é agora uma constante.
Mais adiante, no denominado Templo da Lua, ainda foi mais hilariante com a nossa entrada em galerias e túneis de pedra interligados, onde o encontro com a tal bacia de água, me permitiu ver uma espécie de disco voador…que fantástica descoberta labiríntica!
Bem, o melhor foi quando apareceu o tal felino esculpido na pedra que surge diante dos meus olhos como aqueles tigres com dentes de sabre da pré-história…imagem deveras bizarra. E ao mesmo tempo assustadora. Resolvi sair dali.

Cactus San Pedro 1   Cactus San Pedro 2
Mas conforme se previa, esta euforia começou a extinguir-se ao fim de quase 3 horas durante a caminhada de volta a Cuzco…confesso que a visualização da cordilheira que nos rodeia e a cidade mais além, foi vista por um novo ângulo. Transcendente e ao mesmo tempo deslumbrante.
Permito-me finalmente dizer que este cacto San Pedro deve ser de facto um primo afastado do Peyote que não conheço. Conforme descreve nos seus livros o antropólogo Carlos Castañeda, as experiências extrassensoriais vividas com Juan Matus são mais intensas do que esta tida hoje aqui no altiplano andino. Não deixa de ser interessante tratando-se de um produto natural sem qualquer transformação ou componente químico.
Esta é finalmente uma experiência de impacto ligeiro, quando comparada com o efeito de uma viagem com LSD (ácido lisérgico).

Parte II – No vale sagrado de Urubamba

 

Urubamba - Vale sagrado

Ao longo dos dias aqui em Cuzco uma inquietação cresce no meu espírito…impõe-se encontrar um local para trabalhar os meus batiks. Os artigos para venda estão a escassear, a nossa situação económica agrava-se e será necessário encontrar uma solução.
Como que utilizando uma lei de atração, cruzamos esta noite um chileno na Plaza de Armas com quem temos um conversa interessante.
De nome Cristian, este chileno conta-nos que ele e um colega de nome Raul Chirulo igualmente chileno, estão no Peru foragidos das convulsões políticas no seu país, agitado politicamente pela acção de um golpe de estado e tomada do poder de assalto, pelo actual auto proposto presidente Augusto Pinochet.
Em conversa com este chileno, soubemos que já estão por Cuzco faz duas semanas e que tencionam instalar-se fora da cidade na região de Urubamba que é um pueblo situado no Vale Sagrado dos Incas.
-Ha!…interessante, penso!
-Yo y Raúl sabemos que hay unas casas que se alquilan en esta región por precios muy bajos. Casas rústicas que están integradas en fincas agrícolas.
-Seguro?…pergunta a Rose…africano!…isto é interessante não acha?
-El Chirulo fue allí esta mañana y traerá nuevas mas tarde. Si ustedes están interesados en esta posibilidad mañana hablamos todos.
Sim, Cristian claro!…a que horas nos encontramos?…e onde?
-Lo mejor es aquí en la Plaza por las diez horas…que tal?
Eu a Rose trocámos um olhar respondendo:
-Combinado…aqui estaremos então… responde prontamente a Rose.

Cuzco 14   v-ekskurzii-Cuzco_Balcons

A manhã do dia 12 de Abril começa com o ritual habitual na sala de Samana. Um desayuno comum onde podemos trocar impressões com o Nuno sobre a nossa conversa da noite anterior com o nosso novo amigo chileno.
-Parece interessante…responde o Nuno
-Vamos ter com eles ali à Plaza…dependendo das novidades podemos mudar-nos para lá em breve…queres alinhar connosco? Pergunto ao Nuno
-Vejam lá o que eles dizem…pode ser uma boa. Aqui o ambiente está a ficar mais pesado…acho que o César se vê à rasca para pagar as contas. Já falam em começar a cobrar dormidas ao pessoal.
-Não admira, Nuno! Responde a Rose. Passa por aqui um montão de gente né! Os caras devem estar sofrendo pra gerir esse negócio.
-Eu pessoalmente também preciso de um lugar para fazer batiks. Aqui em Samana não dá!
-Ok, vejam lá como isso rola. Falamos mais logo. Remata o Nuno

O nosso encontro na praça desta vez igualmente com Raul Chirulo, o outro chileno que ainda não conhecemos, é agitado pelas novidades frescas de Urubamba.
Este informa:
-Yo estuvo allí con una señora que se llama Mamita Escobar que tiene una propiedad agrícola con plantaciones, vacas y ovejas. Ella tiene una casa pequeña de alquiler. Me fue a mirar la casa … es una casa pequeña sin divisiones internas y debe dar para albergar 4 ou 5 personas.
-Hummm…respondo interessado…e quanto pede ela para alquiler?
-Ella nos pide 60 soles por semana. Después de bien negociar, llegamos a un precio de 40 soles. Hay una corriente de agua que pasa alli cerca. Pero aseos no tiene.
-E como vamos para Urubamba…a que distancia fica daqui?…pergunta a Rose
-Urubamba queda a unos 75 km de aquí … hay un autobús que hace este circuito tres veces al día. 1 horita es el tiempo de viaje. Después caminamos por unos treinta a cuarenta minutos y ya está!
-E já acertaste com ela o acordo de aluguer? Pergunto curioso.
-Si, ya está reglado…nos marchamos en un par de días. Si lo desean, también pueden venir. De esta forma quedara mas barato a cada uno.
-Parece muito interessante. E diz-me, Chirulo…há um espaço livre há frente de casa. Para eu fazer os meus trabalhos de artesanato?
-Si hombre…es una finca, espacio no es problema.
-O que achas?…pergunto à Rose.
-Meu querido…você ouviu o Nuno falar sobre o negócio lá em Samana. Eu acho que devemos aproveitar sim.
-Bem, Cristian, Raul, nós vamos com vocês para Urubamba. Até porque o vale sagrado é um dos nossos objetivos aqui no Perú.

À noite voltámos a falar com o Nuno comunicando o que combinámos com os chilenos.
-Ya, tou a ver!….mas vamos fazer assim. Como a casa é pequena vocês vão ver como é…se der também para mim eu venho lá ter com vocês
-Certo, mano!..nós vamos ver como é…tem um ónibus que faz este trajecto três vezes ao dia. Quando voltarmos a Cuzco falamos melhor.
-Valeu Chico!

Roteiro Cuzco-Urubamba
E assim fomos, eu a Rose e os nossos novos amigos Cristian e Raul de ónibus a caminho de Urubamba cujo significado em quéchua é Terra plana de aranhas,…curioso nome pensei. Trata-se de uma vila que está localizada perto do rio Urubamba sob a montanha coberta de neve denominada de Ch’iqun. É a zona urbana mais habitada do vale sagrado dos Incas havendo mais duas no caminho com menor importância antes de lá chegarmos. Pisac e Calca.
O ónibus que nos transporta durante cerca de um hora sobre uma estrada de terra batida onde a poeira é uma constante, é algo precário e caricato pelo seu aspeto e pelo tipo de pessoas que transporta. Estamos bem no vale sagrado do mundo Inca.
Nesta região há uma série de ruínas significativas do Império, onde estão naturalmente incluídas, Chinchero, mais adiante Ollantaytambo e finalmente as mais importantes . As ruínas de Machu Picchu.
Ao chegar a Urubamba paramos no centro onde ali perto se encontra o popular mercado central onde se vê a venda de frutas, legumes e também panelas, frigideiras e outros acessórios de cozinha. Outros artigos que saltam à nossa imediata atenção são as roupas e ornamentos de alpaca produzidos localmente. As cores deste cenário são simplesmente fabulosas. Ora aqui está um bom local par a venda das nossas artes também…pensei!

Urubamba 4   Urubamba 6
Ali perto, fica a clássica Plaza de Armas com uma igreja tipicamente hispânica, chegando finalmente à estação de paragem deste caricato ónibus.
O Raul que já tinha aqui estado, trazia o contacto da tal mestiça de nome Mamita Escobar que habita nesta simpática vila.
Ao fim de algum tempo lá chegamos à casa onde mora a nossa interlocutora.
Mulher de estatura média com traços quétchua, de meia idade, pele morena e olhos algo rasgados, apresenta-se como uma mulher empreendedora da região, sendo proprietária de algumas terras onde desenvolve diferentes culturas e criação de algumas cabeças de gado entre vacas e ovelhas.
-Entonces señor Raúl siempre está interesado en alquilar la casita que se queda cerca del río?
– Sí Mamita … llego con mis compañeros para nos quedarnos por allí desde esta noche si posible.
–Sí Raúl … las condiciones que ya hablamos … quieren ir-se por allí ahora?
-Si usted puede ir allí con nosotros ahora sería genial.
-Ahora no puedo, pero dentro de unos 40 minutos vengo hasta el mercado y nos marchamos para allí….vale?
– Gracias Mamita … luego le esperáramos allí en el mercado. Responde o Raul Chirulo com satisfação e agradecimento no olhar.

Urubamba 1   Urubamba 2
O vale sagrado é uma zona apetecível para os gringos que procuram como nós, alugar casas aos proprietários locais por dois motivos principais. O facto de viver num local carregado de mística e pelo custo de vida deveras baixo, facto importante para às bolsas magras dos forasteiros como nós.
A nossa caminhada na companhia da Mamita Escobar para ir conhecer a nossa nova morada fez-se através de uma pista arborizada que é bem típica desta região fértil que é o vale sagrado. Neste trilho atravessamos algumas plantações de milho e onde são visíveis várias culturas para alimentar o gado e outras ervas aromáticas que crescem naturalmente. Aqui respira-se ar puro não existindo qualquer indústria…magnífico lugar!
Finalmente no local, encontramos uma casa muito rústica com teto de colmo, uma só divisão, tendo nas traseiras uma outra que é a cozinha com um fogão a lenha. O chão é de terra batida onde estão algumas esteiras velhas. Tem uma porta rústica e não há janelas.
Numa primeira apreciação podemos acomodar-nos aqui os quatro mas não me parece que possamos partilhar este espaço com mais gente.
Uma vez concluída a visita e pago adiantado o nosso mês de aluguer à nossa Mamita, aqui estamos para dar dar corpo a uma nova vivência peruana desta vez em pleno vale sagrado dos incas…vamos adelante!

12 de Abril de 1974.
O nosso quotidiano mudou. Em termos económicos a nossa condição melhorou dado que vamos poder partilhar a quatro uma renda barata e vamos poder aproveitar os recursos oferecidos por um meio rural onde podemos usufruir das culturas naturais da região.
Nesta casa e tendo o cuidado diário de ter lenha aprovisionada, a nossa alimentação é na base de sopas de legumes que colhemos na região, os nossos chás (té de hierbas), principalmente de manzanilla (camomila) fresca, que também é abundante na região.
A produção de algum artesanato vai ser o recurso necessário para a nossa subsistência, sendo no entanto as condições desta casa impossíveis para a produção de batiks. Não tenho como derreter a cera nem como segurar os meus tecidos adequadamente. Isso é um dos aspetos que continuam a preocupar-me por aqui.
Vamos frequentemente a Urubamba vender os colares no mercado e com os soles conseguidos, compramos mantimentos, entre os quais alguns legumes, o pão, o leite, e a carne de aves que comemos quando se vende melhor.

Casa em Urubamba   Urubamba 13
A parte mais complexa desta nova vida campestre é a higiene e as necessidades pessoais dado que não temos um banheiro sendo a única água corrente disponível um riacho de água gelada que passa aqui perto, proveniente das montanhas. Tomar banho e lavar os dentes nestas condições tornou-se uma experiência dolorosa. Mas as nossas maiores inquietações eram outras.
Aqui temos que viver com um fenómeno típico desta região. O convívio difícil com os animais mais ameaçadores do vale. As aranhas negras que passam cá em casa frequentemente. As famosas tarântulas (theraphosidae) cuja mordida é fatal e com as quais temos que manter uma permanente vigilância.
Tomámos consciência deste facto depois de um destes seres peludos ter passado por cima do rosto da Rose durante ao anoitecer. Sensação horrível que nos abriu os olhos quanto ao perigo que representam estes seres aterradores.
Numa reflexão pensei. Urubamba significa em quéchuaTerra plana de aranhas . Afinal de contas os intrusos somos nós. Temos que relativizar este fenómeno e viver da melhor forma com estes autóctones.
Ao fim de quatro dias a viver nestas condições algo precárias, tivemos uma novidade boa que nos abre novas possibilidades. O Cristian encontrou a Mamita Escobar em Urubamba que lhe disse que vagou uma casa que ela tem numa finca um pouco mais acima. Que se quiséssemos poderíamos mudar para lá pois é uma casa maior e mais confortável.
-Qué vos parece esto? … Nos marchamos para esta otra casa que está en mejores condiciones?…propõe o Cristian…según Mamita esta casa es bien más grande que esta y está en una área donde pasa una corriente de agua muy cerca. Sólo hay que reconstruir el techo de la cocina que queda en estado deplorable.
-Parece-nos uma boa ideia diz a Rose olhando para mim.
Ao que respondo:
-Se tem mais espaço é à partida uma boa ideia. Quanto a reparar a cozinha nós temos boas mãos e tratamos disso…parece-me uma excelente ideia.
-Mas me diz uma coisa Cristian. Esta casa também tem aranhas? Pergunta a Rose com uma careta.
-Ah Rosita…nosotros estámos en su país non!?…responde este chileno com um sorriso evidente.
– E quanto ao custo da renda? Pergunto eu desta vez
-Si, cuanto a esto, Mamita me dijo que mantiene el precio de esta casa, pero nos pide algo más. De participamos en el trabajo en su finca rural. Una vez por semana tendremos que ir con los campesinos a trabajar en los campos de maíz. A mi me parece justo…que piensan ustedes?
-Bem! Quando passamos pra essa casa nova? Pergunta a Rose entusiasmada.
-Hoy o mañana si lo queremos. Responde o Cristian con igual entusiasmo. Tendré que passar por la tarde en Urubamba para comunicar nuestra décision a Mamita y que venga con nosotros a mirar la casa esta.
E assim foi. Da parte da tarde e depois de arrumadas as nossas bagagens que se resumem às nossas mochilas de viagem , sacos cama,  violão, mais alguns instrumentos de som e uns utensílios de cozinha, lá fomos em companhia da nossa Mamita Escobar por caminhos rurais ver o nosso novo palácio.
A surpresa foi agradável…trata-se na mesma de uma casa composta de paredes em pedra, de uma só divisão mas bem mais ampla, com uma porta sólida de madeira de duas abas com um ferrolho por dentro e cadeado por fora, e uma outra porta interior que dá acesso à outra divisão que será a cozinha.
Esta casa, com teto de Retama (nome dado a este material local constituído de folhas entrelaçadas retiradas de uma palmeira típica da região), não tem igualmente janelas.
Da parte de trás temos uma outra divisão que é a cozinha onde teremos que aprender como se fazem este tipo de cobertura pois esta parte da casa está a precisar de alguns arranjos.
De seguida, enquanto a Rose e o Cristian vão dando uma limpeza de base na nossa nova cubata e acomodando as nossas bagagens, eu e Raul vamos com a Mamita por novos caminhos rurais conhecer a propriedade e as pessoas com quem iremos trabalhar nos campos de milho.
A quinta desta nossa anfitriã é inserida numa zona muito fértil onde podemos ver algumas casas em pedra, algumas vacas e ovelhas, múltiplas plantações de legumes, e algumas árvores de fruto também. Esta senhora é realmente uma empreendedora. E tem uma particularidade. Gosta de lidar com os gringos. Bom sinal pensei!

