Exodus

Exodus

O condor vai finalmente poisar

4 de Fevereiro de 1975 – Cidade da Beira.

Depois de um tarde bem passada na Praia dos Pinheiros, sentamo-nos na esplanada do restaurante Rifa frente ao clube chinês. A cerveja Manica está a sair geladinha e os tremoços batem-se com os amendoins para ver quem sai mais depressa de cima dos pratos.
Nisto senta-se alguém de nome Fred que não conheço e que diz ao Júlio em voz baixa.
-Ouvi dizer que há uma passa de qualidade a circular na cidade.
-Ah é? responde a Isabel curiosa. E não se encontra uma dessas para a gente provar?
-Vou dar uma volta ao Macuti e ver o que se arranja. Diz o Júlio com um ar confiante.
-E onde nos encontramos? Pergunto eu desta vez.
-Passo mais logo em casa do Faneca Bermudes. Acho que vai ter uma festa por lá!…vou tentar sacar uma banana desta passa para a malta provar mais logo.
– Boa!…parece-me bem! Batucada assegurada e uma boa passa….estamos bem, respondo.
-Ok…posso deixar-vos esta mais fraca, mas que se fuma maningue bem!
-Valeu, Júlio!…até mais logo então.
Ao fim da tarde, lá nos aproximamos da casa do Faneca que fica perto da Praça da Índia.
Já ali estão algumas cara conhecidas e a receção foi ótima.
-Faneca, como é? Faz tempo!
-Ya! Chico, Isabel, surpresa boa!…pela Beira?…sei que andaste pela América do sul.
-Certo, brother, foi um grande aventura e valeu a pena.
-Vocês estão de passagem por cá?
-Sim, estivemos uma semanas por Vila Pery, Vila Manica e ainda fomos à Penha Longa, de onde fomos retirados à força pela Frelimo…as merdas deste novo Moçambique.
-Vamos entrando. Hoje vamos fazer uma guitarrada…conto contigo.
-Hummm…Faneca…sabes como é!…vai rolar como sempre…natural não treme!
E efetivamente, com o avançar da noite, esta jam session rola muito bem.
Rodam as passas de qualidade que esta cidade sempre tem e o ambiente está a aquecer.
O Faneca é um guitarreiro de grande qualidade. Eu peguei entretanto num outro violão, apareceu alguém com uma flauta, tendo entrado em cena um camarada baixinho com um violino. As congas de vários tamanhos e uma boa harmónica foram os ingredientes que faltavam para soltar a música no ar. Que grande momento!…a noite promete.
Nisto vem alguém perto de mim que no meio da batucada me diz ao ouvido:
-Está alguém lá fora a perguntar por ti.
Parando de tocar, pergunto:
-Quem é?
-Um homem alto de óculos. Não disse o nome.
Algo intrigado, levanto-me e vou lá fora ver de quem se trata. Ao meu encontro está um homem alto, bem constituído de óculos quadrados que, estendendo a mão, me pergunta:
-És o Chico, filho do Nuno e da Leonor, certo?
-Sim, mas…?…Respondo surpreso.
-Já não te lembras de mim pois eras um rapaz novo quando te conheci. Eu sou o Marcelino, amigo e colega do Luis Palma Vaz e sou o diretor da Penitenciária da Beira.
Um frisson percorre a minha espinal medula e um pensamento atravessa o meu espírito sem pedir licença…já houve merda, pensei num ápice!
-Eu venho aqui para falar contigo. Recebi há uma hora atrás uma chamada telefónica de Lourenço Marques do teu pai que precisa de falar contigo…Podes vir comigo?
-Mas…o meu pai?…pergunto com grande surpresa.
-Sim…ele pediu-me que te levasse lá ao meu escritório para lhe falares ao telefone…não me disse porquê.
Extremamente intrigado com este episódio, respondo:
-Sim, vou buscar o meu saco e já volto.
Contando aos meus colegas o que estava a acontecer, saí da festa entrando no carro do Sr. Marcelino que, embalado numa conversa informal, nos leva até à Penitenciária da Beira onde, cerca da meia noite, damos entrada nas instalações deste local sinistro.
Enquanto disca no telefone o número lá de casa, sinto o meu sangue correr mais pesado e o coração a ganhar velocidade.
Com uma voz determinada o Marcelino diz.
-Sim, Nuno. Encontrei o Chico sim!….ele está aqui comigo.
Passando-me o telefone diz-me. O teu pai.
-Estou?
Do lado lado está efetivamente a voz do meu pai que pouco ou nada me disse. Estranhei.
-Estou, repito com alguma ansiedade na voz…sou eu…Chico!
Entendi o meu pai dizer numa voz cortada pela emoção:
-Chico…Eu vou passar à tua tia Irene.
A voz da minha tia é igualmente trémula e semeada de emoção.
-Sim, tia. É o Chico!…o que foi?
-Meu querido, aconteceu uma desgraça!…e os soluços são mais fortes que a articulação de mais palavras.
-Mas o que foi, tia?…o que é que aconteceu?
-O teu irmão Rodrigo…houve um problema…está desaparecido…a Força Aérea não sabe dele.
-Mas….como?
-Não sei, filho!…sabemos pouco. O teu pai está aqui, mas não consegue falar contigo. Tens que vir, Chiquinho…tens que vir para casa.
Terminada esta breve conversa surreal, sinto que o mundo acaba de desabar em cima de mim…o ar é difícil de respirar e a minha cabeça parece que estala.
Confrontado com as notícias e passando por cima de todas as regras, o Marcelino pega no telefone, tendo providenciado através dos seus conhecimentos um lugar para mim no primeiro avião da Deta em direção a Lourenço Marques.
Escusado será dizer que passei uma noite em claro em companhia da Isabel e mais amigos que sentiram o buraco escuro em que eu acabo de entrar.

A minha viagem no primeiro avião da DETA para a capital faz-se sem percalços, tendo à minha espera no aeroporto um colega do meu pai do Entreposto que me leva directamente para casa.
O ambiente que encontro em casa é indescritível.
O contacto com o meu pai sentado na sala a olhar para o vazio é um momento que as palavras não alcançam. Em silencio, seguro-lhe nas mãos e as minhas palavras também não saem…só lágrimas…trago a cabeça a arder de emoção.
Quero perguntar-lhe o que aconteceu e não consigo, sentindo claramente que algo de muito grave se está a passar.
A minha tia igualmente sentida com tudo isto, leva-me para a sala de jantar dizendo:
-Meu querido!…o que sabemos pela Força Aérea é que o teu irmão e mais outro colega saíram para um voo de reconhecimento e não voltaram. Eles sugerem que o teu pai e tu partam no primeiro avião para Nampula (cidade localizada no interior norte de Moçambique) e depois para a base aérea de Nacala (outra cidade localizada perto da costa do índico)
-Sem palavras, escorrem-me agora as lágrimas pela cara abaixo. Tão intensas quanto as do meu pai ali ao lado.

