O regresso à savana

Regresso à savana

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1ª Parte – Os contornos de um regresso agitado

Ao fim de cerca de 8 horas e meia a bordo deste fabuloso trijato “DC 10” da Varig, e cumprindo uma vez mais a travessia deste imenso Oceano Atlântico, fazemos a nossa aterragem no aeroporto Jan Smuts, em Joanesburgo (África do sul).
Ao tocar no solo, o ruído clássico daqueles pneus comporta desta vez um significado especial.
O contacto físico com o continente que nos viu nascer. África, um nome mágico e inspirador de inúmeros sentimentos que percorrem o meu ser neste momento mágico.
Um regresso aos horizontes sem fim…estamos na África do sul…o território lendário dos Big five – Leão, Elefante, Búfalo, Leopardo e Rinoceronte.
Ao sair da porta daquele imenso pássaro metálico, somos assaltados por um horizonte onde o sol se deita rodeado de uma maravilhosa explosão de cores …entra agora no meu espírito emocionado um ritmo zulu dos anos 50 . “Awimbawe”…the Lion sleeps tonight”…sinto os olhos molhados!

Jan Smuts 1   Jan Smuts 2
O aeroporto Jan Smuts não deixa de provocar um certo arrepio, recordando os tempos difíceis que vivemos aqui na nossa atribulada passagem para o Rio de Janeiro, 8 meses antes.
O nosso voo de conexão para Moçambique através da South African Airways terá lugar às primeiras horas do dia seguinte.
Iremos portanto passar esta noite num hotel de Joanesburgo.
A bordo desta navette estamos a atravessar um mundo deveras diferente.
Diferente na sua estrutura urbanística, na arquitectura e confirmando que, apesar de estarmos num país de presença branca, estamos sem margem de dúvida em África.
-Mano velho! …voltamos para casa…aquele pôr do sol…o cheiro…as cores não enganam, hein? Digo ao meu companheiro Nuno com visível excitação.
Yeah, Chicão!…vou aqui calado, mas te digo uma coisa!…este feeling não tem explicação!
Este circuito de 13 km leva-nos até Kempton Park, entrando num soberbo hotel rodeado de belos jardins, com fontes e estátuas em pedras espalhados aqui e ali…soberbo este lugar.

Emperors-palace-hotel-kempton-park-2   hotel kempton-park-1
Estamos no Metcourt Hotel que faz parte do grupo Emperors Palace Hotel com Casino e Convention Resort. Que nome espetacular e que lugar fabuloso para passar a noite, pensei.
Cansados da viagem e uma vez instalados em suites bem confortáveis, é tempo de tirar partido de um interminável banho quente…que luxuria, rapaz! Pena que é só por esta noite.
Segue-se um segundo prazer imperial…o self service dinner que nos é oferecido numa das salas de jantar deste espetacular hotel.
-Tudo à pala do estado português, não está mal? Digo ao Nuno, enquanto me sirvo das poucas iguarias que posso comer.
-É! responde-me o Nuno em tom sarcástico!…amanhã de manhã já vamos ver se é à pala!
No espírito do Nuno pairava aquela frase proferida pelo nosso Embaixador em Bogotá: Vocês terão à vossa espera em Moçambique um funcionário da administração central que tomará em mãos o vosso processo de repatriação.
Escusado será dizer que após um papo animado num dos bares deste hotel, com uns sul africanos da nossa idade que costumam passar férias em Moçambique, a nossa noite de sono neste local foi próprio da realeza…simplesmente sublime!…acho que merecemos!

Um novo dia começa cedo com a toma de um suculento breakfast numa outra sala deste soberbo hotel. Tem que ser tudo mais rápido pois já temos lá fora a Navette do aeroporto à nossa espera.
Nova corrida!…nova viagem! Desta vez vamos naqueles aviões decorados de forma tão familiar com o Springbok (um antílope muito popular neste país e símbolo da África do sul) estampado na cauda.
A nossa viagem, que é feita a uma altitude mais baixa, revela-se rápida e sem história.
Novas sensações fortes ao tocar a pista do aeroporto Gago Coutinho na capital moçambicana.

South African Airways   Aeroporto-Gago-Coutinho

14 de Agosto de 1974 – 8 meses completos na América latina.

Batendo com os nossos punhos fechados e com um piscar de olho, eu e o meu companheiro de estradas poeirentas Nuno Quadros celebramos este momento, encerrando uma extraordinária passagem das nossas existências.
A vida nunca mais seria como antes…pensei!
Segue-se um momento crucial…a nossa entrada em espaço português e o tal encontro com o funcionário do aparelho central que tomaria os nossos passaportes em mão e a continuidade do nosso processo de repatriação.
Uma alegria crescente foi tomando conta de nós ao verificar que não estava ali ninguém à nossa espera. Talvez devido ao facto da máquina colonial do Estado estar a sofrer a tal transformação que eu já tinha percebido nas últimas cartas da minha mãe!…Yes!..os deuses estão novamente connosco!
Neste regresso a Moçambique, uma multiplicidade de sentimentos e emoções se cruzam dentro de nós. Um misto de alegria e saudade sentido neste roteiro de taxi que sai do aeroporto Gago Coutinho…passando pelo bairro do caniço…praça de Touros e dando por fim entrada na cidade das Acácias….a emoção é forte!
Mas algo está diferente. Não sei explicar. Ou seremos nós que estamos diferentes?
Tínhamos resolvido, tanto eu quanto o Nuno, não avisar a família da nossa chegada a Moçambique. O nosso taxi deixou-me em primeiro lugar à porta de casa, seguindo o seu trajecto para deixar igualmente o Nuno em casa dos pais.
Após um abraço apertado olhamos uma vez mais um para o outro e eu digo ao meu camarada:
-Mano velho!…quando vires o teu irmão Rui…firme, companheiro!…o mundo não acaba aqui!
-Deixa comigo, Chico!…depois do que nos aconteceu este ano…não há de ser nada! Depois te direi como foi!…Cheers!

A minha entrada furtiva pelos fundos da casa foi sorrateira e claramente denunciada pela Saci Perêre que não me via há muitos meses….uma natural excitação marcou este reencontro com o membro canino da família.
Indo ao encontro do seu entusiasmo, consegui mantê-la numa postura menos ruidosa apesar do alvoroço próprio deste encontro tão inesperado.
O Ananias (o criado lá de casa), quando me vê abriu muito os olhos e daquele olhar machangane quase saiu a expressão – Menino Chico está de volta!…o que não aconteceu face ao meu dedo cruzado sobre os meus lábios em sinal de silêncio. Apenas perguntei em voz baixa.
-Olá Ananias!…estás tudo bem?…A senhora está em casa?…está onde?
-Senhora está sim…lá no quarto dela! Responde-me este homem visivelmente contente com a minha chegada.
Poisando no chão a minha mochila com os restos de uma bagagem sobrevivente, lá fui entrando pela cozinha, dirigindo-me ao interior da casa.
O momento que se segue é de rara emoção. Tenho o meu universo sensorial ao rubro quando ao entrar silenciosamente no quarto dos meus pais vejo a senhora minha mãe sentada na cama entretida com os seus trabalhos em ponto cruz.
Dei um pequeno toque na porta seguido do olhar desta preciosa senhora que, ao ver-me, me salta ao pescoço como uma mola.
-Chico, meu filho! Dispara em minha direção com as lágrimas de alegria que jorram sem pedir licença.
É demasiada a emoção para ser integralmente descrita por palavras. Um abraço apertado que traduz uma espera de 8 longos meses. O caçula irreverente estava de regresso à casa.
-Oh, meu filho, que grande alegria me dás…mas olha para ti…tens passado mal não é?
-Estive doente e fui internado num hospital, mas já lá vai!…respondo com os olhos encharcados de emoção.
Após uma nova série de abraços, a emocionada Leonor pega-me pela mão levando-me para a sala onde está o telefone.
-Vem, querido!…tenho que contar ao teu pai!
A notícia face a algumas reservas que pairam no meu espírito foi recebida pelo meu pai com a maior alegria…muito bom sinal.
-Nuno. O Chico voltou!…não está com bom aspeto, mas voltou são e salvo. Exclama a minha mãe com um incontornável entusiasmo.
Passado momentos e a pedido do meu pai, é a minha vez de viver este primeiro contacto do 3º grau.
– Oi, pai!
-Voltaste, aventureiro?…muita alegria nos dás!…responde o patrão com a voz cortada pela emoção.
Sentindo naquele momento que aquela atitude defensiva do meu pai se dissolve numa verdadeira emoção por me ter de volta a casa, oiço aquela voz próxima dizer-me.
-Temos que celebrar isto!…venho mais cedo para nos contares toda essa aventura.
-Valeu, pai!….gostei de ouvir a tua voz!…o abraço espera mais umas horas.
-Tá, filho!….até mais logo…que boa surpresa!
As horas que se seguiram até a chegada do meu pai a casa foram de intensa e emocionada conversa com a mãe Leonor que irradia alegria por todos os poros.
Conversa que me permitiu saber notícias frescas do meu irmão pássaro que está, desde a minha partida para a América Latina, a sobreviver num cenário de guerra e notícias da evolução do quadro político em Moçambique na sequência da revolução de Abril em Portugal.
A chegada do meu pai a casa e a forma como nos abraçamos carrega sinais do final de um longo período de discórdia e distancia geracional entre um pai e um filho. O feeling é óptimo!…há que sentir e admitir que isto é um novo bálsamo na nossa vida.
Esta minha primeira noite em Lourenço Marques é vivida de forma especial. Num restaurante da capital na companhia dos meus progenitores onde a conversa se desenvolve naturalmente em torno dos relatos da minha aventura sul americana.
Eu sou um bom contador de histórias e ter dois ouvintes interessados desta qualidade, as horas passam e a noite vai longa e entusiasmada.
Para lá do meu relato ainda temos oportunidade de falar da situação de Moçambique face ao quadro político português, tendo no final recebido dos meus pais os sinais de natural preocupação face à minha aventura hepática.
Uma nova missão começa para a minha mãe. Repor a condição física do filho recém chegado numa condição pouco animadora. Trabalho de mãe que passa a partir de hoje por um regime alimentar específico, o merecido descanso do guerreiro e a toma diária de um chá de Cacana (planta moçambicana bem conhecida pelas excelentes propriedades de restauração do fígado).
Passei assim a dormir na minha cama de sempre com um tratamento de luxo…o de uma mãe dedicada. O meu fígado agradece, estando assim reunidas as condições para afastar os difíceis tempos do australopiteco de cor amarelada.

