Na sombra da esfinge

Na sombra da Esfinge- Parte I

NA SOMBRA DA ESFINGE

Parte I – Cambridge – a grande fronteira

Esta passagem lusitana do nosso candidato a antropólogo conhece uma nova fase cujo novo ingrediente é esta paixão com Susana que, ao que tudo indica, veio para ficar.
Estes jovens apaixonados encontram-se diariamente tomando o rumo da Torre do Tombo onde cada um prossegue os seus objectivos de pesquisa. No decorrer de alguns passeios pela cidade dá-se um convívio mais frequente com novos amigos vindos do círculo de Susana e vive-se muito naturalmente os momentos a sós que estes fervorosos amantes não mais dispensaram depois daquele encontro quente no Estoril.
Este é um período dedicado à apresentação mutua dos familiares de cada um, com um jantar em casa do tio Manuel Sousa Campos e dos pais de Susana, ali perto na avenida de Roma.
Tempo igualmente para melhor definir as emoções e vontades partilhadas por estes jovens adultos.
Na intimidade destas conversas a dois e durante um passeio à fabulosa região de Sintra, Susana pergunta ao seu companheiro:
-Alfredo, meu querido!…quando pensas regressar a Cambridge?
-Ainda não sei, Susana!…nós cruzámos as nossas energias durante esta minha passagem por Portugal mas sabemos o quanto é importante seguir os nossos objectivos universitários. Estamos os dois nas retas finais dos cursos que escolhemos e penso que sobre isso não há dúvidas.
-Eu sei, Alfredo!…mas como imaginas vais-me fazer muita falta!…vamos falar-nos ao telefone e assim que eu possa vou passar uns dias contigo a Cambridge.
-Essa notícia é música para os meus ouvidos. Responde Alfredo com um brilho no olhar!
-Claro, não vou deixar o meu cavaleiro andante muito sozinho por lá!

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3 semanas mais tarde

Após uma atribulada e ao mesmo tempo deliciosa passagem pelo país natal do seu pai Joaquim, Alfredo embarca para Cambridge a fim de defender o seu trabalho de final de curso, levando consigo uma preciosa bagagem recolhida na famosa Torre do Tombo.
A despedida de Susana foi um momento naturalmente sentido e emocionante.
-Susana que eu adoro!…vamos falar ao telefone diariamente pois tenho um esquema lá na universidade que me permite fazer chamadas com alguma facilidade.
-Bem!…conto com isso e estarei como sabes na expectativa de te ouvir sempre que possível. Sabes o quanto eu te amo e te admiro!
-Sei, Susana!…basta olhar em algumas das nossas fotos!…e ver-te ali ao meu lado! Mas vamos lá!…firmeza nos teus objetivos em Lisboa, certo?…eu farei o mesmo em Cambridge…assim que chegue a Londres telefono-te para casa ao fim do dia de uma cabine no aeroporto ou de casa de um amigo onde ficarei um par de dias.
-Certo, meu amor!….faz uma boa viagem!…adoro-te, bonitão!
E este momento foi naturalmente apimentado com um beijo partilhado…como aqueles que se vê em Hollywood…e alguma humidade nos olhos!

Cabridge - A grande fronteira

Cambridge – Apresentação do trabalho de fim de curso

Após algumas semanas de preparação e aconselhamento por parte de professores, Alfredo sente-se preparado para enfrentar aquele ameaçador grupo de jurados desta prestigiada instituição.
Dispõe de 50 minutos para uma exposição sucinta e tão estruturada quanto possível.
Para além da apresentação oral deste seu trabalho, Alfredo dispõe igualmente de um conjunto de imagens apelativas que apresentará em grande écran, entre as quais algumas das fotos do Grande Zimbabwe vencedoras do concurso fotográfico para a National Geographic Magazine.

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No cronograma de apresentação de Alfredo estão ordenados os seguintes pontos:

1. Os objetivos da investigação, o contexto e as questões de investigação
2. Revisão da literatura fundamental assim como o seu estado atual do conhecimento
3. Descrição e justificação da metodologia escolhida
4. Um resumo dos dados encontrados
5. Uma análise do que os dados sugerem
6. Conclusões e recomendações

No dia anterior, sabendo com antecedência onde irá decorrer a sua defesa, Alfredo vai ter um contacto estreito com o local, certificando-se do que deve trazer consigo (material didático, documentação e imagens, etc), ver de perto o lugar, verificar as condições da sala, observar o posto onde se vai sentar e testar surdamente a sua apresentação.

Neste novo dia no Campus universitário, Alfredo acorda muito cedo tendo no espírito bem presente esta sua prova de conhecimento, aprendizagem e conquista final de um objectivo maior. A conclusão da sua formação em antropologia.
No seu pensamento murmura uma voz que diz:
Granpa Donald!…you did it!…it´s my turn to do it!
Esta é uma passagem da vida que Alfredo irá recordar por muitos e longos anos.

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Com um banho tomado, bem barbeado e vestido a preceito como manda a praxe de uma universidade como Cambridge, Alfredo com a mala a tiracolo vai caminhando por aquele atalho que o leva ao edifício principal da universidade. Cauteloso como sempre, chega com 30 minutos de antecedência aproveitando este tempo para interiorizar uma vez mais alguns pontos importantes, entre os quais:

-Manter-se calmo e tranquilo partindo do princípio que tem um domínio da sua temática superior a qualquer outra pessoa que esteja presente na sala das provas
-Manter presente no pensamento que o facto de ter chegado aqui significa que o seu trabalho já foi preliminarmente avaliado e considerado adequado para uma defesa pública
– Dar o seu melhor durante a defesa pois a sua postura e a sua presença tem um peso significativo na sua nota final
-Estar perante um júri constituído pelo Reitor que preside, ou por quem dele receba delegação para esse fim, por um mínimo de três vogais doutorados e pelo seu orientador.

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Alfredo traz igualmente no seu pensamento alguns conselhos oferecidos pelo seu mentor e orientador Stanley J. Tambiah:

-Não ficar na defensiva
-Não apresentar desculpas
-Não culpar o seu orientador por algo que não corra bem
-Não tentar responder a uma pergunta que não tenha percebido bem
-Evitar derivar para fora do âmbito da dissertação
-Se forem propostas algumas alterações ou correções, aceitar isso normalmente e agradecer a contribuição
-Estabelecer contacto visual com o seu arguente e com os restantes membros do
júri.

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Ao chegar junto deste grandioso e histórico edifício, um último pensamento o acompanha:
Vamos a isto, Alfredo! Que o Grande Zimbabwe esteja contigo!
Chegada a sua hora e ao entrar nesta sala de aspeto algo sinistro onde provavelmente o seu avô Donald entrara um dia, Alfredo cumprimenta os membros do júri apresentando-se aos membros que não conhece.
Esta defesa irá começar uma vez que o Presidente cumprimente os restantes elementos do júri, o candidato e a assistência, explicando o desenrolar do processo de defesa assim como os tempos atribuídos a cada um.

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No final dos 50 minutos mais longos da sua vida, onde este candidato puxou dos conhecimentos adquiridos nesta prestigiada instituição ao longo dos últimos anos, Alfredo sente que a sua exposição captou o interesse de todos, apesar de algumas questões pertinentes colocadas pelo júri às quais sente ter respondido com a maior segurança.
É assim chegado o momento do Presidente do júri agradecer ao arguente pela sua prestação, dando uns minutos ao orientador e restantes membros do júri para fazerem algumas considerações.
É agora tempo do candidato e assistência se retirarem da sala dando espaço ao júri que discutirá a prestação do candidato durante a prova, o valor da sua dissertação, conferindo-lhe a classificação de “Recusado” ou “Aprovado” e atribuindo-lhe uma nota quantitativa que culminará na elaboração de uma ata.
Agora nas alas exteriores deste emblemático edifício, este jovem acompanhado de alguns colegas aguarda em suspensão a fase que se segue. O seu plebiscito.
Momento vivido em pleno pelo nosso candidato, em que o sangue chega a grande velocidade a cada vaso e alvéolo do seu corpo movido por uma notória expectativa.
Ao fim de 30 longos minutos decorridos nesta ação à porta fechada, é com imensa alegria que Alfredo vê finalmente chegado o resultado da sua exposição anunciado pelo seu orientador.
“Aprovado” com distinção tendo-lhe sido atribuída uma nota de 85%.
A alegria invade Alfredo neste momento único da sua vida. No mais profundo do seu sentir paira uma frase. “Granpa…I did it!”

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Passados os momentos de grande euforia junto dos colegas e professores ali presentes, é tempo de correr para o telefone para anunciar esta vitória aos seus em Moçambique, Austrália e restante família em Lisboa. A emoção é naturalmente grande.
De seguida, Alfredo dedica um tempo especial para um contacto telefónico com Susana que grita de alegria com a notícia.
-Alfredo!….yupiiii!…eu sabia que tu ias ultrapassar este desafio. Como queria estar aí para te abraçar, meu querido!
YES!…exclama o nosso jovem sem caber em si de contente.
-E agora, meu herói? O que vai acontecer por aí?…o que pensas fazer?
-Meu amor!…responde Alfredo entusiasmado. Agora vai ser tempo de celebrar esta vitória com colegas e amigos e descansar alguns dias. Estive a falar nas últimas semanas com o meu mentor Stanley J. Tambiah a propósito desta apresentação. Ele acha que uma vez vencida esta etapa e enquanto a matéria está fresca na minha memória, que eu devo publicar a minha apresentação numa revista académica da especialidade.
-Uau! Responde Susana entusiasmada. Acho a ideia excelente.
-Ele até me propôs fazer um artigo em co-autoria para apresentação numa conferência que vai ter lugar em Londres dentro de um mês.
-E tu que pensas disto?
Empolgado Alfredo responde:
-Minha querida! Tenho a noção de que o diploma que vou obter em Cambridge, é fruto de experiência e conhecimentos adquiridos numa universidade de referência mundial e que isto representa uma mais valia na minha vida. Acho que vou aproveitar estas experiências.
-E o que queres fazer a seguir à conferência?….vens a Lisboa dar um beijo a esta tua admiradora?
-Por mim ia hoje, Susana!…sabes disso!…mas vamos por fases. Agora vou abraçar estes novos desafios por aqui e assim que possa vou a Portugal celebrar contigo.
-Boa, querido!…eu também devo concluir o meu curso dentro de 3 meses. Vamos dar tempo ao tempo e fazer a nossa grande festa quando tudo isto acabar.
-Combinado, Susana…beijo grande e todo o meu amor para ti. Em breve ligo-te novamente e sempre que queiras falar comigo podes ligar para aquele número aqui do Campus.
-Valeu, meu querido!…parabéns mais uma vez!…te amo!

Nesta mesma noite o espírito de festa invadiu o Pickerel, um dos pubs mais antigos de Cambridge situado na pitoresca Madalene Street.
Há que festejar a graduação de Alfredo e mais dois colegas finalistas. Entre dezenas de participantes (homens e mulheres) vestidos com os trajes tradicionais da Cambridge University…o ambiente está ao rubro.
O orgulho deste famoso restaurante é um menu repleto de grandes clássicos dos pubs britânicos, incluindo pratos emblemáticos como o peixe escalado com batatas fritas e legumes, os famosos pies e outros pratos de carne bem suculentos. No sector bebidas este grupo regala-se com uma grande variedade de cervejas e uma extensa carta de vinhos.

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Na gama de cervejas de barril estão algumas das melhores cervejas britânicas a circular com grande entusiasmo na mesa deste grupo que inclui umas três dezenas de colegas e amigos.
Tudo terminou já bastante tarde quando Alfredo, na companhia de mais três colegas, lá conseguiram chegar ao Campus com o centro de gravidade significativamente desviado.

Nas semanas seguintes, no Campus universitário, Alfredo dedica os primeiros dias ao descanso do guerreiro, tendo no espírito preparar a matéria para a publicação na tal revista da especialidade e a co-autoria de um tema para apresentação da conferência em Londres. A sua motivação é grande!

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Foi um mês de grande atividade para o jovem antropólogo recém formado. A preparação do artigo para a revista foi aceite sendo publicada numa das próximas edições. Agora trata-se da elaboração do tema para a conferência de Londres em parceria com o seu estimado orientador de curso.
A conferência correu muito bem e os três dias passados nesta capital britânica ficarão gravados na memória já tão rica deste jovem licenciado.
Mas no espírito entusiasmado de Alfredo vive um outro tema ao qual quer voltar a dedicar a devida atenção. O seu prémio conquistado meses antes no concurso da National Geographic Magazine. A elaboração de uma reportagem fotográfica dedicada a uma temática diferente num destino à sua escolha com despesas pagas durante 15 dias.
No seu imaginário começam a surgir novas ideias e é no fogo desta iniciativa que Alfredo resolve partilhar o seu entusiasmo com Susana.
Ao telefone com a sua amada, Alfredo aborda a questão, surpreendendo a sua companheira.
-Oi, querida!
-Alfredo!….exclama Susana!…parabéns pelo sucesso em Londres. Já vi a tal revista em que apareceu a tua apresentação de fim de curso e uma outra mais recente onde falam da Conferência. Fiquei muito vaidosa com as fotos do meu namorado.
-Obrigado, querida!…correu tudo muito bem e as relações que fiz em Londres no meio de alguns conhecidos antropólogos foi excelente…mas diz-me…como vai a finalização da tua licenciatura?
-Ando aqui sem tempo para respirar…tenho a minha tese para defender dentro de 15 dias.
-Tu és inteligente e vais vingar, minha querida!…torço por ti!
-Obrigado, Alfredo!…e como vais fazer daqui em diante? Pergunta Susana com alguma expectativa.
-Minha querida!…escuta com atenção o que te vou dizer.
-Sim!…sou toda ouvidos.
-Lembras-te daquele concurso de fotografia que ganhei aqui para a National Geographic Magazine?
-Claro que me lembro. Há algo de novo?
-Estive a pensar em tudo isto e tenho uma proposta para te fazer. Uma forma de ambos celebrarmos o fim dos nossos cursos.
-Humm! Gosto da música. Diz-me tudo.
-Pois então os meus planos são estes:
Andei a vasculhar os escritos do meu avô e a inspirar-me quanto a um destino para a elaboração desta reportagem fotográfica. A ideia que me surgiu foi uma viagem ao Cairo no Egipto com uma incontornável visita à região de Gisé onde estão as famosas pirâmides. Tenho pistas excelentes deixadas pelo meu avô.
-Uau! Exclama Susana visivelmente entusiasmada com esta iniciativa de Alfredo.
-Mas tem mais!…os meus pais, como prémio de fim de curso querem pagar-me uma viagem a Moçambique onde já não vou há algum tempo. Acho que vou aproveitar e aceitar o convite.
-Então e com estas deslocações passas por Lisboa certo?
-Não, minha querida!…o que te quero propor vai um pouco mais longe.
-humm! Alfredo, tu és uma caixa de Pandora. Diz logo!
-Quero convidar-te para vires comigo ao Egipto. No regresso passamos uns dias em Lisboa antes de seguir para Moçambique. Tudo isto na companhia de nós dois…o que me dizes?
O silêncio do outro lado da linha é o espelho de uma provável incredibilidade.
Passado momentos e com uma voz cortada pela emoção, Susana exclama:
-Alfredo!…o que estás a dizer é verdade?…todo esse programa para fazer contigo. Nem acredito no que estou a ouvir!
-Pois é para acreditar, bonitona!
-E como vamos encontrar os meios para fazer tudo isso, querido?
Entusiasmado com a reação de Susana, o jovem antropólogo prossegue.
-Escuta bem! Este programa comporta ao todo uma viagem de uns 40 ou 45 dias. 15 passados no Egipto, uma semana em Lisboa e mais duas semanas em Moçambique. Eu tenho a viagem paga para o Egipto e a viagem a Moçambique é oferecida pelos meus pais. Com um esforço extra vamos fazer umas contas e vens comigo fazer esta viagem. Estadias no Cairo, Lisboa e Moçambique não são problema. Resta encontrarmos uma verba para as passagens de avião e os nossos passeios localmente. O que dizes!
-O que digo será pouco para mostrar o que sinto!…nem sei o que dizer, meu amor!….estou super contente e nada mais me daria tanto prazer que cumprir este sonho contigo.
Visivelmente satisfeito com a resposta de Susana, Alfredo adianta.
-Isto é o nosso prémio querida! Vou estudar melhor esta possibilidade e as melhores datas para fazer esta nossa viagem. Quanto aos custos tenho cá uma ideia que nos abrirá portas para tornar este sonho realidade.
-Alfredo!….tu és um ser humano à parte sabias? Quero muito estar contigo e dar a volta ao mundo na companhia tão especial do meu antropólogo preferido.
-Perfeito, querida. Disto falaremos mais adiante. Beijo grande!

