Turning point

Turning point

 

Vale de Urubamba - Perú
Vale sagrado de Urubamba – “Republica del Perú”

-25 de Abril de 1974-

 Nesta manhã fresca o meu acordar é diferente. Vou neste dia completar uma marca histórica na minha existência. Os meus 20 anos.
A noite fora fria naquela nossa cabana rústica em terracota coberta de colmo, os materiais naturais da região.
Eu e a minha companheira Rose dormimos mais esta noite enfiados num saco-cama sobre uma esteira. O calor dos nossos corpos sempre ajudava a resistir ás baixas temperaturas do vale.
Rosangela (Rose), uma bonita carioca de 20 anos de estatura média, portadora de uns lindos olhos de amêndoa, de um sorriso muito expressivo e de uma farta cabeleira aos caracóis.
A Rose é uma “Taurina” adorável e de carácter forte com quem eu partilho uma paixão ardente que nasceu no Brasil. Deveras entusiasmada com esta aventura, interrompeu os estudos na faculdade, e decidiu acompanhar-me nesta incursão pela cordilheira dos Andes, facto que contribuiu para a minha enorme satisfação.
A partilhar esta casa está também um calmeirão de cabeça aloirada. O meu companheiro de viagem Nuno Quadros, moçambicano como eu, e dois chilenos barbudos, o Christian e o Raul.
Estes dois simpáticos chilenos foragidos do conturbado regime político do Chile, nesta altura sob a batuta revolucionária de Augusto Pinochet, decidiram exilar-se no Perú, tendo-nos desafiado a partilhar esta casa em pleno vale sagrado dos Incas.
Neste lugar temos também a visita de algumas companhias indesejáveis. As famosas tarântulas (theraphosidae) sul americanas cuja mordida é fatal. Para manter afastadas estas criaturas temos por condição ter sempre o fogo aceso dentro de casa, e alguém acordado incumbido de as vigiar e as manter afastadas durante a noite…esta noite coube ao Christian esta dura missão.
Naquela manhã o Nuno dispôs-se a partir a pé acompanhado do Raul em direção ao “pueblo” mais próximo de nome Urubamba, para trazer algumas faltas cá em casa. Vendendo alguns colares de missangas de Moçambique com arranjos em prata que vamos fabricando com a nossa habilidade e criatividade, sempre dará para trazer em troca alguns pães, legumes, uns queijos, e uns litros de leite de ovelha.
Urubamba é um povoado situado no Vale Sagrado dos Incas, bem como Pisac e Calca, a meio caminho da famosa cidade perdida de Machu Picchu. Uma caminhada através de uma bela paisagem, cercada de montanhas altas, picos nevados e o belíssimo e caudaloso rio Urubamba de espumas brancas que é necessário atravessar sobre uma improvisada ponte de madeira.
Este trilho atravessa muitas plantações de milho onde são visíveis plantas que brotam localmente como a salsa, coentro, camomila e outras ervas aromáticas.
Algumas horas se passaram antes do regresso dos nossos camaradas, tempo este que aproveitamos para estender os sacos camas e esteiras ao sol da manhã e reacender a fogueira fora de casa onde aquecemos o chá de ervas, assando umas maçarocas e comendo o resto da sopa de legumes da noite anterior para entreter o estômago.
A renda desta casa que pertence a comunidade local, é paga de uma forma peculiar.
Uma vez por semana acompanhamos um grupo de índios “Ketchua” até aos campos de milho nas proximidades, onde passamos o dia com eles a recolher e desfolhar o milho. A refeição ao meio dia é copiosa em comparação ao que estamos habituados e constitui uma variante a nossa dieta habitual.
Acompanhada da tradicional Chicha (bebida de milho), entram nestes repastos alguns produtos diferentes como a “Quinoa” uma folha larga não leguminosa possuidora de uma poderosa proteína de altíssima qualidade e propriedades que promovem o crescimento do cabelo, (algo que nesta fase das nossas vidas não nos faz falta), a mundialmente conhecida batata que é originária aqui do Perú, sendo as maçarocas assadas uma presença obrigatória na composição destas refeições.
Estas experiências singulares vividas neste ambiente autóctone do altiplano andino são enriquecidas por uma comunicação essencialmente gestual deveras peculiar. Momentos que guardaremos seguramente nas nossas memórias por muitos e longos anos.