O último voo de Ícaro
Não é descritível a emoção que nos assalta neste momento. Com incansável insistência, está o meu tio Manuel que não mais saiu cá de casa a telefonar para a base aérea AB5 em Nacala no sentido de obter mais notícias. As respostas são sistematicamente negativas, sendo apenas informado que a Força Aérea já está a tratar das nossas passagens para o primeiro voo para Nampula que terá lugar às primeiras horas do dia seguinte.
Escusado será dizer que esta foi mais uma noite em claro passada com o peso da dramática situação que estamos a viver. É já bem tarde quando, deitado na minha cama e olhando para a cama vazia do meu irmão Rodrigo, me deixo embalar por um turbilhão desordenado de pensamentos…o mundo tinha-se virado do avesso.
Esta noite rica em emoções fortes, teve igualmente o seu momento trágico quando a minha tia Irene pega no telefone para comunicar à minha mãe o sucedido.
-Deus me dê forças e coragem para falar com a minha irmã. Murmura a pobre Irene perdida nas suas emoções.
Discado o número para casa da outra irmã Rosa onde se encontra hospedada a minha mãe desde que se deslocou para Lisboa meses antes, dá-se o momento crítico.
-Sim!…és tu, Rosita?…olá, querida. Irene ao telefone.
-Sim, Irene. Diz lá.
-Pois é, mana…temos más notícias…passa-me a Leonor, por favor?
Do outro lado da sala e senhora de uma forte intuição, a voz de pura aflição da Leonor dispara segurando o telefone.
-Irene!…o que é que se passa?…diz-me o que se passa?
-Minha querida!…diz a pobre da Irene sem voz que lhe valha para dar à irmã uma notícia desta natureza.
-Foi o Chico, não é?…o que é que lhe aconteceu? Pergunta esta pobre mãe com uma voz entre o grito e o desespero.
-Não, mana…é o Rodrigo!
– O quê!…Irene!…o que que se passa?…diz-me o que se passa!
-Ele saiu da base aérea para uma operação e não voltou…é tudo o que sabemos, minha querida.
Com esta notícia bombástica, dá-se inicio a uma nova desgraça vivida do outro lado do mundo. Mais precisamente na alma de uma mãe que lá longe vai estar nos próximos dias agarrada ao telefone à espera de notícias.

LM (Maio 1974)   Rodrigo Afonso 2 (Nacala 1973)   Rodrigo Afonso 3 (Nacala Out 1974)

Esta viagem às primeiras horas do dia 6 de Fevereiro em companhia do meu pai num avião da DETA para Nampula faz-se em silêncio e de mãos dadas com o meu pai…as palavras não saem e é tempo de engolir o mais possível tanta emoção…sinto que estamos a sangrar por dentro e que, apesar de lá fora estarmos a voar acima da nuvens brancas, as tonalidades da nossa existência não podiam ser mais escuras.

Nampula   nampula_1
À chegada ao aeroporto de Nampula somos recebidos por um oficial da Força Aérea Portuguesa que nos cumprimenta com ar cordial, mas portador de um semblante deveras carregado…somos conduzidos a uma sala do aeroporto onde somos informados do seguinte:
-Quero em primeiro lugar lamentar o ocorrido com o vosso familiar. Como poderão compreender, a Força Aérea procura nestes casos preservar as emoções que estes episódios provocam junto das famílias.
Este garboso militar fardado de azul, voltando-se para o meu pai, diz:
-O seu filho acompanhado de um colega foi vítima de um acidente aéreo no qual, infelizmente, ambos perderam a vida. Em nome da Força Aérea Portuguesa apresento à família aqui presente as nossa sentidas condolências.
Se o mundo já estava a desmoronar, a partir deste momento desintegrou-se.
As palavras escritas não têm a capacidade de transmitir o impacto que estas palavras faladas têm no cérebro humano. É como sentir a alma desaparecer através de um vácuo originado pela ausência de um chão que deixou naquele momento de existir.
Um instante em que a força da gravidade duplica e o sangue circula agora em alta velocidade entre artérias que gritam à sua passagem. O intangível funde-se agora com a noção ilusória do final de tudo, afastando drasticamente qualquer bom senso em sentido contrário.
No epicentro de uma tal devastação de pensamentos e emoções levadas ao extremo dentro dos nossos seres, somos agora conduzidos como dois zombis para a pista onde nos aguarda um DO (Dornier DO-27) da Força Aérea portuguesa pilotado por este mesmo oficial.

Nacala   AB5 - 2
Esta viagem até ao nosso destino na Base aérea 5, é efetuada a baixa altitude permitindo-nos visualizar as fabulosas planícies desta região norte.
Este voo gerador de um invulgar visual é sentido como um pesadelo de olhos abertos, varrendo o espaço cortado pelo ruído de um mono motor tão familiar deste meu irmão pássaro, que voa agora numa nova dimensão…nada mais faz sentido no meio desta tempestade desordenada de pensamentos.
Absorto e fora de mim, olho para o meu lado onde vejo aquele homem sempre altivo de olhar perdido no espaço… sem reação.
-Pai!…digo eu em voz alta numa tentativa desconseguida de superar aquele ruído mecânico. Ao segurar naquela grande mão, sinto-a gelada. Tão gelada quanto a minha. Ao olhar-me, aquelas lágrimas descem implacáveis pelo rosto do meu pai, gritando e rasgando os sentimentos da situação surreal que estamos a viver.
O turbilhão é contínuo e o aterrar suave na pista da base aérea AB5 de Nacala é como ir ao encontro do inevitável. Um encontro com um local fatídico onde o tempo perde a sua dimensão . A emoção explode dentro de nós e um silêncio gritante é agora mais ruidoso que aquele motor que enfim se cala, dando lugar ao nosso total estupor.

Praia de Fernão Veloso   Praia de Fernão Veloso- 2
Já o dia cai frente à Praia de Fernão Veloso, quando somos recebidos na pista por mais 2 graduados da FAP que, após nos fazerem uma vénia, nos conduzem ao interior da base aérea.
Nesta passagem, conseguimos ver alguns T6 alinhados bem como os Auster, os Cherokee, 1 ou 2 Cessna e, mais ao fundo, os famosos Fiat G-91.
Um mundo tecnologicamente fascinante ao qual o meu irmão acaba de entregar a sua jovem existência …isto é uma loucura… pensei, completamente atordoado!
Já tínhamos aterrado, mas o meu cérebro continuava o seu voo na busca do sentido de tudo o que nos está a acontecer…não há tréguas possíveis…este conflito não tem fim.

