O trem da morte

O trem da morte

Parte I

Puerto Quijarro 1

3.400 km de fronteira dividem o Brasil e a Bolívia, o país mais rico e o mais pobre da América latina, respetivamente.
Estamos num posto fronteiriço de múltiplos contrastes onde circulam diariamente centenas de cidadãos de vários tipos e nacionalidades.
Puerto Quijarro é um pueblo muito típico de onde arranca a nossa próxima epopeia.
Uma viagem lendária no denominado El Tren de la muerte.
Quando ainda nos encontrávamos no Rio, lembro de ler lido algures que segundo um relatório da ONU, a Bolívia é o terceiro produtor mundial de cocaína, e o Brasil, o seu principal destino.
Aqui faz-se a grande passagem da cocaína oriunda da Bolívia que é uma das receitas importantes da economia do país, atravessando diariamente este posto fronteiriço, camuflada na roupa, em malas com fundo falso, ou mesmo nas partes íntimas dos traficantes.

Puerto Quijarro 2   Puerto Quijarro 3
Aqui passa igualmente um importante fluxo de homens e mulheres que procuram uma condição de melhor vida no Brasil. Circunstâncias que são uma preocupação acrescida para as autoridades locais.
A arquitetura em Puerto Quijarro é muito típica, deixando transparecer os traços de um pueblo fronteiriço do 3º mundo onde as feições do povo não escondem a sua origem índia, sendo predominantes os seus traços mestiços, fruto da ocupação espanhola.
Adquiridos os nossos bilhetes, é tempo de tomar algumas providências. Fomos aconselhados a comprar alguns mantimentos por aqui, pois a bordo deste famoso trem o conforto fica em terra e os poucos serviços a bordo deixam muito a desejar.
Assim, e trocados uns cruzeiros por pesos bolivianos, adquirimos água engarrafada, alguma fruta, pão e uns enlatados que sempre servem para compor o nosso quadro de nutrição que vai ser o possível, face às circunstancias.

Puerto Quijarro 4   Puerto Quijarro 5
Fomos igualmente informados que esta nossa aventura ferroviária de 600 km que nos levaria até Sta Cruz de la Sierra iria desenrolar-se ao longos dos próximos 2 dias, sendo de umas 30 horas, se tudo correr bem…nada mau como perspetiva!
Tentei igualmente compreender a razão do nome atribuído a esta linha lendária.
Percebi então que o Trem da Morte recebeu este nome por causa dos frequentes acidentes com mortes e por ações causadas pelo tráfico da cocaína. Outra perspetiva alucinante!

Trem da morte ao por do sol
Ao penetrar neste singular meio de transporte, temos a sensação de estar a embarcar para uma viagem com destino incerto numa região do mundo tão bizarra quanto fascinante. Ao olhar em meu redor lembro-me daqueles westerns passados no México e digo aos meus colegas de aventura tão perplexos quanto eu:
-Vocês já viram onde estamos, gente?…parece um filme do John Wayne.
-Isto é muita loucura!…diz a Rose com um ar entusiasmado.
-Vão-se acostumando, meninos! Diz o Bags que tem uma especial atração pelo imprevisto.
Acomodados da melhor forma possível numa das composições, sentimos de imediato o estilo de viagem que temos pela frente.
Ouvidos três sonoros apitos da locomotiva estamos finalmente em marcha…e o que for será!
O Tren de la muerte parte assim da estação de Puerto Quijarro seguindo em marcha reduzida e fazendo a sua primeira paragem um pouco mais à frente em Puerto Suarez onde atinge a sua total capacidade.

Puerto Suarez 1   Puerto Suarez 3
Aqui o pandemónio é geral com um intenso movimento de entrada de novos passageiros e mercadorias. O espaço onde estamos está agora totalmente repleto de povo, mercadorias amontoadas de forma desordenada, animais e uma concentração de bagagem pessoal onde não se sabe quem carrega o quê!
Atordoados, olhamos uns para os outros. Eu digo:
-Meus amigos!….bem vindos ao Apocalipse!
-Cara, onde é que nós nos metemos? Pergunta a Rose, soltando um sorriso misturado de excitação e alguma apreensão face aquelas condições de viagem.
-Carioquinha!…você ainda não viu nada! Diz o Bags com entusiasmo nos olhos.

Puerto Suarez 5   Puerto Suarez 6
De novo em marcha e uma vez ganhando alguma velocidade presenciamos de imediato dois fenómenos. O balançar destas carruagens que é notória e o ruído metálico sobre os carris que é intenso.
Resultante dos primórdios de uma inovação ferroviária, esta locomotiva movida a Diesel, pára ao longo do trajeto sempre que surge um poste com indicação luminosa.
Isto normalmente acontece em pequenos povoados rurais e em algumas vilas um pouco maiores, como mais adiante em San José de Chiquitos.
Uma vez chegados aqui, assistimos a outro fenómeno típico deste famosa linha. Um entra e sai de gente que segundo um chileno que viajava perto de nós, nos diz :
Esto ocurre en todas las estacionesincluso en la madrugada.
Nestes pontos de paragem somos invadidos pelos comerciantes e artesãos locais que nos encharcam os ouvidos e a paciência com produtos que impingem compulsivamente aos passageiros e sobretudo aos turistas que chamam de gringos. Desde queijos, café, empanadas (pastéis de fabrico local), sumos, uma limonada algo duvidosa e pratos já confecionados de comida local.
A venda destes refrescos é feita num balde de metal, com uma pedra de gelo boiando dentro de uma espécie de sumo, sendo mexido pela mão do vendedor de vez em quando, servindo os fregueses com uma concha e utilizando um saquinho de plástico como copo…é o que há, gente! Penso para os meus botões…Bien venidos a Bolívia!
De quando em vez aparece um fiscal da companhia para picar os bilhetes acompanhado de um militar, não se importando de quem está a dormitar. Toca a acordar!

Rails 1   Interior trem da morte -2
Passadas algumas horas desta primeira fase do nosso trajeto e aflita com as necessidades fisiológicas, a Rose diz-me:
-Chico, preciso de um banheiro…como vamos fazer?
Por indicação do Bags que já conhece esta aventura, somos informados que o suposto sanitário é na parte traseira do trem.
-Cê vem comigo, Africano? Pergunta-me esta minha companheira com um olhar suplicante.
-Claro que vou, querida!…aproveito e trato de mim também!
A viagem até este local é deveras atribulada entre passageiros, mercadorias e tudo mais que se possa imaginar.
O nosso encontro com esta instalação sanitária é no mínimo caricata. Depois de uma espera por alguns usuários de diferentes raças que ali estão a viver como nós momentos de aflição, descobrimos que o dito sanitário unisexo não passa de um depósito metálico com um buraco que dá para os trilhos. Uma operação fisiológica complexa devido às condições precárias de higiene e ao balanço deste comboio que é expressivo, face ao estado deveras duvidoso da linha. El Tren de la muerte no seu melhor!

