O cartel colombiano

O cartel colombiano

 

Por caminhos da Colombia

De novo na estrada, entro num território desconhecido desta América Latina. Na Colômbia. Um país que recebeu este nome do grande navegador Cristovão Colombo originário de Génova (Itália) que descobriu as Américas ao serviço do trono de Espanha.
Não deixa de ser curioso o facto de este famoso navegador nunca ter pisado o solo deste país…adelante!
Comportando à primeira vista umas semelhanças com os países sul americanos que visitei nestes últimos meses, sente-se por aqui um ambiente mais agitado e também mais cinematográfico no sentido de haver por aqui personagens mais carismáticos, à primeira vista.

Ipiales 1

Antes da chegada à primeira cidade colombiana de nome Ipiales, passamos junto a um lugar extraordinário constituído por uma ponte com uma arquitetura singular que nos conduz a uma igreja muito famosa denominada de La Virgen de Las Lajas. Este meu simpático motorista fez questão de parar para me mostrar este fascinante lugar impressionante por ter sido construído sobre um rio no meio da montanha….que magnífico monumento de estilo gótico!

Lajas 1  Lajas 2

Lajas 3    Lajas 4
Mais adiante, paramos para tomar algo, aproveitando para trocar os meus magros sucres ecuatoreños por pesos colombianos.
Tempo agora de fazer o meu gesto e pagar a despesa deste meu anjo da guarda, sendo muito pouco para compensar o que este meu companheiro fez por mim ali na fronteira….mas é o que posso e é de bom grado que o faço!
De seguida e depois de uma troca de comentários em torno das aventuras fronteiriças, lá fomos avançando sobre a rodovia Pan-americana, entre montes e vales onde, à semelhança do Ecuador, predominam as extensas plantações de café e banana. Um cenário geográfico muito típico desta região do mundo.
Reparo igualmente que aqui na Colômbia abundam os Jeeps Willys sendo esta uma tendência norte americana muito presente no modo de vida deste país singular. Ao fim de uma de hora nesta estrada movimentada, chegámos finalmente ao nosso destino. San Juan de Pasto.
Esta é uma cidade simpática situada na base agrícola da cordilheira andina, com uns vales verdes e algo que me chamou de imediato a atenção. Um maciço montanhoso que, segundo me informou o meu companheiro de asfalto, trata-se do vulcão Galeras, com quase 4 300 m de altitude…linda paisagem!
Fiquei deveras surpreso quando este meu camarada me diz que a Colômbia tem 38 vulcões, dos quais 15 estão ativos…aqui o centro da terra tem voz própria, pensei.
E por aqui me despedi calorosamente deste simpático ecuatoreño que me deixou próximo do centro de Pasto e que marca positivamente a minha memória.
E agora, Francisco?….vamos lá tentar situar-nos neste novo contexto.

Pasto 2   Pasto 3
Numa praça frondosa com vários botequins virados para a rua, resolvi sentar-me e beber algo para refrescar a garganta antes de prosseguir caminho.
Ao meu lado estava um tipo com ar mestiço, de pele escura e um semblante western na sua forma de vestir, que me aborda dizendo:
-Hola, que tal, gringo?…me llamo Leonardo…está de pasaje en Colombia?
-Bien, y usted?…yo soy Chico….si….llegando hoy de Ecuador.
-Primera visita en Colombia? Pergunta-me entusiasmado este meu interlocutor!
-Si, es la primera vez qui estoy aquí! Respondo com igual entusiasmo.
E ali começamos aquela troca habitual de informações marcadas pela curiosidade de saber de onde vem e para onde vai este forasteiro.
No entusiasmo da conversa e anunciando que o meu próximo destino é Cali, a caminho da capital Bogotá, sou presenteado com a seguinte proposta:
-Mira, Chico, me pareces un tipo simpático y escucha lo que te propongo. Yo mismo estaré a camino de Cali pero non de imediato. Me quedaré un par de dias en una finca de mi familia en las montañas. En la carretera de Popayan (direcíon Cali). Te interesa venir conmigo pasar un par de días allí y luego seguiremos para Cali?
-Si, me parece interesante. Muchas gracias por su invitacíon y este lugar queda lejos de aquí?…pergunto curioso.
-Oh, nos vamos a cerca de 40 km por senderos de montaña. Con el Jeep no pasa nada!
E assim foi dado início a uma primeira aventura em terras colombianas.
Um colombiano com semblante de texano e um moçambicano com semblante de cidadão do mundo a bordo de um Willys de caixa aberta, cabelos ao vento e com um canhão de maconha colombiana nos queixos que entretanto acendeu o Leonardo. Olha só os prazeres inesperados desta vida errante.
A estrada asfaltada já é minha amiga. A rodovia Pan- americana. E num Jeep de caixa aberta a sensação é ótima…adelante, hombres.
Ao fim de uns 25 km, passamos para uma pista que sai para a direita montanha acima. A visão é deslumbrante com as variações de verde e vales de sonho de um lado e doutro. A conversa vai agora no sentido de melhor conhecer o enquadramento do Leonardo, que me conta fazer parte de uma família de fazendeiros onde além das plantações de café e banana, ainda se dedicam à produção de produtos hortícolas e criação de gado.
Ao passar por uma povoação de nome Buesaco tive uma visão bem rural desta vida colombiana…tudo isto me faz lembrar aqueles ambientes cinematográficos onde se retratam as peripécias de combate aos grandes cartéis da cocaína bem utilizados em filmes dedicados a esta temática.
Para reforçar este cenário, temos agora a travessia de um rio onde foi necessário levantar os pés, pois com uma máquina deste calibre e o habito que tem este meu anfitrião de percorrer este caminho, a água não teve outro remédio senão dar passagem a este cavalo todo o terreno….sensação boa.

Finca de Sta Maria
Uns 10 Km mais adiante, chegamos ao portão principal da finca (Quinta) de Sta Maria.
-Bienvenido, Chico…aquí entramos en nuestra finca.
-Que bien, Leonardo!….lugar magnifico!…respondo com os olhos a brilhar.
Esta propriedade é murada em tons de ocre e cujo acesso é um enorme portão frontal em madeira exótica onde se encontra um homem de aspeto mestiço e porte atlético, que se apressou a abrir o portão para nos deixar entrar.
Entramos assim num área de jardim onde se pode avistar ao fundo uma casa bem vistosa.
A primeira sensação é evidente. Acabo de chegar a uma propriedade de gente com poder e qualidade de vida….Humm…estou impressionado.
Na área frontal desta mansão são visíveis belos jardins onde dois homens se encontram a cuidar das plantas ornamentais e flores que decoram maravilhosamente este espaço. Ao fundo, a casa principal de dois pisos igualmente em tons claros com um aspeto de Hacienda mexicana…fascinante este lugar!
Aqui devem circular também os negócios da coca muito familiares neste país….pensei!
À nossa ruidosa chegada, vêm uma série de miúdos (rapazes e raparigas) que me indicam estar a chegar a um meio familiar numeroso.
-Leonardo, hombre!…que lugar maravilloso!…digo espantado com o que vejo.
-Pues, Chico. Aquí nací yo y todos mis hermanos y hermanas.
-Cuantos son ustedes?
-5 hijas y 4 muchachos. Yo me quedo en el medio. Responde-me este meu anfitrião estacionando o Willys debaixo de um alpendre perto da casa, ao lado de algumas máquinas assombrosas, entre as quais pude reconhecer um outro Willys de caixa fechada cor de azeviche e mais dois carros americanos das marcas Chevrolet e Cadillac.
Ao nosso encontro vem uma senhora dos seus sessenta anos de pele morena, muito bem parecida de cabelo negro escorrido que, com um sorriso rasgado diz.
-Leonardo! Bienvenido, hijo!
-Hola, mama!…te presento Chico…un amigo que conocí en Pasto, que ven de muy lejos y lo he invitado a pasar un par de días con nosotros...diz o meu anfitrião entusiasmado abraçando ternamente a mãe.
-Hummm…muy bien!…sea muy bienvenido a Sta Maria!…responde esta simpática senhora a quem estendo a mão cordialmente.
-Pues vamos entrando, mis hijos! Voy a ofrecer algo de beber.
A entrada nesta sensacional casa dá-se através de um enorme átrio interior. Um cenário cinematográfico…deparo-me com uma decoração em tons quentes, bem ao jeito sul-americano, que combina com espaços imensos por onde se desenvolve uma escadaria dupla de acesso ao primeiro piso e igualmente a outras partes sociais para onde somos conduzidos.
-Y papa no está? Pergunta o meu amigo Leonardo à sua mãe.
-Tu papa se fué a Cali com tus hermanos y regresará más tarde. Responde a mãe que entretanto pede a uma moça mestiça que prepare uma limonada gelada para nós.
Uma vez num sala muito bem decorada e onde o conforto é rei, sou convidado a sentar-me numa poltrona a que aqui o africano já não está propriamente habituado, na qual não estive sentado mais de três minutos, levanto-me novamente para cumprimentar duas jovens morenas de olhos rasgados muito bonitas, dos seus vinte e picos anos, que acabam de chegar e a quem sou apresentado.
-Chico!…te presento dos de mis hermanas Dolores e Janaya. Este es un amigo que encontré en Pasto qui viene desde África.
-Mucho placer! Usted viene de África, pero no es moreno!
-Mucho placer, señoritas!….si, es verdad!…no soy moreno porque nací en una colonia portuguesa de África – mi país se llama Mozambique y queda del lado oriental frente al océano Índico. Respondo perante o olhar arregalado destas duas irmãs.
A conversa foi sendo fluida com a presença da mãe, das duas filhas, o meu anfitrião Leonardo, tendo entretanto chegado um outro irmão de nome Pablo.
Não posso esconder a minha satisfação perante uma tal receção. Sinto-me como um convidado de honra…aproveita bem, Francisco…mordomias destas não duram para sempre.
Cedo começo a entender que estou a passar umas curtas férias no seio de uma família de grande influência na região.

