Ventos de mudança
19 anos mais tarde na mesma cidade… ano de 1973
Parte I
Com o soprar dos ventos de renovação, a sociedade moçambicana assiste ao ressurgimento, através da vizinha África do sul e da longínqua Europa, das correntes de contracultura “hippie”, inglesa e norte-americana, encontrando nas cidades mais importantes da província uma vaga de novos adeptos.
A mensagem transmite-se através da música, do comportamento social, da nova forma de vestir, das fartas cabeleiras, pelo uso frequente da “cannabis”, estupefacientes, barbitúricos e, de uma forma mais radical, a utilização do LSD, e da heroína em casos extremos.
Este território africano de contradições escondidas e em surda ebulição, vive nos liceus, faculdades, bares, discotecas e nas paradisíacas praias, um período de manifestações espontâneas, onde a irreverência do “Flower power”, muito “rock”, muita criatividade e diversão, estão presentes.
Um contraste com uma sociedade marcada por um quotidiano português com uma influência notoriamente britânica, com costumes coloniais instituídos e relações pessoais que espelham um cenário de uma época politicamente moralista fundada em valores tradicionais.
Estas demonstrações são a fonte de múltiplas preocupações dos encarregados de educação, professores e dirigentes do sistema vigente.
Esta revolução ideológica e social, encontra em Moçambique terreno propício à sua expansão, sendo dado um valor acrescido ao lema “Make love not war”, que tomou um sentido crescente, face à obsoleta guerra colonial que se combatia de forma cada vez mais feroz e desconcertada, em direcção a sul.
Muitos dos aqui nascidos decidiram não participar nesta farsa, assumindo posições sociais e políticas que lhe custariam em muitos casos a liberdade, vendo-se muitos deles na obrigação de saltar fronteiras ou, em casos mais extremos, a assumirem comportamentos psicopáticos, com o objetivo de passar ao lado do fantasma do ingresso nas fileiras do exército português.
Deste percurso, que traçou o caminho de muitos evocados nesta escrita, salienta-se o evidente choque de gerações, a revolução de mentalidades e o confronto frequente com agentes da polícia Judiciária, e da PIDE (Policia Internacional de Defesa do Estado).
Este é igualmente um pedaço de história traçado por um grupo de amigos que no palpitar dos 5 sentidos da vida, nesta sociedade cresceu, e a Moçambique dedicou a sua existência.
Este fim de dia encerra mais um ciclo de aulas no Liceu Salazar e a escassas dezenas de metros, do lado oposto da Av. Brito Camacho, encontra-se o parque municipal Silva Pereira, um dos vários pulmões da cidade, onde se juntam diariamente os “habitués” fiéis a marijuana que teimam em distinguir os tons do céu num deslumbre que só os trópicos proporcionam.
Ao longe, indiferente ao decorrer dos séculos, a outrora “Delagoa Bay”, enseada temperada pela brisa do sul é invadida de um espetáculo natural no final de mais um dia. O deslumbre de um pôr do sol tropical e um forte apelo à contemplação.
Soltam-se as cores que a África mãe generosamente oferece e ali confinam diariamente os espíritos mais irreverentes, vultos projetados no horizonte pela contraluz do astro rei que inspiram o fotógrafo mais atento.
Em frente, está a vasta encosta densamente arborizada a que os “Coca-Colas”, cognome muito utilizado para referir os habitantes desta cidade, chamam de “barreiras”, onde penetram casais de namorados, as prostitutas de serviço e vagabundos que ali estabelecem a sua morada de eleição.
Esta topografia de cor verde e cheiro a terra, mergulhando lá em baixo na marginal das palmeiras, junto a “Baía do Espírito Santo”, completa esta visão deslumbrante, sustentando um céu tingido de laranja e violeta que o vermelho atravessa sem pedir licença.
À solta no éter, aquele som de “Meddle”, dos “Pink Floyd” percorre os cérebros e o clima é de emoção perante tal espetáculo da mãe natureza.
Por trás dos meus óculos escuros, sentado sobre o oportuno murete de jardim e com um sorriso instalado, vejo chegar o Luis Filipe que junto da namorada Lúcia se encostou a uma acácia, abanando a cabeça ao ritmo mágico dos Floyd.
-Oi Luis! Como é? – Pergunto acenando à Lúcia com um leve movimento de rotação, tens lume?
-O Luis com aquele ar altivo, de longos cabelos caídos sobre a testa e ombros e com a satisfação refletida no rosto responde estendendo o “gasolineiro”.
-Ya! Hoje promete!
Mais à direita vejo a Lisa gorda bem disposta soltar uma estrondosa gargalhada e o Martelo, na sua baixa estatura, feições caricatas e senhor de um ar suspeitamente inocente a contar uma daquelas passagens na aula de Filosofia com o “stor” Frescata.
Também ali estão os fanáticos do som com o Pedro Brito filho, de goeses há muito residentes em Moçambique que traz sempre um pífaro e o Luís Pedro que não deixa de carregar um “Birimbau” de beiços no bolso das jeans.
O ambiente é da habitual exuberância, circulam os “tiros” de marijuana e a atenção geral sempre desperta para os movimentos eventualmente repressores do dito “Establishment”.