Interior trem da morte -3   Interior trem da morte -4
Ao longo desta viagem há várias paragens no meio do nada.
Algumas delas para uma inspeção sumária dos passageiros por parte de uns tipos algo sinistros.
-Gente! Isto são agentes de la Interpol que combatem o tráfico diário de coca! Na viagem de ida esta inspeção é ligeira. No regresso é bem mais séria. Informa o Bags.
Outras vezes as paragens devem-se a reparações na via onde são trocadas as sulipas (vigas transversais de madeira onde assentam os trilhos), sendo frequentes os descarrilamentos ao longo da viagem…uma bela perspetiva esta também….pensei!
Conta-nos o nosso companheiro de viagem chileno que da última vez que fez esta viagem tiveram uma paragem de 5 horas no meio do mato.
-Eran unas 5 hs de la mañana, cuando vimos dos personas tirando un freno de emergencia en nuestro vagón. El coche delante había ido fuera de los carriles y comenzó a ser arrastrado por la tierra. Inmediatamente todo el tren se detuvo, muchas personas vinieron abajo y siguieron a la operación para reemplazar a volver a la pista. Básicamente, lo que hicimos fue liberar el vagón descarrilado y moverse hacia adelante y hacia atrás, con la ayuda de un mecanismo adecuado que le llevó de nuevo en marcha….outra bela perspetiva…disse novamente para os meus botões!
Já levamos um dia de viagem. Dormir sobre bancos duros de madeira não é tarefa fácil neste ambiente com o forte sacudir destes vagões e com um ruído contínuo e deveras irritante. Um dormir aos retalhos conseguido à custa de um cansaço que já não tem medida.
Mas os habitués desta linha não têm problemas com isto. Deitam-se simplesmente no chão pelos corredores. Os fiscais que vão passando ficam na ponta dos pés desviando-se para ir avançando sem pisar a cabeça de alguém. As nossas idas ao sanitário de serviço revelam-se uma total aventura. Uma das vezes fiquei à espera que um tipo acordasse pois pôs-se a dormir encostado à porta deste majestoso aposento.
Faz umas duas horas que estamos de novo parados e a situação revela-se de novo caricata.
Nesta linha que liga Puerto Suarez a Sta Cruz de la Sierra circulam duas composições em sentido oposto. Neste momento estamos estacionados numa linha lateral à espera que passe a composição oriunda de Sta Cruz…haja muita paciência! Ao menos dá para dormir qualquer coisa.
A paisagem não é excecional. O nosso trajeto faz-se essencialmente através de uma planície pantanosa sem fim com grandes extensões de mato em estado virgem. A variedade faz-se num único ponto em que existe uma pequena serra, com umas formações rochosas.
Ao fim de 38 horas desta inesquecível viagem, onde a fome, a sede e o cansaço já ultrapassam a nossa perceção, aproximamo-nos finalmente do nosso destino. Santa Cruz de la Sierra.

38 horas de resistência
Em jeito de reflexão e com o meu pensamento focado naquilo que pude observar da vida tão simples e tão humilde de uma população predominantemente mestiça, onde o sangue índio fala mais alto que o espanhol, revejo esta nossa aventura e penso:
Um percurso de quase 2 dias sem ver qualquer traço de civilização ocidental, nenhum anúncio de Coca-Cola, ou de uma qualquer cerveja.
Um cenário civilizacional que não deixa de ser chocante. Crianças que se mijam sem que os pais se importem com isso. Pessoas com papagaios de estimação no braço ou no ombro com os bichos defecando em cima deles. O lixo que é atirado pela janela fora como se fosse muito natural, vendo-se nos vários apeadeiros e ao longo do trajeto muitos resíduos da presença humana.
Apesar de tudo isto, é simplesmente extraordinária esta passagem lendária longe da civilização ocidental sobre uma infra-estrutura ferroviária que toma muitas vezes contornos de uma comédia trágica.
Extremamente cansados, a precisar de um bom banho e de um sério repouso sobre um colchão de verdade longe daquele constante balanço e daquele ruído continuado, saímos deste Tren de la muerte com a sensação de ter deambulado num inacreditável sonho (ou pesadelo?), de olhos abertos.
Que ganas de ter uma máquina fotográfica para registar tantos momentos inéditos, tantas situações insólitas vividos na primeira pessoa numa passagem tão desconfortável quanto única que viverá certamente na nossa memória para o resto das nossas existências.

Santa Cruz de la Sierra 1   Snta Cruz de la Sierra 3

Em conversa com o nosso companheiro de viagem chileno, compreendi que Santa Cruz de la Sierra situada na margem esquerda do rio Piraí, é não só a mais populosa cidade da Bolívia, mas também o departamento mais rico do país, respondendo por mais de 30 por cento do produto interno bruto boliviano.
A partir dos anos 70, o desenvolvimento da Bolívia foi estruturado em torno de três grandes cidades sobre um eixo económico – La Paz, Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra onde nos encontramos. Este crescimento vai assim dando origem ao surgimento de três áreas metropolitanas.
Ao chegar, sentimos que o calor aqui aperta e a necessidade de tomar um banho é agora um objetivo primordial.
O Bags trazia um novo contacto dado pelo Kelp, sendo este o nosso objetivo do momento. Encontrar esta casa e orientar a nossa vida a partir daí.
O peso das nossas mochilas faz-se sentir. Ou será o peso do corpo?
A ideia é dirigirmo-nos ao centro da cidade onde está a denominada Plaza de Armas que é o ponto a partir do qual se desenvolveram as cidades no período colonial hispânico. Começamos por perguntar aqui e ali onde seria este bairro e depois de algumas indicações populares lá chegamos ao nosso destino.

Santa Cruz de la Sierra 2
Estamos face a uma casa grande com um pátio interior com traço arquitetónico de influência hispânica e a precisar de alguns cuidados, onde moram dois irmãos e uma numerosa família. À nossa chegada, aparecem uma quantidade de crianças que imediatamente nos chamam de gringos. Atrás destes surge um homem com semblante mestiço, camisa bordada com uns símbolos vistosos, calça clara e botas de cavaleiro que nos interpela.
Hola!…que tal!…que buscan ustedes?
Acenando com a cabeça, o Bags abre um papel que traz na mão dizendo.
-Sr. Cataldo reside aqui?
Si, es mi hermano!…yo soy Javier…y ustedes?
-Nós viemos da parte de um amigo que esteve aqui faz pouco tempo. Responde o Bags numa intenção de espanholar a frase. Esse nosso amigo se chama Kelp.
Este nome gerou um sorriso na cara do nosso interlocutor. Bom sinal, pensei.
-Si!….claro, Kelp…me acuerdo, claro. Un rato, voy a llamar mi hermano.
-Será que vamos encontrar aqui um poiso para tomar um banho e descansar uns dias? Seria ótimo!…digo à Rose com a esperança no olhar.
-Por mim um banho e uma noite num colchão! já nem peço mais! Responde a Rose exausta!
Nisto o nosso anfitrião aparece com um outro tipo igualmente mestiço e um pouco mais alto vestido com uma camisa florida, umas jeans de marca e umas botas cardadas do mesmo estilo.
-Hola, hombre!…soy Cataldo! diz este esticando o braço ao Bags para o cumprimentar.
-Oi!….responde o Bags correspondendo calorosamente a esta receção. Somos amigos do Kelp, chegamos agora no trem do Brasil e viemos para ver usted.
-Claro! Amigos de Kelp son mis amigos. Pues venga…vamos entrando! Diz este figurão depois de nos cumprimentar também.
Na sequência deste encontro favorável desenvolve-se agora uma conversa amistosa no interior de uma sala meio escura e fresca, durante a qual nos são servidas umas limonadas frescas e onde expomos a nossa intenção de ficar uns dias por Santa Cruz.
Compreendendo que não tínhamos reservado nenhum Hostal onde ficar, este nosso anfitrião chamou umas mulheres dando instruções para preparar uns aposentos algures nesta enorme casa onde à partida ficaremos alojados.
Um olhar partilhado entre nós não esconde um certo alívio. As coisas estão a correr bem….so far so good.
Os nossos aposentos ficam nas traseiras da casa onde acedemos subindo por uma escada em caracol para o piso superior, seguindo duas jovens que tratam de nos instalar num quarto amplo com 4 camas de ferro forjado e uma decoração bem rústica.
Estamos efetivamente num novo mundo. O ambiente é de uma autêntica Hacienda mexicana.
A higiene não é o ponto alto e as roupas já terão sido novas noutra época.. Olhando em redor para as paredes onde a tinta que um dia foi branca, nota-se bem o desgaste e a idade da casa onde estão presentes marcas dominantes de um catolicismo assumido.
Em silêncio, penso. Depois de uma viagem no trem do Apocalipse isto é ótimo!
Eu e a Rose tratamos instintivamente de juntar duas camas e arrumar a nossa bagagem na lateral, tendo o Bags feito o mesmo.
Uma das moças indica-nos agora um cubículo fora do quarto que é o nosso WC.
-Comparado com o do trem, é luxo! diz a Rose com uma certo ar trocista.
Confirmando que não há neste cubículo um local destinado a banhos e fazendo recurso a alguma arte gestual, a Rose pergunta à moça onde é que poderemos tomar banho.
Fazendo sinal esta moça de traço índio pede que a siga.
Passado momentos, a minha namorada volta aos nossos aposentos com um ar divertido.
-Gente! Tomar banho é lá fora com um deposito metálico todo furadinho que se enche de água fria e se vai abrindo conforme se precisa de água. É o que há, meninos! Pouco me importa!….já tou indo!…água…água!
-Antes de ir, prova aqui uma maconha boa do teu país!…diz o Bags passando um baseado à Rose.
E efetivamente pudemos assim cumprir a nossa primeira necessidade. Tomar um banho que mesmo de água fria teve o sabor de um duche de Hostal.
De volta à casa dos irmãos e depois de mais uma conversa com os nossos anfitriões sobre Santa Cruz e a vida local, cedo percebemos que estamos num ambiente onde a coca joga em casa.
Estes irmãos trazem ao peito aqueles colares de fio de prata com as tais colheres pequenas penduradas, apresentando sobre uma mesa de madeira, uma caixa tipo cigarreira em prata trabalhada cheia da tal branquinha tão famosa nesta terra.
A constatação da qualidade não deixa dúvidas!….estamos na terra dela! Muito comparável à que o Kelp trouxera meses antes para o Rio. O nariz já dorme!