Com a obra da cozinha concluída com a ajuda de dois quéchuas que nos ensinaram a trabalhar a tal Retama, damos por iniciada esta nova etapa no vale sagrado.
O conforto aqui é maior pois temos mais espaço e a possibilidade de fazer fogo dentro de casa numa lareira interior com uma pequena chaminé rústica, o que é excelente para fazer o nosso chá, assar umas maçarocas e manter uma temperatura noturna mais agradável.
Quanto às nossas condições de higiene continuamos a ter apenas o mato para satisfazer as nossas necessidades biológicas mas há algumas melhorias mesmo assim. Bem em frente à entrada da casa, atravessando-se para o outro lado do caminho rústico em terra batida onde apenas passam esporadicamente os trabalhadores rurais e o gado, há uma nascente de água límpida oriunda das montanhas…mas por acaso bem geladinha…brrrrr. Aqui temos que nos manter abaixados para lavar o rosto, os dentes, fazer a higiene íntima, lavar a loiça suja e por vezes, lavar uma ou outra peça de roupa apenas com o sabão de qualidade precária que compramos na aldeia….dureza!
Para tomar um banho mais completo descobrimos que ao fundo desta casa e seguindo por um trilho estreito durante uns 30 minutos, encontramos um braço do rio Urubamba.

Um lugar lindo, com uma vista para as montanhas e onde a água corrente é gelada e abundante. Aqui temos que encher o peito de coragem para nos despirmos integralmente e tomar um banho mais a sério o que só é possível por volta do meio-dia quando o sol se encontra a pino. Este é mesmo assim um banho muito rápido, que só dura enquanto suportamos a temperatura gélida destas águas cristalinas.

Urubamba 9A   Urubamba 5

Três dias passados neste novo ambiente decidimos eu e a Rose ir a Cuzco, no sentido de procurar algo que nos contou o Cristian. Um local onde a troco de poucos soles se toma um banho de água quente num local chamado Los Baños de Salud e tratar de outros temas entre os quais desafiar o Nuno a vir morar connosco agora que temos uma casa maior. Nesta deslocação a Cuzco aproveitamos para passar nos correios centrais no sentido de recolher alguma carta com notícias da famíla, passar e no mercado local para trazer umas iguarias. Pegamos logo de manhã o primeiro ónibus que parte de Urubamba.

Cuzco 12
Uma vez em Cuzco fomos visitar o tal local dos banhos. Baños de Salud é um lugar onde a troco de 2 soles por pessoa podemos dispor de um banho quente. O lugar é equipado de cabines individuais bem rústicas, com cerca de 1m quadrado, com uma espécie de balde com uns 50 litros de água quente, pendurado no teto, tendo acoplado algo parecido com um chuveiro. Abrindo uma torneira, a água existente sai até se esgotar…ou seja, temos que abrir, molhar o corpo e fechar de seguida, passar o sabonete, ou champô lavar a cabeleira, tiritando de frio e por fim, tornar a abrir para tirar tudo. O champô, o sabonete e o sarro da nossa vida campestre. Com 50 litros de água quente não há milagres…mas o que tem que ser tem muita força!!!…
Mas pelo menos esta é uma forma de nos mantermos limpos, sem ter que mergulhar naquele rio gelado lá perto de casa, arriscando a contrair uma hipotermia…brrr
Após este momento de higiene, sentamos-nos num banco da Plaza de Armas deliciando-nos ao sol, que nos seca os fartos cabelos bem emaranhados. O melhor horário para usufruir deste prazer é ao meio do dia. Devido à altura das montanhas ao redor, só há sol na Plaza de Armas entre as 10h da manhã e as 4h da tarde. Quando o sol desaparece há em regra uma queda brusca da temperatura e o melhor mesmo é sair da rua e entrar em algum lugar fechado.
Tempo de passar em Samana ali perto e encontrar o Nuno que ainda estaria por Cuzco e expectante de ter notícias nossas.
-Como é, mano velho? Voltámos a Cuzco.
-Chicão, Rose!…exclama o Nuno…tenho perguntado por vocês a alguns caras que passam em Urubamba…mas nada!…contem aí!
-Estivemos uns dias numa primeira casa que era muito precária. Dureza viu!….diz a Rose
-Agora negociámos com a proprietária uma outra maior…mais confortável…digo eu desta vez com um ar positivo.
-Ah é?…e quem está lá convosco? Indaga o Nuno curioso.
-Estamos os quatro como antes. Mas agora há condições para vires também se quiseres.
-Hummm….boa!…acho que alinho sim! Responde o Nuno animado.
-Ótimo, man!…Vamos fazer assim…eu e a Rose vamos ao mercado e passar nos correios para ver se há cartas lá de casa. Assim preparas as tuas cenas e passamos para te buscar. Vamos pegar o ónibus da tarde para Urubamba….o que dizes?
-Falou, e disse!…contem comigo. Responde o Nuno animado.
-Então vai, cara!…até mais logo. Responde a Rose.
Não havendo desta vez notícias de casa e feitas duas transações no mercado de San Pedro para troca com algumas iguarias, pegamos o Nuno em Samana à hora combinada.
O nosso regresso a Urubamba desta vez a três, é sempre feito ao longo de uma hora na tal estrada poeirenta. Não muito agradável para quem tomou horas antes um banho de água quente…a vida do viajante é assim.
Um nosso percurso faz uma primeira paragem numa localidade de nome Chinchero, uma pequena aldeia situada a 3762m a cerca de 30 km de Cuzco. Aqui há belíssimas vistas para o Vale Sagrado dos Incas, com a Cordilheira Vilcabamba e com os picos Salkantay e Verônica a dominar o horizonte a ocidente…simplesmente extraordinário.
De seguida ainda passamos em Calca que é bem marcado pela vida rural e Pisac que tem um mercado importante. Dois típicos pueblos que antecedem a nossa chegada a Urubamba já ao cair da noite. O nosso regresso a casa é sempre difícil sem meios de iluminação e com temperaturas que já cortam.
-Ué!…vocês vivem bem no mato! Diz o Nuno surpreendido com o local.
-Você vai gostar disto aqui Nuno! Responde a Rose caminhando à frente.
Após chegada e apresentação do Nuno aos nossos companheiros chilenos Cristian e Raúl, é agora tempo de preparar uma refeição com algumas iguarias diferentes que trazemos da cidade. Hoje vamos ter uma sopa de legumes e um prato guisado com um pouco de carne, batatas, frejoles (feijão típico da região) e mais alguns legumes. Para beber temos a chicha que o Cristian recebeu de presente dos quéchuas que trabalham na finca (quinta) mais próxima.

Urubamba 10   Urubamba 12
A noite é portanto de boa nutrição e a conversa está animada pela chegada do Nuno que nos presenteou com uma belíssima maconha. Melhor incentivo não há para mais uma jam session improvisada nesta nossa cubata.
-Mas escuta mano velho!…há aqui um detalhe importante. Nós estamos numa região onde há umas visitas noturnas. Algo que tu não conheces ma tens que conhecer. Digo ao Nuno com o meu ar sério.
-Como é?…a casa tem fantasmas? Pergunta o recém chegado curioso
-Quase Nuno!…quase…diz a Rose com a sua voz quente.
-Deixa-me contar-te. Aqui em casa temos que conviver com outro tipo de autóctones. As nossa amigas tarântulas Theraphosidae negras, peludas e enormes. Urubamba em dialeto quéchua quer dizer Vale plano de aranhas.
-Sujou!…diz o Nuno com os olhos arregalados.
Com o objetivo de informar melhor o meu companheiro prossegui.
-Depois de conviver alguns dias com elas na outra casa e ao fim de alguns dias nesta nova cubata, compreendemos que elas vêm sempre à noite descendo pelas paredes, implacáveis, como a dizer-nos que estão em casa delas.
Percebemos igualmente que não nos visitavam diariamente, mas noite sim, noite não. O que não deixa de ser curioso.
É frequente perguntarmos uns aos outros: ontem elas vieram?
Se sim, isto é um alívio, se não vieram isso é sinal de stress garantido. Quer dizer que hoje virão seguramente.
Neste nosso complexo convívio com estes aracnídeos, chagámos igualmente à conclusão que se as matamos, vem logo outra recolher o cadáver. Então decidimos não conservar estes mortos em combate dentro de casa colocando-os para fora com a ponta de uma vara comprida, que improvisámos para estas ocasiões.

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Para evitar maior stress e manter afastadas estas criaturas, temos por condição ter sempre o fogo aceso dentro de casa, e alguém acordado incumbido de as vigiar e as manter afastadas durante a noite…o que tem quer ser tem muita força…um sistema de vigilância rotativa que toca a cada um cá em casa. Vais ter igualmente esta missão a teu cargo.
-Caramba!…repica este nosso amigo!…mas é como dizes…eu farei como vocês que remédio né!
Depois pensei para os meus botões. Quando somos eu e a Rose a tomar esta missão em mãos encostamo-nos bem um ao outro bem cobertos para suportar o frio da noite e com os olhos nas paredes…all night long…dureza!
Por vezes esta minha doce carioca fecha os olhos de amêndoa durante umas horas encostada a mim. Eu é que não posso vacilar.

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Nas nossas caminhadas rurais durante o dia até Urubamba, temos por vezes alguns encontros agradáveis. Os índios desta região estão muito habituados à presença dos gringos que veem habitar para o vale, sendo comum oferecer-nos algumas iguarias.
Muitas vezes insistem em trazermos grandes quantidades de choclos blancos (maçarocas de milho branco) cozidos, e como em regra não temos nenhuma forma de os carregar, colocamos tudo dentro das nossas T-shirts, cheias até cima.
Que mulheres generosas estas quéchua que nos falavam tantas palavras no dialeto local às quais respondemos com uma linguagem gestual de agradecimento. E aí, satisfeitos com o regalo, vamos a caminho de casa comendo estes choclos sem sal, mas que são muito alimentícios….um manjar!

Parte III – À conquista de Machu Picchu

À conquista de Machu Picchu

Nesta nova morada, para além da produção de colares e pulseiras consegui finalmente improvisar uma linha de produção de batiks algo que não fazia desde Arembepe no Brasil. Nesta tarefa de execução de batiks, a colocação da primeira cera no tecido (normalmente de algodão) é feita de forma meticulosa a pincel sobre a cor mais clara, a partir do branco ou de um primeiro tingimento de cor suave.
Esta é uma tarefa de grande exigência e onde reside o grande segredo do batik. Trabalhar nestas condições exige uma dose extra de boa vontade e espírito de sobrevivência, pois as condições de tingimento são feitas em alguidares bem rústicos em barro, sendo a parte mais complexa a manutenção da temperatura da cera derretida em fogo de lenha.
Mas eu sou paciente e perfeccionista.
A manobra talvez mais complexa é no final retirar a cera do tecido.
Operação feita com uns litros de uma querosene nauseabunda que trago de Urubamba que efetivamente dissolve a cera. Mas que deixa um cheiro nos trabalhos finais que me obriga a fazer algumas lavagens em água aquecida. A água gelada do rio não cumpre este objetivo…ossos do ofício!
A grande vantagem é que esta técnica que pratiquei largamente em Moçambique em anos anteriores, é praticamente desconhecida aqui no Perú. O que lhe confere naturalmente um valor próprio aos meus trabalhos…vida de artesão!….vamos em frente!