Alguns dias se passaram desde a nossa chegada a Moçambique. Em conversa com o Nuno fiquei a saber qual foi a receção dele lá em casa. Hilariante!
A chegada ao seio de uma numerosa família do mais novo e mais irreverente do clã, foi naturalmente inesperada e emocionante.
Com a surpresa geral e grande alívio dos pais, foi naturalmente comunicado ao irmão Rui que o caçula estava de regresso a Moçambique.
O momento mais marcante deste reencontro deu-se com a chegada a casa do irmão Rui que, de forma impetuosa, entra em casa e olhando atentamente para o Nuno, dispara um olhar cortante.
Sob a atenção expectante da restante família, o Rui Quadros olha profundamente para o caçula proferindo algumas palavras nos momentos seguintes.
-Oh, puto!…Eu devia dar-te uma carga de porrada!
Este momento, marcado por um silêncio sepulcral, é continuado por uma frase que deixa a família aliviada…
-Mas vejo que cresceste…e o que fizeste é de homem!…dá cá um abraço!
E alguma paz desceu sobre o clã Quadros…a vida continua e a aprendizagem cresceu!

No plano político, que preenche o quotidiano dos residentes neste território austral fala-se agora de um acordo de paz a estabelecer entre o Governo de Portugal e a FRELIMO (Frente de libertação de Moçambique) tendo em vista o fim de todas as hostilidades no terreno e o reconhecimento do direito de Moçambique a aspirar a sua independência.
Este acordo terá lugar no próximo dia 7 de Setembro na cidade de Luzaka (capital da Zâmbia).
Segundo os meus pais me contam, consta que neste momento já não haverá confrontos no terreno, o que representa para ambos um grande alívio quanto à presença do meu irmão Rodrigo no teatro de guerra.
Dentro de poucos dias teremos a visita à capital do nosso piloto aviador pela ocasião de uma licença de serviço.
Ao ouvir esta notícia, dou-me conta que não vejo este meu irmão há quase dois anos. E todo este tempo devido a ausência dele, desde inicio de 1973, onde esteve em Portugal a formar-se enquanto piloto aviador, período ao qual se acrescenta os 8 meses da minha ausência na América latina.
Outro aspeto que pairava no meu espírito era voltar a ver a minha ex namorada Tina que, segundo soube através de alguns amigos, se encontra a residir no bairro da Sommerschield.
Esta tarde e em companhia de outro amigo, fui a este bairro no sentido de rever esta minha ex namorada que deixei à minha espera em Janeiro deste ano.
A minha expectativa não é grande pois levo na consciência que a Tina não estará propriamente entusiasmada em rever-me.
E o meu feeling estava certo.
Ao entrar pelo jardim de uma moradia neste bairro de referência onde mora um cineasta moçambicano de nome Fernando Silva, somos informados que ao fundo do jardim estará um grupo de amigos entre os quais estará a Tina.
Esta morena bonita de cabelo aos caracóis e olhar expressivo olhou para mim dizendo-me de forma fria e cortante.
-Olá!…já me tinham dito que estavas de volta!…tudo bem?
-Tudo bem, Tina…e tu como vais? Pergunto simpaticamente.
-Nunca estive tão bem!
No sentido de poder transmitir a Tina as causas que conduziram a minha atitude para com ela desde Janeiro deste ano, pergunto:
-Podemos dar uma volta para conversar um pouco?
-Não acho uma boa ideia, Chico!…acho que o que teremos a falar um com o outro está mais do que falado…não há nada a adiantar!
Tive neste momento plena consciência que o olhar da Tina para mim tinha mudado radicalmente.
Não deixo de lamentar este sentimento, dado que não se trata de recuperar uma namorada perdida e antes justificar uma atitude eventualmente injustificável. A compreensão dos factos falou mais alto e eu resolvi não insistir.
A Tina ficará naturalmente na minha memória como uma passagem doce na minha vida…uma vida que continuará o seu curso…como um interminável rio…vamos em frente!

Com a chegada passados alguns dias do meu irmão pássaro à capital, o reencontro de irmãos foi um momento de natural emoção.
Com o meu fígado mais regenerado e com a vontade que ambos sentimos de colocar a escrita em dia, combinámos sair esta noite para uma noitada por aí tendo como maior objetivo rever os nossos caminhos, eu pelas Américas e ele nessa inimaginável experiência que lhe ofereceu esta maldita guerra colonial.
Pedimos para tal o carro do pai emprestado, que foi concedido por um pai que viu com bons olhos o reencontro dos seus filhos marcado por uma ausência prolongada e por um evidente entusiasmo.
O jantar é no Dragão de Ouro, o famoso restaurante chinês na marginal junto à Baía do Espírito Santo.
Uma conversa deveras animada que rodou à volta dos temas presentes. O meu roteiro sul americano e os detalhes sórdidos de uma guerra sem sentido carregada de relatos violentos vividos na primeira pessoa por este meu irmão.
No desenrolar destes relatos, tocaram-me particularmente dois aspetos que guardo na memória. O bombardeamento de aldeias inteiras em teatro de guerra com a utilização de Napalm (bombas incendiárias de destruição maciça) largadas pelos pilotos aviadores da Força Aérea Portuguesa sobre as aldeias indígenas onde supostamente se alojavam simpatizantes da FRELIMO e uns meses mais tarde, depois da sua formação na especialidade de helicópteros, na recolha de feridos em zonas de guerra.

FAP 1   Napalm
Depois de saboreado o nosso belo jantar, devidamente regado com um Casal Garcia e um Gatão estupidamente gelado, o meu irmão Rodrigo soltou a língua contando-me alguns horrores dizendo-me com lágrimas nos olhos que chegou a recolher partes de corpos de camaradas seus sem saber a que corpos pertenciam.

guerra colonial-2  FAP 3
A nossa entusiasmada conversa teve continuidade no famoso Zambi, onde nos juntamos com mais alguns amigos dele, militares em licença na capital, entre os quais me sinto como alguém de outro planeta.
Mas o espírito movido a álcool que trago neste momento tem uma abertura fora do comum e lá me integrei neste grupo, contando as minhas vadiagens pela América latina.
Desta vez rolam os whiskys e os Gin. O meu fígado depois de algumas semanas de tratamento qualificado não está a entender o que se passa. Mas um dia não são dias e lá lhe explico que é um momento memorável e que aguente firme esta passagem. Ficou pouco convencido.
Já são umas boas 4 ou 5 da manhã quando entendemos que o centro de gravidade está desviado em vários graus de amplitude e que é hora de regressar a casa.
Neste regresso em estado lastimável, o meu irmão ao volante do VW resolve seguir a marginal e subir para a cidade alta através do famoso Caracol.
Com os sentidos deveras nublados, ao passar na curva da palhota, enfiamos o rodado dentro de uma valeta com um resultado drástico…uma bela colisão com a dita palhota que se traduziu numa bela amolgadela no capot e num farolim partido do velho VW do pai Nuno.
Que grande merda!….dois irmãos que não se vêem há tanto tempo e se metem numa aventura com contornos incompatíveis…o álcool em doses maciças e a condução de um automóvel. Ninguém é perfeito!
A chegada pelas 5 da manhã a casa foi marcada por alguns vómitos e pela recolha furtiva deste dois manos com o centro de gravidade bem desviado.
A reação do pai Nuno no dia seguinte aos estragos do seu fiel amigo VW foi olhar para nós dizendo:
-Juízo não há?….já tem idade para isso!…mas eu sei o que isso é! Repica o pai Nuno lembrando-se de outras épocas na sua terra natal Torres Vedras onde a malta nova se tratava muito bem nas saídas em grupo…enfim! A vida a rolar!
Encolhidos na nossa condição de meninos mal comportados, apenas olhamos um para o outro respondendo ao pai.
-Não medimos bem a situação!….desculpe lá isto, pai!
E a vida familiar segue o seu curso!