Tempo agora de ir comer uma refeição consistente. A última a que tivemos direito foi em Corumbá, 3 noites atrás.
Aconselhados pelo nosso anfitrião Cataldo, entrámos num restaurante típíco não longe dali, tendo antes procedido aos câmbios dos nossos cruzeiros e alguns dollars por pesos bolivianos.

Gastronomia 1   Gastronomia 2
Ao olhar para o cardápio veio-me ao pensamento o que o Kelp nos contava lá no Rio quanto ao custo de vida na Bolívia.
-Super barata a comida aqui, gente! Diz a Rose fazendo mentalmente a conversão.
-É! E segundo aquele chileno que vinha no trem, a comida em Santa Cruz é muito boa. Responde o Bags com um olhar guloso sobre a ementa.
-Que esta cidade tenha fama de boa gastronomia, acredito, mas eu gostava é de saber o que vou comer. Digo olhando surpreso para o menu.
Em voz alta comecei o meu discurso:
Majao ou majadito, locro e patasca, cuñapé, zonzo, empanada de arroz, queso, jigote de carne, bizcocho de trigo, masaco de plátano e de yuca, arepa e queque. Nas bebidas sumó e chicha. Compreenderam ou faço um desenho? Pergunto aos meus companheiros de viagem com o meu ar trocista…risada geral!
-Deste Majao e este Patasca me lembro. Uma delícia!…lembra o Bags com olhos gulosos.
Escusado será dizer que apesar das dificuldades de saber o que estamos a comer, o que é certo é que está delicioso face a dois fatores essenciais. A fome que é negra e os preços que são deveras convidativos.

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Reparei num detalhe em algumas mesas. Os utentes deste restaurante, na sua maioria hippies, estrangeiros trazem uma caixinha de prata que colocam em cima da mesa.
Não demorei a compreender o que continha aquela caixa quando vejo os presentes fazer uso das famosas colherinhas de prata pendentes ao peito. Santa Cruz no seu melhor!

Gastronomia 5

 

Esta noite dormida sobre um colchão foi uma viagem de Alice ao país das maravilhas. Uma passagem pelo limbo onde o balanço do trem e o ruído dos trilhos nos acompanharam como um efeito residual, mas sem nos impedirem de oferecer ao cérebro e ao corpo o merecido descanso…espetáculo!
Há algo nesta cidade que me fascina particularmente.
O percurso de um revolucionário de nome Ernesto Guevara denominado pelos companheiros de grandes causas como El Comandante e pelo mundo inteiro como Che Guevara.

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Tentando melhor enquadrar a relação do Che com Santa Cruz de la Sierra, passei num quiosque da cidade no intuito de colher algumas informações neste sentido.
Dado que a Bolívia, como o Brasil, estão atualmente debaixo de um severo regime militar, este tipo de informação não está exposta nas primeiras linhas de venda.
Com alguma insistência, este vendedor lá me deixou pôr os olhos numa brochura onde se pode ler o seguinte:

El Comandante era um homem de convicções fortes. Consciente da necessidade de estender a luta armada revolucionária a todo o terceiro mundo, Che Guevara impulsionou a instalação de grupos guerrilheiros em vários países da América Latina.
Estes movimentos tiveram a sua maior expressão entre 1965 e 1967 no Congo e na Bolívia.

Che 2   Che 3
Neste período desenvolveu a guerrilha Cubano-Boliviana com especial incidência na cidade de Vallegrande (Departamento de Sta Cruz de la Sierra) que culmina com a sua captura.
Ernesto Guevara é sumária e clandestinamente assassinado pelo exército boliviano, em colaboração com a CIA, a 9 de outubro de 1967.
Partia assim um dos grandes mitos do nosso tempo e um estandarte pela libertação dos povos….pensei.

Neste quarto, quando nos encontramos sós, eu a a minha carioca aproveitamos para viver esta paixão que não tem sido saboreada perante as circunstâncias de um viagem deveras atribulada. Por isso estes momentos são tão deliciosos. Adoro esta taurina!
No quotidiano da casa grande respira-se um ambiente de cartel que tem atraído especialmente o Bags.
Passam por aqui vários freaks de várias origens com o objetivo de comprar e seguir viagem. Uns para norte, outros para o Brasil.
Através de um grupo de argentinos que aqui passaram hoje, tivemos uma noticia curiosa.
O meu companheiro Nuno Quadros já tinha passado por Santa Cruz na semana anterior, tendo seguido a caminho de La Paz. Ainda o cruzaremos por lá!…pensei.
Um ritmo diário de consumo de coca nesta casa vai sendo excessivo e tenho aqui pela primeira vez a noção do quanto esta prática se transforma facilmente numa dependência.
Refletindo sobre esta tema, tentei conhecer melhor o histórico e o processo de transformação da cocaína. Voltei ao tal quiosque de onde trouxe um texto interessante sobre esta matéria.

Coca 1   Coca 2

A planta da coca é um arbusto de cerca de 1,20 m a 1,80m de altura, amplamente cultivada na América do Sul, em particular no Peru e na Bolívia e cresce melhor nos vales quentes das encostas orientais dos Andes, situados entre 1.500 a 2.000m acima do nível do mar.
As folhas têm formato oval, com 5 a 6 cm de comprimento, o arbusto dá flores pequenas e brancas e produz frutos vermelhos igualmente de formato oval.
O uso da folha da coca por parte do nativos da América do sul tem provavelmente mais de 1200 anos.
O povo mastiga estas folhas para ajudar a suportar a fome, a sede e o cansaço, sendo consumida legalmente no Peru e Bolívia sob a forma de chá onde a absorção do princípio ativo é muito baixa.
Os Incas e outros povos dos Andes usam-nas para trabalhar a altas altitudes, onde a rarefação do ar e o frio tornam o trabalho árduo especialmente difícil. A sua ação anorexisante (supressora da fome), permiti-lhes suportar longos períodos com um mínimo de alimento.

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Com o desenvolver das sociedades ocidentais surgiu por volta dos anos 1860 uma tendência para tirar partido das propriedades desta planta na produção de bebidas e afins. Ao ler esta parte, pensei. A natureza humana é irrequieta e quase sempre imparável no alcance de propósitos com objetivos mercantis.
Um século mais tarde a cocaína atinge uma posição de topo no consumo no seio das classes altas e espalhando-se posteriormente por todo o mundo.
Como é que a coca atinge este estado de brancura cristalina? Continuo a ler:
O processo de extração da cocaína é iniciado colocando-se as folhas e solventes orgânicos em recipientes, onde após um período de maceração o extrato orgânico é separado das folhas e evaporado. O resíduo obtido, denominado pasta de coca, contém cocaína juntamente com outros alcalóides e óleos essenciais. A pasta de coca é tratada com ácido clorídrico para formação de cloridrato de cocaína, que corresponde à forma usual de tráfico, sendo frequentemente diluída com a adição de produtos que procuram confundir a sua ação farmacológica, cor ou sabor.

Coca 3   Coca 4
Confesso que não foi a melhor surpresa que tive neste novo campo de descoberta.
A sensação de poder, as capacidades físicas que a coca oferece a quem a consome não deixam de ser perturbadoras quando conhecido este processo químico de transformação.
Não é igualmente de desprezar que o seu uso contínuo, causa outros efeitos indesejados para além da dependência. A hipertensão arterial e distúrbios psiquiátricos a prazo.
Mais uma aprendizagem!

