Um reinado singular

Um reinado singular

 Welcome to Swaziland

PARTE I

Tudo tratado em relação a vistos, algum dinheiro que cada um pode reunir, uma reserva de passa para queimar até a fronteira e uma imensa vontade de viajar em direcção a este país em território montanhoso.
Este é o cumprimento de mais um sonho lavrado num ADN de descobertas e numa região pouco conhecida da África austral. The Kingdom of Swaziland.
Vamos esta noite ter um último encontro dos que finalmente decidiram embarcar nesta aventura. O local de encontro é mais uma vez o Tico-Tico. Partimos amanhã, Eu, o Bags, a Bambina e o Luis Pedro.
Esta nossa partida dá-se de mochila às costas de manhã bem cedo no machibombo da carreira em direcção à fronteira da Namaacha, situada a 80 km da capital numa região montanhosa da denominada cordilheira dos Libombos. A Namaacha é uma simpática vila fronteiriça onde muitos portugueses têm a sua casa de férias, com uma vegetação luxuriante típica das terras altas, vários cursos de água, umas fabulosas cascatas e com temperaturas mais frias do que habitualmente temos em Lourenço Marques. O objetivo é atravessar a fronteira logo que ali chegarmos.
E assim fazemos depois de queimar um último “joint” ali perto da fronteira junto ao mato, do lado Moçambicano.
Primeiro a passagem no controle da fronteira portuguesa, onde passamos debaixo do olhar desconfiado dos funcionários da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) ali presentes. Mas tudo se passa normalmente, apesar dos nossos olhos semicerrados e algo vermelhinhos…em frente guys!
No lado Swazi somos recebidos pelas autoridades locais e confrontados por algumas perguntas de um agente negro da Royal Swaziland Police.
Passports please! Where are you going to?
Manzini and Mbabane..respondi com alguma determinação.
Students on holiday?
Yes sir!
Depois de verificados e carimbados os nossos passaportes assim entramos pela primeira vez no tão desejado Kingdom of Swaziland.

De mochila às costas e em plena euforia por estar naquele país diferente, rapidamente nos fizemos a estrada MR3 que nos leva a Manzini, onde temos um contacto que nos permitirá ficar alojados durante uns dias na região.
A nossa boleia não é fácil. Três homens e uma mulher só mesmo uma daquelas boleias caídas do céu, ou um transporte tipo Combi, ou camião.
Ao fim de uma hora de caminhada a pedir boleia aos carros que iam passando, a nossa boleia lá chegou, penso que em parte devido ao facto da Bambina se por em evidência à beira da estrada, trabalhando assim para a nossa boa causa.
Resistir ao charme e aos dotes femininos desta nossa companheira não é fácil e lá parou um Peugeot 404 station com um condutor swazi de meia idade que nos levou.
So, you are from Mozambique?
Yes. Thank you for taking us…respondeu o Bags com ar animado.
First time in Swaziland?…Where are you going?
Yes, it is our first visit!…We intend to stay a few days in “Manzini” region. Then we might go up to Mbabane…respondi eu desta vez.
You are lucky guys. I can take you up to Manzini.
Thanks very much!…dizemos todos numa só voz.
Alguns quilómetros à frente este caricato Swazi balança-nos esta pergunta:
And tell me…the pretty lady here…which one of you is her husband?
No one. We´re all just good friends. Digo eu com uma natural espontaneidade, perante o sorriso malandro da Bambina.
Com o sorriso de alguma malícia estampado no rosto deste nosso simpático condutor e embalados numa agradável conversação, lá prosseguimos o nosso caminho por montes e vales em direcção a Manzini.

A Suazilândia é um país fascinante com uma superfície de 17 400 km2, tendo conquistado a sua independência do Reino Unido em 1963, cujos destinos são conduzidos desde então e após algumas convulsões políticas, pelo rei Sobhuza II, conhecido pela sua prática de poligamia. Fala-se que este monarca africano terá mais de 50 mulheres no seu séquito.
Esta estrada sinuosa de montanha que nos vai afastando da cordilheira dos Libombos oferece-nos a passagem por algumas aldeias muito típicas na beira da estrada. Uma visão anglófona desta sociedade africana, com semelhanças próximas da cultura Zulu, que já tive a oportunidade de conhecer na África do sul.
A nossa chegada a Manzini dá-nos uma agradável sensação de uma pequena cidade desenvolvida à beira da estrada numa região de intensa topografia, com muito comércio, algumas indústrias locais e os motéis que contribuem para uma das receitas principais do reinado. O turismo.
Depois de um caloroso agradecimento ao nosso condutor, era chegado o momento de parar no primeiro bar junto a estrada e satisfazer a nossa fome num Fish & chips, modelo muito popular nestes países anglófonos da África austral.
Tempo ainda para telefonar ao nosso contacto na Suazilândia que poderia nos dar alguns dias de guarida em sua casa algures nas montanhas a uns quilómetros acima de Manzini.
Este nosso contacto de nome Ray é um freak já de alguma idade de origem inglesa que vive há uns anos nestas paragens da África austral. Um figurão alto de longos cabelos e barba ruivos, escultor de madeira e um pintor de talento que tinha estado meses antes em Moçambique, onde foi feito este conhecimento.
Este contacto, conduzido primeiramente pela Bambina com o seu timbre sensual, foi completado pelo Bags, senhor de um inglês fluente que obteve um resultado positivo. Estava assim estabelecido um encontro com o nosso anfitrião ao fim da tarde no Hot Springs de Ezulwini Valley, uns 20 ou 30 quilómetros sobre a mesma estrada em direção a Mbabane (capital da Suazilândia).
Terminada a nossa rápida refeição, dirigimo-nos para a estrada quando a Bambina se sai com a surpresa da tarde.
– Vocês sabem o que eu tenho aqui, miúdos?
– La vens tu com as tuas!…diz o Luis Pedro com um ar curioso.
-Uma passa de Nampula que eu trouxe aqui dentro da cueca…oh…oh!
-Tu és impossível, diz o Bags…grande Bambina…that´s my girl!
E uma vez enrolada e queimada aquela bela suruma, voltamos de novo à estrada pedindo boleia aos carros que iam passando…a nossa animação continua em alta.
Na falta de opções, fomos desafiados pelos transportes colectivos da região (mini bus) que iam passando e que por alguns cêntimos nos deixariam no nosso destino.
Aceitamos, e lá fomos em companhia do povo local naqueles transportes duvidosos e superlotados. Mais uma experiência singular para viver nesta África diferente.

 

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O Ezulwini Valley também conhecido como “Lugar do paraíso” é uma região mágica com estruturas hoteleiras diferentes de tudo o que tínhamos visto antes nas nossas vidas. Logo procurámos o complexo de águas termais conhecido em toda a região como Hot Springs, surgindo dali a pouco à frente dos nossos olhos algo de extraordinário.
Um fantástico plano de água num enquadramento de rocha natural onde ao centro, do interior de um tubo metálico, brota água quente proveniente do centro da terra e que aflora a superfície a temperaturas expressivas.
Lugar fascinante onde ocorrem naturalmente os turistas da região.
-Uau!…digo espantado com o cenário. Vamos nessa também?
Excitada com a ideia, a Bambina apressa-se a dizer.
-Já lá estou!
-O Bags exclama…mas olha lá aquele tubo a fumegar vapor. Sai água quente dali, man?
-Ya…diz o Luis!…isto são Hot Springs… é água quente subterrânea… vamos a isto!

A nossa tarde foi muito agradável passada neste ambiente frequentado por turistas oriundos de vários países do mundo, com uma predominância natural de sul-africanos.
Só o Bags conseguiu entrar e permanecer uns minutos dentro daquele tubo de um metro e picos de diâmetro onde a água brota a uma temperatura de cozedura…é preciso coragem!

Ao fim da tarde tivemos o nosso encontro com o Ray que não víamos há vários meses desde a viagem dele a Moçambique.
Após uma calorosa recepção que nos deixou bem a vontade e, uma vez feitas as respectivas apresentações, minha e do Luis, que não o conhecíamos pessoalmente, lá montamos uns dentro e outros atrás numa carrinha azul de caixa aberta por uma pista de macadam com um típico cheiro a mato.
Foi neste percurso de uns 15 a 20 km que nos apercebemos das belezas naturais da região, onde entre montanhas de menor altitude e vales fantásticos, lá fomos passando por algumas aldeias em pleno mato com as palhotas tradicionais, onde os miúdos se juntavam para nos acenar vigorosamente. Uma constante em África.
Assim chegámos ao nosso destino.
A casa do Ray, totalmente construída em pedra e madeira, é deveras atípica, onde abundavam no exterior imensas peças em madeira esculpida e onde se respirava arte em todos os recantos daquela moradia de singular arquitectura, ricamente rodeada de arvoredo e do mato rasteiro muito típico daquela região de montanha.
Ao entrar num imenso salão, pudemos ver novamente a arte bem presente em toda a parte com uma forte predominância de mais esculturas em madeira, pinturas a óleo, batiks de várias dimensões, objectos feitos de materiais naturais (pedra sabão e outros) e algo que me despertou uma especial atenção…a presença de vários tipos de instrumentos musicais. Estamos numa casa francamente diferente, carregada de boas vibrações e de muita criatividade.
Well, guys, make yourselves comfortable…there is an area upstairs where you can lie down to sleep, or here in the living if you prefer, ok?… Diz-nos o Ray colocando-nos à vontade e enchendo um “pipe” de “cannabis” Swazi que nos passou de seguida.
Welcome to Swaziland!…diz-nos com um largo sorriso.
Thanks, man…very kind of you. Responde o Bags de imediato pegando no “pipe” fumegante.
Nisto surge na sala um fulano alto, magro, de bigode e com um semblante intelectual que nos olha serenamente, dizendo:
Hi!…I´m Robert…welcome to Shiselwini.
Hi!… respondemos quase em uníssono.
So, you guys are from Mozambique?
That´s correct…respondo eu, apontando para os meus companheiros…Luis, Bambina and Bags…I´m Chico!
Nice to meet you!…responde-nos o Robert estendendo a mão a cada um…there is a creek behind the house where you may have a nice time by the water…feel at home.
Thanks a lot…responde desta vez o Bags, acompanhado dos nossos sorrisos de satisfação por esta calorosa recepção.

 

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Depois de uma visita da casa e arredores, cai a noite e temos agora pela frente uma tarefa partilhada entre todos. Acender o fogo dentro de casa e igualmente lá fora, bem como ajudar nas tarefas da cozinha de onde sairá uma refeição para mais tarde aquecer o estômago ao grupo.
Ao seu bom estilo a Bambina aproximou-se do Ray, sabendo nós que isto era sinónimo de um envolvimento mais cedo ou mais tarde. Aqueles dois iam seguramente passar a noite juntos.
Enquanto o Bags e a Bambina acendem o fogo e trocam um papo com o Ray, eu e o Luis deixa-mo-nos estar pela cozinha a cortar alguns legumes que colhemos na horta atrás da casa. O objectivo era fazer uma bela sopa de legumes e preparar, com a ajuda do Ray, uma massa granulada de mandioca acompanhada de mais legumes como a abóbora e outros que nunca tínhamos visto antes, alguns frutos secos e a tradicional maçaroca assada no final. Tudo isto regado com as famosas cervejas Tjwala de fabrico Swazi.
As quantidades de comida eram substanciais pois, segundo o nosso anfitrião, chegariam em breve mais uns quantos amigos para partilhar esta refeição.
Nos momentos que se seguem ouvimos algo que partia do interior da casa e que captou a minha especial atenção.
O som de uma guitarra clássica. Acordes e partituras de Johann Sebastian Bach…absolutamente sublime!
Curioso, dirigo-me a uma sala mais ao fundo onde vejo o Robert em posição de lotus a tocar magnificamente estes acordes numa fabulosa guitarra clássica com cordas de nylon pretas. Ali fiquei por largos instantes num canto a ouvir em total silêncio este virtuoso da guitarra clássica, tendo-se juntado a mim o Bags por razões óbvias.
Somos ambos “guitarreiros” amadores e fiéis seguidores dos Blues e do Country music…isto é transcendente!…isto é outra esfera!
O Robert, imperturbável, mantém o seu ensaio diário de 2 a 3 horas, segundo nos contou a seguir. Este homem é um personagem à parte!