Finca de Sta Maria 2   Finca de Sta Maria 3
Creio bem que, para além das plantações de que o Leonardo me falou, não estarei muito equivocado se pensar que na finca de Sta Maria se produz igualmente outro tipo de culturas subliminares, ou seja, a coca e a maconha. Os sinais de vida abastada desta família não deixam grandes dúvidas. Mas estou a ser muito bem recebido e isso é realmente o que importa.
Uma vez conduzido aos aposentos que me são proporcionados, sinto que vou tomar um belo duche e descansar uma horinha antes da hora do jantar que será, segundo creio, com a presença do patriarca e mais alguns dos filhos.
E não me enganei…ao descer pelas escadarias imperiais sou agora apresentado ao chefe da família.
Um homem alto, moreno e bem parecido dos seus 60 anos que, do alto da sua forte presença, me diz.
-Hola…yo soy Santiago Montecinos de Mendoza. Bienvenido a Sta Maria.
-Buenas noches Señor. Mucho placer, estoy muy agradecido por me recibir en su casa. Estoy muy impresionado con Sta Maria. Lugar magnífico! Respondo respeitosamente.
-Mi hijo Leonardo me ha informado que usted ven de África. Que interesante!…esta es la primera vez que tenemos visitas de esta parte del mundo. Quiera usted tomar asiento. Aqui es mi hijo Pablo que yo creo que usted há conocido esta tarde y de este lado mi otro hijo Alejandro. Diz-me simpáticamente o patrão.
Neste ambiente deveras sui generis onde nos encontramos 4 homens confortavelmente sentados, são servidas bebidas, sendo para mim um agradável sumo de fruta pois o pacto que fiz com o meu fígado não permite outra coisa.
Desenrola-se então uma simpática conversa em torno da minha pessoa, sendo dada uma especial atenção às minhas origens e muito naturalmente a esta minha aventura por estas partes do mundo.
Foram bater numa porta perigosa. Quando tenho audiência e me querem ouvir, abre-se uma caixa de Pandora…o problema depois é calar-me!
À hora do jantar passamos para uma sala da realeza. Com o patriarca sentado numa das cabeceiras e a sua esposa na outra oposta, sou colocado ao lado dele, tendo de um lado e do outro três rapazes e as duas simpáticas moças as quais fui apresentado à chegada.
Confesso que não esperava passar por uma estadia deste nível ao entrar na Colômbia…Leonardo surpreendeste-me!
Nesta mesa artilhada de forma imperial foram servidos por dois empregados os seguintes pratos:
Como entrada : Peito de frango e legumes em folha de bananeira
Como prato principal: Lagostins ao lado de um arroz cremoso feito com leite de coco e de um molho de marisco com ervas aromáticas, condimentados com oregãos da Costa do Pacífico, e tomate….uma verdadeira delícia.
Seguindo-se um guisado de garoupa igualmente da costa do Pacífico colombiano com arroz de coco e abacate…sai da frente!
Como sobremesa a descrição é esta: Um tipo de mousse de chocolate e lulo com crocante de macadâmia de Valle del Cauca ou torta de requeijão da região de Huila (Colômbia), doce de leite e goiaba em calda.
No final e em silêncio tive uma conversa muito interessante com o meu fígado…
-Tás a ver, rapaz?…ora andamos na miséria, ora caímos nesta abundância….já sei….não tens culpa….mas só comi o suficiente e só te dei comida boa…vá lá!..produz lá essa bílis que eu prometo continuar com juízo.
Como é típico deste tipo de confraternização familiar a troca de sinergias foi excecional e guardarei naturalmente na minha memória este jantar nesta casa com perfil de Cartel.
Fui naturalmente uma má companhia para as bebidas espirituais oferecidas no final…o meu fígado diz-me de forma firme….ai de ti!
Depois de uma noite muito bem dormida e de um desayuno digno do lugar onde me encontro, fui convidado a dar um mergulho na piscina debaixo de um sol que se fez sentir.
Tive para tal que pedir emprestado ao Leonardo um calção de banho pois as roupas deste aventureiro não incluem esse tipo de traje.
Que prazer tudo isto…que gente simpática….que ambiente onde se respira uma vida grande e onde se sente naturalmente a presença de um oxigénio clandestino.
A este propósito tive esta tarde a oportunidade de visitar a imensa biblioteca desta majestosa casa, onde pude ver alguns livros interessantes.
Fiquei por exemplo a saber que estou seguramente na zona de influência do famoso Cartel de Cali. Na parede à minha frente, entre outras fotografias, está uma de um grupo de homens todos bem parecidos onde ao centro está o meu anfitrião Santiago Montecinos de Mendoza e um figurão que me parece alguém de peso na região de nome Gilberto Rodriguez Orejuela.
Tentando melhor compreender de quem se trata, sou conduzido a retirar da prateleira um livro documental sobre esta figura.
Ora, Francisco! Tens um bom feeling para estas coisas…sob a capa deste livro está um excerto de um artigo jornalístico onde se pode ler:
Gilberto Rodriguez Orejuela fundou o Cartel de Cali em 1970 com o seu irmão Miguel e José Santa Cruz Londoño.
Exímio jogador de xadres ele é conhecido como “O Enxadrista”, sendo o principal líder do Cartel de Cali e um assumido traficante de drogas colombiano.
De acordo com algumas estimativas, o Cartel de Cali controla 80% da cocaína da Colômbia, exportando-a principalmente para os Estados Unidos.
Diz ainda este interessante excerto que este jogador de xadrez é assim apelidado pela sua astúcia para se manter um passo à frente dos seus rivais e para evitar as autoridades. Mesmo possuindo uma violenta reputação, Rodríguez Orejuela prefere subornar do que usar a violência e, em muitos casos, é visto como um empresário de respeito na região…ora aqui está uma resposta esclarecedora.
O nosso amigo Santiago fará naturalmente parte desta família, mantendo o estatuto de vida que pude aqui presenciar.
Concluída esta minha passagem pela realeza, é chegado o meu tempo de regressar ao mundo real aproveitando uma carona do Leonardo que indo a Cali me depositará por lá, de onde seguirei o meu destino Colombia acima.
As minhas despedidas do patriarca Santiago Montecinos de Mendoza e da sua numerosa e simpática família foram naturalmente calorosas.
De novo a cavalo no Willys e de cabelos ao vento, aqui vamos nós sobre a carretera a caminho de Cali.
Tempo de queimar uma bela maconha presenteada por este meu camarada colombiano que, surpreendendo-me, me deixa um belo saco deste produto de qualidade superior para levar comigo.
-Que bien, Leonardo…muchas gracias, hombre…esta hierba es de muy buena calidad…es produzida en la finca?…pergunto com um olhar malandro.
Ao que o Leornardo me responde com um olhar ainda mais malandro, passando-me o Joint novamente para a mão.
-Disfrútalo, Chico….vaya con Dios, hombre!…está tudo dito, Francisco…em frente!
Este trajeto até Cali é naturalmente beneficiado pela qualidade superior desta maconha.
E aqui estamos em Cali.
Feitas as minhas calorosas despedidas a este camarada colombiano que dificilmente esquecerei pela experiência familiar que me proporcionou, bem como pela simpática carona circunstancial, é tempo de olhar para esta cidade e procurar situar-me.

Cali 4
A primeira impressão que tenho sobre este lugar é positiva, trazendo-me ao espírito algmas semelhanças com a cidade de Lisboa que conheci em 1971 numa visita de 4 meses que fiz a Portugal.
Há não só semelhanças urbanas, como também no modo de reagir das pessoas. Será que inconscientemente ando a desenvolver no meu espírito uma vontade de regressar ao velho continente europeu?…humm…nada nesta vida é por acaso.
Estamos já a meio da tarde A primeira preocupação concentra-se num tema principal…onde me vou instalar para dormir esta noite?

Cali 1   Cali 2
Resolvi rumar ao centro da cidade. Lá recuperei um folheto num quiosque turístico onde me dei conta que Cali tem algumas especialidades. Uma delas e talvez a mais marcante é que Cali é a cidade da Salsa (ritmo musical muito popular na América central e do sul) sendo dada uma especial atenção à vida noturna.
Sem meios e na condição limitada de saúde em que me encontro, este não será seguramente o meu objetivo.
A impressão quanto ao povo colombiano é igualmente positiva. Parecem-me pessoas com espírito aberto, não esquecendo algumas recomendações que me foram dadas sobre esta cidade por outros que por aqui passaram…olho vivo!….Cali está cheio de maladragem!
Com o cair da noite e com o dinheiro que não gastei enquanto estive na Finca de Sta Maria, encostei-me a um botequim para comer algo e procurar melhor entender qual será a melhor solução para me alojar na noite que se aproxima. O tempo está bom e o frio não incomoda….já não é mau….pensei!