Coca 5  Coca 6
Com a produção em alta escala de coca processada nas cocinas (laboratórios artesanais) locais, crescem igualmente as ações da Interpol, que tenta a todo o custo reduzir a passagem maciça de cocaína para o Brasil.
Aspetos que conferem a esta cidade um ambiente de permanente risco e insegurança.

Aproveitei estes dias para escrever mais umas linha para Moçambique, dando a conhecer onde estou e mais algumas passagens desta minha viagem em terras sul americanas. Nesta carta informo que estarei mais tarde em La Paz esperando que a minha doce mãe pudesse escrever-me para a posta restante de lá, e com sorte, com aquelas notas de dollar escondidas na carta que sempre me deixam os olhos a brilhar.

Neste nosso terceiro dia em Santa Cruz de la Sierra o calor está especialmente intenso.
Eu e a Rose saímos para ir dar uma volta a pé por aí. Com a indolência produzida pelo calor recostamo-nos num banco comprido de um jardim público onde nos deixamos dormitar.
Somos acordados de forma agreste pelo frio de uma baioneta encostada ao pescoço.

Polícia 1  Polícia 2  Polícia 3
Quando nos damos conta que não faz parte de um qualquer pesadelo, abrimos os olhos para ver 3 militares à nossa frente com um ar de poucos amigos.
Gringos, bamos!
A Rose, tão perdida quanto eu, agarra-me no braço dizendo-me.
-Africano?…o que foi que nós fizemos?
Sem ter reposta para dar, tentei em vão falar com este militares para ao menos conhecer os motivo desta hostilidade.
A atitude e a agressividade destes militares sobe de tom.
-Vamos señora….adelante!
-Bolivia es un país de moral. Ustedes vestidos de esta manera son un ataque a la moral pública de este país …bamos!…grita outro que parecia ser o mais graduado.
Estava ali perto de nós um casal um pouco mais velhos que nós, que pelo sotaque, compreendemos que uma é brasileira e outro provavelmente americano, que tentavam em vão interferir na situação em nosso favor tendo assistido impotentes a nossa condução para as instalações da polícia local para uma detenção pura e dura.
Por momentos pensamos. Mas como é que estamos a atentar contra a moral boliviana?
Uma vez detidos, o oficial que nos identificou informou que a forma como estávamos vestidos num jardim público não é aceitável em território boliviano.
E que não seríamos libertos enquanto não alterarmos a nossa indumentária.
Por momentos pensei. Acho que é devido aos calções (shorts) jeans que ambos trazemos vestidos. Vestuário que temos por hábito aproveitar a partir das calças que cortamos. Nada mais natural debaixo daquele calor. E como vamos resolver este caso se não nos deixam sair daqui?
Moral ou imoral, estamos a sentir em cima dos ombros o peso de um regime militar boliviano ao vivo e a cores.
Este circo já dura há umas boas 3 horas de perfeita aflição, não sabendo de todo qual seria o desfecho deste episódio deveras insólito.
A divina providência deu-se quando sentimos na sala ao lado uma conversa algo agitada entre os militares e umas vozes estrangeiras.
Passados uns bons 20 minutos entra na nossa sala de detenção um militar com umas calças e uma saia longa na mão que de forma agreste atira para cima de uma mesa dizendo:
-Hey los gringos!…Vestidos con esta ropa si quieren salir de aquí … y ambos tienen que conocer que Bolivia es un país de costumbres!
Incrédulos com o que se estava a passar connosco, lá vestimos aquelas roupas trazidas para aquele propósito, tendo saído daquelas instalações em silêncio assim que recuperados os nossos passaportes.
Compreendemos a seguir que os gringos que se encontravam no parque junto a nós, tinham tomado algumas medidas no sentido de nos ajudarem a sair daquela situação intercedendo a nosso favor. Ele é um californiano de nome John e ela uma brasileira chamada Consuelo que vive no Peru. Tiveram naturalmente um abraço apertado e um imenso agradecimento da nossa parte.
Mais um aspeto sórdido destes regimes autoritários e um novo ângulo de visão desta cidade agreste.

Na sequência deste episódio e do ambiente vivido naquela casa onde os negócios da coca já comportam sinais de Máfia, sentimos, eu e a Rose, que chegara a hora de mudar de ares.
Esta manhã, conversando com o Bags que se tem entusiasmado com os negócios da coca, sentimos que iria ficar por aqui e talvez regressar ao Brasil com uma ideia de montar um negócio rentável com os irmãos Cataldo e Javier.
Despedimo-nos agradecendo a estes nossos anfitriões a receção e guarida durante aqueles dias em Sta Cruz.
A nossa despedida do meu camarada de sempre Otávio Bagueiro foi mais emotiva.
-Mano velho!…os nossos caminhos vão seguir direções diferentes. Digo ao Bags com a minha voz cortada pela emoção e com uma amarga sensação que não iríamos mais cruzar-nos neste continente tão longe de casa.
-É, Chicão!…eu acho que vou estar aqui mais um tempo e quem sabe um destes dias também sigo para norte e nos encontramos más arriba!…bye, Rose, me dá um abraço carioca!
-Bye, Bags!…te cuida cara! Responde a Rose emocionada!
-Bagse!…leva ligeiro meu irmão! A branquinha é de boa qualidade mas faz estragos! Digo eu com ar sério.
Dont worry, bro!…responde-me este meu camarada com um olhar que fica gravado na minha memória.
É partilhando estas emoções que deixamos Santa Cruz de la Sierra em direção a Cochabamba, segunda maior cidade da Bolívia.

Parte II – CochabambaLa Paz – Fronteira com o Perú

De novo na estrada

A nossa próxima etapa na Bolívia, desta vez a dois, é começar a subir a cordilheira dos Andes e alcançar a cidade de La Paz – capital do país já situada no altiplano andino.
Uma vez posicionados à saída de Santa Cruz, o nosso objetivo é pedir uma boleia na direção desejada – Cochabamba.
Esta espera é longa e cansativa. Ao fim de alguma horas, lá para um mini bus que transporta alguns trabalhadores rurais e finalmente nos leva através da estrada nacional 5 até Alquile.
Este lugar é um ermo onde parece que Deus nunca passou. Deixámos para trás a Bolívia mais baixa e aqui já começamos a sentir a subida para zonas mais altas onde a temperatura do ar começa a baixar.
Mais um tempo de espera onde aproveitamos para comer ums sanduíches e uns pastéis que trouxemos de Sta. Cruz.
Já estamos a meio da tarde quando enfim para um camião que nos leva até a entrada sul de Cochabamba. Estão assim cumpridos 480 km…ufff!
Chegar a um lugar novo já de noite nunca é uma boa ideia para quem chega pela primeira vez…mas é o que temos….mais uma aventura.
A nossa primeira preocupação é procurar um lugar para comer algo de mais consistente.
-O que achas, querida? Vamos até ao centro?
-Chico…sei não…a gente não conhece o lugar!…mas sim…vamos andando.