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Alfredo recostado num banco do jardim do Campus, sente que o seu tempo nesta cidade lendária está a chegar brevemente ao fim. Uma epopeia que viverá por muitos e longos anos na sua memória e onde cumpriu um desígnio superior da sua existência. Honrar o avô Donald com esta sua formação académica.
E esta tarde o sol tímido da velha Inglaterra deita-se num horizonte nublado como que embalado no pensamento contemplativo de Alfredo.

Tudo isto valeu a pena…

Parte II – Aventura no Nilo – Ao encontro do Deus Sobek

Ao encontro do Deus Sobek

Londres, Junho de 1973

Algum tempo decorreu na vida destes dois jovens recém formados, merecidamente brindados pelas entregas dos diplomas de fim de curso numa cerimónia muito típica das instituições universitárias.
É assim chegado o tempo de celebrar a dois estas vitórias de uma forma mais deslumbrante.
Alfredo, convicto das suas aspirações para uma primeira experiência como antropólogo e não perdendo de vista a sua paixão pela fotografia, decidira por em prática um plano audacioso.
Como já anunciara a Susana ao telefone, este plano consta da realização em terras do Egipto da tal reportagem para a National Geographic Magazine, fruto do concurso de fotografia conquistado meses antes.
Para melhor estruturar esta aventura e convidando a sua namorada para o acompanhar, o jovem antropólogo começou por estudar de forma extensiva os escritos do seu avô Donald relativos às expedições realizadas no Egipto em 1925.
Nesta procura e deveras motivado pelos insólitos e alucinantes relatos do seu parente, Alfredo começa a desenhar um itinerário, consultando em paralelo uma quantidade considerável de obras disponíveis nas bibliotecas de Cambridge e em alguns museus que visitou em duas deslocações a Londres, sabendo que a Grã Bretanha como país colonizador possui um considerável acervo deste país lendário que é o Egipto.
Embalado na febre desta aventura, este empolgado jovem já tem umas ideias bem definidas quanto à sustentabilidade financeira desta viagem.
Este foi de resto o tema principal da conversa recente com Susana que se encontra em Lisboa, expectante por ouvir as últimas do seu amado.
-Susana!…oi, linda!….sou eu novamente!….como vais?
-Alfredo!…tenho estado a olhar para este telefone dia e noite à espera das últimas!…estou ótima!….conta-me tudo.
-Já tenho o plano desta nossa viagem bem traçado e as notícias quanto ao financiamento são boas.
-Jura!….uau!…o que é que isso quer dizer?
-Bem…falei com o meus pais para Moçambique e pedi-lhes uma ajuda para realizar este sonho. O que me dizem é que este é o prémio que me vão dar por ter chegado ao fim desta minha formação em Cambridge. Vão financiar esta viagem ao Egipto e querem estender esta ajuda com uma ida e volta a Moçambique. Com a ajuda financeira da National Geographic tudo se compõe.
-Humm!…excelente! Exclama Susana cheia de vontade de completar as notícias. Deixa-me contar-te algumas novidades do meu lado.
-Ah…boa!….diz-me tudo!…responde Alfredo muito curioso.
-Com a conclusão do meu curso de Sociologia os meus pais também tiveram uma atitude positiva comigo. Quando lhes contei sobre a minha vontade de te acompanhar nesta viagem ao Egipto para realização desta reportagem seguindo-se uma volta em Moçambique, tive a alegria de saber que a minhas passagens aéreas e mais algum dinheiro para percorrer estes destinos estão garantidas.
-Excelente, Susana!….grita Alfredo entusiasmado.
-Mas conta-me mais sobre estes itinerários.
-Ora bem!…depois de bem pesquisadas as melhores datas, preços de avião e estadias no Egipto, a minha ideia é vires ter comigo a Londres de onde partiremos tendo como destino Alexandria. Aqui pretendo encontrar um antigo colaborador do meu avô que vive por lá. Um egípcio que o acompanhou nas expedições enquanto jovem com 17 anos….fabuloso, não achas?
-Estou de boca aberta!…E como soubeste da existência dele?
-Encontrei várias referências dele nos escritos do meu avô e aproveitei a viagem de um amigo inglês a Alexandria há duas semanas no sentido de indagar localmente sobre ele. A resposta foi muito interessante.
– Sim!…e então?
-Este homem ainda é vivo!…tem hoje 60 anos e é um importante colaborador do Museu de Arqueologia de Alexandria. Já trocámos duas cartas e diz-me que é com muito prazer que nos recebe no Egipto, dando-nos o apoio local necessário para a realização desta aventura.
-Impressionante, querido!…estou arrepiada com tudo isto. E diz-me!….qual é a ideia, uma vez chegados ao Egipto?
-Vamos de avião para Alexandria onde a ideia é fretar um barco localmente para subir o rio Nilo, observar todas as maravilhas do antigo Egipto e ir até ao lago Nasser, no sul do país. Penso que os ingredientes estão reunidos para uma boa reportagem. Queres saber qual é o tema desta expedição?
-Claro!…diz-me tudo!
-Os crocodilos do Nilo e a sua influência na história do império egípcio!
-Espera lá!….exclama Susana com a voz cortada. Estou a ouvir bem?
-Sim minha querida. Mais tarde te darei uma visão de alguns escritos do meu avô e do que andei a ler em alguns livros. A minha reportagem vai cobrir um tema fascinante. Sobek…O Deus crocodilo do antigo Egipto.
-Tu estás sempre a surpreender-me!…depois me dirás mais sobre isso. E o que faremos em seguida?
Em seguida regressamos num pequeno avião até ao Cairo onde passaremos mais dois ou tres dias antes de voltar para Londres.
-Uau!…nem acredito!…e a seguir qual é o plano?…desculpa tanta pergunta!….estou super empolgada com tudo isto!
-Uma vez em Londres ficaremos em casa de um amigo meu o tempo suficiente para organizar o conteúdo da reportagem a fim de depositá-la na sede da National Geographic.
-Estou a adorar, Alfredo. E quanto aos outros circuitos na África austral?…pergunta Susana visivelmente excitada.
-Penso que passaremos uma semana em Lisboa onde iremos celebrar a nossa graduação junto das nossas famílias. Dali teremos o nosso voo até Moçambique onde passaremos uma dezena de dias. Ainda vou acertar as datas. Que te parece?
-Loucura em estado puro, meu herói!…por mim vamos amanhã!…essa dos crocodilos parece-me uma ideia totalmente maluca mas contigo já me vou habituando.
-Fazes bem querida!…Vou afinar melhor o nosso programa e de tudo isto falaremos durante estes próximos dias, ok?
As you say, Sir Alfred!…beijo grande, meu antropólogo preferido!…fico a aguardar mais notícias e entretanto vou preparando tudo do meu lado.
-Combinado, Susana!…estou seguro que vai ser uma experiência inesquecível…até breve…beijo grande!…love you!
-Mil beijos…love you too!

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3 semanas mais tarde

Conforme o previsto, Susana voa até Londres ao encontro de Alfredo. Um reencontro naturalmente vivido com enorme emoção.
A partida no dia seguinte é a bordo de um avião da British Airways, fundada no ano anterior fruto da fusão da British Overseas Airways Corporation (BOAC) e da British European Airways (BEA).
Nesta viagem até ao continente africano, Alfredo aproveita para transmitir à sua companheira alguns textos recolhidos dos escritos do seu avô Donald.
Entusiasmado com o objetivo desta expedição, Alfredo informa:
Alexandria – Onde começa a nossa reportagem e onde o Nilo se dilui no Mediterrâneo.
Uma cidade com o nome do conquistador grego (Alexandre o grande), que a fundou em 332 aC. A cidade onde Cleópatra viveu e reinou até o Egipto cair no poder de Roma.
Situa-se no cruzamento de todo o mundo, até mesmo das nações mais remotas, como se fosse um mercado de prestígio mundial concentrado numa só cidade, um mercado que reúne num só lugar todos os tipos de homens vindos das origens mais diversas.

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Um encontro dos homens com as águas que gerou uma convergência de mentes e ideias. Alexandre, o Grande, fundou ali uma biblioteca que se tornaria o maior repositório de conhecimento humano, depositando num só lugar mais de meio milhão de volumes. Enquanto a antiga biblioteca foi destruída no período romano, uma nova biblioteca de arquitetura singular foi inaugurada mais recentemente, comportando ainda mais conhecimento do que antes.

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Foi nesta época que se desenvolveram alguns dos maiores avanços do conhecimento humano – Desde a geometria de Euclides, à determinação de que a Terra gira em torno do Sol, entre outras.
Foi igualmente em Alexandria que os gregos encontraram o réptil que deram o nome de Kroko-Dilos, uma criatura voraz e escamosa de grande porte que se esconde entre as pedras nas águas lendárias do Nilo.
Espantada com este relato, Susana exclama:
-Super interessante!…diz mais.
-Esta cidade de conhecimento, projectou o Império Egípcio para o mundo, tornando-se a porta de entrada para a visita das maravilhas do antigo Egipto.
O rio Nilo foi por excelência a grande via de comunicação de tão grandioso império permitindo a visita dos monumentos que floresceram nas suas margens muito antes de Alexandria. Um período onde os crocodilos dominaram o rio sendo adorados como deuses.
Uma das belezas do Nilo é a facilidade de deslocação de duas vias, único entre os grandes rios do mundo. Enquanto o rio derrama as suas águas a jusante no Mediterrâneo, os barcos podem navegar para montante com a ajuda dos ventos do norte.
-Este teu avô era realmente um número. Interrompe Susana extasiada com as perspectivas desta aventura.
Minha querida. Vamos visitar uma das civilizações mais magníficas da humanidade que durante séculos se expandiu para mais tarde desaparecer. Aqui também evoluiu um dos animais mais antigos da natureza. O crocodilo do Nilo.
Esta é o tema da nossa reportagem, Susana. Um percurso que nos levará até ao sul do país, onde iremos desvendar os mistérios do Nilo em torno destes seres, da sua história, dos seus mitos e da influência cultural com que marcaram este império intemporal.
Para além desta percepção, o principal objectivo é ter um vislumbre desta legendária criatura em estado selvagem e captar ao longo do caminho imagens fotográficas deste Deus poderoso que inspirou durante milhares de anos o grande Egipto.
-Uff!….essa é a parte que me oferece uma grande inquietação. Tu queres fotografar esses bichos ao vivo e a cores?
-Exacto minha querida!…vamos ser aconselhados por um antigo pisteiro do meu avô e acompanhados de um guia local que conhece o Nilo como ninguém.
-Bem!…que tu és um pouco louco já eu sei!….só espero podermos sair desta aventura inteiros.
Dont worry, baby!…vai ser uma viagem de sonho!…mas quero pedir-te algo!
-Sim…e o que é?
-Muito me agradaria que tomasses a teu cargo a parte escrita, com a recolha de apontamentos do que vamos vivendo ao longo da viagem. A minha socióloga preferida escreve muito bem e sabe organizar uma escrita de forma brilhante.

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-Humm!…então é para isso que me trazes, safado? Repica Susana com um olhar provocador. Perante o olhar algo espantado de Alfredo, continua sorrindo como um sol…just kidding, Alf!..claro que aceito o desafio. Conta comigo.

Uma vez em solo egípcio e concluído um circuito sinuoso de taxi nesta cidade absolutamente única no mundo, os nossos jovens aventureiros chegam ao famoso Museu de Arqueologia onde, à chegada, são conduzidos ao personagem com quem marcaram este encontro.
O local é carregado de história e entre os magníficos objetos expostos num ambiente de cortar o fôlego, o jovem casal é conduzido ao esperado encontro.
Trata-se do Sr. Khalili Bengay. Um homem de média estatura, magro e impecavelmente vestido, com a tez morena muito comum neste povo antigo . Este cavalheiro desempenha há mais de trinta anos as funções de arquivista e investigador neste prestigiado museu.
Este momento é marcado por uma emoção especial, tratando-se de cruzar novamente um Mckenzie passados 48 anos. Uma conversa num inglês perfeito é agora objeto de um natural entusiasmo de ambas as partes.
Nesta primeira troca de impressões, o Sr. Khalili informa sobre algumas disposições que tomou a liberdade de considerar, estando incluída a contratação da tal embarcação pedida pelo jovem antropólogo e algumas disposições logísticas a tomar para a adequada realização desta expedição.

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É nesta simpática troca de emoções e informações de grande utilidade que os nossos protagonistas confirmam que os próximos 10 dias serão dedicados à subida do rio Nilo. Com passagem obrigatória pelos pontos de grande interesse, sendo o objetivo final desta aventura chegar ao lago Nasser onde foi construída a barragem de Assuão.
Conforme o desejo de Alfredo, foi igualmente reservada uma viagem de regresso ao Cairo num avião bimotor.
Agradecendo a especial atenção, Alfredo informa que o regresso a Londres se fará a partir do Cairo onde pensam passar os últimos três dias desta aventura no Egipto.
Para alegria e conforto do casal, este interlocutor informa que irá acompanhá-los nesta viagem, sendo previsto o seu regresso a Alexandria uma vez concluída esta passagem pelo Cairo.
Com a devida autorização deste ilustre interlocutor, Alfredo pode aqui captar as primeiras imagens desta reportagem sob condição de não usar flash.

Esta primeira noite foi premiada com um soberbo jantar oferecido pelo Sr. Khalili num conhecido restaurante de Alexandria onde foi apresentada aos visitantes uma amostra dos saberes e sabores da exótica gastronomia egípcia…uma verdadeira delícia.
Uma noite num hotel local igualmente reservado por este simpático anfitrião, foi marcada por uma atualização das emoções vividas nesta primeiras horas em solo egípcio e, muito naturalmente, condimentado pela troca de emoções amorosas na qual estes jovens excitados por esta aventura deram asas ao desejo e à fusão dos seus corpos ávidos numa atmosfera de mil e uma noites…para mais tarde entrar finalmente no merecido limbo.

Novo dia rompe através daquela neblina própria de uma cidade à beira mar.
Tempo de conhecer o guia que irá conduzir esta viagem fluvial. Um egípcio de pele escura com um porte magro e seco de nome Ikram que fala um inglês rudimentar. O barco movido pelo vento localmente denominado de Felucca causou ao grupo uma boa impressão!
Segundo Khalili, este homem é um profundo conhecedor do Nilo, um rio lendário ao qual dedicou a sua vida desde tenra idade.
-Isto promete. Pensou Alfredo.
Tempo agora de preparar tudo o que implica esta viagem a bordo nesta Felucca de maior porte habitualmente usada para passeios turísticos que tem aposentos para 6 pessoas acomodadas de forma algo promiscua.
-É o que se pode ter…pensaram estes jovens. Mas o importante é viver em pleno esta aventura…vamos a isto!