Lei da gravidade
Uma vez dentro da base, somos conduzidos para uma sala onde nos convidam a sentar num confortável sofá e onde somos informados sobre o que aconteceu no famigerado dia 4 de Fevereiro último.
Dirigindo-se ao meu pai que se encontra totalmente apático, o oficial mais graduado diz com um tom grave e sério:
-Como devem imaginar, quando há um acidente como foi o caso do seu filho, a Força Aérea abre de imediato um inquérito.
O meu pai num esforço para articular palavras, interpela este oficial perguntando:
-O meu filho foi abatido?
-Não, Sr. Cunha, essa hipótese está totalmente fora de causa. O cessar-fogo foi decretado em Setembro do ano passado, sendo as nossas operações desde então de mero reconhecimento e patrulha. Estamos a falar de um acidente causado por razões que iremos naturalmente investigar detalhadamente.
E continuando este relato, este oficial avança:
O nosso Furriel, piloto aviador Rodrigo Cunha, foi um dos pilotos com comprovada experiência que tivemos nesta base. Descolou por volta das 10 h 30m da manhã do passado dia 4 de fevereiro levando consigo o colega Luis Ribeiro ao serviço regular na Torre de Controle. Como é regra, deu indicações à torre da sua rota, seguindo a costa em direção a sul.
E prosseguindo estas explicações, este oficial informa:
Por volta das 11h 45 m, o seu filho comunicou à Torre que iria fazer um passe de metralhadora sobre a praia de Fernão Veloso, não tendo mais respondido aos contactos via rádio com a base.
Após alguma insistência de contacto da Torre sem qualquer resposta, levantou um dos nossos helicópteros que, ao aproximar-se da costa, viu a aeronave despenhada no mar a uma dezena e meia de metros da praia de Fernão Veloso.
– E em que circunstâncias se deu este acidente? Pergunto eu desta vez.
Conforme informei, só um processo sumário de investigação poderá apurar as causas exatas do acidente, mas temos alguns indicadores. Sendo que o manche estava totalmente puxado à ré, indicando um sinal de recuperação e a força motriz tirada a fundo, tudo indica que numa manobra de recuperação terá batido com a cauda na água, tendo de seguida batido violentamente com a dianteira da aeronave contra a superfície do mar.
-Gostava que me desse mais uma informação, se possível. Avança o meu pai com voz trémula.
-Faça o favor, Sr. Cunha. Estamos aqui para o elucidar sobre todos os aspetos que sejam do nosso conhecimento.
-O meu filho teve morte imediata?
-Sim!…ocupando o lugar da frente e face ao estado em que se encontrava fisicamente, não temos qualquer dúvida em o afirmar. O mesmo não diremos do colega que se encontrava atrás, cujo embate foi de algum modo amortecido. Neste caso o Furriel Luis Ribeiro apresentou sinais de hemorragia interna, o que pode indicar uma falecimento mais tardio.
Quando as equipas de socorro chegaram à zona do acidente, a ambos foi declarado óbito localmente.
-Mas queira desculpar as perguntas. Repico eu.
-Façam o favor!…é para isso que estamos aqui a conversar convosco. Diz prontamente o nosso interlocutor.
-Sendo o meu irmão um piloto experiente e conhecedor destas máquinas, o que é que pode ter causado este acidente?
-Bem…não poderemos apontar quaisquer causas deste acidente sem conclusão do inquérito, mas temos possíveis causas que podem estar por trás deste acidente.
A primeira, uma falha técnica apontando para uma falha de motor no momento da recuperação.
A segunda, uma falha humana, colocando-se a hipótese do piloto não ter avaliado corretamente a distância a que se encontrava do mar no momento da descida. Isto pode dever-se ao facto de aquela hora a superfície do mar ter um brilho intenso causado pelo reflexo do sol na vertical. Mas como digo e repito, não podemos tirar qualquer conclusão antes do encerramento do inquérito que já foi instruído.
-E poderemos ver os destroços do avião? Pergunto friamente.
Os destroços foram recolhidos ontem ao fim do dia e encontram-se num dos nossos hangares. Não nos opomos a esta visualização se assim for o vosso desejo, cabendo-me, enquanto oficial desta unidade, desaconselhar essa intenção, sendo que a mesma pode agravar ainda mais o vosso estado emocional.

Rodrigo Afonso 4 (Nacala 1973)  Rodrigo Afonso 1972  Texano 6
-E agora, como é que se vai processar tudo isto? Pergunto a este oficial.
-Os senhores vão ser alojados esta noite num hotel em Nacala, sendo de novo transportados aqui à base amanhã onde o comandante vos acompanhará no acto de identificação do corpo do piloto Rodrigo Cunha, seguindo-se um almoço na messe da nossa base. Todos os encargos durante a vossa estadia, desde alojamento, transportes e alimentação estarão naturalmente a cargo da Força Aérea Portuguesa.
Concluído este encontro com contornos de pura alucinação, somos assim conduzidos num veículo militar para um hotel da cidade de Nacala.
Bizarramente, o quarto disponibilizado para nos alojar (a mim e ao meu pai) é voltado para a fantástica praia de Fernão Veloso onde o meu irmão pôs ponto final à sua existência dois dias antes. Tudo isto é muito complexo. A assimilação desta passagem das nossas vidas ditará uma entrada gradual num novo ciclo das nossas existências.
O meu pai deixou de falar e move-se meramente arrastando o corpo. Esta noite, apesar da minha insistência, não me acompanha para ir jantar na sala do hotel.
Encontro-me só nesta mesa de jantar, de olhar perdido nas paredes e embalado num turbilhão de pensamentos sem fim. Um alucinante rewind da minha vida junto com o meu irmão Rodrigo preenche agora o meu espaço e os meus sentidos. Uma primeira e segunda infâncias, uma adolescência partilhada em contraste com uma complexa entrada na vida adulta plena de contradições e filosóficas amarguras.
Assalta-me a sensação de termos sido roubados. Uma sensação acompanhada de medo, revolta, raiva, culpa e isolamento…tomando gradualmente consciência do quanto tudo será tão diferente daqui em diante!
Assim que terminei este estranho jantar, pedi para levarem uma sopa ao meu pai que se deixou ficar naquele quarto de hotel.
Quarto onde dei pela presença de um pai que eu não conhecia. Que me pede para juntar as duas camas para poder estar mais perto de mim ao longo desta noite absolutamente insólita. Como um homem altivo e de semblante rígido se transforma num ser frágil a precisar da minha presença junto dele.
E assim se passa uma noite em claro, envolvendo estes dois cérebros vazios de sentido e cheios de pensamentos desordenados.
Iremos descobrir em nós forças até ali desconhecidas para lidar com este fenómeno?
Iremos a partir daqui redesenhar as nossas existências e os nossos valores, passando a compreender e adotar um novo sentido de vida?
Terá esta violenta passagem das nossas vidas a capacidade de nos transformar em pessoas mais ricas espiritual e emocionalmente?
Como estará a minha pobre mãe a viver esta desgraça em Lisboa?
E com este turbilhão de pensamentos e perguntas sem resposta vejo nascer um novo dia naquela região norte de Moçambique. Abrindo as cortinas deste quarto, lá estavam as aves marinhas a sobrevoar a fatídica praia de um mar turquesa. Lindo e ao mesmo tempo implacável.
Na sequência de um matabicho despido de qualquer apetite, somos de novo conduzidos à base aérea AB5 onde somos recebidos desta vez pelo comandante de esquadra dos Tigres à qual o meu irmão pertenceu.
Nesta manhã, somos igualmente apresentados à mãe e tio do furriel falecido junto com o meu irmão. Momento naturalmente muito sentido e deveras difícil de suportar.
Enquanto o meu pai trocou algumas emoções com estas pessoas, fui abordado por um colega muito chegado do meu irmão com quem partilhei um sentido abraço.
Nesta breve prosa, tomei conhecimento de uma conversa que o furriel Luis Ribeiro (especialista em comunicações) ao serviço da Torre de Controle, teve no dia anterior com o meu irmão na messe.
-Oh, Cunha!…porra, vai fazer dois anos que estamos aqui e nunca andei nesses pássaros. Qualquer dia vamos para a metrópole sem eu ter provado o sabor dessa adrenalina.
Ao qual o meu irmão responde:
-Então vá, Luis, arranja lá o teu serviço de maneira a vires comigo amanhã num voo de reconhecimento.
Momento em que o destino traça linhas tortas na vida de certas pessoas, cruel realidade, pensei…a vida é um mistério!
A operação que se segue é deveras delicada. Efetuar uma sessão de reconhecimento do corpo do meu irmão na companhia deste comandante de esquadra e familiares da outra vítima.
Antes de partirmos na direção da casa mortuária da base, este oficial entendeu proferir as seguintes palavras:
-É meu dever advertir o pai do nosso Furriel Rodrigo Cunha, como a mãe do nosso Furriel Luís Ribeiro e demais familiares aqui presentes que este foi um acidente marcado por uma extrema violência. Tendo como consequente resultado o deplorável estado físico das vítimas. No sentido de minimizar este impacto, irá acompanhar-nos o nosso cónego sempre presente aqui no AB5 para situações desta natureza.
O que se passou naquela casa mortuária onde estavam as duas vítimas deste acidente prostradas dentro de caixões fúnebres, é algo que passa para lá da capacidade emocional de qualquer ser humano…o meu pai, agarrado a mim de cabeça no chão, para à entrada deste local sinistro dizendo-me em voz baixa e cavada.
-Filho!…não consigo fazer isto…podes ir lá tu?…faz isto pelo teu pai…tem coragem…perdoa-me.
Naquele momento, o meu coração que anda aos tombos nos últimos dias dispara para níveis de um incalculável stress. Por momentos, penso…isto não me está a acontecer!…mas tem que ser! E o que tem que ser não tem discussão.
Enchendo os meus pulmões de ar, chamo o comandante para perto de nós, dizendo:
-O meu pai não está em condições de fazer isto, comandante…posso ser eu a fazê-lo?
-Com certeza, é um familiar direto. Desejo-lhe coragem, meu rapaz… estaremos aqui ao lado. O cónego vai naturalmente acompanhá-lo.
A descrição deste momento passa para lá do meu universo tangível, sinto que o tempo parou e que o meu sangue não corre mais no meu sistema sanguíneo. Sinto que estou às portas da experiência mais violenta da minha vida. O reconhecimento dos restos mortais de um irmão de sangue que cresceu ao meu lado ao longo dos 20 anos da minha existência.
Dentro de um caixão de madeira devidamente aconchegado, pude ver este meu irmão vestido com uma farda de piloto e algumas medalhas ao peito. De rosto totalmente desfigurado onde nem as feições são reconhecíveis, com o corpo deveras deformado e com os pés dentro das botas separados das pernas. O meu ser está agora gelado perante tal visão…os poucos sinais que me permitem identificar este corpo ao longo deste intermináveis minutos são o inconfundível redemoinho capilar e uma das mãos, dado que a outra está totalmente desfeita. Mãos que durante anos foram objeto de tantas quezílias fratricidas e tão presentes em tantas regatas de vela feitas na Baía do Espirito Santo a bordo dos Snipes e de um Sharpie de 7 m.
Não há descrição possível para definir os contornos de tal emoção e do confronto de uma realidade inconcebível…com este universo hediondo que invade cruel e implacavelmente o meu olhar…por instantes sinto que não estou ali…que vou cair da cama pondo fim a um interminável pesadelo.
Mas é verdade!…isto está a acontecer!…sinto a mão do cónego puxar suavemente por mim e retirar-me do local, passado um tempo que não é mensurável.
Com um leve acenar de cabeça, faço sinal ao comandante e ao meu pai…murmurando entre lágrimas salgadas e uma voz consumida pelo choque que não quer pronunciar-se, digo:
-É ele sim! É o meu irmão Rodrigo.