Cali 3   Cali 5
Em conversa com alguns dos muitos forasteiros de várias nacionalidades que por aqui passam, uns vindo de Bogotá e outros como eu vindos do Ecuador, compreendi que muitos se acolhem num parque da cidade para dormir ao abrigo de umas árvores frondosas que há por ali.,,
Chegando a este parque confirmei o que me tinham informado pouco antes.
Está por aqui muita gente de passagem como eu e assim sendo adoto esta tendência, ficando por aqui para passar a noite. Se não chover já não é mau.
Dando ouvido às recomendações dos médicos que devo cumprir o máximo de descanso que esta vida errante me permitir, aqui me deixo estar para passar a minha primeira noite em Cali, deixando bem amarrado a mim a minha mochila que é o que me resta como bagagem.
Um novo dia começa nesta minha vida errante. O sol brilha e embora haja umas nuvens no céu penso que a chuva não vai surgir em Cali.
Neste parque onde rodam forasteiros de várias origens, vou trocando impressões com uns e outros e tentando melhor compreender o espírito colombiano.
Alguns dizem-me que Bogotá é cidade grande e com muitos riscos de bandidagem e outros vão-me passando algumas informações sobre Medellin, a noroeste de Bogotá, onde se concentram as maiores atividades dos cartéis da coca. Uma marca forte que caracteriza bem uma cidade muito bonita, segundo o relato dos meus companheiros de vida errante. Alguns dos que aqui estão tiveram a iniciativa de visitar igualmente a costa do Caribe (Oceano Atlântico) mais a norte. Falam-me muito bem de Cartagena, Barranquilla e Sta Marta. Lugares que naturalmente quero visitar se a tanto me ajudar o engenho e a arte de sobreviver nas condições que me oferece esta vida itinerante.
O dinheiro está a escassear e o que me resta de artigos de artesanato para trocar por algum dinheiro também já não representa nenhum conforto.
Há portanto que contornar esta situação com alguma imaginação.
Ao tomar ali perto um parco desayuno composto de alguma fruta e uns pães que são de fabrico típico da região de Cali, tenho novamente uma daquelas surpresas que o destino oferece sem pré-aviso…surge do lado do parque alguém acompanhado de mais dois muchachos…the one and only…Nuno Quadros.
Mais uma festa de emoções…mais um reencontro casual nesta América latina.
-Chicão!…exclama este meu companheiro de estradas do mundo.
-Nuno!…mais uma vez, mano velho…isto não falha! Respondo entusiasmado com um forte abraço.
-Como é? Estás com muito melhor aspeto, brother!…deixaste para trás aquele disfarce amarelo? Diz o Nuno com aquele ar sarcástico.
-É, aquela recauchutagem fez-me renascer e aqui estou back on the road…agora resta saber como é que vai correr esta passagem pela Colômbia…e tu estás em Cali há quanto tempo?…pergunto com um ar curioso.
-Cheguei há uns 4 dias aqui. Passei em Pasto onde fiquei em casa de uns freaks e apanhei uma boleia até aqui.
-Mas não estás mais magro, hombre? Dureza da vida, certo? E estás instalado onde? Pergunto com alguma expectativa.
-Eu estou onde calha, mano…tenho dormido em esplanadas de restaurantes e agora durmo ali no parque…comer é o que aparece…sabes como é!…e tu onde estás?
-Eu…é como tu. Cheguei ontem e fiquei aí no parque também junto de um grupo de forasteiros lá perto daquelas árvores grandes. Respondo.
-Pois é, Chicão. Cali é dureza…diz-me o Nuno contando-me ao longo do caminho de volta ao parque as impressões que colheu da Colômbia até agora.
Contei-lhe igualmente sobre a minha estadia na finca de Sta Maria e assim fomos de volta ao parque queimando um baseado daquela maconha que me ofereceu o Leonardo.
A conclusão a que chegamos é que o forte desta cidade é a vida noturna onde, para acompanhar o ritmo da salsa e outros ritmos bem típicos desta terra cheia de Salero, é preciso dinheiro que nós não temos….Cali é em regra uma cidade de passagem para forasteiros sem plata como nós.
Resolvemos então juntar esforços, reunir os trocos que temos no bolso e por aqui ficar mais este dia.
A ideia que acordámos é seguir novamente a dois rumo ao norte. Partiremos amanhã em direção a Bogotá.
No nosso espírito paira uma preocupação que nos assalta cada vez mais o pensamento. A escassez de novos recursos de sobrevivência e o confronto com um país agreste como nos parece ser a Colômbia.
A minha condição de saúde melhorou bastante com a minha passagem na recauchutagem de Guayaquil no Ecuador, mas temo que esta minha complicação hepática possa regredir com as condições de vida que estou a ver por aqui.
Esta noite pudemos trocar mais umas impressões com uns colombianos da nossa idade que gostam de dar-se com os gringos que vão passando aqui no parque.
Não restam dúvidas…temos que seguir o nosso destino rumo a norte.
Antes de adormecer, a minha conversa com o meu companheiro de aventura tomou uma nova direção.
-Sabes, mano?…tenho tido alguns pensamentos que me levam para o outro lado do mar. Digo ao Nuno com algum entusiamo.
-Como assim?…quis o Nuno saber com alguma curiosidade.
-Ando com uma vontade de continuar a viajar…não tanto para conhecer algumas regiões do norte como Cartagena, Barranquilha e outros lugares na costa do Caribe, mas um regresso à Europa passando por Lisboa.
-E como, Chicão?…a ideia é daquelas boas….mas não temos um tostão, mano. Responde-me o Nuno com alguma evidência no olhar.
-Se chegarmos a Lisboa e estacionarmos por lá em casa de família durante um tempo podemos fazer algum trabalho, reunir uma plata e seguir por aquela Europa que não conhecemos…tu não tens família em Lisboa? Pergunto ao Nuno com curiosidade.
-Tenho, claro….tios e tias entre os quais a irmã do meu pai que vive num casarão…desse lado não há problema….o problema é chegar até lá.
-Porra, Nuno…é que estou a ver que a vida aqui na Colômbia não vai ser doce…eu vivo com esta preocupação de tratar bem o meu fígado. Mas nestas condições que estou a viver, isto vai dar merda mais cedo ou mais tarde. Digo com semblante de natural preocupação.
-Bateu-me no espírito uma ideia que podemos explorar em Bogotá. Diz-me o Nuno com um certo brilho nos olhos.
-Diz lá!…respondo cheio de curiosidade.
-Porque é que não fazemos uma nova investida na Embaixada de Portugal em Bogotá como fizemos em Lima? Pode ser que saia daí alguma cena diferente e algum apoio da Embaixada. Que te parece?
-Mano velho. Respondo com entusiasmo. Penso que é um recurso a explorar quando chegarmos a Bogotá. Dois refugiados políticos num exílio forçado na América latina. Parece-me um bom script a explorar novamente. Na esperança de sermos atendidos por alguém português, certo?
-Ya, mano…vamos tentar essa por lá! Remata o Nuno virando-se para o outro lado e entrando no limbo.

Novo dia nesta cidade pouco atrativa e onde as possibilidades estão limitadas a este parque e a comer qualquer coisa nos botequins aqui à volta. A plata também não dá para mais.
O recurso que temos e depois de tomar um parco desayuno aqui perto é seguir até à saída de Cali em direção a norte. Sobre a estrada de Bogotá. 470 km pela frente.
A nossa espera por um transporte é penosa e dolorosa!…Damn!
Já estamos aqui à saída de Cali com um dedo no ar e um olhar simpático à conquista de um colombiano que se digne a levar-nos mais adiante.
-Entonces, cabrones?…que vos pasa?
No final desta dolorosa espera lá conseguimos a paragem de um pequeno camião que nos leva junto com outros mestiços até Ibagué…270 km…esperamos muito, mas a boleia não é má.
E aqui vamos no meio destes autóctones por montes e vales numa estrada onde as plantações de café e banana são de perder de vista…esta Colômbia é sem dúvida um país fértil.
Já vamos com meio caminho andado, quando encontramos o tráfego drasticamente parado.
O que é que causa isto?..algum acidente, pensei!
Passaram-se uns bons 10 minutos sem que soubéssemos a resposta.
Só quando vimos um outro camião vir no sentido contrário, compreendemos melhor o fenómeno através do diálogo entre condutores. Foi efetivamente um acidente grave com um autocarro cheio de gente que se despistou, tendo rolado ribanceira abaixo. Segundo este motorista informa, há vários mortos e muitos feridos a socorrer…muita miséria ao encontro de um grupo e de um incontornável destino…uma viagem confortável para os que partem e muita sorte para os sobreviventes.
Tempo de concluir…vai haver uma longa espera pois a estrada até Ibagué vai estar bloqueada durante umas boas horas em ambos os sentidos e por onde só passarão as equipas de socorro…está do melhor….sem nada para comer ou beber, vamos ter que nos virar durante este tempo que aqui ficamos.
Para comer não é muito difícil de adivinhar o que haverá no cardápio. Banana, seguida de um prato muito típico da região que é a banana e para nosso deleite uma sobremesa à base de banana que é muito requintada e deliciosa. Para beber, o Nuno negociou uma garrafa de água com um mestiço parado ali mais adiante.
-Nuno, é água engarrafada?pergunto com uma preocupação marcadamente hepática.
-Acho que sim, Chicão…mas sabes que o que eles dizem…vale o que vale…parece-e água sem gosto e sem cheiro…já não é mau! Responde o meu camarada com um ar desconfiado.
-Bem….venha ela!…e seja o que o destino quiser. Respondo com uma sede que não engana.