-Chico! Ecoa no ar uma voz viva que se aproxima. Quando é que vamos à “Swazi”? Pergunta o meu companheiro de estradas poeirentas Otávio Bagueiro, mais conhecido como “Bags”.
Bags é um figurão de 1.90 m de altura, portador de uma considerável juba capilar e físico articulado, que se move nesta vida com instintos não alinhados.
Amigo da estrada, o Bags estudou uns anos na África do Sul em colégios internos onde cedo conviveu com as amarguras do sistema de ensino “bóer”.
Apesar dos esforços feitos pela família para se manter por lá, o Bags sentiu um dia que aquele não era o seu caminho.
-É! Acho que chegou a hora. Quando juntarmos um taco vamos nessa não? Respondo sem pestanejar.
– Vamos falar com o Dino Bucelatto. Quem sabe ele saca o carro à mãe e vamos melhor.
– E os vistos? Lembrei-me. Não se tiram em dois dias.
A Bambina, uma morena bem torneada, muito sensual e de aspeto índio que já se tinha juntado ao grupo, não deixa escapar estas aventuras.
– Também tou nessa!
– Pronto! Vai dar batucada, está visto, responde o Bags com uma gargalhada no olhar.
Entusiasmado por esta visita a este país vizinho, pensei dois segundos e olhei para ambos concluindo.
– Hé! Hé! Vamos é tratar do taco e dos vistos e logo se vê como vai ser.
A queda do astro rei naquele horizonte cálido e distante ditou a dispersão gradual do grupo que se prepara assim para mais um regresso a casa.
Em companhia do Bags, do Luis Pedro e da Bambina lá nos fomos chegando para a paragem do machibombo 22 que nos levaria por ruas circundadas de acácias em flor. Assim fomos a bordo deste típico transporte urbano até a saída comum que era a paragem da rua Princesa Patrícia com a do Hospital Miguel Bombarda, onde nos apeamos seguindo os caminhos de casa.
Em jeito de despedida pergunto à Bambina que se dirige para o lado dos “Velhos colonos” onde mora com os pais.
– Bambina, como é? Logo a noite no “Tico-Tico” para falarmos desta ida à Swazi?
-Ok! Lá pras nove tou lá, depois de passar em casa do Ali que me vai dar uma passa de Nampula. Respondeu com aquele ar de gozo que a caracteriza.
-Estou contigo, riposta o Bags demonstrando a cumplicidade que se impõe perante um fruto daquela região de Moçambique com inegável reputação.
-Tá, gente. Logo mais tratamos dela.
Uma vez em casa e depois dos saltos e “macacadas” no quintal com a “Saci Perêre” que é a nossa cadela “Pointer” arraçada de “Perdigueiro” treinada pelo meu pai desde tenra idade para a caça à perdiz, passei junto ao frigorífico onde a minha mãe sempre guarda umas iguarias irrecusáveis.
A acompanhar-me os movimentos com um sorriso dotado de alguma cumplicidade está o Ananias, o nosso cozinheiro de etnia “Changane”.
Era a hora da reunião em família com a chegada do meu irmão que passara a tarde em casa de uns amigos e do pai Nuno que vinha da Avenida do Trabalho onde presta serviços no “Entreposto Comercial de Automóveis”, como responsável de manutenção.
Uma voz materna e determinada atravessa o ar.
-Chico, larga o frigorífico que não tarda vamos jantar!
A minha mãe, senhora muito bonita com o seu ar exótico, de estatura média nos seus 48 anos de idade, penteado de cor negra, típico dos anos 60/70, dedicara a sua vida à governação da casa no acompanhamento do marido Nuno e dos seus filhos Rodrigo Afonso e Francisco Jorge.
No passar dos dias ela encontra o devido tempo para as longas conversas ao telefone com as amigas, para escutar o programa de rádio “Terras de Portugal” enquanto desenvolvia o último trabalho em “ponto cruz”.
A mãe Leonor não falta às frequentes reuniões em casa desta e daquela para o chá das 5, ritual muito apreciado pela sociedade colonial sediada nesta África austral de cariz marcadamente britânico.
A ruidosa chegada do meu irmão também se faz sentir com os habituais sinais que marcam o seu carácter elétrico e entusiasmado com a vida.
– E que tal uma chocho nesta minha mãe e um carolo no parvo do meu irmão! – Este é o Rodrigo do dia a dia.
-He! Tiras as patas! – Riposto com determinação.
-Mãe, há o quê para o jantar? Pergunta o Rodrigo que come este mundo e o outro se o deixarem.
-Ervilhas com ovos escalfados e larguem o pão que já não falta muito – Diz a mãe Leonor acenando ao Ananias para que leve os pratos para a mesa de jantar.
Na sequência do familiar ruído do VW no portão principal da nossa casa com um jardim pela frente e pátio por trás, dá entrada o patriarca Nuno da Cunha que do alto dos seus 1,83 m, nos cumprimenta com o eterno ar sério e altivo que o acompanha desde sempre.