Os dias que se seguem a este choque emocional de grande dimensão são dedicados à procura de um novo sentido para a vida. A viver junto do meu pai e da minha tia que vai acompanhando os nossos dias e as intermináveis noites desta nossa casa da Rua Comandante João Belo.
As conversas possíveis ao telefone durante estes dias com a a minha mãe são de extrema tortura. Conversas onde a dor de uma mãe ultrapassa tudo o que as palavras podem descrever…não há alívio que possa amenizar o sofrimento de uma mulher que, de tão bem disposta e tão brincalhona, caíra num buraco negro sem fim…de onde é difícil imaginar que algum dia saia. O corpo do meu irmão será transportado para Portugal em breve junto com outros militares falecidos ao serviço de uma pátria desmantelada.
Perante este cenário deveras trágico e após conversas plenas de reflexão tidas com o meu pai Nuno e com a minha tia Irene, abre-se uma nova frente na minha vida.
Tenho que rumar a Portugal para, da melhor forma possível, consolar a minha sofrida mãe que está à beira de um colapso emotivo sem dimensão.
Com esta decisão de abandonar abruptamente Moçambique, abre-se à minha frente uma nova etapa da minha vida.

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Fechado está em simultâneo o projeto Brasil que não passa das intenções e conversas tidas com o primo Francisco Jorge Gomes da Cunha do outro lado do mar. O destino a desenhar os contornos das nossas existências.
Um novo problema surge no horizonte imediato. Como poderei embarcar com urgência para Portugal com o cenário de assalto aos aviões da TAP por parte dos milhares de portugueses residentes que querem abandonar Moçambique como ratos de porão de um navio às portas de um naufrágio.
Aqui sentimos a preciosa intervenção do primo João Alfredo Borba, engenheiro de bordo da TAP, que toma uma preciosa iniciativa.
Trocando com um colega que faz o próximo voo para Moçambique o seu voo programado para Boston nos USA, este nosso primo, após conversações com os seus superiores, consegue autorização especial para que eu possa realizar esta viagem de carácter urgente para Portugal dentro do cockpit.
Este facto foi autorizado, uma vez que o lugar do navegador está livre. Esta função fora entretanto suprimida do regular funcionamento destas aeronaves modernas, sendo substituída pela capacidade eletrónica em grande evolução desenvolvida nos últimos anos.

A minha partida circunstancial de Moçambique está assim marcada para amanhã.
Os acontecimentos do quotidiano desta família reduzida a um pai despedaçado e uma tia desesperada e um filho sem chão para pisar, tornam-se deveras difíceis de gerir.
Ao meu pai cabe, a partir de agora, uma missão ainda mais penosa. Com a moral e determinação possíveis, desmontar 23 anos de vida na Província ultramarina de Moçambique a caminho da independência, colocando os pertences de uma família dentro de caixotes que irão atravessar, em condições desvalidas e impessoais, 25 dias de oceano com destino a Portugal, indo avolumar as montanhas de caixotes oriundos das ex colónias já visíveis no porto de Lisboa.
Uma retirada precipitada e condimentada com uma perda de um membro do clã ganha contornos de total surrealismo. Os deuses devem estar loucos!
Mas o que tem que ser tem muita força. Do fundo de cada um nós emerge agora uma noção do incontornável encontro com uma nova realidade….uma retirada de um mundo que virou do avesso e um encontro com o desconhecido.

Estamos a 11 de Fevereiro de 1975.
O momento de despedida do meu pai e minha tia são naturalmente dolorosos, não restando tempo para a minha sentida despedida da terra maravilhosa que me viu nascer e de um vasto grupo de amigos e colegas que por ali se mantêm.
Momentos de natural reflexão que não tem tempo para acontecer.

Concluídas as emoções fortes desta minha partida inesperada de Moçambique, encontro-me a bordo deste fantástico Boeing 707 da TAP, um quadrijato, com dois motores sob cada asa. Um exemplo da ciência aeronáutica que realizou a sua primeira viagem pela Pan Am, entre Nova Iorque e Paris, em 26 de Outubro de 1958.
O alcance deste gigante é de aproximadamente de 10659 km, com uma velocidade de cruzeiro de 815 km/h, sendo a sua capacidade máxima de 202 passageiros.