Acidente 1   Acidente 2

Esta nossa espera arrastou-se não por uma mas por três horas e devagar as autoridades lá foram deixando passar o tráfego nos dois sentidos.
Ao passar no local do acidente conseguimos ver o autocarro acidentado caido numa ribanceira a uns bons 30 metros abaixo da estrada…que grande miséria, pensei!
A nossa chegada a Ibagué dá-se bem mais tarde que o previsto.
Ibagué, segundo me conta um dos passageiros que fala razoávelmente espanhol, é a capital do departamento colombiano de Tolima. Fica às margens do rio Combeima e foi no século XIX por um curto período, capital da Colômbia.
Esta região durante um período colonial teve uma maior importância devido à presença de minas de ouro e prata. Depois de uma época de alguma estagnação, foi só a partir de 1880 que Ibagué passou a se destacar-se com a produção de café, cacau, tabaco, cana de açúcar e arroz….interessante!

Ibague banner
A nossa chegada tardia a esta pequena cidade implicou naturalmente a procura de um lugar para passar a noite.
Ao escolher um jardim público para o fazer, fomos abordados por um polícia que nos disse que não era permitido pernoitar por aqui…Damn!
Explicando que estamos de passagem para Bogotá, este senhor fardado com um ar meramente simpático lá nos disse que podemos passar a noite abrigados num alpendre onde a Polícia guarda os carros de serviço….o que nos pareceu bem pois o céu carregado ameaça uma bela chuva para esta noite.

Ibague 1   Ibague 2
O nosso dinheiro está no fim e o que pudemos comer além do nosso festival de banana durante o dia, foi uma espécie de sopa servida num botequim popular ao lado do posto da polícia.
Sempre dá para forrar ligeiramente o estômago…e vamos em frente.

Parte 2 – Bogotá – Um novo Turning point

Bogotá - Um novo turning point

Este novo dia não começa da melhor forma.
Estamos à saída de Ibagué há mais de 5 horas e ninguém se digna a levar estes gringos até Bogotá. Estamos a cerca de 200 km da capital colombiana….Damn!
Mas esta situação, como tantas outras já vividas nestes últimos meses, evolui e lá travou ao nosso lado um Willys de grande cilindrada que finalmente nos leva até ao nosso destino. Bogotá, capital da Colômbia.
Este percurso é feito de forma bem rápida em conversa com o nosso interlocutor que, ao seu estilo texano, nos deu mais algumas informações sobre a Colômbia e mais particularmente Bogotá.
Reparei que este camarada usa muito o termo Chévere, que já tinha ouvido do Leonardo e na zona de Cali. Ao perguntar-lhe o significado deste termo, explica-nos que se trata de um termo muito usado na Colômbia que corresponde ao legal brasileiro.
Ao entrar finalmente nesta metrópole sul americana, damo-nos conta de uma cidade geometricamente traçada numa planície rodeada por montanhas…enquadramento magnífico.

   Bogotá 2
No meu espírito paira uma imagem pré concebida de uma Colômbia perigosa e imprevista, imagem em parte inspirada nos tumultos provocados pelas ações de grupos de guerrilha e em parte pelo intenso tráfico de drogas e armas neste país.

Bogotá 1   Bogotá 3
Num primeiro contacto com a população desta enorme capital, temos mesmo assim uma impressão positiva. Simpáticos e atenciosos, os habitantes de Bogotá dão-nos a sensação de que aqui se fazem rapidamente amigos…Chévere!
Para onde vamos?…a tendência natural mantêm-se. Para o centro da cidade onde circulam mais gringos e onde poderemos ver as nossas possibilidades de alojamento e a exploração de recursos que nos permitam sobreviver nesta densidade urbana.
Estamos agora num parque central de Bogotá onde circulam muitos mochileiros.
Aqui temos pela primeira vez a noção do quanto a polícia vigia a cidade, pedindo sem rodeios os documentos de forasteiros como nós! E as perguntas são clássicas depois do controle de passaporte…que dinheiro temos?…onde estamos alojados?
Neste parque e numa tentativa de avaliar esta cidade, temos algumas trocas de conversas com outros gringos saboreando algumas maconhas de grande qualidade que há aqui na Colômbia e que vão sendo queimadas como fazíamos em Moçambique. Sempre com os sentidos bem alerta, dado que as autoridades em Bogotá andam em todo o lado.

Bogotá 4   Bogotá 5
Quanto às linhas de coca que vão circulando de mão em mão, vou evitando passar por aí, tendo em mente a minha recente aventura clínica.
Nesta avaliação e na observação de alguns fenómenos sociais do quotidiano de Bogotá, ficamos com uma noção mista entre uma sociedade amistosa, a avaliar pela atitude de alguns cidadãos a quem pedimos informações e a presença de perigos eminentes, a avaliar pelo semblante de outros grupos que nos deixam sinais claros de uma sociedade agressiva. Esta desagradável sensação já tivera tido de alguma forma em CaliColômbia no seu melhor!…pensei!
E com base neste parque, por aqui nos deixamos ficar nestes primeiros dias difíceis de Bogotá. Os nossos recursos acabaram e estou a sentir que com a parca alimentação que estou a fazer, o trabalho clínico feito no hospital em Guayaquil vai-se perdendo nestes contornos agrestes desta vida errante…dormimos debaixo da boa estrelinha e, quando chove a meio da noite, lá vamos nós com a mochila para um abrigo qualquer…prédio em construção…etc.
Hoje tivemos um episódio algo inédito num calle em pleno centro de Bogotá.
Numa esquina movimentada da cidade, trava à nossa frente um carro com 3 homens dentro. Um deles com cara de poucos amigos aponta-nos um revolver e grita!…
-He, los gringos!…venga la plata!…despacio!
Com o coração aos saltos e sem saber como respirar, estamos frios como o gelo a olhar para estes tipos com ar demasiado suspeito. Qualquer reação que possamos ter é incontornavelmente uma roleta russa….o pânico instalou-se nas nossas caras.
Num segundo e de forma instintiva, o Nuno abre os braços e eu sigo este gesto.
-La plata, cabrones!…grita outro de dentro do carro.
Sem saber o que fazer numa situação desta natureza, respondo com a voz cortada.
-Señores!…Nosostros estamos en Bogotá a morir de hambre y no tenemos donde dormir.
O Nuno reforçado pela minha argumentação, adianta.
-Nosotros no somos americanos…venimos de muy lejos y no tenemos plata ni para comer.
Olhando para nós de uma forma algo espantada, este tipo que tem uma arma na mão vocifera:
-Puta madre! Gringos de mierda!
E trocando entre eles umas frases agressivas, o tipo da pistola faz sinal ao condutor que arranca bruscamente num chiar dos pneus.
Acabámos de viver um episódio Hollywodesco da melhor qualidade…com o cusinho apertado e corados que nem tomates, olho para o Nuno dizendo:
-Porra, mano!…olha só que grande merda passámos aqui agora!
O Nuno algo aliviado responde. Pois isto na Colômbia é um autêntico western…puta que os pariu!