Cumprido o beijo à esposa e o habitual relato dos acontecimentos do dia, o meu pai senta-se na sala com o “Diário de Notícias” ao colo, acompanhado do tilintar clássico da pedras de gelo que em animada agitação fundem o VAT 69 com a tradicional soda.
São quase 20 h, a família está finalmente à mesa e na sequência do tocar da sineta metálica surge o Ananias com a fumegante terrina da sopa.
-Já sabes mais informações sobre a incorporação? Pergunta o pai ao Rodrigo que se prepara para ingressar na Força Aérea Portuguesa.
– Está tudo a apontar para me apresentar em “Tanquos” em Setembro – responde o meu irmão com ar de satisfação. Falei com um oficial lá na messe que me diz que o essencial é passar nos exames médicos…..até os dentes têm que estar impecáveis.
O pai Nuno com olhar orgulhoso responde
-Tens que ir ver o Dr. Asdrúbal lá na baixa que te vai olhar para a boca e resolver os problemas que houver.
Em seguida chega a minha austera pergunta!
-E tu já te preparaste para o ponto de matemática? Dispara o meu pai em minha direcção.
-Estou a fazer por isso! Respondo de forma camuflada, olhando para a minha mãe, que sem cumplicidade no olhar, se debruça sobre a mesa no encalço da sopa.
-Quero ver isso! Se escorregas mais esta vez temos conversa…riposta o patrão.
Paira nesta família o fantasma daquele ano de 1971 em que ambos chumbámos o ano letivo tendo desencadeado uma tempestade de nervos que levou o pai a um internamento hospitalar de urgência com uma imensa hemorragia nasal.
Este foi o desastroso resultado de quem evitou dar uma intensa tareia nos filhos metendo para dentro a carga de nervos que trazia na alma.
A mãe Leonor no sentido de apaziguar o tema interfere tranquilamente dizendo.
-Ele anda a fazer um esforço e já sabe o que o espera se não passar este ano.
Vive-se neste lar um período de choques e contradições familiares.
O meu irmão, com fortes convicções nacionalistas e desde cedo apaixonado pela aviação, desenvolveu uma apetência pelas correntes ideológicas da defesa da pátria, dos princípios do estado novo e do cumprimento do dever.
Sonha desde criança com os aviões, coleciona todos os kits de plástico que guarda sagradamente num prateleira e quer fazer carreira aos comandos de um avião de combate da Força Aérea. Os famosos caças americanos “T6” (Texano 6) concebidos na “2ª guerra mundial”, utilizados igualmente na “Guerra da Coreia” e mais recentemente na Guerra do Ultramar português.
Desenvolvera igualmente uma especial simpatia pela metrópole, onde nasceu e onde já esteve meses antes por um período de férias que marcaram de vez a sua natural opção de jovem português residente na África colonial.
Em paralelo está este irmão caçula moçambicano de corpo e alma, que trocara gradualmente uma adolescência ligada aos desportos náuticos, à caça e à pesca, pelas vivências intensas de um grupo de amigos da “Marijuana”. Neste novo mundo optara pelas experiências sensoriais, pela música, pela pintura, pelas longas noites de farra, pelas viagens às paradisíacas praias do território e pelas viagens aos vizinhos territórios da Suazilândia, África do sul…e muito mais.
Parte II….
Já é noite cerrada quando me aproximo do “Tico-Tico” na companhia do Bags que passou pouco antes à porta de minha casa com o tradicional assobio “da malta”.
O ambiente é de euforia naquela esplanada onde rodam as “catembes” (vinho tinto com Coca-cola), as “Laurentinas” e as “2M” (cervejas de Moçambique) e os famosos pregos trinchados, que vão animando o estômago. Ao chegar a este habitual ponto de encontro o ambiente está animado e preenchido pelas gargalhadas exuberantes da Bambina que está sentada ao colo do Dino em pleno uso da boa disposição.
De um canto escuro da rua aproxima-se outro grupo que estivera a queimar uma no terreno baldio ao lado.
O “Tico-tico” é um local peculiar frente ao edifício Universitário da “Associação académica” onde desde usufruir de residência e refeitório, os estudantes desenvolvem inúmeras ações de carácter cultural e múltiplas iniciativas em prol do debate de ideias de cariz político.
Nesta zona da cidade respirava-se o ambiente de oposição ao modelo político instituído e onde notei pela primeira vez na minha existência a presença de uma nova corrente de pensamento político-social anti-regime.
No “Tico-Tico” misturam-se naturalmente todo o tipo de “Coca-colas” e os mais diversos boémios da noite, muitos deles sob a influência do ambiente estudantil ali tão presente.
O nosso tema da noite foi naturalmente a ideia excitante da tal viagem à Suazilândia aproveitando o período de férias escolares que se aproxima.
Quando vamos, quem vem, e em que condições….o tema ganhou rapidamente o entusiasmo dos presentes.
As opiniões foram-se soltando no ar mas as conclusões não foram imediatas.
Restava uma convicção no espírito de alguns de nós. Esta viagem tinha que acontecer.
Muito já ouvíamos falar deste país montanhoso, onde reinava o tradicional Shobuza II, rei conhecido em Moçambique por ter muitas mulheres, e onde havia uma “suruma” (cannabis) de grande qualidade.