25 de Abril de 1974

Aniversário FC

Nesta manhã fresca, o meu acordar é diferente. Vou neste dia completar uma marca histórica na minha existência. Os meus 20 anos.
A noite foi fria nesta nossa choupana rústica! Eu e a minha companheira Rose dormimos mais esta noite enfiados nos nossos sacos-cama ligados um ao outro sobre uma esteira. O calor dos nossos corpos sempre ajuda a resistir às baixas temperaturas do vale.
-Bom dia, meu africano lindo…vinte aninhos?…tá ficando velho, hein?..parabéns meu querido!
Estas foram as primeiras palavras quentes que ouvi desta minha doce companheira.
-Obrigado carioquinha! Respondo com um beijo terno a olhar para aqueles olhos lindos de morrer.
Nesta manhã o Nuno dispôs-se a partir a pé acompanhado do Raul em direção a Urubamba, para trazer algumas faltas cá em casa. Vendendo alguns colares de missangas de Moçambique com arranjos em prata que vamos fabricando com a nossa habilidade e criatividade, sempre dará para trazer em troca alguns pães, legumes, uns queijos, e uns litros de leite de ovelha.
Uma caminhada através de uma bela paisagem, cercada de montanhas altas, picos nevados e o belíssimo e caudaloso rio Urubamba de espumas brancas que é necessário atravessar sobre uma improvisada ponte de madeira.
Este trilho atravessa muitas plantações de milho onde são visíveis plantas que brotam localmente como a salsa, coentro, camomila e outras ervas aromáticas.
Algumas horas se passaram antes do regresso dos nossos camaradas, tempo este que aproveitamos para estender os sacos camas e esteiras ao sol da manhã e reacender a fogueira fora de casa onde aquecemos o chá de ervas, assando umas maçarocas e comendo o resto da sopa de legumes da noite anterior para entreter o estômago.
Conforme está acordado com a nossa proprietária Mamita Escobar e no sentido de completar o pagamento da nossa renda, amanhã teremos mais uma jornada para passar com a comunidade local, acompanhando um grupo de quéchuas até aos campos de milho nas proximidades, onde passamos o dia com eles a recolher e desfolhar o milho. A refeição ao meio dia é copiosa em comparação ao que estamos habituados e constitui uma variante à nossa dieta habitual.
Acompanhada da tradicional Chicha (bebida de milho), entram nestes rangos alguns produtos diferentes como a “Quinua” uma folha larga não leguminosa possuidora de uma poderosa proteína de altíssima qualidade e propriedades que promovem o crescimento do cabelo, (algo que nesta fase das nossas vidas não nos faz falta), a mundialmente conhecida batata que é originária aqui do Perú, sendo as maçarocas assadas uma presença obrigatória na composição destas refeições.
Estas experiências singulares vividas neste ambiente autóctone do altiplano andino são enriquecidas por uma comunicação essencialmente gestual deveras peculiar. Momentos que guardaremos seguramente nas nossas memórias por muitos e longos anos.
O regresso do Nuno e do Raúl a meio da tarde foi positivo com a chegada de novas iguarias para confortar o estômago.
–Como é, Nuno. Correu tudo bem? Perguntei com curiosidade.
-Ya!…ainda vendemos uns colares e duas daquelas pulseiras de pelo de elefante que ainda sobraram e aqui está o resultado. Responde-me o Nuno com ar estoirado, mas satisfeito.
-Que legal, cara! Diz desta vez a Rose, encantada com os presentes muito bem vindos na nossa singela cubata.
O dia deste meu aniversário prometia pelo sabor da diferença.
O pão tradicional dos quéchua, uns queijos de ovelha, os legumes que já dariam para uma bela sopa, 2 litros de leite e um lote de fruta da zona que justificam o brilho dos nossos olhos e uma natural agitação das papilas gustativas do grupo.
Esta noite tive naturalmente direito a uma celebração especial por parte dos meus companheiros, tendo todos cantado para mim no final da nossa modesta refeição. Apreciei naturalmente este momento.
Na falta de um bolo e das tradicionais velas de aniversário, o Chirulo enrolou um canhão de maconha com que nos presenteou enchendo-nos naturalmente de satisfação.
No calor da conversa, digo ao Nuno.
-Estava aqui a falar com a Rose. Quando é que arrancamos para Machu Picchu? Pergunto com o meu natural entusiasmo.
–Por mim vamos em breve. Responde-me o Nuno com um brilho nos olhos.
–Hemos estado alli yo y Christian. Diz o Raúl empolgado…hombre, esto es un local divino
Por sua vez o Christian informa:
–Teneis el tren que se va hasta “Aguas Calientes”. Aí teneis que subir hasta Machu-Picchu…una bela escalada, hombre! Diz-nos este chileno com uma careta que não deixa dúvidas…é deveras conhecida a difícil escalada até à cidade perdida.
-Ai, gente, vamos logo! Diz a Rose com os olhos a brilhar.
Esta bela noite dos meus vinte anos é coroada de uma sessão musical improvisada que satisfez naturalmente este cinco habitantes do vale sagrado.
Uma noite em que pensei naturalmente nos meus pais que estariam do outro lado do mundo a perguntar onde estaria este caçula que está a ficar crescido e que pela primeira vez na vida não festeja o seu aniversário junto dos seus! Linhas do destino!…pensei!
Cheers mom & dad!…estou aqui!…alive and kicking!

3 de Maio de 1974
Este nosso grande objectivo de conhecer a cidade perdida de Machu Picchu tomou forma neste novo dia.
O nosso plano consta de partir no ónibus de Urubamba até às ruínas de Ollantaytambo, um dos sítios arqueológicos mais monumentais do império Inca.

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Uma vez aqui, os nossos olhos abrem-se perante a grandiosidade e fascínio deste lugar.
Em regra chamado de Fortaleza, devido aos seus muros descomunais, este lugar foi na realidade um tambo ou (cidade-alojamento), localizado estrategicamente para controlar noutros tempos o Vale Sagrado.
Algumas das rochas utilizadas na construção são somente encontradas em pedreiras a alguns quilómetros da cidade, o que revela o domínio de técnicas avançadas no transporte destas rochas até aqui. Absolutamente extraordinário!
Esta é aquela hora em que imaginamos o trabalho que deve ter dado trazer todas essas pedras trabalhadas até este local– qual foi a tecnologia da época utilizada para vencer as dificuldades? Uma maravilha de arquitetura envolta num mistério tão enigmático quanto as Pirâmides do Egito.
Segundo um guia local nos conta, as pedras eram trabalhadas antes de serem transportadas e nesse percurso eles construíam sulcos para facilitar o transporte, mediante utilização de cordas. Há efetivamente mistérios deveras insondáveis nas práticas de alguma civilizações desaparecidas nas quais se incluem naturalmente os Incas da América do sul, os Maias do México, os egípcios e tantos outros…o lado admirável da humanidade pensei.

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Já são 10 h da manhã quando terminada esta fantástica visita entramos desta vez num comboio a partir de Ollantaytambo, que nos levará até ao nosso destino. Águas Calientes estação terminal na base do imponente Machu Picchu.

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Este nosso trajeto ferroviário é um verdadeiro prazer para os olhos. Sobre esta extraordinária linha férrea e puxados por uma locomotiva a diesel de primeira geração, somos levados através de um vale verde bordado por uma floresta com uma vegetação luxuriante ao longo do rio Urubamba, sempre à nossa esquerda. Simplesmente magnífico!

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Inca rail 2   Inca rail 3
Uma viagem incomparavelmente mais agradável que o trem de la muerte na Bolívia….pensei!
Chegados ao nosso destino temos à nossa esquerda o imponente maciço de Machu Picchu, onde podemos ver a estrada serpenteada de acesso às ruínas.
Tudo aqui é simplesmente grandioso! O cumprimento de um sonho!

Águas Calientes 5   Águas Calientes 2
A estação terminal de Águas Calientes é muito típica e muito colorida onde os comerciantes locais aproveitam para vender o artesanato peruano com aquelas cores vivas que enchem o olho. Aqui e ali, uns botequins com refeições preparadas na hora e alguns lugares de venda de produtos frescos da região, pão, biscoitos, bebidas, etc. Estamos naturalmente numa zona bem marcada pelo turismo que movimenta umas várias centenas de pessoas oriundas de várias parte do globo que cada dia passam aqui para visitar este teto do mundo. Que pueblo mais caraterístico…lugar admirável!

Águas Calientes 1   Águas Calientes 3
Águas Calientes comporta um nome que fala por si. Existem nesta região caudais de água subterrâneos de origem vulcânica, que me transportam para o mesmo tipo de fenómeno que vivemos na Suazilândia no ano passado…as famosas Hot Springs!
Aqui existem uns tanques naturais cavados na rocha que se encontram por trás de uma muralha natural constituindo provavelmente um braço do rio Urubamba que se juntará ao mesmo mais a baixo.
A tentação foi grande perante a presença de águas quentes numa região como o vale sagrado onde nos habituamos às águas gélidas da montanha.
Segundo nos conta o Raul, ali mais abaixo sobre o rio Urubamba na região de Vilcanota, existe uma unidade de produção de energia chamada de Usina Hidrelétrica Central Machu Picchu. Gera cerca de 90 MW fornecendo de energia as regiões de Cuzco, Puno e Apurimac…brilhante ideia!
A ideia de mergulhar naquelas águas quentes foi unânime. Um prazer sem tamanho!
Se não fosse o nosso objetivo maior de visitar a cidade perdida, a sensação que tenho é que ficaríamos ali de molho até ao pôr do sol.

Hot springs 1   Hot springs 2
Com o prazer e entusiasmo deste contacto deixamos o tempo passar e demo-nos conta que tínhamos que nos aprovisionar aqui em Águas Calientes antes de atacar a nossa escalada.
Pelas informações colhidas junto dos nossos companheiros chilenos que já conhecem esta aventura, sabemos que temos cerca de seis quilómetros de distância para montar quase na vertical, cerca de uma hora e meia de caminhada onde a coragem e a determinação serão incontornavelmente necessárias.
Tempo de recolher alguns alimentos, água engarrafada para beber e partir.
É aqui que o Cristian se sai com uma surpresa monumental.
-Amigos, no les dije nada antes, pero fue deliberado … miren lo que traigo aquí para ayudarnos en nuestra escalada.
A ideia foi sem dúvida circunstancial e muito bem pensada. Afastando-nos para um canto isolado e com a ponta de uma navalha mergulhada num montinho de pó branco, este nosso amigo alimentou-nos as narinas com um porção de coca.
-Belíssima ideia Cristian. Diz o Nuno agradecido.
-De esta forma será más fácil…vamos muchachos!….Macchu Pichu queda un poquito mas arriba!…gargalhada geral!
Passada a ponte sobre o Rio Urubamba os primeiros quase 2 quilómetros cruzando sistematicamente a estrada em ziguezague que vai até lá acima, são feitos com alguma determinação tendo aqui e ali os nossos momentos de descanso. O segredo aqui é ir seguindo o trilho que está marcado com degraus em pedra e por vezes escavados na terra sem falar uns com os outros e com uma respiração ritmada. A coca está a ajudar bem. Até ver estamos todos em forma e além de quase tirarmos os pulmões e o coração pela boca, ninguém se queixa de outro tipo de mazelas….so far so good!
A dado momento, fazemos um ligeiro desvio para a direita tendo oportunidade de visitar o Museu arqueológico de Machu Picchu.

Museu de arqueologia de Machu Picchu 1
Neste museu, localizado logo acima da base desta imponente montanha, é-nos permitido ver algumas peças e ilustrações de arquivo sobre esta verdadeira maravilha de um império desaparecido.
Machu Picchu, nome igualmente desta montanha que abriga a cidade perdida dos Incas, deriva da língua quéchua e significa Velha montanha. Na verdade não há qualquer registo sobre o verdadeiro nome da cidade de pedra que foi construída antes da chegada dos colonizadores espanhóis, provavelmente no século XV, tendo estado desaparecida por vários centenas de anos até ser descoberta em Julho de 1911 pelo explorador norte americano Hiram Bingham.
Num sector deste museu está em lugar de destaque a epopeia deste explorador. Ao olhar para este material arqueológico tento imaginar a cara de espanto deste americano quando descobre esta verdadeira maravilha…absolutamente fascinante.

Museu de arqueologia de Machu Picchu 2  Museu de arqueologia Machu Picchu 3  Museu de arqueologia Machu Picchu 4
A nota interessante é que os invasores espanhóis nunca souberam da existência deste centro tão importante do Império Inca.
Algo que reparei com alguma atenção foi o livro de visitas que tive a honra de subscrever e assinar. Quem sou eu Francisco para marcar a minha presença num livro onde constam assinaturas de figuras como Luis Armstrong, Mick Jagger, Faradiba, Chá da Pérsia, entre outros….não é todos os dias…vamos em frente seu vaidoso!
São 3 h da tarde e temos muito para trepar.
Após um período de algum descanso vamos ao que falta. A Rose segue sempre à minha frente caso haja algum desequilíbrio ou um pé colocado onde não deve, sempre posso ampará-la. Uma subida que é de muita endurance, e feita em absoluto silêncio, apenas quebrado com uma conversa intensa com os pulmões. Cada um leva os seus próprios pensamentos gerindo da melhor forma as dores nos músculos que começam a apertar. No meu espírito paira esta ideia. Cada passo a mais é um passo a menos para chegar ao topo…vamos lá!

Acesso estrada 1  Camino peatonal
Ao fim de mais uns 20 minutos temos que parar novamente junto a uma árvore derrubada à beira da sinuosa estrada. Apesar da ajudinha da branquinha nos neurónios, já estamos todos a acusar um esgotamento evidente. O coração quer teimosamente sair pela boca…não deixamos!
Esta paragem vai ter que ser mais prolongada.
-Quanto nos faltará, gente? Pergunto encostando-me à bendita árvore.
Com um ar igualmente estoirado, o Chirulo diz:
-Unos buenos 3 kilómetros hombre….puta madre!
-Ai, gente!….isso tá duro demais! Diz a Rose sentando-se no chão derreada.
Relax minha querida!…nós vamos chegar….temos é que fazer o que falta com mais calma.
-E com que pernas, africano?

Acesso estrada 2   Acesso estrada 3
Ao longe na curva apertada vimos aproximar-se uma Kombi de matricula americana.
Pensei cá pro meus botões. Se nos levassem até lá acima era como um arco íris.
Dentro desta Vw viaja um casal de jovens (um pouco mais velhos que nós) que ao passar por nós trocam naturalmente um olhar connosco. Um olhar que comporta uma força de atração. Uns metros à frente param e deixam descair um pouco a Kombi.
Da janela sai uma cabeça decorada de uma farta barba e cabeleira que nos diz:
-Hi, do you speak english?
-Yes, respondo sem hesitação.
-I can imagine how you´re suffering with such climb. There is some room back here. Can you guys manage to fit in? We´ll take you up there.
-Thank you so much! diz de imediato a Rose, pondo-se a custo de pé.
Feita a nossa acomodação e uma vez a porta fechada cabe agora ao motor daquela Kombi mostrar o que vale. Mas os alemães da Vw percebem disto. Sete adultos a bordo a caminho do topo do mundo inca….vamos lá!…neste momento a caixa de velocidades só tem duas engrenagens. A primeira e a coitada da segunda que bem tenta, mas não vai lá!
-My name is Nick and here is my wife Laura. We´re travelling down all along south America.
-Well, responde desta vez o Nuno. This is Rose from Rio, this is Cristian and Raul from Santiago, and this is Chico and I from Mozambique in East Africa. My name is Nuno.
Tema de simpática gargalhada dentro da Kombi.
Na conversa animada e enquanto ziguezagueamos a baixa velocidade em direção ao topo, ficamos a saber que já não vale a pena entrar hoje nas ruínas pois teríamos muito pouco tempo de visita.
-So what are your guys gonna do about it? Me and Nick, have booked a room in the local hostal. We will take the whole day tomorrow for the visit.
-We don´t really know what to do about it. Guess we´ll have to find some solution! Responde a Rose à Laura.
Esta simpática americana de cabelo loiro e olhos azuis, depois de trocar uma impressões com o marido diz-nos.
-Here is what we can do. With the cold of the night up there, you can arrange yourselves to sleep in our van. Otherwise you´re gonna freeze….what do you say?
-We say that is an excellent idea!…responde a Rose sem hesitação em nome de todos.

-Laura, Nick you´re two angels. Respondo eu desta vez em nome de todos.
Com esta agradável perspetiva pela frente, assim chegamos a um largo onde se encontra à nossa frente a entrada da cidade perdida com a estrutura turística associada e uma quantidade de turistas estando a grande parte deles a sair das ruínas. Cá fora vêm-se dois dos pequenos ónibus que fazem o circuito entre Águas Calientes e Machu Picchu.