Chegam entretanto os outros convidados, duas bonitas loirinhas de olhos azuis e mais três freaks de grande estatura. Todos anglófonos. Talvez oriundos da África do sul ou da Rodésia.
Depois das apresentações calorosas conduzidas pelo Ray, lá nos instalamos no salão em acesa confraternização, onde começaram a circular umas boas passas de Piggs peak uma região do norte do Reinado onde estão as plantações de cannabis mais famosas do território.
A paulada foi geral e não tardava estaríamos a desenvolver uma bela guitarrada acompanhada de uma batucada improvisada de grande qualidade… a força de uma geração Flower Power está aqui bem presente…yes!
O jantar corre agora em ambiente de grande animação…sentimos que o nosso contributo na cozinha foi válido, dado o apetite que todos demonstram. Também é verdade que fome de passa é um excelente ingrediente em qualquer refeição. Efeito largamente conhecido dos amigos da “marijuana”.
Depois deste momento gastronómico o Bags preparou mais um chilom com a marca Piggs-peak, enquanto peguei no violão para animar o ambiente, logo seguido de mais alguns dos presentes que completaram o quadro com flautas e uns batuques. A noite promete.
Entretanto vejo o Ray de pé baixar-se sobre os convidados, oferecendo a cada um algo que trazia na mão. O que seria?
Vi que era algo comestível pois todos sorriam e colocavam de seguida na boca. A minha curiosidade aumenta.
Chegada a minha vez vejo na mão do Ray umas bolinhas pretas pouco maiores que cabeças de alfinete.
What is it, man?
O Ray com um sorriso enigmático só me acena com a cabeça indicando-me a prova daquele misterioso produto. Dizendo-me de seguida:
It´s “Black microdot”…the best there is man!
Tomando aquela cabeça de alfinete como todo o mundo e voltando-me para o Bags que está ao meu lado, pergunto com a cabeça.
-Ele responde-me com algum entusiasmo… ácido man! “Black microdot”
-Quê?…Uau!…como vai ser isto?
-Deixa correr. Já falei com alguém que tomou e achou o máximo.
-Vamos nessa!…digo eu como quem se vai lançar de um avião com um para-quedas duvidoso.

 

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Esta primeira viagem ao universo extra-sensorial do meu cérebro com LSD (Ácido lisérgico) é algo que entendo como a experiência mais transcendente vivida até então na minha existência de 18 anos.
Só passado uma boa hora de ter tomado esta minúscula cabeça de alfinete começo a sentir um estado de euforia tomar conta de mim. Efeito igualmente sentido pelos meus companheiros que estão por perto.
As cores da casa tornaram-se gradualmente mais vivas, as luzes mais brilhantes e os objectos começam a moverem-se estranhamente da sua posição.
As vozes dos meus companheiros entram-me agora no ouvido de forma distorcida… é como ver os sons em vez de os ouvir e dar entrada num caleidoscópio translúcido sem entrada nem saída…tudo em meu redor é agora muito transcendente…muito extraordinário…tudo vivido com uma inexplicável euforia e alegria de viver.
Estranhamente, invade-me agora uma sensação em que o tempo está a andar para trás e depois para a frente, movendo-se ora mais rápido ora mais lentamente em ambos os sentidos.
À minha volta surgem objectos dos quais brotam feixes de luz coloridos. Nada mais tem as formas nem as texturas do mundo real. As reacções biológicas como ter sede, fome ou vontade de urinar não fazem mais parte da minha esfera quotidiana. Esta esfera é agora ocupada pela contemplação mágica, emotiva e sonhadora de tudo o que se move a minha volta.
A força da gravidade é agora um factor relativo.
Levanto-me e sinto as vozes e as gargalhadas dos outros rodar na sala numa rotação que me impede de caminhar para o exterior da sala num só impulso. Devo para tal deixar passar estes sons, os efeitos de luz e energia que se cruzam a minha frente em grande velocidade. Tudo é simplesmente alucinante.
Uma vez no exterior, dou uma gargalhada para céu pois a forma como a abóbada celeste se apresenta aos meus olhos é muito invulgar, tendo as nuvens se tornado enormes algodões de Luna-parque que tento alcançar para provar…não chego lá e isso é uma nova risada hilariante.
E as árvores do exterior que me falam uma língua estranha, tão estranha quanto uma das raparigas de olhos azuis que passa por mim com um lindo sorriso articulando um dialeto no mínimo fantástico.
Ao tirar a minha Honner de beiços do bolso os sons que produzo são para lá do imaginável…um fascínio sem fim…uma euforia sem tamanho.
Esta fabulosa noite que se estendeu ao longo deste desfilar de sensações foi sendo embalada com deambulações a volta da casa que tomava por vezes a forma de uma ínfima casa de gnomos, para a seguir se transformar um imenso palácio imperial….simplesmente hilariante.
As conversas soltas que tive ao longo desta atribulada viagem com os meus companheiros não produzem na minha memória qualquer registo que eu possa reproduzir… tudo se passa num universo difuso, como uma visão para lá do espelho…nada teve um sentido lógico…nada corresponde a uma ordem…tudo é relativo.
Esta é seguramente a noite mais eufórica e intemporal da minha vida…tenho agora uma noção que estar deitado numa cama imensa onde os objectos em meu redor não mais pertencem a uma ordem e onde o fechar dos meus olhos é a entrada num mundo totalmente desconhecido, onde predomina uma vegetação luxuriante e onde os personagens são verdes…e a minha viagem continua.

Já é dia quando me lembro de abrir os olhos…onde estaria?…a minha ideia da realidade era difusa embora já pudesse identificar o lugar, e posicionar o meu percurso para entender como viemos ali parar.
As sensações de leveza continuavam a comandar o meu espírito.
Pude questionar-me em silêncio. Será que aquilo continua?…mas aquilo o quê?…e as respostas não saem claras…alguns flashbacks continuam.
Uma voz ecoa junto a mim. Quando me volto vejo uma figura algo familiar que me pergunta.
Hi, Chico…how are you, man?…feeling good?
Volto-me para ele e sinto que estou a falar com o dono da casa. Com uma voz desconcertada digo.
Yeah, man!…guess I´m all right…where have we been? Pergunto com um tom algo inseguro.
He!..he!..I see you´re ok!… we have all been triping on acid, buddy…a very good acid…was this your first?
-Yes, man…this is amazing stuff…how come a tiny black seed like this can take you so far, man?
– That´s it, mate!…quality acid…no strychnine…come on, buddy!…have some black coffee…it will do you good!

Nesta manhã, ainda sob o efeito residual daquelas pequenas bolinhas pretas mágicas e ainda entrando numa mera aproximação à realidade, a emoção mais vivida foi a partilha entre nós daquela experiência singular de uma noite fora de órbita.
Seguiu-se uma copiosa refeição com os restos da noite anterior.
Aqui pudemos também provar um excepcional pão feito em casa pelo Ray com farinha de milho e trigo integrais barrado com uma excelente manteiga de amendoim e a prova de umas deliciosas tiras de carne de caça seca muito famosas na África do sul, chamadas de Bilton.
Dando por concluída aquela passagem gastronómica, foi tempo de ouvir o Ray dizer aos presentes.
Listen, guys and girls… in a while let´s put some stuff together, clothes, some food, water, and music instruments. I´ll take you to a hot spring water fall a few miles up the river…are you ok with that?
Perante tal proposta todos acenamos com a cabeça muito naturalmente.
-Vamos nesta, gente…nova aventura..digo aos meus companheiros com o sorriso estampado na cara.

São 10 h da manhã e desta vez vamos em dois carros tendo o Robert ficado em casa para não falhar os seus ensaios de guitarra clássica.
O caminho de picada foi uma verdadeira incursão pelo mato onde tivemos oportunidade de ver uns javalis, algumas perdizes, galinhas e cabritos do mato a fugir a nossa frente na pista. Momentos de particular fascínio que nos oferece o continente africano.
A chegada ao local das cascatas é motivo para o nosso deslumbre e fascinação. O sol brilha abertamente, a temperatura do ar ronda os 30º Celsius e as nuvens no céu são escassas e dispersas.
Para comemorar este momento, o Luke, um dos convivas da noite anterior, tira do carro a aparelhagem de som dando-nos o imenso prazer de soltar no ar o fantástico som de Jethro Tull com Thick as a brick…motivo mais que suficiente para queimar mais um chilom com a marca Piggs peak…aquela fabulosa cannabis que o Ray nos tinha posto a disposição…o ambiente é de grande emoção naquele cenário de eleição.
As cascatas daquela fabulosa zona de montanha são de água quente subterrânea como já tínhamos encontrado no Hot Springs de Ezulwini Valley, um fenómeno natural muito presente nesta região da Suazilândia.
De imediato a malta despiu-se por completo preparando-se para mais uma jornada de puro gozo da vida naquelas águas quentes em plena montanha deserta. Só nós estamos ali.
Como já tínhamos imaginado…a Bambina já andava enrolada com o Ray que do alto duma rocha nos acena, dizendo:
Guys and girls…are you ready for a new trip in this fantastic place?I have half caps for those who prefer.
– As loirinhas logo responderam afirmativamente à ideia das Half caps
Eu olhei para o Bags e para o Luis e na nossa troca de olhares lia-se uma ideia partilhada. Afinal a experiência da noite anterior até tinha corrido bem.
Dissemos então ao Ray que estávamos nessa, aceitando uma vez mais tomar aquelas cabeças de alfinete mágicas, ideia seguida pelos restantes rapazes do grupo.

Neste fabuloso ambiente natural onde sentimos o regresso deste “Black microdot” aos nossos cérebros, é chegado o momento de um novo estado de flutuação, tendo como pano de fundo um som absolutamente sublime.

Trata-se desta vez do som celeste do novo LP há pouco lançado em Inglaterra pelos Pink Floyd – “The Dark side of the moon” …com este som a noção que todos temos é de entrar gradualmente numa outra dimensão da estratosfera.
Neste quadro de puro êxtase chegam-me ao cérebro as imagens fantásticas das rochas a minha volta em que os tons naturais da pedra começam a variar entre os vermelhos, os roxos, e outras tonalidades em permanente variação.
Os risos que sinto sair do meu rosto voam agora em meu redor encontrando os dos meus companheiros de alucinação, e os rostos deles são agora uma variação bizarra de esgares, produzindo ecos , e portadores de singulares formas e cores, variando com as indescritíveis visões que me oferece o sol, o céu, aquela água quente e a terra.
Este álbum dos Floyd é agora o nosso transporte para uma outra dimensão onde já não há força da gravidade…a entrada do meu corpo nu naquela água quente é indescritível produzindo em mim uma emoção transcendente…as risadas trocadas entre nós dentro deste plano d´água preenchem agora o nosso universo meramente tangível…como que se nos encontrássemos num espaço intemporal a viver uma existência espacial tridimensional.
Não é fácil reviver estas viagens na esfera sensorial do cérebro, trocando-as por palavras enquadradas numa ordem cronológica colocando as várias etapas desta incursão dentro de um formato perceptível.
As interpretações desta minha segunda viagem para lá do meu hemisfério quotidiano, transportam-me para a leitura de um autor por quem nutro uma especial admiração e na qual reconheço alguns dos momentos vividos nestas montanhas mágicas da Suazilândia.
Recordo aqui a edição em 1960 da “A erva do diabo” do grande antropólogo peruano Carlos Castañeda que marcou uma geração e que até hoje desperta grande interesse na procura de interpretações alternativas à realidade mundana.
Revejo nestes momentos transcendentes alguns dos relatos antropológicos que o Carlos partilha com as tribos milenares da América Central, e dos singulares ensinamentos que este homem recebe de um índio Yaqui de nome Juan Matus, sob o efeito de uma bebida preparada a partir de plantas  com propriedades alucinogénicas de nome Datura.

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Já o sol se deitava naquela montanha mágica, quando ao ritmo da nossa percepção relativa decidimos juntar os nossos objectos pessoais, e entrar com os carros naquela picada em direcção a casa do Ray.
Não deixa de ser extraordinária a capacidade psíquica dos nossos admiráveis condutores…neste caso o Ray e o Luke que nos trouxeram numa viagem absolutamente inédita de volta a casa… sem incidentes.
Este tipo de viagens ao universo sensorial provocado pela ingestão de ácido lisérgico dura em regra 10 a 12 horas.
O ácido lisérgico popularmente denominado de LSD foi descoberto por acaso pelo Dr. Albert Hoffmann (Suiça) que trabalhava no estudo de fungos, tendo tido o seu primeiro contacto acidental com esta substância que lhe provocou um estado de alucinação nunca antes relatado no universo clínico.
Alguns anos mais tarde, pressentindo que havia descoberto algo demasiado misterioso para ser abandonado, repetiu a experiência intencionalmente e maravilhou-se.
Inicialmente, o LSD foi uma substância utilizada como recurso psicoterapêutico e para tratamento de alcoolismo, disfunções sexuais, e outras que interessou particularmente o Prof. da “Universidade de Harvard” (USA) Timothy Leary, que desenvolveu vários estudos do efeito do LSD no cérebro humano.
O LSD foi finalmente e globalmente adoptado por esta geração Flower power que através desta, e outras substâncias como a psilocibina retirada dos cogumelos, e da mescalina retirada dos cactos, encontra um campo fértil de experimentação extra sensorial, e uma forma singular de viajar noutra dimensão.
Esta noite deito-me nesta cama agradavelmente cansado, como que suspenso no ar, dando gradualmente entrada num sono que me transporta para lá da subconsciência afastando-me indefinidamente do ambiente perceptível.