Nesta manhã de sábado o tema voltou a ser falado num encontro na praia mais frequentada da cidade. Um local muito badalado conhecido como “Miramar” nome do famoso restaurante frente à “Baia do Espírito Santo”, antigamente denominada de “Delagoa bay”.
Entre banhos e passagens na praia onde sempre queimamos mais umas passas de boa qualidade que circulam no meio do grupo, o convívio concentrava-se na esplanada decorada com umas cervejas bem geladinhas de uns tremoços e amendoins e uns acordes de viola, acompanhados de uns batuques que sempre aparecem nas mãos de alguém.
E lá estamos nós com o tema mais falado do momento em cima da mesa.
Voltando-me para o Bags, Bambina e o Luís Pedro pergunto:
-Como é? arrancamos no fim de semana que vem?…pergunto com o meu ar determinado.
O Bags com um sorriso rasgado responde.
-Por mim está feito. Acho que consigo uns trocos na venda de umas estátuas de madeira que saquei lá no sótão. Já tenho uma loja que mas compra.
Com a sua habitual forma provocadora a Bambina riposta.
-Eu estou nessa dê por onde der. gente. Já tenho passaporte…o taco logo se vê.
O Luis Pedro com o seu ar relax confirma.
-Eu vou, malta…vou pedir uns trocos ao meu avô e já está.
-Então bora tirar os vistos na 2ª feira de manhã, juntar o taco e partimos daqui a uma semana. Diz o Bags excitado com a ideia.
Com o entusiasmo da conversa senti nascer ali um novo fôlego marcado pelo improviso e pela vontade de conhecer aquele reinado confinado entre Moçambique e a África do sul.
Dando mais um belo golo naquela “Laurentina” deliciosamente gelada foi a minha vez de dizer.
-Tá combinado, gente! Embaixada da Swazi para tirar vistos e preparar tudo. E que tal logo à noite irmos até ao “Zambi” curtir a noite? Acho que chegou aí um barco da Marinha de guerra americana e vai haver animação.
-Tou nessa, diz a Bambina com aquele sorriso de pura malandragem a que nos habitou desde sempre.
O Martelo que estava presente dispara:
-Ai é?…também alinho. Onde é que a malta se encontra?
-Ok, eu, o Bags e o Luis Pedro vamos juntos ter ao “Zambi” lá pras 9 e meia não, gente?
-Ya…passo em tua casa, apanhamos o Luis e arrancamos.
A Bambina confirmou a ida com o Martelo.
-Passo pela tua e vamos no machibombo?
-Valeu, Bambina, respondeu o Martelo com o seu olhar decidido e com vontade de viver mais uma noite de copos e malandragem.
A noite caiu e lá descemos até ao “Zambi”. Um restaurante típico da zona baixa da cidade com um ambiente tropical e uma grande esplanada junto à marginal palmilhada de coqueiros sobre o mar.
A surpresa foi total quando nos demos conta da invasão daquele lugar por um imenso grupo de “motards” vindos em grande quantidade da África do sul…os famosos “Hell´s Angels”.
O ambiente é único e os proprietários do “Zambi” devem estar algo preocupados com o cenário. Eu já tinha uma vez visto um cortejo deste grupo na África do sul no centro de Joanesburgo. Impressionante!
Os “Hell´s Angels” movem-se em bando com as suas chopper “Harley Davidson” e outras máquinas infernais de alta cilindrada, vestem-se com aqueles casacos e calças de couro negro, cabelos e barbas fartos e longos, bandanás coloridos na cabeça, bijuterias, tatuagens exuberantes e grandes correntes em aço ao pescoço. Grande parte das mulheres do grupo viajam atrás nas motas com um título gravado nas costas…”Hell´s Angels property”…He!…he!
A cerveja já roda à tonelada e a esplanada está totalmente ocupada por este grupo bem diferente e algo ameaçador que não estamos habituados a ver na nossa pacata cidade.
Ali nos encontramos com muitos colegas e amigos e neste ambiente de pura maluqueira sentimos que a noite promete.
Embalados por aquele ambiente hilariante fomos queimar uma “gargalada” do outro lado da avenida junto ao murete da marginal.
A “gargalada” é um processo de queima muito popular entre nós. Parte-se um gargalo de uma garrafa de vinho ou champanhe, coloca-se no fundo um filtro de prata retirado de um maço de tabaco e colocam-se umas sementes de “cannabis” no fundo. Alguns perguntarão porquê? Simples! Quando a queima atinge o fundo, estas estoiram e sabemos que não há mais material para queimar….cabeça não é só para usar chapéu!
Naquele ambiente de grande animação o fumo toma conta da atmosfera.
De repente alguém grita!
-Monteiro, malta!…esta era uma palavra de ordem que surtia efeito imediato nas nossas cabeças.
Pinto Monteiro é um agente da polícia judiciária que no seu Wolseley (carro inglês) de cor cinza de matrícula MLF-63-15 que vê muitos filmes de polícias e ladrões e que dedica a sua vida a perseguir uma geração de jovens fumadores de marijuana da capital.