Entrada condor
Do lado esquerdo ao fundo está o tal Hostal de nome Inturperu, para onde nos dirigimos.
Um pensamento me atravessa o espírito. A máquina turística de Machu Picchu está muito bem montada. E outra coisa coisa não seria de esperar no sentido da exploração desta mágica e acima de tudo misteriosa cidade de pedra.
Uma vez estacionados e com a partida dos nossos anjos da guarda para o interior do Hostal, é tempo de arrumar este espaço no interior da Kombi onde iremos conforme pudermos passar uma noite de baixas temperaturas.
Já ao cair da noite, somos abordados por um jovem de semblante mestiço com um porte atlético, vestido com umas jeans, um poncho, um barrete bem tradicionais do Perú e umas botas num bom estilo Texano….curioso pensei….deve estar envolvido no negócio local.
-Buenas!…diz-nos este jovem num espanhol percetível.
-Buenas, que tal!…respondo polidamente.
-Están de visita a las ruinas?
-Si, por supuesto!…responde o Nuno.
-Primera vez que vienen por aquí?
-Nosotros si, pero los amigos chilenos ya conocen Matchu Picchu…responde o Nuno apontando na direcção dos nossos companheiros.
-Pero esto es muy caro, hombre. Nos piden 80 soles cada uno para entrar!…digo eu desta vez.
-Olhando para nós com um olhar arguto este jovem mestiço pergunta de seguida.
-E cuantos san en este grupo?
-Los 5 que estamos aquí! Responde a Rose curiosa com a conversa.
-Y porque lo preguntas?…dispara desta vez o Chirulo?
-Porque yo puedo les conducir a l´interior de las ruinas por la mitad d´el precio.
-Gracias amigo pero 40 soles cada uno es todavía mucha plata para nosotros.
Determinado em fazer um acordo connosco este índio responde:
-Bueno, cuantos soles me pagan ustedes para que yo los conduzca hasta el interior?
Olhando uns para os outros a resposta foi concordante. Não tínhamos mais que 50 soles cada um. O suficiente para estar por aqui esta noite e amanhã, e comer algo em Águas Calientes antes regressar de comboio a Urubamba. Significa que no máximo daremos 15 soles cada um para entrar. Na conclusão desta curta troca de ideias, o Chirulo com um espírito de negociante aguçado dispara.
-Tenemos 60 soles hombre!
-O nosso interlocutor fazendo uma careta responde:
-Amigos, esto es poco….muy poco!…por 80 soles vamos!
-Bueno…tenemos 70 soles soles para usted…que tal?…respondo eu desta vez!
Olhando para nós novamente via-se no olhar deste homem uma certa simpatia pelo nosso grupo. Passados momentos responde:
-Bueno…tenemos negocio. Mañana temprano pasare por aquí y nos marchamos. Mi nombre es Unay.
-Bien, yo soy Chirulo. Soy de Chile…país vecino….mucho placer.
Entretanto o Cristian faz uma pergunta que penso que todos queríamos fazer a este homem neste momento.
-E por donde entraremos en las ruinas?
Numa conversa descontraída mas afastada de alguns ouvidos curiosos, este nosso interlocutor explica em espanhol numa voz mais baixa:
-Como vocês sabem, Machu Picchu nunca foi vista pelos espanhóis até à data em que foi descoberta pelo tal americano bastante mais tarde.
Para isto contribuiu a atitude dos chefes da cidade perdida que ordenaram aos habitantes o seguinte:
A fim de proteger este lugar sagrado, todos os habitantes de Machu Picchu abandonaram a cidade, destruindo os caminhos que levavam até ela cobrindo com mato, galhos e plantas qualquer indício da presença destes acessos que pudessem chamar a atenção dos espanhóis.
Um destes trilhos, está bastante intacto e faz-se ao longo de uma caminhada de uns 40 mn através de um caminho de desfiladeiro com uma largura que não chega a 1 metro. Este troço tem mais ou menos a meio uma ponte rudimentar feita de troncos de árvore. Esta é uma das poucas vias de entrada e saída na cidade que restam dos tempos antigos.
Se vocês têm coragem e fizerem como eu digo, eu posso levar-vos a entrar em Machu Picchu durante as primeiras horas da manhã.
-Olhei para a Rose que com um ar preocupado me diz.
-Africano. Que loucura é esta?…tenho medo, cara!
Numa curta troca de impressões entre nós e perante as evidências, concluímos da seguinte forma.
Trepámos esta montanha para ver uma das pérolas arqueológicas mais maravilhosas que existem no planeta terra. Só há um caminho…em frente!
A resposta foi tímida mas positiva..Vamos a isto gente?
-Bora lá!…diz o Nuno sem hesitação
-Unay!…depositamos confianza en tu persona…vamos con usted!…mi nombre es Chico…digo eu trocando um bate mão com o nosso guia.
Este com um certo sorriso responde:
-Muy bien…un hombre de su tamaño que se llama Chico debe ser buena personna…risada geral!
-Aquí estaré cerca de las siete de la mañana. Esto es para ustedes si tuvieran dificuldades en respirar!…diz este simpático peruano passando-me para a mão um saco com folhas de coca.

A noite está gelada e a neblina tomou totalmente conta do ambiente…estamos a 2 400 m acima do nível do mar. Depois de comer umas iguarias trazidas de Águas Calientes e de fumar uma bela maconha que o Raul trouxe de Urubamba, lá nos instalámos conforme pudemos no interior desta kombi.
Os agasalhos que trouxemos e o calor dos nossos corpos serão a nossa salvação.
-Olhando nos olhos da Rose, digo:
-É na audácia e na determinação que escrevemos as melhores histórias das nossas vidas, guapa.
-Africano, eu não sofro de vertigem mas o cara disse 40 minutos sobre um caminho que não tem nem 1 metro de largura….putz!
-Take it easy, baby!…vamos de mãos dadas e bem agarrados uns aos outros. Ele já o fez vezes sem conta. Vai dar tudo certo. Eu vou-te proteger. Dá-me um beijo!
-Hummm….meu querido!…me esquenta, vai!

A nossa manhã começou debaixo daquela neblina que segundo os nossos chilenos é muito típica aqui no topo da montanha. Tal neblina se dissipará com a chegada do sol quando este estiver mais a pino. Tempo de esticar as pernas e comer as iguarias que restavam da noite anterior.
Á entrada deste Hostal de montanha, colhi entretanto um folheto informativo sobre a cidade perdida.
É deveras curioso pensar que este local não era conhecido dos espanhóis durante o período colonial, razão pela qual este paraíso está relativamente intacto sob ponto de vista cultural e arquitetónico. À luz do que fizeram em Cuzco, imagino o que estes colonizadores bárbaros teriam feito deste local se o descobrissem durante aquele período de ocupação selvagem desde 1530.
Mas este lugar mágico é vulnerável a múltiplas ameaças, tais como fenómenos naturais, terremotos e intempéries meteorológicas que podem por em causa o acesso e as próprias ruínas. O Perú é um país com um elevado grau sísmico e isso é uma permanente preocupação para as autoridades.
Outra ameaça, é a elevada pressão provocada pelo excesso de turismo. Tendo em vista a preservação deste património cultural e arqueológico sem subestimar a manutenção de uma importante receita para o estado peruano, esta jóia é objeto de uma constante preocupação.

Vintage Machu Picchu

Parte IV – Os salteadores da cidade perdida

Os salteadores da cidade perdida

À hora prevista aparece o nosso guia Unay, desta vez equipado com umas botas e uns trajes adaptados à montanha. Pareceu-me um tipo que sabe o que faz. Isso transmitiu-nos confiança.
-Buenos dias! Diz-nos este guia com um ar animado.
-Hola Unay!…que tal?…responde o Chirulo.
-Pues allí nos vamos!…diz o Unay com ar determinado.
Depois de nos agasalharmos e transportando o mínimo de peso connosco, seguimos o nosso guia em direção de nordeste circundando a muralha que delimita as ruínas.
A nossa descida encostados ao contraforte em zona de mato cerrado vai começar, mas antes disso o nosso homem para e numa voz firme diz-nos:
-Lo que ustedes van a hacer hoy es algo que probablemente nunca lo han hecho en sus vidas. Algo que requiere concentración y controle de sus emociones.
Yo voy a marchar adelante de vosotros. El camino que vamos a hacer es naturalmente peligroso pero no vamos a tener problemas siguiendo algunas reglas que deben cumplir mirando como yo hago.
Eviten hablar los unos con los otros, mirando el camino se concentrando dónde dar el paso siguiente y nunca mirar a su derecha. Miren siempre adelante. Vamos a tener más abajo un cruce que es el más peligroso … un pasaje estrecho sobre un puente hecho de troncos de árboles … cuando lleguemos allí les diré cómo hacerlo … alguna pregunta?
-El camino es de piedra suelta o se trata de un camino de roca sólida? Pergunto.
Com ar conhecedor o Unay responde:
-Una gran parte del camino está tallado en la roca solida. Solo hay que cuidar-se y seguir cuidadosamente cada paso. Tenemos mas adelante una parte donde queda el pasaje estrecho y delicado, que fue construido piedra sobre piedra hace algunas centenas de años desde la base de la montaña… allí tienen que estar bien concentrados.

Passage 1   Passage 2
Nisto sinto a mão da Rose apertar a minha. Olhando para ela bem nos olhos, murmuro.
-Minha querida!…vamos em frente….estou aqui ao teu lado.
E assim nos metemos mato dentro seguindo o nosso homem. Pouco adiante e afastando o mato com as próprias mãos surge o tal trilho que nos levará ao interior de Machu Picchu.
Trata-se efetivamente uma passagem de uns 70 cm de largura ora em terra. ora em rocha pura com degraus talhados para facilitar as descidas e subidas. Este primeiro troço é a descer. Do nosso lado esquerdo o gigantesco contraforte e do nosso lado direito um precipício sem fundo…simplesmente aterrador!
A adrenalina sobe e o coração bate agora mais depressa. Mesmo que não queiramos, os olhos resvalam tendencialmente para a direita…não, Francisco…tens que olhar em frente onde segue a Rose em silêncio entre mim e o Chirulo…firme!..so far so good!
Assim se passa mais ou menos bem o primeiro quarto de hora da nossa entrada furtiva em Machu Picchu…a neblina mantêm-se e a visibilidade é limitada. O frio corta!

Neste momento o Unay para e colocando-se de costas para a montanha pede-nos que façamos o mesmo. De seguida informa:
-Ya hemos descendido hasta el punto más bajo de nuestro camino …ahora vamos a entrar en la parte delicada donde el ancho de nuestro camino es más estrecho…hasta llegarmos cerca de esta transición hay que seguir bien enfocados en sus pasos … cuando lleguemos a el paso de troncos de árboles yo pasaré primero y estaré en el otro lado para conducir cada uno de ustedes…alguna pregunta?
-Ya hemos hecho la mitad del camino, Unay? …pergunta o Nuno
-No…todavía no…no se preocupen…después de esta transición, el camino es mas seguro pero mas exigente porque empezamos nuestra subida de unos 20 minutos hasta entrar por una gruta en las ruinas….vamos entonces, muchachos!

Passage 3   Passage 4
E é com os olhos arregalados e com o coração aos saltos que temos um pouco mais adiante a noção da tal passagem que nos espera.
Tem tanto de arrepiante como de extraordinário…este admirável povo quéchua construiu séculos antes esta passagem constituída de pedra sobre pedra, desde o sopé da montanha até atingir esta cota permitindo esta passagem que, cheios de coragem, vamos agora atravessar. Sinto a pressão da mão da minha namorada ao que correspondo em silêncio.
No meu pensamento desenvolvo esta ideia. A coragem e a determinação move os bravos e assim se escreve mais uma história para enriquecer esta fabulosa passagem para entrar num dos maiores paraísos da terra….vamos em frente!
O caminho até a esta passagem de uns 50 cm de largura feita sobre 3 troncos de árvore está feito. Agora é chegada a altura em que todo o cobarde faz força e todo o valente se caga.
Em primeiro lugar, e senhor de uma total segurança, passa o nosso guia que está do outro lado a fazer um papel sobretudo psicológico…como que um anjo da guarda que está ali a guiar os nossos passos.
Passa o Chirulo em primeiro lugar…tudo normal…os troncos não abanam nem dão sinais de fraqueza face ao peso dos nossos corpos…muito bom sinal!
É a vez da Rose mostrar a sua coragem. Apertando a mão desta minha preciosa namorada digo em voz baixa e firme.
-Vai, carioquinha!…tu és brava e os deuses estão connosco.
Vencida esta passagem pela minha companheira, é a minha vez…passar sobre um cabo sem rede no circo é pior…vamos lá!
Uma vez do outro lado e olhando com a natural adrenalina a passagem do Nuno e finalmente do Cristian, é altura de ouvir o Unay dizer com ar de satisfação.
-Bravo, muchachos! Dentro de unos minutos hacemos una parada de reposo antes de empezar la subida.
Esta paragem é sem dúvida bem vinda! Temos os 5 sentidos aos saltos e a adrenalina que se mistura com um conjunto de emoções difíceis de descrever.
Olhando uns para os outros, começamos a reconhecer que esta opção não alinhada tem valor próprio e vai seguramente ocupar um lugar de honra na nossa memória.

Passage 5   Passage 6
Tempo agora de respirar fundo e seguir o nosso anjo da guarda nesta nova etapa sempre a subir.
A uns dez minutos do final desta nossa aventura, a Rose sugere uma nova paragem. Algo que o Unay acede dizendo que há mais adiante um lugar mais seguro para o fazermos.
Uma vez em repouso e com um ar descontraído este nosso guia pergunta:
-Entonces? … Muy cansados? … Interesante este pasaje, non?
Em tom de uníssono todos concordamos…magnifica experiência, hombre!
Em tom de algum regozijo digo aos meus companheiros:
-Dos fracos não reza a história!…só os destemidos a escrevem…sorriso geral!
-Bueno, muchachos!…bien seguros…los ojos en cada paso…nunca miren sobre la derecha pues la altitud va a aumentar a partir de esto punto…alguna pregunta?
-Vamos, comandante…diz desta vez o Nuno com maior segurança e descontração.
E o restante caminho foi feito com tantas ou mais dificuldades que ontem, na subida a partir do Museu de Arqueologia. Chegamos finalmente a um maciço rochoso com uma entrada escavada na pedra.
O nosso guia com algum orgulho diz:
-Que tal, gringos?….bien venidos a Macchu Pichu. A partir de esta gruta ustedes entraran en las ruinas. Antes de salir cada uno de ustedes deberá certificar-se que no hay personas allí cerca vos mirando.
-E tu no vienes con nosotros? Pergunta o Cristian.
-No, yo voy a volver hasta la entrada por el mismo camino. Ustedes una vez terminada vuestra visita pueden quitar las ruinas como todos los visitantes. Saliendo normalmente.
Pagando os 70 soles acordados e mais 10 que entendemos que este nosso guia merece largamente, aqui nos despedimos calorosamente deste bravo peruano que guardaremos na nossa memória.
-Muchísimas gracias, Unay! Mucha suerte para usted!…digo com ar de reconhecimento.
-Mucha suerte también para todos…que les vaya bien!
A gruta é deveras estreita. Escavada à medida deste povo de baixa estatura. Quem te manda ter 1, 85 m e meteres-te nesta aventura de anões quéchua?..pensei!
E atravessando esta estreita gruta onde mal cabemos, damos finalmente por concluída a nossa entrada furtiva neste paraíso no topo do mundo.