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Uma vez a navegar sobre as águas deste delta, Khalili vai descrevendo algumas passagens desta lendária região:
-O Nilo tem a sua nascente às portas do deserto e segue um caminho tranquilo até ao mar Mediterrâneo através do coração do caótico Cairo.
A antiga capital denominada de Memphis ficava sobre o que é hoje os arredores do Cairo. Fundada por volta de 3.100 aC, Memphis foi a lendária cidade de Menes, o Rei que promoveu a união do Alto e Baixo Egipto.
O Cairo surgiu mais tarde, no que era então a margem do delta do Nilo. Hoje é uma das cidades mais dinâmicas e de mais rápido crescimento do mundo. O barulho das buzinas do Cairo ecoa e a frustração é grande ao tentar circular nesta cidade na imensa agitação no meio de um tráfego intenso.
Há momentos no Cairo moderno em que se pode realmente sentir um choque cultural.
Esta cidade pode inundar o viajante, afectando-lhe os olhos, narinas e os ouvidos. A atmosfera é poeirenta, húmida e rica em aromas que se debatem no nariz com a poluição ambiental, o fumo de tabaco turco, o aroma de diesel e o cheiro de perfumes exóticos.
Como que irrompendo no seio de tantas sensações, surge a visão sublime das pirâmides que espreitam através da poluição atmosférica….algo de surpreendente!
Nesta altura, Susana, de caneta em riste, não perde oportunidade de ir anotando tão interessantes informações enquanto o nosso fotógrafo se vai deleitando com as paisagens que só esta região do mundo oferece.
Após uma passagem fluvial pela agitada cidade do Cairo, segue-se a visita de Gisé, e Vale dos Reis onde começa esta aventura em solo egípcio.
Tempo de acostar perto de Luxor, na margem oeste do Nilo, para uma visita algo rápida a este lendário vale onde se encontram as pirâmides e os mais famosos túmulos egípcios.
No percurso que terão agora que realizar a pé, Khalili, do alto do seu profundo conhecimento, vai informando:
-Os antigos egípcios construíram enormes monumentos públicos aos seus faraós. Mas muitos outros se dedicaram à preservação dos seus tesouros familiares criando mausoléus subterrâneos ocultos de qualquer olhar.
Durante o Novo Reino do Egito (1075 -1539 AC) este vale tornou-se um cemitério real de faraós como Tutankhamon, Seti I e Ramsés II, bem como rainhas, sacerdotes e outras elites da 18ª, 19ª e 20ª dinastias.
A mumificação foi usada para preservar o corpo, de modo que a alma do falecido fosse capaz de reanimar conduzindo-o a uma vida após a morte.
-E a construção destes túmulos seguiam procedimentos específicos? Pergunta Alfredo curioso.
-Sim…muito naturalmente. Responde Khalili continuando.
Os túmulos subterrâneos eram em regra bem abastecidos com todos os bens materiais suscetíveis de serem necessários no próximo mundo. Eles incluíram móveis, roupas (mesmo roupas íntimas), joias e por vezes aprovisionados com bastante comida e bebida, incluindo vinho e cerveja, para um banquete real no outro mundo. Nestes sarcófago eram igualmente introduzidos objetos sagrados destinados a ajudar o falecido a alcançar a vida eterna. Em alguns destes túmulos foram encontrados animais de estimação, tais como cães de caça, babuínos, gazelas, etc.
-E quanto ao assalto e profanação destes túmulos? Pergunta desta vez Susana
-Ladrões de túmulos, caçadores de tesouros e arqueólogos escavaram o Vale dos Reis durante séculos. No entanto, este vale continua a produzir surpresas. Muitos pensaram que os 62 túmulos descobertos até 1922 representavam tudo o que seria encontrado no vale, até que um investigador inglês de nome Howard Carter descobriu neste mesmo ano o local de descanso de um rei menino chamado Tutancamon.
-Espantosa experiência, não? Pergunta Alfredo visivelmente deslumbrado com este relato.
No entusiasmo da conversa, Khalili prossegue:
-Dado que não teremos tempo para uma visita extensiva do vale, quero levá-los a ver de perto este local especial. O famoso túmulo do Rei Tutancamon.
-Excelente ideia!….repicam os nossos aventureiros numa só voz.
Ao chegarem a este lendário local, Khalil diz aos seus acompanhantes de olhos arregalados:
-Foi aqui que Howard Carter procurou durante 7 anos o túmulo do rei Tut e foi a partir desta sua descoberta que o mundo se apaixonou pela egiptologia.
Enquanto se aproximam da escadaria para o abismo, Alfredo e Susana cruzam um olhar de deslumbre, com dificuldade em acreditar que estão a viver esta realidade! O local é de puro mistério onde o fascínio e a emoção são naturalmente grandes.
À entrada o sinal acima das suas cabeças diz em inglês e árabe: O Túmulo do Rei Tutancamon mostrando logo que entram imagens do momento em que Carter encontra este túmulo com a emoção espelhada no rosto através de velhas fotos em preto e branco.

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Em silêncio e com a excitação do momento, após uma breve conversa de Khalili com os responsáveis deste local, o grupo dá os primeiros passos para dentro do túnel, estando presente uma réstia de luz do sol permitindo-lhes reviver a exultação com que Carter teria vivido esta descoberta meio século atrás!
Alfredo, no seu deslumbrado silêncio conseguiu imaginar os sons do passado ecoando pelo túnel. Ouvindo a voz animada deste explorador com seu sotaque britânico, acompanhado do medo profundo dos trabalhadores egípcios nervosos e atordoados pela ideia de estarem a usurpar algo de sagrado, podendo ser fulminados a qualquer instante pela maldição do faraó…vitimas de sacrilégio.
Finalmente as escadas param e estão agora sobre o piso original. Altura de entrar com a respiração cortada na câmara funerária. Lá estava ele, o próprio Tut, o faraó mais conhecido no mundo pacifica e magnificamente deitado diante os olhos arregalados de Alfredo e Susana. Assim encontraram o jovem monarca apenas de pele e osso que está completamente preto. Seu corpo está inteiro e coberto com um pano, exceto na cabeça e nos pés. Os seus olhos tinham caído, mas os dentes ainda estão intactos. O próprio rei, eternamente conservado pelo processo de mumificação desenvolvido pela crença de um império tão singular.
O silêncio é tumular. Um momento em que estes jovens respiram fundo percebem que o ar é efetivamente pesado. Com a espessura do pó e da imensa carga cultural e histórica vivida naquele local, não é fácil respirar como no exterior.
Minutos mais tarde e a um sinal de Khalili, o grupo desloca-se para a sala onde a descoberta original teria sido feita. O sarcófago dourado ali estava, sorrindo para nós, como se tivesse estado à espera da nossa visita durante milhares de anos. As paredes estão decoradas com pinturas da vida de Tut representando as oferendas aos deuses. Ele tinha apenas 18 anos quando morreu, nem sequer teria idade suficiente para absorver os feitos e erros que ele próprio iria vivenciar ao tornar-se um grande rei.

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Momento de grande emoção em que Khalili aproveita para informar em voz baixa.
-Aqui vocês conseguirão certamente imaginar o exato momento em que os trabalhadores de Howard Carter arrombaram o sarcófago, com os braços a tremer, à luz de uma vela iluminando parcamente as paredes carregadas de pinturas e hieroglíficas. Devagar, muito devagar, eles ergueram o caixão e diante deles surge o que não poderia ser comparado a qualquer outro tesouro.
Quantas épocas e gerações se passaram. Assim como muitas batalhas e guerras se travaram acima da cabeça deste magnífico imperador enquanto ele se manteve aqui de forma pacífica…sem perturbações.
Alfredo e Susana silenciados por tão extraordinária experiência murmuram: -Absolutamente transcendente!
Vivida esta extraordinária experiência é agora tempo de nos despedirmos de Tut.
Quando voltam até à escada e regressando à luz do dia, estes jovens voltam-se deitando um último olhar para o túmulo escuro. Que experiência fantástica!
Em seguida, regressando à realidade, é tempo de atravessar novamente aquele pedaço de deserto poeirento em direção ao Nilo que os aguarda.
-Querido!….estamos seguramente mais ricos, diz Susana extasiada.
Ao que Alfredo responde com um terno abraço e um beijo que reflete as mais profundas emoções vividas neste lugar.

Novo embarque para subida do Nilo pela mão hábil de Ikram.
Numa breve troca em língua árabe com Khalil, este informa que num ponto mais acima farão uma paragem para passar a noite.
Uma paragem num ancoradouro utilizado por este tipo de embarcações onde o grupo pode trocar as impressões do dia e absorver um pouco mais da cultura milenar deste país enquanto se deleitam com a refeição que Ikram preparara.
Entusiasmado com a conversa a bordo, Alfredo pergunta a Khalili qual será o programa do dia seguinte.
-Pausadamente como sempre, este ilustre museólogo informa:
-Os próximos dois a três dias iremos dedica-los à visualização dos crocodilos presentes nos habitats naturais do Nilo e seus afluentes, sendo o ponto alto da nossa viagem a visita de um templo dedicado ao Deus Sobek (o Deus crocodilo) a uns 150 km rio acima numa zona agrícola denominada de Kom Ombo na margem oriental .
Nas regiões que vamos atravessar a partir daqui vamos ter oportunidade de visualizar os crocodilos que saem do mangal ao fim da tarde para caçar.
Entusiasmado com a ideia e perante o olhar visivelmente apreensivo de Susana, Alfredo indaga:
-Mas por favor Khalili…diga-nos mais sobre estes seres lendários que possam completar as passagens escritas pelo meu avô em 1925.
-Com certeza, responde Khalili demonstrando o seu vasto conhecimento da matéria. Algo que farei com todo o prazer quando retomarmos a nossa rota pela manhã. Agora sugiro um merecido descanso pois os dias aqui começam com a chegada da luz do dia.

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Novo dia dedicado aos esperados encontros que impulsionaram o nosso jovem antropólogo nesta incursão ao norte de África.
Após tomado o café matinal e de novo a navegar rio acima, é tempo de retomar a interessante conversa da noite anterior.
Khalili prossegue o seu relato tendo ao seu lado Susana com o seu diário de bordo que escuta atentamente o nosso museólogo.
Sopra uma mera brisa e a navegação rio acima faz-se de forma tranquila.
Khalili adianta:
-A propósito dos crocodilos do Nilo, é relevante dizer o seguinte:
Na década de 1950, grandes caçadores acorreram ao Egito para caçar crocodilos, dizimando grande parte da população destes extraordinários seres .
Anos mais tarde, consequência destas ações, a preocupação com a preservação do rio Nilo determinou que a caça de crocodilos passaria a ser ilegal.
Mas talvez tenha vindo demasiado tarde!..e prossegue.
Eles desapareceram há cerca de cem anos atrás, mas estudos indicam que o seu número têm aumentado em algumas regiões, nomeadamente no Lago Nasser originado pela construção da Barragem de Assuão recentemente concluída em 1970.
-Existe na sua opinião um benefício económico na recuperação dos crocodilos do Nilo? Pergunta Alfredo ao seu interlocutor.
-Certamente. Se o visitante tiver alguma informação sobre as áreas de reprodução ou se forem criados locais adequados para os ver no seu habitat natural, as autoridades acreditam que as pessoas vão gastar um certo número de dias para dedicar a este tipo de aventura. Consequentemente esta será uma mais -valia para o desenvolvimento turístico da região.
Há quem afirme que não há uma grande esperança para o regresso dos crocodilos em grande número ao Egipto. É claro que eles não poderão voltar para regiões densamente povoadas como o Cairo. Em contrapartida, ali podem encontrar-se múltiplas representações de Sobek (o Deus crocodilo) e a mais extensa colecção de artefactos egípcios no mundo.

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Para os antigos, o crocodilo abrange tanto o bem como o mal. Muitas vezes retratado como um homem com uma cabeça de crocodilo, Sobek era conhecido por ter o poder de arrebatar as vidas humanas à distância e um potencial para promover o seu renascimento. Os crocodilos do Nilo também desempenharam um papel importante no Livro dos Mortos, uma espécie de manual para a vida após a morte. Diz esta lenda que no caminho para o céu, o falecido passa por uma série de portões guardados por crocodilos.
Determinadas questões lhe eram então colocadas A resposta correta para um enigma poderia abrir o último portão e conduzir o falecido no caminho para a vida após a morte.
Neste Livro dos Mortos, o Deus Crocodilo diz: “Eu sou Sobek, uma besta voraz. Sou o Senhor, a quem dádivas e prostrações são feitas “
A religião do antigo Egipto girava em torno da crença de que a vida continua após a morte. Para viver em vida após a morte, o falecido necessitava manter seu corpo preservado. Em consequência desta crença a mumificação tornou-se uma ciência. Animais mumificados, como crocodilos, eram colocados em túmulos para proteger os mortos e trazer poder e fertilidade para o futuro.
Sendo este um dos grandes mistérios do Egipto e razão pela qual os antigos construíram as pirâmides gigantes e todos estes grandes túmulos.
A maior e mais antiga das pirâmides de Gizé é Cheops, tendo-se mantido como a estrutura mais alta do mundo até Gustave Eiffel construir a sua torre em Paris em 1889.
Bem, um outro facto pode igualmente estar relacionado com os crocodilos.
-E qual será? Pergunta Susana.
-Durante as inundações anuais, o Nilo invade este vale trazendo solo fértil e um monte de crocodilos. Naquele tempo muitos dos egípcios relacionavam a presença dos crocodilos com o renascimento da vida, o que impulsionou a crença de uma vida após a morte. Acreditando nisto, eles construiram estes grandes monumentos enchendo-os com objetos preciosos e artigos de uso diário na esperança de que eles poderiam levá-los consigo para a vida após a morte.
Os inúmeros habitantes comidos pelos crocodilos durante as cheias acreditavam ter sido escolhidos para seguir a vida eterna.

O fim da tarde marca de forma empolgante o primeiro encontro com este ser lendário que muitos acreditam ser de origem pré-histórica.
Ikram, como profundo conhecedor destas águas, navega sobre alguns afluentes anunciando a aproximação aos locais onde se encontram habitualmente destes seres escamosos e vorazes.
O momento é vivido com verdadeira adrenalina estando Alfredo preparado para a captação das primeiras imagens. Susana não sabe como gerir estes momentos de terror que atravessam o seu espírito.
Em regra os crocodilos caçam dentro de água tendo apenas à superfície os olhos e o nariz.
Ikram explica que em função do afastamento dos olhos do animal se define o seu tamanho.
O primeiro destes contactos é feito uns minutos mais tarde quando Ikram anuncia que estão na zona de caça dos crocodilos e que daqui em diante irão avançara no maior silencio possível arreando as velas e utilizando um grande remo à retaguarda para a navegação.
A captação das melhores imagens são fruto de muita paciência e Ikram chama a atenção apontando na direção de estibordo para dois exemplares ali bem perto.
O momento é de grande expectativa e sendo agora visíveis dois pares de olhos à tona de água que, segundo a regra atrás referida, pertencem a animais com comprimentos entre 3 e 4 metros…emoções fortes tomam conta dos visitantes.
Com muita destreza e não perdendo qualquer oportunidade Alfredo vai fazendo algumas fotos não sem o sinal de Susana que lhe diz em voz baixa.
-Alfredo….promete-me que vais tomar todo o cuidado.
Dont worry, baby!….responde este entusiasmado fotógrafo com os olhos bem abertos.
Passados momentos e, sendo hábito dos crocodilos sentir a presença de estranhos no seu habitat, estes mergulham nas águas turvas surgindo à tona de água uns metros mais à frente num outro lugar inteiramente diferente. Um astucioso jogo de gato e rato.
A completar esta reportagem Ikram faz sinal para avançarem para um local mais adiante onde estes seres se reúnem em cima de alguns bancos de areia.
O resultado foi de grande sucesso. Ali estão uns quatro animais de grande porte que regalaram os presentes. É sem dúvida impressionante o tamanho destes seres vorazes com uma coloração bronze escura na parte superior, com manchas pretas na parte de trás numa cauda onde se concentra uma enorme força, um branco sujo no ventre e olhos de um verde azeitona tão fascinantes quanto ameaçadores.
De repente, um deles precipita-se para a água gerando um verdadeiro pânico a bordo.
A ideia que a tal besta de quase 5 metros estaria com uma clara intenção de atacar a embarcação e devorar os seus ocupantes é de imediato contrariada por Ikram que tranquiliza os restantes comunicando em árabe que aquele animal detectara dentro de água algo de interessante para caçar.

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Envolvido num turbilhão de emoções Alfredo teve a sorte de captar este movimento e o que vem a seguir. O debate desta besta que dá algumas voltas dentro de água saindo passado momentos com um enorme peixe na boca.
Este episódio tem como climax a disputa dos outros crocodilos na partilha desta presa desprevenida. Uma autêntica batalha de titãs. Momentos de total deleite para Alfredo que acaba de captar excelentes imagens a escassos metros do local onde se encontram e total terror para Susana cujo sangue corre gelado nas veias.

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Ao fim de alguns dias na capação de imagens furtivas ao longo do rio Nilo e seus afluentes e de uma perigosa vivência em contacto próximo com estas bestas, chegam finalmente à região denominada de Kom Ombo.
Para esclarecimento destes jovens embalados nesta excursão a um mundo tão singular é chegado o momento de Khalili fornecer mais algumas informações para o diário de Susana.
-O Templo de Kom Ombo foi construído há mais de dois mil anos no Egipto, na cidade do mesmo nome. É o único templo egípcio duplo, assim chamado por ser dedicado a duas divindades: um lado do templo é dedicado ao Deus crocodilo Sobek, deus da fertilidade e criador do mundo; o outro lado é dedicado ao Deus falcão Horus.

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Ao longo dos anos, o templo sofreu a acção das inundações do rio Nilo, de terremotos e da retirada de pedras e objectos arquitectónicos promovida por outros construtores para a execução de novos projectos.
Uma visita a este monumento é agora o ponto alto desta jornada.
Numa das câmaras escuras deste monumento antigo, os sinais da vida após a morte sob vigilância dos crocodilos são evidentes. Em alguns destes túmulos podem ver-se cenas da vida quotidiana de caça, colheita de frutos e danças que enchem as paredes.
É igualmente frequente ver um crocodilo numa batalha com um hipopótamo.
Tempo de Khalili adiantar:
-Os escritos antigos demonstram que o crocodilo não adorna simplesmente as paredes dos túmulos…ele guarda e acompanha o falecido na sua jornada.
A lenda do Deus crocodilo é muito rica e intensa no seu conteúdo.
Numa dos túmulos que pude visitar há uns anos atrás pode ver-se na entrada uma cena de um crocodilo e uma serpente cortando a perna de uma pessoa. Isso significa que eles querem dizer: “Se você entrar neste túmulo, a sua perna vai ser comida por um crocodilo.”
Neste mesmo túmulo um crocodilo foi mumificado por mais de 2.000 anos.
Dizem que este é o mais bonito crocodilo mumificado que se pode ver no Egipto. Foi mumificado seguindo o processo tradicional, abrindo o animal e secando as vísceras de forma natural … uma vez secas e desidratadas estas eram colocadas dentro da mumificação. De seguida eram cobertos de corpo inteiro com roupa de cama.
Os crocodilos eram mumificados, porque os deuses eram imortais e Sobek era um deles.