Bogotá 6   Bogotá 7

Os dias passam, sucedendo-se a noites mal dormidas e a uma alimentação totalmente precária. Trago no espírito fortes apreensões quanto à minha condição de saúde.
Voltei a perder peso. Eu o Nuno somos ambos altos e estamos a tornar-nos tipos muito esguios. Com algum espírito de humor diria que se chover passamos entre os pingos da chuva sem nos molharmos.
A degradação da nossa vida em Bogotá atingiu um ponto mais baixo de toda esta aventura sul-americana…só uma estrela cadente nos poderá reconduzir a uma vida mais decente.
Sob influência desta estrela movida pela lei da atração, o Nuno cruzou num bar aqui perto do parque umas americanas que devem ter gostado da cara dele e que metem conversa com ele. Nestas matérias o meu companheiro não brinca em serviço.
Trata-se de uma bela mulher de cabelo loiro, alta e bem fornecida de peitorais de nome Susan que, acompanhada de outra mais baixa, igualmente americana e também muito atraente de nome Jessica, estão sentadas num agradável bate papo onde já rolam umas cervejas. Algo raro nos dias que correm.
Quando me aproximo do grupo, o Nuno apresenta-me a estas duas guapas com um american accent que não engana.
Este encontro já serviu para algo de extraordinário. Estas duas amazonas um pouco mais velhas que nós e cheias de saúde, encomendaram uma refeição e compreendendo que estamos juntos, de onde vínhamos, e super interessadas na nossa história, nos convidam para as acompanhar nesta prática cada vez mais rara que é a alimentação.
Cerveja na minha condição hepática não foi uma opção, mas um suco de fruta e umas pizzas bem recheadas foram como tocar no céu….hummm!
Este animado encontro foi ainda mais interessante quando estas belas yanquis nos convidam a ficar uns dias em casa delas algures no centro de Bogotá.
Olhámos um para o outro e, piscando o olho, pensámos…hesitar quanto a uma matéria deste calibre é uma não-hipótese…o universo conspira a nosso favor…adelante, muchachos!
A casa delas situa-se num décimo andar de um luxuoso edifício numa zona elitista de Bogotá….estamos bem lançados.
Magnifica vista sobre a capital. Um status caído do céu para dois forasteiros vagabundos como nós. O nosso céu brilha de novo…Chévere!
Aqui dentro só se anda descalço pois a alcatifa de cor clara (direi um branco sujo) parece o lombo de uma gigantesca ovelha antes de ser tosquiada.
A decoração cuidada entre madeiras exóticas, quadros de estilo vanguardista nas paredes, plantas exóticas, fontes de água corrente e um belo aquário a dividir a sala de convívio da sala de jantar, são bem indicadores do standard de vida que há por aqui.
Não haja a menor dúvida que a primeira ação de grande entusiasmo foi o banho que pudemos tomar neste imóvel da realeza. Um verdadeiro prazer que teve um contraste a seguir…a roupa era sempre a mesma e até não seria uma ideia desprezível se pudéssemos lavá-la enquanto aqui estivermos. Tema que foi deveras fácil de contornar pois nesta casa havia pelo menos duas jovens colombianas contratadas para o serviço doméstico. Luxo é outra coisa, pensei.
A hora do jantar, estando nós com uma ar mais apresentável, foi animado e apareceram mais outros americanos sediados em Bogotá.
Neste contexto, deu para compreender que o marido desta nossa anfitriã Susan, integra estas missões ao serviço das Nações Unidas, passando em Bogotá entre missões.
A Jessica, segundo percebi, está por cá fazendo companhia a esta sua amiga de longa data.
Neste ambiente amigável, onde pude por as minhas mãos num belíssimo violão estacionado num canto da sala, dei ao nosso ambiente um pouco mais de swing, tendo este grupo de seguida passado à mesa onde foi servida uma copiosa refeição….hummm!
O prazer deste repasto foi no meu caso condicionado às minhas restrições alimentares que, embora o meu regime ande totalmente virado do avesso, sempre vou evitando algumas comidas incompatíveis com o meu fígado.
A noite foi igualmente da realeza…um colchão…lençóis limpos…o sono dos santos…

Bogotá 8  Bogotá 9

Neste ambiente de proximidade em que nos deleitamos durante estes últimos dias, houve momentos de alguma intimidade, tendo o meu camarada Nuno tido algumas noites agitadas com a Jessica. Um capítulo onde o Nuno está bem enquadrado como os peixes daquele fabuloso aquário no meio da sala.
Uma bela manhã e a pedido da Susan, saímos eu e o Nuno à rua para ir buscar algumas faltas cá em casa.
Ao regressar a casa, utilizámos o interphone do edifício no sentido de nos abrirem a porta da rua. Sem sucesso, tendo nós ficado do lado de fora do edifício durante uma boa hora.
Nisto somos abordados por um cavalheiro com um semblante inquisidor que pretende saber quem procuramos e o que pretendemos.
Respondendo simpaticamente às perguntas colocadas por este colombiano, fomos Insistindo no toque deste dispositivo…e assim fizemos durante uns 10 ou 15 minutos.
Este homem com cara de poucos amigos volta à carga dizendo que não nos conhece de parte alguma e que deveríamos esperar pelo regresso dos proprietários, em vez de insistir desta forma sobre o equipamento dos interphones.
E assim foi…que remédio!…por ali ficámos até ao regresso da Susan umas boas horas mais tarde.
Na manhã seguinte há alguma agitação na porta deste apartamento, seguida de uma conversa algo dura entre a Susan e alguém que viera tocar energicamente na campainha.
Só passado uns minutos é que entendi o motivo daquele reboliço.
Supostamente interessado em ver-nos daqui para fora, o cavalheiro que nos abordou ontem de manhã à entrada do edifício, que é finalmente o administrador em funções, fez uma queixa formal anunciando que o sistema de Interphones está avariado e que seríamos nós os causadores desta avaria. O tipo definitivamente não foi com a nossa cara!…pensei!
E como a vida é feita de altos e baixos, sentimos pelo ar pesado da Susan que algo estava diferente. Esta, com alguma seriedade no olhar, comunicou-nos que esta queixa iria tomar outros caminhos e que lhe estavam a imputar os custos da reparação, visto que a avaria teria sido causada por nós. Que estava desolada e não sabia como fazer.
Sentimos que a nossa sorte chegava ao fim, bem como este ciclo de prazer e vida saudável.
Compreendemos também que já não éramos bem vindos neste imóvel e que este episódio iria pesar sobre a nossa anfitriã que tão bem nos acolheu.
Tempo de repartir para estes dois moçambicanos à deriva em Bogotá. Tempo de agradecer esta passagem de puro prazer e enfrentar de novo a grande cidade.

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O nosso regresso às ruas de Bogotá foi como um retrocesso civilizacional. Não temos um tostão no bolso nem lugar onde dormir….vamos em frente!
À semelhança da minha primeira experiência de total degradação em Guayquil no Ecuador, enfrentamos a partir de hoje um regime de dificuldade extrema.
A solução para ir comendo alguma coisa foi radical. Mendigar nas ruas de Bogotá interpelando os passantes. O Nuno de um lado da rua e eu do outro.
O que vamos conseguindo sempre dá para comer aqui e ali algumas sanduíches e alguma fruta. Refeições completas foi algo que desapareceu do nosso quotidiano.
As noites passaram a ser em prédios em construção onde nos deitamos por cima de cartões que vamos encontrando aqui e ali. Enrolados em alguns jornais sempre se resiste melhor ao frio cortante das noites de Bogotá.
A nossa condição de vida está efetivamente num ponto muito baixo para dois jovens adultos que largaram uma vida agradável e aprazível na costa oriental de África. Por vezes à noite, tentando entrar no limbo de estômago vazio, vem-me ao pensamento a famosa frase do meu pai….fizeste essa cama….deita-te nela!…a luta continua!

Não dei mais notícias à família desde que a minha qualidade de vida entrou em plano inclinado. Entendi que quanto menos soubessem da minha precária condição, melhor seria e menos preocupação lhes causaria.
Profundamente preocupado com o meu retrocesso em termos de saúde, foi com algum pânico que verifiquei a cor preocupante das minha fezes e urina. Uma voz interior soa dentro de mim dizendo-me que o meu calvário hepático está a dar sinais claros de regresso.
Não quero entrar em pânico, mas algo vai ter que acontecer para mudar a nossa situação.
Assim andámos nos últimos dias aqui pela cidade. Uns verdadeiros desvalidos a viver da solidariedade de quem passa. O mundo à nossa volta está em tons de cinza e as nuvens negras nos nossos espíritos são uma constante.
Nesta manhã, ao acordar antes dos trabalhadores desta obra entrarem ao trabalho, e no sentido de nos pirarmos antes de ser escorraçados, o Nuno tem este discurso:
-Chicão!….esta merda está cada vez mais dura…tu estás a ficar novamente doente e eu se emagreço mais, o vento leva-me. Diz-me este meu companheiro com ar grave.
-Verdade, mano!…temos que pensar como sair desta. Respondo com o meu ar francamente preocupado.
-Acho que temos que passar na Embaixada de Portugal e tentar de novo aquela estratégia de Lima no Perú. O que te parece?
Eu, com algum brilho de esperança nos olhos, respondo:
-A perder não temos nada, Nuno. Vamos ver se temos algo a ganhar…concordo contigo!…por este caminho eu ainda vou ao tapete….e desta, se calhar, não me levanto.
-Vamos ver onde fica essa Embaixada. Diz-me o Nuno com ar determinado.
-Bora lá. Respondo sem hesitação. Paramos aí num posto de telefones e consultamos as páginas amarelas.

A nossa visita à Embaixada de Portugal em Bogotá dá-se nesta manhã do dia 28 de Julho de 1974.
Ao entrar neste edifício onde flutua a bandeira do Império, tenho de novo uma sensação de cidadania algo bizarra a flutuar no meu espírito. A grande questão que se põe é esta. Como seremos recebidos desta vez?
Ao entrar neste edifício, somos conduzidos a um balcão onde nos apresentamos de passaporte na mão e onde podemos agora contar genericamente a nossa história a um funcionário que nos recebeu.
Dois portugueses que nasceram em Moçambique e que, por circunstancias ideológicas contra o regime e contra a guerra colonial, resolveram exilar-se na América latina…e agora que o cenário político mudara em Portugal, aqui estamos para pedir o apoio da nossa embaixada para regressar a Portugal.