A queda de um império – Viagem ao epicentro de um sismo

A queda do Império 2

Com a perspectiva da assinatura do acordo de Lusaka anunciado para 7 de Setembro de 1974, todo o cenário da vida moçambicana até então caracterizada por uma vivência colonial marcada a norte por uma intensa guerra de guerrilha e ao sul por uma dolce vita, entrava agora num novo ciclo sem precedentes na sua história de quase 500 anos de ocupação.
Com o cumprimento deste acordo criam-se condições para a formação de um governo de transição, onde a partilha da administração do território deixa os seus primeiros traços.
Para melhor compreender o novo enquadramento de Moçambique perante a perspectiva de uma independência a prazo, aproximei-me de alguns amigos ligados aos movimentos estudantis onde pude escutar algumas informações interessantes.
Com a morte anunciada do sistema colonial português, desenvolvem-se a partir desta fase alguns movimentos de interesse em torno do tema independência.
Nesta fase, Moçambique vê nascer a denominada Frente interna onde se destacam algumas figuras moçambicanas que desenvolvem acções carismáticas no sentido de caminhar para um tipo modelo diferenciado de independência.

Jorge Jardim   JOANA SIMEÃO
São estes Jorge Jardim, com ligações a Domingos Arouca, notável defensor das ideias independentistas de Moçambique, preso anteriormente pela PIDE (Policia Internacional de Defesa do Estado), e com Miguel Artur Murupa, grande admirador de Eduardo Mondlane (Fundador da FRELIMO) e Joana Simeão que forma entretanto um grupo denominado de GUMO (Grupo Unido de Moçambique) com apoios colhidos nos Estados Unidos e que começa a agitar seriamente o panorama actual de Moçambique.
Numa clara degradação das condições de trabalho por parte do aparelho colonial português, a PIDE, que evolui entretanto para DGS (Direção geral de Segurança), numa tentativa de refrescar a imagem da máquina de ocupação, encontra sérias dificuldades em prosseguir com os seus métodos de trabalho face à falência do aparelho do Estado português em território moçambicano. Em paralelo, estes movimentos ganham uma expressão crescente na defesa das suas visões para a independência do território, sendo o movimento GUMO, com ligações a facções específicas da FRELIMO, um dos mais activos na Frente Interna.
Neste jogo está igualmente envolvido o último ministro do Ultramar de Marcelo Caetano (regime colonial) Baltazar Rebelo de Souza que tenta, sem grande sucesso, manter alguma autoridade lusitana sobre o território moçambicano.

Acordo Lusaka 2   Acordo Lusaka 1
Na véspera de assinatura do acordo dia 6 de Setembro de 1974, Lourenço Marques transforma-se numa cidade fantasma face aos comícios organizados pela FRELIMO num discurso marcadamente maoista. O clima na capital adensa-se nos comentários de medo e algum desespero, sentindo-se cada vez mais claramente que o poder sai da boca das espingardas, uma velha mensagem sempre presente em tempos de agitação de carácter revolucionário. Segundo alguns relatos, as provocações vindas por parte de alguns grupos pro-FRELIMO já bem instalados na capital moçambicana, são a chama ideal para atear o rastilho da discórdia.
Em todo o território de Moçambique gera-se no seio das mais diversas faixas da população residente, o medo e a inquietação quanto ao futuro. Teme-se seriamente sobre o desenvolvimento deste processo e como tudo isto irá terminar.
Para agravar estes medos, ecoam por todo o território alguns discursos triunfantes das forças da Frente de Libertação de Moçambique que não são um bom augúrio.
A evolução dos acontecimentos dá-se no mesmo dia 7, não estando ainda consumado o Acordo de Luzaka, quando saem à rua nalgumas cidades de Moçambique muitos milhares de pessoas, num movimento popular que, através dos testemunhos divulgados nos órgãos de comunicação, nasce como um movimento espontâneo tendo a sua expressão mais espectacular na ocupação do aeroporto Gago Coutinho e a manifestação e ocupação das instalações do Rádio Clube de Moçambique em Lourenço Marques, que passou a emitir em nome do movimento Moçambique Livre. Nele se uniram muitos funcionários da administração e das forças de segurança, jornalistas, antigos combatentes, residentes do território, chefes políticos moçambicanos de várias cores, em sentido literal e figurado, vindos de múltiplos quadrantes da província.

7 de Setembro 001 (3)   LM-07Set1974_BandeiraNacional_rasgada1   7 de Setembro 005
Dias antes foi constituído o denominado Partido de Coligação Nacional em cuja Comissão Executiva se juntam representantes do COREMO, da FUMO, do MONIPAMO, etc., entre os quais Uria Simango e Joana Simeão, dois dos mais conhecidos e dos mais contestados também.
Este é um grito de protesto contra a entrega de Moçambique a um único partido considerado minoritário e com ligações aos movimentos comunistas do leste europeu, que se constitui como um movimento entusiástico conduzido por civis desarmados.
Assim eclodiu inesperadamente uma revolta de carácter espontâneo, cujo objectivo é combater a forma de entrega do território moçambicano assumida pela descolonização.

Noticias3   Rádio Clube LM

Nesta revolta espontânea juntaram-se milhares de brancos, negros, indianos e mulatos que ocupam para além do aeroporto, a estação do Rádio Clube de Moçambique, as redacções dos principais jornais, agregando-se numa imensa massa humana nas principais artérias da capital. Pedem que seja ouvido o povo moçambicano, que se realize um plebiscito em harmonia com o Programa do MFA (Movimento das Forças Armadas) que conduzira em Portugal a revolução dos cravos.
Mas o governo português tornou incontornáveis as promessas feitas em 25 de Abril quanto à descolonização.
Spínola, o homem do monóculo, aprovava sem pestanejar o protocolo de Lusaka. O PS e o PCP, partidos entretanto instalados no novo regime com voz activa no novo panorama político português, emitiam comunicados que não deixavam qualquer margem para dúvidas quanto à interpretação dos factos ocorridos em Moçambique. Ambos afirmam sem rodeios: “não se pode admitir que uma minoria de reacionários impeça o caminho do povo de Moçambique para a sua legítima libertação. A descolonização portuguesa constitui uma forma nova, original e revolucionária, conferindo aos povos oprimidos a possibilidade de serem senhores dos próprios destinos e livres da ingerência das super potências.
De forma autista, o governo português em articulação com a tropa portuguesa e com a participação activa e audaz de Samora Machel (Presidente da FRELIMO) com quem assina o acordo de Lusaka, decidem agir perante este levantamento popular.
Em Lisboa, discursos extremados tomam uma particular expressão nesta fase.
Spínola envia ameaças aos líderes da revolta moçambicana, insinuando que se necessário for manda a aviação bombardear o Rádio Clube de Moçambique.
Nesta espiral de afirmações totalmente descontroladas, destaca-se uma frase de Mário Soares (dirigente do PS): se for preciso, atirem-nos ao mar!
Neste clima de censura por parte dos dirigentes da revolução de Abril em Lisboa, tenta-se por todos os meios escamotear a dimensão do movimento, imputando-o a uma minoria sem expressão. Contudo, a revolta é generalizada, cobrindo a quase totalidade das minorias branca e asiática, dos mulatos e vastos sectores da população negra, sobretudo aquela que afirma conhecer o terrorismo da FRELIMO, a brutalidade do seu líder Samora Moisés Machel e os desmandos de um exército onde predominam militares, na sua maioria analfabetos e primitivos.
A liderança da revolta é composta por Joana Simeão, jornalista negra que se opusera durante anos ao poder português, mas que se aproximara de uma posição negociada, líder fundadora do GUMO (Grupo Unido de Moçambique), Máximo Dias, também negro e co-fundador do GUMO, o pastor Uria Simango, o dissidente da FRELIMO Lázaro Kavandane, Neves Anacleto, um respeitado jurista branco republicano conhecido pela sua oposição democrática a Salazar, advogados, economistas e médicos indianos, membros destacados das comunidades negras (régulos), pastores e sacerdotes cristãos, homens de negócios, membros das forças de auto-defesa de Moçambique (milícias, OPVDC Organização Provincial de Defesa Civil) e quadros negros intermédios. Os meios de que dispõem são escassos. Mal armados, mas contando com a carismática presença de guerreiros de elite do exercito português, dos quais se destaca Daniel Roxo.