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Barragem de Assuão

Neste último dia de navegação e segundo indicações de Ikram o programa de viagem implica uma paragem a jusante da majestosa barragem, sendo a partir dali feito um circuito pedestre até à imensa albufeira do lado montante onde irão a bordo de uma embarcação mais pequena seguir o rastro de uma grande concentração de crocodilos.
Esta é a região onde reside a maior esperança do regresso de grande número de crocodilos ao Egipto aproximando esta espécie dos seus ascendentes que aqui proliferaram em tempos remotos.
Esta última fase da expedição é de pura adrenalina com a visita a locais onde estes seres se aquecem ao sol em grande numero apresentando-se em diferentes tamanhos.
Os adultos, que chegam a atingir entre 5 e 6 metros, podem atingir um peso de 300 a 600 kg, havendo relatos de os machos excepcionalmente grandes poderem atingir uma tonelada.
Alfredo, contrastando com Susana em total suspensão, está deliciado com as imagens que capta neste local face a estes grandes seres.
Consta que estes animais lendários se espalham actualmente a longo do restante rio Nilo até às portas do deserto.
A expedição já vai longa e é com a alma cheia de emoções e momentos vividos com adrenalina garantida que estes dois jovens passam uma última e preciosa noite à luz do Petromax na companhia de Khalili e Ikram. A conversa é naturalmente animada.

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No raiar de um novo dia deixando para trás uma embarcação tradicional que foi a sua casa ao longo dos últimos dias, é tempo destes jovens se despedirem de Ikram agradecendo a sua excelente prestação…oferecendo-lhe uma generosa gratificação.
Uma aventura que viverá seguramente nas memórias de uns e outros por muitos e longos anos.

 

Parte III – Uma aventura Faraónica

Uma aventura faraónica

Está uma bela manhã nesta região sul do país. A avaliar pela temperatura sentida a esta hora pode adivinhar-se mais uma jornada de intenso calor. O Egipto no seu melhor.
O ponto de repartida é nesta rudimentar pista de aviação utilizada para a construção da barragem de Assuão.
À espera deste grupo está um bimotor Beechcraft Duke de fabrico americano e respectivo piloto. O próximo destino é a capital do Egipto. Cidade do Cairo.

No momento da descolagem, Alfredo olha pela janela pensando para os seus botões.
-Que fabulosa passagem pelo Nilo!
Susana, com os olhos fixos no exterior e como que a adivinhar os pensamentos de Alfredo, diz ao seu companheiro de aventura:
-Hummm….Alf!…nunca esquecerei estas semanas no Egipto.
-Levamos aqui material para uma bela reportagem…não achas, Susana?
-Sem dúvida!…responde esta bonita jovem com um entusiasmo no olhar!…já vou aqui a magicar sobre a composição do artigo. A fonte é muito rica e eu fartei-me de alimentar as minhas notas…acho que o resultado vai ultrapassar as expectativas da Geographic.
-O mesmo digo eu com as imagens!…responde Alfredo roubando um terno beijo à sua amada.
-E o que achas que faremos nesta passagem pelo Cairo?
-Estive a trocar umas ideias com o Khalili a esse propósito ontem à noite. Penso que, depois de nos instalarmos num hotel que ele já reservou perto do centro, iremos conhecer melhor aquela metrópole, não deixando de visitar um pouco melhor o Vale dos Reis durante dois dias antes do nosso regresso a Londres na próxima 6ª feira, ao fim do dia. Ainda teremos oportunidade para uma passagem pelo Museu de Antiguidades egípcias que é, segundo ele, um pouco como a própria cidade do Cairo, atolado, caótico, mas cheio de maravilhas..
-Humm!…gosto da música, meu antropólogo.
-Mais umas notas para tomar, certo, minha socióloga?

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As primeiras impressões ao sair do aeroporto internacional do Cairo situado 22 km a nordeste da cidade e seguindo de taxi sobre o acesso principal de Salah Salem, são marcadas por um novo entusiasmo. Uma frutuosa conversa ao longo do caminho conduzida por Khalili que informa:
-O Egito é um dos países mais populosos de África e do Médio Oriente sendo o Cairo a 15ª cidade mais povoada do mundo. Estima-se que a população tem mais de 80 milhões, o que não seria um problema se as pessoas estivessem espalhadas por todo o país. Mas mais de metade da população egípcia vive nas áreas urbanas, do Cairo e Alexandria. Um quarto da população do país vive aqui no Cairo, tornando-se a cidade metropolitana mais populosa do mundo. Como resultado deste fenómeno, uma grande parte vive em estado de pobreza.
-E como reagem as pessoas numa cidade tão densamente povoada? Pergunta Susana com a sua sensibilidade natural para a sociologia.
Ao que Khalili responde:
-Apesar da difícil situação económica vivida nesta região do mundo, os egípcios são extremamente amigáveis. Podem vir ao encontro dos estrangeiros para ajudar ou prestar informações. Este país tem como maior receita o turismo e como tal, o tratamento dedicado aos turistas é, na medida do possível, um desígnio nacional. Um exemplo corrente é ajudar grupos de turistas prestando-lhes informações úteis e ajudá-los a atravessar as ruas movimentadas do Cairo. Uma manobra que pode ser muito perigosa em função do trânsito caótico.
-Eu percebi ali no aeroporto que as mulheres do Cairo são vistosas!…diz Alfredo, sendo interpelado com o olhar safado de Susana.
Entusiasmado com a conversa, Khalili vai completando a sua informação:
-Sabem? Os egípcios não são apenas puros de coração, mas eles são algo vaidosos. Sobretudo as mulheres. A maioria segue as características caucasianas, apesar de pele escura. Usam muito os parâmetros caucasianos de beleza tal como os cabelos ondulados e cacheados, lábios finos, bem desenhados, olhos profundos e estreitos, narizes proeminentes. Vocês irão ver mulheres muito belas no Cairo.

A chegada ao Victoria Hotel causou uma bela impressão aos recém chegados.
Este vistoso hotel fica num local conveniente muito perto de Khan el-Khalili (uma área comercial antiga, com um imenso mercado de ruelas estreitas com milhares de pequenas tendas onde são expostas as mais diversas mercadorias) e o Museu de Arte Islâmica. Ali próximo encontra-se igualmente o Palácio Abdin e o Museu Cóptico.
Para bem impressionar os visitantes pela primeira vez nesta cidade que nunca dorme, Khalili preparou uma outra surpresa. Um jantar encomendado a um velho amigo que tem ali perto um restaurante tradicional.
Uma vez instalados e devidamente refrescados neste simpático hotel, os três aventureiros do Nilo dão entrada neste restaurante quando a noite já cresce.
Concluídas as boas vindas e uma receção com uma bebida tradicional, é tempo de apreciar uma carta recheada de novidades das quais se destacam:
O Kebab, o Fuul (pasta de feijão, resultante de feijão frade amassado), os sucos de fruta naturais e o Kushari (macarrão, lentilhas, grão-de-bico e, algumas vezes, molho de tomate). Também são muito conhecidos o Taa’miya (falafel), o Muzagga (a versão egípcia do grego Moussaka), o Fatayeer (panquecas com diferentes recheios), o Shawarma (carne assada envolta em pão) e o Tameya (charuto de folha de uva), o Kosheri (uma mistura de lentilhas verdes, arroz, macarrão, pequenos tubos de massa fritos e cebola cozida com canela e coberta de um molho de tomate picante)…a escolha não está fácil!
Mas finalmente tudo está uma delícia e a impressão deixada aos presentes foi unânime. O resultado desta primeira noite no Cairo foi de uma incontornável excelência.

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Novo dia que como sempre nasce com a luz do sol nesta cidade singular onde nunca chove.
Em conformidade com algumas recomendações de Khalili estes jovens visitantes devem trajar algumas roupas que se adaptem ao país muçulmano onde se encontram. Por uma questão de respeito pelos usos e costumes deste tipo de sociedade, Khalili recomenda a Susana que cubra os seus ombros, procurando vestir algo mais longo e evitando o uso de bermudas ou calções. Há mulheres turistas, especialmente no Vale dos Reis, que surgem em mini-saias e tops, facto que atenta contra os costumes da população egípcia e que, na sua opinião, deve ser evitado.
Enquanto tomam a primeira refeição do dia no hotel, Alfredo tenta melhor compreender o programa dos dias que se seguem.
Khalili esclarece:
-Vamos ter um programa bem preenchido. Conforme já falamos ontem, iremos fazer uma viagem de comboio até Luxor de onde partiremos para uma nova visita ao Vale dos Reis. Já tratei das nossas reservas através de um amigo que vive aqui no Cairo.
– E como vai ser esta viagem até Luxor?…pergunta Susana curiosa
-A viagem dura cerca de dez horas. Trata-se de um comboio destinado a turistas equipado de cabines com camas, lavatório e serviços de bordo – o jantar e pequeno almoço estão incluídos. Viajaremos a partir desta tarde pernoitando a bordo desta composição, sendo prevista a nossa chegada a Luxor às primeiras horas da manhã.
-Ok!….concorda Alfredo!…e o que vamos visitar por lá?
-Na semana passada condicionámos a nossa visita ao Túmulo de Tutankamon. Agora para além de visitar Luxor e o templo de Karnak, iremos visitar alguns dos túmulos mais conceituados do Vale e o nosso regresso ao Cairo será ao fim da tarde, onde chegaremos no dia seguinte pela manhã.
-Se bem compreendo, vamos ter dois dias de algum desgaste, debaixo de um calor bem egípcio, certo?…pergunta Alfredo trocando um olhar de alguma apreensão com Susana.
-Não vou negar que será uma viagem algo exigente em termos físicos. Mas eu que tenho apenas 60 anos vou fazê-la ao lado de dois jovens de vinte e poucos anos. Penso que não será necessário acrescentar mais nada, conclui este personagem com alguma malícia no olhar.
O sorriso é naturalmente partilhado por todos….vamos a isto!
Instalados num comboio bem frequentado por turistas de todas as partes do mundo, a locomotiva está finalmente em marcha.
É tempo de colher mais umas informações que poderão completar a reportagem para a National Geographic.
Com o entusiasmo da conversa, khalili mostra novamente o seu conhecimento relatando:
-O Vale dos Reis foi o cemitério real de 62 faraós e está localizado perto da margem do Nilo em Luxor. A única entrada para o local é um longo caminho sinuoso e estreito. Este foi desde sempre considerado um lugar secreto, onde foram colocadas sentinelas na entrada do Vale, bem como ao longo do topo das colinas, na esperança de desencorajar ladrões de túmulos, que no passado saquearam todos os túmulos reais, incluindo os tesouros das pirâmides! Alguns destes furtos foram cuidadosamente planeados, mas muitos outros foram fruto do improviso. A maior parte destes túmulos foram descobertos acidentalmente. Em muitos casos os operários que participaram nestas descobertas fomentaram visitas furtivas a estes locais, usurpando estas maravilhas e empobrecendo um legado sem dimensão deixado pelas múltiplas dinastias de faraós.

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A longa viagem neste típico comboio permitiu apreciar o pôr do sol nas intermináveis planícies deste grandioso Egipto com a captura de imagens únicas e a partilha de convívios com outros passageiros de diferentes origens…e algum descanso também…

Novo dia quente pela frente.
Após o desembarque, Khalili entra em contacto com um guia local recomendado por alguém no Cairo de nome Ahmed que irá acompanhar o grupo nesta passagem pelo Vale dos Reis.
Ahmed é um egípcio de uns 35 anos, magro e queimado pelo sol que, vestido de turbante e vestes de cor clara muito típicas deste povo, os recebe para cumprir a primeira etapa do percurso: a visita do templo de Karnak onde se insere o templo de Luxor.
-O Complexo de Karnak incluí como ruínas o templo de Luxor e a Necrópole de Tebes, explica Khalili.

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Neste primeiro percurso de visita a tão singular legado, o grupo aproxima-se do fabuloso Templo de Karnak.
Prosseguindo com o relato de grande interesse Khalili informa:
Karnak nesta margem leste do rio Nilo é o maior de todos os templos já encontrado no Egipto. A sua construção demorou mais de dois mil anos e não foi totalmente concluída, segundo afirmam os estudiosos. A sua restauração e conservação teve início no século XVIII e as buscas no local continuam.
Dedicado ao deus sol, Amon-Rá, neste gigantesco complexo de templos operaram cerca de 80 mil trabalhadores. Naquela época, imensas avenidas interligavam Karnak aos demais templos da região. Algumas delas eram ladeadas por esfinges.

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-Simplesmente impressionante!…exclama Alfredo de câmara em riste.
Prosseguindo e dando provas do seu grande conhecimento da matéria, Khalili adianta:
-Este templo foi ocupado por diferentes faraós – um deles o famoso Ramsés II – em suas paredes encontramos dois diferentes estilos de entalhe. O primeiro, feito em alto relevo, era mais fácil de ser danificado. Já no segundo, as pedras eram talhadas com uma profundidade que permitiu que as formas permanecessem intactas.
Em Karnak, ainda restam algumas das mais de 130 gigantescas colunas esculpidas em pedra maciça com mais de 20 metros de altura.
-Espantoso, Khalili…diz desta vez Susana totalmente maravilhada com o local.

Segue-se a visita do Templo de Luxor, também na margem Leste do Rio Nilo. Logo na entrada, avistam-se quatro estátuas de Ramsés II, tendo uma delas sido danificada restando apenas uma cabeça.
Do lado esquerdo, constituindo a porta principal, está posicionado um gigantesco obelisco construido numa única peça. O outro, que deveria estar colocado do lado esquerdo, foi oferecido ao governo francês pelo estado egípcio sendo a partir de então visível na Place de la Concorde, em Paris.
Não deixando em mãos alheias um tema deslumbrante como este, Khalili prossegue:
O templo de Luxor foi descoberto em 1884, enterrado nas areias do deserto . As escavações arqueológicas duraram até final de 1960. As várias pesquisas efectuadas aqui demonstram que este templo resistiu a vários períodos de construção tendo o mesmo sido concluído já no período muçulmano. Por esta razão e surpreendentemente, uma mesquita foi erguida nas próprias ruínas do templo, caso único em todo o Egipto.
O Templo de Luxor é fantástico, mas considero que uma das mais belas áreas de visita, são as esfinges visíveis ao longo da avenida que liga Karnak a Luxor.

14   templo-de-karnak

Segue-se um período de tempo para um merecido descanso, reposição de energias com a ingestão de alguns snacks trazidos nos sacos de cada um. A bebida mais acolhida foi a água potável engarrafada e fresca vendida localmente aos turistas. Com a prepectiva de continuidade do programa é tempo de Khalili propor algo de diferente. Uma deslocação em camelo para as próximas zonas a visitar.
-De camelo?…pergunta Susana algo atónita!
Oportunidade de Ahmed informar que este é um meio de transporte mais comum utilizado pelos turistas.
Não deixa de ser uma experiência singular a considerar…pensam estes curiosos visitantes.

27266239   Camelos nas pirâmides
E montados sobre os pachorrentos camelos que vivem o dia a dia desta incontornável máquina turística, este grupo lá foi traçando o seu percurso através do vale. O calor da tarde está abrasador e a ajuda de sombrinhas fornecidas por Ahmed são muito bem vindas.
O primeiro túmulo a visitar é o de Ramsés IV. Este túmulo foi construído num estilo posterior, estando a entrada na abertura do templo. Em períodos anteriores a entrada era mais para o interior dos túmulos.
As imagens ao longo da entrada ainda estão em ótimas condições e as cores muito bem conservadas considerada a sua idade.
De seguida, depois de passar por um longo corredor inclinado, atravessamos agora uma sala de quatro colunas antes de entrar na câmara funerária. O teto da câmara funerária é uma cena da deusa Nut onde as paredes estão decoradas com deuses e demónios. Tudo o que resta do sarcófago é a marca no chão.
Em seguida, visitamos o túmulo de Ramsés I. Ele foi o fundador da 19a dinastia. Seu túmulo é menor, mas maravilhosamente decorado.
As paredes estão pintadas com cenas relacionadas com o Livro de Gates, outra grande referência do antigo Egipto.
Tempo em seguida de visitar o túmulo de Ramsés III, também conhecido como o Túmulo dos tocadores de harpa, onde são visíveis em baixo-relevo dois músicos cegos numa das câmaras laterais. Enquanto a maior parte deste grande túmulo está bem preservada, a câmara funerária real foi danificada por uma inundação interditando a sua visita.