Cochabamba 2    Cochabamba 3
Esta cidade à primeira vista teve um impacto positivo. A temperatura é mais baixa que em Sta Cruz e vemos muita atividade agrícola que é notória nos diversos pontos de venda de frutas e legumes que, mesmo a esta hora, estão ativos.
Cochabamba é uma cidade de médio porte com uns 400 mil habitantes. A principal atividade económica é a agricultura graças ao clima e às terras férteis, sendo considerada um centro agrícola da Bolívia.
Alguém em Sta Cruz nos disse que aqui se come muito bem. Comida tipicamente boliviana a preços muito simpáticos. Vamos ver se é verdade…
Sentados numa espécie de restaurante popular olhamos para um cardápio e ficamos bem elucidados:
Chorizo Criollo, Escabeche, Chanka de pollo, Pique Macho, Lomo borracho, Locoto de relleno, Lambreado de conejo e outras coisa mais que conhecemos de olhos fechados..he!…he!…estes cardápios são sempre uma viagem hilariante!
-Carioquinha…cê quer comer o quê, meu bem?
-Eu sei lá o que é isto, querido. Talvez este Chanka de pollo (um prato com frango, batata e feijão como ingredientes principais, ao qual é adicionado um caldo, que também pode ser servido como sopa)…curioso!
-Então fazemos o seguinte: Eu vou pedir este Puchero ( Um tipo de sopa, que é uma mistura de três tipos de carne: frango, carne bovina e de cordeiro, além de frutas como pêssego, maçã e pera, também adicionando legumes: cenouras, batatas, nabos, pimenta vermelha, salsa e milho)….e partilhamos…sim?
-Vai, querido!…mas vamos pedir uma limonada que estou morrendo de sede.
Concluída esta deliciosa refeição e confirmada a fama gastronómica de Cochabamba, resta agora decidir onde vamos dormir.
Já é tarde e como não queremos gastar uns pesos extra para pagar um Hostal, somos atraídos para um espécie de escola onde nos aninhamos numa sala que dá para as traseiras do edifício com uma magnífica vista para as montanhas…há um porta, que está destrancada, convidando-nos a uma entrada furtiva para nos abrigarmos.
A temperatura noturna aqui já é outra. Os dois bem juntinhos dentro dos nossos sacos cama sobre as nossas esteiras, sempre ficamos melhor instalados.
Dentro de uma divisão de arrumos ali perto, avistei um poncho de alpaca (tecido típico de tecelagem dos Andes) em tons de vermelho, laranja e amarelo que usei para nos cobrirmos…bem bom!
-Chega aqui meu africano caliente…me esquenta vai!
-Pois, tem que ser…a minha carioquinha é muito tropical e não está habituada às montanhas…né, bonitona?
De manhã cedo a luz do astro rei deu sinal da sua presença e entendemos que seria melhor abandonarmos este nosso posto clandestino. Aquele poncho que foi bem nosso amigo sentia-se muito sozinho naquele depósito e entendeu seguir viagem connosco. Achei uma boa ideia.
Tomado o nosso precário desayuno num botequim mais ao centro da cidade, decidimos dar a nossa volta turística em Cochabamba. Esta inclui uma passagem clássica pela Plaza de Armas, onde pudemos ver a imponente Catedral Metropolitana, presenciando os traços arquitetónicos da colónia e fazer uma visita ao Gran Mercado La Cancha, um dos mercados mais populares da América latina onde se vende de tudo…um lugar incrível!

Cochabamba 1   Cochabamba 4
Aqui aproveitamos para comprar alguns recursos para nos alimentarmos na estrada. Uns queijos, pão fabricado à moda local, alguma fruta e dois litros de água engarrafada. Tempo agora de pensar no nosso plano.
-Que fazemos, querida? …são 3 horas da tarde…nos quedamos mais uma noite em Cochabamba ou seguimos viagem?
-A esta hora será talvez uma boa ideia seguir viagem, não? Responde-me a Rose sem grande convição.
-Então vamos fazer o seguinte: estacionamos na saída da cidade. Se conseguirmos uma boa carona até ao cair da noite, seguimos viagem. Caso contrário voltamos para a cidade e logo encontramos uma solução para passar a noite…que me dizes, guapa?
As you wish, darling…responde-me esta minha namorada com aquela voz quente e uns olhos lindos que brilham.
E aqui estamos há umas boas duas horas na esperança que alguma alma santa pare para nos levar.
A espera já é longa e já pensamos em regressar à cidade quando finalmente para um camião que nos convida a seguir na parte de trás, junto com uma carga de fruta e mais uns trabalhadores agrícolas que seguiam nesta viagem.
Buenas tardes, para donde sigue, señor? Pergunto em voz alta.
Hasta La Paz nos vamos, gringo!
Num olhar que trocamos, eu e a Rose tomámos a decisão de aceitar esta boleia em condições algo duvidosas…mas este camião vai até ao nosso destino e há que aproveitar.

Subida Altiplano
Lá nos acomodámos da melhor forma sentados sobre aquelas caixas de fruta de grande dimensão que não pude identificar e na companhia daqueles rurais (homens e mulheres) de aspeto índio que nos olhavam como se vissem dois extra-terrestres…no comments!
A estrada que se segue é a N5 que faz uma subida gradual de montanha. O céu ameaça com umas nuvens negras que já cobrem o horizonte. A noite apresenta-se fria e nós dois lá nos colocamos bem juntinhos para nos defendermos das condições cada vez mais agrestes desta viagem num camião de caixa aberta. A cobrir-nos temos o poncho que simpaticamente nos quis acompanhar.
Feitos mais uns quilómetros de estrada sempre a subir, o frio aumenta e a chuva começa a cair sobre nós nas traseiras deste camião….shit!
Abrigando-se do ar que já bate gelado nas orelhas, aqueles nossos companheiros de infortúnio habituados que estão a estas condições de montanha, chegam-se para o taipal das traseiras da cabine do camião, aninhando-se uns contra os outros. Nós lá nos chegamos o mais possível para eles, mas ficámos literalmente expostos a uma condição que começa a ser crítica. Naquele momento atravessa-me o espírito um pensamento algo perturbador …estes autóctones juntaram-se solidariamente…os gringos que se safem!
No chão do camião já escorrem resíduos da fruta sobre a qual vamos sentados, que misturados com a água da chuva completam este quadro dantesco com uma matéria viscosa e pegajosa que já está em todo o lado.
O desespero começa a tomar conta de nós. E o mau humor também.
-Chico! Porra, chega um pouco mais para lá!…não tá vendo o que escorre de água deste lado?
-Porra digo, eu Rose!…estou totalmente encharcado e você tá reclamando de quê?
-Cala boca, cara!…nem quero mais te escutar…chega o teu pé pra lá! Responde-me a Rose com a raiva e o desespero bem visível no olhar.
-Ora, merda!…chega tu pra lá então! Respondo com igual tom.
A nossa natureza taurina e a reação negativa a uma situação que se torna deveras insuportável tomou conta dos nossos espíritos. Já não éramos nós!
Entretanto tiramos das mochilas uma toalhas de banho que rapidamente viram uma sopa, de encharcadas que já estão. O frio já tinha chegado aos ossos. Pouco há a fazer senão resistir e pensar o mais possível positivo.
Nem vale sequer a pena abrir a boca para nos lamentarmos da situação…toda a raiva que sentimos neste momento é descarregada em cima do companheiro…já não comunicamos um com o outro…já só vociferamos…nunca até aqui estes dois seres apaixonados se tinham tratado desta forma…a situação passa de delicada a extrema…se a hipotermia é isto, então estamos fodidos…má escolha ter aceite esta carona!…vamos morrer gelados dentro deste camião, pensei!
Como se alguém tivesse escutado estes meus pensamentos, o camião interrompe a sua marcha e vemos o condutor com a ajuda do acompanhante trazer um oleado que colocam sobre nós para nos abrigar da chuva e do frio.
Este gesto que agradecemos, veio melhorar a nossa condição, é verdade! Mas o frio e o melaço viscoso daquelas frutas já estão impregnados na nossa miserável existência.

A rota do Apocalipse
Sentimos algumas tréguas e algum alívio quando este camião para na berma para os passageiros fazerem as necessidades fisiológicas onde calha.
A Rose é a única mulher estrangeira a bordo e, apesar do estado psicológico em que nos encontramos, vou sempre com ela tratar destas complexas operações íntimas.
Nestas paragens de noite cerrada já sentimos a altitude alta em que nos encontramos pela dificuldade que temos em respirar normalmente, dado que a composição do ar já contem menos oxigénio. De um lado e doutro da estrada já é bem visível a imponência desta majestosa cordilheira dos Andes com os picos totalmente cobertos de neve. Maravilhoso e ao mesmo tempo tenebroso.
O frio toma proporções desmedidas. Nunca até aqui tinha estado em temperaturas tão baixas na minha vida. Creio que mais baixas que aquelas que passei em inúmeras saídas com o meu pai à caça de madrugada em plena savana moçambicana, onde o “cacimbo” chega aos ossos sem se importar da forma como estamos agasalhados.
Esta situação é de tal forma bizarra que ao urinar a sensação que dá é que, depois de procurar e enfim encontrar o instrumento que se encolheu com o frio, a urina sai quente do corpo mas ao tocar no chão parece fazer “plim”...shit!
Uma última paragem desta viagem dantesca é feita no ponto mais alto da nossa viagem. Devemos estar a uns 4 000 m de altitude e são umas 5h da madrugada.
Totalmente afetado pelas condições agrestes desta viagem, pergunto à Rose.
-Vamos lá fora fazer um xixi?
Numa voz cavada e em tom de sofrimento, ela responde-me:
-Chico! Me deixa no meu canto!
-Chiuu! Respondo…vá! vamos lá esticar as pernas…eu ajudo!
Uma vez cá fora, temos um presente à nossa espera. Um dos tripulantes tem a gentileza de nos oferecer um chá quente de uma mistela qualquer. Um chá que sabe a céu!
Olhando o nosso aspeto deplorável este homem pergunta-me:
-Que tal, gringo? … usted no está acostumbrado a las tierras d´el altplano andino?
-Non amigo venimos de muy lejos!de onde hace calor!……gracias por el té…está muy rico! respondo com o meu ar de sobrevivente.
A Rose bebeu este chá em silêncio e vi na sua cara uma réstia de consolo…animou-me ver isto.
A partir deste lugar onde nos encontramos, a vista do lado direito é simplesmente deslumbrante…ao longe, nesta madrugada tenebrosa, abre-se uma enorme cratera onde lá em baixo se avistam luzes. A cidade de La Paz, confirmam os nossos anfitriões.