Spinola Resigns   Daniel Roxo   Samora 4
Sabem que não podem combater a tropa portuguesa, mas podem tentar impedir o controlo das principais cidades do território por parte da FRELIMO, a qual não dispõe de efectivos nem capacidade para se impor globalmente em território moçambicano. Uma ajuda chega entretanto ao movimento Moçambique livre oriunda da África do Sul. Nos dias 7 e 8 de Setembro começam a chegar a Moçambique centenas de portugueses ali radicados, dispostos a ajudar os patriotas de Lourenço Marques.
O Movimento Moçambique Livre padecia contudo, de uma incurável vulnerabilidade: era apenas a expressão espontânea de um povo ultrajado no direito de escolher o seu futuro, traído por Lisboa e entregue ao assalto do poder por parte da FRELIMO.
Durante três dias esta vaga tomou novas proporções e chegou a pensar-se que chegaria a ser uma revolta nacional. Ao terceiro dia, abateu-se, para não mais se levantar, não sem que tivessem sido enviados a Moçambique representantes do Presidente da República, com novas promessas e garantias falsa e hipoteticamente transmitidas aos residentes do território.
A 10 de Setembro, aos mesmos microfones da Rádio Moçambique Livre, agora rendida, um representante da FRELIMO protegido por militares portugueses difunde uma breve locução: Galo. Galo. Galo. Amanheceu.
Uma mensagem de código anunciando a Moçambique a capitulação do movimento. Seguiram-se dias de pânico, de saque e violências com muitos mortos e uma fuga em massa para territórios vizinhos.
Estes foram os dias mais agitados e o período mais conturbado da Província de Moçambique desde que vim ao mundo neste fantástico território da África austral .
Durante estes dias críticos, ficámos eu, o meu irmão e os pais fechados em casa, atentos às notícias difundidas na informação e contra informação disponível…dias de tensão deveras insuportáveis que recordarei por muitos e longos anos.

A queda do Império

É na sequência desta revolta popular que vivemos esta tarde, numa viagem que fizemos à Avenida do Trabalho, no sentido de ir buscar o pai que não tinha meio de voltar para casa no meio da confusão generalizada.
No caminho de regresso a casa sentimos o intenso trânsito parar. Tratava-se em princípio de uma operação stop, ou algum acidente rodoviário.
Sem compreender do que se trata e sem qualquer hipótese de voltar para trás, saio com o meu irmão do carro para nos aproximarmos do acontecimento.
O que vemos lá à frente nesta barricada controlada por militares da FRELIMO é de difícil descrição.
De Kalashnikov em riste, estes militares estão a pedir documentos aos ocupantes dos carros e, em casos extremos, a levá-los para uma zona lateral onde vemos carros voltados com os seus ocupantes dentro aos quais pegam simplesmente fogo…uma visão de terror nunca antes vivida nesta cidade.
Com o trânsito totalmente bloqueado e sem qualquer hipótese de evitar esta hecatombe combino com o meu irmão não falar aos pais do que acabamos de presenciar, comunicando ao regressar ao carro que se trata de um controle apertado por parte dos militares, mas que o transito vai andando.
Nesta tarde os deuses estavam com esta família. Ao chegar o momento da passagem por esta barreira da loucura, o meu irmão lembra-se de colar ao vidro do carro as suas credenciais de oficial da Força Aérea Portuguesa. Ao verem estas credenciais de um militar português, alguém deste grupo de terror fez milagrosamente sinal para nos deixarem passar.
A passagem por esta barreira deixou marcas profundas na nossa intranquilidade.
Uma vez de regresso a casa na sequência deste episódio e fruto de uma reflectida conversa do pai Nuno com a mãe Leonor, é pela primeira vez abordada a hipótese de deixar Moçambique.
Numa reunião familiar que houve à hora do jantar cá em casa, o pai Nuno afirma solenemente:
-Nestes últimos dias tornou-se evidente que Moçambique conforme o conhecemos está a desaparecer. É chegada a altura de tomar decisões e deixar esta terra que já não é nossa.
A mãe Leonor, com um semblante igualmente carregado, confirma esta decisão.
-E que decisões são estas, pai?…pergunta o meu irmão Rodrigo visivelmente preocupado.
-Pois é, meus filhos!…eu tenho tido algumas conversas sérias com o meu primo do Brasil que já há algum tempo estuda as possibilidades de nos mudarmos para aquele país. Trago na mente o lançamento de uma actividade na área da agricultura/pecuária. Este meu primo está disposto a ajudar e o Brasil é um país cheio de possibilidades. Acho que chegou o tempo de agarrar esta oportunidade.
Neste momento carregado de um tema sério como este, sou assaltado por um conjunto de pensamentos e de discussões tidas aqui em casa um ano antes em torno da estabilidade patética da nossa vida em terras de Moçambique.
Enquanto estas minhas visões que tive lá atrás tomam corpo de forma drástica e incontornável, o meu silêncio junta-se naturalmente a estes meus pensamentos. Não é o momento de retomar discussões dessa natureza. É antes tempo de enfrentar a nova realidade crua e dura que vai a partir daqui afectar os portugueses residentes em Moçambique.
-E quando é que pensam fazer isto? Pergunto eu, desta vez com alguma perplexidade e curiosidade estampada no rosto.
-Eu e a vossa mãe temos um convite para visitar Angola na companhia do meu irmão Vasco que nos recebe por lá. Se a situação política e social se acalmar por aqui e conseguirmos ir a Angola, iremos. Esta decisão de saída de Moçambique implica tomar medidas após o nosso regresso de Angola. Ideias que vamos amadurecer ao longo dos próximos dias em função da evolução da situação por cá.
-Certo!…e quando iriam a Angola?…pergunta desta vez o Rodrigo.
-Se tudo correr bem dentro de uma semana. Quando é que tens marcado o teu regresso a Nacala? Pergunta o pai Nuno ao meu irmão.
-Tenho que lá estar em meados deste mês. Responde o Rodrigo prontamente.
-E sabes quando voltarás a Lourenço Marques?
-Não, pai!…como sabe, a situação que temos lá em cima já não é critica em termos de confrontos militares. Temos no entanto as nossas missões regulares de reconhecimento e reorganização de toda a máquina da FAP no sentido de passagem desta estrutura para as mãos da FRELIMO. Creio no entanto que terei uma licença para cá vir no Natal.
-Muito bem!…e tu Chico o que queres fazer da vida?…pergunta-me curioso o pai Nuno.
-Perante os acontecimentos das últimas semanas estou sem saber o que pensar de tudo isto. Se houver uma possibilidade de ficar em Moçambique, assim farei. Se não houver esta saída, vejo com algum entusiasmo a possibilidade de voltar ao Brasil. Respondo algo perturbado com o clima de inesperadas mudanças da nossa estrutura familiar.
É vez de escutar a mãe Leonor dizer:
-Meu filho!…tu nasceste em Moçambique e sabemos o quanto te sentes filho desta terra. Mas se a situação piorar eu gostava muito que viesses connosco para o Brasil.
Olhando para os meus pais e tendo no pensamento esta alternativa brasileira, paira no meu espírito uma ideia que me agrada. O reencontro com a minha carioca companheira de viagem, que não estava no Rio quando lá estive nesta minha última passagem pela cidade maravilhosa. Confesso que seria uma imensa alegria rever a Rose.
-Vamos ver como tudo isto evolui…respondo. Eu vou tentar a minha vida por cá, mas é cedo para tomar decisões.

Parte 2 – A transição entre dois mundos

Na procura de novos caminhos

Nesta nova era de transformações diárias, as vivências em Lourenço Marques foram sendo palco de convulsões de vária ordem.
Com a tentativa de revolta do 7 de Setembro, que morreu na praia e com o discurso radicalizado dos membros influentes da FRELIMO já instalados em Moçambique, o clima de protesto contra a hegemonia portuguesa no território é a partir de agora uma constante.
O convite por parte dos independentistas para que os portugueses abandonem Moçambique é uma nota comum presente no espírito de todos os que dedicaram a esta terra a sua vida, com o seu esforço pessoal e empresarial, tendo baseado a sua existência na ideia absolutamente aberrante que estariam eternamente em território lusitano.
Excepção feita para aqueles cuja precaução e clarividência permitiu que salvaguardassem o seu património, investindo na vizinha África do Sul e muitos outros em Portugal.