É chegado um novo dia . Dia de regresso à nossa terra mater Moçambique depois de um inesquecível e alucinante fim de semana neste fabuloso reinado da Suazilândia.
O matabicho foi animado. Uma bela dose de Porridge à base de muesli faz as nossas delícias. Tudo acompanhado de um belíssimo café produzido na Africa do sul….hummm!
Well, guys!…I hope you have enjoyed your stay in “Shiselwini”! Diz o Ray com ar altivo e sereno que lhe é característico.
We had a great time, man!…thank you very much…responde o Bags prontamente.
We´ll be back in Swaziland soon I guess. Next time we want to visit Mbabane and Piggs peak…digo eu entusiasmado.
That Piggs peak stuff is outstanding!…diz desta vez Bambina com um brilho nos olhos.
O Ray prossegue com um sorriso malicioso no olhar dizendo:
-Bambina and I had a beautiful time. She´s taking some of that good stuff with her…but hold on a second!
Nisto levanta-se voltando dentro de momentos com um verdadeiro presente do céu. 5 bons fingers da qualidade “Piggs peak” para cada um de nós!
Wow man!…how can we ever thank you? Pergunta o Bags com os olhos a brilhar.
Never mind!…next time I come to Mozambique you take me for a couple of beers by the beach. Responde o Ray com um sorriso solar.
A colaboração deste nosso anfitrião foi um pouco mais longe, dando-nos o contacto de uma amiga de nome Eve na região de Mbabane, caso voltássemos em breve à Suazilândia. Segundo ele, esta amiga podia dar-nos o apoio necessário naquela região…far out!
E dito isto, feita as nossas despedidas do Robert e daquele local mágico que nos deixa um conjunto de excelentes memórias, o Ray transporta-nos até a estrada nacional por aquela pista de macadam que uma vez mais nos deixa esta sensação especial, este cheiro a mato o contacto com uma população bem típica desta região do mundo.
Uma vez chegados à estrada nacional temos direito a uma despedida naturalmente calorosa.
Bye, guys!…take good care, and have a great time on your way back home.
We had a great time with you guys…respondeu o Bags naturalmente em nome de todos.
Terminadas as despedidas emocionadas da Bambina com este namorado passageiro, chegou a altura de nos fazermos à estrada.
Sob risco de encontrarmos no imediato alguma boleia, o Bags logo tratou de encher um chilom (cachimbo de barro) com a famosa Piggs peak…uma nova estalada está assim garantida por mais umas boas horas de viagem.
Com os espíritos ao alto carregados de boas emoções e sem preocupações de maior, lá rumamos à nossa terra Moçambique.
Com a sorte do nosso lado apanhámos três diferentes boleias tendo chegado perto da fronteira de Lomahasha cerca das 6 h da tarde.
Tempo de fumar um último joint no mato a beira da estrada e pensar.
-E o que fazemos com estes fingers?…é maningue passa, joe! pergunta o Luis Pedro preocupado com o assunto.
-Penso que deste lado passamos bem mas com os bufos daquele outro lado não sei não…digo eu com ar sério.
-Porra mas isto é Piggs peak, diz o Bags indignado.
-Oh meus amigos…eu ponho esta merda dentro das cuecas aqui ao pé da coisa e vamos a isto…quero ver quem é que vem mexer aqui na gaja…diz a Bambina suspeitamente despreocupada!
-Merda!..isto é arriscado…que é que vocês acham? Pergunto eu desta vez.
-É pegar ou largar?…diz o Bags!
-Largar material deste!…nunca! Diz o Luís Pedro
Num gesto de pura irreverência e aparente descontracção, seguindo o exemplo da nossa companheira lá enfiamos a mercadoria no fundo das cuecas. Tudo ajeitado e comprimido da melhor forma e…bora lá!

Fronteira Namaacha

 

E embalados pela coragem, mas conscientes do risco que corríamos, lá fomos a pé de mochila ás costas para a fronteira Swazi com o nosso ar de estudantes em férias….hilariante!
Primeira passagem pela Royal Swaziland Police sem novidades. Passaportes carimbados e venha a próxima a 200 m mais adiante, atravessando um terreiro que divide as duas fronteiras.
“Republica Portuguesa – Província de Moçambique – Posto fronteiriço da Namaacha.
Aqui o assunto é mais sério e a nossa aproximação do balcão de controle de passaportes traduz-se num primeiro contacto com um agente tipicamente “tuga” vestido de balalaica de cor clara com aquele bigode muito característico dos carrascos da PIDE.
Então, e de onde vêm? Pergunta este agente com ar sério e desconfiado pegando no meu passaporte em primeiro lugar e no dos meus companheiros em seguida.
-De Manzini. Respondo com ar descontraído.
-Humm…estudantes em férias?
-Sim, responde o Luis com um ar algo encolhido.
– Então vamos lá ver essas mochilas.
Esta tarefa de revista das nossas mochilas fez-nos olhar de soslaio uns para os outros. Será que os deuses estão connosco?
Uma manobra interminável que nos deixou a respirar mal quando este energúmeno resolve pedir para colocarmos os casacos e sacolas em cima do mesmo balcão.
O ambiente é agora mais tenso e os nossos corações começam a bater mais rápido, com a revista dos conteúdos dos nossos objectos pessoais.
Tudo se tornou enfim mais leve quando, com uma voz cortante, o nosso interlocutor nos faz um sinal com a mão para recolhermos as nossas bagagens e avançarmos para a saída.
-Podem seguir. Diz-nos o agente entregando-nos os passaportes carimbados.
Uma vez cá fora a primeira palavra veio da Bambina.
-Tomem lá cabrões!…diz esta nossa arrojada companheira batendo com a palma da mão na pélvis.
-Deitar fora Piggs peak…era o que faltava! Repica o Bags com um ar vitorioso enquanto nos afastamos daquele ameaçador posto fronteiriço.
É já noite serrada quando damos entrada na nossa Lourenço Marques a bordo do machibombo da carreira.
Estoirados, esfomeados, com muito pouco dinheiro de bolso, mas com a cabeça cheia de mais uma aventura memorável nas terras mágicas do reinado Swazi.  Assim recolhemos a casa dos pais onde fomos recebidos com algum alívio e com um olhar pouco aprovador por parte destes, que com um ar desconfiado nos vêm como recém chegados de um outro planeta.

O balanço desta nossa primeira incursão à Suazilândia suscitou naturalmente muita emoção no seio de colegas e amigos que puderam provar a qualidade Piggs peak que trouxemos connosco.
As viagens à Suazilândia passaram a ser um destino muito apetecido pela comunidade dos amigos da marijuana da capital Moçambicana.
Mas eu queria mais. No meu espírito persiste um “sabor a pouco”, e desde logo alimento a ideia de lá voltar para desta vez conhecer a capital Mbabane e trazer deste reinado mágico mais um aprovisionamento desta cannabis de excelente qualidade.

Parte II

Welcome to Swaziland-2

 

Tal vontade de regressar ao reino Swazi foi satisfeita umas 5 semanas mais tarde com uma nova incursão a este fabuloso território montanhoso, aproveitando um fim de semana prolongado.
Desta vez, venho novamente acompanhado dos meus colegas de estradas poeirentas Bags e Luis Pedro, tendo connosco uma nova companhia. O Martelo, que não resistiu a partilhar esta aventura neste fabuloso reinado.
Optámos mais esta vez por apanhar a primeira carreira da manhã que liga a capital à Namaacha onde se encontra a fronteira com a Suazilândia.
Passadas as formalidades fronteiriças que já conhecemos, lá nos colocámos estrategicamente na estrada MR3 para apanhar boleia em direção a Manzini.
A desvantagem desta vez é não termos a Bambina como peça fundamental para o bom funcionamento desta prática…mas vamos lá!
Primeira boleia foi até à bifurcação de Nonhlupeko local com um pequeno comércio à beira da estrada onde pudemos matar a sede, tendo pouco tempo depois tido a sorte de apanhar boleia de uma carrinha de um empreiteiro da zona que nos deixa no cruzamento de Mafutseni junto a um pequeno mercado local onde comprámos uns chocolates que não há em Moçambique.
Aqui espera a foi um pouco mais prolongada. A paciência é um dom e a única solução ao nosso alcance.
Mas este grupo de bons samaritanos sempre tem alguma sorte do seu lado e lá conseguimos uma nova boleia que nos leva até Manzini. Trata-se desta vez de um casal Swazi de meia idade que nos transporta numa carrinha Peugeot 404 station.
Durante este trajeto quiseram saber da nossa história, sobre a vida em Moçambique, e o porquê do nosso interesse em visitar a Suazilândia, etc.
Conseguimos compreender que se trata de um professor em viagem, acompanhado de sua mulher de visita a uns familiares ali perto da fronteira com Moçambique.
No desenrolar desta animada conversa contam-nos que vão assistir a um importante espetáculo nacional. Uma cerimónia na presença do Rei Shobuza II durante a qual vai escolher uma nova esposa para o seu séquito. Super interessante pensei.
-Would you like to assist the ceremony? Pergunta-nos o nosso simpático condutor.
Olhando uns para os outros pensamos que um evento destes não é para recusar.
Prontamente respondo em nome de todos.
-Yes Sir!…we´ll be happy to see that.
-Ok…so you come with me and my wife to watch the celebration.
-Very kind of you sir!…diz desta vez o Bags com um sorriso luminoso.

 

Rei Shobusa II

Dance Reed 1 Ludzidzini- Swaziland   Dance Reed 2 Ludzidzini- Swaziland

 

Assim chegamos a uma zona denominada de Umhlanga. Um vasto descampado correspondente a um enorme estádio de futebol rodeado das cadeias montanhosas ao longe, onde em companhia destes nossos simpáticos anfitriões vamos assistir ao festival Dance reed. A excitação já está no ar quando aqui chegamos.
Em redor está, como nós, uma imensa multidão de espetadores, turistas e dignitários estrangeiros. A festa já está ao rubro com o rufar dos batuques e os cantares tradicionais.
Em conversa com este professor Swazi, compreendemos alguns aspectos curiosos deste evento.
“Todos os anos os astrólogos do Rei determinam a data deste festival. O ritual mais aguardado é o momento da dança de centenas de virgens semi nuas em frente ao monarca. Dessa forma, ele pode decidir se quer mais uma esposa ou não. Contudo, o protocolo só permite oficializar o casamento depois de confirmar que a jovem espera um filho do rei. E assim todos vivem felizes para sempre”…hilariante!
E vendo a nossa expressão de puro encantamento ele continua, dando-nos a conhecer o seguinte:
“As novas candidatas reúnem-se previamente na vila real da Rainha-mãe, conhecida como a Royal Village. Aqui são sujeitas durante algumas semanas a um conjunto de rituais onde é aferida a sua virgindade, beleza, conhecimentos sobre várias matérias laborais e aptidão física, sendo as selecionadas sujeitas a uma preparação para a festa.
Na véspera do festival e depois de um dia de descanso, estas mulheres são lavadas e preparadas para a cerimónia com os seus trajes tradicionais, compostos por vistosos colares de missangas ao pescoço, pulseiras várias nos tornozelos feitos a partir de conchas, que serão sacudidos ao ritmo da dança, uma faixa colorida, uma saia curta e o peito descoberto demonstrando a vontade de casar com o rei.
Muitas destas noviças carregam uma faca de mato que usam para cortar as canas, objetos que são exibidos como um símbolo da sua virgindade.
As virgens da Suazilândia orgulham-se de mostrar a sua pureza nesta cerimónia tradicional que gradualmente se transforma numa atracão turística.”
Demonstrado o evidente conhecimento sobre esta matéria, o nosso homem prossegue esta interessante descrição enquanto aguardamos com grande expectativa o inicio da cerimónia:
“No Reino da Suazilândia os homens podem ter quantas mulheres quiserem, algumas são negociadas por vacas ou tem a sorte de serem escolhidas pelo Rei durante o festival.
O nosso monarca já tem 60 esposas e uma quantidade desconhecida de filhos!”…inédito pensei!