Ramses II   pintura tumulo nefertari vale dos rainhas hp scan
No programa da tarde está igualmente incluída a visita do túmulo de Ramses VI. O mais colorido dos túmulos. Um local construído originalmente para Ramsés V e depois expandido para Ramses VI. Uma das características mais surpreendentes deste local é o teto com a imagem dupla da tal deusa Nut. Uma das cenas mais impressionantes é vê-la engolir e regurgitar o sol e ver como este elemento viaja através do seu corpo…inédito!

Medwyn Goodall - Amun Ra - Amun Ra (2008)   Isis

Depois de concluída esta série de visitas o calor parece estar ainda mais implacável.
Foi com natural entusiasmo que o grupo aceitou o convite de Ahmed para um almoço em sua casa não longe dali.
Uma casa grande, arejada e coberta com telha que ofereceu aos convidados o superior prazer de alguma frescura.
Sentados na sala de estar que consiste em sofás de madeira com almofadas ao redor das paredes com uma mesa baixa no centro, é servida um chá de Hibisco para celebrar as boas-vindas.
A esposa de Ahmed, tímida como é normal nas sociedades muçulmanas, está ocupada em preparar o almoço para os convidados e traz entretanto algumas tigelas de comida para a mesa. A refeição principal será servida numa outra sala ao lado com uma mesa central rodeada de almofadas no chão, como manda a tradição árabe.
Para o almoço, foi servido um frango frito, frango kofta, batatas servidas de duas maneiras (fritas e cozidas), ovos fritos e escalfados no molho do frango , sopa de lentilha, uma salada de tomate e pepino, complementados com um saboroso pão. A bebida servida manteve-se o chá de hibisco. A satisfação é geral e o convívio neste ambiente tão peculiar deixa a sua marca positiva.
Após o almoço, Ahmed entrega a cada um dos presentes uma inscrição em papel antigo com os seus respectivos nomes escritos em hieróglifos e linguagem árabe. Em seguida, e tirando partido da visita, apresentou as diferentes opções para venda de souvenirs. Uma ação mercantil deveras comum num universo turístico como o Vale dos Reis e que beneficiou da simpatia gerada no seio deste grupo.
A despedida de Ahmed foi naturalmente calorosa e acompanhada de uma generosa gratificação.
Ao fim de um dia extenuante passado numa das regiões mais insólitas do mundo, muitas vezes sobre o lombo pachorrento de um camelo, este grupo vê com muito bons olhos um regresso aquele comboio que os levará de volta ao Cairo.
Com um merecido duche e cuidadas algumas mazelas nas virilhas fruto dos passeios de dromedário, há que viver a noite que é agora presenteada com um jantar a bordo e uma rica troca de impressões entre os passageiros…uma entrada no limbo estava assim garantida para estes jovens aventureiros.

Museu Egípcio de Antiguidades cairo egito

Novo e último dia no Cairo. No dia seguinte está previsto o regresso a Londres pondo termo a esta extraordinária experiência em solo egípcio.
Tempo de cumprir um último objetivo nesta imensa metrópole. A visita ao Museu de Antiguidades não longe do hotel.
Como recomendação Khalili informa:
-Este museu é um dos lugares mais movimentados do mundo, sobretudo na época alta em que nos encontramos. Levem para esta visita o que é apenas necessário e protejam da melhor forma os objetos pessoais, documentos, câmara fotográfica etc. Vamos procurar manter-nos unidos e com o olhar bem atento aos fenómenos próprios destes cruzamentos de multidões num lugar de lotação limitada como é este museu.
Este é um edifício neoclássico de uma cor rosa psicadélico…imponente!…pensaram estes jovens que, embora mostrando alguns sinais de desgaste fruto de duas semanas alucinantes, sentem que estão às portas de um mundo à parte.
Antes de entrar neste local, é tempo de Khalili extrair mais informações da sua vasta cultura egípcia:
-A colecção aqui presente inclui os mais deslumbrantes objetos funerários encontrados no túmulo do rei-menino Tutancamon. Enquanto os ladrões pilharam os túmulos da maioria dos faraós do Vale dos Reis, os tesouros de Tutancamon foram encontrados quase intactos. Tivemos na semana passada a possibilidade de visitar o túmulo deste jovem soberano e hoje poderemos ver aqui grande parte do seu espólio. Este é sem dúvida um destino incontornável no Cairo, o principal repositório de relíquias e antiguidades do Egipto – cerca de 120 mil peças ao todo.

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Esta quantidade de artefactos de grande valor é tão intensa que absorve totalmente os visitantes, tornando-se impossível ver tudo num só dia. Dá-se em regra um fenómeno grave muito frequente neste local.
-E do que e trata?… pergunta Susana expectante.
-De um mal muito comum nos estrangeiros denominado de fadiga faraónica.
-Hummm…acho que entendi!…responde Alfredo desta vez.
-Kahlili, não deixando de fora um certo esclarecimento, continua:
-Os sintomas deste mal são as náuseas provocadas pelas galerias lotadas, com deslocações através de inúmeras salas dentro de um curto espaço de tempo, tentando ler os rótulos e descrição das peças e a dificuldade em respirar, induzida pela libertação de poeira em alguns dos artefactos mais preciosos do mundo. E também o facto de circular no meio de tantas línguas diferentes faladas ao mesmo tempo na mesma sala, com o impacto do encontro face-a-face com múmias sangrentas que remontam a milhares de anos.
-E o que podemos fazer para evitar este mal-estar? Pergunta Susana demonstrando alguma aflição.
-As soluções passam por visitar o museu uma segunda ou terceira vez, visitando um piso de cada vez. Isto pode tornar-se mais oneroso, mas vale definitivamente a pena. Não será o vosso caso pois estão de partida amanhã.
-Então faremos uma visita utilizando o bom senso. Visitando o que for mais relevante. Sugere Alfredo recebendo um aceno concordante de Susana.
-Assim faremos então! Tudo aqui é de um valor inestimável e o ambiente é de uma natural agressividade. Sugiro que em primeiro lugar controlem o medo transmitido pela visualização das múmias, tentem respirar mais profundamente em locais mais arejados concentrando toda a atenção no movimento das pessoas e mantendo-nos sempre juntos durante a visita.
A entrada neste lugar labiríntico é marcada por emoções nunca antes experimentadas por Alfredo e Susana. A sucessão de objetos antigos, muitos deles milenares, é uma constante neste espaço onde pessoas de todos os credos e raças se acotovelam para ver as inúmeras maravilhas do Museu. O ambiente é naturalmente pesado e claustrofóbico.

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Impossível visualizar adequadamente isto e aquilo que é de superior interesse para estes jovens recém formados. Trata-se, como Khalili diz e bem, de uma experiência alucinante.
Ao fim de 40 minutos de uma visita deveras agitada a este piso térreo, Susana sugere uma deslocação ao sanitário.
Com uma visível dificuldade de movimentos, Khalili faz sinal a estes jovens que o sigam na direção dos ditos sanitários. Uma vez chegados a este local, Susana tem agora que enfrentar o acesso a esta instalação feminina. Mais uma aventura a empreender no meio desta massa humana.
Aproveitando estar ali, Alfredo comunica a Khalili que irá aproveitar e seguir o exemplo de Susana.
Ao que Khalili responde:
-Vai sim, que eu estarei aqui esperando por vocês. Eu irei a seguir!
Passados uns intermináveis dez minutos, Alfredo retoma a saída deste local apinhado de homens aflitos, para vir ao encontro de Khalili.
-Puxa, Khalili!…que experiência! E a Susana ainda não saiu?…ao que o museólogo responde.
-Não, Alfredo!….sabe que com as senhoras isto é tudo mais complexo. Fique então aqui à espera de Susana enquanto eu vou tentar a minha chance ali dentro.

Mais dez longos minutos passaram antes do regresso de Khalili que se mostrou surpreso com a demora de Susana nos sanitários.
-Não é normal, pois não, Khalili?…pergunta o jovem Alfredo algo aflito.
-Não, e teremos que fazer algo!
-Mas o quê com esta multidão a entrar e sair dos sanitários?
-Alfredo!…você é estrangeiro e mais jovem do que eu. Sugiro que tente entrar ali para trazer Susana que estará com alguma dificuldade em sair.
-Eu? …entrar num sanitário feminino?
-Creio infelizmente que não nos resta outra alternativa!…responde Khalili com ar grave.

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A atribulada entrada deste jovem antropólogo num agitado sanitário feminino teve contornos extremos onde a bizarria, o insulto e o insólito andam de mãos dadas. Apesar de tudo isto, Alfredo compreende por momentos que algo de muito estranho se está a passar neste local.
A sua incessante busca em todos os compartimentos daquela instalação, enfrentando todos os sinais de agressão e insulto por parte das mulheres ali presentes culmina numa realidade trágica.
Ao sair para o exterior ao encontro de Khalili, Alfredo está lívido perguntando desesperado:
– A Susana não se encontra lá dentro! Não terá saído por aqui sem que a tivesse visto?
Com um ar grave e sério, este museólogo responde:
-Se ela passasse por esta porta eu estaria aqui para a acolher, Alfredo. Disso pode estar seguro!
No calor das emoções levadas ao rubro Alfredo encontra-se algo descontrolado. Após novas investidas no interior deste sanitário e outras salas em volta, Alfredo e Khalili vão à procura de apoio de alguma autoridade local!…iniciativa sem sucesso imediato no meio daquela interminável multidão.
Ao fim de duas horas de desesperada busca com a preciosa ajuda da segurança do Museu, sentem-se derrotados e sem reação.
Na falta de respostas ou quaisquer pistas deixadas pela jovem socióloga, Susana é dada como desaparecida no Museu de antiguidades do Cairo, neste dia 28 de Julho de 1973.

Parte IV – O resgate

Na sombra da Esfinge - o resgate

Duas longas e intermináveis horas passaram sem que Alfredo e Khalili possam fazer algo para fazer o tempo voltar para trás, apagando da história este inclassificável episódio.
As autoridades policiais, entretanto mobilizadas para investigar o desaparecimento misterioso de Susana, já estão presentes no Museu esperando a hora de fecho para dar corpo a uma investigação pormenorizada.
Com a saída de todos os visitantes foi assim possível rever as condições deste caso, em colaboração das autoridades judiciais que se concentram agora nas instalações sanitárias, local de desaparecimento de Susana.
Existindo apenas uma porta pública de entrada e saída deste sanitário feminino, através da qual não se deu a saída de Susana, a atenção policial concentra-se agora na existência de uma porta de serviço que dá para as traseiras do edifício. Um acesso aos sanitários que se encontra em regra fechado servindo apenas para a entrada e saída dos funcionários e como recurso em caso de emergência.

MUSEU DO CAIRO
Ao inquérito das autoridades sobre o uso deste acesso, os responsáveis do Museu respondem que apenas funcionários autorizados utilizam esta porta dos fundos.
Estes funcionários que já não se encontram nas instalações são de imediato convocados para responder a algumas questões policiais. É para tal necessário procurá-los em suas casa para uma comparência imediata ao local de trabalho.
Em oposição a uma determinada lógica que aponta este acesso como provavelmente utilizado para este desaparecimento, os dois funcionários entretanto presentes afirmam que apenas eles tem uma chave desta porta, havendo outra cópia conservada na secretaria do Museu. Resta portanto compreender como esta porta terá sido utilizada e por quem. Perante a suposta veracidade destes depoimentos nasce neste momento uma nova suspeita. Alguém teve acesso às chaves guardadas na secretaria do Museu.
Face à tensão psicológica bem visível no rosto de Alfredo, este inquérito policial irá prosseguir às primeiras horas da manhã seguinte, sendo colocado em marcha um processo judicial e a máquina policial de procura de pessoas desaparecidas.
Uma vez na Delegacia da cidade e na sequência de conversas em língua árabe que Khalili mantém com o o comissário, é a vez de colocar Alfredo a par de algumas suspeitas.

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Khalili, com um semblante carregado e utilizando o seu bom inglês, inclui agora Alfredo na conversa.
-Meu caro Alfredo. Tenho trocado umas ideias com o Comissário que aqui vamos partilhar consigo. Na opinião dele, na qual me revejo também, tudo indica que Susana terá sido raptada.
A cara de desespero de Alfredo não é de fácil descrição.
Khalili prossegue:
-Em regra, os raptos de mulheres tem objetivos diferenciados. No caso de mulheres muçulmanas estes atos visam primordialmente dois objetivos. A conversão ao Islão de mulheres menos devotas da etnia Copta e a sua condução a uma condição de escravidão.
Algumas, entre estas que conseguem ser encontradas, voltam para o seio familiar contando que foram estupradas, evitando este regresso pois sentem que as famílias nunca irão aceitá-las de volta. Muitas outras são mantidas cativas sendo açoitadas e forçadas à servidão doméstica. Não estão autorizadas a sair, sendo as menos devotas sujeitas a uma lavagem cerebral para pensarem que a única maneira de estarem seguras é converterem-se ao Islão. Apesar da procura incessante por parte dos familiares, muitas vezes sem qualquer ajuda das autoridades, é frequente nunca descobrirem o seu paradeiro ou destino. Há em todos estes casos de rapto de mulheres árabes uma evidência que aponta para casos de rapto, tendo como principal objetivo a conversão religiosa e o casamento forçados.
Atento a este discurso, Alfredo interrompe o seu interlocutor perguntando:
-E o que são os Copta?

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Khalili prossegue:
-A população Copta cristã do Egito é a maior comunidade cristã do médio oriente. Os cristãos representam cerca de 10% a 20% de uma população de mais de 70 milhões de egípcios, embora as estimativas variem. Cerca de 90% dos Coptas pertencem à Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria, Igreja nativa do país. Os restantes estão divididos entre as Igrejas Copta Católica e Protestante.
-Entendi! Mas a Susana é uma estrangeira, certo?
-Sim, Alfredo, estes são casos que vem crescendo na última década tendo como grande objetivo a introdução de mulheres raptadas em redes de tráfico humano…infelizmente este parece ser o caso da Susana.
-E agora, o que vamos fazer?…pergunta Alfredo com dificuldades de esconder um olhar húmido num misto de raiva e desespero.
-Segundo já acordei com o Comissário, serão a partir deste momento tomadas todas as medidas no sentido de investigar o possível paradeiro de Susana com a ajuda dos informadores de que a polícia dispõe no Cairo.
-E nós, Khalili?…o que vamos fazer para ajudar nesta missão?
Com a serenidade possível, este responde:
-Sugiro uma recolha ao nosso hotel para refrescar o corpo e mente e desenhar um conjunto de ações. Vou entretanto fazer alguns telefonemas para contactos importantes aqui no Cairo que nos poderão trazer alguma luz.
Com a saída do Comissariado de polícia, o percurso destes dois homens de ar grave e sério até ao hotel é feito a bordo de um táxi num silêncio de chumbo, acompanhado de um turbilhão de pensamentos que atravessam o cérebro de Alfredo….sem pedir licença!
Este quarto de hotel está agora impiedosamente vazio onde apenas se encontram os objetos pessoais do jovem casal. A ausência de Susana é gritante.
Alfredo não se conforma com a situação e está disposto a mover o céu e a terra para encontrar a sua amada.
Khalili, debaixo de igual tensão e sentindo o ar pouco respirável, faz entretanto um conjunto de contactos telefónicos com pessoas influentes da cidade, promovendo algumas pistas no sentido de recolher em meios menos ortodoxos algumas informações que possam ajudar a desvendar o paradeiro de Susana.
Alguns destes contactos terão de ser feitos pessoalmente em zonas pouco amistosas da capital.
Determinado a tomar em mãos uma investigação paralela com as autoridades policiais, Alfredo diz a Khalili que não parará enquanto não encontrar Susana.
Já são 3 horas da tarde e, perante a solidariedade deste influente egípcio, ambos embarcam novamente a bordo de um taxi em direção ao centro da cidade.

Cairo 1
Dirigem-se a um bairro labiríntico ao encontro de alguém com quem Khalili estivera a trocar impressões ao telefone. Alguém com conexões algo duvidosas a negócios pouco claros, segundo conta Khalili durante esta viagem atribulada até ao centro agitado do Cairo.
Comentando a descrição do local para onde se dirigem e antes de saírem do taxi, Khalili reforça uma ideia.
-Meu caro!…não temos tempo a perder e a seleção de contactos neste momento grave que atravessamos implica múltiplos riscos. Peço-lhe que se mantenha o mais sereno possível durante as conversas que vamos ter com este e outros indivíduos que teremos seguramente necessidade de contactar. Irei naturalmente falar em árabe com cada um destes interlocutores e de seguida lhe direi como tudo se desenrola.
-Certamente, Khalili…responde Alfredo com natural apreensão.