Machu Picchu banner

Os portões tinham aberto há pouco e já se vê a circulação de alguns turistas por aqui. A neblina, à medida que o sol sobe, vai felizmente dissipando e subindo igualmente a temperatura.
Estamos totalmente em suspense com esta visita tão sonhada. Uma cidade no topo do mundo construída com o estilo clássico do Incas, com muros feitos de enormes pedras polidas, geometricamente talhadas e encaixadas umas nas outras bem ao jeito desta civilização do altiplano.

Machu Picchu 11  Machu Picchu 1  Machu Picchu 2
Consultando o meu folheto compreendi que são três as estruturas primárias de Machu Picchu localizadas numa zona denominada de Inti Watana, Templo del sol, e uma outra que é o quarto das Três Janelas. Todas elas se encontram no que é conhecido pelos arqueólogos como o distrito sagrado da cidade perdida. Simplesmente deslumbrante!…as palavras são curtas para descrever este lugar mágico.
Assim nos dirigimos ao ponto mais alto das ruínas para daqui ter o privilégio de uma magnífica vista panorâmica sobre toda a cidade perdida e zona agrícola adjacente…vista de tirar o fôlego, que já não é muito devido à altitude em que nos encontramos.
Aqui temos a oportunidade de ver uma das maiores atrações de Machu Picchu – o famoso Relógio de sol — feito de pedras e situado no ponto mais elevado da cidade — e a Tumba Real, onde foram encontradas algumas múmias logo nos primeiros dias de expedição conduzida pelo professor/explorador americano Hiram Bingham, ao serviço da Universidade de Yale (USA) em Julho de 1911, . Inesquecível momento!…imagino a sensação!

Hiram Bingham  Machu Picchu 4   Machu Picchu 5
Em seguida, passando por uma grande porta, chegamos à zona urbana onde podemos ver ao detalhe o encaixe das pedras e sentir a acústica perfeita dos nichos nas paredes.
Sentados confortavelmente para um momento de repouso, digo à minha namorada:
-E aí, guapa?…valeu a pena a aventura certo? Pergunto animado.
-Africano!…isso é sonho cara!….que maravilha!…estou super feliz…me dá um beijo gato,…obrigada pela força que você me dá!
Seguindo a nossa visita, fazemos uma paragem na Praça dos Templos e posteriormente no Templo Principal, formado por pedras grandiosas. Esse último templo sofreu com alguns abalos sísmicos ao longo dos anos e é um dos pontos mais importantes de Machu Picchu. Prosseguindo o nosso passeio, vemos agora o Templo do Sol e a Rocha Sagrada, que apresenta o horizonte das montanhas.
Após passar pela Rocha Sagrada, surge uma imagem panorâmica de uma montanha íngreme ao fundo. Emblemática e incontornável imagem da cidade perdida, denominada de Huayna Picchu, cujo pico está 2720 metros acima no nível do mar.

Machu Picchu 6  Caminho de Wayna Picchu  Machu Picchu 9
Ao ouvir o guia de um dos grupos ali próximo, fiquei a saber que quem tenha a coragem e boa forma física, pode subir até ao alto desta montanha. Entre subida e descida são gastas aproximadamente três horas num caminho que eu imagino muito semelhante ao que fizemos esta manhã para entrar nas ruínas. Segundo este guia, a visão que se tem de lá do topo é ainda mais incrível, e quem vai fica totalmente fascinado. Mesmo sendo muito cansativo, consta que o esforço vale a pena, porque se pode ver a Cidade Perdida de um ângulo que poucas pessoas conhecem.
O Chirulo cheio de coragem vira-se para o grupo e diz:
-Mis amigos…creo que me voy hasta arriba …. alguien siguiéndome?
Olhando para a Rose, digo:
-Estou com vontade. A vista lá de cima deve ser um deslumbre.
-Africano!…dont count on me, dear!…subir essa loucura toda…não é para mim.
-Chirulo, te acompanho….vamos!…digo cheio de entusiasmo ao meu companheiro chileno.
Deixando os restantes do grupo a deambular pelas ruínas, marcamos como ponto de encontro o Templo do sol em caso de nos perdermos uns dos outros.
E cheios de coragem, eu e o Chirulo iniciamos esta subida para Huayna Picchu. Aqui a regra é mais uma vez não falar, colocar os pés em lugar seguro e ver o caminho que já fizemos…não avaliar, sobretudo o que falta fazer.
Numa das paragens mais ou menos a meio percurso digo ao Chirulo:
-Caro mio!…siento que no tengo la capacidad física para chegar hasta arriba. Creo que me voy a volver.
-Bueno, Chico…se sientes que no estás en forma escucha tu cuerpo hombre…yo voy a intentar la escalada hasta el topo.
-Vai, hombre. Una vez mas te digo…Son los destemidos que escriben la história!…fuerza Raúl!
E batendo punhos com este bravo chileno e olhando ao meu redor o magnífico cenário que tenho a partir daqui, penso como será a partir do topo!…não se podem vencer todas as etapas!…concluo!
Inicio assim a minha descida de regresso a Machu Picchu. O coração quer sair pela boca, mas eu não deixo!…as pernas tremem!
Soube, ao chegar junto ao nosso grupo, que viram há uns minutos atrás o Raúl Chirulo acenar deste o topo de Huayna Picchu…bravíssimo Chirulo! pensei.

Machu Picchu 10  Matchu Picchu 7  Matchu Picchu 8
Agora é tempo de algum repouso e de comer algo para repor as energias.
Temos ao nosso lado um Argentino com uma pedra na mão que explica algo interessante.
O granito branco é a pedra que constitui a formação construtiva de Machu Picchu e, segundo leu num livro, esta pedra tinha para os incas uma função muito especial: o povo andino acreditava, e hoje isso é comprovado pelos historiadores, que as pedras possuíam energias especiais.
O facto de Machu Picchu ser toda construída com essa pedra tinha como objetivo concentrar essa energia para seus habitantes…curioso detalhe.
Durante este período de repouso, somos eu e o meu companheiro de estradas poeirentas Nuno Quadros, especialmente tocados por um episódio deveras peculiar…devastador, diria!
Em plena cidade perdida de Machu-Picchu no topo do Império Inca, o Nuno pede casualmente emprestado a um turista americano que ali estava de visita, o New York Times para ver as últimas do mundo.
Com o jornal na mão dirige-se a mim com os olhos bem abertos e diz-me em voz alta.
-Oh pá, nem vais acreditar no que eu trago aqui!
– Que é que foi, hombre? Viste algum bicho? Pergunto com o meu ar de total surpresa.
Passando-me o New York Times para a mão entendi de imediato o motivo do alvoroço.
Na primeira página, por baixo de uma fotografia em destaque do dia 25 de Abril no Quartel do Carmo em Lisboa com as chaimites do exercito e concentração popular, pode ler-se em letras garrafais:

“The carnations revolution” – Since last 25th April General Antonio de Spínola and “Junta de Salvação Nacional”, lead the armed forces revolution restoring democracy in Portugal.

25_de_abril_2_0   25abril1

Estamos a 4 de Maio de 1974. Esta notícia bombástica, com um impacto histórico no mundo português espalhado pelos 5 continentes, oferece-me neste momento um novo significado do meu dia de aniversário.
-Mano velho!…o que é esta merda?…pergunto estupefacto.
-Sei lá, meu irmão!….mas acho que o império deu um trambulhão!
-Caramba, Nuno!…e que significa isto?…e o que é que esta revolução vai trazer para o mundo português, colónias, etc…estás a imaginar?
Perguntas muito naturalmente sem resposta…estamos de quatro com esta notícia e teremos a partir daqui que procurar melhor compreender o efeito destas mudanças no velho império.
Este dia de puro fascínio e enorme privilégio passado neste lugar raro, será agora objeto de um novo desafio. Encontrar a energia e pernas para fazer a descida dos tais 6 km até Águas Calientes.
Ao sairmos pela porta principal como os restantes turistas, olhamos uns para os outros.
-Meus caros!…tivemos um dia de glória que dificilmente esqueceremos. Agora falta o resto que é descer deste gigante. Dizem que para baixo os santos ajudam. Que a resistência esteja connosco, digo.
-Pues que sea hombres…para descer tenemos de cuidarnos con las quedas…firmes compañeros…responde o Cristian, retirando do bolso um restinho da tal branquinha.
-Ah…que precioso, Cristian!…todavia nos regalas com este presente?…dispara o Nuno radiante.
-Si, lo guardé para nuestra decida hasta Águas Calientes.
E como dos fracos não reza a história, nem tão pouco dos que têm plata para descer no transporte coletivo, assim iniciamos esta nova aventura cortando mais uma vez a estrada aos ziguezagues em terra batida, pelo nosso trilho pedonal…com as narinas dormentes.
Há lugares que um passo em falso pode significar uma queda ou mesmo um fratura. Chega esse pensamento pra lá, Francisco!…olho no trilho!
Desta vez a Rose caminha atrás de mim…se houver um desequilibro eu aqui estou para ampará-la…brava miúda esta minha carioca! Pensei orgulhoso!
Os nossos pontos de descanso são precisamente os cruzamentos com a estrada que são nivelados e nos dão o tão merecido break nesta descida tão íngreme….so far so good!
Passada uma boa hora e meia desta dolorosa experiência assim regressamos a Águas Calientes ao fim da tarde. Tarde demais para ir ao banho…vontade não nos falta depois desta descida poeirenta e super cansativa. Não se pode ter tudo!

IR de regresso 1   Ir de regresso 2
O nosso regresso no comboio até Urubamba foi feito de alma cheia…cansados, tesos e com alguma fome..mas super felizes por viver esta experiência tão fascinante no topo do império Inca.
Machu Picchu é uma experiência transcendente…estamos seguramente mais ricos e com mais uma excelente história para contar um dia aos nossos filhos e netos…a vida continua!

Com o circulo de novos amigos que fomos colhendo ao longo dos meses aqui no vale sagrado, o ambiente em nossa casa foi sendo o reflexo de um rico e agradável convívio multinacional.
A música é uma constante em nossa casa. Eu com o violão e a gaita de beiços, o Christian com uma kena, (flauta em bambu típica dos Andes), e o Nuno e Chirulo que sempre soltam uma percussão. O som rola geralmente no início da noite…em que nos fechamos dentro de casa, imaginando como vamos suportar mais uma noite de frio.
Por vezes irritado, eu interrompo a música, dizendo:
-Não é possível porra! Tenho os meus dedos gelados!
Muitas vezes só nos resta uma única alternativa. Enfiarmo-nos eu e a Rose dentro do sleeping-bag, bem juntinhos, sobre a esteira e colocando os ponchos por cima para enfrentar mais uma noite fria. Isto, caso não seja a nossa vez de vigiar as nossas amigas peludas… dureza de vida!
O nosso convívio é feito igualmente com outros gringos que também alugaram casas na região de Urubamba. O caso da Consuelo, que foi o anjo da guarda que nos libertou da nossa prisão em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia por ofensa aos costumes bolivianos e que vive acompanhada da Cindy e os niños Baba e Tammy numa casa enorme mais acima na montanha.
Também circulam o Deny, Cathy, Pepe, Margarita, Maria, Vicky, Emile, Miguel, Andrés…enfim, um grande e animado grupo que se espalhava pelos arredores aqui pelo vale sagrado em casas alugadas como nós.
Frequentemente cruzamo-nos com eles no mercado, outras vezes passam caminhando aqui à nossa porta, entram, trocamos uma prosa, fumamos alguns cachimbos da paz e improvisamos um som quando estamos no mood.
Neste dia chegaram Paul e Catalina, casal de suíços que conhecemos em Cuzco e que os convidamos a passar uns dias cá em casa.
Neste ambiente que muito apreciamos, fala-se num evento que será seguramente motivo para uma celebração de gringos aqui no vale sagrado. A festa da lua cheia que se aproxima.
Depois de falarmos do tema entre nós antes de ir para Machu Picchu, decidimos dar esta festa cá em casa. Na última viagem a Cuzco deixámos esta novidade lá em Samana e fomos espalhando o convite.
Se isto der em Woodstock…logo se vê!…pensei como um inevitável entusiasmo.
Como não temos grana para oferecer festas desta natureza, espalhámos a ideia de quem vier traga algo para juntar à festa.

Lua cheia

E assim foi neste novo dia 6 de Maio de 1974. Noite de lua cheia. Festa na floresta!
Desde a manhã do dia anterior recolhemos uns paus que juntamos para acender uma fogueira à noite quando a lua aparecesse no céu. Os gringos de várias nacionalidades foram chegando, em grupos de 2 ou 3, outros sozinhos, ao final da tarde.
Uns trazem algo para comer, outros trazem vinho, outros vem artilhados com boa maconha para fazer rodar uns baseados de mão em mão, ao redor do fogo. E houve mesmo quem se lembrou de trazer uns lisérgicos para viajar até à lua cheia e, como não podia deixar de ser, a branquinha dos Andes já circula por aí. Vários instrumentos de música vieram pela mão dos amantes do Rock & Roll do Reggae e de outras variantes da música brasileira…som não nos falta esta noite!…Yes!
Em animado convívio fomos nos posicionando lá fora, nos fundos da casa, colocando as esteiras para sentar enquanto o som e a cantoria começava a tomar andamento.

Chegada da lua
Que ambiente de festa quando acendemos a fogueira ao aparecimento da lua cheia no horizonte. Fez-me lembrar o grande luau de Arembepe à escala do Vale sagrado.
Todo o mundo está animadíssimo com o evento! A rainha da festa é esta fogueira, que nos aquece o espírito e a alegria nesta noite fria.
Com esta energia positiva, com um céu bem estrelado e uma lua que já reinava soberana no céu, temos os ingredientes necessários para um espetáculo garantido!
De repente, no calor da festa e fruto de uma fértil perceção, alguém avista ao longe uma luz azul brilhante que não pisca…uma luz que se movimenta na horizontal, na direção dos altos picos nevados ao longe.
Todos olharam com atenção. E todos confirmaram que não é um avião! Naquele momento mágico, tivemos todos a certeza de que se trata de um Ovni.