Em conversa com o cineasta Fernando Silva, surgiu a oportunidade de captar alguns momentos de reportagem que retratam as revoltas isoladas, vividas aqui e ali na cidade das acácias.
Hoje acompanhei o Fernando à Av. do Trabalho para captar imagens da destruição sumária de inúmeras unidades fabris e empresas conduzidas por portugueses.
Assim saímos da Sommerschield num Fiat 600,artilhados de máquina de filmar em direção à Av. do Trabalho onde chegámos, após vencidas algumas barreiras controladas por guerrilheiros que vão chegando em número cada vez maior à capital. Muitos deles vindos da Tanzânia que nem português falam. Estas barreiras foram sendo ultrapassadas mostrando as credenciais do Fernando enquanto jornalista.
Ao chegar à Av. do Trabalho o cenário com o qual nos deparamos é no mínimo dantesco. Indiscriminadamente, grupos de vândalos vão apedrejando as vidraças e arrombando os acessos das fábricas numa forma selvagem de protesto. A tensão está no ar.

Vandalismo 3     Vandalismo 1   Vandalismo 2
Sem perder tempo, o Fernando pára a marcha e pede-me para passar ao volante, pois pretende captar estes acontecimentos de elevado valor jornalístico.
A nossa passagem na estrada foi feita de forma gradual a baixa velocidade. Tentando não dar nas vistas, o Fernando encolheu-se no chão do pequeno Fiat captando assim estes momentos de pura folia e raiva no ar.
O momento crítico chega quando um dos grupos compreendeu o que estamos a fazer. Desta vez as pedradas passam a ter um novo objetivo. Nós!
A chuva de pedras e gritos de revolta justifica largamente o que oiço da parte do Fernando, não deixando de captar esta acção com a câmara em riste.
-Chico….acelera!….temos que sair daqui já!
O que faço de imediato. Avançando pela Av. do Trabalho, verificamos que já somos considerados como alvo a abater. Vamos andando enquanto o Fernando vai captando imagens mais rápidas, dado que a nossa marcha pela avenida é agora mais apressada.
A conduzir de cabeça baixa vejo ao longe a estrada barrada por um grupo de militares.
-Fazemos o quê, Fernando? Pergunto carregado de stress.
-Temos que voltar para trás, Chico. Se nos agarram naquela barreira estamos feitos. Responde-me o Fernando de forma determinada.
Sem hesitar e mesmo sabendo que nos vamos meter na boca do lobo, faço um rápido peão na estrada e estamos de novo no circuito do inferno, desta vez em sentido contrário.
-Vou avançar o mais rápido que puder…que a sorte nos acompanhe! Digo ao Fernando!
-Vai, Chico!…gás a fundo!
Esta passagem de uns 2 quilómetros na Av. do Trabalho teve o espectro de um interminável caminho de fogo. As pedradas e os gritos de raiva foram o pior que vivemos neste percurso. O melhor, o facto de estes revoltosos não estarem munidos com armas de fogo. Ganhámos o nosso dia. O nosso destino, mais esta vez, traçou os contornos de mais uma história insólita vivida na 1ª pessoa.

Apesar destes resultados episódicos vividos na capital e aproveitando alguma acalmia no quotidiano, os meus pais entenderam aproveitar o convite do meu tio Vasco para irem visitar Angola, durante um período de 10 dias. Visita esta que incluiria uma estadia em Luanda, uma ida a Cabinda, sendo este roteiro completado no interior e sul de Angola onde fosse possível ir por terra sem comprometer a sua segurança.
Com a partida do meu irmão Rodrigo para o AB5 (Base aérea 5) de Nacala, coube-me a mim a missão de tomar conta da barraca e da Saci Pêrerê que, além de estar com os seus 14 anos de idade, se encontra gravemente doente.
Este período vivido em condições algo invulgares foi assumido por mim com especial sentido de responsabilidade.

Saci PererêQuis o destino que ao fim de uma semana de acompanhamento quase permanente da nossa querida cadela, ela chegasse ao fim de um ciclo de vida. Um acontecimento que vivi só e sem o apoio dos restantes membro do clã. Os meus pais em viagem por Angola e o meu irmão nas regiões longínquas do norte de Moçambique.
Com a ajuda do Ananias, tive a meu cargo uma missão de extrema dureza e carregada de emoção.
Abrir no quintal uma cova de cerca de 1 m de fundo para ali depositar a nossa Saci. So long, my dear!…have a pleasant flight!

Com o regresso dos meus pais a Lourenço Marques após a fabulosa visita a Angola, apesar das circunstâncias político-sociais, foi crescendo em mim uma vontade de viver uma nova vida em Moçambique.
Neste sentido, entendi chegado o momento de soltar amarras de uma estrutura familiar que apresentava sinais de inequívoco desmembramento.
Surgiu no horizonte uma ideia de me deslocar para a margem sul da Baía do Espírito Santo. Para a zona da Catembe onde encontrei uma soberba vivenda para alugar com uma vista para a Baía e a capital do outro lado. Esta vivenda pertence a um engenheiro português que, como tantos outros lusitanos, está a estudar as alternativas para continuar em Moçambique.

Catembe 2   Catembe 3
Nesta passagem para a Catembe, fui acompanhado pelo entusiasmo e companhia de uma velha amiga com quem vivi no passado tantas aventuras em Moçambique e Swazilandia e com quem partilho uma faceta comum. A nossa tendência para as artes plásticas. A Bambina.
Tirando partido de um espaço amplo que esta moradia nos oferece, iniciámos a decoração das paredes com a pintura de murais extravagantes bem ao jeito da nossa criatividade à solta.
Com a minha recente chegada da América Latina, as minhas tendências e visões plásticas retratam bem esta influência. Do seu lado, a Bambina sempre gostou de dar corpo a figuras humanas onde a expressão corporal é uma imagem de marca.
Passados uns dias, a sala desta casa transformara-se num enorme fresco de caráter surrealista. Bem a nossa cara!
E assim se passou o primeiro mês nesta nova moradia permanentemente visitada por amigos e amigas que, atravessando a baía, nos vêm visitar por períodos de alguns dias, sobretudo aos fins de semana. Dias de festa e batucada onde a erva moçambicana e alguns ácidos lisérgicos marcam a sua presença. Uma época de grande musicalidade e criatividade.
No segundo mês dirijo-me à capital para pagar a renda desta casa. 1 500 escudos.
Qual a minha surpresa quando me apercebo que o tal engenheiro também partira de Moçambique não deixando qualquer rastro ou contacto. Rapidamente concluí que o custo desta casa seria a partir deste momento de um custo zero.

Catembe 4   Catembe 6

Com a chegada do final do ano de 1974 e com várias medidas já tomadas pelos pais no sentido de se mudarem para o Brasil, iremos viver o último período de festas de Natal em casa. A chegada do meu irmão para passar esta quadra em Lourenço Marques confirma-se e estaremos por uma última vez reunidos nesta terra que me viu nascer.
Esta é por razões óbvias uma quadra diferente de todas as outras vividas até então nesta nossa existência por terras de Moçambique.
Está igualmente tomada a decisão da minha mãe viajar para Lisboa já no início do novo ano.
Surge entretanto no horizonte uma outra questão que diz respeito a todos os filhos de portugueses como eu, nascidos em território moçambicano.
Quem nasceu nas colónias deve optar por ser português ou, como é o meu caso, nada fazer e ficar com a nacionalidade Moçambicana.
Um prazo é estabelecido pela administração central para cada um tomar a sua decisão quanto a esta matéria.
Confesso que vivo alguma confusão face a esta temática. O tempo vai passando sem que eu tenha formado uma ideia precisa sobre o tema.
Quando a minha mãe se despede de Moçambique em direção a Lisboa, o pai informa-me que dado que eu não não tomei qualquer decisão quanto a esta matéria, ela leva na mala uma certidão de nascimento minha que iria depositar no cartório notarial em Portugal, facto que automaticamente me atribui a nacionalidade portuguesa.
Mais me informou que se pretendesse tomar uma decisão em contrário bastava comunicar a mesma à mãe Leonor que nada faria nesse sentido.
O tempo foi passando e este tema não encontrou uma resposta clara no meu espírito.
Antes de terminado o prazo de opção de nacionalidade e movido por um intangível instinto, pedi à minha mãe que depositasse o tal documento num cartório notarial em Portugal.
Estava a partir deste momento escrito no horizonte que eu, para o bem e para o mal, passaria a ter a nacionalidade portuguesa…vamos em frente…o futuro dirá se esta decisão foi acertada.