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Uma vez apeados, empreendem uma marcha bem determinada por uma ruela bem típica do centro desta imensa cidade. Alfredo, que não faz a menor ideia de onde se encontra, segue os passos algo apressados de Khalili entre as inúmeras tendas de comércio onde abundam os odores e as cores típicas da cultura egípcia e onde o insólito é rei.
Depois de atravessadas mais duas agitadas ruelas do mesmo tipo, chegam ao destino onde vão ao encontro de um egípcio de nome Amun Salama que se encontra no 1º piso de um edifício antigo.
Salama é um egípcio de meia idade, tez morena e uns quilos a mais para a sua estatura.
Ajeitando um bigode proeminente, este egípcio recebe os seus visitantes cumprimentando Khalili em árabe seguindo-se uma receção amistosa reservada a Alfredo.
Na sequência da primeira exposição feita por Khalili e de um momento de reflexão, o sr. Amun dirige-se a ambos em bom inglês, dizendo:
-O Cairo é geralmente reconhecido como uma das capitais do médio oriente com os maiores casos de assédio sexual, o que podemos atribuir a um tráfico crescente e ao policiamento algo precário.
Temo, face ao modo como descrevem o sucedido, estarmos perante um destes casos.
Sem esconder a sua aflição e ansiedade, mas mantendo a serenidade possível, Alfredo pergunta:
-O que podemos fazer neste caso?
Amun Salama, após um momento de reflexão, responde:
-Se estivéssemos perante o desaparecimento de uma mulher de origem Copta, este ato teria um objetivo de conversão ao Islamismo ou de uma condição de escravatura doméstica. Sendo uma estrangeira, podemos ter aqui um enquadramento diferente.
Demonstrando evidentes sinais de aflição, Alfredo quer saber mais.
Amun prossegue a sua exposição.
-Penso que o tráfico humano é uma forte possibilidade. Trazem convosco uma fotografia da vítima?
Sem hesitação Alfredo procura na sua bolsa uma foto captada com Susana no circuito do Nilo. A mesma que já deixara nas mãos da Polícia.
-Hummm…trata-se de uma jovem vistosa que muito atrai alguns sequestradores da nossa cidade. Vamos ver como posso ajudar a encontrar esta jovem.
Respondendo a esta réstia de esperança, Alfredo aperta a mão deste homem dizendo energicamente.
-Estarei à sua disposição para o que for necessário fazer nesse sentido.
Dirigindo-se desta vez a Khalili, este homem articula algumas palavras em árabe às quais Khalili acena afirmativamente, pegando em seguida no telefone.
Algumas conversas telefónicas algo agitadas ocupam o espaço deste escritório de atividades não definidas. Conversas em árabe, muito naturalmente.
Passados estes longos e intermináveis minutos, Amun poisa o aparelho informando:
-Deixei este caso nas mãos de algumas pessoas bem informadas que vão investigar algumas redes de tráfico de mulheres ocidentais. Penso que terei ainda hoje ou o mais tardar amanhã, algumas pistas interessantes que poderão trazer alguma luz a este caso.
-E o que acha que pode fazer a polícia? Pergunta Alfredo com alguma expectativa.
-Segundo compreendo, esta rede trabalha com a colaboração de alguém ligado ao Museu. Alguém que, de uma forma ou outra, facilitou a saída pela porta dos fundos. Na minha opinião o único meio que as autoridades dispõem para obter as primeiras respostas passam por pressionar os funcionários do imóvel. Em segundo lugar irão colocar os informadores da polícia no encalço desta senhora. Não há infelizmente um histórico de sucesso nestas ações da Polícia.
-Enfim…ao abrir esta investigação eu entreguei uma cópia desta fotografia às autoridades que irão divulgá-la no sentido de obter pistas.
-De acordo!…vou fazer mais uns telefonemas para outras pessoas que conheço nestes meios. Como posso contactá-los em caso de obter informações relevantes?
Ao que Khalili responde:
-Estamos no Victoria Hotel perto de Khan el-Khalili…pode ligar a qualquer hora…estaremos atentos!

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Escusado será dizer que a noite é longa para Alfredo neste quarto de hotel onde se encontra drasticamente sozinho, debatendo-se contra o vazio e a incógnita que cruelmente lhe atravessa o espírito sem qualquer alívio à vista.
A viagem que ambos fizeram no Egipto percorrendo o Nilo, mais recentemente o Vale dos Reis e a zona do grande Cairo pairam no seu espírito atormentado. Como um tigre dentro de uma jaula. O que iria fazer daqui em diante?…como iria lidar com a ausência de Susana?….o que estaria a passar-se com a sua amada?…como iria dar a notícia aos familiares em Lisboa caso o pior acontecesse?
Estes sentimentos atravessam o cérebro incontornavelmente perturbado do jovem antropólogo que é um fumador ligeiro, mas que esta noite acende cigarros uns nos outros.
Estas emoções, de mãos dadas com o relógio, são como um rolo compressor nos neurónios deste homem perdido e só neste quarto de hotel.
São 3 da manhã quando alguém bate à porta do seu quarto.
Sobressaltado, Alfredo corre para a porta encontrando Khalili que estremunhado lhe diz:
-Desculpe-me bater à sua porta a estas horas!…tive notícias de Amun Salama.
-Esteja totalmente à vontade!…entre por favor…que notícias me traz, Khalili?
Entrando no quarto e sentando-se numa cadeira ao lado de uma escrivaninha, Khalili prossegue:
-Consta que Susana foi raptada por um grupo de tráfico humano no sentido de a vender para um sultão abastado que vive faustosamente junto à fronteira com o Sudão. Um homem que possui um grande harém e tem uma grande predileção por mulheres ocidentais.
Completamente em transe, Alfredo quer saber mais!
-E o que vamos fazer agora, Khalili? Ela encontra-se onde?
-Segundo compreendi, há um resgate que pode ser feito para recuperar a sua companheira. Um resgate cuja soma ainda não foi divulgada. Teremos mais notícias deste assunto às primeiras horas da manhã.
Os primeiros sinais de localização de Susana são obviamente animadores, mas não se contendo, Alfredo pergunta:
-E não podemos ir ver novamente este Sr. Amun para avançar nas investigações?
Ao que Khalili responde:
-Compreendo a sua angustia, meu jovem!…mas teremos que aguardar mais notícias. Temos um ponto de partida. Já é uma boa notícia.

A uma interminável noite em claro onde os pensamentos atravessam o espírito de Alfredo em grande velocidade, segue-se uma descida para o piso inferior do hotel onde Alfredo aguarda a chegada de Khalili à sala onde será servido o pequeno almoço.
Ao ver chagar Khalili, o olhar de Alfredo ilumina-se na esperança de obter mais notícias de Susana.
-Bom dia, meu caro. Acena Khalili com um ar que denota o natural resultado de uma noite mal dormida.
-Bom dia, Khalili. Teve mais novidades de Amun?
-Efectivamente tenho pois acaba de me ligar há momentos.
-E então? Pergunta Alfredo expectante.
Este grupo de sequestradores exige um resgate de 20 000 US $ para entregar Susana. Esta é supostamente o preço de venda ao tal Sheik.
Atónito com a notícia caída como uma bomba, Alfredo não sabe como responder, de tal forma tem os pensamentos e as emoções desalinhadas.
-Não tenho esse dinheiro, Khalili…fazemos o quê?
-Há duas alternativas responde este seu interlocutor. Ou pagamos esta soma que eles exigem ou…e interrompe a sua resposta!
-Ou o quê, Khalili?
-Ou optamos por uma opção que irá custar muito menos dinheiro mas que comporta um risco de vida para a Susana.
-Tratando-se de?
-De contratar um grupo de intervenção armada que opera em situações de risco no Egipto. Um grupo operacional dirigido por um ex oficial do exército Inglês com raízes antigas no país. Por uma soma que ainda teremos que apurar, este grupo pode resgatar Susana do seu cativeiro…de forma compulsiva, muito naturalmente.
Com a surpresa estampada no rosto, Alfredo soletra as poucas palavras que o seu pouco ânimo permite.
-Khalili, estou sem saber o que lhe dizer…esta operação é de confiança?…que riscos vai trazer para Susana?…ajude-me a tomar decisões. Algo eu sei!…20 000 US $ é uma soma que nem sei como arranjar de um dia para o outro.
-Calma meu jovem!…vou receber mais notícias da eventual participação deste grupo de intervenção. Se assim o desejar, o Sr. Amun irá promover um contacto com este Inglês para muito breve em local e hora a combinar. Teremos durante esse contacto a oportunidade de trocar impressões e saber as condições do resgate.
-De acordo!…avançamos nessa direção aguardando o desenrolar dos acontecimentos.
-Certo! Vou estabelecer um novo contacto com Amun e comunicar esta decisão. E que Alah nos ajude a recuperar esta moça tão especial.

São 17 horas de mais um dia tórrido passado na caótica cidade do Cairo.
O dia em que supostamente estes jovens aventureiros estariam a embarcar para Londres colocando um ponto final nesta epopeia em terras do Egipto.
Alfredo, perante o desaparecimento da sua companheira, já informou a British Airways do adiamento desta viagem para uma data posterior.
O encontro marcado com o tal Inglês tem lugar num conhecido restaurante do centro do Cairo onde Khalili e Alfredo chegam expectantes.
Este cavalheiro de nacionalidade inglesa, com os seus 50 anos de idade, é portador de uma estatura atlética e uma voz determinada. Ao seu lado encontra-se um outro individuo com um corte de cabelo militar e cujo porte físico indica o perfil de um operacional. A impressão que ambos causam é naturalmente convincente.
Feitas as primeiras apresentações e trocadas as primeiras informações do caso, passa-se assim à abordagem mais aprofundada do tema.
Este Inglês, que prefere não dar o seu nome, começa por dizer que, não sendo muito vulgar este tipo de ações com mulheres estrangeiras, isto vai acontecendo em algumas regiões do Egipto a mulheres que viajam sós e a outras menos atentas. Mais informa que não interfere em raptos a mulheres árabes.
Dirigindo-se a Alfredo este homem prossegue:
-Mas comecemos pelo princípio. Conte-me a sua história.
Como seria de esperar, a descrição de Alfredo quanto à sua origem luso-escocesa, a sua saída em tenra idade da Austrália onde nascera, a epopeia de viagem até Moçambique, posterior passagem pela Rodésia, formação em Antropologia na Universidade de Cambridge e realização de uma reportagem para a National Geographic Magazine deixaram algumas portas abertas para uma boa e convergente conversa entre as partes.
No calor desta troca de ideias, este Inglês avança com uma proposta para Alfredo que consta do seguinte:
-Alfredo Mckenzie. Tenho uma perceção das pessoas quando as conheço pela primeira vez! Algo que adquiri ao longo da minha carreira militar e fruto de uma vida cheia de peripécias e aventuras.
Vejo à minha frente um jovem audacioso que tem no seu ADN um espírito aberto, um background deveras interessante e um futuro promissor também. Depois de escutar esta sua história estou disposto a ajudá-lo. Eis o que vamos fazer a partir deste ponto.
Entusiasmado com o desenrolar da conversa, Alfredo aguarda o seguimento da mesma.
-O tempo passa rápido e vou precisar de colher o maior número de informações possível sobre o local onde poderá estar a sua companheira e de uma fotografia dela também.
-Quanto ao sucesso desta operação, qual é na sua opinião o índice de risco da mesma?
-Operações desta natureza tem sido o maior ingrediente da minha vida com a preciosa colaboração da uma equipa de homens treinados por mim. As ações que desenvolvemos não são prática oficial nem alinhadas em filosofias políticas ou de outra ordem. Temos como lema a justiça e a ajuda a quem entendemos que devemos ajudar. Pelo facto de recebermos dinheiro em troca das ações pontuais que desenvolvemos, há quem nos denomine de mercenários. Eu e os meus homens temos, apesar de tudo, as nossas linhas de conduta. Conforme referi, se este rapto se desse com uma mulher árabe eu nem estaria aqui a conversar com vocês.
-E que custos pode ter uma operação com este nível de risco?
-Os custos deste resgate serão inerentes à logística que vamos utilizar e às informações que teremos que comprar para localizar Susana. Terei que analisar os prós e contras, avaliar a capacidade dos raptores e reagir em consequência. Os custos que lhe serão imputados serão resultantes da nossa ação. Quanto ao sucesso desta operação e com os imprevistos que iremos encontrar, temos como primordial objetivo trazer de volta a sua companheira…sã e salva!
Aliviado com as expectativas levantadas pelo discurso de um homem com este perfil, Alfredo prossegue:
-Na sua opinião e com a sua experiência na matéria, acha que Susana terá sido sujeita a maus tratos?
-A resposta que lhe vou dar é totalmente lavrada na minha intuição. Quando se trata de apresentar uma nova concubina a um Sheik abastado, os raptores não tem qualquer interesse em apresentar a nova candidata em mau estado. Muito pelo contrário. Tudo será feito no sentido de valorizar a oferta.
-Certo!…e quando pensa que esta operação se pode realizar?
-Como disse anteriormente, o tempo corre…vamos de imediato tomar o máximo de informações e lançar a operação para estes dias…nós atuamos de noite…ficaremos em contacto e em breve lhes daremos mais detalhes de quanto avançamos. Há uma última condição que tem que ser cumprida para alcançarmos o nosso objetivo.
-Qual será? Pergunta Alfredo curioso.
-Sigilo absoluto quanto a esta nossa conversa.
Com a entrega da dita fotografia e concluindo este encontro marcado por uma nova esperança, o grupo dispersou, sendo o regresso ao hotel a próxima etapa.
-Khalili…o que lhe pareceu? Pergunta Alfredo com um semblante de ansiedade espelhado no rosto.
-Meu caro Alfredo!…existe uma palavra árabe que diz…Maktub…o que está escrito deve ser cumprido e eu tenho muita fé no sucesso desta iniciativa. Estamos a lidar com profissionais e penso que este senhor gostou muito do que ouviu do Alfredo.

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A noite de mais um dia neste hotel de cidade foi vivida com um misto de ansiedade e esperança. Aguardar as notícias quanto à concretização desta operação tornou-se a única via para queimar um tempo que não passa. As horas e os minutos são longos…muito longos!
Neste novo dia o sol nasce indiferente a esta ansiedade que assolam Alfredo e Khalili…as horas passam e as notícias não chegam. Esta espera é deveras insuportável.
Ao soar o telefone naquele quarto de hotel por volta das 3 horas da tarde, chega igualmente o entoar de uma nova esperança.
Ao levantar o auscultador, Alfredo escuta uma voz esperada que num bom inglês lhe diz:
-Boa tarde, Alfredo Mckenzie!…temos tudo o que precisamos. Avançamos esta noite.
Completamente excitado com as novidades, Alfredo agradece deixando o espírito absorver esta nova esperança. No Victoria Hotel as horas que se seguem são de muita expectativa.
Alfredo conta com a solidariedade e apoio moral de Khalili que passou a ser um amigo que Alfredo jamais esquecerá.

A noite cai na cidade do Cairo…as horas estão mais longas e os minutos passam devagar….muito devagar…o café, os cigarros e a companhia aparentemente tranquila de Khalili marcam a existência deste jovem antropólogo que só vai serenar quando tiver a sua amada junto de si.
A entrada na noite aumenta ainda mais as expectativas e a passagem do tempo é ainda mais demorada…insuportável!

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São 4 horas da madrugada quando toca novamente o telefone neste quarto onde Alfredo passa esta noite de angustia na companhia de Khalili que, esgotado sob influência dos seus sessenta anos, se estendeu na cama atingindo o limbo com uma notória exaustão.
-Sim?…quem fala?
-Alfredo!…tenho boas notícias para lhe dar!
-Diga-me por favor!….grita Alfredo, não cabendo em si de excitação.
Os momentos que se seguem são difíceis de descrever. Do outro lado da linha ouve-se a voz trémula de Susana que encontra entre os soluços de uma extrema emoção as forças necessárias para dizer.
-Alfredo, meu querido!…estou aqui!….sã e salva!
-Alfredo tem dificuldades em articular palavras. A emoção é maior que a força das palavras e o silêncio está preso nas suas cordas vocais. No momento que se segue, grita:
-Susana!
O que se segue é de difícil descrição. Khalili, profundamente adormecido na cama ali ao lado, percebe que a novidade é boa….muito boa. A nossa antropóloga fora salva de uma nefasta aventura que dificilmente esquecerá.