 O regresso do Nuno e do Raúl a meio da tarde foi positivo com a chegada de novas iguarias para confortar o estômago.
– Como é, Nuno. Correu tudo bem? Perguntei com curiosidade.
-Ya!…ainda vendemos uns colares e duas daquelas pulseiras de pelo de elefante que ainda sobraram e aqui está o resultado. Responde-me o Nuno com ar estoirado, mas satisfeito.
-Que legal, cara. Diz desta vez a Rose, encantada com os presentes muito bem vindos na nossa singela cubata.
O dia deste meu aniversário prometia pelo sabor da diferença.
O pão tradicional dos Ketchuas, uns queijos de ovelha, os legumes que já dariam para uma bela sopa, 2 litros de leite e um lote de fruta da zona que justificam o brilho dos nossos olhos e uma natural agitação das papilas gustativas do grupo.
-Estava aqui a falar com a Rose. Quando é que arrancamos para Machu Picchu? Pergunto ao Nuno com o meu natural entusiasmo.
– Por mim vamos em breve. Responde-me o Nuno com igual entusiasmo.
– Hemos estado alli yo y Christian. Diz o Raúl empolgado…hombre, esto es un local divino
Por sua vez o Christian informa:
– Teneis el tren que se va hasta “Aguas Calientes”. Aí teneis que subir hasta Machu-Picchu…una bela escalada, hombre! Diz-nos este chileno com uma careta que não deixa dúvidas…é deveras conhecida a difícil escalada até a cidade perdida.
-Ai, gente, vamos logo! Diz a Rose com os olhos a brilhar.

 

Ketchua-1   Ketchua-2

 

Machu-Picchu-1

 

 Passados uns dias, mais precisamente a 4 de Maio, este meu dia de aniversário ganhou um novo significado na minha vida, com um impacto histórico no mundo português espalhado pelos 5 continentes.

 Em plena cidade perdida de Machu-Picchu no topo do Império Inca, o Nuno pede casualmente emprestado a um turista americano que ali estava de visita o “New York Times” para ver as últimas do mundo.
Com o jornal na mão dirige-se a mim com os olhos bem abertos e diz-me em voz alta.
-Oh pá, nem vais acreditar no que eu trago aqui!
– Que é que foi, hombre? Viste algum bicho? Pergunto com o meu ar de total surpresa.
Passando-me o “New York Times” para a mão entendi de imediato o motivo do alvoroço.
Na primeira página, por baixo de uma fotografia em destaque do dia 25 de Abril no Quartel do Carmo em Lisboa com as “chaimites” do exercito e concentração popular, pode ler-se em letras garrafais:

“The carnations revolution” – Since last 25th April General Antonio de Spínola and “Junta de Salvação Nacional”, lead the armed forces revolution restoring democracy in Portugal.

 

Reolução 25 de abril de 1974 - Portugal 1   25_de_abril_2_0

 

 

 

22 comentários

22 thoughts on “Turning point

  1. Gostei muito! Amanhã há mais?

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  2. Paula Nogueira

    Muito bom! Fico à espera do próximo capítulo.

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    • Olá Paula,
      O segredo também está em manter alguma expectativa. Um “teasing” que transporte o leitor para o imprevisto e por vezes o insólito que vai estando presente ao longo desta caminhada.
      Vamos em frente!
      Grande abraço!

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  3. Teresa Amaral

    Boa largada!! Fico á espera que a semana passe depressa!!

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  4. muito bom

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  5. Estou expectante!

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  6. Viva meu caro,
    Há muito mais…grande abraço!

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  7. Boa Chico, estou a gostar muito bom, espero o próximo.

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    • Bli minha querida,
      Grato pelas tuas palavras…há mais!…muito mais! Fomos bravos, e uma geração de risco com muitas perdas. Quem fica para contar como foi, vai lá atrás regatar à memória um legado com suficiente peso para deixar gravada a sua pegada no futuro.
      “And the show must go on”

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  8. helenalopes(lenocas)

    waw grande viagem por esse lado tao famosos e magico,beautiful….

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  9. Marcos-AD Barros

    Acabei de ler o “turning point”. Fica a vontade de ler todo o resto. A seu tempo vou fazê-lo.

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  10. Oi Irmao, gostei maningue, bons contos la com os Incas e boa fotografia tambem! Sorry nao vir aqui mais cedo mas acredita que so hoje e que descobri como seguir nos Episodios, nao muito esperto este mulato eh eh…tambem direi a Isabel por skype como continuar a ler os episodios. kanimambo, vou ja para o teu proximo episodio pois estou atrazado, tchau

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  11. Viva Mwana,
    Glad to see that you´re following my steps…
    Tive há alguns dias atrás uma boa conversa com a Isabel ao telefone depois da viagem austral que ela fez há pouco tempo…
    Great vibes buddy!

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  12. maria teresa.

    Que pena ter acabado.Quando começo a lêr há uma certa sofreguidão e é com pena que rápidamente chego ao fim.Se fosse em livro ,já o teria lido várias vezes e, pode crer que me deixaria saudades.Bem haja por tão bela descrição.

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  13. Marisa

    Estou viajando nas suas escritas. Adorando! 🙂

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  14. Olá Marisa,
    Seja muito bem vinda…tem muito mais para ler a seguir a este capítulo!

    Abraço…

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