Eu e esta geração de gente irreverente vivemos com este homem as mais variadas peripécias dignas das longas metragens de ação de Hollywood.
De imediato o gargalo e as reservas de passa caíram naquele momento ao mar ao som da travagem brusca do carro deste cavalheiro à nossa frente.
O Monteiro, homem entroncado de baixa estatura e óculos de massa quadrados, sai do seu carro com a pistola entalada na barriga e lanterna na mão gritando…ninguém se mexe!
O famoso agente começou a revistar energicamente o grupo vociferando.
-Vocês estão a fumar que eu sei!…ninguém se mexe!…quero ver esses sacos e esses bolsos!
Este é mais um episódio do nosso quotidiano com a animação e os naturais sustos que este famoso agente da “Judite” nos oferece com alguma frequência nos mais diversos pontos da cidade….um verdadeiro circo!
Desta vez o nosso Monteiro de estimação não teve sorte, e após mais um tremendo espalhafato lá teve que partir sem levar alguém detido para interrogatório.
-Porra!… foi por pouco, diz alguém do grupo.
-O sacana aparece de todos os lados. A porra é que aquela era uma “cota-cota” (região a norte perto de Nampula onde se produz uma “cannabis” de grande reputação)…cabrão de Monteiro!
No meio desta animação do “Zambi” pudemos sentir a movimentação dos “Angels” que se dirigem agora para as motas com um impressionante ruído em direção à famosa rua Araújo onde se concentrava a maior zona dos cabarets e prostituição da cidade. A noite promete.
Resolvemos também ir até lá…o clima é de euforia e em animada conversa ao som de uns pífaros e harmónicas que sempre surgiam dos bolsas de alguém, lá fomos em alcateia a pé até à zona da rua Araújo. A excitação está no ar.
A noite não só promete como já ultrapassa todas as expectativas. A chegada espalhafatosa dos “Angels” a esta zona noturna da cidade promove agora a movimentação de um forte dispositivo policial…não me lembro de ver esta cidade com tanto rebuliço como nesta noite.
Para ajudar à festa e contribuir para um ambiente ainda mais explosivo tinham desembarcado no porto da capital um grande grupo de marines americanos tripulantes de um “destroyer” atracado temporariamente neste porto, integrando um dos muitos vasos de guerra americanos que circulam habitualmente no Índico.
Estamos perto da meia noite e rapidamente nos apercebemos da mistura complexa que se está a concentrar nesta rua estreita composta de bares e cabarets onde a animação já está ao rubro.
Ainda entramos em alguns bares onde conseguimos ver alguns marines entusiasmados com as prostitutas locais. O álcool jorra e a excitação está no ar.
Vemos agora começar a circular algumas patrulhas policiais que tentam manter o controle da rua contra algumas cenas de pancadaria que vão surgindo em alguns bares carregados de marines totalmente bêbados.
Com os olhos bem abertos o Bags puxa-me pelo braço e diz-me.
-Chico…olha só quem chegou!…vai dar merda da grossa!
Ao fundo da rua Araújo, do lado da “Cave”, um dos mais famosos cabarets da cidade, entram ruidosamente os “Angels”. O circo está montado e vai haver granel com certeza.
Sentimos desde logo que este encontro raro e memorável entre “US Marines” e “Hell´s Angels” na cidade de Lourenço Marques vai seguramente dar que falar. Sentimos igualmente que a tensão aumenta e que nos devemos pôr ao abrigo de um eventual festival de pancadaria. O lugar deixou de ser seguro e sabemos agora que as devidas distâncias do alvoroço se impõem.
Conforme era de esperar os primeiros confrontos dão-se alguns momentos a seguir quando alguns marines totalmente bêbados se metem com algumas das mulheres dos “Angels”. O circo está montado.
De um lado surgem prostitutas desgrenhadas a sair aos tombos dos bares…e o embate entre “Angels” e “Marines” é agora inevitável!…salve-se quem puder!
Com o aumentar da confusão chegam os primeiros corpos da policia de segurança pública ao local para tentar manter a ordem…a confusão ainda aumenta mais…a rua Araújo é agora um autêntico campo de batalha onde desde cenas de pugilato, cacetadas da polícia e gente aos gritos de um lado para o outro, lá nos fomos abrigando nas ruelas e recantos das casas evitando algum envolvimento involuntário naquele espetáculo dantesco.
Este frenesim dura uma boa meia hora e já circulam alguns feridos de um lado para o outro quando assistimos à chegada de uns elementos da polícia marítima americana que entram em cena para impor a ordem possível e recolher os marines de forma a retirá-los compulsivamente do local.
Foi uma experiência extrema da qual saímos felizmente ilesos só tendo conseguido sair do local bastante mais tarde quando a polícia desfez um perímetro de segurança.
Neste regresso a pé para casa de madrugada vamos carregados de grandes emoções, fruto de acontecimentos de grande intensidade para recordar por muitos anos.
São 6 h da manhã quando entro em casa totalmente exausto e cheio de fome de passa. Tempo para uma passagem estratégica pelo frigorífico cá de casa e para um encontro indesejável com a minha mãe que não dormira sem que eu chegasse a casa.