 

SWReed0            Reed+dance9

 

Dá-se finalmente início à cerimónia anual do Dance Reed de 1973.
Numa primeira fase assistimos às danças tribais Swazi que demonstram bem o seu espírito guerreiro, um pouco ao estilo que eu já tinha presenciado com o povo Zulu na vizinha África do sul.
Ao fim de uns 30 minutos desta intensa demonstração musical bem ao jeito da África austral, dá-se finalmente a entrada espetacular em cena das candidatas que cantam e dançam desfilando em frente da família real majestosamente instalada na bancada principal do estádio.
Após este primeiro desfile, o grupo de mulheres selecionadas dirige-se agora para o centro do relvado onde acontece um impressionante performance feita especialmente para a assistência aqui presente.
Maravilhados com o que estamos a assistir, o nosso Swazi confirma algo ainda mais curioso.
“Muitas filhas do rei e princesas também participam na cerimonia de Dance Reed e distinguem-se pela coroa de penas vermelhas que trazem no cabelo.”
Animado com o que vejo, volto-me para os meus companheiros dizendo.
-Loucura gente!
Ao que me respondem sem hesitação.
-Este país é demais!
Concluída esta passagem inédita que é uma demonstração singular da cultura Swazi, é agora tempo de agradecer calorosamente os nossos anfitriões por nos proporcionarem um espetáculo que viverá seguramente na nossa memória por muitos e longos anos.

Já é meio da tarde quando decidimos parar num Fish & Chips na beira de estrada para comer, aproveitando para contactar a tal Eve, indicada pelo Ray na nossa última viagem à Suazilândia.
Coube ao Bags este novo contacto com a nossa anfitriã.
-Hello!…is this Eve?…you don’t know me…my name is Bagse. A good friend of yours gave me your number. His name is Ray.
-Yes!…of course!…I´m with a few friends of mine and we are visiting Mbabane for a couple of days…and I wonder if you…
Pelo abanar da cabeça e o sorriso do Bags entendemos imediatamente que o resultado está a ser positivo…yes!
Ah!…ok…yea…we´ll do so…6 pm at the Mbabane central market…thanks very much Eve…bye now!
Desligando o telefone e com um ar de natural satisfação o Bags anuncia.
-Estamos bem, gente!…ela tem uma caravana numa Farm onde vive perto de Mbabane e diz que podemos lá ficar. Mas que só pode vir buscar-nos pelas 6 h da tarde ao mercado central.
Satisfeitos com o resultado fazêmo-nos de novo à estrada. Estaremos a uns quarenta quilómetros do nosso destino. Uma vez mais brindados com alguma sorte lá apanhamos uma boleia circunstancial que nos permite chegar a Mbabane antes da hora marcada.
-Boa…vamos dar uma volta ver a cidade então? Proponho.
-Bora lá…respondem os meu companheiros tão curiosos quanto eu para conhecer o local.
À nossa chegada temos uma nova visão da geografia deste país. Estamos agora mais próximos da cadeia montanhosa de Drakensberg (Montes Dragões) que se estende daqui até ao interior da África do sul.
Mbabane é a capital da Suazilândia. Localizada nas montanhas Mdimba, é o centro administrativo e comercial da região.
A fronteira mais próxima é com a África do Sul na famosa região de Piggs Peak onde, como sabemos se encontram as maiores plantações da melhor marijuana do país . Apesar da principal língua aqui ser o Swati, o Inglês é a língua de grande comunicação.
A temperatura nesta zona de montanha é um pouco mais fresca obrigando-nos a vestir algo mais quente.
A nossa volta pelo centro da cidade é curiosa, sendo interpelados aqui e ali por alguns swazis com ar rastafari de olhos vermelhos que nos propõem a compra de marijuana embalada nos chamados fingers. (cannabis enrolada em rolos de papel de caqui).
Momentos que confirmaram que a venda e o consumo neste país são praticamente livres, em contraste com a nossa terra Moçambique. Uma constatação que nos deixa naturalmente com um sorriso solar.
-Isto aqui é assim? Pergunta o Martelo entusiasmado.
Maningue nice esta terra!…responde o Luís.
Chegando perto da hora resolvemos ir para o nosso ponto de encontro. O mercado central de Mbabane.

 

Mercado de Mbabane -1 Swaziland             Mercado de Mbabane -2 - Swaziland

Aqui abundava a fruta e os legumes produzidos nesta região muito fértil sob ponto de vista agrícola. Entrando neste pavilhão para uma visita rápida encontramos ao fundo um cenário jamais imaginado ou visto anteriormente nas nossas vidas.
Uma banca de um cocuana (homem velho na língua changane de Moçambique) que vendia, sobre uma banca à vista de todo o mundo, vejam bem!…fingers de cannabis de várias qualidades plantadas em diferentes zonas da região…inédito!
Man…isto é inacreditável!…diz o Martelo espantado…os gajos aqui vedem isto à descarada!…pergunta lá ao velhote quanto é!
Baba…tell us …how much?…dispara o Bags em direcção a este homem de idade com uns olhos maningue vermelhos semi cerrados que nos diz numa voz rouca os preços que pedia pelas várias qualidades.
Achamos aqueles preços quase oferecidos e espantados com a experiência única que estamos a viver em plena capital da Suazilândia, lá trouxemos uma meia dúzia de fingers de qualidades diferentes.

A nossa anfitriã Eve chega ao local numa VW Combi laranja pelas 6h e pouco. É uma mulher de origem inglesa alta e magra de cabelo negro e senhora de uma simpática serenidade.
Feitas as devidas apresentações fazemos agora na sua companhia um percurso de estrada asfaltada tendo a partir de um certo ponto entrado numa pista onde uns quilómetros mais adiante entramos numa Farm onde vive.
A Eve habita uma bela casa com a arquitectura Vitoriana tipicamente inglesa. Nesta vasta e bem decorada residência pudemos cumprimentar outras pessoas que ali se encontram na sala de entrada, acompanhados de dois cães pastores alemães que reagiram bem à nossa chegada.
A Eve tratou de imediato de fazer as apresentações.
-So, these guys are from Mozambique…they will stay with me for a couple of days.
Hi!…dissemos a uma só voz mostrando a nossa satisfação por ter aquela recepção calorosa, dizendo uns aos outros os respectivos nomes.
-This is my house and now I´ll show you the farm and the place where you can stay, ok?
– Of course Eve!…thanks a lot for your reception! Digo com notória satisfação.
Recuperando as nossas mochilas dentro da Combi, seguimos os passos da nossa anfitriã que nos diz enquanto percorríamos uma zona de plantações.
-Listen guys!…you are invited in my place for dinner tonight…later on me and my friends are planning to go to “Mbabane´s Cinema”…they are passing a film called “Clockwork Orange”…have you heard about it?
Olhando uns para os outros e num pensamento rápido digo aos meus companheiros.
-Acho que sei do que ela fala. É a Laranja mecânica do Kubrick.
-Is it a Stanley Kubrick´s movie?…pergunto eu.
-Correct!…have you guys seen it?…it just came out in England and US.
Guess not!…diz o Bags olhando para nós.
– So if you dig it…we´ll take a quick dinner in my place in one hour, and move to town to watch it…Diz-nos a nossa anfitriã com entusiasmo.
Count on us and thanks once more for the invitation. Risposta simpaticamente o Bags.
-You´re welcome! Responde a nossa simpática anfitriã sorrindo.
Passados uns minutos chegamos a um local frondoso onde debaixo de uma árvore estava estacionada uma caravana que seria durante os próximos dias a nossa residência.
Here we are!…diz a Eve abrindo a porta da caravana para de seguida nos explicar como tudo funciona no local.
-Thanks a lot Eve…very nice of you! Diz o Bags entusiasmado com aquelas condições agradáveis.
-My pleasure, Ray´s friends are my friends…if you want to get some groceries you have a small shop 300 yards up the road.
Great!…respondo agradecendo com o olhar.
Esta caravana muito bem equipada e estacionada numa zona bem arborizada, oferece uma vista espetacular sobre um vale sendo um spot ideal para estes quatro forasteiros de passagem.
Poderíamos assim usufruir da região e dar as nossas voltas sem depender ou incomodar a Eve no seu quotidiano.
A refeição em casa da Eve está animada onde o tema principal é Moçambique. A curiosidade que despertámos aos outros convidados é notória e assim desenvolvemos uma interessante conversa sobre a nossa terra, o regime político naturalmente, a guerra em curso, como não podia deixar de ser, e as nossas motivações em visitar a Suazilândia.
No final desta simpática refeição há agora naturalmente espaço para o nosso ritual. Um belo pipe de suruma que faz o circuito e a satisfação dos presentes, acompanhado de uns acordes de guitarra e umas congas que sempre aparecem.
Uma hora mais tarde estamos, conforme previsto, sentados numa sala de cinema no centro da cidade.
A exibição do filme de Stanley Kubrick – Clockwork Orange nesta sala quase cheia transmite uma mensagem algo intrigante com imagens violentas e chocantes relacionadas com temas de psiquiatria e delinquência juvenil. Um tema algo perturbador no seio de gangs de jovens onde são expostos de forma crua, temas socio-políticos e económicos de uma Inglaterra futurista. Mais uma grande mensagem ao mundo deste grande cineasta.
Esta temática é agora objecto de animada conversa entre todos na sala super confortável em casa da Eve, tendo sido encerrada com mais a passagem de um par de pipes em redor dos presentes.
Depois de nos despedirmos deslocamo-nos para a nossa caravana onde, uma vez instalados, ainda queimámos uns joints provando assim algumas das variedades adquiridas horas antes no mercado.
A pedrada é grande, mas mesmo assim chegamos a conclusão que a variante Piggs Peak do Ray continuava a ser o material de eleição.

Um novo dia nasceu, e depois de comprar pão fresco e tomar dentro da caravana a nossa primeira refeição do dia, fomos a pé até a estrada asfaltada a partir de onde apanhámos aqueles mini-buses do povo que nos levam até à zona de Lombaba, onde aconselhados pela Eve, vamos visitar o Museu Nacional.
Este museu, fundado no ano anterior e localizado no Espaço Real de Lobamba, sendo uma atracção cultural da região e um must-see para aqueles que desejam saber mais sobre o passado do país. Podemos ver ali várias exposições etnográficas e um showroom onde estão expostos alguns dos carros reais utilizados pelo rei Sobhuza II.
Tivemos ainda a oportunidade de dar uma vista de olhos na biblioteca com uma excelente coleção de livros históricos e uma secção de fotografia super interessante.
No final desta visita e depois de nos deliciarmos com mais um joint resolvemos agora regressar para o centro de Mbabane para almoçar algures na cidade. A fome de passa já é notória.
A escolha é um restaurante Swazi onde provamos um caril de galinha que estava um must.
Cumprida esta missão, resolvemos agarrar mais um daqueles mini-buses populares para ir a uns quilómetros de Mbabane visitar o Mlilwane Wildlife Sanctuary.

Mlilwane Sanctuary -1 - Swaziland   Mlilwane Sanctuary -2 - Swaziland   Mlilwane Sanctuary -3 - Swaziland

Mlilwane Sanctuary -4 - Swaziland

 