A receção de Susana deu-se às primeiras horas da madrugada em local previamente combinado.
Foi com uma superior emoção que o reencontro de Alfredo e Susana tomou o lugar de três dias de total desespero.
Tempo igualmente de agradecer a imensa ajuda proporcionada por este grupo e de acertar os custos da operação.
Isto implicava o pagamento logístico das operações no terreno e uma verba necessária para cobrir a preciosa ajuda de Amun Salama e outros informadores que intermediaram a operação. Ao todo Alfredo teria que contemplar o pagamento de 2 500 US $.
Irá proceder a este pagamento de forma parcelada. 1 500 US $ que restam da verba destinada a esta viagem e os restantes 1 000 US $ aos quais pretende adicionar mais 500 como merecido prémio para esta excecional equipa. Irá levantar ainda hoje este dinheiro a um banco inglês ali próximo.
Algo que verdadeiramente não pesa quando à sua frente está a sua amada sã e salva.
Segue-se a recuperação dos sentidos deste casal deveras abalado com tamanha aventura.
Depois de um belo banho e passagem por um merecido sono dos justos, Susana está a precisar de alimento.
A combinação é um almoço ali perto do hotel num restaurante do tal amigo de Khalili.
A conversa principal concentra-se no relato deste sequestro por parte de Susana que informa:
Naquela tarde no Museu fui interpelada por duas mulheres árabes que me empurram para o fundo dos sanitários tapando-me energicamente a boca e enfiando-me pela cabeça um pano preto. Senti que atravessei uma porta onde estavam mais duas vozes masculinas. Dali fui levada para uma viatura estacionada ali perto.
Perante a estupefação de Alfredo e Khalili, Susana prossegue:
-Senti que iniciamos uma viagem de carro pois de seguida e com as mãos e pés amarrados deram-me a respirar algo que me fez perder de imediato os sentidos.
-Uau!…Susana!….responde Alfredo impressionado…e maltrataram-te!
-Uma vez chegados a um destino desconhecido, voltei a mim numa sala com outras mulheres igualmente amarradas. Algumas árabes e mais duas estrangeiras. Numa primeira tentativa de comunicação com as duas mulheres estrangeiras fui imediatamente esbofeteada.
Impressionado com este relato, é agora vez de Khalili indagar:
-E quanto às mulheres árabes?
-Essas foram mais mal tratadas que nós. Bateram-lhes por várias vezes com uma haste de metal vociferando palavras que não entendi. Um outro pingava plástico derretido sobre as costas nuas destas mulheres. A outras ainda bateram nas solas dos pés aplicando choques eléctricos e apontando uma arma à cabeça. O que gritavam enquanto as torturavam não sei, pois não compreendo árabe. Não nos deixaram dormir durante duas noites e eu pensei que ia morrer.

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-Pois! Responde Khalili…trata-se logicamente de mulheres Copta que querem converter ao Islão. Um clássico!
-Bem impressionado com este relato, Alfredo quer saber um pouco mais.
-E disseram-te o motivo do teu rapto?
-Não!…tive a oportunidade de falar com uma das mulheres ocidentais que ali estavam comigo. Uma sueca loira que já conhecia bem o Egipto e me informou que não seriamos mal tratadas pois estávamos destinadas a ser compradas por um homem abastado e poderoso. Por este motivo não fomos maltratadas como as pobres mulheres árabes cativas neste local tenebroso.
-E deram-vos de comer?…perguntou novamente Khalili?
-Deram-nos água e uns frutos secos. Foi tudo…desculpem!…não quero mais falar sobre este pesadelo. Quero varrer este dias da meu pensamento.
-Compreendemos!…responde Alfredo perguntando a Susana só algo mais que se impunha ouvir.
-E como se passou o resgate?
-Eram umas duas e meia da noite quando ouvimos uma inesperada agitação na casa em que nos encontrávamos. Uma agitação seguida de gritos e alguns tiros. Apenas sei que, passados uns longos minutos de turbulência, entra na sala um homem vestido de camuflado e pintado de carvão no rosto que se dirige ao grupo das mulheres ocidentais, libertando-nos das amarras e sussurrando em inglês.
-Venham comigo…vamos libertá-las!
-E saíram sem problemas? Pergunta Alfredo excitado.
-Ainda houve mais uns tiros e segundo me apercebi havia dois ou três cadáveres pelo chão.
-E por parte do comando que vos libertou?…houve alguma baixa?
-Não houve mortes, mas no tiroteio dois do grupo de ingleses sangravam abundantemente.

O calor deste episódio dantesco conhece finalmente a merecida tranquilidade.
É chegado o tempo de retomar o fôlego necessário para continuar a vida e regressar à Europa, deixando para trás uma aventura intensa em terras egípcias.
Uma vez resolvidas as questões funcionais e os acertos de contas com o comando inglês acompanhadas de um enorme agradecimento é chegada a hora de uma sentida homenagem pela preciosa colaboração de Khalili.
O momento é de despedida no aeroporto internacional do Cairo onde este cidadão aguarda o seu voo até Alexandria onde reside. Uma despedida algo emotiva no rescaldo deste período agitado vivido com o neto de um grande amigo de outros tempos e da sua malograda companheira que entretanto recuperou o seu sorriso.
Nesta hora de grandes emoções, Alfredo indaga:
-Khalili!…e o que faremos com a Polícia local?
-Meu amigo!….deixe esse assunto comigo que eu saberei rematar esta história junto das autoridades. Vão com Deus e me desculpem qualquer falta da minha parte. Foi um enorme prazer conhecer-vos e para mim uma honra conviver de novo com um Mckenzie. Este é um período da minha vida que jamais esquecerei.
Emocionada com esta despedida, Susana não contém as lágrimas e abraça Khalili.
-Jamais esquecerei o que fez por nós!…Deus o abençoe!…a si e à sua família.
Com um forte abraço neste egípcio de carácter íntegro e dotado das qualidades, Alfredo está igualmente muito emocionado.
-Um eterno obrigado por tudo, Khalili…o meu avô Donald onde estiver está a ver-nos….e a sorrir!…ficaremos naturalmente em contacto daqui em diante….toda a sorte do mundo!
E é chegado o momento de desejar a uns e a outros o melhor em direção a um futuro recheado de novas aventuras.

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Como manda a boa tradição de uma companhia aérea de eleição como a British Airways, este voo descola à hora certa com destino a Londres.
Sentados lado a lado, estes jovens aventureiros olham pela pequena janela e murmuram.
-Adeus, Egipto…que grandes momentos nos ofereceste!…e são esses que iremos guardar para contar como foi…até um dia!

Parte V – um reencontro austral

Parte V - Um reencontro austral

O sol brilha timidamente em Londres sendo perceptível através da janela rasgada do apartamento do amigo Simon, que acolheu Alfredo e Susana antes de partirem para o Egipto.
Neste bairro tipicamente londrino denominado de Elephant & Castle está lá fora uma cidade sempre fascinante, uma das mais importantes portas de entrada para a Europa, cujas características a colocam como um destino do mundo. Cidade bem agitada em cultura e desenvolvimento, fatores que compõem o cenário perfeito para viagens inesquecíveis. Os londrinos, exímios e pontuais por natureza, dão com maestria, elegância e distinção, asas aos valores do capitalismo, aspectos que conferem a soberania bem charmosa desta cidade.

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É nas manifestações e expressões culturais que Londres demonstra o seu maior diferencial. A arquitetura, arte, cultura e a música bem característica do movimento Flower Power e do emergente Rock sinfónico andam de mãos dadas e são responsáveis pelas suas principais atracções turísticas. Construções majestosas, dignas de realeza e museus de acervos únicos que envolvem igualmente o turista, proporcionando-lhe a sensação de fazer parte da Nobreza Real que impera neste universo marcadamente britânico. Este clima envolvente garante o fascínio, ao mesmo tempo excitante e contagioso, convidando o visitante para um segundo encontro.
Londres é igualmente abrigo de diferentes etnias, prestando homenagem a povos naturais de diversos países com a sua rica e influente gastronomia. Nos mais variados tipos de restaurantes serve-se o melhor da culinária típica das regiões do mundo, ajudando a manter viva a capital britânica. Contudo, a maior marca da cultura britânica reside na toma do chá inglês, autêntico e famoso em todo o mundo. A refeição ou o chá da tarde, servidos entre as 16h e 17h, correspondem a uma verdadeira e pontual cerimónia, praticada diariamente em toda a Inglaterra.
Em suma: Londres é irresistível à primeira vista e digna de incontáveis retornos.

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No rescaldo de uma aventura memorável às portas do médio oriente, a actividade destes jovens concentra-se agora em algo deveras importante. Organizar os elementos de reportagem para apresentação à National Geographic Magazine, em Londres.
Alfredo procede à revelação e selecção das inúmeras fotografias captadas no Egipto e Susana concentra os seus esforços na elaboração dos textos a partir das suas notas de bordo.
Os dias sucedem-se neste frenesim e, com um bom ritmo de trabalho de equipe, estes entusiasmados jovens sentem que o objectivo está a ser alcançado.
Cumprida esta importante missão que os moveu nesta deslocação ao Egipto, é tempo de tomar novos rumos. A passagem por Lisboa para matar saudades da família de ambas as partes e uma outra um pouco mais a sul com destino à costa oriental de África. Moçambique.
A apreciação e aceitação deste trabalho por parte desta famosa revista irá desenvolver-se ao longo das próximas semanas, sendo um parecer comunicado a Alfredo por escrito posteriormente…há portanto que aguardar!…fingers crossed!
Sentados numa esplanada perto do Hyde Park, Alfredo e Susana trocam algumas ideias sobre os passos seguintes do seu plano de viagem.

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Susana, expectante com a passagem por Lisboa, pergunta a Alfredo.
-Alf…já podemos confirmar as passagens de avião?
Flutuando por momentos num ato de reflexão, Alfredo responde:
-Estive, como sabes, no banco ontem à tarde e aproveitei para passar naquela agência de viagens de que te falei. Quanto ao banco, tive que fazer mais um pouco de ginástica para contornar as despesas inesperadas da nossa saída do Cairo. Mas há sempre uma solução.
-Óptimo, querido!…e na agência, o que te disseram?
-Temos viagem para depois de amanhã na British Airways para Lisboa e na TAP para Moçambique, uma semana depois. Os meus pais como sabes oferecem-nos esta viagem à África austral. Depois acerto com eles.
-Uau!….tudo tratado?
-Sim, a única tarefa que temos que ver em Portugal é o plano de vacinas que são pedidas para entrar em Moçambique. Tratamos disso por lá.
-Perfeito!…vamos mais uma vez vencer alguns fusos horários, certo? Já posso portanto avisar aos meus pais que vamos. Como é o mês de Agosto, tenho que compreender se estão de férias na Fonte da Telha perto da Caparica, numa casa rústica que costumam alugar entre o bosque e o mar.
-Também já falei com o meu tio em Lisboa!…eles vão estar por lá pois já estiveram de férias no Algarve em julho.
-Maravilha!…aqui vamos nós! Diz Susana demonstrando sinais de paixão por este seu companheiro.
Correspondendo a estes sinais, Alfredo prossegue.
-Também vais conhecer uma região mágica do mundo que é Moçambique. Vai ultrapassar as tuas expectativas!
-Love you, baby!…responde ternamente Susana com um beijo roubado ao seu antropólogo preferido.

Lisboa – 12 de Agosto de 1973

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Uma vez de novo em Portugal, estes jovens vão ao reencontro da família de Alfredo no bairro do Areeiro, que os recebe com todo o entusiasmo e com um jantar onde o tema de eleição foi naturalmente a conclusão dos cursos universitários de ambos e as aventuras vividas em terras do Egipto. Tempo de natural celebração.
Em paralelo, numa das deslocação à fantástica região de Sesimbra, é tempo de uma nova celebração junto da família de Susana que recebe estes aventureiros de braços abertos. O tema do rapto de Susana no Cairo foi naturalmente o centro de grande emoções. Algo que Susana sabe que o “Pai tempo”, esse grande curandeiro, irá seguramente aliviar.

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Neste período de transição, foi possível rever novamente Lisboa junto ao Tejo, incluindo um belo passeio pela costa do Estoril e à serra de Sintra. Um roteiro que sempre preenche o prazer de quem ali passa. Um periodo para cuidar igualmente dos tais planos de vacinas no Hospital do Ultramar na avenida Junqueira, em Lisboa.

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Já é dia nesta nova jornada que marca a segunda quinzena do mês de Agosto de 1973.
O aeroporto da Portela está bem agitado por três fenómenos recorrentes. Pela circulação excepcional de turistas de visita a Portugal, pelo habitual período de férias dos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo e, igualmente, pelo regresso de cidadãos nacionais residindo além mar nas colónias de África.
Neste último caso, de salientar que Portugal desenvolve desde o inicio da década de sessenta uma guerra de guerrilha contra os movimentos de libertação das colónias africanas, nomeadamente na Guiné contra o PAIGC, em Angola contra os movimentos MPLA/UNITA/FNLA, em Moçambique contra a FRELIMO, e em Timor contra a FRETILIN.
Um processo histórico resultante de uma decisão ferida de morte do dirigente António Oliveira Salazar que comandou os destinos de Portugal entre 1932 e 1968. Um erro grave mantido até hoje pelo seu sucessor Marcelo Caetano. Enquanto países ocupantes de territórios africanos como Inglaterra, França e Bélgica deram início a processos de auto determinação e consequente independência destes territórios ocupados a partir de 1960, este estadista lusitano optou por uma política obscurantista deveras conhecida dos portugueses e do mundo. O desenvolvimento de um regime denominado de Estado novo que deixa uma forte pegada na sociedade portuguesa do continente e além-mar, marcado por algumas frases famosas deste economista de ideias sombrias. Entre as atuações mais típicas deste professor de índole fascista registaram-se na história recente de Portugal algumas das suas mais notáveis citações:
“Orgulhosamente sós”
“Para Angola, rapidamente e em força”
“Manda quem pode, obedece quem deve.”
“Não se discute Deus e a sua virtude; não se discute a Pátria e a Nação; não se discute a autoridade e o seu prestígio“
“Deus, Pátria, Família.“
O resultado prático destas ideias obtusas e totalmente desfasadas do novo mundo ocidental, vem oferecendo alguns efeitos nefastos e ameaçadores aos que vivem nestas colónias africanas.
No horizonte dos cidadãos ali residentes e mais informados sobre a evolução dos acontecimentos, cresce de forma sensível a noção de perda gradual desta guerra que, nos últimos treze anos, decepou a vida a muitos mancebos saídos das remotas aldeias do velho império português em plano inclinado. Uma noção contrariada pela propaganda do regime. Ao sabor da inocência e de uma obrigação de dever cumprido, estes homens são lançados e espalhados pelas matas e savanas de uma África colonial portuguesa com uma arma na mão, desconhecendo totalmente o sentido deste trágico destino. As marcas e o desgaste desta guerra já se sentem na sociedade portuguesa que aspira a mudança de quatro décadas de isolamento, tendo como pano de fundo um Portugal obsoleto gerido por um regime em fim de ciclo.

À margem destes pensamentos que assolam o espírito de Alfredo, é dado o sinal de embarque no Boeing 707 da TAP que levantará em breve da pista da Portela em direcção ao Trópico de Capricórnio, mais precisamente à Província ultramarina de Moçambique com escala em Luanda, Angola.
Uma viagem de dez longas horas para percorrer os 8.450 Km entre as duas cidades, onde entre sonos perdidos e uma ou outra conversa com passageiros interessantes, este casal cumpre assim mais uma travessia aérea com peso próprio e uma nova experiência para Susana, que pisa pela primeira vez um território da África austral.
Com a calorosa recepção a estes dois jovens por parte da família de Alfredo, estão assim lançadas as condições para 10 dias de sonho por terras de Moçambique.