No desenvolvimento de tantas transformações, decidi rumar mais a norte de Moçambique numa procura de alguma via sustentável para viver na minha terra natal a caminho da independência, marcada para o dia 25 de Junho deste ano.
Na despedida desta casa na Catembe, resolvi neste próximo fim de semana dar uma mega festa reunindo toda um grupo de colegas e amigos desta tribo tão especial que viu luz neste fabuloso território da África Austral.
De vários quadrantes da capital vieram muitos dos nossos melhores amigos e amigas fiéis ao movimento flower power, uns munidos de iguarias, outros de garrafões de vinho Sovim, que era o vinho possível produzido em Moçambique, ou sangria caseira, outros de Bazucas (cerveja de litro) da Mac-Mahon, outros de Laurentina, e muitos devidamente artilhados de instrumentos musicais e muito naturalmente da maconha da melhor qualidade, onde não faltaram alguns fumos de DP (Durban Poison) em finos sticks muito apreciados na África do Sul, algum ópio para queimar e, como não podia deixar de ser, alguns Preludin e os ácidos caleidoscópicos da 5ª dimensão.
Digamos que tudo estava ao bom jeito de um encontro memorável da comunidade freak de LM (Lourenço Marques).
Pela tarde já a animação era muita com gente espalhada na sala, varanda e jardim da casa.
A batucada concentra-se na sala e estende-se pela noite dentro. Os espíritos estão ao rubro.
Já é noite cerrada quando alguém me avisa.
-Chico!…vamos ter merda!…vem aí uma patrulha da FRELIMO!
-O quê! Respondo totalmente surpreso.
-Não sei, man, mas o melhor é ir lá falar com eles.
Atravessando o espaço da entrada da vivenda, dou de caras com 3 guerrilheiros negros de cara cortada com traços bem típicos dos povos Maconde e mais a norte da Tanzânia, vestidos de camuflado que, de Kalachnikov na mão, me interpelam num inglês macarrónico.
-What the hell is happening here?
Atravessando o éter com as palavras que pude articular perante esta visita surpreendente, respondo.
-Boa noite, camaradas. Esta é uma festa de amigos. We´re just having a little party!
Empurrando-me literalmente, estes guerrilheiros com cara de poucos amigos querem ver com os próprios olhos de onde vem a tal batucada infernal.
Ao entrar na sala e vendo o espetáculo musical ao vivo e a cores que se está a desenvolver e contrariamente ao que se poderia imaginar que seria presumivelmente acabar com a festa dos brancos, tiveram uma reação absolutamente transcendente.
Dois deles poisaram as Kalach e retiraram das mãos de alguns colegas os tam-tams de maior dimensão.
No olhar ensanguentado destes homens está uma expressão que transmite esta mensagem.
-Dá esses batuques. Vamos ensinar estes brancos como se faz!
O que se seguiu nesta sala foi algo de absolutamente extraordinário. Dois guerrilheiros preparados para imprimir um abuso de poder sobre estes estranhos jovens brancos, estragando de imediato a festa, acabam de integrar a batucada numa demonstração sem paralelo. O ambiente da festa subiu para níveis de festão reforçado pela oferta que fizemos a estes homens da bebida e comida ainda disponível cá em casa.
Anos que eu viva, este episódio no mínimo bizarro estará presente na minha memória e na de quantos puderam presenciar este fenómeno.

Em meados de janeiro, resolvi rumar à zona centro de Moçambique na companhia da Isabel, uma velha amiga moçambicana que eu conhecera em Lisboa em 1971 quando lá estive e que reencontrei agora em Moçambique, após o meu regresso da América Latina.
A Isabel é uma bonita jovem portuguesa nascida em Moçambique, filha de um engenheiro agrónomo português com influência no sector da agricultura na província de Moçambique. Senhora de uma baixa estatura, a Isabel faz parte de um clã numeroso instalado no bairro da Sommerschield, em Lourenço Marques.
Em nossa companhia resolveu vir também a nossa amiga Carlinha, menor de idade, franzina e com uns bonitos olhos e cabelo negro que, de forma irreverente e entusiasmada pela vida, resolveu acompanhar-nos mesmo sem a autorização paterna. Vamos a isto…o que vier daqui logo se vê.
A nossa viagem é por estrada até à região centro de Moçambique. 1 200 quilómetros à boleia que teve a primeira paragem na região de Inhambane que sempre atrai os forasteiros de passagem entre LM e Beira (2ª cidade de Moçambique).
Esta região bem agradável é desde sempre denominada pela terra da boa gente dada a receção afável que a população dispensa a quem está de passagem, sendo além disso uma região com grandes manchas de coqueiros e praias paradisíacas de um azul perdido entre o céu e a terra.

Tofo 1   Tofo 2

Tendo em vista tirar algum partido desta região bem agradável, aceitamos uma outra boleia de alguém que nos levaria até a uma praia de exceção denominada de Tofo.
Em regime de acampamento selvagem debaixo de um alpendre circunstancial perto desta praia maravilhosa, aqui passámos uma noite e o dia seguinte usufruindo de uma noite estrelada e de um sol aberto espelhado num mar turquesa.

Tofo 3   Tofo 4
Concluída esta nossa passagem por esta praia encantada, a nossa próxima boleia leva-nos até Vilanculos onde passamos mais uma noite num camping, aproveitando a boleia de alguém que trabalha ali. A sorte parece estar connosco.
Vilanculos é um aldeia integrada na costa de Moçambique, frente ao arquipélago de Bazaruto. Um arquipélago constituído pelas ilhas de Bazaruto, Benguerra, Magaruque, Santa Carolina e Bangue mais a sul, que tive a oportunidade de conhecer anos antes nas rondas de pesca desportiva promovidas pelo pai Nuno quando eu era mais jovem.

Arquipélago Bazaruto 1
O arquipélago de Bazaruto é um fantástico grupo de ilhas no Oceano Índico, localizadas ao longo desta região da costa de Moçambique. As ilhas alongam-se de norte a sul por aproximadamente 55 km, e estão a cerca de uns 15 quilómetros do continente.
A natureza nesta zona costeira do índico é de uma extraordinária riqueza.
O arquipélago do Bazaruto alberga a última população de dugongos das costas africanas do Índico. Quatro espécies de tartarugas vivem igualmente no arquipélago. O tipo específico de macacos habitam nestas ilhas, assim como pequenos antílopes, flamingos, pelicanos, lontras, golfinhos, baleias e crocodilos nos lagos das duas ilhas principais. Existem centenas de espécies de peixes, assim como cerca de 160 espécies de pássaros. O arquipélago encontra-se protegido no quadro de um parque nacional criado pela administração colonial em 1971, que inclui os corais que envolvem as ilhas, tornando-o na única zona marinha protegida de Moçambique.
Em suma, estamos numa das regiões mais paradisíacas deste território austral que tive o prazer de conhecer em vida.

Arquipélago Bazaruto 2   Arquipélago Bazaruto 3
Neste novo dia e depois de deixar esta região de excelência, a nossa próxima etapa é chegar
ao Inhassoro mais a norte. Para alcançar este objetivo, somos prendados por uma circunstancial boleia do próprio dono do camping do Inhassoro onde pudemos pernoitar num fabuloso bangalow com vista para um mar de sonho .

Inhassoro 1   Inhassoro 2   Inhassoro 3
Agradecendo este simpático acolhimento e a oferta de um simpático matabicho, chegou o momento de rumar para o interior do continente. Próximo objetivo. Chegar a Vila Franca do Save, local onde passa o rio Save, um dos rios mais importantes da zona centro de Moçambique, onde chegamos numa boleia circunstancial a bordo de um camião pesado de transporte de madeira.

Vila Franca do Save
Aqui o nosso dia já não correu tão bem e vimos com mau feeling passar a noite neste ermo no complexo e conturbado período que Moçambique atravessa.
Na falta de alternativas que nos levem mais para norte, lá nos abrigamos nas instalações de um cantineiro indiano que simpaticamente nos deixou passar a noite debaixo de um alpendre, abrigados da chuva que começou a cair copiosamente.
Infelizmente este alpendre não nos livrou da invasão de pernilongos que fizeram da nossa pele um verdadeiro manjar quando a chuva parou a meio da noite…Damn!
Mais uma manhã acompanhada de um sol austral que após um matabicho circunstancial nos permitiu continuar viagem. Novo destino. Um cruzamento rodoviário chamado Inchope que indo pelo lado direito nos permite apanhar a estrada para a Beira e para a esquerda a estrada de Vila Pery. Direção esta que pretendemos tomar se houver alguma alma que nos leve até este próximo destino. Verdade seja dita. Viajar à boleia com duas ragazzas torna torna esta missão mais fácil!
Mesmo assim e apesar de um longo período de espera no cruzamento do Inchope, lá conseguimos, já ao fim da tarde, uma boleia circunstancial de um professor da tão conhecida Escola dos Regentes Agrícolas de Vila Pery. Viagem animada pelo facto deste professor conhecer o pai da Isabel.
Uma vez nesta cidade do interior muito frequentada por estudantes da escola agrária, tentamos o contacto com alguém que nos foi indicado por uns amigos em LM.