Este santuário é a mais antiga reserva natural na Suazilândia que abrange cerca de 11 mil hectares. Aqui os visitantes podem desfrutar de uma variedade de atividades, a pé, e a cavalo.
Andando uma distância considerável a pé fomos visitar a parte norte do santuário onde pudemos ver de perto as zonas de crocodilos, girafas, hipopótamos e zebras…lugar fabuloso!
– He pá, tenho que ir ao WC gente…diz o Bags com uma careta no rosto.
O Martelo responde com alguma cumplicidade.
-Eu também estou a precisar…o que é que se passa, joe?
Demo-nos conta que algo não está bem connosco. Seriam efeitos do caril que comemos ao almoço? Chegámos a conclusão que sim. Desarranjo intestinal à vista.
Depois de uma visita geral ao WC do lodge, todos pensámos o mesmo.
-Meus caros. Estamos com uma bela diarreia e temos que combater isto. Digo aos meus companheiros com um ar de preocupação.
-É…se calhar temos que ir a uma farmácia em Mbabane. Diz o Bags.
-Concordo. Mas acho que ainda tenho que ali voltar antes de partir. Digo eu com mais uma cólica.
-Ya também vou…porra, estas cólicas estão demais!…diz o Martelo esboçando uma careta de dor.
O regresso a Mbabane nestas condições foi penosa e difícil de realizar. As cólicas estavam bem presentes e a pressa de chegar a uma farmácia passou a ser urgente.
-Good afternoon! Digo a uma funcionária de bata branca que nos atende na primeira farmácia que encontrámos em Mbabane.
– Yes…please…how can I help you sir?
-We are having intestinal trouble and suffering from pain. Guess it has to do with something we have eaten!…What can you provide to fight it please? Explica o Bags com ar perturbado.
-Ok…I see…I guess you´re suffering from constipation. Let me see!…diz-nos esta atenciosa swazi de meia idade com os óculos na ponta do nariz.
Thank you!…responde o Bags aliviado.
Logo regressa com uma caixa escrevendo sobre uma nota a posologia e forma de tomar.
-Please take these pills with some water as I wrote on this note.
-Thank you lady!…respondi com o dinheiro necessário na mão para o pagamento.
Com o medicamento na mão e saindo da farmácia tínhamos todos uma ideia no pensamento. Regressar a caravana onde a vontade de nos acostarmos era comum.
E assim foi. A noite caía quando chegamos à Farm debaixo de uma copiosa chuva muito frequente nesta zona de montanha.
Assim que entramos na caravana bebemos cada um belo copo de água e tomamos o dito medicamento, recostando-nos de seguida…cada um no seu canto…a coisa não está fácil…
Nesta noite o destino joga uma partida levando-nos para uma outra dimensão com contornos trágicos.
Só nos apercebemos disto quando de um estado de diarreia comum passámos, todos sem exceção, para um estado de disenteria.
Estávamos a partir daquele momento a sentir que largaríamos pelo traseiro os quantos litros de água de que é composto o corpo humano.
Totalmente impotentes e sem qualquer compreensão do que se estava a passar connosco, peguei na caixa do medicamento que tomamos para ver com mais atenção o seu efeito terapêutico, e os eventuais efeitos indesejáveis.
O pânico total tomou conta da minha expressão facial.
-O que foi, joe?…perguntam-me atónitos os meus companheiros de desgraça.
-He pá!…isto é grave!…ninguém leu esta merda antes de tomarmos. A mulher em vez de nos dar algo para a diarreia deu-nos um medicamento para a Constipation…constipation é prisão de ventre, joe!
-Quê? grita o Bags. Como é possível isto?…porra!
A nossa comunicação em língua inglesa com aquela senhora da farmácia passou no sentido inverso da nossa realidade, talvez consequência da nossa pressa desesperada de tomar algo que nos tirasse daquela aflição…e estamos agora entregues ao nosso destino.
Impossível estar dentro da caravana e continuava a chover.
Analisada a nossa situação crítica, pensámos em conjunto.
-Calma, man!..só tomámos a primeira dose e se não tivermos febre vamos aguentar a pedalada. Disse o Martelo com alguma intuição.
-Será? respondo com tom de apreensão?
-Tens outra solução, Chico? Diz-me como é que podemos sequer sair daqui?
-Ya!…tens razão!…vamos pensar direito…o melhor é sacar umas capas de chuva que a Eve tem ali no canto e ficar aqui fora enquanto isto não melhora. Digo eu meio desconcertado aos meus companheiros.
E assim é. Estas quatro almas desvalidas passam as próximas horas nus da cintura para baixo e sentados num tronco de uma árvore frondosa fora da caravana a deixar o organismo atuar, bebendo toda a água potável que dispomos, ao longo da noite.
Valeu-nos uma estrelinha que permitiu que tudo o que tinha para sair saiu, tendo cada um de nós lavado o corpo como pudemos e caído prostrados dentro da caravana colocando por baixo das cuecas um preventivo pedaço de papel higiénico….em caso de!
Face a uma noite de extrema dureza lá adormecemos já de madrugada quando passaram as cólicas e o cansaço foi mais forte.
Esta aventura demasiado caricata e vivida entre amigos totalmente desinibidos poderia custar-nos a vida e ficará por muitos e longos anos na nossa memória.

Novo dia …parou a chuva e já é tarde quando nos levantamos aos poucos e sem qualquer energia.
Damo-nos conta olhando uns para os outros que perdemos cada um com esta brincadeira uns bons quilos de peso.
Já não sentíamos cólicas mas o apetite é zero. Este será portanto um dia passado a ouvir música na caravana, e tratando o corpo com uns chás e comida muito ligeira gentilmente trazida pela nossa anfitriã Eve a quem contamos a nossa história.
A sua reação foi de um leve sorriso…dizendo-nos simpaticamente.
-You guys are not the first…you won´t be the last….life goes on…if you need anything from me don´t hesitate. I´m next door.
-Thanks a lot Eve…you´re an angel…diz o Bags evitando fazer uma cara de enjoado.

Neste novo dia que marca o nosso caminho de regresso a Moçambique, o sol brilha e a nossa energia está de volta.
O que nos permite tomar um banho geladinho (grrr!), um matabicho mais consistente e dar uma arrumada geral na caravana.
Uma vez em casa da Eve, aproveitámos a oportunidade para falar com o Ray ao telefone, agradecendo uma vez mais este contacto e passando muito naturalmente o telefone à Eve.
A despedida da nossa anfitriã e de alguns amigos que ainda estão aqui em casa dela, é calorosa tendo nós oferecido o nosso apoio caso viessem visitar Moçambique.
Tempo de voltar ao mercado onde iremos abastecer-nos de mais alguns fingers que levaremos connosco para Moçambique.

 

Marcado Mbabane

 

Uma outra visita fica por fazer pensei. Uma viagem à famosa região de Piggs peak onde se encontra aquela qualidade que nos foi dada a conhecer meses antes em casa do Ray. Fica para uma outra viagem.
Uma vez chegados à entrada do mercado temos um contacto circunstancial com um rastafari que nos interpela dizendo:
-Hi people!…are you looking for some stuff?…my name is Jimmy!
-Hi Jim…name is Bagse…what stuff are you talking about?
-I´m talking about real stuff man! diz-nos este swazi tirando do bolso do casaco uma saco muito bem recheado de uma cannabis com um excelente aspeto.
Perante aquele cenário e aquela qualidade, o nosso caminho é agora para um canto mais retirado junto ao mercado onde durante um quarto de hora desenvolvemos uma acesa negociação com o nosso interlocutor.
Negócio feito e artilhados com o desejado carregamento de fingers, assim nos despedimos deste rastafari que deixando o contacto telefónico dele nos diz:
-When you come to Mbabane Jimmy is your man, ok?
-Right mate!…see you again…repondo entusiasmado com o bom negócio que acabamos de fazer.
De novo na estrada com destino a Moçambique temos uma simpática boleia de um polícia no seu carro privado….ops!
-So, you are visiting Swaziland?
-Yes sir. Respondo com cordialidade.
-And how do you like our country?
-You have a great country…We feel quite well in Swaziland…diz o Bags com entusiasmo.
-And you´re from South Africa?
– No, we come from Mozambique, respondo prontamente.
From Mozambique?…Hey…first time I meet white folks from Mozambique!
Esta simpática boleia leva-nos até à zona de Manzini onde aproveitamos para comer e beber antes de continuar viagem.
Com alguma sorte nas boleias lá fomos avançando tendo neste dia que já vai longo chegado finalmente à fronteira de Lomahasha mesmo a tempo de a atravessar.
Tempo agora de viver o clássico stress típico das fronteiras.
Confiantes e com a lembrança de como tudo correu na viagem anterior, ainda assim mudamos de estratégia. Resolvemos atravessar a fronteira em grupos de dois.
-Eu vou com o Martelo e o Bags vai com o Luis. E não nos conhecemos…o que é que vocês acham?
-Parece-me bem, diz o Bags…com ar determinado.
Uma vez colocados os fingers no fundilhos da cuecas lá nos aprumamos e nos aproximamos da fronteira…nós primeiro e os nossos companheiros ficam para trás para nos seguirem 15 ou 20 min mais tarde.
Como é hábito a passagem pela fronteira Swazi é pacífica. Passaportes carimbados e siga.
Aqueles 200 m seguintes na terra do ninguém, são causadores de um enorme stress, sendo percorridos com aparente descontração.
Tentando respirar fundo digo ao Martelo:
-Meu caro! Os deuses estão connosco.
-Chicão!…natural não treme!…vamos nessa!
A passagem por aquele posto é inevitavelmente acompanhada de uma injeção superior de adrenalina e de uma aceleração das batidas do coração que se deixarmos sai pela boca.
Mas os deuses estão connosco e quando o homem da balalaica com cara de poucos amigos nos entrega os passaportes e nos faz sinal para seguirmos, o sangue arterial diz ao sangue venoso…este já está!
Uma vez cá fora, já em território moçambicano batemos com os nossos punhos fechados um contra o outro e digo ao Martelo aliviado.
-Este já está liquidado. Uma bala bem no centro da testa!
-Chico…nós somos imbatíveis!
-Seremos?…vamos lá ver como é que corre com os nossos chamoirs (amigos na gíria moçambicana). Respondo eu, desejando de dedos cruzados que a passagem do Bags e do Luis naquele lugar sinistro seja tão bem sucedida como a nossa!
Quis uma estrelinha que já brilhava na noite moçambicana que a chegada deles ao pé de nós acontecesse passado uns 25 longos minutos.
Naqueles rostos o sorriso é luminoso…no ar um cheiro a vitória…yes!
Já a noite cai quando estes quatro cavaleiros do imprevisto, guardando no bolso os bilhetes comprados para a viagem na última carreira com destino à capital, se afastam para ali junto ao mato saborear esta missão cumprida, com um mega joint.
Cansado mas confortavelmente instalado neste machibombo, sinto que ao sair das nossas habituais zonas de conforto, para viver uns dias entre um dos povos mais amáveis do continente africano, é uma caminhada com um sabor especial, dotada de improviso, tão insólita quanto fascinante, que nos é oferecida pela extraordinária nação Swazi.
Completamos desta forma mais uma passagem por este jardim austral. Um dos países mais pequenos do continente, que proporciona a estes amantes da estrada, o usufruto da última monarquia absolutista africana onde cresce em liberdade vegetal uma das melhores cannabis do mundo.

Até ao meu regresso…

Parte III

 

Game- Swaziland    Swazi power

 

Meses mais tarde tive a oportunidade de voltar a Namaacha durante um fim de semana para passar dois dias junto com vários amigos nas fabulosas cascatas da região.
Foi neste fim de semana que encontramos um figurão de nome Júlio que nos contou uma história que despertou a nossa especial atenção.
Diz-nos o Júlio nesta tarde nas cascatas que tem um contacto aqui na Namaacha de alguém que vai regularmente ao lado Swazi comprar passa de grande qualidade.
-E como é que esse gajo faz para atravessar as fronteiras? Pergunto curioso ao Júlio.
-Ele salta a fronteira vai ao lado de lá compra o material nas aldeias Swazis ali à volta, e regressa pelo mesmo sítio. Faz isto sempre a noite…diz-me o Júlio entusiasmado.
-Salta a fronteira? pergunta o Luis Pedro estupefacto.
-Sim..responde o Júlio…há lá uns sítios onde ele passa sem problemas.
-A sério. Repico eu, com o meu ar incrédulo.
-Querem ir lá ver? É a poucos quilómetros daqui. Vocês têm carro?
-Ya, se falarmos com o Dino, acho que ele vem connosco. Diz o Luis animado com a ideia.
– E isso é para fazer quando?…pergunto curioso ao Júlio.
– Hoje ao cair da noite. Confirma este.
-Ok bora falar com o Dino.
Ao cair da noite, lá nos aproximámos de uma zona fronteiriça tendo o Dino estacionado o carro junto a um pinhal denso e frondoso junto à fronteira.
A noite era de lua cheia e podíamos ver a uma bela distância apesar de ser noite.
-A partir daqui vamos a pé, diz o Júlio vestindo o casaco de cor escura.
-Ok, confirmamos eu, o Dino, o Luis Pedro e o Martelo, que tínhamos embarcado nesta curiosa visita à zona da fronteira.
Após percorrer uns bons 300 m a pé, em direção à zona e com um sinal do Júlio permanecermos em silêncio num local onde pudemos avistar a vedação de arame farpado a pouca distancia dali.
-Agora vamos aguentar por aqui bem sossegados e ver o que acontece…diz o Júlio em voz baixa com um ar determinado…vocês estão a ver ali na vedação uma escada de madeira que permite passar para lá do arame?
-Ya! diz o Luis Pedro super curioso.
-Dentro em pouco vamos ver o movimento…já vos explico como isto funciona…responde o Júlio.
Efetivamente, passados uns bons 10 a 15 minutos, pudemos ver uns africanos aproximar-se da escada, subir de um lado e descer descontraidamente do outro.
-Ché!…como é que é?…pergunto ao Júlio totalmente incrédulo.
-Agora vou-vos explicar. Muitos dos que vivem aqui do lado da Namaacha são da mesma etnia de muitos outros que vivem do lado de lá nas aldeias Swazis mais próximas. Eles fazem muito comercio de um lado e doutro e as fronteiras físicas traçadas pelo homem branco não fazem para eles qualquer sentido.
-Então, mas?…avança o Martelo cheio de curiosidade.
-Calma, deixa-me acabar…quando eles atravessam a Terra de ninguém que é uma faixa de uns 200 metros, vão encontrar uma outra vedação que já pertence a fronteira Swazi. Vedação esta que tem ali construída mais uma escada igual a esta por onde passam para entrar no país, visitar as famílias e ir buscar artigos que não há deste lado, fazendo assim algum contrabando, etc. A PIDE sabe disto mas fecha os olhos.
-Ya! joe…estou a ver o esquema…digo eu com ar entusiasmado.
-Então é assim que aquele teu amigo vai ao lado de lá buscar passa!…repica o Luis Pedro com os olhos arregalados.
-Ora, agora já perceberam. Responde o Júlio com uma voz de satisfação.