Embaixada 1
Com o seu ar de verdadeiro espanto, o nosso interlocutor que fala um português arrevesado responde:
-Senhores, queiram aguardar sentados enquanto apresento o vosso caso a alguém de direito aqui na Embaixada.
-Muito bem…gratos pela sua atenção….respondo e este homem de meia idade com aspeto colombiano e casado com alguma portuguesa.
Enquanto esperamos, cruzamos eu e o meu camarada um olhar de cumplicidade.
-Achas que vamos ter sorte, Chicão?….pergunta-me o Nuno com ar apreensivo.
-Tem que ser, Nuno!…daqui vamos para onde?…eu preciso de ajuda, mano…esta porra desta doença está de volta…não há outra saída!…respondo com igual apreensão.
Passada uma boa meia hora, somos convidados a passar para uma outra sala onde somos apresentados a um cavalheiro alto, bem parecido, com ar nobre e impecavelmente vestido.
Ao ver-nos entrar nesta sala com o nosso ar desvalido, pergunta-nos:
-Boa tarde…sois portugueses?
Quase em uníssono e estendendo os nossos passaportes respondemos:
-Sim, somos portugueses.
Depois de uma curta inspeção dos nossos passaportes, este elegante cavalheiro responde:
-O meu nome é António Trigo de Morais e sou o Embaixador de Portugal em Bogotá. Muito prazer!…Diz estendendo cordialmente a mão ao qual correspondemos com o maior respeito e satisfação.
-Queiram por favor seguir-me para me contarem o que vos traz a estas partes do mundo.
A conversa que se seguiu com este digno diplomata foi na linha do que já tínhamos contado durante a nossa receção. Com mais sumo, naturalmente.
-E sendo originários de Moçambique, o que vos leva a regressar não a Moçambique, mas a Lisboa?
Sem perder a convicção da nossa versão, explicamos que estamos com intenção de prosseguir os nossos estudos em Lisboa agora que tudo tinha mudado, tendo os nossos familiares decidido regressar igualmente a Portugal na sequência da revolução de Abril….vamos ver se esta versão é convincente…penso cá para mim.
Na conclusão da nossa conversa e após alguns momentos de reflexão, o embaixador Trigo de Morais retoma a palavra dizendo-nos o seguinte:
-Numa primeira avaliação do vosso caso e na constatação da vossa atual condição de vida, creio que a única alternativa de apoio que Portugal poderá conceder-vos será a vossa repatriação.
-Isso consta do quê, Sr. Embaixador?…pergunto desta vez com alguma curiosidade.
-Trata-se de uma exposição do vosso caso que terei que apresentar à administração central para apreciação e aprovação. Farei para tal uma proposição baseada nesta nossa conversa tendo como objetivo o apoio dado pelo Estado português no vosso regresso a casa. Teremos naturalmente que aguardar a resposta de Lisboa.
-E essa resposta pode demorar quanto tempo?…pergunta desta vez o Nuno preocupado com a nossa subsistência imediata.
-Este é um processo que vou dar início de imediato. Enquanto Lisboa não responde a este meu pedido, a Embaixada de Portugal irá promover algumas medidas de apoio imediato.
-E que tipo de medidas serão estas? Pergunto eu desta vez com uma ansiedade camuflada.
Com um semblante sério mas determinado, o nosso embaixador responde:
-Iremos recolher os vossos dados pessoais e contacto dos vossos familiares, guardando os vossos passaportes e alojando-os num hotel em Bogotá. Neste tipo de ajuda estarão incluídas algumas verbas para garantir o vosso sustento enquanto não temos uma resposta da administração central. Queiram por favor deixar com o meu assistente os elementos necessários. Daremos de imediato andamento a este processo.
-Muito obrigado por este apoio, Sr. Embaixador…responde o Nuno com um natural brilho nos olhos…ao que acrescento:
-Estamos muito gratos por esta ajuda que o país nos possa facultar…como pode verificar, a vida não está fácil para nós aqui na Colômbia.
Com um ar novamente sério, o embaixador complementando o seu discurso diz:
-Esta é, entre outras, a nossa missão ao nível da Embaixada…apoiar dentro do possível cidadãos nacionais na Colômbia…mas quero que saibam que todas as despesas incluídas no vosso processo de repatriação farão parte integrante de uma dívida que, na vossa qualidade de cidadãos, terá que ser reembolsada ao Estado português. Sem o qual vocês estarão impedidos de sair do território nacional…espero que entendam as regras e consequências desta nossa ajuda!
Olhando um para o outro, pensámos…lá vão os nossos pais entrar em despesas!
Para concretizar a ideia de continuar a nossa viagem pela Europa, fornecemos os endereço de uns tios em Lisboa…vamos ver como tudo isto vai correr!

Embaixada 2   EMBAIXADAS_PORTUGAL

Os dias que se seguem a este encontro na Embaixada de Portugal são marcados pelo nosso regresso a uma zona de conforto. O universo conspirou mais esta vez.
Dado que somos pessoas consideráveis, apesar de nos termos apresentado como dois verdadeiros maltrapilhos perante a diplomacia lusitana, somos alojados no Hotel Sheraton de Bogotá!…uma suite para cada…beliscando-me, certifiquei-me que é mesmo verdade!
É difícil de descrever a natural alegria que assaltou o nosso espírito errante que desde o dia 14 de Janeiro nos traz a navegar no imprevisto.
Tempo de descanso e nutrição… e para mim um olhar especial para o meu futuro imediato, vendo à minha frente a possibilidade de retomar a minha recuperação hepática….Good news!
Neste novo regime, vamos à embaixada duas vezes por semana para recolher algum dinheiro de bolso para as despesas quotidianas. Tudo isto a acumular numa dívida crescente para com o Estado português….enfim, o que tem que ser tem muita força!

Sheraton Bogotá 1   Sheraton Bogotá 2
No sentido de dar ao meu físico um melhor tratamento possível, aproveito para regressar à imobilidade, tendo passado a tomar umas ampolas bebíveis para ajudar o meu fígado a retomar as suas funções. E ele agradece.
Numa bela manhã e após algumas semanas desta dolce vita, recebemos uma mensagem na receção do Hotel para nos deslocarmos à embaixada para tratar de um assunto do nosso interesse.
Ao chegarmos ao edifício, somos recebidos pelo próprio embaixador que após nos cumprimentar nos comunica:
-Meus senhores, chegou esta manhã de Lisboa um telex com a resposta ao vosso processo de repatriação.
-Certo, Sr. Embaixador!…e quais são as notícias? Pergunto com enorme expectativa.
-Passo a ler o teor deste Telex. Autorizadas as expatriações para os cidadãos Francisco Cunha e Nuno Quadros para Moçambique.
Esta notícia cai à nossa frente como uma bomba. A emoção é forte e olhando para o Nuno entendo que a surpresa é afinal parcial. No nosso subconsciente sabíamos que esta era uma das respostas possíveis. Mas é uma resposta positiva e isso é uma grande notícia.
Com um semblante sério e olhando para nós, o embaixador Trigo de Morais confirma.
-Como podem compreender, foi feito um trabalho de investigação com os dados por vós fornecidos e é do entendimento das autoridades que o vosso destino será Lourenço Marques em Moçambique. Vamos recolher os vossos atuais passaportes e emitir novos passaportes válidos para os países onde farão escala. Brasil e África do sul. Tem algumas dúvidas quanto às determinações aqui anunciadas?
Lembrando-me de um detalhe com valor próprio, pergunto:
-Sr. embaixador!…tenho um pedido a fazer e penso que o meu colega Nuno estará seguramente alinhado comigo.
-Pois não, Sr. Cunha.
-Nós temos os nossos passaportes marcados com carimbos de inúmeros países e muito gostaríamos de os conservar. Como poderá a embaixada conceder-no este pedido?
Olhando para nós durante uns segundos, este nosso interlocutor diz:
-Compreendo o vosso ponto de vista. Não é norma comum conservar passaportes que são substituídos, mas para atender a este pedido especial teremos que anular os vossos passaportes e assim sendo…a título de exceção poderão conservá-los como um arquivo de viagem.
– Muito obrigado!…responde desta vez o Nuno com natural entusiasmo.
-Muito bem. Com as disposições tomadas iremos de imediato marcar as vossa passagens e preparar a documentação inerente. Em breve terão notícias quanto ao progresso desta vossa repatriação.

No dia 11 de Agosto de 1974 é chegado o tempo de nos despedirmos da Colômbia.
Um país de cariz marcadamente sul americano que nos deixa um sabor algo agreste e ao mesmo tempo emocionante.
A nossa companhia aérea será a Avianca. A transportadora nacional da Colômbia.
Tudo tratado, somos conduzidos ao aeroporto de Bogotá num veículo da embaixada e na companhia do próprio embaixador.
O dia é de sol aberto e este diplomata tem a delicadeza de nos acompanhar até a escada de acesso ao avião. Não fossemos nós escapar por algum motivo….pensei!
Na hora da despedida que foi naturalmente calorosa, este digno embaixador que ficará por longos amos na nossa memória, diz com ar cordial.
-Em nome da Embaixada de Portugal em Bogotá, quero desejar a ambos um feliz regresso a vossas casas. Queiram receber este último gesto que vos pode ajudar nesta viagem de regresso, bem como cartas de recomendação para as embaixadas de Portugal no Rio de Janeiro e Joanesburgo em caso de necessidade…boa sorte e até um dia.
Está assim consumada a primeira fase da nossa repatriação. Um último aceno do topo da escadaria a este simpático embaixador, antecede a nossa entrada neste pássaro metálico que nos levará até ao Rio de Janeiro no Brasil.