La Paz 1
De novo em marcha, sentimos que o nosso destino está mais próximo e o nosso calvário está a chegar finalmente ao fim…375 km percorridos a subir para o altiplano andino em condições inimagináveis… os deuses estiveram loucos durante toda a noite!
Outra passagem desta viagem que marcará a nossa memória por muitos e longos anos.

Cidade de La Paz – capital política e administrativa da Bolívia.
Uma vez apeados e feitos os devidos agradecimentos aos nossos anfitriões desta estrada de inferno, fizemos o nosso primeiro circuito citadino à procura de algo essencial. Um lugar onde nos instalarmos e conquistar um descanso mais que merecido depois desta inclassificável viagem.
Já é dia e a nossa primeira impressão é: Em que buraco viemos parar?
E é verdade!…a capital boliviana é realmente um buraco. Difícil de explicar!

La Paz 2   La Paz 5
Chega-se a uma parte alta da cidade, como se fosse uma montanha ou um morro bem grande e aqui de cima é possível avistar os prédios do centro da cidade lá em baixo e as casas e bairros que ficam nos morros ao lado. Um autêntico sobe e desce dificultado por uma respiração deficiente.
A primeira sensação é de uma cidade algo feia, ruas apertadas com prédios e casas sem acabamento, mas que aos poucos vai revelando os seus encantos.
-Chico!…vamos parar um pouco, sim? A minha cabeça está estourando. Acho que é efeito da altitude e dessa viagem de merda que fizemos.
-Fazer o que, querida? Pergunto preocupado.
-Vou tomar um analgésico que tenho aqui. Um minutinho!
Entretanto passam uns freaks, dos muitos que circulam neste teto do mundo. Ficámos a saber que um dos Hostal mais populares onde se alojam os gringos de passagem por cá é o Alojamiento Central umas quadras mais abaixo. Aqui vamos arrastando o corpo sofrido e uma vontade imensa de parar…tomar um bom banho e descansar!
Efetivamente este Hostal tem o seu nome e o seu prestígio relacionado com o lugar onde se insere. Ao lado da Central de Autobuses de La Paz.
Outra das particularidades que saltou à vista uma vez entrando neste lugar, é que aqui alugam-se quartos privados como em todo o lado, mas tem igualmente uma sala ampla onde se alugam apenas as camas. Uma solução para quem tem menos plata. É seguramente o nosso caso.
Bem marcados por cansaço extremo, nem hesitámos…contratamos uma cama dupla num canto mais retirado que está livre…oportunidade caída do céu!
À nossa espera está um banho merecido depois de atravessar o nosso segundo Apocalipse em terras da Bolívia…primeiro o Trem da morte e agora este camião.
Das roupas que trazemos no corpo pouco há a dizer…uma parte será para lavar em várias águas e outra para simplesmente deitar no lixo de tão miseráveis que ficaram depois desta tenebrosa aventura.
Após algumas horas de merecido descanso, o nosso almoço tardio foi num dos muitos restaurantes típicos da zona central de La Paz aproveitando algumas economias que tínhamos trazido, mas que estão a chegar ao fim.

La Paz 3
Já vamos conhecendo a gastronomia deste país. Desta vez eu peço um Lapping (Um prato de carne do peito de vaca assada que vai para a panela junto com feijão, milho e batata com casca cozida, acompanhado de uma salada saudável, pimenta vermelha e salsa crua).
A Rose pede um Aji de Patas (Este prato leva arroz, batatas brancas e onde se afogam as patas (pernas de aves), ervilhas, tudo refogado com pimento vermelho…ambos nos regalamos com esta refeição, provando e partilhando este pratos e acompanhando com uma limonada preparada na hora…uma verdadeira delícia. Estávamos realmente a precisar deste momento.
Esta sala onde nos instalaram aqui no Alojamiento tem o seu lado insólito. Estão aqui gringos de todas as partes do mundo e as línguas que ecoam no éter são bem prova disto.
Notei um detalhe deveras curioso. Numa mesa ao meio da sala está uma tigela de sopa cheia de “branquinha” para uso livre do pessoal…welcome to La Paz!
Como estamos para lá de cansados, resistimos à tentação de uma colherada no nariz. Não fosse o sono ir embora!
Optámos por fumar uma maconha que um argentino gentilmente partilhou connosco. Com esta eu sei que o sono está mais bem protegido.
Efetivamente, esta noite o sono foi muito meu amigo. O cansaço era para lá do aceitável e mergulhei profundamente no limbo. A Rose não pode infelizmente dizer o mesmo. Uma reação negativa à altitude manteve aquela enxaqueca bem viva na cabeça dela obrigando-a a tomar mais uns tantos analgésicos a meio da noite.
De manhã diz-me com alguma indignação.
-Puxa Africano, que inveja!…você dormindo o sono dos anjos a noite toda e eu aqui do seu lado brigando com esta maldita enxaqueca…putz!
-Vem cá, guapa!….deixa eu aliviar esta dorzinha com uns beijos bons nesta cabeça de caracóis que eu adoro.
-Hummmm…não está certo! Diz ela encostando a cabeça no meu ombro!
Em conversa animada aqui no Alojamiento com um inglês, este diz à Rose:
-I also had those headaches when I arrived for the fisrt time here. You should try and chew these fresh coca leaves. It helps a lot!
-No way, man! Responde a Rose determinada, I have tasted it back in Santa Cruz. It tastes awful…not me!
No meio desta conversa temos a maior surpresa do dia. A entrada da sala apresenta-se o meu camarada Nuno Quadros que me diz com uma gargalhada exuberante.
-Chico!….Rose!…olhem só como o mundo é pequeno?
Um grande abraço e o natural alvoroço ocuparam por momentos o espaço emocional daquela sala.
-Estive com um cara há pouco que vos cruzou aqui e me disse que tinham chegado a La Paz…tive que vir cá confirmar!
-E fizeste muito bem! Nós já sabíamos que estavas por cá através de um argentino chamado Ernesto que cruzámos em Santa Cruz.
Ya!…andei durante uns dias com esse muchacho de um lado para o outro. Cara muito louco!
-Mas conta lá!…para onde foste quando saíste da Bahia? Pergunto curioso.
-Entusiasmado com a conversa e passando-me um joint que estava a circular na sala, o Nuno conta:
-Então vamos lá. Eu saí naquela data de Arembepe e fui com um tal de Murilo para casa dele em Niterói. Correu bem porque o pai dele conseguiu encontrar um cliente que me comprou aquela pele de leopardo que ainda tinha das cenas do meu irmão, lembras-te?
-Vocês não existem, cara!…interrompe a Rose extasiada.
E o Nuno sorrindo continua.
Com essa grana apanhei transporte para Corumbá e a seguir o Trem da morte até Santa Cruz onde pelos vistos passei antes de vocês. Estive lá uma semana.
Trem da morte? Respondo eu com um ar hilariante fazendo uma careta.
-Pura loucura hein, Nuno? Pergunta a Rose.
-Menina, nem me fala, viu!…eu só não endoidei porque não calhou…fiz toda essa viagem com a maior dor de dentes da minha vida!
Este papo durou o resto da tarde e a nós se juntaram mais um brasileiro e o tal argentino que enrolou mais uns baseados, nos presenteando com umas linhas de coca retiradas lá da tigela da “branquinha”. Uma coca de indiscutível qualidade. Seguiu-se a já habitual Jam session que raramente deixamos escapar. Que momentos bons!
-Então, e agora? Pergunta o Nuno a certa altura.
-Agora vamos em frente…diz a Rose com ar entusiasmado. Nosso plano é ir até Cuzco no Perú, passando pelo Lago Titicaca, etc.
Eu reforçando digo:
-É…todo o mundo fala maravilhas daquilo…queremos ver o Vale Sagrado, e Macchu Pichu, por supuesto!
A finalizar este encontro memorável ficamos a saber que o Nuno e mais alguns estão numa de nos acompanhar nesta nova aventura. A este propósito abordámos um tema tão corrente como delicado. Dado que as nossas finanças estão no fim, onde vender um artesanato que tínhamos na bagagem, de forma a poder pagar a nossa estadia em La Paz e o transporte que iríamos usar para prosseguir viagem até ao Perú?
O Nuno, que já sabia algo mais sobre estes circuitos, leva-nos nesta manhã a um lugar algo longe do centro onde se faz uma grande feira permanente de artesanato e não só. Um mercado local onde se vende de tudo.
Passamos por uma rua muito bonita – Calle Jaén em direção à praça principal de La Paz, não muito grande mas muito bela, de nome Murilo. Aqui tomámos o nosso parco desayuno e seguimos para o mercado.