Aquela visita furtiva à fronteira bateu forte nos nossos espíritos e nasceu ali uma nova aventura que viria a tomar forma semanas mais tarde.
Naquela tarde, ao fim de mais um dia de aulas, encontrei-me com o Martelo que me diz animado.
-Oi, Chico…já falaste com o Luis Pedro sobre a Swazi?
-Já e acho que o Luis Mendes (Luis 25) também alinha…6ª que vem é feriado e podíamos pensar em ir nessa altura, saltamos a cena ficamos o fim de semana por lá e trazemos o nosso carregamento no domingo à noite.
-Ótimo! Responde o Martelo com um ar de malandragem.
-Vamos combinar melhor isso logo à noite? Vou falar com o Luis Pedro e aparecemos no Parque em frente ao Sheik pelas 9h da noite. Fala tu com o Luis 25. Digo eu com um ar determinado.

O Parque José Cabral é uma das zonas verdes da capital onde o nosso e outros grupos convergem para os encontros culturais e sobretudo para queimar umas passas entre os amigos do costume.
Ali nos encontramos esta noite eu, o Martelo, o Luis Pedro e o Luis 25.
O Luis Pedro é meu amigo de infância. Crescemos juntos e os nossos pais frequentam-se quase todos os fins de semana, sendo alguns destes encontros motivo para os nossos pais partirem para a caça para diversas regiões da savana Moçambicana.
O Luis nasceu em Pangim (Goa) na então índia portuguesa onde, na altura, o pai era chefe da polícia local e o avô administrador. Destacado para Moçambique anos mais tarde, o pai do Luis ocupa funções de diretor da Penitenciária Central de Lourenço Marques.
O Luis 25 é oriundo da ilha da Madeira e o pai veio há uns anos para Moçambique integrado numa empresa de seguros.

 

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Estava tudo combinado para uma nova viagem à Suazilândia, desta vez em condições diferentes.
Apareceu entretanto o Dino Bucellato que seria o nosso transporte até à Namaacha.
O Dino integra uma família italiana há muitos anos radicada em Moçambique que se move na área dos negócios do setor metalúrgico, que confirma dispor do carro da mãe (um belo Lancia branco) para nos levar até à fronteira. Com o instinto de negócio que faz parte do ADN empresarial da família, o Dino, como contrapartida por esta participação na operação, quer naturalmente guardar uns número de fingers em sua posse. Deal!

Neste parque da cidade tivemos mais uma vez o nosso encontro para preparar e combinar os detalhes desta nova aventura na Suazilândia.
Ao fim da tarde de 6ª feira e comunicando a família que iríamos passar o fim de semana numa praia paradisíaca muito conhecida dos moçambicanos junto a fronteira com a África do sul denominada de Ponta do Ouro, la embarcámos a bordo do Lancia da mãe do Dino em direção à Namaacha.

Depois de uma viagem de 1 hora, lá chegámos ao nosso destino, tendo o Dino nos depositado não longe do nosso local de passagem furtiva da fronteira. A combinação era ele vir de novo nos buscar naquele mesmo local no domingo, depois do cair da noite.
Entregues a nós próprios e com a intenção de passar a fronteira bem de noite, ainda nos detivemos não longe dali, numa cantina de um comerciante indiano onde comemos um atum em lata dentro do pão acompanhado de umas Coca-colas.
Chegada a nossa hora (umas 2 h da madrugada) entramos na penumbra da noite guiados pela ansiedade e pelo bater forte do coração que quer sair pela boca. Emoções fortes que acompanham estes quatro companheiros de aventura ao aproximarem-se do primeiro arame farpado.
Nada mais fácil!…apenas subir de um lado e descer do outro…eis-nos na terra de ninguém!
E agora?…agora é atravessar em absoluto silêncio, em passo largo e de forma sorrateira, aquele território neutro e ir ao encontro da segunda vedação onde efetivamente lá estava a segunda escada que nos permitiu uns atrás dos outros transpor aquela barreira e pisar novamente terras da Suazilândia. A emoção é forte e um sentimento de vitória apodera-se de nós…So far so good!
À nossa frente temos agora uma nova missão! Atravessar aquelas aldeias Swazi no breu da noite em total silêncio sem sermos vistos. São umas 3 da madrugada e o frio aperta naquela zona de montanha.
Com a adrenalina no máximo, alcançamos finalmente a estrada MR3 ali esperando o romper do dia aproveitando para dormitar uma hora ou duas em condições marginais.
Com o raiar do dia, e com aquela sensação de clandestinidade, lá nos preparamos para a nossa viagem país dentro fazendo o percurso já nosso conhecido de anteriores viagens na direcção de Manzini.
Fomos desta vez levados até Manzini por um casal de agricultores que nos transportaram junto com uns caixotes de fruta. Uma viagem que não foi fácil dada a chuva que começou a cair sobre nós.
O nosso destino é Mbabane para ir ao encontro de um contacto que estabelecemos na nossa última viagem. O nosso objetivo. Adquirir e trazer de regresso a Moçambique mais uns bons fingers de boa qualidade. Piggs peak se possível.
Estamos em pleno sábado e temos que confirmar este encontro passando para tal num restaurante local.
Peguei no telefone e disquei o número que tinha guardado…ao quarto toque alguém atendeu.
Hi, is this Jimmy? Pergunto ao ouvir uma voz do outro lado da linha.
Yeah…it is Jimmy!…who´s this? Pergunta-me o meu interlocutor.
Hi man…we are the guys from Mozambique!…we met you a few months ago remember?...this is Chico on the phone!
-Ok…I see…so you´re back in Swaziland?
-Yes, mate!…there are four of us…can we meet you later on in “Mbabane”?…actually we are looking for…well…you know!
-Oh, I see!…listen…meet me at the central market entrance at 4 pm, ok?
-We´ll do so, Jim….thanks a lot!
Para não perdermos a nossa oportunidade, apanhámos desta vez um transporte popular que nos permitiu chegar a Mbabane um pouco antes da hora.
Ao nosso encontro vem o nosso Jimmy, um swazi de estatura média de olho bem carregado e com o seu barrete colorido rastafari que calorosamente nos cumprimenta.
– Hi, guys!
– Hi, Jim…how you´re doing man? Respondo calorosamente.
Well…Swazi life as it is!…responde-me sorrindo…let´s move…come this way…tell me is it “Piggs Peak” you are looking for?
Quite right!…respondo prontamente!
No worries, man...but I guess it is more expensive this time.
-Camon Jim…what are you talking about?…last time the stuff was great for a very good price.
-Don´t worry about quality…but I´m purchasing from another person…if you want to have it today you will have to pay a stronger price and walk a few miles up the hill.
-Well, let us get there and we´ll see. Respondo finalmente.
A nossa viagem pelo mato ainda durou uns bons 40 minutos a pé montanha acima.
Por incrível que pareça começamos a entrar num terreno cultivado com duas palhotas ao fundo. À nossa volta de um lado e do outro as plantações são simplesmente “cannabis”….inédito!…país à parte! Estamos efetivamente na Suazilândia!…pensei.

 

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Ao nosso encontro vem uma velha swazi de pele encarquilhada e olhos bem vermelhos que não fala inglês.
O diálogo com o Jimmy durou uns minutos aos quais se seguiu uma nova volta até as traseiras da outra palhota.
Cobertos com sacos de serapilheira estavam 3 tambores metálicos de 200 litros de gasóleo carregados de cabeças de passa bem avermelhada, prensadas até à boca. Uma visão do outro mundo!
-A velha, apontando para o primeiro bidon, pronunciou algumas palavras tendo apontado para os outros bidons de seguida.
O nosso interlocutor explicou-nos.
-She says that this first container is stuff brouht 3 days ago from “Piggs Peak”…these other two are local and cheaper, of course.
Olhámos uns para os outros e o Martelo diz:
-Pergunta lá ao gajo se não dá para experimentar esta de Piggs Peak…se for daquela a gente nem hesita.
A resposta foi positiva e um chilom que o Jimmy sempre traz consigo no bolso foi de imediato cheio daquele néctar.
A paulada não deixa dúvidas…a tosse imediata também não!
Discutido o preço até a exaustão e com os nossos sentidos para lá da realidade sensorial, acabámos por trazer uns 25 fingers de 200 gr cada um. Pagamos à velha e dali saímos bem aviados e com a noção de missão cumprida!
Uma vez regressados à cidade, foi tempo de despedida e devida compensação deste nosso contacto através de algum dinheiro extra.
-Thanks a lot, Jim!…see you again!
-Ok, man!…take care…see you around…you have my number!…just call me whenever you come to Mbabane!
Esta forma de plantação e aquisição deixa algumas questões curiosas no ar e faz-me lembrar um artigo que li há pouco em Moçambique a este propósito.
Como é que um pequeno país com cerca de 1,4 milhões de pessoas, é relatado por ter mais área de cannabis cultivada do que a Índia, uma nação mais do que 180 vezes o seu tamanho geográfico?
A Suazilândia produz florestas de cannabis, brotando sobretudo nas montanhas do norte e região central em zonas de sequeiro – mais abundantemente na região de Piggs Peak onde se produz em quantidade a famosa Golden Swazi.
Mas porque as leis de drogas remontam à época colonial, quando a Grã-Bretanha administrou o território Swazi como um protetorado, os grandes beneficiários do comércio são agentes estrangeiros. A Interpol diz que se trata sobretudo de traficantes nigerianos e sul-Africanos que mantêm canais dedicados com os produtores da Suazilândia. Estes pagam os produtores taxas nominais para as suas colheitas, que exportam via África do Sul para o mundo. Depois existem os nichos residuais como este que presenciamos aqui.
Os camponeses cultivam cannabis nas fendas de colinas e locais afastados de seus domicílios, trabalhando durante a madrugada para evitar a deteção. Não existem plantações em grande escala, porque estas seriam encontradas e destruídas pela polícia. Elas são por este motivo espalhadas em vários locais distintos
Nenhum produtor Swazi se torna rico, porque os compradores pagam pouco. Isto é um clássico.
O preço local de venda é pressionado pela ampla disponibilidade da planta em território Swazi e pelas condições climáticas que permitem cultivar um produto com uma qualidade acima da média.
O governo Swazi não beneficia deste produção nacional porque a infra-estrutura informal que cultiva e comercializa a cannabis opera fora de vista, como uma organização criminosa.
No entanto é dado ao povo o livre direito de consumo e prática do pequeno tráfego.
É muitas vezes com estas fracas receitas que uma velha como esta é o pilar de uma família inteira entre filhos e netos que suporta ao longo de uma vida.
Retrato de um país onde perdura a última monarquia absolutista do mundo onde o rei é considerado como uma entidade divina e onde mais de 50% da população vive abaixo dos níveis de pobreza…não deixa de ser surpreendente.

Está visto que a nossa noite passada num motel barato na beira da estrada, com o cansaço que trazíamos da noite atribulada do salto e uma bela paulada como esta, não tem história para contar. Simplesmente adormecemos dentro dos sacos cama logo após um jantar de frango de churrasco comido num bar tipicamente swazi ali perto.
Vamos lá ver se desta vez não temos aventuras intestinais.