-Meu filho…o que é que andas a fazer na rua a estas horas? Olha para ti…esse aspeto desvalido que parece que não tens casa para morar.
-Vá lá mãe…tá tudo bem. Estivemos numa festa até tarde mas está tudo bem…vá, vai dormir!
-Que o teu pai não sonhe com isto. Vais arranjar uma bela zaragata cá em casa…tu já o conheces.
O clima entre mim e o meu pai nesta época não anda famoso. Não só pelos fracos resultados escolares que eu tenho tido, mas pela irreverência que eu tenho demonstrado nos últimos anos, em companhias que os meus pais e até o meu irmão consideram duvidosas.
Transformara-me gradualmente na ovelha negra da família.
Entre os meus 12 e 15 anos eu e o meu pai fomos muito unidos tendo esta época sido para mim de grande prazer e aprendizagem. Acompanhava-o muito nas duas atividades da sua paixão. As incursões savana dentro em aventuras de caça em várias regiões de Moçambique e nas inúmeras pescarias na baía do “Espírito Santo”, com um skyboat de nome “Vumba” estacionado no “Clube Naval” de Lourenço Marques. Experiências ricas e absolutamente extraordinárias que ficaram muito bem guardadas na minha memória.
Neste ambiente pouco amistoso entre mim e o meu pai recordo um episódio deveras singular que não resisto a deixá-lo aqui registado.
Um belo dia de manhã estranhei o facto do meu pai ainda se encontrar em casa, sem ir trabalhar.
Levanto-me, tomo o meu banho, seguido do matabicho (pequeno almoço segundo a gíria moçambicana) e preparo-me para ir para a minha explicação de matemática. Uma disciplina com a qual me debatia com evidentes dificuldades naquele período em que se aproximava um importante exame.
Uma voz grave e em tom severo me chega da sala.
-Chico…chega aqui!
Com alguma surpresa e preocupação lá fui cabisbaixo ao encontro do meu pai.
– Sim!
– Senta-te aí!…temos que conversar. Diz-me de forma ríspida.
– O que foi?
– Esteve aqui ontem ao fim do dia um homem chamado Pinto Monteiro. Diz-te alguma coisa este nome?
Sem dar a minha parte fraca, senti um “frisson” percorrer-me a espinal medula tendo reagido de forma aparentemente normal.
– Não, quem é? Pergunto com uma voz pouco segura.
-Trata-se de um agente da “Polícia Judiciária” que veio falar comigo para me contar algumas coisas sobre ti e as excelentes companhias com que andas aí de um lado para o outro.
Perante o meu silêncio e cara fechada, o meu pai prosseguiu o seu discurso grave e sério.
-Ele contou-me o que vocês andam por aí a fazer. A fumar essas porcarias que vos põem doidos e parvos de todo. E o que fazem noite fora nas zonas menos recomendáveis da cidade, com esse vosso ar de vagabundos, cabeludos e barbados. E o que ainda vai dar isso na tua vida? O que é que se passa nessa cabeça, hein? E o tom de voz do meu pai aumenta.
– Não sei o que ele quer dizer. Respondo com o meu ar encolhido. O momento é grave e quanto menos eu falar melhor.
– Pois o agente Pinto Monteiro já me pôs ao corrente de tudo o que vocês andam por aí a fazer. Diz-me lá! Falta-te alguma coisa cá em casa para andares para aí a fumar essas drogas e a transformares-te nesta vergonha?
– Não…não me falta!
– Agora escuta bem o que eu te vou dizer. Se já estás viciado nessas merdas vamos tratar já do assunto. Se algum dia precisares de fumar essa porcaria, fumas em casa e não com esses vadios com quem tu andas. Estás a ouvir bem o que te estou a dizer?
Sem perceber o que o meu pai me queria dizer com aquele discurso aceno ligeiramente com a cabeça.
-O agente Pinto Monteiro veio-me avisar sobre tudo isto antes que vás preso um dia destes. Tu e esses vagabundos com que tu andas. Se precisas de fumar essa porcaria fumas em casa. Está num envelope dentro daquela gaveta. Espero que seja a última vez que falamos deste assunto. Podes ir agora.
Completamente abismado com o que acabo de ouvir, levanto-me e retiro-me deixando o meu pai na sala com o seu ar sério… muito sério!
É mais do que óbvio que aquele assunto tinha trabalhado demasiado na minha cabeça… O meu pai levanta-se e despedindo-se da minha mãe vai então para as suas atividades no “Entreposto” na avenida do Trabalho.
A parte mais original deste episódio dá-se umas horas mais tarde no meu regresso a casa quando, a rebentar de curiosidade, vou à tal gaveta ver o conteúdo do referido envelope.
O meu espanto é total. Dentro deste envelope de cor branca com um cabeçalho da “Polícia Judiciária” vou encontrar 4 cabeças de “cannabis” da melhor qualidade com flores encarniçadas cheias de seiva e de power…simplesmente inédito!
Escusado será dizer que este produto fez o regalo, meu e dos meus amigos chegados, com quem tive o prazer de partilhar este néctar brilhantemente presenteado pela “Polícia Judiciária” de Lourenço Marques.