Avianca 1   Avianca 2
Ao sentar-me nesta avião e movido pela curiosidade, abro o envelope que acabo de receber da mão do embaixador. Dentro do mesmo encontro as tais cartas de recomendação e 150 US Dollars para fundo de maneio durante esta minha viagem de regresso a casa após 8 alucinantes meses neste fabuloso continente. Mesmo tratamento teve o meu camarada.

Adiós Colombia…te quedarás para siempre en nuestra memória….Chévere amigos!

Esta viagem na “Avianca” faz-se sem percalços oferecendo-nos no final mais uma chegada absolutamente fascinante à cidade maravilhosa, com uma vista transcendente e espetacular da baía da Guanabara.
Que prazer olhar de novo este deslumbre oferecido pelo Rio de Janeiro, Fevereiro e Março.

Rio - vista geral
Concluídas as primeiras tarefas oficiais de desembarque, passamos no controle de passaportes anunciando que estamos numa passagem de dois ou três dias no Brasil.
Ao que o oficial de serviço de fronteiras responde:
Portugal é pais irmão, gente!…qual dois ou três dias, cara!…toma aqui três meses e seja muito bem vindo!
Que bela receção, pensei…bom sinal!
-Muito obrigado, viu!…ambos dizemos a este simpático agente.
Uma vez no exterior do aeroporto, resolvemos apanhar um taxi na direção de Copacabana.
O nosso objetivo é bater à porta da Rose.
Trago no espírito uma expectativa de grande emoção. Voltar a ver aquela minha carioca que tanto marcou a minha existência.
E aqui estamos a percorrer a Rua Siqueira Campos até ao cruzamento com a Rua Alfredo Valadão. Paramos frente ao um edifício que bem me lembro desde a última passagem por cá. Nº 35….o coração bate mais depressa!
-Tens a certeza que é aqui?…pergunta-me o Nuno.
-Sim, claro…estive aqui com Bags quase 15 dias antes de arrancar para a Bolívia.
Desta vez quem nos abre a porta não é a Rose. É a sua mãe Celeste cuja surpresa no olhar se transforma rapidamente em lágrimas de emoção.
– Chico, meu filho! Diz esta simpática senhora quando nos vê, oferecendo-me um sentido abraço!
-Celeste!….respondo recebendo de bom grado aquele gesto quente. Este é o meu amigo Nuno.
Abraçando igualmente o Nuno, a Celeste dispara.
-Meu filho!…você não está com bom aspeto não!…está tão magro…o que foi que aconteceu, Chico?
-Estive doente no Equador com uma hepatite. Ainda estou recuperando. Mas Celeste, me diz onde está a Rose? Pergunto com notória ansiedade.
-Vamos entrando, meninos. Oh, Chico! Exclama a Celeste com um expressão angustiada. A minha filha me deu notícias faz duas semanas me dizendo que estava em Lima no Perú com a Regina e me informando que vocês dois já não estavam viajando juntos. Nesta carta ela escreve que estão contando regressar em breve ao Brasil. A partir daí não sei mais nada dela!…coração de mãe apertado, viu!
A minha expressão perante estas notícias não engana. A minha moral acaba de cair ao chão… tal era a minha vontade de voltar a ver esta carioca que guardei no meu pensamento.
-Oh! Celeste…que pena! Tinha tanta esperança de a encontrar por cá!
-Pois é, querido!…eu também queria muito ter a minha filhinha por aqui. Responde esta minha mãe da América do sul com um ar triste. Mas me contem?…estão no Rio de passagem?
-Este é o meu camarada com quem vim desde África em Janeiro. Andámos durante todo este roteiro ora juntos, ora separados e nos encontrámos de novo na reta final para fazer este nosso regresso a Moçambique.
-Ah! Tou vendo! Diz a Celeste com curiosidade no olhar. Vocês estão voltando pra casa, certo?
-Isso, fomos repatriados pelo Estado português. Responde desta vez o Nuno.
Na sequência desta agradável conversa compreendemos que a Celeste fazia questão de nos dar guarida durante os dias desta nossa passagem pelo Rio. Facto que naturalmente nos agradou e que aceitámos com entusiasmo.

Nesta nossa curta passagem no Rio, aproveitamos para rever as maravilhas desta cidade.
O tempo está diferente quando comparado ao período que aqui passamos uns 8 meses antes. Está vento e algum frio. Um nova visão do Rio de Janeiro.

Cristo-Redentor- 1
Esta tarde voltamos à praia de Copacabana onde percebemos que o cenário é bem diferente quando comparado ao mês de Janeiro. Pouca afluência à praia onde só alguns corajosos se aventuram dentro da água do mar.
Em conversa com alguns cariocas que cruzamos no calçadão, fomos informados de três lugares que vale a pena visitar na cidade maravilhosa. O  Pão de açucar que já tínhamos visitado com o Manuel Neto, a Pedra da Gávea, e o Jardim Botânico perto da Lagoa Rodrigo de Freitas num barro do mesmo nome.
Sendo informados que a partir da Pedra da Gávea temos uma vista do Rio de tirar o fôlego, obrigando no entanto a um esforço físico razoável para lá chegar, tratando-se de uma caminhada em plano inclinado deveras íngreme.
Ideia que morreu à partida com a minha delicada situação hepática ainda longe de estar estabilizada.
Restou-nos dar um giro pelo Jardim Botânico.

Jardim Botanico 1   Jardim-Botanico 2
Este lugar é um verdadeiro oásis de serenidade e paz no meio da agitação urbana.
Aqui encontram-se inúmeras espécies de árvores e flores, havendo espaços reservados para algumas espécies como o Bromeliário (laboratório de ensaios botânicos) , o Orquidário (dedicado às orquídeas), as plantas medicinais, o jardim sensorial, as plantas insetívoras , jardim japonês, e o Cactário (reservado a um quantidade de diferentes espécies de catos).
Que riqueza natural este lugar!
Saindo do Jardim Botânico, digo ao Nuno:
-Hoje é domingo. Vamos passar ali na General Osório para cumprimentar o Lucca?
-Boa !…quem sabe ainda nos arranja uma maconha para queimar.
E efetivamente lá encontramos o nosso Lucca que faz uma verdadeira festa quando nos vê.
-Puxa caras!….vocês aqui!…legal…podes crer!…por onde andaram todo esse tempo?
-A história é longa, Lucca…fomos dar um giro por essa América latina e estamos de passagem pelo Rio, regressando em breve a África.
-Ué, então não estão mais numa de Brasil? Pergunta este caricato personagem
-Não, amigo, amanhã ou depois já vamos!…responde o Nuno.
-Lucca, me diz algo. Cê tá sabendo onde podemos pegar um baseado pra fumar?
-Hummm…olha, eu não tenho bagulho comigo não, mas se me der um minuto vou falar com uns caras aqui perto e penso que não será um problema. Cês olha aí os meus negócios que eu volto logo, viu?
O bom do Lucca volta passado uns minutos com um joint já feito na mão dizendo:
-Amizade!…não sei o que é, mas é uma presença…tá?
-Valeu, Lucca!…cê é um amigão!

General Osório- 2   General Osório -1
Feitas as nossas despedidas, resolvemos ir até à praia fazer o calçadão de Ipanema e queimar aquele Joint que afinal é material bem aceitável.
Estava cumprido este dia de chegada ao Rio. Hora de pensar em jantar algures na cidade antes de regressar para casa da Celeste e do Sr. Alcides.
Como estamos com algum dinheiro gentilmente cedido pela Republica Portuguesa, decidimos entrar num destes botequins de ótimo aspeto que há por toda a parte nesta zona sul do Rio.
Apesar de me encontrar numa dieta algo rigorosa, ainda consegui passear as minhas papilas gustativas nas várias iguarias disponíveis. Este Rio de Janeiro é demais.
Esta noite em casa da Rose pudemos partilhar uma agradável conversa com a Celeste e com o pai Alcides, com quem ainda não tínhamos tido o nosso encontro.
Quiseram naturalmente saber das nossas aventuras no altiplano e saber um pouco mais da Rose que ainda por lá andava.
Conversa simpática que nos embalou para uma noite de sono muito bem instalados na sala.