Festa da lua cheia 1   Lagerfeuerblues
Mais um fantástico ingrediente para enriquecer de forma deslumbrante esta nossa experiência de grupo e esta fabulosa festa! Fantástica coesão sensorial!
As diversas gastronomias que uns e outros trouxeram acompanhadas de algum vinho e umas boas chichas completaram esta reunião internacional de elevada qualidade.

Festa da lua cheia 3Festa da lua cheia 2
É já bem tarde nesta noite memorável, quando a lenha foi escasseando e o fogo finalmente se foi extinguindo. O frio intenso começou a incomodar, convidando os que ainda estavam presentes a recolher-se no interior da nossa casa. Quem morava por perto foi embora satisfeito e quem veio de longe dividiu aquele espaço connosco, transformando a nossa cubata num verdadeiro albergue de gringos, partilhando aquele espaço bem juntinhos e abrigados como pudemos nos sleeping-bag.
As tarântulas nesta noite ficaram a ver tudo de longe…talvez pensando…está tudo louco!…hoje nem vamos chegar perto!…paz no vale sagrado!

PARTE V – Completando um ciclo

Completando um ciclo

Nas nossas idas regulares a Cuzco temos em regra três objetivos. Passar nos Baños de Salud para tirar o sarro da vida rural, passar no mercado San Pedro para venda de mais algumas peças de artesanato, trazer uns aprovisionamentos, bem como passar na posta restante para recolher eventuais cartas da família.

Cuzco banner 1

Mercado S. Pedro 2   Mercado S. Pedro 1
Hoje trouxe comigo um saco de couro de grande qualidade usado pelos carteiros noutros tempos em Portugal. Um saco que adquiri na Feira da Ladra de Lisboa em 1971.
Enquanto a Rose ficou a trocar prosa com algumas amigas em Samana, vim para a rua tentar a minha sorte.
Este saco desperta naturalmente o interesse de algumas pessoas na rua que o vêm, perguntando o preço,etc.
Houve mais ali adiante um homem de meia idade que abordei no sentido de lhe vender esta peça de qualidade. Olhando com alguma atenção de um lado e do outro perguntou-me o preço.
Fazendo semblante de tirar do bolso a carteira para me pagar, sacou de um distintivo dizendo-me de forma ríspida e determinada.
-Policia, vamos gringo!
E eis-me novamente na já familiar esquadra da Calle Saphi a contas com a polícia de Cuzco pela venda ilícita de um saco de couro….fantástico!
A discussão foi acesa tendo eu puxado dos meus motivos para vender aquele saco, afirmando que esperava um dinheiro que já tinha sido transferido para mim, mas que ainda não tinha chegado…etc!
Este agente à paisana quis saber onde eu morava, o que fazia no Perú e quando tencionava voltar para o meu país…que podia ser deportado, etc. Continuando com este paleio diz:
-En Perú tenemos hábito de bien recibir los extranjeros, pero hay reglas … bla … bla … bla!
Ao fim de uma boa hora de discussões em torno de uma suposta moral e regras a cumprir, lá fui solto depois de feito um auto policial contra mim. O meu saco foi confiscado.
Vai com certeza servir para um destes gangsters passear com ele por aí!
Cambada de cabrões!…foi o sentimento que me invadiu naquele momento que retomei a minha vida, indo ter com a Rose a Samana.
Uma vez aqui chegado, contei aos presentes o que acaba de me acontecer.
-Puxa, africano! …que merda…te perturbaram, querido? Pergunta-me a Rose preocupada.
-Alguém presente me diz:
-Los policiales de Cuzco están cada vez más difíciles … por un lado, el turismo es la primera riqueza de esta ciudad, y por otro quieren limitar las acciones de los gringos que se acostumbran a vivir en el Perú con casi nada. En su visión estos no son turistas….no serán tratados como tal.
Enfim…a luta pela sobrevivência continua!

Rio Urubamba banner

Conhecemos há dias um peruano em Urubamba que se dedica a uma atividade interessante. A de rádio amador. Numa animada conversa com este simpático macanudo (termo que utilizamos em Moçambique para os amantes desta atividade), de média altura, pele escura muito típica dos mestiços desta terra andina e portador de umas feições angulares, lá lhe transmiti a minha história, o meu percurso aventureiro e a recente revolução que assolou Portugal com evidentes repercussões sobre os territórios do império além-mar.
No fogo desta troca de ideias e fascinado com a originalidade do tema, propôs-me viver uma experiência invulgar. Passar em casa dele pela noite para tentar captar sinais de outros rádios amadores nomeadamente no Brasil, através dos quais poderíamos obter notícias frescas do mundo português. Estas notícias visam sobretudo entender como evolui a situação política em Portugal e mais precisamente o reflexo da Revolução dos Cravos na nossa terra mãe Moçambique.
Quando cheguei a casa contei esta novidade ao Nuno que entusiasticamente me diz:
-A sério?…isso é muito interessante, mano!…quando é que o homem quer fazer isso?
-Esta noite já!…tem que ser de noite, pois é o período em que os sinais são mais intensos facilitando as escutas.
-Vamos nessa sim!
E assim foi. Dirigimo-nos eu, a Rose e o Nuno a casa deste simpático peruano de nome Diego que vive perto da praça central de Urubamba. No último piso de uma casa com dois níveis, tem um pequeno quarto onde instalou um considerável equipamento de rádio conectado a uma antena na cobertura com vários metros de altura fixa a um mastro metálico.

Radio amador 1   Radio amador 2
Á chegada, e depois das devidas apresentações à sua simpática esposa de nome Nayara, uma mulher de olhar intenso com uma longa trança negra, somos regalados com uma chicha para beber, acompanhada de uns saborosos biscoitos caseiros.
-Muchas gracias! responde simpaticamente a Rose.
Esta primeira experiência foi deveras curiosa. Ficámos a compreender melhor a paixão que move este amantes da comunicação hertziana e ao fim de uma hora de captação de outro colegas, conseguimos finalmente a ligação com um macanudo brasileiro da região de Curitiba.
Ficámos igualmente a saber que este nosso contacto não sabia sequer que teria havido uma revolução em Portugal. A nossa experiência desta noite não teve o desfecho esperado mas o Diego afirmou que nestes contactos mais longos a paciência é a alma do negócio, e que que viéssemos novamente na noite seguinte.
Tal aconteceu!…na noite seguinte voltei acompanhado do Nuno a casa deste nosso anfitrião das ondas hertzianas.
Nesta segunda tentativa e ao fim de uma boa hora lá contactámos um novo macanudo do Brasil. Desta vez da região de S. Paulo que nos diz com uma voz mais ou menos percetível que estava a par dessa notícia mas que não poderia dar pormenores. Adiantou no entanto que comunicava regularmente com um macanudo de Angola e que tentaria conectar-nos com ele. Esta tentativa que criou em nós alguma expectativa foi de fraco resultado dado que a voz deste contacto angolano é deveras difícil de escutar.
Esta nossa aventura terminou na terceira noite com este mesmo contacto de Angola que apesar da audição ser de fraca qualidade nos informou que havia alguma agitação social havendo de ambas as partes (Governo português e frentes de libertação dos 3 países Guiné, Angola e Moçambique) conversações no sentido do estabelecimento de acordos com vista à independência destes territórios. A nossa emoção perante estas notícias era inequívoca e empolgados quisémos saber mais e ter a sorte de apanhar algum sinal da nossa terra mãe-Moçambique.
O Diego, num discurso de alguma esperança diz-nos:
-Muchachos, vuestro país queda muy lejos de aquí…pero si quieren intentaremos nuevamente mañana por la noche.
-Seguro que não estamos abusando de usted Diego?
-Non gringos, esta actividad es una pasión para mi…vengan mañana de nuevo. Intentaremos algo más!
-Muchas gracias Diego…responde o Nuno desta vez.
A terceira e última noite foi de fraco resultado como foi a anterior…algo mais sintonizados e apoiados neste macanudo de Angola, tentámos em vão, alcançar alguém que nos escutasse na costa oriental do continente africano…é efetivamente um longo caminho mesmo para estas ondas mágicas que vencem oceanos, ventos e marés…Damn!
Não deixou de ser um ciclo de aprendizagem e um interessante esforço partilhado com este simpático peruano de quem nos despedimos calorosamente.

Ao fim destes dois meses e pico a viver entre Cuzco e Urubamba, começamos a sentir sinais acentuados da degradação das nossas condições de vida por cá.
Primeiro porque os artigos que habitualmente vendemos nos mercados destes locais já dão sinais de saturação, sendo as cartas que ansiosamente desejamos receber com algum dinheiro, um recurso que toma cada vez maior importância na nossa subsistência…mau sinal!
Neste dia de regresso a Cuzco, e depois de mais umas vendas de artesanato no mercado San Pedro a troco de uma refeição, vamos eu e a Rose à posta restante dos Correios centrais na esperança de receber notícias da família.
Do meu lado tenho efetivamente mais uma longa carta da minha doce mãe.
Uma carta emocionada como sempre e onde estão aquelas notas de 50 dollars que sempre me aquecem a alma e sobretudo o nosso estômago.
Desta vez tive a informação de algumas transformações que estão a dar-se em Moçambique na sequência do golpe de estado ocorrido em 25 de Abril em Portugal.
Neste relato emocionado, a minha mãe dá-me a entender que várias questões se colocam quanto ao futuro de Portugal continental e das colónias espalhadas pelo mundo.
Conta-me que em Portugal se vive uma grande agitação social pós revolucionária, onde o poder, que esteve desde o dia da revolução na mão dos militares, está agora a passar para o controle dos partidos de esquerda, mais precisamente dos Partidos Comunista e Socialista Portugueses formados no exílio. Estas transformações começam a sentir-se igualmente em Moçambique onde já se vai falando num hipotético cessar-fogo a negociar entre a atual governação em Portugal e os movimentos de libertação. No caso de Moçambique com a Frelimo (Frente de libertação de Moçambique).
Algo que a minha mãe espera ansiosamente que aconteça, desejando ardentemente que o filho saia daquele inferno quanto antes. Nada mais natural para uma mãe ansiosa.
A certa altura a minha mãe Leonor escreve:
Tiveste uma visão de tudo isto que, finalmente e infelizmente, estava certa, meu filho. Começamos a temer seriamente sobre o nosso futuro em Moçambique.
Pela primeira vez o meu pai, aproveitando um rodapé da carta da minha mãe, acrescenta algumas palavras. Fizeste essa cama – deita-te nela. Ao ler estas palavras o pensamento que me atravessou de imediato o espírito foi de raiva e total indignação. De seguida tentei retirar daqui algum sentido. Porra! o patrão é mesmo duro de roer, pensei! Mas no final entendi a mensagem dele. Fui eu que escolhi este caminho…e este caminho faz-se caminhando…se estou a passar dificuldades não tenho que queixar a ninguém…vamos em frente!
A Rose também tinha duas cartas à sua espera. Notícias da mãe Celeste que sempre aflita com a filha deixa nestas cartas uma carga emocional muito grande, contando as últimas lá de casa e da cidade maravilhosa.
A segunda carta é da amiga Regina anunciando que estaria a caminho de Cuzco para se juntar a nós. E que traria com ela algum dinheiro para ajudar as condições de vida deveras difíceis aqui no Perú.
Palavras que a Rose recebe com um especial brilho nos olhos.
O nosso regresso a Urubamba é feito como sempre de ónibus, tendo nós chegado a casa já ao cair da noite.

Na sequência da festa da lua cheia tivemos eu e a Rose um convite para passar hoje em casa da Consuelo. Esta nossa amiga brasileira que meses antes foi o nosso anjo da guarda em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia, trazendo-nos aquelas roupas para nos tirar da cadeia.

Day walk
A manhã está magnífica e partimos cedo caminhando primeiro até a praça de Urubamba, onde partilhamos um suco de frutas, continuando a seguir para a esquerda rio acima. O sol brilha sobre águas agitadas e espumantes do rio Urubamba e por ali subimos uns bons 2 km montanha acima até chegar a casa desta nossa simpática anfitriã.
Chegando aqui, fomos muito bem recebidos, numa casa muito típica que tem 2 pisos, com uma decoração hippie onde predominam naturalmente o bom gosto, muitas cores, objetos peruanos, indianos, esteiras, almofadas, ponchos, luminárias, imagens, budas, incensários, etc. Esta casa é bem a cara desta nossa amiga. Ambiente lindo!
Na cozinha ampla, encontramos a Consuelo que faz uns pães e tortas integrais, vestida com sua saia longa estampada, os cabelos soltos…e com os seios à mostra, sem blusa!…tempos do Flower Power.

Festa consuelo 1
Está por cá muita gente. Não compreendemos muito bem quem cá mora ou quem só esta de passagem, como nós. Aqui passamos o dia inteiro, comemos todos juntos, e houve naturalmente lugar às improvisadas jam sessions com uma abundância de instrumentos num ambiente tendencialmente rock.

Secret Garden Party 2012   Festa da Consuelo 3
O fim da tarde foi chegando e foi escurecendo rapidamente. Para celebrar mais este encontro de gringos circulou um haxixe muito bom dentro de um pipe. De imediato sentimos eu e a Rose que uma valente paulada está a partir deste momento garantida. Ao som da boa música que foi rolando e ao jeito dos efeitos fortes deste haxixe, fomos-nos estendendo dengosamente sobre as almofadas e assim ficamos por ali sem qualquer noção do tempo passar.
A uma certa altura, a Consuelo dá-nos a entender que não poderíamos pernoitar por aqui, pois não haveria lugar nem cobertores suficientes para todos os presentes. Foi aqui que percebemos que deveríamos tomar o rumo de casa. Já é noite cerrada e a paulada é imensa…nova aventura pela frente para estes dois taurinos.
Assim nos levantamos bem pedrados, olhando lá pra fora. O breu é total. Caramba! Estamos bem longe de casa e o frio é cortante!
-Vocês tem uma lanterna?…pergunta-nos a Consuelo algo preocupada.
Perante uma resposta negativa, esta nossa anfitriã parte uma vela ao meio, colocando com a própria cera derretida dentro de uma lata de leite em pó, virada com a abertura para cima. Resta saber como vamos segurar nesta candeia improvisada. Na continuidade do improviso, a Consuelo lá encontrou um cordel com comprimento suficiente para segurarmos aquela lata que com sorte e alguma destreza, iluminará o nosso caminho.
Concluídas as nossas despedidas do pessoal da casa e agradecendo a atenção desta nossa amiga, damos início a uma nova aventura no vale sagrado. Uma atribulada tentativa de regresso a nossa casa naquela escuridão e por caminhos do mato, montanha abaixo. Começa aqui o trajeto mais maluco que fizemos a pé nesta região. A vela só ilumina um metro à nossa frente e, sobre um caminho de pedras por vezes bem íngreme, tropeçamos a todo momento, enquanto descemos sozinhos aquele trilho na noite escura. Com o vento que se faz sentir, a vela apaga várias vezes, obrigando-nos a reacender com palitos de fósforos que também se apagam com o vento…evitando entrar em paranóia, lá seguimos o nosso martírio até por fim chegarmos à praça de Urubamba. O frio chega aos ossos e estamos a tentar não perder o controle das nossas emoções lembrando-nos daquela famosa viagem entre Cochabamba e La Paz na Bolívia, meses antes.
Mas agora temos uma outra etapa pela frente. Encontrar o trilho de regresso a nossa casa.
Continuamos sem ver um palmo à frente do nossos narizes congelados.
Tendo uma noção que estamos a andar na boa direção, coloca-se agora um novo desafio. Encontrar a nossa casa, que sabemos que fica do lado direito, mas a semelhança das casas à noite é tal que começa a assaltar-nos a ideia que podemos perder-nos…shit!