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A residência dos casal Sousa Campos no bairro da Sommershield é palco de natural entusiasmo com a chegada do filho caçula e da sua namorada, que rapidamente conquista a simpatia e o calor da família.
À mesa do jantar, entretanto servida por um belo prato de camarões grelhados na chapa, a conversa está naturalmente animada com a presença de Fiona, o marido e as crianças que já estão bem mais crescidas. Alegria no ar, naturalmente.
O pai Joaquim Sousa Campos começa por erguer um brinde aos recém formados nos respectivos cursos, momento vivido com natural entusiasmo.
Uma vez abordadas as expectativas de cada um em relação ao futuro, é a vez de Alfredo comunicar à família o que vive no seu espírito.
-Temos falado muito, eu e a Susana, sobre os passos que queremos dar num futuro próximo.
-A mãe Margareth, que está naturalmente curiosa, exclama.
-Yes, darling!…conta-nos tudo.
-Como vos disse esta tarde, a minha relação com a National Geographic Magazine tem dado sinais positivos que, conforme espero, serão reforçados com a realização desta reportagem no Egipto. Eu e a Susana temos uma grande apetência pelas viagens e fazemos um excelente trabalho de equipa.
Com um olhar de alguma meiguice, Margareth vira-se agora para Susana perguntando:
-E esta experiência traumática do Cairo não a assustou, para continuar a viajar por horizontes envolvendo risco?
Com segurança no olhar Susana responde.
-Sabe? O que me aconteceu no Egipto é uma circunstância de alguém que está no local errado à hora errada. Não quero de forma alguma viver com esse estigma na minha vida…sou uma jovem com aspirações e encontrei no Alfredo uma alma gémea com quem partilhar este tipo de experiências.
Vez da irmã Fiona intervir, perguntando ao irmão Alfredo.
-E agora com o curso concluído pretendes fazer o quê, mano?
Ao que Alfredo responde.
-Se a National Geographic estiver na disposição de promover outras reportagens do género, irei aproveitar para dar corpo a algumas ideias que são conhecidas de todos vós. Seguir alguns trilhos do avô Donald em determinadas partes do mundo que me fascinaram particularmente. Este foi um grande motor desta viagem ao Egipto onde as notas do meu avô valeram ouro. Se por ventura isto não acontecer, terei sempre a alternativa de integrar uma equipa de investigação em Cambridge aceitando o convite do meu mentor de curso Stanley J. Tambiah.
-Bem!…acena com a cabeça o pai Joaquim. E quanto a Susana?…como pretende dar asas à sua nova carreira de socióloga?
Lisonjeada pela pergunta, Susana responde enquanto é servido um prato de pato no forno que é uma das especialidades da família Sousa Campos.
-Eu também tenho uma resposta para dar em Lisboa a um instituto financiado pela Fundação Gulbenkian, dedicado a estudos relacionados com o mundo português através dos séculos. Mas confesso, se os projetos do Alfredo forem em frente, estarei com ele para dar forma a novas aventuras pelo mundo.
Risos na sala.
No calor da conversa é tempo de Alfredo perguntar aos pais.
-E como está a vossa vida em Moçambique? O que é que se pode dizer desta guerra que não acaba? A opinião do tio Manuel, com quem falei deste tema em Lisboa, não foi nada animadora.
O eng. Sousa Campos, após alguns instantes de silêncio, diz:
-Meu filho. A situação em Moçambique tem vindo a agravar-se seriamente. Nos anos sessenta esta guerra era um fenómeno político que o Estado conduzia com algum mutismo, passando à população residente a ideia de que tudo estava sob controle.
– E hoje, como está a situação?
-Está bem mais complicada!…uma guerra que se confinava ao norte de Moçambique foi descendo território abaixo, já havendo informações de escaramuças nas províncias de Sofala mais ao centro e com uma tendência para evoluir para sul, em direcção à região da Beira. Contrariamente às informações da propaganda do Estado português, esta guerra só se pode manter enviando mais meios e tropas para Moçambique. Há no interior do regime uma grande pressão em sentido contrário, demasiados mortos e estropiados e os sinais de desgaste desta guerra espalhada por três países de África e Timor Leste, já são visíveis.
-E como vai ser com a actividade nas minas? Pergunta Alfredo
-A empresa belga que me contratou para trabalhar em Moçambique já fez um acordo com o governo português no sentido da rescisão do contrato de extracção, ficando esta actividade nas mãos do Estado português. Fui convidado para continuar a minha função, mas eu a mãe temos conversado muito sobre isto tudo. Perante as incertezas que se desenham em Moçambique, tomámos algumas decisões.
-Então contem lá! Pergunta Alfredo expectante.
-Já tenho a minha dose de extracção mineira, filho. Uma caminhada de uma vida que me preencheu e da qual só tenho boas recordações. Moçambique ficará na minha memória como uma terra que nos ofereceu uma vida excelente. Mas penso que quarenta e três anos nesta actividade chegam bem para contar como foi. Vamos regressar em breve à Austrália.
Sem mostrar sinais de surpresa, Alfredo responde.
-Bem, este cenário já eu tinha abordado com o tio Manuel em Lisboa que me disse que provavelmente seria o vosso caminho. E quando pensam partir?
-Tenho algumas situações para resolver em Moçambique. Alguns aspetos do meu vínculo com as minas de Moatise e, resolvidas as situações logísticas, penso que poderemos partir para Brisbane no início do próximo ano.
-E vocês, Fiona?…o que pretendem fazer?
-Face a esta situação que começa a complicar-se em Moçambique, eu e o Tom decidimos que o nosso futuro a médio prazo será partir no inicio do ano que vem para a África do sul onde o Tom tem um novo contrato à sua espera na região de Cape Town. Eu depois me adaptarei ao novo ambiente onde continuarei a dar as minha aulas.
-Ok! Vamos então fazer um toast aos nossos projectos. Diz Joaquim levantando a taça de vinho.
-Que o futuro nos sorria a todos!…reforça alegremente a mãe Margareth.
No calor desta agradável conversa, é vez do pai Joaquim informar.
Aos jovens licenciados reservamos um presente especial.

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-Humm…diz Alfredo olhando para os pais com entusiasmo.
Contactei há dias um amigo que está no ramo hoteleiro e reservei uns dias de férias para vocês na Inhaca, uma ilha de sonho ao largo da Baía de Espírito Santo. Um programa completo que inclui viagem em Cessna, estadia no motel e algumas actividades que seguramente vão gostar de vivenciar. Mergulho nos corais e não só….e que tal?
O sorriso deste casal de jovens não esconde o agrado com que recebem este presente.
-Excelente! Vou ainda hoje confirmar esta estadia e, se tudo correr bem, partem já amanhã logo pela manhã.
A noite nesta capital foi dedicada a um circuito citadino por esta pérola do Índico que culminou com uma noite a dois no quarto de Alfredo, marcada pela volúpia e paixão tão partilhada por estes dois jovens apaixonados. A entrada no limbo foi suave e merecida.

Reunidas as condições para uns dias de sonho numa ilha tão exótica como a Inhaca, o embarque a bordo do Cessna deu-se às primeiras horas de um novo dia.
Neste voo para esta ilha a 21 milhas da costa sobre a Baía do Espirito Santo, a conversa com o piloto está animada.
-Deixem-me falar-vos um pouco da Inhaca. Comecemos pelas suas belas praias e imponentes corais. Tão perto e tão longe, direi. Perto, porque se chega em dez minutos de avião, com ligações duas vezes por dia e em cerca de uma hora de barco. Tão longe, porque estranhamente a Inhaca está nos hábitos de um grupo restrito de portugueses aqui residentes, que realmente usufruem deste paraíso. Este é igualmente um destino bem apetecido de turistas oriundos dos países vizinhos… e não só!

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-E o fluxo de turismo é grande?…pergunta Susana maravilhada com este voo de baixa altitude sobre um azul turquesa da famosa Delagoa bay.
-Felizmente muitos. Os sul-africanos chegam em enormes grupos para acampar, principalmente no inverno, e o Motel tem bons índices de ocupação ao longo do ano.
Falar da Inhaca é falar no seu Motel, da reserva integral que está sob a responsabilidade da Estação de Biologia Marítima, um departamento do Estado na província de Moçambique. As praias da Inhaca são diversas sendo a Ilha dos Portugueses, ali ao lado outro local a visitar. Há quem lhe chame a Ilha dos leprosos pois foi reservada em tempos idos para ali “depositar” as vítimas da lepra. A praia do Farol, a norte, é a minha favorita. Extensa e selvagem, devendo o seu nome ao farol ali construído em 1894. Não é por acaso que a Inhaca é considerada um dos dez melhores locais de Moçambique. Santa Maria, a sudeste da ilha, com os seus recifes, rochedos cobertos de conchas e longo areal, é outra das praias que não mais se esquece.
Os recifes da Inhaca comportam mais de 160 espécies de corais e à sua volta, vivem grande número de peixes e muitas espécies de invertebrados.

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As águas são excelentes para mergulho. Grandes áreas da ilha da Inhaca estão a ser objecto de estudos, tendo em vista a protecção ecológica que conta com a infra-estrutura da Estação biológica, destinado à educação e à pesquisa e onde funciona um museu, construído em 1951. Perto de 300 espécies de pássaros selvagens já foram identificados na Inhaca, incluindo o raro pica peixe-dos-mangais.
-Fantástico!…respondem numa só voz estes entusiasmados visitantes do índico.
Estes dias neste pequeno paraíso terrestre ficarão para sempre gravados na memória destes jovens merecedores de tão agradável experiência.
Dias de praia, mergulhos nos corais, visitas ao Centro de Biologia marítima, um circuito local à ponta de Santa Maria e uma visita à Ilha dos portugueses num barco de pescador local. Dias passados no deleite de um motel de eleição com uma espetacular piscina…e a gastronomia diária onde o marisco abunda acompanhado de peixe fresco pescado em cada manhã nestes mares de uma riqueza singular…bem!…se existe um paraíso na terra…este é na ilha da Inhaca…diz Susana maravilhada com este paraíso.

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O regresso à capital é marcado por alguns circuitos na cidade que viu crescer Alfredo.
O convívio deste jovem casal com os alguns dos seus antigos amigos deixa uma agradável experiência nas suas memórias.

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Segue-se um outro programa interessante. Aceitar o convite de um amigo do pai Joaquim para uma visita algo rápida a outro local de eleição desta região sul da Província de Moçambique. Uma praia conhecida de muitos portugueses aqui residentes e muito frequentada por sul-africanos denominada de Ponta do Ouro.

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Que dias magníficos!…que semana fabulosa nesta costa austral do índico.
-E que tal, Susana?…impressões desta terra?
-Humm…meu querido!…Moçambique é um paraíso na terra. Pena estar há tantos anos em guerra!
-Pois, minha linda!…é realmente pena!…mas tudo isto parece incontornável, pois trata-se de uma ocupação compulsiva de um território que pertence legitimamente aos nativos desta terra que reclamam há muito a sua independência de Portugal…ouviste ontem o discurso daqueles meus amigos ligados à universidade. Totalmente opostos ao regime colonial…eles acham que este Moçambique tem os dias contados. Vamos ver no que vai dar tudo isto.

Nesta última tarde em casa dos pais de Alfredo, toca o telefone.
Margareth atende e fala no outro lado da linha com alguém da família. Trata-se do cunhado Manuel Sousa Campos que conta as últimas de Lisboa.
Passados uns minutos desta agradável conversa, Margareth chama Alfredo ao telefone.
Alf darling!…chega aqui ao telefone!…will you?
-O que é, mom?…pergunta curioso o jovem antropólogo.
-É o teu tio Manuel que está a ligar de Lisboa e quer falar contigo.
Pegando no telefone, Alfredo diz:
-Oi, tio!…que bela surpresa!…está tudo bem?… pergunta este jovem curioso.
Do outro lado da linha e após o caloroso cumprimento familiar, Manuel informa:
-Alfredo, meu sobrinho!…chegou aqui a casa uma carta dirigida a ti da National Geographic Magazine.
-Uau! Exclama Alfredo excitado. Pode abrir e dizer-me do que se trata? Vem escrita em Inglês mas para o tio não é problema…certo?
-Claro!….aguarda um pouco para que abra o envelope.
O que Alfredo escutou em inglês claro foi música para os seus ouvidos.

“Prezado Sr, Alfredo Campos,

A National Geographic Magazine procedeu à apreciação do trabalho de reportagem no Egipto que nos apresentou recentemente. Este trabalho de notável qualidade correspondeu ao perfil exigido por esta revista, sendo a decisão desta comissão no sentido da sua publicação em outubro próximo.
Mais informamos que, para assunto do seu interesse, é nosso desejo marcar uma reunião na nossa sede em Londres em data conveniente para ambas as partes.
Estaremos naturalmente à sua disposição para a marcação deste encontro.

Yours sincerely

Richard Jenkins
(Publishing coordinator)”

National Geographic

-Obrigado tio. Excelente notícia. Guarde-me por favor essa carta à qual vou responder quando regressar.

Com esta boa notícia vivamente partilhada com Susana e família, Alfredo sorri como um sol.
Tempo de encerrar este magnífico período de férias amplamente merecidas.
Acertados com os pais alguns aspectos relacionados com a herança do avô Donald, Alfredo sente-se mais apoiado financeiramente e confiante no futuro.
As despedidas da família nesta última noite em Lourenço Marques foram brindadas com um belíssimo jantar no Dragão de Ouro…um dos mais conceituados restaurantes chineses da capital. Momentos de natural euforia e algumas lágrimas também.

Às primeiras horas do dia 22 de Agosto de 1973…a potente aceleração dos reactores deste Boeing 707 da TAP na pista do aeroporto Gago Coutinho marca uma nova caminhada na vida deste jovens adultos, que se despedem emocionados desta fabulosa região da África austral.

Hemisfério norte!….aqui vamos nós!

10 comentários

10 thoughts on “Na sombra da esfinge

  1. Maria Teresa.Barbosa.

    Mais uma excelente descrição nos foi dada de toda a vivência deste jovem investigador ,tanto na vida académica como na sua arrebatadora paixão pela sua dulcineia.Parabéns e um sempre obrigada pelos momentos com que mais uma vez nos contemplou .Um beijinho para o simpático casal.

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  2. Olá Maria Teresa,
    A conclusão da formação em Antropologia de Alfredo mereceu um tratamento mais cuidado tratando-se de uma das mais prestigiadas universidades do globo.
    Seguem-se agora novos caminhos onde o insólito e os imprevistos serão o prato forte no quotidiano destes jovens …grato pelas simpáticas palavras!…um sincero abraço!

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  3. Maria Teresa.Barbosa.

    Na sombra da Esfinge: Comentário .Terá que ser o mais curto possível.A descrição de São Jorge dos Ilhéus (Baía ) me fez lembrar a pena do saudoso Jorge Amado.Que maravilhoso retrato.Sobre o Egipto vi um escrito feito por um verdadeiro historiador Duas palavras para o guia Khalili que tanto nos deliciou com as suas lendas sobre o Deus Crocodilo.
    Mais uma vez agradeço compartilhar connosco tão belos escritos .Um beijinho amigo para este simpático casal da amiga M Teresa

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  4. Olá amiga Teresa,
    Pois agora vamos entrar em horizontes mais agitados…onde por vezes o respirar se suspende e onde o imprevisto é rei. O grande império egípcio foi efectivamente uma pegada muito forte deixada sobre o nosso planeta.
    E vamos continuar esta caminhada por terras do Cairo….votos de uma excelente leitura!
    Grande abraço nosso!…bem haja!

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  5. Maria Teresa.Barbosa.

    O nosso amigo teria sido um óptimo professor,pela maneira que escreve ,levaria os alunos mais preguiçosos ,a tomarem conhecimento da matéria com o maior interesse.Para terminar e nos deixar em suspense comunica-nos o desaparecimento da encantadora Susana.Aproveito para desejar ao simpático casal e a toda a família um Santo Natal e que o Novo Ano,seja repleto de felicidade.
    Beijinho para os dois da amiga Maria Teresa (mãe Tété para os amigos )

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  6. Olá Maria Teresa,
    Só agora passei por este espaço que se encontra em época sabática.
    Os coitados do Alfredo e Khalili não sabem o que aconteceu à Susana…apenas eu sei como isto aconteceu…prometo que não lhes direi como tudo se passou mas lá encontrarei uma saída para a valente Susana…quando chegar a hora de regressar ao piano vamos ver como tudo se passa em plena cidade do Cairo…isto promete!
    Aqui lhe deixo os nossos votos de uma excelente passagem de ano…forte abraço…Happy new year!

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  7. Maria Teresa.Barbosa.

    Com muita curiosidade aguardo o fim desta aventura no museu do Cairo. Votos de um 2016 com muita saúde e alegria .

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  8. Olá Maria Teresa,
    Tenho passado por aqui amiúde e só hoje vejo este seu comentário.
    A boa notícia é que apesar de eu ter um objetivo algo rígido em torno de uma exposição plástica para lançar este ano aqui no Brasil, vou retomar esta escrita dando corpo a uma narrativa que ainda tem muito para contar.
    A partir de amanhã um novo episódio irá para o ar!
    Uma excelente leitura é o meu desejo…bem haja pelas suas palavras sempre amigas.
    Um abraço apertado!

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  9. Maria Teresa.Barbosa.

    Olá meu bom amigo.
    Acabei de ler até ao fim sem deixar escapar nada e,vai-se rir pois quando meu marido ou por outra palavra mais bonita ,o meu companheiro me interrompeu,para saber onde tinha posto o comando da televisão,foi irritada que lhe respondi pois estava na parte mais aliciante deste desfecho tão desejado.Toda esta trama tão bem urdida e bem descrita ,encantam qualquer pessoa que goste de boa literatura.É assim :quem é bom qualquer texto lhe serve para ser devidamente tratado.Parabéns e,bem haja por mais estes belos momentos Saudações amigas e um beijinho para o simpático casal.

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  10. A sua simpática presença neste espaço mais esta vez nos fez sorrir!…pois assim foi!…nesta aventura tenho um raro privilégio…determinar o curso dos acontecimentos e permitir que os meus leitores vivam comigo as minhas opções.
    A saga continua com mais uma viagem à nossa terra austral para rematar este capítulo que já vai longo…e seguir para outros horizontes!
    Bem haja minha amiga!…um abraço apertado deste lado do mar!

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