Cockpit 707 -3   Cockpit 707 - 2

Com o meu olhar absorto em tantas luzes a piscar à minha volta dentro deste cockpit, os meus pensamentos voam tão alto quanto este pássaro metálico voará dentro de instantes.
Olhando de perto para a evolução da minha vida nestes últimos meses após o meu regresso da América latina, entro numa viagem tão insólita quanto alucinante.
Em jeito de retrospetiva, recordo as recentes mudanças radicais no quadro político-social da nossa vida austral e múltiplos pensamentos assolam este meu espírito atormentado.
Vejo o quanto o meu pensar estava certo quanto ao desfecho da nossa vida nesta colónia enquadrada num império em fim de ciclo.
O quanto as decisões históricas do Estado Novo e a visão desse enigmático Professor Oliveira Salazar estavam erradas, o quanto o meu feeling, meu e de tantos colegas, estava certo em não participar nesta farsa insustentável denominada de Guerra do Ultramar, onde os heróis sucumbiram como números, dando corpo a uma vergonhosa retirada, ao fim dos séculos de ocupação, onde a vida de milhares de cidadãos nacionais não vale nada perante a cegueira do poder.
O quanto uma ilusão foi continuadamente transmitida a milhares de portugueses instalados a prazo além-mar numa Dolce vita com pés de barro, destinados incontornavelmente a uma traição escabrosa por parte da Pátria amada e a uma fuga pela porta dos fundos com a roupa no corpo e pouco mais.
Recordo as intermináveis discussões lá em casa em torno da defesa dos valores deste Estado moribundo, confrontadas com as minhas visões carregadas de irreverência e inconformidade. O quanto o exemplo de verticalidade do meu irmão e o orgulho dos pais marcava a noção do cumprimento do dever e de defesa da Pátria (Qual Pátria?…Pátria de quem?). Uma noção que se extingue dramaticamente naquelas areias de Fernão Veloso.
O quanto me revolta ter razão…o quanto desejaria nunca a ter tido…para que ele continuasse entre nós…um ombro para eu partilhar a minha irmandade…para que um dia os meus filhos pudessem conviver com o tio Rodrigo que gostava de aviões.
De que serve reclamar a minha razão junto de um pai e de uma mãe despedaçados pela perda de um filho, vítimas que somos todos afinal de um destino comum. Vítimas como o são os próprios moçambicanos originais que recebem nas mãos um país estruturado sem a menor preparação para o conduzir.
A minha revolta face a tudo isto é tão incontornável quanto intangível. Tão incompreensível quanto inconsequente. Um verdadeiro assalto a uma consciência presa a um beco sem saída.
Mas a vida continua. A ovelha negra sai de cena…para dar lugar ao caçula que assume, a partir daqui, as rédeas de uma trilogia decepada…tirando partido de um ativo oferecido pela dura aprendizagem num continente distante e pelas experiências extremas vividas recentemente, sem ordem nem sentido, na terra que o viu nascer e à qual não sabe quando regressará.
Até um dia minha querida e preciosa terra-mãe – Moçambique!

Boeing 707 -1

A nossa aproximação do aeroporto Craveiro Lopes de Luanda em Angola é agora objeto de conversações vivas entre a nossa tripulação e a torre de controle. Há indicações de fortes rajadas de vento na zona, facto que é agora preocupação do nosso comandante Roberto Vargas que, na sua descontração, calça as luvas de cabedal de dedos cortados comunicando algumas instruções ao co-piloto e ao meu primo engenheiro de bordo acrescentando:
-Essa tá pra mim, gente!
Efetivamente, a posição deste enorme passarão a perder gradualmente altitude alinhando o nariz com o centro da pista do aeroporto de Luanda é desviado desta trajetória pelas intensas rajadas de vento que o sacodem. Trata-se agora de estabilizar o aparelho face a estas rajadas que chegam a atingir 80 km/hora segundo os sensores de bordo e confirmação da torre.
Visto daqui, a partir do cockpit, este cenário comporta níveis de stress consideráveis a um amador como eu. Os passageiros não têm a mais ténue ideia do efeito destes ventos num aparelho destas dimensões e do esforço humano despendido dentro deste habitáculo para que a aterragem se faça com alguma estabilidade.
À medida que o vento desvia a aeronave inclinando-a lateralmente , há toda uma manobra de compensação feita pelo comandante brasileiro e seu co-piloto…impressionante esta aproximação perigosa ao Aeroporto de Luanda…o medo é rei e o contacto deste aparelho de muitas toneladas na pista é sinal de grande alívio… como manda a tradição, é motivo de uma ruidosa salva de palmas na cabine de passageiros.
No rosto do nosso comandante há agora pingos de suor que resvalam na satisfação pessoal de mais uma difícil missão cumprida. A atividade a bordo é como sempre mais intensa nas operações de descolagem e aterragem. Um autêntico festival de manípulos, luzes e interruptores de vários tipos. Que privilégio assistir a tudo isto a partir deste posto de luxo.
A vontade de sair e esticar as pernas é grande!…a deceção vem a seguir.
Não temos ordem de abandonar o avião para uma deslocação à sala de trânsito do aeroporto.
Segundo compreendi, o dispositivo de evacuação de portugueses a querer sair de Angola está um verdadeiro caos, sendo a permanência do exército expressiva. Nestas condições de segurança relativa, a TAP não pode libertar os seus passageiros. O clima que se respira nesta nossa escala é efetivamente pesado havendo uma presença de stress no ar sentido através das comunicações rádio. Temos portanto que esperar a bordo a chegada de novos passageiros debaixo de um calor expressivo. Aguenta, rapaz! Estás em África.

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Neste cockpit, o tema da evacuação de portugueses residentes em Angola é naturalmente objeto de conversa da tripulação.
Fiquei a saber que no aeroporto de Luanda já estão milhares de pessoas a aguardar a sua evacuação de Angola, nas piores condições de salubridade, desesperadamente à espera de ter um lugar nos aviões da TAP, que transportavam atualmente mais de mil pessoas por dia para Lisboa, estando cerca de 250 mil que querem regressar.
Perante este quadro caótico e insustentável, já se fala na hipótese de lançamento de uma ponte aérea com a colaboração de vários países europeus.

REFUGIADOSan21   Retornados2

Após 2 horas neste insuportável clima vivido no aeroporto Craveiro Lopes em Luanda, é tempo de prosseguir viagem com este Boeing totalmente cheio de portugueses a caminho de um desesperado e imprevisível exílio.
Outro momento que se vive com um especial prazer neste ambiente do cockpit é o tipo e a qualidade de refeições servidas à tripulação que não se assemelha às refeições servidas na área de passageiros. Momentos que aproveito para me regalar e tirar total partido desta agradável condição.

Boeing 707 -2

A umas duas horas depois de descolarmos de Luanda, inicia-se nesta cabine tecnológica uma conversação com outra aeronave em Inglês…fiquei curioso com este facto.
Nisto pergunto ao meu primo João.
-O que é que se passa?
-Espera, Chico. Deixa terminar a conversa.
Concluída esta curta conversa aérea, o comandante Vargas diz:
-Temos a Scandinavian em rota de colisão connosco a uma diferença em altitude de uns 1500 pés. Vai passar dentro de minutos aqui por abaixo.
-Hummm…fabuloso!… pensei.
Passados 3 minutos, dá-se esta passagem fenomenal de um passarão da Scandinavian Airlines por baixo de nós…momentos mágicos vividos deste lado da aviação.
Passado pouco tempo, tivemos a visita de uma das hospedeiras de bordo que, com um lindo sorriso, veio perguntar o que gostaríamos de ter para refeição, havendo uma escolha entre peixe e carne após servido um consomé de legumes e tendo uma opção alargada de bebidas, três sobremesas à escolha, tudo rematado com café ou chá….um manjar do Oriente! Pensei.
Ao deliciar-me com este requinte, o meu primo João explica-me que a comida destinada à tripulação é preparada com especiais cuidados, não podendo o Comandante e o seu co-piloto tomar a mesma refeição.
-Ah, bom!…porquê?…pergunto.
-Simples! porque se houver algo estragado, só um deles fica indisposto. Temos que ter sempre um deles operacional.
-Está certo…faz todo o sentido!

Cockpit 707 - 1   Cockpit 707 - 4
O comandante chama-me agora à atenção de algo curioso. Entre ele e o seu co-piloto vê-se uma esfera correspondente ao Radar.
-Você vendo esta mancha aqui, Chico?
-Afirmativo!…respondo curioso
-É a costa portuguesa, rapaz!…vamos começar a iniciar a nossa descida sobre Lisboa.
Estas palavras entraram no meu ouvido com um gosto especial apesar dos motivos e condições que justificam esta minha deslocação ao velho continente.
Recordo com alguma emoção o desejo que já tinha na Colômbia em revisitar esta linda e charmosa cidade banhada pelo Tejo que não vejo desde 1971.
Ao fim das 5 horas que nos separam da nossa atribulada escala em Luanda (Angola), o comandante Roberto Vargas está de novo prestes a demonstrar as suas capacidades aos comandos deste imenso pássaro tecnológico.
A nossa aproximação à capital do Império é feita de uma forma circular dado que a direção do vento nos obriga a uma aterragem no aeroporto internacional da Portela no sentido norte-sul. Esta manobra permite-nos ver de forma panorâmica a fascinante muy nobre e sempre leal cidade de Lisboa por um ângulo que só o “cockpit” permite. Estávamos a chegar à Terra do puto.