Night walk
Por esta altura já estamos totalmente exaustos e famintos. Mas os deuses estavam connosco naquele momento de aflição. Muito a custo, mas com alguma intuição lá apalpamos uma porta de madeira com duas bandas e um ferrolho. Estamos finalmente nesta nossa casita mágica, que nunca foi tão desesperadamente desejada como nesta noite! Finalmente chegamos! Estamos salvos!
Acordado, está apenas o Cristian que é esta noite o vigilante das nossas amigas tarântulas. Ao ver-nos entrar com cara de total pânico e naquele estado miserável, quis saber o que aconteceu.
Contando rapidamente a este nosso companheiro o que nos aconteceu e aquecendo as mãos naquela foguinho sempre aceso dentro de casa, só tivemos tempo de beber um bom gole de água e roer um pedaço de pão. Tempo agora de enfiarmos os nossos corpos sofridos dentro daquele bendito sleeping-bag, acomodar-nos no nosso canto em cima de uma esteira e cobrir-nos com os ponchos.
Bem abraçadinhos, atravessámos esta noite de fortes emoções até o sol raiar no dia seguinte.

Passados alguns dias no nosso quotidiano, chegámos ao dia 12 de Maio de 1974. Um dia especial para celebrar cá em casa. O dia do 21º aniversário da minha companheira carioca.
-Bom dia, guapa! Digo eu ao acordar, roubando à minha namorada um beijo doce como o mel! Quem faz hoje o seu Niver?…quem é?
-Hummm…africano!…obrigada, viu?…responde esta minha namorada dengosa e sonolenta.
No outro dia fui eu e hoje és tu, lindona…a era dos Taurus!…vou a Cuzco comprar uma garrafa de champagne para celebrar!
-Vai, vai seu safadinho!…se tiver aí uma chicha já ficamos bem satisfeitos né?…me responde a Rose trocista com aquele sorriso e olhar brilhantes que eu adoro.
Enfim…as celebrações em tempos magros também se fazem e hoje vou com o Cristian a Urubamba no sentido de vender qualquer coisa e trazer os condimentos para um jantar diferente…um pouco mais recheado.
No mercado somos tocados por um momento de sorte mesmo assim. Com a venda de um dos meus batiks pudemos trazer alguns ingredientes para fazer uma surpresa à minha namorada.
Vamos tentar fazer algo que vi no outro dia num livro em casa da Consuelo.
O prato chama-se Carapulcra que é um prato típico da antiga culinária inca; é um guisado feito com carne de llama e batata-seca.
As batatas-secas são uma antiga especialidade do Peru e da Bolívia. Estas são deixadas ao ar livre nas montanhas. Elas congelam durante a noite e descongelam durante o dia, o que lhes retira grande parte da humidade; desta forma, as batatas podem ser guardadas durante meses, ou mesmo anos, sem se estragarem….curioso, hein!
Além de alguma carne de llama, ainda trazemos as tais batatas secas, cebola, alho, malagueta e cominhos para temperar. Não temos vinho…paciência!
A acompanhar tudo isto alguma mandioca para cozer…mas não ficamos por aqui…o Cristian ainda negociou com um quéchua seu conhecido, a troca de umas pulseiras com dois bons jarros de chicha. Estamos servidos…vamos a isto.
Esta refeição, cozinhada com os nossos meios rudimentares, soube a céu e assim celebrámos nesta nossa cubata esta festinha em honra da nossa carioca com um cheers em copos de barro plenos de chicha. A rematar, e como não poderia faltar, rolou um baseadão de uma boa maconha que o Chirulo sempre arranja. E a música completou o nosso cenário!
Feliz aniversário, garota!

Niver Rose

Concluída a produção de novos batiks e de mais uns trabalhos de ornamentação, é tempo de uma nova incursão a Cuzco para uma tentativa de vendas numa loja situada perto da Plaza que ouvimos dizer que adquiria peças de artesanato diferente.
Efetivamente conseguimos vender algumas peças a um preço de revenda. O resultado poderia ser melhor, mas foi mesmo assim, satisfatório.
Com o produto destas vendas, eu e a Rose decidimos usufruir daquelas refeições populares que tantas vezes nos alegraram o apetite no mercado San Pedro….e que bem nos sabem estes menus para variar a nossa dieta forçada em Urubamba.
Não deixa de ser notório o peso que já perdemos desde que saímos do nosso ponto de partida Rio de Janeiro…ossos do ofício!

Cuzco ciudad 2   Cuzco ciudad 4

Aproxima-se uma celebração muito especial no mundo Inca. A festa de Inti Raymi no próximo dia 24 de Junho.
Inti Raymi, que significa em quéchua Festa do Sol, é um festival religioso inca em homenagem a Inti, o deus-sol. Esta celebração marca o solstício de inverno no hemisfério sul na grande região dos Andes. O local da realização desta cerimonia é num templo sagrado que conhecemos semanas antes de nome Sacsayhuamán (a 2 km de Cuzco).
Num momento de tranquilidade em que nos encontramos a sós, sentados num dos bancos de jardim da Plaza de Armas de Cuzco, pergunto à minha companheira:
-Rose, me diz uma coisa?…com esta chegada da Regina você sente que ela vem para ficar em Cuzco ou que seguirá viagem connosco?
Após alguns instantes de silêncio, a Rose me olha séria dizendo:
-Africano, eu vou te dizer o que vai na minha alma desde que recebi estas cartas de minha mãe e da Regina.
-Sim, fala!
-Você sabe tão bem quanto eu as privações que estamos passando aqui no Perú. A grana sempre faltando e eu sinto medo de continuar viagem nessas condições. A continuar desse jeito ainda vamos ficar doentes e aí tudo ficará bem mais difícil. A Regina está vindo com alguma grana que mamãe vai mandar e penso que é mais prudente voltar com ela pro Rio depois da festa. O que você me diz?
Neste momento sinto-me suspenso no ar. Sinto em silêncio que a Rose tem um ponto de vista válido. Regressar ao conforto da casa dos pais em companhia da Regina. Faz sentido, pensei por instantes.
Mas algo paira no meu espírito. Sinto uma voz dentro de mim que me diz que quero mais. Continuar este meu sonho e cumprir algo que trago na vontade desde o Brasil. Alcançar o oceano Pacífico que nunca vi na minha vida.
Com uma voz cortada pelo peso das minhas palavras, respondo:
-Minha querida! Como você está sabendo, eu vim de África para viver o carnaval do Brasil e regressar de seguida a Moçambique. Mas tudo evoluiu como você viu…de tal forma que chegamos até aqui.
Com alguma emoção continuei.
Me custa demais pensar em seguir esta viagem sem você, mas eu te compreendo, Rose. Você está se sentindo sem chão, tendo a sua mãe e sua casa lá no Rio, que são finalmente o seu porto de abrigo. Eu quero prosseguir meu sonho de visitar a costa do Pacífico e seguir rumo ao norte para conhecer o Equador, as Ilhas Galápagos e mesmo a Colômbia, se tudo correr bem. É com muita dificuldade e enorme tristeza que enfrento a hipótese de fazer esse roteiro sem você, minha gata.
Num gesto de pura emoção e olhos molhados, a única resposta que tenho da Rose é um encosto de cabeça no meu ombro murmurando.
-Nem me fala, africano. Você transformou a minha vida! Você é tão especial para mim! Vou sentir muitas saudades.
Não consegui, neste momento sentido, produzir qualquer frase senão:
-Eu te adoro, carioca linda!
E os nossos olhos estão naturalmente molhados…o silencio é pai!

Cuzco banner 2
O nosso regresso a Urubamba é portanto mais silencioso do que é costume.
A Rose viajou quase todo o tempo com a cabeça encostada no meu ombro.
No seu espírito flutua um conflito de sentimentos mudos. Ela largara tudo para me acompanhar nesta viagem, mas sabe que a incerteza é gritante e a chegada de uma amiga da terra natal é uma espécie de porto seguro que não pode menosprezar. O silêncio sai definitivamente vencedor.
Os dias que se seguem em Urubamba são inevitavelmente marcados por esta conversa que tivemos, eu e a minha namorada que me acompanhou nesta aventura desde o Rio de Janeiro. Há uma natural tristeza no ar.
Esta tarde, aproveitando o facto de estarmos sós, vivemos momentos de doce partilha e amor bem ao nosso jeito. Uma fusão deliciosa como só nós dois sabemos saborear…acompanhados de murmúrios de prazer e cumplicidade…e de um silêncio que grita dentro de duas almas gémeas despreparadas para a distancia e para a ausência.

Passados dias, o Nuno anuncia a sua partida em direção a norte com um grupo aqui do Vale sagrado.
-Pois é, caras!….tempo de seguir viagem. Chirulo, Cristian, quem sabe um dia nos encontramos em Santiago…diz o Nuno com o ar animado que tanto o caracteriza.
-Grande Nuno! Responde o Chirulo com um forte abraço! Encantado de conocerte y espero me cruzar contigo en este mundo en un otro lugar. Si por acaso en Chile continúen las dificultades, quien sabe nos encuentraremos mas al norte. Que te vaya bien hombre!
-Gracias, Nuno. Mucha suerte, amigo!…diz desta vez o Cristian.
-Chico, Rose, pra vocês aquele abraço…nos encontramos mais a norte, não?
-Mano velho!…irei também para norte em direção a Lima, mas creio que a Rose vai esperar a Regina, uma amiga que está chegando do Rio e depois de passar a festa por cá, vão regressar a casa.
-É mesmo, Nuno!…isso não tá fácil, cara!…acho que a minha dose foi boa e tou precisando de relaxar de tanta dureza. Voltarei pra casa em breve.
-Valeu, carioca!…me dá um abraço. Foi muito bom conhecer você e quem sabe ainda nos cruzamos lá no Rio. Responde o Nuno com entusiasmo.

Nestes últimos dias de Urubamba, concluí alguns trabalhos de batik e um conjunto de colares e pulseiras que poderei vender ao longo da viagem para norte dentro de dias. Com o pouco dinheiro que recebi de Moçambique e mais a venda destes artigos, pode ser que me aguente até chegar ao meu próximo destino. Alcançar a costa do oceano pacífico em Lima, capital do Perú.

Hasta siempre Valle sagrado

O dia 9 de Junho de 1974 é dia da minha partida do Vale sagrado. Após a tomada de uma sopa que sobrou da noite anterior, eu e a Rose metemo-nos a caminho de Cuzco onde pernoitaremos em Samana conforme já tínhamos comunicado ao César Segura na semana anterior.
Com uma voz emocionada, a Rose diz-me:
-Africano querido! tem uma coisa que quero que leve com você. Para se lembrar da tua Rose. Esse violão, que agora é seu.
Abraçando a minha carioca, senti um aperto no coração e respondi numa voz cortada.
-Obrigado meu anjo…é a segunda vez que você me diz isto…desta vez eu aceito e vou cuidar bem dele, viu!
Agora é tempo de me despedir igualmente destes nossos companheiros de aventura.
-Cristian e Chirulo…vosotros se quedaran en mi memoria, hermanos…muchas gracias por todo…y mucha suerte!…digo eu, em tom de sentida despedida.
-Chico…muy buena surte hermano…te quedarás tambien en mi memoria…diz-me o Chirulo apertando-me forte contra ele.
-Que te vaya bien, compañero!…quien sabe nos encuentraremos más arriba…diz-me desta vez o Cristian com uma voz cortada pela emoção.
Tempo de fazermos eu e a Rose o nosso habitual percurso até a Plaza de Urubamba onde nos espera um caricato ónibus que dificilmente esquecerei. De mãos dadas, deixando o silêncio a falar com o destino, assim seguimos por aquela estrada poeirenta até Cuzco, onde chegamos ao fim da tarde.
Esta última noite em Samana tive a oportunidade de participar de um momento musical de exceção, bem ao jeito daquelas batucadas que saem improvisadas e que são as melhores, animadas por uns joints de superior qualidade que rolaram ao longo da noite.
Por duas ou três vezes, embalado nos acordes da guitarra, os meus olhos cruzaram naquela sala os olhos de amêndoa da minha carioca. Um olhar que fala por si.
Esta noite, partilhando a nossa última dormida no 2º piso, num canto que nos reservaram, pudemos usufruir eu e a minha doce companheira de alguns momentos de intimidade bem ao jeito da nossa cumplicidade…momentos que não mais esquecerei.

O dia 10 de Junho de 1974 despertou como sempre com aquele pequeno almoço animado que Samana nos habitou, tendo nós, como é da praxe, participado nas tarefas da casa como o fazíamos quando cá morámos quando chegámos a Cuzco.
Tempo de agradecer o calor e a cooperação recebida do César e da Janet e dos restantes residentes, trocando com eles um caloroso abraço de despedida.
A Rose iria ficar por aqui para receber a Regina que chegaria nos dias seguintes.
Apesar da sua insistência para eu esperar pela amiga e ficar para a festa, eu decidi continuar o meu roteiro sul americano aproveitando os trocos que recebi de Moçambique e mais uns soles resultantes das últimas vendas.
Parto pela primeira vez a solo desde que cheguei à América Latina.
A minha separação desta minha doce companheira foi naturalmente dolorosa.
-Te levo no meu coração carioquinha. Digo emocionado!
-Africano querido, o mundo vai continuar girando e você estará guardado aqui dentro. Você sabe disso! Obrigado por tudo e te cuida viu?
-Sim, Rose! O que sentimos aqui dentro dispensa palavras. Vou fazer por cuidar de mim sim…e do teu violão também.
-E se passar no Rio bate na minha porta viu africano? Quero muito voltar a ver você nesta vida.
-Deal, meu amor carioca!