La Paz 4   La Pa 6
Aproveitando esta volta, fui aos Correios centrais ver se por ventura estaria lá alguma carta da minha mãe na chamada Posta restante.
Mãe há só uma e a tradição mantém-se. Lá estavam as notícias sempre abundantes do outro lado do mar e as duas notas de 20 dollars que iam ajudar a pagar as despesas por aqui….Yes!
Nesta carta tive novamente algumas notícias das agruras da guerra em Moçambique que, segundo a minha mãe desceve, se estendem para sul, já havendo relatos de confrontos na região da Beira. Onde vai parar este inferno? Pensei.
O meu pai também se manteve igual a ele próprio. Silêncio total.

Podemos dizer que este passeio de algum modo valeu a pena. Conhecemos um pouco melhor a cidade e neste mercado ainda vendemos duas túnicas e um batik que, junto com os dollars que acabo de receber, já cobrem as despesas alimentares do dia e uma parte da nossa conta no Alojamiento. Resta saber como iremos reunir uns pesos mais para pagar a nossa passagem de bus até Cuzco no Perú, e guardar alguns trocos para a viagem.
Neste sentido fomos à Central de Autobuses saber do preço das passagens.
Aqui tivemos um encontro surpreendente com um casal que conhecemos em Arembepe, no Brasil. O Jeff e a Sheryl. Os trovadores de Cítara e Tabla, acompanhados do Blind George, um freak americano louquíssimo de idade mais madura com um grave problema de visão. Veio-me à mente algo de excecional. Este freak, apesar deste problema de visão, fazia em casa do Jeff e da Sheryl uma projeção psicadélica sobre uma tela improvisada, aproveitando uns espelhos e uns vidros coloridos tocados por um raio de sol que passava a determinada hora numa abertura improvisada no telhado… tempos loucos de Arembepe, pensei sorrindo. Momentos mágicos que ficaram guardados na nossa memória como os americanos mais indianos que jamais encontrei na vida.
Hi guys! Exclamo ao vê-los surgir à nossa frente.
Wow!….diz o Jeff com um sorriso solar e vestido como um hindu. You, in La Paz?
Um caloroso abraço entre nós cinco marcou a alegria deste inesperado encontro.
So, how are you guys doing? Pergunta desta vez a Sheryl.
-We´ve been around for the last few days and now we´re moving up to Perú. Responde a Rose excitada com o encontro.
Enquanto troco umas entusiásticas palavras com o Jeff e George, o diálogo das duas ladies prossegue.
-How fabulous to meet you guys in Bolívia. You are looking great…and what great bag you have. Diz a Sheryl à Rose.
-You like it? I got it at the “Modelo market” in Salvador.
Naquele momento um pensamento fulminante atravessa o espírito da Rose. Vender ali este belíssimo saco de couro garantindo a verba que precisamos para a nossa viagem.
Em português, pergunta-me.
-Querido…acho que vou vender esta minha bolsa pra Sheryl…mas não sei onde colocar tudo o que tem dentro.
Compreendendo a ideia, disparo dizendo com um brilho nos olhos.
-Eu tenho aqui estes dois sacos de tear artesanal. Passamos tudo para um deles e já está.
Voltando-se de novo para a Sheryl, a Rose diz:
-I guess you´re amazed with my bag and I would appreciate to sell it to you. I guess it will arrange us both.
-Really, Rose?..it would give me great pleasure buying it from you. What about 20 dollars?
-Deal!
-Fantastic!..Jeff and I are staying for a few days in La Paz and will be travelling to Cuzco later on…this bag will be quite useful…more than that…it will remind of you!…risos no ar!
Um encontro circunstancial de boas vibrações e com alguns resultados positivos para nós.
Feitas as calorosas despedidas, rumamos ao nosso albergue para rever as nossas contas.
-Que vamos fazer, Africano?
-Minha querida!…temos dinheiro para deixar estas contas pagas e comer mais qualquer coisa hoje. O que sugiro é comprarmos a nossa passagem até Puno (Perú) guardando alguma grana para a nossa viagem até Cuzco. Se compramos passagem até Cuzco chegamos lá sem grana. O que te parece, baby?
-É o jeito né, Chico!…vamos nessa!….responde a Rose algo triste com esta realidade.
Conformado com esta nossa condição, assim voltei à Central para adquirir os nossos bilhetes para o dia seguinte. Iremos numa empresa transportadora local com um nome deveras caricato – Morales Moralitos…dou por mim a rir sozinho com este nome à frente dos olhos…América latina no seu melhor!

Estamos a 6 de Abril e chegou a hora de dar o passo seguinte. Viajar até ao Perú….Yes!

Destino - Perú
Pagas as nossas contas no Alojamiento, tomado um desayuno e adquiridas algumas iguarias para tomar no caminho, partimos em grupo em direção à Central de Autobuses, ali ao lado.
A primeira parte desta viagem será feita através da estrada nacional 1. Uma viagem que vai ser seguramente animada com este grupo multinacional que se concentra na parte de trás do bus. A música vai ser naturalmente o forte da animação desde a saída da capital…Morales Moralitos….adelante!
Decorridos uns 70 km sobre a N1, a nossa próxima paragem dá-se num local muito especial. Numa região muito importante do Império Inca onde estão as ruínas arqueológicas de Tiahuanaco.

Tiahuanaco 1

Aqui pudemos apreciar a famosa e incontornável Puerta d´el sol (Inti Punku).
Esta porta foi trabalhada num só bloco de pedra que pesa aproximadamente 10 toneladas, onde foram esculpidas as imagem do Señor de los Báculos muitas vezes confundido com Viracocha (um dos mais destacados deuses dos Incas) e das criaturas aladas que o rodeiam.
Esta obra de escultura está incompleta. Como se os escultores do monumento tivessem abandonado precipitadamente a obra. Conta-nos simpaticamente o condutor de Morales Moralitos!
De seguida pudemos fazer uma visita a Tiahuanaco, considerada por muitos historiadores como a cidade mais misteriosa e mais antiga do mundo, sendo a sua construção apontada para uma data anterior ao império Inca. Um legado que existe, segundo alguns especialistas afirmam, há mais de 12 000 anos. Inédito, pensei!

Tiahuanaco 5   Tiahuanaco 3
Estes estudos realizados em torno da interpretação e compreensão deste legado ao longo de séculos têm gerado múltiplas polémicas na comunidade científica quanto à sua origem e método construtivo. Algumas das pedras presentes em Tiahuanaco minuciosamente encaixadas umas nas outras chegam a pesar 200 toneladas. Há algumas teorias quanto aos métodos de escultura e transporte destas pedras até este local.
Absolutamente extraordinário! Que emoção estar num local com esta dimensão histórica.

tiahuanaco 2   Tiahuanaco 4
Mais uma vivência para enriquecer esta fabulosa passagem por terras altas da cordilheira dos Andes.
Com um sorriso solar a Rose diz-me:
-Africano meu!…estou realizando um sonho…obrigada, viu?
-Minha querida, este sonho é nosso…vem cá…digo eu, chegando esta minha namorada que eu adoro contra mim oferecendo-lhe um terno beijo.