Neste novo dia fomos brindados com um delicioso Café da manhã…um especialidade que eu já conheço nesta simpática senhora.
Temos hoje que visitar uma agência de viagens para ver a disponibilidades de voos na Varig em direção à África do sul.
Numa saída de malandragem e algo fascinado com este Rio de Janeiro que eu adoro, volto-me para o meu companheiro a quem digo em tom de desafio.
-Mano velho!..temos alguma grana no bolso. E que tal nos mandarmos para uma nova aventura a partir aqui do Rio? Temos passaporte válido para o Brasilalive and kicking…que me dizes? Em silêncio pensava igualmente que se ficasse por aqui acabaria por reencontar aquela minha carioca dos olhos de amêndoa.
-Chicão!…eu sei que por vezes sou louco mas tu abusas, mano…não tens fígado para estas merdas e acho que está na hora de regressar à savana….não te parece, mano?
Com o meu ar entre dececionado com a resposta do Nuno, mas consciente que o meu desafio era para lá do razoável, troquei uma batida de punho com este meu camarada dizendo:
-É verdade, a irreverência e o espírito de aventura são os últimos a morrer, mas és capaz de ter razão…vamos até casa que este meu fígado bem precisa.
Uma nova volta pela zona sul que é em regra bem agitada, e logo encontramos uma agência de viagens. Dado que o voo do dia seguinte não está cheio, não foi difícil encontrar uma solução para atravessar o mar. Partimos amanhã na Varig pelas 8h 30 da manhã.
Um novo roteiro pela cidade foi suficiente para eu sentir a vontade de me recolher em casa dos nossos anfitriões. O segredo para a recuperação hepática passa obrigatoriamente pela imobilidade.
-Cara!…eu vou ter que encostar no box!…isto está a começar a doer!…digo ao Nuno, apalpando a zona do fígado.
-Ya, Chicão!…vamos fazer o seguinte: Eu conheci uma turma lá em Niterói que são aqui do Rio. Se os encontrar vou jantar com eles. Mais logo eu pinto lá em casa, valeu?
-Ok!…sem problema, meu irmão!…vai e volta…eu tenho que me recolher…ontem abusei e hoje estou pagando a fatura.
Assim passei mais um serão em companhia dos pais da Rose. Eu sou um bom contador de histórias podendo tonar-me insuportável quando tenho uma boa audiência. Foi talvez o caso. A tradição mantém-se. Passámos mesmo assim uma excelente noite que ainda se tornou mais animada com a chegada do Nuno umas horas mais tarde.

Esta manhã e depois de um excelente café da manhã by Celeste Costa, servido obrigatoriamente mais cedo dada a hora do nosso voo, é tempo de seguir viagem. Um regresso a casa passados oito alucinantes meses na América latina.
As nossas despedidas da mãe Celeste e do Sr. Alcides são naturalmente calorosas e tocadas pela emoção.
-Meus filhos!…vão com deus. Diz com a maior ternura esta senhora que ficará para sempre no meu coração.
-Vão em paz e segurança!…diz desta vez o Sr. Alcides com tom afável que o caracteriza. As vossas famílias vão com certeza gostar de vos ter de volta a casa.
-Seguramente!…responde desta vez o Nuno pensando no filme que terá à sua espera…e muito obrigado pela estadia tão simpática que nos ofereceram.
-A nossa casa é a vossa casa! Diz a Celeste de sorriso aberto e trocando connosco um abraço apertado.
-Celeste, minha querida!…quero deixar uma mensagem para a Rose.
-Sim, meu filho, me diga!
-Quero que ela saiba que nunca saiu daqui de dentro. Digo eu colocando a mão no peito. E um dia, quando o universo conspirar, tudo farei para a encontrar de novo neste mundo.
-Vai com Deus, meu querido….não esquecerei o que você acaba de me dizer.
E concluídos estes momentos partilhados com alguma emoção com os nossos simpáticos anfitriões cariocas, é tempo de partir.
Dado que estamos financeiramente protegidos pelos dólares simpaticamente disponibilizados pelo Estado português, resolvemos apanhar um taxi ali mesmo na Siqueira Campos que nos leva diretamente ao aeroporto.

Concluídas as operações habituais de serviço de fronteiras e check-in com uma bagagem bem mais leve do que trouxemos em Janeiro deste ano, é agora tempo de embarcar neste pássaro metálico que nos levará para o outro lado do mar.
Ao caminhar para este avião, tenho um incidente inesperado. Uma garrafa de cachaça da famosa marca Pitú que quero trazer para Moçambique cai-me das mãos partindo-se contra o solo…Damn!
Com uma total contrariedade face a esta perda, pergunto a um funcionário que se encontra por perto se posso correr atrás indo ao free shop do aeroporto para recuperar outra garrafa.
Este funcionário meio aflito com um pedido desta natureza, mas compreendendo o meu desespero, diz-me:
-Oh, moço!…você corre até à gare e explica que se esqueceu de algo lá dentro de um banheiro. Se eles o deixarem passar, você compra a sua garrafa e vem correndo. Caso contrário cê volta para fazer o seu embarque…é tudo o que posso fazer, viu!
Correndo de volta para a gare, quis a sorte que a minha explicação resultasse e por especial favor lá consegui trazer uma segunda garrafa de cachaça da mesma marca que iria comigo até ao continente africano…uffff…há malandros com sorte!
Transpirado e a rebentar de cansado, lá me sentei ao lado do meu camarada que com um olhar de cumplicidade me diz.
-Natural não treme, Chico….vamos até África

Varig 1   Varig 2
Com a sensação de uma descolagem perfeita naquela pista carioca, algo de muito intenso me percorre agora os cinco sentidos.
Como o sussurrar de uma voz interior que me diz:

Que epopeia Chico!…que grande ano!…que fabuloso continente!

África mãe…aqui vamos nós!

Brasil -Aqui vamos

 

Continua no próxima quarta feira dia 17 de Junho de 2015

13 comentários

13 thoughts on “O cartel colombiano

  1. Admirável espírito aventureiro desses 2 Mozs.!!!!!

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  2. Maria Teresa.Barbosa.

    Mais uma bela discrição,com umas passagens verdadeiramente notórias,saliento a sua curta estadia na casa da família Montecinos Mendonça,houve um certo ambiente que poderia amedrontar qualquer mortal,pois o encontro com um dos filhos que acabou por lhe oferecer,tão principesca hospedagem,levou-me a fantasiar que pudesse haver algo perigoso.
    Estão em determinadas descrições de tal maneira realistas, os motivos que me levam por vezes a temer pela vida deste destemido jovem.Ainda hoje me dá vontade de dizer; Cuidado com a saúde.
    A nossa viagem continua.Saudações amigas .M.Teresa.

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  3. Grato pela atenção que me concede Maria Teresa.
    Neste episódio ainda as desventuras vão sendo contornáveis…mais à frente tudo se complica novamente…mas o Sol nasce todos os dias e vamos em frente…grande abraço querida amiga!

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  4. Esse regresso a Moz. vai dar que falar…..tou pagando para ler!!!

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  5. Maria Teresa.Barbosa.

    Mais um episódio,recheado de bons e complicados momentos.Admiro a coragem e tenacidade destes dois jovens bem nascidos e criados o,terem aguentado esses dias de quase humilhação.Parabéns a estes dois rapazes que deram provas de grande capacidade,física e mental.Aguardo com muito interesse a continuação da que continua a ser também a minha viagem.Meu bom amigo ,pois já assim o classifico,saudações muito amigas da M Teresa

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  6. bem …. é hoje, dentro de umas horas, q saberei se acabaram virando, antes de chegar a Jo’burg, a garrafa de Pitu

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    • Grande amigo,
      A garrafa de Pitú foi apreciada pela family buddy! Eu seguramente não lhe pus o bico pois o meu fígado estava zangado comigo…anyway…quem a provou achou que uma garrafa era curto.
      Grande abraço!

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  7. A estas minhas Teresas tão especiais direi,
    É tempo de fazer uma pequena pausa…movida por duas viagem através do oceano Atlântico em dois enquadramentos diferentes, em sentidos contrários e marcados pela coincidência de pertencerem à mesma história….com uma diferença de 41 anos no tempo.
    Parece enigma mas não é!…para breve a revelação desta curiosa convergência…nada é por acaso neste mundo…o universo conspira…até breve!…um forte abraço!

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  8. Ok Chico, cá ficamos a’ espera do teu regresso e desejando que essas viagens, que despertaram muita curiosidade pelo que referes, te corram da melhor maneira possível. Certamente que sim, pois como tu mesmo dizes, “natural não treme”!!!!
    Abração e ate’ breve!

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  9. Maria Teresa.Barbosa.

    Curiosa como sou ,fico aguardando o próximo episódio .Um enigma que não é ,ainda mais curiosa me deixa .Saudações amigas.M.Teresa

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  10. lenocas

    O’ Chico,vim ca’ hoje dia 26 para ver se tinha mais historia, levaste um raspanete dos velhos e pronto tudo bem,pena estar a chegar ao fim mas gostei dessa louca aventura, depois segue a aventura do retornado, como eramos chamados em tempos que ja’ la’ vao.
    Beijinhos mano.

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  11. Oi Lena,
    Quem disse que levei um raspanete dos velhos e quem disse que esta história chegou ao fim?
    Não miga, ainda há muito para contar. Agora num outro ambiente. No Moçambique da transição da colónia para a independência com todos os episódios que acompanharam esta fase…para breve a continuação…grande abraço miúda!

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