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O sobrevoar do Tejo com o seu Golden gate semelhante ao de S. Francisco (USA), a visão do Cristo-Rei e o emergir das luzes da capital, são os primeiros sinais da chegada a um novo mundo.
Como um despertar, sinto-me agora invadido por inúmeros pensamentos do passado recente que se diluem na visão desta nova fronteira, e no confronto intransigente de uma nova vida com um continente velho.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado e, ao tentar entender o que me aconteceu nestes últimos dois anos, uma certeza fica: O tempo é um factor absoluto que acontece num instante e não volta mais.

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Tempo de repartir!…tempo de renovar!

No meu espírito paira agora uma expressão árabe.

Maktub – “já estava escrito e tinha que acontecer”…

 

FIM

Breves notas sobre o percurso dos principais personagens:

Francisco CunhaFrancisco Cunha ( autor):

Em 1975, no desenrolar da complexa adaptação a um Portugal pós revolucionário à procura do norte, forma-se no Centro de Estudos Profissionais de Lisboa na qualidade de Topógrafo. Enquanto se lança nesta nova carreira tecnológica, acompanha de perto o projeto pecuário dos pais em Portugal junto à costa Atlântica.
Em 1976, após viver uma experiência comunitária na Serra de Sintra, ruma a Inglaterra onde passa a ir regularmente e onde se estabelece em 1978 durante um tempo, na companhia da sua companheira Sonia Criner (mãe dos seus filhos) iniciando uma viagem por estrada ao norte de África e a um grande número de países europeus.
Em 1980, ingressa no mundo da construção em Portugal, tendo em 1984 rumado ao sul, partindo novamente para África. Desta vez para a Costa do Marfim onde participa em alguns projetos rodoviários até 1989.
Estabelecendo de novo a sua base em Portugal, prossegue o seu caminho na realização de múltiplos projetos de engenharia onde se especializa na qualidade de Expert em monitorização estrutural. Neste período, tem especial destaque a construção e manutenção da Ponte Vasco da Gama sobre o rio Tejo em Lisboa, ao qual fica ligado até ao ano de 2010.
Após o falecimento da sua companheira de longo curso no final de 2003 e com o restabelecimento da sua vida em Portugal, regressa em 2012 a África, estabelecendo-se em Marrakech (Marrocos) onde fica até final de 2014.
Em 2015, e após nova passagem a solo por Portugal, ruma ao Brasil 41 anos mais tarde ao encontro da sua companheira de trilhos sul americanos Rosangela Vianna com quem partilha o sentimento de uma história de vida e de uma missão que ficara por completar lá atrás em 1974.
A fusão destas almas gémeas faz-se finalmente em Junho de 2015.
Residem desde então na região de Ilhéus, neste estado da Bahia, onde um dia se cruzaram atrás do tempo.

Descendentes: 3

Nuno CunhaPai Nuno:

Um parte dele foi com o meu irmão Rodrigo. O pai Nuno manteve-se em Moçambique mais 2 meses para encaixotar o que restava de uma vida de 23 anos neste território do Ultramar português.
Em Portugal durante uns bons anos dedica-se a um projeto pecuário numa propriedade que adquiriu junto à costa atlântica à qual chamou de Granja do Rodrigo. Projeto este que abandonou aos 67 anos devido a um cancro nos intestinos ao qual sobreviveu, tendo, após um período de convalescença, prestado serviço no Aéroclube de Torres Vedras (sempre junto aos aviões).
Ali se mantém no ativo até à idade dos 80 anos, tendo interrompido a sua atividade profissional na sequência de uma intervenção cirúrgica de coração aberto. Partiu para a grande viagem aos 90 anos na sua terra natal – Torres Vedras.

Descendentes: 2

Leonor CunhaMãe Leonor:

Um parte substancial dela foi com o meu irmão Rodrigo. A senhora exótica de sorriso fácil e de uma alegria contagiante, deu gradualmente lugar a uma mulher marcada por um semblante de tristeza que veio para ficar.
Nascida em Lisboa em 1925 na condição de gémea frágil e doente, atravessa uma adolescência difícil apresentando-se aos 18 anos como uma séria candidata ao sanatório. Com a gestação e nascimento do seu primeiro filho Rodrigo Afonso, não mais conheceu qualquer tipo de doença ao longo de uma vida. Um filho que lhe ofereceu uma vida nova e que sai de cena naquele fatídico dia 4 de Fevereiro de 1975 nas águas cristalinas de Fernão Veloso.
Acompanha o Pai Nuno nas suas atividades, tendo completado ao seu lado 51 anos de matrimónio.
Aos 74 anos de idade e sofrendo de uma repentina e grave disfunção da vesícula, parte para a grande viagem em 1999, a poucos dias da viragem do novo milénio.

Descendentes: 2

Rodrigo Afonso com 22 anosIrmão Rodrigo Afonso:

O meu irmão deu corpo a um modo de vida reservado a algumas pessoas neste mundo. Live fast die young. O sonho de Ícaro viveu nele desde tenra idade e de algum modo a sua passagem perene pela Via Láctea permitiu-nos reaprender a viver sem ele num continente velho, longe da terra onde o vimos crescer.
Instalou-se definitivamente na cripta dos combatentes do Alto de S. João, na cidade de Lisboa que o viu nascer em 1952.
O meu irmão mais velho transformou-se ao longo dos anos no meu irmão mais novo onde a sua juventude habita no universo intemporal da nossa memória.

Faleceu em Nacala (norte de Moçambique) a 4 de Fevereiro de 1975, ao serviço da Força Aérea Portuguesa.

Sem descendentes

BagsBags:

O Bags ficou mais uns tempos a rodar pelo altiplano andino, tendo cruzado por lá uma moça inglesa com quem rumou a Inglaterra e com quem teve um filho.
Após alguns episódios atribulados vividos na nação britânica, regressou passado 2 anos ao Brasil onde se instala com carácter definitivo. Faz uma deslocação a Portugal no ano de 1999 onde passa um período de poucos meses, regressando em definitivo ao Brasil.

Segundo informações fidedignas, vive no Rio de Janeiro desde então.

Descendentes: 1

BambinaBambina:

A Bambina ruma a Portugal no grande êxodo do ano de 1975. Estabelece a sua base em Lisboa, tendo pouco tempo depois seguido a atração natural pelo calor do sul de Portugal, instalando-se no Algarve na região de Tavira.
Com uma natural apetência para as artes, a Bambina conclui entretanto uma formação específica na área artística, incidindo sobre recuperação de vitrais de igrejas. À esta atividade dedica a sua carreira profissional, na companhia do Manuel Neto com quem partilha durante vários anos um período de vida a dois.

Continua a residir em Tavira no Algarve.

Descendentes: 1

MarteloMartelo:

Uma vez regressado a Portugal no fatídico ano de 1975, o Martelo instala-se em Lisboa onde durante os anos seguintes conclui uma licenciatura em medicina veterinária.
Desde então, e aproveitando as sinergias familiares, instala-se na região de origem da família materna onde se concentra uma forte indústria leiteira.
Em companhia da companheira com quem divide uma vida afetiva desde a adolescência em Moçambique, adquirem nesta região centro de Portugal uma propriedade onde exerce a sua atividade profissional desde então.