Um dos momentos de grande emoção que se segue neste nosso roteiro andino dá-se quando chegamos perto da fronteira com o Perú. Aqui avistamos pela primeira vez o famoso Lago Titicaca. Que esplendor de águas serenas e bem azuis.

Titicaca 1  Titicaca 4
Este lago que é o maior da América Latina é também considerado o mais navegável e mais alto do mundo, visto que a sua superfície está a 3 800 m acima do nível do mar…simplesmente colossal. Que visão extraordinária! Quanta história intemporal. Pensei!
Desaguadero marca a nossa próxima paragem onde iremos fazer a travessia da fronteira com o Perú.
Uma vez fora do ónibus fomos presenteados por um par de quéchuas munidos de um charango e sampollas (instrumentos típicos dos Andes) que, a troco de uns pesos, entoam uma refrão bem adaptado ao momento que diz:
“En las orillas del Titicaca, en las orillas del Titicaca, grave tu nombre sobre la arena,…. veniram las ollas y lo llevaram y de tu nombre no quedó nada…” …hilariante!

Titicaca 3  OLYMPUS DIGITAL CAMERA
Esta operação fronteiriça demora algum tempo. Bem ao jeito destes países debaixo de um regime militar onde o controle de cidadãos é uma tarefa com peso e expressão próprios.

Nestas instalações fronteiriças há um ponto comum. A exibição de fotografias destacadas dos respectivos chefes de estado. Do lado boliviano está na parede uma grande foto de Hugo Banzer e do lado do Perú, a de Juan Velasquez y Alvarado.
O Nuno, ali ao meu lado olhando para este último pergunta-me:
-Mano, o que é te fazem lembrar estes figurões?
-Diz-me o que te vai na cuca!…respondo com curiosidade.
O Nuno com um ar de gozo, diz-me…Tim-Tim, cara!
-Uau! Acertaste em cheio!…o Hergé passou por aqui!…risada no ar!

Apesar destes aspetos que são sempre algo sombrios e chatos de aturar nas fronteiras, a satisfação invade-me quando uma hora mais tarde vejo mais um carimbo boliviano no meu passaporte e um visto de entrada de 3 meses neste país lendário que é o Perú.

Desaguadero 2  Desaguadero 1
Numa placa à porta de uma tienda local pode ler-se:
En Bolívia viviste un buen momento… la vida hay que vivirla con una gran sonrisa, que tengas un alucinógeno día, tarde o noche…te saludamos…hasta la vista!

Tempo de despedida deste país do altiplano…desta fenomenal Bolívia que tanto nos marcou..hasta un día!

Etnias Bolívia

Continua na próxima quarta-feira dia 6 de Maio de 2015

17 comentários

17 thoughts on “O trem da morte

  1. Maria Teresa.Barbosa.

    Claro, a história repete-se,começo a ler e,quero sempre mais .A viagem alucinante no trem da morte
    fez-me sentir bem o desconforto que todos deviam ter sentido A vossa detenção pelos trajes considerados ofensa à Moral Pública,fizeram-me sorrir ,pela santa ignorância dessa pobre gente.
    Aguardo o próximo sábado com o entusiasmo do costume..
    Saudações amigas.

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  2. Em cada etapa o encontro com o desconhecido!…em cada momento a adaptação à realidade!…e a saga continua!
    Bem haja pelo seu entusiasmo!

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  3. Puxa isto é uma escrita tão palpável, sensorial, estamos lá.
    Boa Chico, quero ler mais.
    Bli

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  4. Tem muito mais miga!…cada passo um novo improviso!…em frente!

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  5. Carla Rodrigues

    Continuas a deliciar-nos com a história do que viveste… aguardo o próximo capítulo. bjo Chico

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  6. Teresa Amaral

    Que viagem esta!! Corajosos os meninos….a coragem própria da idade!!!
    Curiosa com o que mais se segue, já que só conheço pedaços soltos de algumas das “aventuras” nessa terras!

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  7. Oi Teresa,
    Agora vamos para o Altiplano onde outros desafios se levantam…região mágica deste nosso planeta azul…vamos adelante!

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  8. Urubu

    Aposto q o tal “Antonio” não tomou banho …. água fria não era a cena dele 😉

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  9. lenocas

    Fiquei aqui a rir so’zinha com a do Nuno mais o Tim Tim,imagino essa risada total.
    Uma grande viagem meu irmao,vamos em frente para mais.bjs.

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  10. É miga!
    Em cada passagem uma situação caricata!…isto é uma cultura muito à parte!

    Vamos adelante…República del Perú!

    Grande abraço!

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  11. Gloriosa viagem…glorioso percurso…gloriosos momentos…gloriosas paisagens e bem aventurada coragem ao atravessá-las…glorioso pó branco…glorioso relato Gaudiano’ pelo pormenor e pela intensidade com que se nos apresentam…toda essa adrenalina em constante variação, a vossa relação amorosa, os maus encontros com a tradição completamente deslocada no tempo, as cores que trajavam esses seres longínquos guiados pelos Deuses que insistiram em deixarem suas marcas por tudo quanto fosse terra…os enigmas da construção…os mercados…a saturação…as sortes que se fizeram aparecer…os reencontros….os desafios…a fome e o cansaço…as viagens atribuladas pela falta de espaço…as consequências compensadas pelos delirantes momentos de Paz..a vossa coragem determinada pela vossa curiosidade…todo esse despertar Mágico para as diferenças culturais…por tudo isso, passaste de um mero amigo a um ser Universal a ser eternamente respeitado e nunca mais ser esquecido! Parabéns Chico pela tua memória prodigiosa…e obrigado pelo prazer que nos proporcionaste ao relatar esses imensos momentos tão enriquecidos pelo desconhecido que se foi abrindo consoante a altura que foram subindo esses declives e os baixios da temperatura que vos foram surpreendendo! Magnífica história para qq vivência! Ficamos mais enriquecidos com este abraço que nos envolveu a todos, deixando-nos extasiados com tamanha sucessão de imagens tão oportunamente ilustradas pelas fotos que o texto mereceu! Parabéns Chico, pois tudo o que aqui absorvemos, completa na perfeição o quadro que qualquer Freak anseia alcançar e reproduzir em vida! Abraço sempre a respeitar! 🙂 (Y)

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  12. Grande amigo,
    Como sempre os teus relatos e comentários são uma rapsódia que embala os meus sentidos e
    é com imenso prazer que constato que a minha narrativa vos transporta para este fabuloso continente que tem muito mais para contar.
    Mas tu estás a saborear tudo isto como um vinho de eleição e isso dá-me uma grande satisfação.
    Bem hajas companheiro!
    Grande abraço

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  13. À Terra o que é terra…ao Povo, os seus costumes, as suas tradições e as suas Almas, eles ficaram lá e por lá ficarão…vocês passaram por eles todos sem beliscarem qualquer hábito…fosse bom ou menos bom…daí eu vos seguir atrás até a este capítulo, pois mereceram que fossem exaltadas todas as qualidades humanas inerentes a vós, como pessoas de fora….como estranhos’.que ficaram definitivamente de fora, pois Civilizações’ daquela Ordem e Grandeza..nada nem ninguém poderá alterar! Mas que nos reduzem a identidade à maior insignificância…lá isso…melhor que vós, ninguém mais saberá!
    Um abraço.

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  14. Hoje aniversário de um amigo. que após 32 anos me reencontrou via redes sociais. Mandei o Link para que ele lesse e relembrasse os lugares e as sensações que o texto nos deixa sentir. Surpreendentemente o laço de amizade se deu em uma viagem pelo mesmo roteiro, porém de forma mais hostil, menos organizada, e por vezes muito ousada. Por várias vezes na viagem encontramos um escritor de nome Orlando e sempre metalizei um dia encontrar algum texto que um dia me fizesse relembrar aqueles dias. Inexplicavelmente eis o texto completo, se não nos mesmos dias ao menos nos mesmos lugares. Chego a sentir o cheiro dos lugares. Obrigado

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    • Viva!…é com natural prazer que leio este comentário de quem percorreu estes roteiros andinos numa época mágica que tanto marcou as nossas existências…seja muito bem vindo a este espaço de partilha.

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