Vila Pery 1    Vila Pery 2
Agradavelmente acolhidos por este casal, ele de nome Bento e a companheira de nome Caruca, pudemos partilhar uma noite de agradável prosa, acompanhada da queima de uma excelente passa, que nos conduziu até ao merecido sono dos viajantes de longo curso.
Neste novo dia nesta cidade, os contactos sucederam-se e alguns nomes conhecidos vieram ao nosso encontro. Conversas agradáveis tidas com o nosso amigão Paulo Gentil, um jovem igualmente estudante na Escola Agricola, esguio e de pele escura, que do alto da sua inigualável simpatia nos mostrou os encantos de Vila Pery e nos levou ao encontro de outros amigos residentes nesta admirável cidade do interior.

Vila Pery 4  Vila Pery 3
No desenrolar destes encontros, somos brindados com um agradável convite por parte de um amigo do Paulo da escola agrícola, de quem eu já tinha ouvido falar. Um jovem estudante alto e bem constituído de nome João que pertence a um clã bem conhecido da região. A família Moreira de Carvalho, há muito estabelecida numa região chamada Zonué, caracterizada pela região de excelência para a plantação de tabaco. Família esta que conhece igualmente o pai da Isabel dos meandros e atividades agrícolas da província.
Aceitamos deste modo o agradável convite do João para visitar a região do Zonué onde a família vive há muitos anos.
Depois de uma agradável viagem pela estrada de Vila Manica, vamos desta vez através de uma pista que nos leva ao encontro desta região e ao encontro desta tradicional e acolhedora família.
À frente deste clãs da zona de plantio de tabaco estão os irmãos Moreira de Carvalho. Manuel e o Zé, dois moçambicanos de corpo e alma que vivem em duas farms (quintas) distintas…não longe uma da outra, com as respetivas famílias.

Tabaco 1
Do primeiro contacto com estas famílias, ressalta a paixão pela terra, um profundo conhecimento da região e uma africanidade latente que muito apreciei logo de início.
A forma como nos receberam e o laço com o pai da Isabel permitiu-nos uma integração imediata neste contexto.
De tal forma nos entusiasmámos com a região e com as conversas com o clã Moreira de Carvalho, que compreendemos que havia na região algumas propriedades que tinham recentemente sido abandonadas pelos cultivadores face à instabilidade gerada pela nova situação vivida em Moçambique.
Nesta perspectiva e um pouco conduzidos pelo João, resolvemos visitar uma destas farms abandonadas onde resolvemos instalar-nos durante os próximos dias.
Pairava no espírito a ideia de explorar de alguma forma estas estruturas, a fim de podermos tentar a nossa sorte na região.

Tabaco 3   Tabaco 2  Tabaco 4
Estes dias de puro prazer foram desmanchados pela visita de alguns membros próximos da FRELIMO que cedo fizeram chegar a nós a ideia que tínhamos que abandonar o local.
Facto incontornável que nos obrigou a rumar para outras paragens desta magnífica região do interior de Moçambique.

Vila Manica 1  Vila Manica 3   Vila Manica 2
No espírito trazíamos uma ideia. Rumar à zona de Vila Manica mais a oeste para conhecer de perto uma maravilha da qual ouvimos falar em LM e, mais recentemente, após a nossa chegada a esta região.
A quinta da Penha Longa situada numa região encostada à fronteira com a Rodésia.
Esta nossa visita a Vila Manica no dia seguinte teve um episódio inesperado e deveras desagradável. Tendo passado a noite recolhidos junto às instalações da fabulosa piscina recentemente construída pela autarquia nesta pequena cidade do interior e depois de um agradável dia passado nesta piscina muito bem tratada e de grande dimensão, tivemos a visita inesperada de uns europeus com um ar algo suspeito que se apresentaram junto a nós como funcionários da administração central do Estado português.
Num tom algo grave, pediram a nossa identificação seguindo-se da apresentação dos próprios e dos motivos que os levaram a uma abordagem deste tipo.
Foi aqui que compreendemos que a mãe da Carlinha pôs as autoridades de sobreaviso quanto ao desaparecimento da filha menor de sua casa em Lourenço Marques.
Este episódio teve como incontornável consequência o retorno forçado da nossa companheira à capital, acompanhada das autoridades, muito ao estilo da tão conhecida PIDE que nos habituou ao longo dos anos ao seu modus operandi.
Para a nossa Carlinha, esta aventura termina infelizmente aqui.

No sentido de conhecer o tal lugar tão especial junto à fronteira da Rodésia, iremos eu e a Isabel continuar este roteiro por terras do interior da zona centro.
A visita a esta região fronteiriça e, mais especificamente deste lugar de sonho denominado de Penha Longa, corresponde largamente ao prestigio do qual goza esta região.
A quinta da Penha Longa é uma fazenda muito bem cuidada com cursos de água naturais que formam lagoas artificiais, com jardins soberbamente decorados da maior coleção de hortenses e outro tipo de plantas exóticas que alguma vez vimos na nossa vida.

Penha Longa 1
Ao sentir a magia deste lugar, facilmente se compreende o fascínio e dedicação que este cidadão britânico dedicou a este propriedade onde, segundo informações de alguém que se mantém por aqui, face à instabilidade vivida em Moçambique, ele já não vive nestas paragens.
Junto a um curso de água que passa na parte inferior desta magnífica propriedade há uma casota onde se guardam materiais e utensílios de jardinagem.
Aqui resolvemos eu e a Isabel passar a noite, depois de fumar uma bela passa da região simpaticamente deixada pelos nossos amigos de Vila Pery.

Penha Longa 2   Penha Longa 3
O ambiente é simplesmente sublime. Mas sublime não foi seguramente a forma como fomos acordados a meio da noite neste lugar mágico.
Interpelados e acordados de forma agreste por dois guerrilheiros da FRELIMO, esta abordagem do 3º grau desenrola-se da seguinte forma num português que muito deve à língua de Camões.
-O que estás a fazer aqui?…pergunta-me um destes guerrilheiros com cara de poucos amigos, fazendo incidir uma lanterna no meu olhar acabado de sair abruptamente do limbo.
Sem grande arte ou capacidade de resposta, apenas digo.
-Estamos aqui de passagem para visitar este lugar, camarada.
-Visitar?…pergunta o outro de forma agreste.
Antes que eu pudesse continuar, o primeiro volta ao ataque.
-Esta é seu mulher?
Ao que respondo.
-Não camarada, esta é minha amiga!
-Amiga!….e estás aqui sozinho com ela na escuro?
Continuando em tom agreste e virando-se agora para a Isabel, este mesmo guerrilheiro pergunta.
-E esse aqui é teu marido?…hein?
A Isabel, saída de um sono tranquilo e com pouco para dizer, responde apenas.
-Não!…não é meu marido!…é apenas meu amigo!
Já visivelmente irritado este camarada sai-se com esta fantástica frase que nos deixa mudos.
-Ah!…já percebi!…então se esta não é tua mulher!…e se você não és o marido de ela…isto significa que ela pode vir comigo também.
Na falta óbvia de resposta a uma questão tão despida de sentido e colocada nestes termos, somos novamente bombardeados com uma frase.

Frelimo 3  Frelimo 7
Então vamos esclarecer isto com o chefe. Vamos pro Comité. Arruma suas saco e vamos!
Num misto de camuflada indignação e numa vã tentativa de esclarecer a situação, sou brindado com um cano de Kalachnikov que não deixa qualquer dúvida. O índice da conversa abre portas ao imprevisto e dado que o valor da vida humana para estes guerrilheiros é relativo, não nos resta outra alternativa senão recolher as nossos pertences e acompanhar estes homens montanha abaixo por caminhos de terra batida a meio da noite.
Ainda murmuramos entre nós.
-Para onde nos levam estes cabrões? Pergunto entre dentes à Isabel
-A esta minha companheira de infortúnio apenas lhe ocorre encolher os ombros e dizer em voz baixa.
-O melhor é não atiçar mais os gajos. Vamos ver o que vai acontecer.
O que aconteceu foi totalmente inesperado. Iniciamos uma caminhada com este tipo de escolta numa marcha a caminho de sabe-se lá onde.
O sol nasceu e a nossa caminhada continua. Em silêncio. Só os nossos passos produzem som e a presença do nosso cansaço que começa a fazer seriamente sentir.
Quis a providência que ao fim de alguns 10 quilómetros passasse um jeep Toyota de caixa aberta que nos levou por mais uns bons 20 km até ao Comité em Vila Manica.