Sem descendentes

Luis PedroLuis Pedro:

O Luís sai de Moçambique em 1975. Depois de uma vida atribulada em Portugal nos anos seguintes e com uma passagem incompleta pela escola militar (curso de sargentos), resolve sair em direção à Holanda com passagens transitórias por França, Suiça e Bélgica, incluindo uma passagem por uma comunidade budista onde não encontra o seu caminho.
Instala-se na Holanda em 1979, tendo efetuado novas e atribuladas viagens a Portugal.
Estabelece finalmente a sua residência em Amsterdão em 1992 onde vive até aos dias de hoje com a sua companheira holandesa.

Sem descendentes

DinoDino Bucellato:

O Dino (Aldo Buffa Bucellato) só rumou a Portugal em 1976. Tendo acompanhado o pai Pierino Bucellato numa tentativa de salvar uma florescente indústria metalúrgica em Moçambique. Luta sem sucesso, tendo esta atividade familiar caído nas mãos da FRELIMO, forçando a família a mover-se compulsivamente para a África do sul.
Após uma passagem de dois anos por Portugal e mais um ano por Inglaterra, toma a direção da Suíça onde cria laços profissionais com a indústria hoteleira, ocupando mais tarde um posto de soldador, consequência de formação num curso Cambridge.
O Dino, apesar de ter o passaporte português, nunca foi considerado como um português, nem italiano, nem sul africano, tendo durante vários anos circulado com o estatuto de cidadão apátrida, continuando no entanto a renovar o seu passaporte português na Suíça.
Bizarramente, e apesar de ter servido no exercito português em Moçambique, o Estado português nunca lhe conferiu qualquer direito de cidadania.

Faleceu em 1983 vítima de insuficiência cardíaca.

Sem descendentes

Nuno QuadrosNuno Quadros:

O Nuno veio igualmente para Portugal em 1975.
Regressa posteriormente a África para viver uma passagem na África do sul, tendo regressado a Portugal onde permanece durante os próximos anos.
Tendo-se dedicado ao mundo empresarial e da publicidade em televisão, o Nuno faz o seu regresso ao Brasil alguns anos mais tarde, tendo dedicado ao estado da Bahia 4 anos da sua vida.
Entende, passado este período, que é chegado o momento de regressar à sua terra natal Moçambique para se dedicar a atividades lúdicas e de restauração.

Vive em Maputo desde então.

Descendentes: 2

TinaTina:

A Tina sai igualmente de Moçambique em 1975, tendo rumado a Portugal.
Uma vez neste novo mundo, a Tina instala-se na cidade do Porto onde inicia uma actividade profissional ao serviço da RTP (Rádio Televisão Portuguesa).
Sem nunca perder de vista o seu gosto pelas artes, desenvolve algumas técnicas específicas na conceção e criação de batiks de grande qualidade, promovendo exposições neste sentido.
Com a sua natural tendência para o universo infantil, a Tina revela as suas qualidades no trato com crianças com especial dedicação aos seus sobrinhos.
Vive até hoje na cidade do Porto.

Sem descendentes

KelpKelp:

O Kelp sai igualmente de Moçambique em finais de 1975, tendo partilhado a experiência comunitária da serra de Sintra na 1ª metade de 1976 com a sua companheira irlandesa que conhecera na América latina. Posteriormente seguem para a Irlanda (Dublin) onde cumpre o seu sonho. Uma formação em arquitetura.
Entre 1982 e 1991 exerce esta atividade profissional em New York (USA), regressando, findo este período, à Irlanda onde prossegue a sua atividade de arquiteto.
Entre 2010 e 2013 abraça um projeto ferroviário em Abu Dahbi (Emiratos Árabes).
Vive atualmente na Irlanda em pleno gozo da sua reforma.

Descendentes: 1

Tonecas CoutoTonecas:

O Tonecas despede-se de Moçambique em 1975, rumando igualmente a Portugal com uma posterior passagem pelo Brasil, na cidade do Rio de Janeiro que bem conhece.
Com a instalação da família Couto na Austrália, junta-se ao clã tendo-se radicado na região de Quensland onde reside até hoje.

Sem descendentes

Manuel Neto Manuel Neto:

O Manuel, após um regresso a Moçambique, desloca-se igualmente para Portugal no final de 1975, tendo-se instalado em companhia da Bambina no Algarve (região de Tavira) onde, para além das atividades náuticas e pesqueiras, se dedica a dar aulas de Inglês a portugueses e português aos estrangeiros a residir no Algarve.
Durante vários anos debate-se com uma severa situação oncológica que o leva por várias vezes ao tapete, tendo estado em tratamentos no IPO (Instituto Português de Oncologia) de Lisboa onde todos os indicadores apontavam que dali não sairia com vida.
Mas o seu destino e um tratamento da medula óssea falou mais alto e o Manuel continua entre nós até hoje, Alive & kicking, prosseguindo a sua vida no Algarve.

Descendentes : 1

Rosangela ViannaRosangela Vianna (Rose):

A Rose regressa ao Rio de Janeiro em Dezembro de 1974, após concluída a aventura sul americana.
Em 1975 retorna à região da Bahia, onde se junta a um companheiro baiano com quem constrói uma vida.
Desta união florescem 6 filhos que constituem a sua maior missão, assumindo o papel de mãe coragem, interrompendo assim o seu sonho de continuar a viajar.
A Rose mantêm-se nesta região, administrando um camping à beira-mar e vivenciando mais tarde uma experiência rural comunitária.
Após 15 anos a acompanhar o crescimento dos filhos, inicia uma formação profissional como professora de língua inglesa e produção de trabalhos em Patchwork, actividades que mantém até hoje.
Terminada a relação de 33 anos com o pai dos filhos em 2008, e restabelecimento da sua vida nos anos seguintes, regressa ao contacto via internet com seu velho companheiro de estradas sul americanas, o africano Francisco.
Com a sua missão materna concluída, entende que é chegado o tempo de resgatar algo importante que havia ficado inacabado lá atrás no tempo com este seu companheiro de estradas andinas.
A fusão destas duas almas gémeas, 41 anos depois da grande e inesquecível aventura de 74, dá-se em Junho de 2015.
Rosangela e Francisco passam a partilhar uma vida no Brasil, na região de Ilhéus, neste estado da Bahia onde um dia se cruzaram atrás do tempo.

Descendentes: 6

A magia de um reencontro

41 anos se passaram após a realização deste voo nos loucos anos de 1973/74 e 75.
A obra literária O Voo do Condor, inicialmente denominada Uma geração na estrada, esperou mais de 30 anos para sair do anonimato, tendo por fraca companhia o pó das gavetas e uma convicção até então desconseguida.

Chico & Rosa – O reencontro destes companheiros de estradas poeirentas do altiplano andino, escrito nas estrelas, é o grande despertar desta obra literária que conheceu a luz em Março de 2015.
Um projecto cuja força motriz nasce do contato estreito entre estes dois protagonistas principais, a partir de 2015, inspirada nas preciosas notas de bordo presentes nos seus respectivos road-books e da essencial colaboração de algo ainda mais precioso e intemporal. Os tesouros escondidos nas suas memórias e na de vários outros participantes nesta aventura. Este reencontro físico dá-se em Junho de 2015 com uma nova travessia do Atlântico.

Chico-Rosa 1   Chico-Rosa 3

Chico.Rosa 2   Chico-Rosa 4

Creio poder afirmar que todos saímos mais ricos deste voo planado.

O condor esta noite vai dormir…

Francisco Lourenço da Cunha

18 comentários

18 thoughts on “Exodus

  1. Macaneta

    Chico Chicão! Valeu este voo do condor. O fim de Moçambique doeu aqui. Ainda bem que reencontraste a “Carióquinha”. Aquele abração xamuar. Ainda nos vamos cruzar outra vez. O mundo é Redondo. FORÇA!