A noite foi tranquila e estamos em pleno domingo com um plano para cumprir.
Na próxima madrugada temos que estar em território moçambicano com esta preciosa mercadoria onde temos à nossa espera o Dino Bucellato.
Foi um dia de estrada no regresso a Moçambique. O primeiro percurso até Manzini em transporte público (bus) onde parámos no mesmo Fish & Chips de sempre para comer algum coisa.
Consumada esta etapa gastronómica e após uma relativa e paciente espera, lá conseguimos uma boleia que nos depositou no cruzamento de Mafutseni. Aqui a espera foi mais massacrante.
Um espaço de tempo onde pudemos confirmar largamente a qualidade do produto que trazíamos connosco…a paulada era geral!
Só ao fim de 2 horas conseguimos a nossa última boleia numa carrinha de caixa aberta que nos deixou 20 km mais adiante.
A sorte esteve do nosso lado quando enfim para um camião carregado de madeira que nos deixa ao fim de mais uma hora e meia na zona de Lomahasha (fronteira com Moçambique).
Sem estarmos na posse da nossa melhor condição para usar adequadamente o nosso raciocínio, lá chegamos à zona da fronteira pouco antes do pôr do sol.
Uma questão pertinente se coloca…
-E agora?…esperamos pela noite cair para atravessar o caminho de volta?…pergunto aos meus companheiros.
Dentro do estado bem elevado em que nos encontramos, fruto das passas queimadas ao longo da viagem, as opiniões divergem.
Eu e o Luis Pedro defendemos que se esperarmos a noite cair já podemos atravessar, evitando os caminhos das aldeias.
O Martelo, mais cauteloso, defendia que só devíamos atravessar já com a noite bem cerrada. Quanto ao Luís 25, a pedrada era imensa para poder raciocinar.
Um dos pontos da discussão é a hipótese de nos perdermos e não encontrar o nosso ponto do salto se o fizermos de noite cerrada.
Ao fim de uma discussão acesa em torno do tema, lá colocamos os “fingers” em torno da cintura e fomos andando terra dentro.
Já de noite e ao fim de alguns 2 km de caminhada por trilhos de mato, somos abordados por um conjunto de miúdos swazis das aldeias ali próximo que vieram ao nosso encontro de forma histérica e ruidosa.
Numa vaga de atrapalhação e natural perda do pouco sangue frio que nos resta, comentamos.
-Que é que estes putos querem, joe? Diz o Martelo atrapalhado.
-Vamos dizer-lhes que se calem…ainda vão chamar a atenção de alguém…diz o Luís 25 apressadamente.
-O Luis Pedro lembra-se…se lhes dermos as moedas que temos, se calhar calam-se.
Nada fez calar aquele grupo de putos, face aquele encontro bizarro com 4 brancos ali aquela hora da noite e naquele lugar. Alguns deles correram em direção à aldeia.
O sobressalto e o pânico tomaram então conta de nós e começamos apressadamente a andar num passo mais largo em direção ao nosso objetivo.
Percorridas mais umas centenas de metros, o alvoroço aumentou com mais população que se aproximava de nós. Desta vez homens e mulheres que podíamos ver na penumbra da noite.
Uma ideia imediata nos atravessou o espírito. Livrar-nos imediatamente da carga suspeita largando os fingers no mato, à medida que andávamos a passo largo e com o coração aos saltos. No espírito já só trazíamos uma ideia. Chegar ao arame.
Esta nossa intenção foi intercetada com a chegada abrupta de um Land Rover negro saído do meio do mato com o insígnia da Royal Swaziland police…um momento correspondente ao fim do mundo nas nossas cabeças perdidas e angustiadas.
Fomos rapidamente neutralizados por três homens fardados e levados para dentro daquele sinistro veículo com os gritos histéricos do povo das aldeias locais à nossa volta. O momento equivalia em ação e stress aos bons filmes de ação de Hollywood.

 

Royal Swaziland Police

 

Dávamos assim início a uma nova fase desta nossa aventura neste Kingdom of Swaziland.
A cela onde fomos colocados juntos é pequena e tem apenas umas esteiras no chão e uma pequena portinhola na sólida porta de madeira que nos confinava aquela condição de prisioneiros.
-Pois é, malta…agora estamos quilhados!…digo aos meus companheiros com ar grave.
-Mas eu disse que esperássemos a noite cair e passar mais tarde. Repica o Martelo indignado. Mas vocês quiseram fazer à vossa maneira e aqui estamos na maior merda.
-Estamos mesmo entalados, gente. Diz lá do canto o Luis Mendes. E vamos ver a merda que ainda vai dar.
-O Luis Pedro com um ar abatido, diz.
-Sem falar do Dino que veio à Namaacha para nos buscar. Não tarda já lá está e não vai entender nada.
-Grande merda nós arranjámos. Digo com a minha voz entalada.
-Só aqui estamos por vossa causa, responde o Martelo revoltado.
-O Luis Pedro, com um ar algo irritado, responde. Cuts como estávamos achas que de noite íamos encontrar o lugar do salto?
-Acho que sempre era melhor do que esta merda. Responde o Martelo
-Ok, gente!…não ganhamos nada em estar a discutir. Vamos é ver se os gajos nos dão algo para nos protegermos do frio e ao menos água para beber. Este foi o meu esforço para acalmar os ânimos.
Ali passamos a noite sem direito a qualquer tipo de alimento ou água para beber.
Apenas nos foi permitido o uso dos nossos sacos cama, fato que se revela essencial dado a altitude em que nos encontramos. Do mal o menos!
De manhã cedo fomos acordados com desprezo e sem ter a mais pequena ideia do que nos iria acontecer. Não temos passaportes nem motivo plausível que justifique a nossa presença ali junto a fronteira do lado Swazi aquela hora da noite. A nossa ansiedade, a fome e a sede tomaram definitivamente conta de nós.
Apenas insistíamos que éramos portugueses do outro lado da fronteira que estávamos ali a passear. A resposta destes oficiais da Polícia Swazi era nula e mesmo agressiva.
Trazemos os quatro a moral no chão. Já nem falamos uns com os outros.
São cerca das 11 horas da manhã quando ouvimos passos no corredor e a pequena portinhola abrir-se. Do outro lado surge a cara de um homem branco de óculos e com um ar familiarmente português.
A porta da cela abre-e e em bom português ouvimos:
-Com que então 4 macaquinhos cabeludos?
Compreendemos, de alguma forma aliviados, que estamos a ser entregues às autoridades portuguesas e a tomar conhecimento com um inspector da PIDE que viera buscar-nos para nos levar para território nacional. Melhor que continuar ali naquela condição degradante, pensei.
Feita esta entrega por parte da Royal Swaziland Police e colocados de novo a bordo de um Jeep (desta vez português), somos levados para o Posto fronteiriço da Namaacha onde somos colocados numa sala fechada com grades para um primeiro interrogatório e consequente identificação por parte do mesmo inspector, que era não mais que o chefe deste posto fronteiriço, de nome Pacheco.
O tempo que estivemos engaiolados no lado Swazi permitiu-nos, para além de deitar contas a vida e medir as consequências da nossa condição, de combinar entre nós qual seria a versão dos factos que todos iríamos relatar perante as autoridades.
Combinamos assim afirmar que tínhamos visto uns africanos a atravessar o arame com aquelas escadas e que o mesmo fizemos no intuito de vir ao lado de lá comprar algumas iguarias (chocolates e guloseimas) que não temos em Moçambique. Em falta de melhor versão, vai esta e seja o que for.
Ao se inteirarem da nossa história e entender quais os nossos laços familiares veio a lume um dado interessante. O facto de se aperceberem que o pai do Luis Pedro é o Diretor da Penitenciária Central de Lourenço Marques. Facto que marcou a decisão então tomada pela PIDE.
Por uma questão de ética e dado que todos vivemos em casa dos pais, foi decidido que estes seriam convidados a vir buscar os seus filhos ao posto fronteiriço da Namaacha, sob condição destes se apresentarem às autoridades na capital para uma investigação mais aprofundada e constituição de um dossier.
A nossa maior surpresa ao fim da tarde e após comermos algumas sanduíches e uma Coca-Cola de litro oferecidas pelas autoridades fronteiriças, foi a constatação do facto que só dois pais foram informados desta nossa aventura, cabendo-lhes a missão de vir buscar os 4 foragidos e levá-los de volta para a capital.
Coube esta missão ao meu pai e o pai do Luis Pedro que são amigos de longa data.
No VolksWagen do meu pai vou eu e o Martelo, e no Nissan do Pai do Luis vai o próprio e o Luis 25.
Escusado será dizer que esta viagem é feita com um peso psicológico de chumbo e a presença implacável do silêncio, apenas quebrado pelas palavras graves do meu pai carregadas de moralidade e deceção. Uma vez na capital, o meu pai pergunta ao Martelo.
-Onde é que moras, rapaz? Preciso de falar com o teu pai.
O Martelo, sentado do banco de trás e sem buraco onde se meter, responde:
-Ao pé do centro, Man kay.
Chegados ao prédio onde moram os pais do Martelo, este ser pensador tem uma luz de inspiração. Vê a luz de casa acesa no 1º andar, onde mora com os pais, mas nota que a do 2º andar está apagada.
-Moro aqui no 2º andar, responde em pleno acto de malandragem.
-Então vamos lá!…tu ficas aí a minha espera, ouviste?…diz-me o meu pai com um tom autoritário e com cara de poucos amigos.
Ao qual nem respondo sentindo que o circo está a arder.
O toque para o 2º andar não teve resposta e o arguto Martelo tenta uma saída de salvação que bizarramente resultou dizendo ao meu pai:
-Os meus pais saem sempre ao domingo para dar um passeio e só voltam mais tarde. Não devem tardar e eu vou esperar por eles neste caso.
O meu pai desconfiado responde.
-Bom, amanhã passarei por cá para conversar com o teu pai.
E assim o nosso amigo Martelo livrou-se de um belo churrasco e de um belo sermão paternal. Não se livrou foi daquilo que aconteceu a todos nós na sequência desta nossa aventura.
De uma convocatória para comparecer no dia seguinte no quartel general da PIDE da capital. A famosa e bem conhecida Vila Algarve.
O mesmo tratamento levei eu, o Luís Pedro e o Luis 25.
O discurso do meu pai, uma vez chegados a casa, foi correspondente a uma daquelas tareias de cinto na mão. Aos meus 18 anos o assunto teve que ser tratado de outra forma.
O que ouvi num quarto fechado na presença do meu pai foi um desfilar de gritos e ameaças que só viram o fim quando a minha mãe forçou o meu pai a abrir a porta. O meu céu estava negro demais para eu abrir a boca. Na minha condição de derrotado, oiço uma voz dentro de mim dizer-me:
Francisco…desta vez perdeste…cala-te, mantém os olhos no chão e deixa a tempestade passar!

 

Vila-algarve       PIDE-DGS

Vila Algarve – Uma experiência singular

Sede da PIDE/DGS– (Polícia Internacional de Defesa do Estado – Direcção Geral de Segurança)

No dia seguinte lá fomos conduzidos pelos nossos pais dando entrada nas famosas instalações de PIDE/DGS.
A nossa entrada neste edifício e o nosso primeiro encontro com esta instituição faz-se num grave silêncio e num clima de grande apreensão quanto ao tratamento que vamos ter.
Só tive tempo de dizer aos meus 3 companheiros de aventura.
-Já sabem!…a nossa versão tem que ser igual!
-Ya, Joe!…dizem os 3 numa voz baixa e comprometida.
O Luis Pedro ainda teve tempo de contar.
-He, pá!…o Dino telefonou-me esta manhã. O gajo está furioso por ter ido à Namaacha e vir-se embora sem saber o que fazer. Contei-lhe o que se passou e lá se acalmou.

Entrar neste edifício com o estatuto de suspeito é entrar numa malha apertada onde se é culpado até provada a sua inocência.
Esta é a experiência até então mais próxima que teríamos com os contornos mais sombrios do regime do Estado Novo, totalmente espelhado nesta instituição onde um ser debaixo de investigação é visto a lupa e tratado como uma criatura inferior.
Ao constatar o ambiente onde nos encontramos, pairam no meu espírito alguns textos a que um dia tive acesso na Associação Académica, que descrevem os métodos utilizados por estes carrascos na prática de interrogatórios.
Recordo particularmente dois que ficaram retidos na minha memória:
O método da Tortura do sono que, como o nome indica, consiste em deixar o detido sem dormir até confessar algo que fez e mesmo o que não fez.
E o método da estátua que, à insónia forçada, se junta a imobilidade também forçada, provocando no detido um desgaste físico acelerado. Trata-se afinal de um método denominado de o Suplício da insónia muito usado pela Inquisição na idade média.
Em paralelo destas sombras e medos que me invadem o espírito, sinto no entanto, que sendo aqui conduzidos na companhia dos nossos pais, tudo isto pode não passar de uma reprimenda exemplar com carácter persuasivo muito ao gosto desta instituição.
Um cenário onde uma aventura irreverente de fim de semana se transforma agora num previsível pesadelo. Vamos ver no que vai dar tudo isto.

No primeiro dia ficamos sentados quase todo o dia num banco de pau corrido, sendo-nos aplicada uma bastonada se tendencialmente nos encostarmos à parede ou falarmos uns com os outros. Coação psicológica da melhor. Ao fim da tarde veio o lado positivo desta humilhação. Pudemos voltar para casa ao cair da noite em companhia dos nossos pais, tendo a obrigação de comparência no dia seguinte à mesma hora. Bom indicador, pensei!
No segundo dia segue-se uma série de interrogatórios em separado para o apuramento de atos subversivos associados a nossa aventura em terras Swazi.
A pressão destes interrogatórios é agora elevada para níveis de exaustão no sentido de admitirmos ações que não praticámos.
As perguntas feitas de forma insistente num ambiente de forte iluminação, são essencialmente em torno destes objetivos:

-Há quanto tempo fazem este tipo de operações do salto desta fronteira?
-Como e com quem nos deslocámos para chegar à Namaacha?
-Como nos movemos em território Swazi?
-O nosso grupo é composto de quantos elementos?
-Quem são os vossos contactos na Suazilância?
-Quanto tempo em regra ficam em território Swazi?
-Qual o tipo de contrabando que vocês fazem nesta fronteira?
-Quem vos encomenda este tipo de trabalho?
-Consome drogas?…quais?
-O Província de Moçambique é uma colónia portuguesa, ou deve ser um país independente?
-Que contactos mantém com a Frelimo? E com quem?
-Sabes manusear uma arma?