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Depois de devidamente identificados e de levar uma boa reprimenda, somos finalmente deixados na estrada de regresso a Vila Pery, sob advertência de não sermos mais vistos na região….sob risco de ir no machamba fazer o descolonização mental.
O regresso na estrada nacional para Vila Pery levou-nos a seguir caminho numa carrinha de caixa aberta que se dirigia à cidade da Beira.
Achámos que era uma excelente oportunidade de sair daquela região com mau augúrio.
E assim seguimos em direcção à Beira num longo percurso onde as barreiras rodoviárias montadas pela FRELIMO são mais que muitas e onde em cada uma é necessário mostrar a identificação.
Moçambique!…quem te viu e quem te vê….pensei.
Olhando para a Isabel e com o meu ar de alguma decepção por abandonar esta fabulosa região deste jeito, lhe digo.
-E agora, miúda?
-Olha, agora vamos até à Beira. O que me está a chatear é que nem uma passa podemos fumar aqui dentro desta carroça.
– Mas fica para queimar mais tarde. Respondo com uma relativa conformação.
-Na Beira não temos que nos preocupar. Aquela terra tem uma passa de eleição.
-És mesmo incorrigível!…respondo eu sem no entanto rematar com outra frase…deixa lá!….eu também sou!….sorrisos de cumplicidade trocados e vamos em frente.

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A nossa chegada à Beira dá-se ao fim da tarde, sendo a nossa próxima preocupação o lugar onde iremos pernoitar e o que iremos comer com as poucas economias que trouxemos de LM.
-Vamos até aquele restaurante da praia dos Pinheiros?….já não me lembro do nome!….pergunto à minha companheira de viagem.
-Yeah!….parece-me bem!….sempre há-de aparecer alguém que nos dê guarida.
Ao chegar a este ponto de encontro da família freak beirense, o que era expectável aconteceu. Lá estavam alguns habitués que conhecemos de vista e outros de quem ouvimos falar em conversas no seio da tribo.
A nossa conversa foi bem simpática com alguns dos presentes, entrando nos nossos ouvidos o que nós desejaríamos ouvir. Um deles com um nome de guerra Beatas, exímio tocador de flauta, convida-nos para ficar em casa dele. Excelente ideia que aceitámos sem hesitação.

Beira 2  Beira 5

Estamos no início do mês de Fevereiro de 1975.
A cidade da Beira será um próximo horizonte para sentir o que fazer da nossa vida num roteiro cujo principal objetivo é procurar uma saída sustentável para continuar o nosso percurso de vida em Moçambique.
Instalados confortavelmente em casa do Beatas, estes dias de sol e praia sucedem-se na cidade da Beira, tendo nós entretanto alargado o leque de contactos com as tribos locais.
Neste ambiente de algumas saídas por aqui e ali, tivemos hoje mais um episódio que ficará gravado na nossa memória por muitos e longos anos.
Este inicio de tarde na praia da Ponta Geia, estamos em grupo sentados num murete que dá para a praia. Seremos uns 8 entre boys and girls.
A acompanhar-nos anda um cão da rua ao qual simpaticamente chamamos de camarada.
Sem darmos por isso e, ao chamar este nosso amigo de quatro patas por este nome, somos interpelados por uma patrulha da FRELIMO que vai a passar.
De forma agreste, estes guerrilheiros colocando as Kalachnikov em riste abordam o nosso grupo gritando.
-Está chamar cão de camarada?
Totalmente surpresos por esta inesperada atitude, um de nós responde.
-Camaradas…isto é só brincadeira.
-Brincadeira?…chamar cão de camarada!
De forma bem determinada, este grupo tem neste momento duas Kalach bem apontadas ao nariz com ordem de se porem todos de imediato em pé.
Um destes guerrilheiros com ar de poucos amigos grita!
-Vamos pro Comité!….todos!….vamos!
O caminho para o dito Comité foi feito em silêncio e sem direito a perguntas ou pedido de esclarecimentos.
Uma vez nas instalações do dito Comité perto da praça da Índia, fazem-nos entrar numa sala ampla onde, sob vigilância, nem nos é dado o direito de conversar.

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Apenas sabemos que seremos apresentados ao membro mais graduado desta unidade da FRELIMO. O comandante Cara Alegre que se encontra ausente e que pode aparecer a qualquer momento.
Mas este momento intemporal durou umas boas duas horas de espera sem direito a conversa ou a um simples copo de água. O novo Moçambique no seu melhor.
Com a chegada do comandante e da explanação que lhe foi feita para justificar a presença forçada de 8 jovens brancos na sua unidade, este retirou-se no seu gabinete por mais uma boa e desesperante meia hora.
Ao abrir-se a porta do seu gabinete ouvimos uma voz determinada dizer:
-Chama os branco! E vocês dois também ficam aqui!
Segue-se a nossa convocação e entrada no gabinete do comandante que, do alto da sua faustosa poltrona, tira este fantástico discurso do seu fértil pensamento.
-Bom, eu estive a refletir sobre a detenção que foi feita pelos dois camaradas esta tarde e quero dizer a todos o seguinte:
Ninguém no grupo se pronunciou, sendo a expectativa grande. O comandante prossegue.
-Naquele tempo, tem um navegador português que se chama Diogo Cão. Então vamos lá ver como é. Se homem tem nome de cão….cão tem nome de homem!…está certo!…solta os branco.
Estupefactos, este dois guerrilheiros a quem o chão acaba de fugir debaixo dos pés, ainda balbuciam.
-Mas camarada comandante!…permita-nos!
-Eu já disse!….solta os branco.

E nesta cidade da Beira a vida prossegue o seu caminho…vamos em frente!

11 comentários

11 thoughts on “O regresso à savana

  1. Teresa

    Apesar de ter sido um dos piores momentos da historia da independência de Moçambique, gostei de ter recordado essa fase, tão bem descrita por ti! Foi esse o clima, sem duvida!!
    Ja’ tinha saudades destes voos do condor! Bem vindo de regresso!
    Abraço,
    tt

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    • Oi miga!
      Regresso com especial prazer a este convívio que mudou de posições geográficas. Eu atravessei o atlântico para narrar esta minha caminhada a partir da América latina que atravessou igualmente o atlântico para nos trazer à memória tempos vividos com especial intensidade na nossa terra-mãe.
      Vamos em frente que ainda há mais peripécias para contar.
      Forte abraço!

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  2. Isto continua a dar muito gozo de acompanhar.
    Beijo Chico
    Beli.

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  3. Maria Teresa.Barbosa.

    Ao pisarem terra Moçambicana e,encontro com familiares ,foi descrito com tanto sentimento de ternura que nos sentimos envolvidos nessa cena familiar
    Os dias tumultuosos que se seguiram ao 14 de Agosto,dão-nos bem a imagem da vida insegura que tantos familiares e amigos atravessaram .Vejo que está bem presente todo o quadro dantesco desses dias inesquecíveis .
    Como sempre nota vinte por mais este belíssimo capítulo da grande aventura da sua vida.Beijinho amigo .

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  4. Manuel Ribeiro Arthur

    Muito legal Chico,Parabéns pelas palavras,descrito que parece que a gente retorna no tempo deste episódio,abraço

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    • Viva Manuel,
      Tempos agitados estes que invariavelmente vivemos nesta terra que no viu crescer.
      Convulsões sociais de um periodo agitado onde os caminhos de nós todos estavam traçados por um novo destino.
      Há mais companheiro!…a estrada continua.
      Aquele abraço!

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  5. Carla Rodrigues

    Estava nessa tua festa, grávida, e lembro bem o susto que levámos quando os “ditos soldados” entraram !!! Mas fazes-nos reviver com grande clareza essa época… gostei muito Chico.

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  6. Chico que bom relembrar o Zónué, era o melhor sítio para viajar…….
    Há uma pequena correção, os manos do clã era o meu pai Manuel e o pai da Pussy o tio José só isso de resto está lá tudo.
    Beijoooooooo e mais uma vez obrigada com as tuas palavras faço os filmes é fantástico.

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  7. Sabes Bli?…quando escrevi sobre o Zonué ao relembrar o nome do teu pai não tive dúvidas mas quando fui consultar a memória para trazer o teu tio para a história…pensei três vezes…hesitei…e depois disse à minha memória….sem problema…a Pussy virá dizer-me se é assim ou não…tu tomaste a dianteira…vou tratar de corrigir esse lapso.
    Grato pelo teu entusiasmo e companhia nesta caminhada atrás do tempo…outras aventuras africanas se seguirão…grande abraço miga

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