Vivas memórias!!! “…fisico articulado do Bags….com instintos não alinhados”…..kkkkkk adorei!!!
GostarLiked by 1 person
Teresinha!…obrigado…vamos em frente!
GostarGostar
Boas memórias Chico!. Estou a gostar e fico a aguardar “impacientemente” os próximos episódios… 😜
GostarLiked by 1 person
Isabel do sorriso solar!…apenas começamos esta caminhada…há muito mais!
Beijo miga!
GostarGostar
Aliciante!
GostarLiked by 1 person
Obrigado Tina…a estrada continua e o caminho faz-se caminhando.
Aquele abraço!
GostarGostar
Chico, não consigo comentar um livro sem o ler todo, mas sei que estarás desejoso de um “feed back”. Claro que reconheço os ambientes e as histórias, conheço as personagens, mas só no fim te saberei dizer honestamente o que penso. Estou expectante, queremos mais. Beijos.
GostarLiked by 1 person
Olá Teresa,
O que vais ler ao longo desta prosa de memórias vai-te dando alguns “Flashbacks” de vivências que também partilhaste…que riqueza!… Um resgate rico em memórias que vai gradualmente transportar quem seguir esta prosa para horizontes mais longínquos e mais insólitos.
A estrada continua…grato pela tua presença…um forte abraço miga.
GostarGostar
Estou curioso ,acredita que há mil perguntas a zunir no cérebro neste momento, mas vou acalmar , e esperar pacientemente ,com gosto, pelo final ,decerto que algumas duvidas se vão dissipar e as que ainda tiver pergunto-te ,valeu? , continua o bom trabalho primão, um abraço
GostarLiked by 1 person
Caro Rui Vasco,
É um caminhada que vai ser tão alucinante quanto reveladora de uma geração que foi única e na qual me orgulho de ter fundado o meu ADN.
As aprendizagens são muitas e a viagem continua!…Bem vindo a bordo…aqui não é preciso apertar cintos de segurança.
Aquele abraço
GostarGostar
Grande historia e valente,altas memorias so’ de ler as loucas aventuras da gente,avenida Araujo etc etc,waw estou adorando e relembrando, meu vizinho louco das queimas,bjs continua.
GostarLiked by 1 person
Oi Lena,
A memória é uma das riquezas que nos entregam à nascença para a regarmos como uma planta. Um arquivo valioso onde estão estas e muitas mais passagens com que vou preencher uma história singular. Vamos em frente.
Beijo grande
GostarGostar
Muito interessante ,sendo toda a narrativa tão realista que nos sentimos fortemente ligados ao ambiente que nos vai descrevendo.Vai deixar saudades quando terminar.Saudações amigas.
GostarLiked by 1 person
Olá Maria Teresa,
É com enorme prazer que levo os meus leitores a viajar nas minhas palavras. A caminhada apenas começou. Temos muito para andar.
Grato por esta força que é como uma candeia que vai à frente iluminando duas vezes.
Um forte abraço.
GostarGostar
Chico Chicão! Força hombre. Abração
GostarLiked by 1 person
Thank you buddy!…vamos em frente!
GostarGostar
“:…onde se juntam diariamente os “habitués” fiéis a marijuana que teimam em distinguir os tons do céu num deslumbre que só os trópicos proporcionam.” Greatly inspired, sim senhor, gostei.
E depois
” O meu espanto é total. Dentro deste envelope de cor branca com um cabeçalho da “Polícia Judiciária” vou encontrar 4 cabeças de “cannabis” da melhor qualidade com flores encarniçadas cheias de seiva e de power…simplesmente inédito!” Ah ah ah, o maximo, adorei Chico.
Ate ja
GostarLiked by 1 person
Thank you buddy!…esta caminha apenas começou…só entras bem mais à frente…vamos em frente!
GostarGostar
Relatos de vivências que ao se lerem, parecem ter acontecido no mês passado!
GostarLiked by 1 person
Oi Teresa,
Os eventos que nos marcaram nesta fase da vida são intemporais.
Vivências que deixaram grandes aprendizagens a quem soube atravessá-las sabendo sempre onde está o norte…Não foi infelizmente o caso de muitos…
Abraço miga
GostarGostar
Chico, reservei este momento de iniciar esta deliciosa leitura, com silencio e devoção. Eu sabia que seria uma viagem prazerosa e rica. Obrigada por tantos detalhes; até os cheiros e as musicas faziam parte de minhas lembranças… Trouxeste tudo isso de volta, com tanta propriedade e estilo. Mil vezes obrigada, amigo.
GostarGostar
Querida Helo,
Palavras quentes e boas vindas da carioca mais moçambicana do Rio de Janeiro, Fevereiro e Março não são boas…são ótimas!
Neste próximo episódio começamos uma nova aventura em verde e amarelo…aí bem perto de ti…41 anos antes!
Forte abraço miga!