No meu íntimo eu sentia que a vida é composta destes momentos que são próprios da natureza humana. Feitos de encontros e desencontros de almas que se tocaram e foram o melhor que puderam ser enquanto estiveram juntas.
As nossas existências se cruzaram intensamente mas as nossas origens, a nossa evolução individual e as nossas raízes diferenciadas marcavam aqui uma nova etapa.
A Rose voltaria para o seu porto de abrigo. Eu seguiria o meu destino incerto, guiado pelos instintos.
Esta nossa despedida emotiva não dispensou um beijo bom e um forte abraço, marcados por lágrimas dignas de uma paixão intemporal.
Olhando uma última vez para esta mulher de olhos de amêndoa murmurei em silêncio:
“Eu te agradeço Rosangela Vianna por fazeres parte da minha vida, por tanto teres enriquecido os nossos dias e as nossas noites, e de apesar de tantos momentos difíceis que atravessámos, teres sido muito mais do que uma amante…teres sido uma amiga….que a sorte te acompanhe…”
E olhando para o fundo da Calle Saphi, encho o meu peito de ar, pego na minha mochila e neste violão, partindo em direção à Central de autobuses…rumo ao desconhecido.

The show must go on…on the road again!

On the road again

Continua no próximo sábado  dia 23 de Maio de 2015

23 comentários

23 thoughts on “El condor pasa

  1. Maria Teresa.Barbosa.

    Vou-me deitar e,levo comigo este belo naco de prosa que me embalará e,fará sonhar com estas terras que sempre estiveram no meu imaginário.
    Bem haja por mais uns belos momentos que acabo de ter com a sua maravilhosa descrição.
    Saudações amigas.A viagem felizmente continua.

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  2. Maria Teresa,
    Com ainda maior prazer se escreve, quando do outro lado da narrativa está um olhar atento, embalado em aventuras lavradas atrás do tempo…que são intemporais pela capacidade que têm de atravessar o calendário criando emoções extemporâneas!
    Bem haja pelas suas palavras…um forte abraço!…boa noite!

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  3. Midu

    Meu irmao, quero mais, que delicia tem sido ler-te. Para nós dessa “escola” a narrativa escorrega sem se dar conta do tempo, ja li varias vezes, sempre com um sorriso, uma gargalhada, um quentinho no coracao.

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  4. My sis,

    É um prazer para mim verificar que esta minha paixão pela escrita vai dando esta possibilidade aos mais atentos de viajar connosco lá atrás do tempo e apesar de 4 décadas passadas, fazê-lo de forma intemporal.
    Somos como certas castas de vinho…cepas de uma especial qualidade lavradas neste ADN que produziu uma tribo “à parte”.

    The journey continues my dear!…welcome on board!

    Beijo grande miúda!

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  5. Maria Teresa.Barbosa.

    Finalmente estou chegando à terra dos meus sonhos embora com a minha vetusta idade o seu poder descritivo me fez pisar a terra há muito desejada.
    Como sempre sinto uma certa frustração por ver acabar mais um capítulo desta saga tão maravilhosa que tanto me tem encantado.
    Saudações amigas da M.Teresa.

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  6. Olá de novo Maria Teresa,
    As suas palavras como sempre…uma melodia para os meus ouvidos e uma força motriz desta aventura por terras do Altiplano…Bem haja pelo entusiasmo!… receba este meu caloroso abraço!
    E vamos em frente pois este continente tem muito para dar!

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  7. Teresa Amaral

    Faço minhas as palavras da “Madrecita” e sem dúvida “o que tem que ser tem muita força”, ou como se diz nesses cantos do mundo que aqui relatas, “El que puede, puede, porque cree que puede!!!”
    Um abraço, aguardando o sábado 16/5!! ;))

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  8. Olá Teresa,
    Esta saga, que é um belo desafio ao nível do ADN e da memória, tem naturalmente uma vertente cinematográfica no sentido da apresentação de algumas passagens que o Spielberg tão bem transportou para o imaginário de milhões de pessoas neste mundo.
    À nossa escala e muito antes das sagas deste brilhante realizador terem surgido diante de nós, também vivemos os nossos momentos atraídos pelo insólito…onde há frente vai o inesperado e o improviso…ao meio as dificuldades a superar e atrás uma história para contar.

    Será talvez o caso deste próximo episódio.

    Enjoy miga!…a nossa caminhada continua!…Cheers

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  9. Maria Teresa.Barbosa.

    Meus Deuses a caminhada não foi fácil, mas o querer e a força da juventude,fazem verdadeiros milagres.Por vezes paro de ler e, confesso eu estou fazendo parte desta tão perigosa e aliciante aventura.Mais uma vez um bem haja muito grande por esta encantadora etapa da que já lhe chamo,a nossa viagem.Saudações amigas da Maria Teresa.

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  10. As Teresas (Mãe e filha), são uma força motriz desta escrita.
    Se vos trago para dentro da história e vos faço vivê-la comigo, é uma vitória pessoal muito compensadora.
    Assim será enquanto a originalidade dos factos e os imprevistos em cada etapa sejam um campo fértil e impulsionem esta capacidade de converter as palavras escritas em vivências tão sentidas quanto possível.
    Bem hajam minhas amigas…vamos continuar esta caminhada com a emoção e o improviso a guiar esta história que tenho para vos contar.

    Forte abraço!.

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  11. lenocas

    Vamos emfrente,amigo,estou gostando desta fabulosa historia bjs

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  12. Oi Lena,
    Como verás o curso da aventura vai mudando ao sabor das circunstâncias!
    É nesta diversidade carregada de improviso que reside a originalidade desta caminhada!
    E vamos em frente que a América Latina é grande…
    Abraço apertado!

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  13. Carla Rodrigues

    Desta vez, li vários capítulos de seguida. Imagino como esta experiência nos idos anos de 1974, foi mágica!!! fotos lindas e muito bem documentado. Senti-mo-nos dentro da história. Bjo grande Chico

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  14. Oi Carla,
    Este é o meu grande objetivo!
    Transportar os meus leitores para o interior da narrativa…e deixá-los sentir as emoções e as vivências atribuladas de cada passagem.
    A partir daqui viajo comigo…com as minhas ambições, com o meu sonho, com uma mochila e com o violão com quem falo sempre que é preciso.
    A aventura prossegue e há muito para contar…
    Vamos em frente…bj

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  15. Maria Teresa.Barbosa.

    E foi na estrada outra vez que, terminou mais uma etapa desta,tão romântica aventura .O falar com o seu violão ,o simbolismo que isso representa,me deixaram encantada desejando muito a continuação da sua,nossa viagem.Saudações amigas .M.Teresa.

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  16. Olá de novo Maria Teresa,
    Este roteiro em terras altas e distantes vai passar por novas vivências…mais solitárias…mais complexas e sempre mais além neste fabuloso continente…vamos a isto.
    Um forte abraço!

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  17. Teresa

    A minha recente viagem a’ Austrália, obrigou-me a atrasar as leituras que finalmente (e com o maior prazer) já estão em dia!! Curiosa de ler como será a caminhada, agora a solo….Coragem e determinação e certamente muitos momentos em que “o silencio foi pai!!” (Gostei maningue!)

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  18. Sabes miga?
    É nestas alturas da vida e sobretudo nesta idade em que se tem muito “pelo na venta” e em que dificilmente se abdica dos sonhos, que outros valores se levantam sentados nesta vontade de ir mais e mais além!
    Foi o que aconteceu!…as decisões e as consequências das mesmas, andam de mãos dadas…e ambas consultam o destino para saber qual o melhor caminho…por vezes um enigma difícil de desvendar…adelante me voy!..para terras ainda mais altas…

    Grande abraço!

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  19. Teresa Amaral

    Sem dúvida, “those were the days, my friend…”!! E a nossa até que foi uma geração que pouco abdicou de sonhos. De uma forma ou de outra, todos nós fomos mais além!
    Kanimambo por partilhares as tuas memórias que nos fazem recordar o que alguns de nós nunca viveram! 😉
    Abração!

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  20. Parte I

    Morales Moralitos’, uma entidade com um nome invulgar mas que acabou por fazer jus ao seu significado eheheh,,,,,não lhes escaparam, embora a ideia de prolongar a viagem gratuitamente tenha sido bem adequada ao momento…sem dúvida, que se tratam de recursos para uma mais alongada sobrevivência! Folguei em saber que tudo se resolveu da melhor forma, pois o que vos esperava era de facto digno de ser alcançado da forma menos ortodoxa possível…só um ( ) para invocar esse à vontade de africanos que somos, naquele território também tão vasto quanto enigmático que é África, onde aprendemos a quebrar regras da forma mais subtil e o mais inocentemente possível, uma escola’ sem fundo nem maneio, uma amplitude de meios à nossa disposição para enfrentarmos qq obstáculo que se intrometa no nosso caminho…aliás…nos trilhos que por lá proliferam sem qq referência histórica para nos orientar…dito isto Chico, esse golpe’ foi magistral, mesmo que não tendo resultado….mas que por uma maior incredibilidade possível…acabou por resultar de outra forma…quem sabe, senão tivesse havido aquele contra tempo, não encontrariam os tais habitués’ que vos indicaram a famosa Samana’,,que delícia de local para se alojarem!
    ““Equilibrio de fuerzas”.era tudo quanto necessitavam para aquele momento, engraçado foi ter pensado que o Peru seria um País menos místico e mais terra a terra que a Bolívia…mas enganei-me e ainda bem, porque aquelas asas do Condor*, afinal escondiam tanta Magia como uma imensidão de História ali protegidas e bem guardadas, deverá ser uma sensação incrível, sentirmos-nos no umbigo do Mundo, Cuzco’, que para além da descrição, aparece-nos na foto como um ponto perdido neste mundo, as cores emanadas dela, toda a estrutura da mesma, deixa-nos de facto deslumbrados com aquela estranha e encantadora arquitectura, toda ela térrea e amparada por montanhas a abraça-la…uma visão ainda mais empolgante que a cidade de La Paz, mesmo que como se um presépio todo ele iluminado com pequenas luzinhas brilhantes e distantes! Pelas imagens, quase que sentimos esse borbulhar no estômago que se deve ter feito sentir em vós…até agora…a viagem tem vindo a engrossar-se com conhecimentos antes obscuros…mas agora deslindados por todos nós ao acompanhar-vos!
    A Rose é uma menina às direitas’ eheheh….para carioca que é…traz dentro dela toda uma estrutura sensorial muito bem alinhada, calculo o susto que a pegou, mas Chico, são sempre esses pequenos sobressaltos nas meninas’, que fazem com que elas ganhem mais confiança em quem as lidera…senti-me um pouco nessa atmosfera, aquando outras viagens que fizemos em grupo, vindos de Moçambique até Portugal, pois o desconhecido não tem calibragem seja em que território for..o mesmo nos aconteceu em grupo perante situações menos regulares com algumas populações por cá!
    Mas isso é outra história, a minha e não a vossa! Adelante’ como dizes eheheh!
    Não me surpreendeu o facto de não terem aparecido Moçambicanos antes por aquelas andanças, pois fica longe…a uma distância tão imensurável quanto inesquecível!
    Confesso que me fascinou a trip que tiraram com a Mescalina, (provei Peyote e Hunguitos’ uma vez só, pouco fiquei a saber desse aliado’), mas pela descrição que fizeste, apeteceu-me provar agora mesmo um pouco mais eheheheh….porque de LSD, (ácido lisérgico) tenho já alguma experiência acumulada, a minha favorita droga’ ;)..qual quê…uma divindade nesta terra e nesta vida…os neurónios abrem-se em flor e irradiam futuro aos nossos olhos…aliás…nunca poderia seguir-vos da forma que o faço, caso não tivesse estes cornos’ bem abertos ehehehh…eu sinto-vos por aí..visualizo todas essas cenas que tu tão claramente descreves, quase que saboreio essas sopas, esses legumes, sinto essa satisfação quando forram’ o estômago com esses salteados alimentares…gostei do termo ‘forrar o estômago’ eheheh…que é o que é mesmo ;)…quanto aos monumentos que aí encontraram, mais a história que os sustenta, para além de descritos mais uma vez na perfeição, deleitei-me mais com as fotos…muito mais do que com os nomes dos figurantes que por aí passaram…me perdoa esta minha ignorância impostora..que o é…não consigo aglutinar história, isto por defeito muito pessoal, mas não deixando de ser interessante para quem se encontre defronte esses pilares’ que marcaram o rumo de várias civilizações…por aí ainda consigo enxergar a sua amplitude e o respectivo resultado!
    Olha Chico, nem sei bem se me devia alongar desta forma aqui…mas o entusiasmo é mais forte que a contenção…de maneira que quando dou por mim…estou já “off sight”…me desculpa esta minha mania de desenvolver o que sinto pelo que me entusiasma…que tem sido o caso!
    Só para finalizar esta 1ª parte,,,,sempre fui um grande admirador de Carlos Castañeda…segui religiosamente’ toda a filosofia que ele assumiu aí entre os naturais’…a Erva do Diabo’ foi a minha bíblia’ de cabeceira por muito tempo…logo…mais uma vez…um pequeno impulso de inveja’ (mansa diga-se) se fez sentir ao saber-vos aí mesmo no âmago de toda a sua ciência!
    Obrigado mais uma vez pela oportunidade que nos estás a proporcionar…a de podermos visitar’ e acompanhar telepaticamente tudo o que essa vossa maravilhosa aventura nos tem trazido!
    Voltarei para a 2ª parte! Kanimambo meu irmão!

    p.s. – admirei a coragem do Bags ao se desligar de vós por uma cena dele própria…embora tenha sentido também o pesar do mesmo afastamento!
    Se me permites, gostaria de te deixar aqui um trecho musical que me acompanhou durante esta ultima etapa….espero que gostes…tem um balanço bem avantajado…vale acompanhá-los também! Obrigado! 😉

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    • Caro Rui,
      Como sempre as tuas interpretações desta minha narrativa são dissertações dignas deste nome.
      É o que se chama sentir, viver e saborear uma história vivida num época de grande riqueza. E tu sabes como fazê-lo de forma exímia.
      É um prazer ter leitores com esta capacidade e saber que a minha forma de contar esta história tem a capacidade de transportar os leitores para os enquadramentos multifacetados desta narrativa.
      Vais caminhando, muito ao ritmo de uma caminhada sentida, sem pressa e dissertada com toda a tua maestria…bem hajas meu caro…
      Grande abraço

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