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  2. Meu irmão de antigamente, de agora e de sempre…esta aventura foi de puro prazer…uma viagem singular ao fundo da memória oferecendo aos que seguiram esta narrativa a capacidade de viajar no tempo e no espaço…foi também o reencontro de almas gémeas e a abertura de novos caminhos.
    O futuro mais fácil de prever é aquele que construimos…the show must go on!
    Pois claro que nos cruzaremos…agora ambos estamos no hemisfério sul…e como dizes este planeta azul é redondo…hasta siempre companheiro!…aquele abraço!

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  3. Tudo muito lindo e bem contado, as tuas recordacoes incluindo o nosso encontro na Beira tocando musica juntos como foi sempre a nossa comunicacao ne? Tens uma amazing memoria pois nao me recordo de nada, deve ter sido aquela boom da Gorongoza, mas no entanto “sinto” tudo quando leio tua prosa. E depois como foste interropmpido no meio da nossa batucada com noticia tao pesada da ida tragica do teu irmao, imagino so a vossa dor, abrazo forte.

    Mas para acabar o Exodus um lindo novo principio com a romantica reuniao com a linda Rosa que me traz muita alegria pois nunca me esqueci do vosso amor e confesso que fiquei desiludido quando voces se separaram ha 40 anos.

    E agora compreendo porque nem sequer tiveste tempo para dar uma saltada a minha companheira Yara (Isabel) no Estoril para receberes meu CD, um presente de “troca” pelas belas memorias e valiosa historia que nos tens oferecido aqui no Voo do Condor. Mas como o teu amigo Macaneta bem diz o mundo e redondo e a gente talvez se encontre em breve na Bahia pois segundo a Yara Ilheus nao fica longe de Itaparica ne? Entao te entregarei teu CD e faremos um jam musical para celebrar nosso encontro no Cosmos, ta? Kanimambo, abraço e beijinho a Rosa

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    • Grande Mwana,
      Esta caminhada chega ao fim resgatando ao passado uma aventura que projeta no futuro de todos nós uma riqueza própria desta geração criativa e de risco que nós fomos.
      O universo conspirou e ajudou este reencontro com alguém que teve um papel muito importante nesta caminhada. A Rosa muito naturalmente que impulsionou esta minha nova travessia do Atlântico para vir provar a água de côco junto dela…e não só!
      Sinto que esta missão está cumprida companheiro! Abrem-se assim mais umas portas para retomar a minha nova vida com base em três aspirações…a escrita muito naturalmente que me irá conduzir em novos projetos literários, a pintura que penso recomeçar em breve…e a música que foi agora reforçada com a compra de um violão Di Giorgio brasileiro.
      Se vieres por cá manda uns sinais de fumo chamoir.
      A Rosa tem o filho mais velho a residir em Itaparica e mais 3 filhos a viver em Salvador. Quem sabe um destes dias ainda nos encontramos neste imenso Brasil para por a escrita em dia…o teu CD está guardado em boas mãos…assim que possa irei recuperá-lo…
      So long buddy…thank a lot for your words and vibrations…Saravá!

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  4. Maria Teresa.Barbosa.

    Querido amigo,a minha vetusta idade me permite este tratamento e pode crer que é muito sincero .Em poucas palavras só lhe posso dizer que fiquei mais rica por ler todos os seus escritos ,até à página final. Muita juventude ,muita alegria e grande tristeza atravessaram a sua agitada vida .Passado tantos anos volta a encontrar a graciosa companheira da sua juventude.
    Os meus votos são desejos que tenham uma longa vida e que realizem sempre todos os vossos sonhos ,pois enquanto estamos vivos temos que continuar a sonhar.Para os dois um beijinho desta amiga com 86 anos que vos diz; Assim vale a pena viver.

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  5. É com enorme emoção que leio estas suas palavras amigas. Uma voz próxima e sincera que me acompanhou nesta caminhada constituindo pura música para os meus ouvidos.
    Outras obras se seguirão. Ideias que já andam a fervilhar neste meu espírito criativo.
    Receba da minha parte e igualmente da Rosa um abraço apertado e a nosso sincero apreço pelo apoio demonstrado ao longo desta narrativa…bem haja minha amiga…tudo de bom é o que lhe desejamos!…sorte e muita saúde…com um forte abraço!

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  6. Carla Rodrigues

    Espero amigo que isto não seja o fim…essa tua memória fantástica terá muito mais para nos contar e relembrar…os meus parabéns sinceros. Gostei muito !!! Bjs

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    • Não miga!….é antes o principio de uma nova era de aventuras que irão seguir as ideias que ocupam este meu espírito errante….trago algumas a desenvolver num futuro a breve prazo…vamos trocando sinergias….aquele abraço apertado…outro da Rosa…

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  7. Adorei Chico, vou ter saudades ….

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  8. Bom de saber Zé!…música para os meus ouvidos…vai haver mais…abraço miga!

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  9. Teresa Amaral

    Andei uns dias a evitar ler estes últimos voos do condor, não só por falta de tempo, mas porque intuía que o voo estava a acabar e não queria. Finalmente a curiosidade venceu e mais uma vez devorei o relato das tuas memórias (de elefante!), esses momentos dolorosos como deixaste Moz. e a maravilha do reencontro com a “Carioquinha de olhos amendoados” !! Fiquei super feliz por vocês e vos desejo muita felicidade!! Que essa musa inspiradora te inspire a escrever muitos mais vôos, pois este foi quase que como o 1o de muitos que fizeste, e certamente pouco falta para os “pores no papel” e partilhar com estes amigos que já se habituaram a saborear os teus escritos!!
    Abraço para os 2!

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    • Teresa my dear,
      Esta foi uma viagem de epopeia…baseada nas experiências fortes vividas lá atrás por uma geração de risco mas com alto valor acrescentado…”with a little help from mi friends” cheguei ao objetivo…resgatar esta caminhada que muitos como tu ajudaram a construir com o vosso entusiasmo.
      Portas se abriram com esta experiência positiva…novos desafios se levantam e eu não tenho medo das páginas em branco…um novo desafio está em curso…desta vez uma “Novel” passada nos séculos XIX e XX com uma trama geográfica onde o mistério, a etnologia e a antropologia serão o eixo condutor de uma nova caminhada…vamos em frente!
      Segue-se uma nova empreitada…levar “o Voo do condor” ao encontro do papel e do grande público…as conversações com as editoras estão em curso e espero em breve encontrar “o caminho das pedras” para cumprir este objetivo.
      Aquele abraço e thanks again pela música que nos ofereces através das tuas palavras…vamos trocando prosa…Cheers!

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  10. lenocas

    Estas bom para seres escritor,deixaste todo o mundo adorando,esse teu fim foi fantastico e muita emocao com a historia do teu irmao que numca tinha sabido exato como foi,a lagriminha veio ao olho.
    Espero que fiques feliz nessa tua aventura nova,beijinhos amigao mano,maybe i will pay a visit to you one day.

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  11. Olá miga de sempre!
    Foi uma caminhada de grande emoção e prazer para mim…uma história que passou de uma gaveta para o futuro…a descoberta desta capacidade de fazer os outros viajar nas minhas palavras sem sair do sofá foi aliciante e motor de novas caminhadas.
    Segue-se a luta da publicação juntos das editoras.
    E como as páginas em branco desafiam a minha imaginação, estou numa nova caminhada literária…desta vez uma “Novel” que começa na Austrália (Queensland) logo a seguir à 2ª guerra mundial…mais não digo…grande abraço para Harvey Bay…Cheers!

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  12. lenocas

    waw, estou para ver essa Novel a comecar em queensland que vais fazer, beijinhos amigo e fica bem.
    HAPPY DAYS.

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  13. nadiá

    …a vida é um mistério…

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