GostarGostar
Tão bem que disseste logo de início, que esta aventura nos diria a todos nós moçambicanos. muito de comum, tanto que para a viagem dos nossos corpos e mentes, toda esta movimentação não nos foi nem é estranha de todo…antes pelo contrário..existem semelhanças incríveis, tanto nas movimentações físicas impelidas por um espírito tão comum como vulgar , quando embutido nas nossas memórias, mas antes, gostaria de te felicitar pela tua capacidade literária, a qual, se apresenta com uma perfeita lógica em tudo o que nos é relatado aqui, com uma minúcia tão acentuada, que nos bastaria, a nós Beirenses’, mudar os nomes e as personagens para nos encontrarmos a nós próprios neste teu delicioso relato mundano e já rotineiro no nosso ‘dia a dia’…a forma como se organizaram as partidas para longe de onde se encontravam, a sede pela aventura, aquele mito’ da suruma’ tantas vezes exaltada por quem de entre nós todos, todos os dias nos era exigido que se fosse experimentado, fumado, vivenciado em grupo, momentos esses que se foram alargando por Moçambique do sul ao mais norte que pudesse existir…a cena familiar é espectacular, tudo funcionava da mesma forma, pois o hábito’…ou a educação que todos nós havíamos absorvido, exteriorizava-se assim mesmo, o jantar à mesa com todos presentes, os familiares com as suas peculiaridades próprias, pois naquela terra, tudo se distinguia na perfeição, também assim eram as estações do ano, definidas por uma linha radical invisível, mas que as separava abruptamente, e nós, rapazes curiosos e danados pelo desconhecido, lá nos íamos desenrascando das imposições mais moralistas da época…ou das tradições menos flexíveis que se faziam ouvir desde as nossas tenras idades da puberdade,,,assim foi como todos nós moçambicanos crescemos e nos fizemos homens’….mas homens com todas as rupturas possíveis e imaginárias em relação ao sistema que nos ia estrangulando as possíveis alternativas para a tão famigerada Liberdade….essa coisa’ que tanto nos atraía, acordávamos com a ideia de que seria aquele o dia que a atingiríamos, julgo ou penso, que foi sempre por ela, que criámos aquela vida paralela à tal de ‘socialmente correcta’ (demasiado fechada para animais do nosso porte)…aliás…em dissonância constante com tudo que fosse correcto, porque sabíamos…porque víamos…porque vivíamos todas os dias e todas as noites, exemplos que a contrariavam…quanta confusão de gerou nas nossas mentes naqueles tempos! Wé, me perdoa Francisco, mas já me alonguei demais…só para terminar, aquele encontro com os motoqueiros’ ( também os havia encontrado em Joburg) está deliciosamente relatado, os bares de alterne são idênticos em qq parte do mundo, as querelas físicas e os desafios que se foram acrescentando ‘night by night’, engrossaram ainda mais as nossas vontades…ficámos todos a ansiar por mais, esplêndida forma de formação física/psicológica/cultural para todos nós, coca-colas ou chiveves, machanganos ou chicenas! Moçambique foi de facto o maior palco teatral’ nas nossas vidas, fomos actores, realizadores e produtores de toda aquela multiplicidade de culturas mais as suas respectivas atitudes, desde as sociais às mais psicadélicas…um Leque’ gigantesco de aberturas (fugas) e alternativas (encontros)! Mais uma vez, parabéns Chico…e muito obrigado por nos teres trazido à memória tantas vidas que se foram fragmentando ao longo deste “main stream” infinito.
me perdoa a extensão do comentário, mas o entusiasmo foi de tamanho tal, que quando despertamos, fomos já longe demais, assim foi o que fizemos com as nossas próprias vidas…levámo-las sempre até ao limite! Kanimambo meu irmão! (Y). Parabéns!
GostarGostar
Caro Rui,
A força e clarividência das tuas palavras convida-me a embarcar neste concentrado de pensamentos que através deste teu comentário libertaste no éter.
Não o farei na sua extensão, deixando desde logo um espaço reservado para as tertúlias que esta minha obra inspira…assim seja!
Guerreiros do tempo que nós fomos ao frequentar o último curso deste tipo oferecido a uma geração de risco onde a criatividade e a inconformidade foram a razão de continuar.
E aqui estamos, quatro décadas depois para contar como foi, evocar a nossa força….as nossas crenças…enaltecer a memória dos que já partiram e enriquecer os anais do futuro resgatando à memória e ao passado os actos irreverentes que nos convidaram a este constante…”cross the line”.
Bem hajas chamoir…obrigado!…o caminho faz-se caminhando…a locomotiva está em bom estado…e há muito carvão para a caldeira…
GostarGostar
“vou encontrar 4 cabeças de “cannabis” da melhor qualidade com flores encarniçadas cheias de seiva e de power…simplesmente inédito!”, depois de ler isto até senti o cheiro tão característico eheheh.
Sabes que o meu pai também teve um encontro do 3º grau em Vila Pery e foram 3 dias de interrogatórios, ehehehe, coitados hoje faço ideia o pânico.
Bjos.
GostarLiked by 1 person
Momentos de confronto com o “establishement” e com instituições que se extinguiram com um império moribundo…
Eles passaram e nós continuámos…e melhor que tudo!…trouxemos connosco a nossa memória!
E a estrada continua!
Grande abraço!
GostarGostar