Perante estas e muitas outras perguntas, mantenho o meu espírito focado e firme na defesa da versão dos factos previamente combinada com os companheiros, esperando que eles consigam manter-se igualmente firmes neste objetivo. Não está fácil!
Há momentos nestes interrogatórios que sinto a proximidade da agressão física no sentido da obtenção de respostas às perguntas insistentemente colocadas. Tal não aconteceu até aqui, estando no entanto o degaste psicológico garantido. Estes senhores são especialistas nesta matéria.
Findo este ciclo de intensa persuasão, somos informados que podemos de novo voltar para casa na condição de regressar na manhã seguinte.
Pela noite e longe dos ouvidos interessados dos nossos pais, pudemos trocar impressões ao telefone sobre o que está a acontecer-nos. A nota positiva é que nenhum de nós vacilou nas respostas. Bom sinal, concluímos.
No terceiro dia seguiram-se mais interrogatórios com inspetores diferentes utilizando falsas respostas dadas por um dos meus companheiros.
-Confirma estas informações?
Algo me diz que são artimanhas para baralhar os nossos depoimentos. Mantenho-me firme nas minhas respostas.
Sinto ao fim deste terceiro dia um certo abrandar da pressão por parte desta Gestapo alemã. Na falta de qualquer indício que relacione esta nossa aventura com atividades subversivas, sinto que este puxão de orelhas pode estar a chegar ao fim.
Falso alarme. No dia seguinte temos que regressar à Vila Algarve…Hell!
O quarto dia deste pesadelo é dedicado a uma longa e desesperante espera da parte da manhã, todos separados sem saber o que iria passar-se a seguir. Só o sabemos da parte da tarde quando somos levados para uma sala na cave onde é agora feito o registo fotográfico de cada um de nós (de perfil e de frente) com o respetivo número de cadastro. O inferno dos interrogatórios parece estar encerrado….uffff!
Um dia que culminou numa reunião dos quatro perante um alto graduado desta instituição no seu fausto gabinete do último piso, onde com um ar grave e sério, nos prega um sermão estatal digno da casa em que nos encontramos.
A frase final que ficará gravada nas nossas memórias é esta:

E não queiram cair novamente nas garras da PIDE.

O Estado Novo no seu esplendor…a vida continua…

 

 

19 comentários

19 thoughts on “Um reinado singular

  1. Great flowing chapter as you describe ur 1st acid trip so well, i could easily hear Us & Them of Floyd and Bambina’s beautiful naughty smile. As imagens sao dimais tambem, trabalho teu tambem? Gostei muito, kanimambo pela partilha (:

    “As vozes dos meus companheiros entram-me agora no ouvido de forma distorcida… é como ver os sons em vez de os ouvir e dar entrada num caleidoscópio translúcido sem entrada nem saída…tudo em meu redor é agora muito transcendente…muito extraordinário…tudo vivido com uma inexplicável euforia e alegria de viver…Neste quadro de puro êxtase chegam-me ao cérebro as imagens fantásticas das rochas a minha volta em que os tons naturais da pedra começam a variar entre os vermelhos, os roxos, e outras tonalidades em permanente variação.”

    E adorei esta parte, tao familiar da nossa geracao de “freaks” Mocambicanos ne?

    “Aqui o assunto é mais sério e a nossa aproximação do balcão de controle de passaportes traduz-se num primeiro contacto com um agente tipicamente “tuga” vestido de balalaica de cor clara com aquele bigode muito característico dos carrascos da PIDE.”

    I’m enjoying it very much as you can see, uma copia com a tua assinatura ne? Entao fico a espera do proximo…Abrazo

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  2. Estas passagens no “Swazi Kingdom” têm um sabor especial brother…long live our memories…e vamos em frente pois há mais!

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  3. Helena lopes (lenocas)

    uma magica historia da nossa swazy tao deslumbrante, adorei.Tambem tenho boas memorias de la’ em Mbabane e da festa do rei para escolher a proxima mulher,ma’gico,Uma memoria que fica na gente para sempre.

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  4. Oi Lena,
    Vibrações foram sempre o forte deste “Swazi kingdom”
    Falas da festa do “Dance Reed”…hold on!…vem aí!
    Beijo grande…e um abraço apertado para o Luís.

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  5. Teresa Amaral

    Wow….boa descrição!!! parece que estive lá com vocês!

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    • Viva Teresa,
      Se não estiveste…agora estás miúda!

      Abraço

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      • Teresa Amaral

        Estive em outras alturas, mas toda a minha vida ao lado do Jorginho (25 anos), ouvi essas histórias centenas de vezes, até porque elas eram contadas pelos próprios personagens, aos amigos comuns, e circularam por muitos anos, entre todos! É uma maravilha ler-te agora com tão excelente descrição!!
        Mmórias de kambaco!! Tá valendo Chicão!!
        Abraço.

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  6. Gracias Teresa,

    Vamos agora regressar à nossa terra…de onde partiremos par o outro lado do mar…esta história ainda vai na casca…O Voo do Condor tem muito que contar.
    Grande abraço miga.

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  7. Tinha meus afazeres programados para este serão mas,acontece que mais uns episódios deste maravilhoso romance foram publicados ,comecei a ler e não mais me lembrei daquilo que tinha planeado.Descrição brilhante,com uma transparência tão pura e sincera que só nos deixa uma certa saudade dos tempos de juventude.
    Saudações amigas.

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    • Olá Teresa Barbosa,
      Se deixou o que tinha para fazer para escutar esta minha história…isso dá-me imenso agrado.
      De seguida iremos de regresso ao nosso Moçambique fazer malas para passarmos para o outro lado do mar.
      E há mais…muito mais para contar!
      Um sincero abraço pelas suas palavras, e uma Páscoa feliz.

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  8. Mais uma vez, começo por te congratular pela forma límpida e fluída com que contas estas histórias, as quais, continuam tão comuns quanto reais. Quanto ao território da Suazilândia te ficarei eternamente agradecido por o conhecer ao pormenor, todo ele relatado de uma forma mais que perfeita, todos os detalhes ali defronte a nossa imaginação , é incrível este transporte no tempo e no espaço que tão nitidamente nos proporcionaste.Seguidamente, faço aqui uma referência à coroa do rei desse Kingdom’, a qual, uma das suas pontas, terá forçosamente um sinal’ de virilidade bem à vista, pois com um séquito com mais de umas boas dezenas de mulheres, what a lucky bastard he must have been’ eheheheh…..mas não poderei deixar de realçar a minúcia com que contas as vossas trips’ de ácido, interiorizaste-as de tal forma, que eu mesmo, me encontrei naquelas atmosferas ao te ler, estão magnificamente relatadas, e olha que eu , posso bem afirmar o quanto de real essas me pareceram, pois, sem qq receio ou modéstia, te informo, que devo ter sido um de entre todos os demais, que enfiou’ 6 “Window Pains” ( injectadíssimos de estriquinina) de uma vez só no bucho, quando a informação que circulava na altura, advertia que 3 matavam…mas não…era mentira…eu ainda cá estou, saberá Deus como!
    Quanto à estrutura da história toda em si, uma palavra só, é Grandiosa’….muito bem elaborada e cronologicamente perfeita!
    Quanto aos sentires’ ( desde a diarreia, aos pulos do coração na passagem das fronteiras, à ansiedade que se foi avolumando por cada aventura que enfrentaram)…estão todos eles descritos da forma mais interessante possível, de tal forma, que sem qq esforço, imaginamos de imediato os cenários todos, com a luz do dia a incidir sobre a terra e sentindo na pele, aquele frio que se ia acentuando ao subirem aquelas montanhas! Magnífico Francisco Cunha, tu és um Profeta do Futuro, porque conseguiste reter na tua memória, imagens, sons, pessoas, lugares, momentos e até mesmo censos de todos aqueles momentos, como se tivessem acontecido ontem, ou antes de ontem, que fosse,,,,,muitos parabéns meu amigo, estou reclamado’…como dizia um negro que vivia sozinho no meio da escuridão africana ao ver dois brancos a aproximarem-se dele, no caso, eu e outro xamuar que também nos havíamos entranhado no mato para conhecer aquela realidade tão distante dos comuns, como a lua para qq astronauta!
    Quanto aos paraísos que encontraste, me pareceram bastante semelhantes aos que existiam a poucos klms da nossa cidade, a Beira, como a Penha Longa ou o Sussundenga’ lugares que nos ofereceram espasmos existenciais idênticos ao que nos relataste aqui!
    Quanto ainda à qualidade da M’bandje, encontrámos uma no Ile’, perto do Gurué, não sei se conheces, também era vermelha e nos dava uma paulada super psicadélica rsrsrsrsr!
    Kanimambo sério mesmo”…anseio pelos próximos capítulos, pois tornaste-te no único escritor de momento que valerá o tempo que nos sobre para ler!
    Parabéns num abraço.impregnado de respeito! (Y)

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    • Meu caro Rui,
      A tua escrita é consistente e a sabedoria que a mesma comporta um motor de sinergias intemporais.
      É um privilégio ter a noção do quanto a minha iniciativa literária atinge os seus objetivos, deixando acessível a todos os que sigam esta narrativa, o resgate de uma vivência intensa que foi oferecida a esta geração de risco.
      Tão intensa que terá produzido dois efeitos fundamentais. O desaparecimento de muitos bravos da tribo que não resistiram às agruras colaterais da existência física e o legado rico e fascinante deixado aos que com algum engenho e arte souberam encontrar o caminho das pedras para chegar até aqui e contar como foi.
      Fomos designados para fazer parte deste grupo e cabe-nos projetar essas vivências na memória futura…o meu contributo está aqui…a caravana vai em bom ritmo…a minha memória, o meu road book e alguns companheiros de estradas poeirentas são os meus talismãs…
      And the show must go on!…grande abraço chamoir!…Kanimambo!

      Nota de rodapé: Penha Longa faz parte desta narrativa bem mais à frente…

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  9. Não fiz qq referência à parte dos interrogatórios, porque exalaram por si mesmos, um odor insuportavelmente execrável, me perdoa meu amigo, mas tudo aquilo por que passaram, é mesmo para se esquecer..ou seja….tentar não nos lembrarmos mais….mas que não deixou de figurar e projectar a qualidade literária que mereceu o nosso aplauso mais uma vez, e de quão valentes que foram,,,tanto quanto de nojentos foram os outros! Todo o respeito aqui prestado pelo que passaram!
    Abraço sempre!

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    • Sabes Rui,
      O cérebro humano tem uma particularidade curiosa…manter em primeiro plano as passagens agradáveis e construtivas da vida, deixando em último plano estas do tipo “inclassificáveis”!
      Eles passaram à história…uma história sórdida e de á memória…nós cá estamos…”alive and kicking”…Cheers mano!

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  10. Gostaria de ressalvar a palavra Senso’,,,como um erro involuntário.

    Sim Francisco Cunha, és portador de uma sensibilidade bem calibrada ao ponto de intuitivamente te aperceberes do incómodo que tal passagem’ na tua história me possa ter causado, que causou efectivamente, hoje, com umas tantas iguais já acumuladas no sótão da minha memória, evito visitá-las o mais possível, to confesso sem qq tipo de dramatismo excessivo…mas muito mais para evitar mais reacções que possam surgir mm que momentaneamente! E sim, acredito nessa capacidade exercida pelo nosso cérebro, graças ao positivismo, que também ele, progride e se vai sucedendo ao ritmo da batuta das nossas vontades, graças a Deus! Obrigado pela tua exemplar compreensão e me perdoa este curto diálogo que não era suposto aqui aparecer! Um grande abraço,

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  11. hed junior

    ca estou pra dizer presente onde nao fui chamado,mas desta vez pra deixar a minha sugestao sobre esse trecho.. amei de verdade essa historia e supriendentimente agradavel. #hedjr o pensador#

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  12. hedjr

    ca estou pra dizer presente onde nao fui chamado,mas desta vez pra deixar a minha sugestao sobre esse trecho.. amei de verdade essa historia e supriendentimente agradavel. #hedjr o pensador#

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